AGATÃO (CARTAS DOGMÁTICAS DE SANTO)

São Domingos

As coleções dos atos do sexto concílio ecumênico (terceiro de Constantinopla, 680) conservaram duas cartas dogmáticas de São Agatão, dirigidas contra a heresia monotelita. Ambas são endereçadas ao imperador Constantino Pogonato. Este príncipe escrevera, no final do ano 678, ao Papa Dono para solicitar o envio a Constantinopla de alguns delegados, visando chegar a um acordo a respeito das expressões de uma ou de duas vontades em Cristo e, finalmente, impor um termo às discussões que semeavam a divisão entre Roma e o Oriente. Foi o sucessor de Dono, São Agatão, quem recebeu esta carta. Antes de responder, desejou que o Ocidente proclamasse sua fé nas duas vontades, e foi para esse fim que, em diversos lugares, se reuniram concílios, cujo principal foi o de Roma, onde 125 bispos se encontraram agrupados em torno de Agatão. Foi ao final deste concílio, por volta da metade do ano 680, que partiram para Constantinopla os dois sacerdotes legados do Papa, acompanhados por três bispos representantes do concílio de Roma e por três outros deputados. Eles eram portadores das duas cartas dogmáticas de São Agatão. A primeira emana do Papa apenas; expõe longamente e fixa de maneira definitiva a doutrina católica das duas vontades: divina e humana, em Nosso Senhor. Contém, ademais, uma passagem que se tornou célebre pela solene afirmação nela contida do princípio da infalibilidade pontifícia e pelo desafio lançado aos heréticos de jamais provarem que a Igreja de Pedro desviou-se do trilho da tradição apostólica ou sucumbiu diante das novidades heréticas. Damos esta passagem, que extrai seu principal interesse da época em que foi escrita: apenas quarenta anos após a morte do Papa Honório (ver este termo) e na véspera do sexto concílio, onde foi lida e aceita sem reclamação, embora este mesmo concílio tenha condenado, posteriormente, Honório. A segunda carta é redigida em nome do Papa e dos 125 bispos do concílio de Roma. Ela é muito mais curta que a primeira, e a doutrina católica do monotelismo encontra-se ali condensada em um símbolo, do qual reproduzimos igualmente a passagem capital.

I. CARTA DE SÃO AGATÃO. Extrato sobre a infalibilidade do pontífice romano.

Haec est (doctrina sc. duarum voluntatum in Christo) apostolica atque evangelica traditio quam tenet spiritalis vestri felicissimi imperii mater apostolica Christi Ecclesia. Haec est christianae religionis vera atque immaculata professio, quam non humana adinvenit versutia, sed Spiritus Sanctus per apostolorum principes docuit. Haec est firma et irreprehensibilis sanctorum apostolorum doctrina... quam beatus Petrus apostolus tradidit, non ut sub modio condatur, sed tuba clarius in toto orbe praedicetur : quia ejus vera confessio a Patre de coelis est revelata, pro qua a Domino omnium beatus esse pronuntiatus est Petrus : qui et spiritales oves Ecclesiae ab ipso redemptore omnium terna commendatione pascendas suscepit... Haec est verae fidei regula, quam et in prosperis et in adversis vivaciter tenuit ac defendit haec spiritalis mater vestri tranquillissimi imperii, apostolica Christi Ecclesia : quae per Dei omnipotentis gratiam a tramite apostolice traditionis nunquam errasse probabitur, nec haereticis novitatibus depravata succubuit : sed ut ab exordio fidei christianae percepit ab auctoribus suis apostolorum Christi principibus, illibata fine tenus permanet, secundum ipsius Domini Salvatoris divinam pollicitationem, quam suorum discipulorum principi in sacris Evangeliis fatus est : Petre, Petre, inquiens, ecce Satan expetivit ut cribraret vos, sicut qui cribrat triticum : ego autem pro te rogavi, ut non deficiat fides tua. Et tu aliquando conversus, confirma fratres tuos. Consideret itaque vestra tranquilla clementia...

AGATÃO (CARTAS DOGMÁTICAS DE SÃO)

« O Senhor e Salvador de todos, de quem é a fé, aquele que prometeu que a fé de Pedro não desfaleceria, advertiu-o de confirmar os seus irmãos; que os pontífices apostólicos, predecessores da minha pequenez, o fizeram confiantemente, é do conhecimento de todos... Ai de mim, se eu negligenciar pregar a verdade do meu Senhor, que eles pregaram sinceramente. Ai de mim, se eu silenciar a verdade que recebi a ordem de distribuir aos cambistas, isto é, instruir e ensinar o povo cristão... De onde também os meus predecessores de memória apostólica, instruídos nas doutrinas dominicais, desde que os prelados da igreja de Constantinopla tentaram introduzir novidades heréticas na imaculada Igreja de Cristo, nunca deixaram de exortá-los e, suplicando, admoestá-los para que desistissem, ao menos pelo silêncio, do erro herético de dogma perverso, para não fazerem disso o princípio de uma dissidência na unidade da Igreja, afirmando uma vontade e uma operação das duas naturezas em um só Senhor nosso Jesus Cristo. » (Hardouin, Acta conciliorum, t. III, col. 1079-1083).

O Salvador, quando falou no Santo Evangelho ao chefe dos seus discípulos: "Pedro, Pedro, eis que Satanás pediu para vos peneirar a todos como o trigo; mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça. E tu, por tua vez, confirma os teus irmãos". Considerai, pois, príncipe clementíssimo, que o Senhor e Salvador de todos, de quem vem a fé, tendo prometido que a fé de Pedro não desfaleceria, advertiu-o de confirmar os seus irmãos. Também, como todos sabem, os pontífices apostólicos, predecessores da minha pequenez, nunca deixaram de cumprir esse dever... Ai de mim, se eu negligenciar pregar a verdade do meu Senhor, que eles pregaram sinceramente! Ai de mim, se eu sepultar no silêncio o tesouro que recebi a missão de distribuir àqueles que o farão frutificar, isto é, esta verdade que, pelos meus ensinamentos, devo fazer penetrar profundamente nas almas dos cristãos... E é por isso que, desde as primeiras tentativas dos patriarcas de Constantinopla para introduzir na Igreja imaculada de Cristo novidades heréticas, os meus predecessores, de memória apostólica, fortes nos ensinamentos do próprio Senhor, não pouparam nem exortações, nem advertências, nem orações para levá-los a renunciar à sua doutrina herética, ou pelo menos a guardar silêncio. Esperavam, por este meio, sufocar o germe das divisões com que esses patriarcas ameaçavam a Igreja, ao admitirem apenas uma vontade e uma operação para as duas naturezas na pessoa única de Nosso Senhor Jesus Cristo.

II. CARTA CONCILIAR DE SÃO AGATÃO E DOS CENTO E VINTE E CINCO BISPOS. Extrato sobre as duas vontades em Jesus Cristo.

« Hæc est perfecta nostra scientia, ut terminos catholicæ atque apostolicæ fidei, quos usque adhuc apostolica sedes nobiscum et tenet et tradit, tota mentis custodia conservemus... Unum quippe eumdemque Dominum nostrum Jesum Christum Filium Dei unigenitum, ex duabus et in duabus substantiis inconfuse, incommutabiliter, indivise, inseparabiliter subsistere cognoscimus; nusquam sublata differentia naturarum propter unitionem, sed potius salva proprietate utriusque naturæ, et in unam personam, unamque subsistentiam concurrente: non in dualitatem personarum dispertitum vel diversum, neque in unam compositam naturam confusum: sed unum eumdemque Filium unigenitum, Deum Verbum Dominum nostrum Jesum Christum: neque alium in alio, neque alium et alium, sed eumdem ipsum in duabus naturis, id est, in deitate et humanitate, et post subsistentialem adunationem cognoscimus: quia neque Verbum in carnis naturam conversum est, neque caro in Verbi naturam transformata est: permansit enim utrumque, quod naturaliter erat: differentiam quippe adunatarum in eo naturarum sola contemplatione discernimus, ex quibus inconfuse, inseparabiliter, et incommutabiliter est compositus. Unus enim ex utrisque, et per unum utraque: quia simul sunt et altitudo deitatis, et humilitas carnis: servante utraque natura etiam post adunationem sine defectu proprietatem suam, et operante utraque forma cum alterius communione quod proprium habet: Verbo operante quod Verbi est, et carne exsequente quod carnis est: quorum unum coruscat miraculis, aliud succumbit injuriis. Unde consequenter, sicut duas naturas sive substantias, id est, deitatem et humanitatem inconfuse, indivise, incommutabiliter, eum habere veraciter confitemur: ita quoque et duas naturales voluntates et duas naturales operationes habere, utpote perfectum Deum et perfectum hominem, unum eumdemque ipsum Dominum Jesum Christum pietatis nos regula instruit: quia hoc nos apostolica atque evangelica traditio, sanctorumque patrum magisterium, quos sancta apostolica atque catholica Ecclesia, et venerabiles synodi suscipiunt, instituisse monstratur. » (Hardouin, t. III, col. 1119-1122).

A perfeição da nossa ciência consiste em conservar, com todo o zelo da mente, os termos da fé católica e apostólica que, até ao presente, a Sé Apostólica tem guardado e transmitido conosco. Reconhecemos, efetivamente, que Nosso Senhor Jesus Cristo, Filho unigênito de Deus, subsiste em duas e a partir de duas substâncias, sem confusão, imutavelmente, indivisivelmente, inseparavelmente; de modo algum a diferença das naturezas foi suprimida por causa da união, mas, antes, salva a propriedade de cada uma das naturezas, concorrendo para uma única pessoa e uma única subsistência: não dividido ou separado numa dualidade de pessoas, nem confundido numa natureza composta, mas sendo um e o mesmo Filho unigênito, Deus Verbo, Nosso Senhor Jesus Cristo; não reconhecemos um noutro, nem um e outro, mas o mesmo em duas naturezas, isto é, na divindade e na humanidade, mesmo após a união subsistencial: pois nem o Verbo foi convertido na natureza da carne, nem a carne foi transformada na natureza do Verbo; permaneceu cada qual o que era naturalmente. Distinguimos, pela única contemplação, a diferença das naturezas nele unidas, a partir das quais ele é composto sem confusão, inseparavelmente e imutavelmente. Um só provém de ambas, e por um só subsistem ambas: pois estão presentes, ao mesmo tempo, a altura da divindade e a humildade da carne, guardando cada natureza, mesmo após a união, a sua propriedade sem falta, e operando cada forma, em comunhão com a outra, o que lhe é próprio: o Verbo operando o que é do Verbo, e a carne cumprindo o que é da carne; das quais uma resplandece em milagres, a outra sucumbe sob as injúrias. Donde se segue, consequentemente, que, assim como confessamos verdadeiramente que Ele possui duas naturezas ou substâncias, isto é, a divindade e a humanidade, sem confusão, indivisivelmente, imutavelmente, assim também a regra da piedade nos ensina que Ele possui duas vontades naturais e duas operações naturais, enquanto Deus perfeito e homem perfeito, um e o mesmo Senhor Jesus Cristo; pois é isto que nos é demonstrado como tendo sido instituído pela tradição apostólica e evangélica, e pelo magistério dos santos Padres, que a santa Igreja apostólica e católica e os veneráveis sínodos acolhem.

Os Padres do sexto concílio, ao receberem estas cartas, declararam que Pedro falara pela boca de Agatão, admitiram-nas como regra de fé e, na oitava sessão, cada bispo teve de declarar a sua adesão a elas. Desde então, gozaram sempre de igual autoridade tanto no Oriente quanto no Ocidente, e pode-se, sem exagero, dizer que elas deram o golpe de morte ao monotelismo, a única das grandes heresias orientais que não deixou vestígios até aos nossos dias.

Os gregos quiseram, no concílio de Florença, servir-se das cartas dogmáticas de São Agatão para estabelecer o dogma do Filioque, que não se encontra no símbolo inserido na segunda carta; mas os latinos responderam vitoriosamente a todos os seus argumentos. Todavia, é de forma errônea e inútil que Pighius e, depois dele, Baronius, Bini e outros, apoiando-se numa reflexão que o cardeal Juliano teria feito nesse mesmo concílio, pretenderam que o Filioque primitivamente inserido no símbolo desta segunda carta teria desaparecido por fraude dos gregos. Nada disso é verdade; estas palavras, que não são de modo algum necessárias à inteligência deste símbolo, nunca lá se encontraram, e, além disso, a observação do cardeal Juliano aplicava-se a um texto diferente. Como as atas do sexto concílio, das quais fazem parte, as cartas de São Agatão chegaram até nós sob a tríplice forma de um texto grego e dois textos latinos, apresentados pelos editores como versões antigas e diferindo um do outro, embora não essencialmente. Um estudo atento desses três textos permitirá reconhecer, não a melhor tradução, mas o texto original de São Agatão na antiga versão das atas do concílio, dita do tempo de Sérgio I e publicada pela primeira vez em 1524 por Merlin no tomo I de seus Concílios. É este texto que seguimos acima. Ele foi reproduzido com variantes mais ou menos numerosas por todos os colecionadores dos concílios. Veja Labbe, t. VI, col. 630-709; Hardouin, t. III, col. 1074-1142; Mansi, t. XI, col. 284-315 e P. L., t. LXXXVII, col. 1161-1214, 1215-1248. O texto grego foi dado pela primeira vez em 1612 pela edição romana dos concílios gerais, t. III, p. 26-69. Encontrar-se-á igualmente nos locais indicados acima. Finalmente, outro texto latino, que é apenas uma tradução da versão grega, foi publicado por Hardouin, t. I, col. 1485-1514, e reproduzido por Mansi, t. XI, col. 745-776. Todos os autores que trataram da condenação de Honório e da história do sexto concílio, terceiro de Constantinopla (ver Honorius, Constantinopla), estudaram as cartas de São Agatão.


Autor original: H. QUENTIN

A extração e a tradução foram feitas por IA e em caso de algum erro podem entrar em contato com o editor