CIRCUNCELIÕES (II)

CIRCUNCELIÕES (II)

CIRCONCELIÕES, heréticos do século XIII. Eles nos são conhecidos apenas pelos *Annales Stadenses* de Alberto, abade de Santa Maria de Stade. Começaram suas pregações, em 1248, em Schwäbisch-Hall (Hall na Suábia), *in Hallis Suevorum*, como se lê na edição dos *Monum. Germaniae historica. Scriptores*, Hanôver, 1859, t. XVI, p. 371 (corrigir o texto dado por Raynaldi, *Annal. ecclesiast.*, ano 1248, n. 15: *in ballis Suevorum*).

Eis o fundamento de seus ensinamentos. O papa é herético; heréticos também, e simoníacos, são os bispos, os prelados inferiores, os sacerdotes. São sedutores; mergulhados nos vícios e nos pecados, eles não têm o poder de absolver e de celebrar a missa. Nem papa, nem bispo, nem pessoa alguma no mundo, tem o direito de lançar um interdito; onde um interdito foi imposto, é legítimo ouvir a missa e receber os sacramentos. Os dominicanos, os frades menores, pervertem a Igreja por suas falsas pregações; eles e os cistercienses, e todos os outros religiosos, vivem mal. "Nós sozinhos e nossos companheiros", diziam eles, "vivemos bem e pregamos a verdade". A indulgência que vos damos ao fim de nossos discursos não é fingida ou composta pelo papa e pelos bispos, mas ela é *de solo Deo et ordine nostro*. Um desses pregadores acrescentou: "Orai pelo imperador Frederico e seu filho Conrado, que são justos e perfeitos. Quanto ao papa, ele não pode ligar nem absolver, pois não leva uma vida apostólica".

O analista conta que Conrado protegeu esses heréticos e, por aí, acreditou servir bem à causa de seu pai. Mas foi o contrário que aconteceu; os pregadores católicos combateram essas afirmações e conseguiram destacar de Conrado um número de seus partidários bastante considerável para que ele tivesse de fugir da Suábia e ganhar a Baviera. Temos aí um episódio da luta entre Frederico II e Inocêncio IV. O imperador, que tinha por programa ser "o patrono, o protetor", isto é, o mestre absoluto da Igreja, e que, para chegar a isso, quis primeiro "reformá-la" à sua maneira, cf. J. L. A. Huillard-Bréholles, *Historia diplomatica Friderici II*, Introdução, Paris, 1859, p. cxcvii-cxcviii; E. Gebhart, *L’Italie mystique*, 1890, p. 146-155, acentuou suas invectivas e seus gritos de guerra contra o papa quando este o havia excomungado e deposto no concílio de Lyon (1245). No mês de março de 1249, por ocasião de um complô tramado contra sua pessoa, ele invocou o concurso dos príncipes da cristandade contra Inocêncio IV e os prelados, "a fim", dizia ele, "que, abaixando seu orgulho, nós afirmássemos a Igreja nossa mãe, dando-lhe guias mais dignos de dirigi-la, *dignioribus fulciendo rectoribus*, e que possamos, como é nosso ofício, reformá-la e melhorá-la para a glória de Deus". Huillard-Bréholles, *Historia diplomatica Frederici II*, Paris, 1866, t. VI, p. 705-707.

Os sectários de Hall entraram plenamente nas visões de Frederico II. E. Gebhart, *op. cit.*, p. 155, observa que "Frederico II voltava assim à teoria de Arnaldo de Bréscia, que Frederico I havia atingido outrora na pessoa de Arnaldo"; Frederico II, por sua vez, a havia atingido indiretamente em suas constituições contra os heréticos, onde os arnaldistas figuravam com todos os heréticos contemporâneos. No fundo, todavia, sua campanha contra a santa sé inspirava-se nesta ideia dos arnaldistas e de Arnaldo, seu mestre, de que o papa e os prelados prevaricadores estão decaídos de seus poderes. Mais ainda que o imperador, os sectários de Hall adotaram as ideias dos arnaldistas e abriram as vias ao grupo valdense dos Pobres da Lombardia. Ver t. I, col. 1974-1975.

D. Völter, na *Zeitschrift für Kirchengeschichte*, Gotha, 1881, t. IV, p. 360 sq., aproximou as informações fornecidas por Alberto de Stade aos dois textos publicados por E. Winkelmann, 1865, sob este título: *Fratris Arnoldi ord. praedicatorum de correctione Ecclesiae epistola* et *Anonymi de Innocentio IV p. m. antichristo libellus*, e concluiu que esses dois escritos, redigidos entre 1245 e 1250, referem-se ao movimento sectário que Alberto de Stade faz conhecer. Se fosse necessário admitir essa conclusão, resultaria que a exposição das doutrinas da seita de Hall deveria se completar pela adição de ideias apocalípticas e sociais (visões e esperanças joaquimitas, distribuição aos pobres dos bens da Igreja), desenvolvidas na carta do irmão Arnoldo. Mas a demonstração tentada por Völter não parece decisiva.

Alberto de Stade não dá um nome aos sectários; limita-se a chamá-los *mirabiles et miserabiles heretici*. Em sua *Metropolis sive historia ecclesiastica Saxoniae*, l. VIII, c. XVIII, Colônia, 1520, A. Krantz nomeou-os circonceliões sem dizer por qual motivo. Essa denominação foi admitida por Hermant, *Histoire des hérésies*, 3ª ed., Ruão, 1726, t. II, p. 169; Noël Alexandre, *Historia ecclesiast.*, Veneza, 1778, t. VIII, t. I, col. 541, etc. G. Moroni, *Dizionario di erudizione storico-ecclesiastica*, Veneza, 1842, t. XI, p. 193, explica-a dizendo "que eles iam ensinar seus erros com todo o entusiasmo e em todo lugar possível". É provável que, ao denominá-los dessa sorte, Krantz tenha querido assimilá-los aos circonceliões da África. Os sectários de Hall reproduziam o erro dos donatistas sobre a invalidade dos sacramentos conferidos pelos ministros indignos; Krantz terá visto neles os sucessores dos donatistas circonceliões. Talvez a má leitura do texto de Alberto de Stade (*in ballis Suevorum predicaverunt* em vez de *in Hallis Suevorum*) tenha feito crer que, como os circonceliões do século IV, eles rondavam por toda parte. Na realidade, não se vê que tenham dogmatizado fora da cidade de Hall nem que tenham cometido os mesmos excessos que os circonceliões africanos. Esse nome de circonceliões, portanto, não lhes convém muito, e seria preferível chamá-los, com os historiadores alemães modernos, "a seita de Schwäbisch-Hall".

J. FONTE. — Alberto de Stade, *Annales Stadenses*, em Raynaldi, *Annales ecclesiast.*, ano 1248, n. 45-46, Bar-le-Duc, 1870, t. XXI, p. 366-367, e em *Monum. Germaniae historica. Scriptores*, Hanôver, 1859, t. XVI, p. 371-372 (Alberto começou a redigir seus *Annales* em 1240; cf. J. M. Lappenberg, *ibid.*, p. 274).

II. TRABALHOS. — J. G. Bernhold-J. C. Harrepeter, *Dissertatio historica de Conrado IV imperatore Hallensium hereticorum aliquando defensore*, Altorf, 1758; Jäger, *Ueber die relig.

Bewegungen in den Schwab. Städten, Stud. d. württ. Geistlichkeit, 1832, t. IV a, p. 69-107; D. Völter, Die Sekte von Schwäbisch-Hall und der Ursprung der deutschen Kaisersage, na Zeitschrift für Kirchengeschichte, Gotha, 1881, t. IV, p. 386-393: E. Lempp, na Realencyklopädie, 3ª ed., Leipzig, 1899, t. VI, p. 363-365.

Autor original: F. Vernet

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