I. AGEU (O livro de). — I. Ageu e sua missão. II. Sua profecia. III. Comentários.
I. AGEU E SUA MISSÃO. — Ageu (hebraico: Haggai; Septuaginta: ’Ayyaios; Vulgata: Aggæus), cujo nome poderia traduzir-se em latim por festivus ou, talvez melhor, por peregrinus, é um dos doze profetas menores. Sabe-se com certeza muito pouco sobre a história de sua vida. Segundo alguns, teria nascido na Judeia, antes do exílio, e teria visto com os seus próprios olhos o templo de Salomão; segundo outros, nasceu um pouco mais tarde na Caldeia, de onde veio a Jerusalém em companhia de Zorobabel. Alguns autores acreditam que Ageu fez parte da grande sinagoga e que morreu em idade muito avançada, após a conclusão do segundo Templo. Teria sido sepultado com grandes honras no lugar reservado ao sepultamento dos sacerdotes. Todas essas conjecturas baseiam-se unicamente em tradições cujo valor é contestável.
O que o texto bíblico nos ensina de certo é que Ageu profetizou em Jerusalém e que os oráculos, dos quais seu livro se compõe, ocorreram em um espaço de cerca de quatro meses. Eis as circunstâncias: dezesseis anos haviam se passado desde o retorno do exílio e mal tinham os judeus regressados da Babilônia levantado o altar dos holocaustos e lançado os alicerces do novo Templo. Os entraves dos samaritanos não eram a única causa dessa lentidão; havia ainda a indiferença religiosa. As coisas estavam nesse estado quando, no segundo ano de Dario, filho de Histaspes (520), os profetas Ageu e Zacarias levantaram-se para fazer ouvir a Zorobabel, ao sumo sacerdote Josué e ao povo, palavras de repreensão e de encorajamento. I Esdr., IV, 24-V, 3º A reconstrução do Templo: tal foi o objeto da missão de Ageu.
Essa missão tinha um alcance considerável. O Templo era para os judeus, sobretudo após o exílio, o centro da vida religiosa e nacional. Enquanto não fosse reconstruído, não se poderia cogitar seriamente em reconstituir o culto e a cidade. O verdadeiro caráter, bem como o futuro da restauração empreendida por Zorobabel, dependiam, portanto, do zelo e da celeridade que o povo empregaria ao levantar das ruínas o único edifício onde seria permitido sacrificar a Jeová.
II. PROFECIA DE AGEU. — A profecia de Ageu divide-se naturalmente em quatro oráculos distintos, pronunciados em épocas muito próximas umas das outras.
1º No segundo ano de Dario, no primeiro dia do sexto mês (Elul = agosto-setembro), Ageu adjura publicamente Zorobabel e Josué a não tardar mais em prosseguir com diligência a reconstrução do Templo. Que não se alegue a falta de recursos, pois estes nunca faltam quando se trata de erguer casas lambrisadas. Somente o santuário de Deus permaneceria em ruínas? A seca e a escassez são um justo castigo pela indiferença do povo. No vigésimo quarto dia do sexto mês, os trabalhos recomeçam sob a direção de Zorobabel, I, 1; 7, 2º 2º No vigésimo primeiro dia do sétimo mês (Tisri = setembro-outubro), no sétimo dia da solenidade das Tendas, novo oráculo; são palavras de encorajamento, especialmente endereçadas àqueles que, tendo visto o Templo de Salomão, não podem hoje considerar, sem chorar, as dimensões mesquinhas daquele que se reconstrói. Que saibam que a glória futura do Templo será bem superior à de outrora. O novo santuário não desaparecerá antes de ter visto realizar-se a promessa messiânica; de todos os pontos do mundo, os povos trarão um dia o tributo de seus presentes, II, 2-11º 3º No vigésimo quarto dia do nono mês (Kislev = novembro-dezembro), o profeta coloca aos sacerdotes duas questões sobre a pureza e a impureza legais, para ter a oportunidade de advertir o povo de que, enquanto o Templo não for reconstruído, Deus os tratará como pessoas impuras. Que se recordem dos flagelos dos quais, ainda recentemente, sofreram os frutos da terra. O dia está próximo em que Deus espalhará suas bênçãos, II, 11-20º 4º No mesmo dia, Deus declara solenemente que, no tempo em que, fazendo justiça ao mundo inteiro, derrubará os tronos e quebrará a força dos poderosos, cf. II, 7, 8, seus olhares pousarão com complacência sobre Zorobabel, de quem cuidará como um senhor faz com seu próprio selo, II, 21-24º Este último traço deve ser aproximado de I Par., III, 17, e Jer., XXII, 24º Sem ter o brilho de Isaías, a energia de Amós e de Joel, o estilo de Ageu não carece de pureza, nem mesmo de uma certa elegância. Sua prosa é entrecortada, em alguns lugares, por esse paralelismo rítmico um pouco frouxo, do qual os profetas gostam de se servir. Algumas repetições, como esta: ponite corda vestra super vias vestras, I, 5, 7; II, 16, 19, denunciam uma língua bastante pobre, se é que não são efeito de artifício oratório. Mas não se deve exagerar o alcance dessa apreciação literária, feita sobre um trecho de tão pequena extensão. É inútil deter-se a estabelecer a autenticidade e a canonicidade da profecia de Ageu, que nunca foram seriamente contestadas. Encontram-se, aliás, testemunhos explícitos na própria Bíblia. I Esdr., V, 1; VI, 14; Eclo., XLIX, 13; cf. Ag., I, 14; Hebr., XII, 26; cf. Ag., II, 7º O texto e as versões não pedem qualquer observação especial.
III. COMENTÁRIOS. — S. Jerônimo, P. L., t. XXV, col. 1387-1416; Teodoro de Mopsuéstia, P. G., t. LXVI, col. 474-494; Teodoreto de Ciro, P. G., t. LXXXI, col. 1860-1874; S. Cirilo de Alexandria, P. G., t. LXXI, col. 1021-1063; Haimão de Halberstadt, P. L., t. CXVII, col. 211-221; Ruperto, P. L., t. CLXVIII, col. 683-700; Alberto Magno. — Todos os escolásticos do Renascimento que deram um comentário contínuo aos profetas menores. Ribera, S. J. († 1591), e Sanctius, S. J. († 1628), merecem uma menção especial. Tinham sido precedidos por Eckius, Comment. super Haggeum prophet., Seligenstadt, 1538; L. Reinke, Der prophet Haggai, in-8°, Munster, 1868; Knabenbauer, In proph. min., t. II, p. 174-210 (1886); Trochon, Les petits Prophètes, p. 373-391 (1895); Van Hoonacker, Les douze petits prophètes, 1908, p. 538-576. Rosenmüller, Schol. in V. T., t. VII, p. 92, enumera os comentários protestantes publicados de 1550 a 1822. Convém acrescentar Köhler, Die Weissagung Haggai’s, Erlangen, 1860; Pusey, Comment. on the minor Prophets, Oxford, 1889, in-4°; Perowne, Haggai and Zechariah, in-12, 1888; Tony André, Le prophète Aggée, 1895.
Autor original: A. Durand
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