AGONIA DE CRISTO. Interpretação e consequências teológicas do relato.
I. INTERPRETAÇÃO. — 1º Aparição do anjo. — A maneira como se expressa o texto grego deixa entender que Jesus viu realmente um anjo e, por conseguinte, que este havia revestido uma forma visível. Ele fortaleceu a humanidade do Salvador: sua alma, para que suportasse a tristeza pela qual estava oprimida, e também seu corpo, que experimentava os efeitos dessa imensa dor. Jesus não necessitava desse socorro e nada poderia aprender do anjo. Por isso, alguns Padres acreditaram que este anjo viera prestar homenagem à sua força de alma, em vez de fortalecê-lo. Contudo, a maioria estima que ele o fortaleceu verdadeiramente, sugerindo-lhe os pensamentos próprios para suavizar sua tristeza e reconfortar a parte inferior de sua alma. Ver Suarez, In IIIam partem, q. XI, a. 4, comment., n. 2, que, embora subscrevendo esse sentimento, acredita que o Salvador não deixou que esse adocicamento penetrasse em sua alma, visto que o texto sagrado o representa caindo em agonia logo após a aparição do anjo.
2º Agonia. — Este termo ἀγωνία não se encontra em outras passagens da Sagrada Escritura. Designava, entre os escritores profanos, as lutas dos exercícios ginásticos ou, ainda, a emoção e a angústia dos lutadores antes do combate, ou, em geral, as agitações violentas da alma. Em São Lucas, exprime a angústia experimentada por Jesus na apreensão de sua paixão. Schleussner, Novum Lexicon in Novum Testamentum, Leipzig, 1801, vo Agonia. Traduz, portanto, a mesma tristeza que Jesus dava a conhecer aos seus apóstolos, antes da oração, quando lhes dizia, segundo São Mateus, xxvi, 37, e São Marcos, xiv, 34: "Minha alma está triste até a morte". Apenas esta tristeza parece ter-se transformado em uma dor ainda maior depois que Jesus formulou sua aceitação de todos os sofrimentos que deveria suportar, assim como São Lucas relata, xxii, 42: Pater si vis, transfer calicem istum a me; verumtamen non mea voluntas sed tua fiat. São Mateus e São Marcos haviam falado da tristeza que ele experimentava já antes dessa aceitação; São Lucas designa sob o nome de agonia a angústia que ele experimentou após ter se submetido a beber o cálice. Deixa entender que essa angústia foi então maior que anteriormente, não somente pelo nome de agonia que lhe dá, mas ainda pela observação que faz de que, nessa agonia, Jesus rezou mais instantemente: o que supõe que sua tristeza era mais viva que no início de sua oração. Temos, aliás, indícios da imensidade de sua angústia na intervenção do anjo que veio fortalecê-lo e no suor de sangue que foi o efeito dessa terrível agonia. A intensidade da dor interior do Salvador explica-se, segundo São Tomás, Sum. theol., IIIa, q. XIV, a. 6, por várias razões: 1º em razão da causa dessa dor: essa causa foi primeiramente o peso de todos os pecados pelos quais ele satisfez com seus sofrimentos; foi depois, em particular, a culpa dos judeus e dos outros homens que contribuíram para seus tormentos e sua morte, sobretudo de seus discípulos que se escandalizaram com sua paixão; foi também a perda da vida do corpo, da qual a natureza tem horror; 2º em razão da delicadeza de sua alma, feita para sentir muito vivamente todas as penas; 3º em razão da pureza de sua dor, que ele quis suportar inteiramente, sem que fosse diminuída por nenhuma das considerações que suavizam nossos sofrimentos e distraem nossa atenção; 4º em razão da maneira absolutamente voluntária com que Jesus aceitou essa dor, em toda a sua imensidade, tal como deveria ser para responder ao seu fruto, isto é, à nossa redenção do pecado.
3º Suor de sangue. — Teofilato, arcebispo da Bulgária, In Luc., xxii, 44, P. G., t. CXXIII, col. 4081, diz que o evangelista, ao falar de um suor de sangue, como se fala de lágrimas de sangue, quis simplesmente dizer que Jesus havia transpirado abundantemente. Eutímio Zigabeno, In Matth., xxvi, 44, P. G., t. CXXIX, col. 685, pretende também que não se trata aqui de um suor de sangue, nem mesmo de um suor vermelho, mas apenas de um suor comparável ao sangue por sua espessura. Alguns católicos e um número considerável de protestantes (cf. Fillion, Essais d’exégèse, Paris, 1884, p. 119, reprodução de um artigo publicado sob o pseudônimo de Faivre, em La controverse, 1881, p. 203) seguiram esta interpretação. Apoiam-se na expressão ὡσεὶ, como gotas de sangue, empregada pelo evangelista: expressão que indicaria, segundo eles, uma simples comparação. Mas as palavras ὡς, ὡσεὶ marcam também o caráter real das pessoas ou das coisas às quais se aplicam. Pode-se ver isso em São Mateus, xxi, 26, em São João, i, 14, e mais especialmente em São Lucas, xv, 19; xvi, 1; Act., i, 3º Tal é o sentido da palavra ὡσεὶ na passagem que nos ocupa; pois uma comparação do suor com o sangue por causa de sua espessura ou de sua abundância seria algo inaudito e não vem à imaginação de ninguém. A maneira como fala São Lucas: Seu suor tornou-se, ἐγένετο, como gotas ou coágulos, θρόμβοι, de sangue, αἵματος, faz pensar a todo leitor que esse suor tomou a cor vermelha e até mesmo a natureza do sangue. É, portanto, esse o sentido natural do texto. Aliás, se o evangelista tivesse querido fazer uma simples comparação, teria dito no nominativo singular que esse suor escorria sobre a terra, decurrens; mas ele se serve, segundo a Vulgata, do genitivo decurrentis in terram, que se refere ao sangue, sanguinis, e segundo o grego, do nominativo plural, καταβαίνοντες, que se refere às gotas de sangue, θρόμβοι. É uma nova prova de que o suor de Cristo que escorria até a terra estava ao menos misturado com sangue. Assim, foi desta forma que quase todos os santos Padres e os exegetas entenderam esta passagem. — Alguns atribuíram este suor sangrento a uma causa miraculosa, mas a maioria viu nele um efeito natural da angústia tão cruel que o Salvador sentia. O artigo que segue mostrará que este sentimento se coaduna em todos os pontos com os dados da ciência moderna.
II. CONSEQUÊNCIAS TEOLÓGICAS. — Do fato de Jesus ter sido fortalecido por um anjo e de ter sido oprimido por tristeza a ponto de suar sangue, derivam-se duas consequências teológicas principais, uma dogmática, outra moral.
1º Consequência dogmática. — Jesus assumiu a natureza humana, inferior à natureza do anjo pelo qual é fortalecido, submetida ao sofrimento e às enfermidades, e composta de um corpo passível e verdadeiro, uma vez que seu suor sangrento espalha-se sobre a terra. Esta consequência foi posta em luz pelos santos Padres para estabelecer a realidade da encarnação, em particular por Santo Irineu, Contra hær., l. III, c. xxii, P. G., t. VII, col. 957; Santo Hilário, De Trinitate, l. X, n. 41, P. L., t. X, col. 375; Santo Epifânio, Ancoratus, c. xxxviii, P. G., t. XLIII, col. 84º 2º Consequência moral. — A moral estoica nega a dor; faz consistir a coragem em não sentir sofrimento e em bastar-se a si mesmo. Partindo desta concepção de virtude e de coragem, censurou-se Jesus por ter tremido diante da morte. Esta acusação, já formulada por Celso, cf. Orígenes, Contra Cels., I, n. 24, P. G., t. XI, col. 840, foi repetida até nossos dias. Mas não há covardia alguma em temer a dor e a morte; haveria apenas em tentar subtrair-se a elas quando se deve suportá-las. Ora, Jesus, longe de fugir e subtrair-se ao ataque dos judeus e aos sofrimentos, aceita, pelo contrário, o cálice que lhe é reservado; espera Judas e sua tropa para entregar-se a eles. Mas isso não o impede de permitir que um anjo o reconforte e de experimentar cruéis angústias.
Ele coloca assim diante de nossos olhos, em sua pessoa, o ideal da virtude cristã, muito mais acessível à imitação de todos do que o ideal do estoicismo, e muito menos contrário aos sentimentos naturais do homem. É um ideal onde a humildade, tal como o conhecimento da fraqueza humana e o sofrimento, possuem o seu lugar ao lado da fortaleza de ânimo. Ele não obriga aquele que está prestes a sofrer grandes torturas a encerrar-se em si mesmo para rejeitar toda consolação e todo socorro exterior, nem a tratar a dor como uma palavra vã. Jesus, ao contrário, teme os males que aceita, reza ao seu Pai, convida seus discípulos a rezarem com Ele, e deixa-se humildemente fortalecer pelo anjo que lhe aparece. Estas orações, esta humildade, este sentimento da dor não diminuem de modo algum o valor de sua coragem; são provas da veracidade de sua fortaleza de ânimo e da sinceridade de todas as suas palavras.
S. Thomas, Summ. theol., IIIª, q. XLVI, a. 4, ad 1um; Suarez, In tertiam partem, in hunc locum et disp. XXXIV, sect. II, Opera, Paris, 1872, t. XVI, p. 76; t. XIX, p. 542 sq.; dom Calmet, Dissertation sur la sueur de sang, dans Dissertations qui peuvent servir de Prolégomènes à l’Écriture Sainte, Paris, 1720, t. III, p. 612-625; Faivre, La sueur de sang, Paris, 1881, in-12; Knabenbauer, Evangelium secundum Lucam, Paris, 1896, t. I, p. 190-210, et dans les commentaires sur saint Luc, 1884, p. 101-127.
Autor original: A. Vacant
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