XII. ABSOLVIÇÃO entre os protestantes. — I. Doutrina de Lutero. II. Doutrina de Melanchthon e das Igrejas luteranas. Confissão de Augsburgo. III. Fórmulas de absolvição e modo de proceder segundo os luteranos. IV. Zuínglio e Calvino; Igrejas reformadas. Ao ler os ataques de Lutero e dos luteranos contra a confissão e a absolvição católicas, contra a tortura das consciências e a tirania do papa e dos padres, imagina-se que eles não viam em tudo isso senão uma invenção humana (ou satânica). Quando, ao contrário, abandonam a polêmica para expor suas ideias ou confessar sua fé, estão tão próximos dos católicos que é necessário um olhar exercitado para perceber as diferenças.
I. DOUTRINA DE LUTERO. — Lutero, ao rejeitar toda graça santificante e qualquer outro meio de justificação que não a fé, destruía, de fato, todos os sacramentos. A partir de então, não poderia haver em seu pensamento uma absolvição propriamente sacramental. Ele manteve, contudo, a confissão privada, sobretudo com vista, diz ele (Artigos de Esmalcalda, 3, 8, Miller, obra citada na bibliografia, col. 221), à absolvição, e insistiu muito nela, reprovando incessantemente aos católicos terem reduzido o sacramento da penitência à simples enumeração dos pecados. Textos em Pfisterer, Luthers Lehre von der Beichte, Stuttgart, 1857, p. 72 ss.
Quanto a essa confissão (sem o detalhe dos pecados) e a essa absolvição, ora ele as considera um sacramento, ora recusa-lhes tal título, vendo nelas apenas um simples retorno ao batismo. Pfisterer, p. 7º Em todo caso, a absolvição não deveria ser, em sua doutrina, senão uma declaração do perdão divino levada ao pecador, destinada, no máximo, a despertar nele a fé de que seus pecados lhe são perdoados por Jesus Cristo, um anúncio particular da palavra evangélica de remissão. Ele admite, portanto, duas espécies de absolvições: a absolvição pública e a absolvição privada. Ambas possuem o mesmo conteúdo, a palavra evangélica de remissão, pregada a todos ou dita a cada um em particular; ambas são igualmente eficazes (ou, se quisermos, ineficazes como absolvições, pois não remitem nada), desde que sejam recebidas com fé (isto é, com a confiança absoluta no perdão). A absolvição privada, portanto, não é indispensável; mas é muito útil, por vezes quase necessária, para despertar a fé na grande absolvição dada por Cristo, sem contar a múltipla utilidade da confissão privada pela qual nos dispomos a ela (ou, melhor dizendo, nos expomos a ela oferecendo-lhe matéria). Pfisterer, p. 73-77º Cf. Herzog, Realencyklopädie, art. Beichte, t. 1, p. 536. Nota-se, ao mesmo tempo, como Lutero pôde ver na penitência apenas um retorno ao batismo. Sendo o batismo a aplicação pessoal da remissão geral realizada por Cristo, bastava recordar-se dele, avivar nele sua fé — e a absolvição era um meio para isso, sem outro efeito, aliás, uma vez que o homem era justo enquanto se apropriasse pela fé da justiça de Cristo. E foi exatamente assim que Lutero o entendeu, primeiramente. Mas, como mostra Harnack, Dogmengeschichte, t. 11, p. 733 ss., ele não ousou levar suas ideias até o fim. Logo, porém, assustado com as consequências que extraíam de seus princípios, retomou pouco a pouco muitos dos «elementos católicos» que havia rejeitado, de tal sorte que frequentemente fala como os católicos — embora lhes atribuindo, para combatê-los, doutrinas que nunca sustentaram. Voltou, assim, a insistir no poder que a Igreja possui de ligar e desligar, de abrir e fechar o céu. Pfisterer, p. 69º É com essas reservas que se pode admitir o que diz Pfisterer, p. v, que «Lutero, sobre a confissão, ensinou sempre, em quase todos os pontos essenciais, a mesma doutrina».
A absolvição, portanto, não é apenas, continua Pfisterer, resumindo a doutrina do mestre, um desejo vazio e sem força; é, ao mesmo tempo que um anúncio, uma oferta e uma comunicação da graça de Deus. O que os homens desligam na terra, em nome e por mandamento de Cristo, é imediata e instantaneamente desligado no céu. Os homens não são senão os instrumentos pelos quais o Senhor, que lhes pôs a palavra na boca, fala-nos ele mesmo e nos absolve. Daí vem — e Lutero insiste aqui na vantagem de sua doutrina comparada à católica — que a palavra de absolvição é infalível e certa: «as chaves, segundo Lutero, não podem errar» — salvo, contudo, reconhecer que os impenitentes e os infiéis rejeitam, por sua própria culpa, o dom da graça que lhes é oferecido e, por isso, tornam-se mais culpados e condenam a si mesmos. Pfisterer, p. 82 ss.
Concilia-se tudo isso como se pode, dizendo que o arrependimento é indispensável, é verdade, mas como «pressuposto necessário a uma fé verdadeira e viva», não como disposição para a justificação; e mantém-se que só a fé justifica, ao apropriar-se do perdão anunciado pela boa nova da absolvição; quanto à eficácia infalível e absoluta da absolvição, explica-se por um poder misterioso ligado à palavra, poder de despertar no coração a fé sufocada pelo pecado e de fortalecer contra as tentações da desconfiança; poder que, aliás, se exerce e se faz sentir com força especial na absolvição privada. Desde então, todo cristão tem sempre direito à absolvição, e é um crime recusá-la a quem a pede. A absolvição não é, portanto, propriamente um julgamento, uma sentença judicial; é um anúncio evangélico, é uma oferta de graça que, para ser recebida, exige apenas a fé e que tem o poder de despertar essa fé. Nota-se a relação estreita, a identidade prática, que Lutero estabelece entre a pregação evangélica e a absolvição. Pfisterer, p. 89 ss.
Daí também a necessidade da absolvição (ao menos a geral) para a salvação, análoga, ou melhor, idêntica à necessidade da pregação para a fé. Pfisterer, p. 105-106.
Pareceria, por conta disso, que o poder das chaves não passa de um poder de desligar (por mais imprópria que seja a palavra para marcar esse anúncio evangélico de perdão, é a ele que Lutero aplica os textos da absolvição — no foro interno, o único que nos cabe tratar — quando não encontra fé na alma (o que supõe que ele não a desperta infalivelmente), torna-se antes uma palavra de condenação. Cf. Pfisterer, p. 107 ss., que reconhece, p. 113, que, sobre este ponto, o pensamento de Lutero não é nem claro, nem consequente.
Este poder de anunciar o perdão divino, Lutero situa-o na comunidade dos crentes; todos podem exercê-lo, e ninguém tem o direito de recusar a absolvição a quem vem confessar-se pecador e pedir que o absolva. De onde quer que venha a absolvição, ainda que seja de uma mulher, de uma criança, onde e de que modo for pronunciada, no caminho, nos campos, seriamente ou por jogo, você está absolvido, contanto que se creia absolvido. Assim falava Lutero nos primórdios (ver as proposições condenadas por Leão X em Denzinger, Enchiridion, n. 636, 637), e ele nunca cessou, na ocasião, de falar assim. Pfisterer, p. 129 ss. Exige, contudo, que a absolvição seja dada em nome de Cristo e em virtude de seu mandamento. Realencyklopädie, loc. cit., p. 537.
Mais tarde, inclusive, insistiu na instituição (chegou a dizer, por vezes, instituição divina) de um ministério público ao qual se deve recorrer, salvo em caso de necessidade: de modo que o exercício oficial e público do poder das chaves é reservado aos ministros escolhidos da Igreja, estabelecidos pelo próprio Deus para suceder aos apóstolos. Pfisterer, p. 149 ss. Vê-se como tudo isso cheira a catolicismo, e Harnack, p. 750, tem razão (Bossuet já o havia demonstrado, Hist. des variat., l. II, n. 23, 25, 26, 29, 47) em reencontrar ali um duplicado do sacramento da penitência dos católicos, salvo, contudo, a obrigação da confissão auricular e da satisfação.
Mas ele também tem razão em notar — e, aqui novamente, Bossuet o precedera — que toda esta nova teoria da penitência e da absolvição traz de volta, queira ou não, sob outros nomes e um tanto desfigurados, opus operatum, o concurso do homem à sua justificação, a distinção entre o batismo e a penitência, a necessidade da caridade e das boas obras, todas essas velharias católicas tão criticadas.
III. DOUTRINA DE MELANCHTHON E DAS IGREJAS LUTERANAS. CONFISSÃO DE AUGSBURGO. — Melanchthon não passa de um eco do mestre. Como ele, começou por negar que a penitência tivesse algo de sacramento e por insistir na justificação somente pela fé. Cf. Mohler, Symbolique, Besançon, 1836, t. I, p. 314 sq.
Depois, veio pouco a pouco a receber as ideias dos católicos, embora lhes atribuísse, ele também, para justificar os dissentimentos, opiniões que jamais sustentaram. É preciso citar os artigos da Confissão de Augsburgo, uma vez que se tornou o símbolo oficial (do qual muito poucos se preocupam, é verdade), não apenas dos luteranos, mas de quase todas as Igrejas reformadas. Eis o artigo 11: De poenitentia docent quod lapsis post baptisma contingere possit remissio peccatorum... Et quod Ecclesia talibus redeuntibus ad poenitentiam impertire absolutionem debeat. Acrescenta-se que a penitência ou conversão do ímpio consiste em duas coisas: a contrição, que é descrita como os terrores da consciência, os remorsos, etc., e a fé, que vem «nos livrar desses terrores e consolar a consciência». Ora, essa fé está em estreita relação com a absolvição: altera (pars poenitentiae) est fides quae concipitur ex Evangelio seu absolutione. A absolvição é, pois, considerada aí, segundo Lutero, como a transmissão da remissão dos pecados anunciada pelo Evangelho. Deixando as coisas nesse vago, condena-se «aqueles que não ensinam que a remissão dos pecados se faz gratuitamente pela fé, em vista de Cristo; mas que pretendem que a remissão dos pecados ocorre pela dignidade da contrição, da caridade ou de outras obras, e que querem que a consciência duvide se na penitência recebe a remissão dos pecados». Müller, p. 44º Os católicos, como se vê, têm o direito de não se reconhecerem sob estas palavras equívocas e sob estas insinuações misturadas com falsidades.
Na segunda parte (De abusibus), no artigo De confessione, Müller, p. 53, explica-se mais longamente. Após as ladainhas ordinárias sobre «as trevas amontoadas pelos teólogos e canonistas», sobre «a horrível tortura das consciências pela necessidade de enumerar os pecados», acrescenta-se: Huic articulo maxime studuerunt nostri lucem afferre. Docemus necessariam contritionem (mas como condição, não como meritória)... Depois, eis a fé, h. e. fiducia misericordiae promissae... Hanc fidem concipiunt animi ex Evangelio. Item ex absolutione (considerada, como se vê, como aplicação da promessa e do perdão evangélicos) quae Evangelium annuntiat et applicat perterrefactis conscientiis. Ideoque docent nostri retinendam esse in Ecclesiis privatam absolutionem, et ejus dignitatem et potestatem clavium veris et amplissimis laudibus ornant, quod videlicet potestas clavium administret Evangelium non solum in genere omnibus, sed etiam privatim singulis, sicut Christus inquit: «Lucratus eris fratrem, etc.» Et quod voci illi Evangelii, quod ministerio Ecclesiae nobis in absolutione administratur, credendum sit tanquam voci de coelo sonanti.
Essa absolvição, Melanchthon não temeu, em muitos lugares, chamá-la de sacramental, embora, por outro lado, deva-se reconhecer com Chemnitz, Examen, citado mais abaixo, p. 175, que ele não a explica plenamente no sentido católico. Vê-se que a Confissão de Augsburgo insiste na absolvição privada como meio de se apropriar e de se aplicar a palavra evangélica. Ver ainda o artigo 12: Docent quod absolutio privata in Ecclesiis retinenda sit. Müller, p. 44º Era também, como vimos, o pensamento de Lutero.
Mesma doutrina na Confissão das Igrejas da Saxônia oferecida ao Concílio de Trento em 1551 — exceto que ali se parece pedir expressamente a confissão distinta dos pecados, Syntagma (citado ao final do nosso artigo), p. 50; na de Wurtemberg, oferecida a Trento em 1552, Syntagma, p. 111; na da Boêmia, art. 5, 11, 138, Syntagma, p. 191, que insiste sobre o poder das chaves na Igreja, que reconhece à absolvição privada do sacerdote a força de tranquilizar as consciências e de colocá-las in spe certa salutis ac fide; e que acrescenta energicamente: (Tam) credat virtute clavium remitti peccata, quam si a praesente Domino absolutionem acciperet, cum sacerdos Domini officium gerat, et ab eo hanc authoritatem traditam habeat. Joa., XX, 21-23º Vê-se quantos poucos retoques seriam necessários para tornar esta doutrina católica, e como, para falar com Bossuet, op. cit., l. II, n. 48, «quase não restaria dificuldade se não fossem as falsas ideias dos nossos adversários.» Antes de deixar os luteranos, uma palavra sobre as fórmulas de absolvição e o modo de aplicação.
IV. FÓRMULAS DE ABSOLVIÇÃO E MANEIRA DE PROCEDER. — Eis, segundo o opúsculo de Lutero anexo ao Pequeno Catecismo no Livro de Concórdia, como as coisas devem se passar, Müller, p. 363: «Reverendo caro Senhor, diz o penitente, queira, eu lhe peço, ouvir a minha confissão e dizer-me a absolvição por amor a Deus.» Segue a confissão. Então o confessor: «Deus te seja propício e fortifique a tua fé. Amém.» (Não é este um vestígio do nosso Misereatur... Indulgentiam?) Depois, ele pergunta ao penitente: «Crês que a minha remissão é a remissão de Deus? — Sim, responde o penitente. — Que te seja feito como crês. E eu, por ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, te remito os teus pecados, em nome de Deus Pai, do Filho e do Espírito Santo.» É, como se vê, a absolvição católica. Ao lado desta fórmula imediata, existe um outro tipo mais difundido, o de uma absolvição mediata, consistindo simplesmente em anunciar a absolvição divina. A liturgia de Nuremberg, 1533, indica duas fórmulas do segundo tipo: «O Deus todo-poderoso teve piedade de ti, e pelos méritos de... Nosso Senhor Jesus Cristo... te perdoa todos os teus pecados, e eu, como ministro chamado da Igreja cristã, por ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, te anuncio este perdão de todos os teus pecados. Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém. Vai em paz, e que te seja feito como crês.» Hering (citado ao final do nosso artigo), p. 189.
A segunda: «Deus te remite os teus pecados, e eu, por ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, em nome da santa Igreja, te declaro livre, franco, absolvido de todos os teus pecados. Em nome do Pai... Amém. Vai e não peques mais, mas melhora-te sem cessar. Deus te ajude nisso. Amém.» — Vê-se que a segunda fórmula acrescenta um convite às boas obras. — A da Pomerânia, 1542, une os dois tipos: «Deus te seja favorável (gnädig) e te remeta todos os teus pecados. E eu, seu ministro e o servo de sua Igreja, sobre a palavra de Cristo dizendo: "Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados", te declaro absolvido e te absolvo de todos os teus pecados. Em nome do Pai... Amém.» Ibid. — Além disso, vê-se aqui a menção ao poder das chaves. Em outros lugares, impõe-se a condição da fé. Ibid., p. 190 sq. Em outros lugares, acrescenta-se o rito da imposição das mãos. Outros, enfim, distinguem uma dupla absolvição, aqui embaixo na terra e lá em cima no céu. Assim, a de 1556: «Eu te anuncio o perdão de todos os teus pecados, em nome de Jesus, e em virtude das chaves dadas à comunidade de Deus, eu te absolvo aqui na terra, a fim de que sejas também absolvido no céu. O Senhor tirou os teus pecados, e a tua fé te salvou.» Ibid., p. 193.
Ter-se-á notado que estas fórmulas estão no singular e supõem uma certa confissão particular. Lutero a isso muito se apegava.
Apesar de tudo, a confissão e a absolvição gerais prevaleceram... sem conseguir, contudo, suprimir completamente a confissão e a absolvição privadas. Veja o artigo CONFESSION chez les protestants. As fórmulas de absolvição geral são ordinariamente declarativas. Eis o procedimento na liturgia de Mecklemburgo, 1552. No início da missa, confissão, em nome de todos, pelo sacerdote: «Eu, pobre pecador, confesso diante de ti, ó Deus, que pequei... Mas recorro à tua misericórdia infinita... Senhor, sê propício a mim, pobre pecador.» O outro ministro profere uma oração pela graça. Então, o sacerdote pronuncia esta absolvição: «O Deus todo-poderoso e misericordioso teve piedade de nós, perdoa verdadeiramente todos os nossos pecados, em virtude de seu Filho Jesus... e deu o poder de tornar-se filhos de Deus a todos aqueles que nele creem...» Ibid., p. 209. A confissão e a absolvição estão por toda parte ligadas à Ceia; e os ofícios da Ceia reservam todos um lugar para a confissão e a absolvição gerais. Eis a ordem prescrita pelo Agende para a Igreja evangélica nos Estados prussianos. Ibid., p. 211. Na véspera da comunhão, ou no próprio dia, antes da liturgia, após o discurso de confissão (Beichtrede), confissão geral: «Deus, Pai misericordioso, eu, pobre e infeliz pecador, etc.» Então o ministro: «Se é vossa vontade séria, e se tendes o firme e sincero propósito de emendar vossa vida pecadora, respondei: Sim.» Resposta: «Sim.» O ministro: «Sobre vossa confissão, anuncio a todos aqueles que de coração se arrependem de suas faltas, e que se confiam com uma fé verdadeira aos méritos de J.-C., em virtude de meu ofício, como ministro chamado e ordenado da Palavra, a graça de Deus e a remissão de vossos pecados, em nome do Pai, etc. Se houver uma necessidade especial e de consolação de nossa parte, estamos prontos, em virtude de nosso ofício e segundo nossas forças, a concedê-las.» Vê-se, e a rubrica o indica expressamente, que um lugar é reservado à confissão e à absolvição particulares. O augusto autor desta liturgia, o rei Frederico-Guilherme III, teria desejado ainda mais, algo na prática como a confissão obrigatória. Hering, p. 308.
No Agende de Anhalt, procedimento quase idêntico, mas com mais desenvolvimento nas questões sobre a confissão. Após alguns preparativos, o ministro: «Aqueles que com verdadeira penitência retornam a Deus, devem agora, para a consolação de suas consciências, receber a absolvição de seus pecados. Mas aqueles que vivem conscientemente no pecado e que não têm o sério propósito de se emendar, eu os aviso e os admoesto seriamente a não atrair por sua hipocrisia a ira de Deus e seu julgamento sobre sua alma. Deus vos dê a todos seu Espírito Santo para vos converterdes seriamente por J.-C. Levantai-vos e respondei do fundo do coração às minhas perguntas diante do Deus santo e que tudo sabe.» Segue a bela cena das perguntas e respostas, como alguns ainda se lembram de ter visto nos ofícios dos soldados alemães durante a invasão: «Confessais que pecastes de várias maneiras contra Deus e bem merecestes seus castigos? E vos arrependeis de coração desses pecados? Respondei: Sim. — Resposta: Sim. — Credes e confessais que o Deus todo-poderoso, por amor de J.-C., quer ser-vos propício e perdoar vossos pecados? Respondei ainda: Sim. — Resposta: Sim. — Quereis também renunciar aos vossos pecados e, com a ajuda do Espírito Santo, emendar vossa vida? Dizei ainda uma vez: Sim. — Resposta: Sim.» Então versículo e orações de joelhos. Finalmente, absolvição, quase como acima. Hering, p. 212.
Cerimônia bastante semelhante para a comunhão dos enfermos. Hering, p. 213. Essas absolvições declarativas ou mediatas não são, como se vê, a absolvição católica; e é preciso confessar que elas respondem melhor ao sentido primeiro de Lutero. Por outro lado, Lutero, ao menos em sua segunda maneira, insistiu fortemente sobre a absolvição indicativa (os alemães dizem exhibitive), a qual obviamente é mais conforme às palavras do Evangelho: aqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados, etc. Todas, aliás, supõem condições de arrependimento e de firme propósito, que se tenta sutilmente mostrar como conciliáveis com a doutrina da justificação pela fé somente; mas como negar que elas nos levam muito longe do radicalismo primitivo «Crede, e basta;» longe também de Lutero (primeira maneira) em outro ponto ainda, pois a ideia do poder de absolver dado a todos perdeu-se completamente. Sabe-se, aliás, como, por razões que nada têm de doutrinal, os próprios pastores tomaram cada vez mais o monopólio da absolvição privada, enquanto na Igreja católica a tendência sempre foi no sentido da liberdade para a escolha dos confessores. Cf. Lea, obra citada mais abaixo, p. 517, e Realencyklopädie, t. 11, p. 539.
IV. ZWINGLE E CALVINO; IGREJAS REFORMADAS. — Zwingle e Calvino nunca tiveram as incertezas e as hesitações de Lutero ou de Melâncton sobre o sacramento da penitência. Contudo, eles também não souberam livrar-se plenamente das ideias de uma intervenção humana no perdão dos pecados. Zwingle, desde 1523, declarava que Deus somente perdoa os pecados, e que é uma idolatria esperar o perdão de uma criatura (sempre a ideia católica desfigurada!). A confissão a um sacerdote ou a um vizinho não saberia ser senão para direção. Mas Zwingle acrescenta que recusar a um penitente a remissão de um único pecado é agir como delegado do diabo, não de Cristo. Cf. Lea, p. 519. Toda remissão vem de Cristo e obtém-se unicamente pela fé na remissão de Cristo, e pelo apelo a Deus por Cristo. Nenhum homem, diz Zwingle, conhece a fé de outro, e assim toda absolvição do homem pelo homem é coisa fútil. Textos em Niemeyer, obra citada mais abaixo, p. 55º Zwingle, neste ponto, era mais consequente que Lutero. Calvino foi menos radical.
Ele também reconhece que nenhum homem saberia absolver, e que ninguém conhece a fé de outro. Mas, segundo ele, os ministros, como testemunhas e garantes, dão mais segurança à consciência do pecador, e é nesse sentido que se diz que eles perdoam os pecados e dão a absolvição. Pela certeza da absolvição, Calvino foi mais consequente que Lutero. Como o perdão divino é condicional, e depende da penitência e da fé, como, por outro lado, não se pode saber se essas condições são realizadas, a absolvição deve ser condicional na forma, e assim ela nunca se extravia. Calvino não lhe atribui, aliás, qualquer ideia sacramental. Ele considera a confissão privada como prescrita por São Tiago, v, 16, mas faz-se a quem se quer. Todavia, com suas tendências autoritárias, ele não poderia senão impulsionar a recorrer aos ministros. A liturgia calvinista não tem fórmula de absolvição: Calvino, em 1561, expressava seu pesar por não ter ousado prescrever uma. Parece, contudo, ter tentado. Cf. Lichtenberger, Encyclopédie, art. Culte, t. III, p. 529. Pois a edição de Estrasburgo publicada por ele, Forme des prières, indicava esta, após a confissão geral (ou Exortação) e as palavras de consolação: «Cada um de vós reconheça-se verdadeiramente pecador, humilhando-se diante de Deus, e creia que o Pai celestial quer ser-lhe propício em Jesus Cristo. A todos aqueles que desta maneira se arrependem e buscam Jesus Cristo para sua salvação, denuncio a absolvição dos pecados ser feita em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.» Esta absolvição não permaneceu. É preciso confessar, aliás, que esta fé de cada um «que o Pai celestial quer ser-lhe propício» concilia-se dificilmente com as doutrinas calvinistas da reprovação positiva antecedente.
A Confissão helvética de 1566, que mitiga ao mesmo tempo Calvino, Zwingle e Lutero, insiste, c.
xiv, sobre a suficiência da confissão apenas a Deus: Credimus autem hanc confessionem ingenuam quæ soli Deo fit vel privatim inter Deum et peccatorem, vel palam in Templo, ubi generalis illa peccatorum confessio recitatur, sufficere, nec necessarium esse ad remissionem peccatorum consequendam ut quis peccata sua confiteatur sacerdoti susurrando in aures ipsius, ut vicissim et impositione manuum ejus audiat ab ipso absolutionem. Syntagma, p. 23-24º Ademais, não se desaprova (non improbamus) o recurso «ao ministro ou a algum irmão douto na lei de Deus», para lhe pedir em particular conselho, luz e consolação. Da absolvição, nem uma palavra. O poder das chaves é reduzido à pregação. Rite itaque et efficaciter ministri absoluunt dum Evangelium Christi et in hoc remissionem peccatorum prædicant... Nec putamus absolutionem hanc efficaciorem fieri per hoc quod in aurem alicui aut super caput alicujus singulariter inumurmurant. Ibid. Eles se opõem, como se vê, à absolvição privada. Mas em que consiste a eficácia desta absolvição geral (já que é preciso chamar de absolvição essa pregação do Evangelho para encontrar um lugar ao poder das chaves, que se deve reconhecer nas Escrituras)? Em despertar a fé e o arrependimento. Aliás, c. xviii, concede-se um certo poder ao ministro, como ao porteiro ou ao despenseiro em uma casa: Dominus ratum habet quod facit, ipsumque ministri sui factum ut suum vult estimari atque agnosci. Synt., p. 39-40º Era já, mais ou menos, a doutrina da Confissão de Basileia, em 1536; mas com uma insistência particular em reduzir o papel do ministro: Brevis virtutem et efficaciam omnem Domino, ministerium de ministris... adseribamus... Nam hanc efficaciam nulli omnino creaturæ alligari. Syntagma, p. 69º São estas ideias mitigadas que se encontram na maioria das seitas reformadas, e elas influenciaram até as Igrejas luteranas da Alemanha para fazer substituir, em muitos lugares, apesar da resistência dos pastores, a absolvição geral pela absolvição privada. Assim, a Igreja permanecia, apesar do primeiro Lutero, entre o homem e Deus; mas permanecia, contra a intenção do segundo Lutero, sem ação vivificante sobre o indivíduo... e tudo se reduzia, na maioria das vezes, a fórmulas vazias, deixando as almas abertas ao racionalismo, até que, de tempos em tempos, o excesso do mal suscitasse homens cheios de desejos piedosos e de vida religiosa, um Spener na Alemanha, um Wesley na Inglaterra — um fogo destinado, ele também, a definhar ou a extinguir-se, à espera de homens novos que o reavivassem, um Spurgeon, um George Müller, um general Booth.
Pfisterer, J., sobre a questão dos reformadores: (ver abaixo) o que dizem sobre isso preencheria um volume; sem recolher o principal. Ele trata disso ex professo em: 1° Lutero, Œuvres, ed. de Weimar, in-4° (Luthers Werke); Sermo de penitentia (1518), t. 1, p. 319; t. x, p. 1475; Luthers Kurze Unterweisung wie man beichten soll (1519), Weimar, t. 11, p. 57, t. vi, p. 154; De confitendi ratione (1520), Weimar, t. vi, p. 1482; De captivitate babylonica (1520), t. vi, p. 497, sobretudo p. 543; Ein Sermon von der Beichte (1521), t. vii, p. 352; De Busse (1518), t. 1, p. 641; Von der Macht der Beichte (1521), t. viii, p. 128; sobretudo Ein Sermon von dem Sacrament der Busse (1519), Weimar, t. 11, p. 714; cf. Weimar, t. xix, p. 984; t. x, 11, p. 504; Append. n. 3; Anmerk. 1, n. 3º 2° Melanchthon, Loci theologici (1521), ed. Corpus reformatorum, t. xxi, p. 1144; Apologia Confessionis, c. xi, em Müller, Die symbolischen Bücher, p. 264 sq. 3° Zuínglio, Expositio christiane fidei (1531), em Niemeyer, Collectio confessionum, p. 30 sq. 4° Calvino, Institution, c. IV, sobretudo os caps. I-XIX; cf. edição nova, Brunswick, 1863, t. 1, p. 892; t. 11, p. 363 sq. 5° Chemnitz, Examen concilii Tridentini, c. XI, De penitentia, § 2, p. 173 sq. (edição de Frankfurt, 1586).
CONFISSÕES DE FÉ. — 1° Igrejas luteranas. — Confissão de Augsburgo (obra de Melanchthon, 1530), a. 11, 12, 13; cf. a. 20; IIª parte, art. 4; Apologia (mesmo título), a. 11, 12, 13; cf. a. 14, 20; Artigos de Esmalcalda (1537), 3ª parte, art. 8º Ver o conjunto destas confissões em Müller, Die symbolischen Bücher der evang.-luth. Kirche (Leipzig, 1890). (As duas peças foram recebidas, mas a Apologia sem compromissos, pelas Igrejas). — Artigos de Schwabach (1529) e de Torgau (1529), t. 1, p. 41 e t. 1, p. 101, em Corpus reformatorum.
A obra de Lutero, sabe-se, e ademais a importância que as edições de seus sacramentis, de penitentia, etc., têm para nós, na prática. — 8° No Livro de Concórdia (1580), ao qual se vinculam as outras confissões de fé (exceto a confissão calvinista), encontram-se inseridos os Artigos de Esmalcalda e a Confissão de Augsburgo, os quais, sabe-se, diferem contudo da Confissão de Augsburgo de 1530, e também a confissão da Boêmia (1535), mas com o intuito, aliás notável, de indicar uma História das variações. Uma excelente edição alemã do Livro de Concórdia apareceu sob o título: Die symbolischen Bücher der evangelisch-lutherischen Kirche (Libri symbolici, ed. J. T. Müller, Gütersloh, 1876; 4ª ed. 1890). Esta edição compreende, como se sabe, a Confissão de Augsburgo, a Apologia, os Artigos de Esmalcalda, o Pequeno Catecismo de Lutero (com o Opuscule sobre a confissão dos simples), o Grande Catecismo e a Formula concordiæ; foram juntados em apêndice, entre outras coisas, a Declaratio admonitio ad confessionem e os Articuli visitatorii de 1592.
2° Igrejas reformadas. — Em primeira linha vem a Confissão das Igrejas suíças, redigida por Bullinger e aceita definitivamente em 1566 (c. xiv, xix). É a Confessio helvetica posterior (ed. Lausanne, 1834, em francês); comparar a de 1536, Helvetica prior, a. 15, 16, 19º Acrescentemos aquela que as Igrejas da França enviaram a Carlos IX em 1561. — Todas se encontram no Syntagma de 1654. Cita-se frequentemente a partir da coleção de Niemeyer: Collectio confessionum in ecclesiis reformatis publicatarum, Leipzig, 1840. Enfim, assinalemos o Catecismo de Heidelberg (1563, edição francesa em Drefft, 1700), do qual, aliás, há pouco sobre a nossa questão.
III. OBRAS GERAIS. — A estes documentos fundamentais vincula-se toda uma literatura de teologia polêmica, exegética e comparativa (ver na Enciclopédia de Lichtenberger, art. Symbole, Symbolique, os títulos das obras de Marheineke, Winer, Schenkl, Bodemann, etc.). Assinalemos Pfisterer, Confessionelle Lehrgegensätze, Hildesheim, 1886; e, para Lutero em particular, Luthers Theologie de Köstlin, Stuttgart, 1863 (há uma obra de Theod. Harnack sob o mesmo título). Sobre o conjunto, nada melhor ainda do que a Histoire des variations de Bossuet (que, infelizmente, insiste pouco sobre a confissão e a absolvição, l. I, n. 8 sq.; l. III, n. 24-27, 38-40), e que a Symbolique de Moehler (tradução francesa, 1826), que fornece, com citações, uma excelente visão de todo o assunto (ver sobretudo os § 16, 22, 29-33, 68, 82, 94). — Entre os historiadores do dogma, deve-se citar Ad. Harnack, Dogmengeschichte, Friburgo em Brisgóvia, t. III, 1890, l. III, c. iv (visões gerais, mas às vezes um pouco subjetivas); e seu rival católico Seeberg, sob o mesmo título, mesmo local, mesma data, t. IV, IVª parte, c. III (um pouco breve sobre a nossa questão). C. H. Lea, A history of auricular confession, Londres, 1896, tem apenas algumas páginas para os reformados, t. I, p. 515 sq. — Entre as obras protestantes de dogmática, pode-se indicar Schmid, Dogmatik, § 53, 55, 7ª ed., Gütersloh, 1893; e Heppe, Dogmatik, 1867, t. II, p. 250. — Os documentos católicos destacam sobretudo os erros opostos à doutrina católica: Proposições de Lutero condenadas por Leão X em 16 de maio de 1520 (Enchiridion de Denzinger, n.
629-688); artigos reunidos nos escritos dos hereges para os Padres do Concílio de Trento: sobre a justificação (Theiner, Acta genuina Tridentini, Agram, 1874, t. I, p. 1462), sobre os sacramentos (ibid., p. 383), sobre o sacramento da penitência (ibid., p. 534). Enfim, as definições e os anátemas do Concílio de Trento dão a conhecer, por antítese, a doutrina protestante (sess. VI, VII, XIV). — Os teólogos ou controversistas católicos expõem, na maioria das vezes, apenas para refutar. Encontram-se, contudo, informações úteis em Bellarmin, Coccius, Tapper, etc., bem como em Pighius e Catharin. Schanz, em seu Tratado dos sacramentos (Die Lehre von den heiligen Sacramenten), Friburgo em Brisgóvia, 1898, é muito mais desenvolvido e excelente. Ver sobretudo § 4; § 9, p. 141 sq.; § 38, p. 530 sq.; § 44, p. 557 sq. — Não se pode negligenciar também as liturgias protestantes ou reformadas. Atenho-me a H. Hering, Hilfsbuch zur Einführung in das liturgische Studium, Wittemberg, 1888: encontram-se ali as peças necessárias com remissões às coleções de Richter, Jacoby, Daniel, etc. — Entre os dicionários, deve-se citar sobretudo a Realencyklopädie für protestantische Theologie de Herzog, 3ª ed., t. II, art. Beichte; t. III, art. Busse, e 2ª ed., t. XI, art. Schlüsselgewalt. Há pouco conteúdo em Fuhrmann, Handwörterbuch der christlichen Kirchengeschichte, Halle, 1826, art. Beichte; em Lichtenberger, Encyclopédie des sciences religieuses, art. Confession et Pénitence; no Kirchenlexikon de Wetzer e Welte, 2ª ed., art. Busse. Nada de claro também em Migne, Dictionnaire du protestantisme, art. Pénitence.
IV. OBRAS ESPECIAIS. — Ackermann, Die Beichte, Hamburgo e Gotha, 1853; Steitz, Die Privat-Beichte und die Privat-Absolution der luth. Kirche, Frankfurt, 1854; Kliefoth, Liturgische Abhandlungen, t. II, Die Beichte und Absolution, Schwerin, 1856; Hohlfeld, Luthers Lehre von der Beichte, Stuttgart, 1857 (coleção de textos agrupados em torno de certas proposições); Ahrens, Das Amt der Schlüssel, Hanôver, 1864; Lipsius, Luthers Lehre von der Busse, Brunswick, 1892; Sieffert, Die neuesten theoloy. Forschungen über Busse und Glaube, Berlim, 1896. Pode-se assinalar ainda um artigo da Zeitschrift für Protestantismus und Kirche, 1865, t. III; os estudos de Zezschwitz e de Scheele, no Handbuch der theolog. Wissenschaften de Zöckler, 1884, t. II, p. 528; t. III, p. 444; enfim, alguns detalhes interessantes na Civiltà catolica, 18 de dez. de 1897, p. 682 sq. (mas sobre a prática).
Autor original: J. Bainvel
A extração e a tradução foram feitas por IA e em caso de algum erro podem entrar em contato com o editor