CIRCUNCISÃO


CIRCUNCISÃO (hebraico: mîlâh, mas encontrada exclusivamente sob a forma mîlâh, Exod., IV, 26; em grego: peritome, Joa., VII, 22, etc.; Vulgata: circumcisio), rito que consiste na amputação do prepúcio, membrana que cobre a glande do membro viril.

— I. História e exegese. II. Teologia.

I. HISTÓRIA E EXEGESE. — I. A CIRCUNCISÃO ENTRE OS POVOS DA ANTIGUEDADE. — 1° Origem da circuncisão. — Não se está bem definido sobre a origem deste rito, não obstante as pesquisas da erudição moderna. O que é certo é que a circuncisão não foi exclusiva a Israel. Encontra-se instituída entre os povos selvagens, e também entre os povos vizinhos de Israel: Fenícios, Idumeus, Moabitas, Amonitas, Árabes, Jer., IX, 26. Apenas os Filisteus não a conheceram. I Reg., XVII, 25-30; XXXI, 4. Não há prova de sua existência entre os Caldeus. Os vestígios mais antigos deste costume foram descobertos na África. Cf. H. Ploss, Das Kind in Brauch und Sitte der Völker, 1882, p. 842 sq. No que concerne a Israel e às tribos sírias, alguns críticos pensam que eles tomaram emprestada a circuncisão dos Egípcios, que a teriam recebido eles mesmos das tribos africanas, entre as quais os rapazes a sofrem na puberdade; Erman, Ägypten und ägyptisches Leben im Alterthum, segundo Heródoto, II, 104, 1885, p. 56-57, 711 sq.; outros pensam que ela tomou sua origem entre os pequenos povos nômades da Arábia; em todo caso, parece certo que a circuncisão não foi, em Israel, um rito autóctone, isto é, independente de qualquer infiltração estrangeira.

2° Objetivo da circuncisão. — Heródoto nos ensina, II, 37, que os Egípcios «praticavam a circuncisão por causa de limpeza». Certas razões fisiológicas puderam ter alguma influência sobre a prática da circuncisão. Renan, Histoire du peuple d'Israël, 6ª ed., Paris, 1887, t. I, p. 123-128. Mas não é este o motivo decisivo, se é que ele existiu, o que é muito duvidoso. Outros pretenderam que a circuncisão era um simulacro de sacrifício da criança, um sacrifício em miniatura, substituído pelo sacrifício real da pessoa. Fr. Jéréniias, no Manuel d’histoire des religions de Chantepie de la Saussaye, trad. franc., Paris, 1904, p. 184. Mas esta hipótese é inverossímil. Em parte alguma a circuncisão se apresenta como um equivalente de sacrifício, e é incrível que todos os machos, submetidos à circuncisão, tenham sido considerados como vítimas subtraídas à divindade por uma imolação fictícia. A circuncisão apresenta-se antes como um rito de iniciação, e entre as tribos árabes ela é uma consagração da puberdade, uma introdução religiosa à existência viril e ao matrimônio. O verdadeiro significado da circuncisão é religioso; é um fato reconhecido hoje pela maioria dos sábios. Na origem, a circuncisão não era senão a cerimônia santa pela qual se tornava membro da comunidade religiosa, e se era admitido no povo ou na tribo. Era, pois, um rito de iniciação, análogo, em certo sentido, ao nosso batismo. Era um pacto de sangue pelo qual o jovem encontrava-se ligado à sua tribo e ao deus da tribo ao mesmo tempo em que se tornava apto ao matrimônio. A efusão do sangue e a escolha do membro mutilado tinham um simbolismo particular. Fazer correr o sangue, atentar contra o corpo humano, principalmente em um membro julgado ao mesmo tempo vergonhoso e sagrado, parece ter tido a mesma ideia fundamental que os sacrifícios, isto é, a comunhão de vida a estabelecer ou a conservar entre o deus e a tribo. K. Marti, Geschichte der israelitischen Religion, 4ª ed., in-8°, Estrasburgo, 1903, p. 43; Valeton, no Manuel d’histoire des religions de Chantepie de la Saussaye, trad. franc., Paris, 1904, p. 200-201; P.-J. Lagrange, Études sur les religions sémitiques, 2ª ed., Paris, 1905, p. 243-246.

II. A CIRCUNCISÃO ENTRE OS HEBREUS. — 1° Prática da circuncisão. — O Código sacerdotal faz remontar, Gen., XVII, 10-14, esta prática até Abraão, e ele não supõe que este patriarca tenha podido conhecê-la em seu país de origem. Segundo ele, ela era obrigatória para todos os descendentes machos de Abraão e seus servos, nascidos na casa ou comprados, mesmo de outra raça. Obedecendo à ordem de Deus, Abraão, embora com noventa e nove anos de idade, circuncidou-se a si mesmo e circuncidou todos os homens de sua casa. Ibid., v. 23-27. Um ano mais tarde ele circuncidou seu filho Isaac, com oito dias de idade, segundo a ordem de Deus. Gen., XXI, 4. A partir deste momento a circuncisão ter-se-ia tornado uma prática habitual entre os descendentes de Abraão. Durante sua estadia no Egito, os Hebreus tiveram, em regra ordinária, de observar este costume. Jos., V, 4, 5. Parece, contudo, que houve algumas exceções. Séfora, mulher de Moisés, sob um severo aviso de Deus, apressou-se em circuncidar seu filho Gersão, e após esta operação, ela chamou Moisés de «um esposo de sangue». Exod., IV, 24-26. Alguns críticos supuseram até que Moisés não era circuncidado e que Séfora fez tocar o prepúcio de seu filho nos pés (eufemismo designando os virilia) de seu marido para lhe aplicar o rito da circuncisão e colocá-lo ao abrigo da cólera divina. B. Baentsch, Exodus, Göttingen, 1908, p. 35. Sob Moisés, Deus recorda o preceito da circuncisão: foi por ocasião da Páscoa; somente os circuncisos puderam nela tomar parte. Exod., XII, 44, 48. No deserto, esta obrigação foi também recordada: a mãe de toda criança macho permanecia impura durante sete dias, e a criança era circuncidada no oitavo dia. Lev., XII, 9-3. Durante os 40 anos de estadia no deserto, a lei não foi aplicada nem aos recém-nascidos nem à multidão que se tinha juntado ao povo hebreu. Exod., XII, 38; Lev., XI, 4. Não foi senão em Galgala, na margem direita do Jordão, não longe de Jericó, que a lei da circuncisão foi posta novamente em vigor. Jos., v, 2-11. A partir do estabelecimento dos Hebreus na terra de Canaã, a circuncisão foi sempre rigorosamente observada. Os últimos vestígios da circuncisão, antes de sua abrogação, encontram-se no Evangelho de São Lucas, 1, 59; 11, 21, e nas Epístolas de São Paulo.

2° Simbolismo da circuncisão. — 1. Entre os Hebreus mais do que entre os outros povos, a circuncisão sempre teve um significado religioso. Segundo o historiador jeovista, ela tinha aos olhos de Jeová uma importância capital, visto que Jeová punia quem quer que a omitisse. Exod., IV, 24-26. O Código sacerdotal é mais explícito; ele apresenta, Gen., XVII, 11, a circuncisão como o sinal da aliança entre Jeová e Israel.

No momento em que os Hebreus estão estabelecidos na terra de Canaã, a circuncisão serve para distingui-los dos Filisteus «incircuncisos». Jud., XIV, 3; XV, 18; I Reg., XVII, 6; XVIII, 26, 36; XXX, 4; II Reg., I, 20, etc. Quando Josué circuncidou os filhos de Israel, o Senhor lhe disse, Jos., v, 9: «Eu vos tirei hoje o opróbrio do Egito;» este opróbrio não é senão o desprezo que os egípcios tinham pelos incircuncisos. Este relato deixa entender que, para ocupar legitimamente a terra de Jeová, os israelitas deviam portar sobre a sua carne o sinal da aliança com ele.

Conclui-se, por vezes, que antigamente a circuncisão era praticada em Israel, não sobre as crianças, mas sobre os jovens na época em que eram reconhecidos capazes de portar as armas e de contrair matrimônio. C. Steuernagel, Deuteronomium und Josua, Goettingue, 1900, p. 168. Certos críticos pensam que o Código sacerdotal vinculou este costume mais antigo que Moisés à eleição de Abraão e teria sido o primeiro a atribuir à circuncisão uma eficácia moral e espiritual. Para ele, o valor do sinal não resultaria da sua natureza e da sua significação como rito sangrento, mas procederia unicamente do preceito divino. Loisy, La religion d’Israël, Paris, 1901, p. 30.

Na realidade, o autor do Código sacerdotal vê na circuncisão um sinal de aliança entre Deus e a posteridade de Abraão, e reconhece-lhe um caráter religioso e nacional. Não perdeu, portanto, de vista o verdadeiro sentido da instituição, pois em todo o curso da história dos israelitas a circuncisão teve um caráter religioso e sagrado. Cf. Benzinger, Hebraische Archäologie, Fribourg-en-Brisgau, 1894, p. 156-157; H. Gunkel, Genesis, 2ª ed., Gottingue, 1902, p. 237, 333; Driver, The book of Genesis, Londres, 1904, p. 189-191.

2. Fora da sua significação própria, a circuncisão serviu ainda na Bíblia de base, por analogia, a uma lição moral. Os escritores sagrados falam da circuncisão do coração, Lev., XXVI, 41; Deut., X, 16; XXX, 6, que favorece o amor de Deus, suprimindo os obstáculos interiores. Cf. Jer., IX, 26; Ezech., XLIV, 7, 9; Act., VII, 51; Rom., II, 28, 29. Ela é a condição e o símbolo do apego do coração a Deus. Jer., IV, 4. É-se incircunciso de ouvido, quando não se escuta docilmente a voz de Deus. Jer., VI, 10; cf. Act., VII, 51.

3º Cerimonial. — Para circuncidar, serviam-se de facas de sílex. Exod., IV, 25; Jos., v, 2. Este uso indica a antiguidade do rito, praticado já na época dos instrumentos de pedra. De acordo com o Código sacerdotal, Gen., XVII, 12; Lev., XII, 3, a criança era circuncidada no oitavo dia após o seu nascimento; daí a expressão de São Paulo: περιτομὴ ὀκταήμερος. Phil., III, 5.

4º Abrogação da circuncisão. — 1. Em direito. — A circuncisão foi abrogada em princípio pela lei nova dada ao mundo por Jesus Cristo, e ao mesmo tempo que a lei antiga. Ver t. I, col. 129-133. Mas aqueles que se convertiam do judaísmo tiveram alguma dificuldade em abandonar este costume; é por isso que a assembleia reunida em Jerusalém, na sequência dos relatórios de Paulo e Barnabé, declarou a circuncisão não necessária. Act., XV, 1-29.

Os judaizantes não se consideraram vencidos; combateram sobretudo Paulo, que pregava por toda a parte a abrogação da circuncisão; São Paulo não ensinou menos a mesma doutrina: Tito não é forçado a circuncidar-se, Gal., II, 3; o Cristo de nada serve àqueles que se circuncidam, pois em Jesus Cristo nem a circuncisão nem a incircuncisão tem valor, mas a fé que é operante pela caridade, ibid., v, 4-6, 11; vi, 12-15; a circuncisão e a incircuncisão são inúteis, se não se observam os mandamentos de Deus, Rom., II, 25-29; I Cor., VII, 18-20; é a fé que justifica tanto o circunciso quanto o incircunciso, Rom., III, 30; Abraão foi justificado sendo ainda incircunciso. Rom., IV, 9-12. São Paulo não deposita nenhuma confiança na circuncisão carnal, Phil., III, 3-5; já não há diferença entre a circuncisão e a incircuncisão. Col., III, 11.

2. Na prática. — Tolera-se, contudo, para os judeus convertidos. É assim que Paulo mesmo circuncida, Act., XVI, 1-3, Timóteo, filho de uma mãe judia. Os judeo-cristãos, contra os quais luta este apóstolo, tornavam a circuncisão obrigatória e impunham-na aos pagãos que se convertiam. Após a morte de São Paulo, Cerinto exigia ainda a circuncisão. Ver col. 2151. No século II, os ebionitas, os elcesaítas praticavam o antigo costume judeu. A circuncisão continuou, portanto, apenas nas seitas heréticas. No século IV, ela é ainda praticada pelos nazarenos, judeo-cristãos ortodoxos, cujo erro todo consistiu na sua obstinação em observar a lei mosaica. Cf. Duchesne, Les origines chrétiennes, Paris, 1878-1881, p. 135.

No final do século XII, ela faz uma curta reaparição com os passagianos, condenados nos sínodos de Verona (1184) e de Benevento (1178). Cf. Hergenröther, Histoire de l’Eglise, trad. Bélet, Paris, 1888, t. IV, p. 224-295. Ver Passacrens. Os coptas praticam geralmente a circuncisão, mas não a consideram nem como obrigatória, nem mesmo como uma cerimônia religiosa. Ver col. 245. Hastings, Dictionary of the Bible, t. 1, p. 442-444; Guthe, Kurzes Bibelwörterbuch, Leipzig, 1903, p. 81-88; Vigouroux, Dictionnaire de la Bible (neste contexto, refere-se à obra mencionada sob o título La Bible et les découvertes modernes ou referência equivalente), der israelitischen Religion, 4ª ed., Estrasburgo, 1903, p. 50, 163-164, 214, 220-221; H. Guthe, Geschichte des Volkes Israel, 2ª ed., Leipzig, 1904, p. 74, 232, 260, 283, 286, 306, 341; B. Stade, Biblische Theologie des Alten Testaments, Tubinga, 1905, t. 1, p. 45, 146-147, 276; Schegg, Biblische Archäologie, Fribourg-en-Brisgau, 1887, p. 513-516.

II. TEOLOGIA. — O ensinamento de São Paulo sobre a inutilidade da circuncisão na lei nova era demasiado formal para que se pudesse, fora das seitas judaizantes, sustentar ainda a sua eficácia e mesmo a sua significação religiosa. Assim, todos os doutores cristãos admitiram a doutrina do apóstolo. Os primeiros Padres olhavam a circuncisão apenas como o sinal da aliança dos israelitas com Deus e não lhe reconheciam nenhuma virtude de apagar o pecado original e de conferir a graça.

Mas como a circuncisão aparece em todo o Antigo Testamento com um caráter religioso e moral, perguntou-se, a partir do século IV, qual era, sob a lei antiga e antes da sua abrogação, a sua eficácia própria: se apagava o pecado original, se conferia a graça santificante e de que maneira obtinha os seus efeitos.

I. A CIRCUNCISÃO APAGAVA O PECADO ORIGINAL? — A afirmativa é comumente admitida pelos teólogos, à exceção de Vasquez, Belarmino e Tournely:

1º Prova-se por vezes por Gen., XVII, 14, ainda que esta passagem não pareça decisiva. Cf., para o comentário teológico deste texto, De Augustinis, De re sacramentaria, 2ª ed., Roma, 1889, t. 1, p. 85-89.

2º Mas é sobretudo a tradição patrística que se apoia precisamente sobre o texto do Gênesis. Os principais testemunhos dos Padres da Igreja expressam as razões que os levaram a pensar que a circuncisão apagava o pecado original. No século IV, Santo Ambrósio diz: Egregie autem infantia in primis vagitibus circumcidi mares lex jubet, etiam vernaculos; quia sicut ab infantia peccatum, ita ab infantia circumcisio. Nullum tempus vacuum debet esse tutela, quia nullum est culpæ vacuum. De Abraham, l. II, c. XI, n. 81, P. L., t. XIV, col. 495.

No século V, Santo Agostinho: Ex quo enim instituta est circumcisio in populo Dei, quod erat tunc signaculum justitiæ fidei, ita ad significationem purgationis valebat et in parvulis originalis veterisque peccati, sicut et baptismus ex illo valere cepit ad innovationem hominis ex quo est institutus, De nuptiis et concup., l. II, c. XI, n. 24, P. L., t. XLIV, col. 450; Cont. Julianum, l. I, c. VI, n. 18, P. L., t. XLIV, col. 686 : Quod ergo est octavo die non circumcidi, hoc est in Christo non baptizari; et quod est perire de populo suo, hoc est non intrare in regnum cœlorum; et Cont. litt. Petil., l. II, c. LXXXIII, n. 182, P. L., t. XLIII, col. 309 : Certe antiquus populus Dei circumcisionem pro baptismo habebat. Cf. Epist. ad Dardanum, c. XI, n. 34, P. L., t. XXXIII, col. 257; De pecc. mer. et remiss., l. II, c. XI, n. 17, P. L., t. XLIV, col. 159; c. XXVII, n. 43, P. L., t. XLIV, col. 174.

No século VI, São Fulgêncio, Epist., XVII, n. 31, P. L., t. LXV, col. 470-471, diz: Sancto quoque Abrahæ videat circumcisionis sacramentum non sine tremenda parvuli comminatione mandatum. Ibi quippe Deus fidelis et justus, qui non infert iram ubi culpam non invenit, patri nostro Abrahæ sic loquitur : Masculus qui non fuerit circumcisus carnem præputii sui octavo die, exterminabitur anima illa de populo suo; quia testamentum meum transgressus est. Gen., XVII, 14. Quisquis itaque negat in parvulis secundum carnem nascentibus originale peccatum, dicat in quo potuit infans octo dierum testamentum Dei transgredi, si non in illo transgressus est in quo omnes peccaverunt.

São Gregório Magno, Moral., l. IV, c. III, P. L., t. LXXV, col. 685 : Quisquis regenerationis unda non solvitur, reatu primi vinculi ligatus tenetur. Quod vero apud nos valet aqua baptismatis hoc egit apud veteres... pro his qui ex Abrahæ stirpe prodierant, mysterium circumcisionis.

No século VII, temos Santo Isidoro de Sevilha, Quæst. in V. T., in Gen., c. XI, n. 5-6, P. L., t. LXXXIII, col. 242-243 : Illud autem quid sit quod dictum est : Masculus qui non circumcidetur octavo die, peribit anima illa de populo suo quia pactum meum irritum fecit? Cur enim pereat anima parvuli incircumcisi dum ipsa pactum Dei irritum non fecit, sed qui eum circumcidere neglexerunt ? Nisi ut significaret quod parvuli, non secundum opus, sed secundum originem, in primo homine pactum Dei dissipaverunt, in quo omnes peccaverunt. Nascitur enim omnis non proprie, sed originaliter peccator. Quem nisi regeneratio liberet, peribit anima de populo suo, quia pactum Dei irritum fecit, quando in Adam originaliter etiam ipse peccavit.

No século VIII, São Beda, Hom., X, de festo circum. Domini, P. L., t. XCIV, col. 54, ensina a mesma doutrina: Scire enim debet vestra fraternitas quia idem salutiferæ curationis auxilium circumcisio in lege contra originalis peccati vulnus agebat, quod nunc baptismus agere revelatæ gratiæ tempore consuevit, excepto quod regni cœlestis januam necdum intrare poterant, donec adveniens benedictionem daret qui legem dedit, ut videri posset Deus deorum in Sion; tantum in sinu Abrahæ post mortem beata requie consolati, superne pacis ingressum spe felici exspectabant. Qui enim nunc per Evangelium suum terribiliter ac salubriter clamat : Nisi quis renatus fuerit ex aqua et spiritu non potest introire in regnum Dei (Joa., III, 5); ipse dudum per legem suam clamabat : Masculus cujus preputii caro circumcisa non fuerit, peribit anima illa de populo suo, quia pactum meum irritum fecit (Gen., XVII, 14), id est, quia pactum vite in paradiso hominibus mandatum Adam prevaricante transgressus est, in quo omnes peccaverunt : peribit de coetu sanctorum, si non et fuerit remedio salutari subventum. Utraque ergo purificatio, et circumcisionis videlicet in lege, et in Evangelio baptismi, tollende prevaricationis prime gratia posita est.

No século X, Hugo de São Vítor mantém-se, De sacram., l. 1, part. XII, c. 1, P. L., t. CLXXVI, col. 349, na doutrina corrente: Ut ostenderetur igitur sacramentum circumcisionis, non quemadmodum priora sacramenta ad voluntatem propositum, sed ex necessitate exequendum, preceptum comminatione firmatur cum dicitur : Masculus, cujus preputii caro circumcisa non fuerit, peribit anima illa de populo suo (Gen., XVII, 14). Causa quoque subinfertur, cum dicitur : quia pactum meum irritum fecit. Si ergo per pactum Dei irritum factum prevaricationem primorum parentum intelligimus, cum circumcisus ob prevaricationem pacti periturus dicitur, manifeste datur intelligi sacramentum circumcisionis ad hoc institutum ut per ipsum homo a debito prime prevaricationis liberaretur.

Na mesma época, São Bernardo, Tract. de passione Domini, Coll. n. 2, P. L., t. CLXXXIV, col. 957, diz: Circumcisus enim fuit Jesus, non quod hac circumcisione egeret, que in antiquis Patribus delebat originale peccatum, sicut baptismus in nobis. Esta tradição patrística termina com a Epístola decretal de Inocêncio III contra os cátaros que negavam a necessidade do batismo; o santo pontífice diz: Cum circumcisio tam adultis quam parvulis ex precepto Domini conferretur, ne baptismus, qui successit loco ipsius, et generalior tamen existit, cum tam viri quam femine baptizantur, minoris videatur effectus, tam adultis quam parvulis est conferendus.

Sicut enim sine distinctione qualibet mosaica lex clamat : Anima cujus preputii caro circumcisa non fuerit, peribit de populo suo; ita nunc indistincte vox intonat evangelica : Nisi quis renatus fuerit ex aqua et Spiritu Sancto non intrabit in regnum Dei : ab hac generalitate nec sexum nec etatem excludens... etsi originalis culpa remittebatur per circumcisionis mysterium, et damnationis periculum vitabatur, non tamen perveniebatur ad regnum celorum, quod usque ad mortem Christi fuit omnibus obseratum; sed per sacramentum baptismi Christi sanguine rubricati culpa remittitur, vitatur periculum et ad regnum celorum etiam pervenitur, cujus januam Christi sanguis fidelibus suis misericorditer reseravit. Decret., l. III, tit. XLII, c. 3.

Pedro Lombardo, Sent., l. IV, dist. I, n. 6, P. L., t. CXCII, col. 840, admitiu a mesma doutrina sobre o testemunho de Santo Agostinho e de São Beda. Cf. Bandini, ibid., col. 1091. Todos os grandes escolásticos estão de acordo sobre este ponto. São Tomás, Sum. theol., III, q. LXX, a. 4 : Ab omnibus communiter ponitur quod in circumcisione peccatum originale remittebatur. Por conseguinte, ele considerava a circuncisão como uma figura do batismo cristão. Ibid., a. 3, ad 1um. São Boaventura, In IV Sent., l. IV, dist. I, p. II, a. 2, q. 1: Circumcisio fuit etiam data in remedium contra originale peccatum. Scot, In IV Sent., l. IV, dist. I, q. VI: Supponendum tanquam certum, quod per circumcisionem peccatum originale delebatur, quod patet per auctoritatem sanctorum. Durand, In IV Sent., l. IV, dist. I, q. V: Circumcisio instituta fuit contra originale peccatum, non solum ad effectum remissionis, sed in signum traductionis.

Esses Padres e esses doutores, para provar que a circuncisão apagava o pecado original, apoiavam-se principalmente no texto: Masculus, cujus preputii caro circumcisa non fuerit, delebitur anima illa de populo suo, quia pactum meum irritum fecit. Gen., XVII, 14. Com santo Agostinho, De civitate Dei, l. XVI, c. XXVII, P. L., t. XLI, col. 506-507, entendiam as palavras: delebitur anima, como a morte da alma, e as outras: quia pactum meum irritum fecit, como o pecado original, contraído antes do nascimento e rompendo a aliança divina. Mas essas expressões não têm esse sentido. Significam apenas que o filho de Abraão que não for circuncidado, não fará parte do povo escolhido e não terá parte alguma nas promessas e nas bênçãos da aliança, da qual ele não traz na sua carne o selo obrigatório. P. de Hummelauer, Comment. in Genesim, Paris, 1895, p. 402-403. Alguns, com menos razão, veem aí a pena do corte ou a exclusão do povo escolhido pela excomunhão, o banimento ou até mesmo a pena de morte, em consequência da violação da aliança concluída entre Deus e Abraão. Crélier, La Genèse, Paris, 1889, p. 193.

Desaparecendo a base exegética da opinião dos Padres latinos e dos doutores da Idade Média, o seu sentimento perde muito do seu valor, e a opinião segundo a qual a circuncisão não apagava o pecado original, ainda que seja a menos comum, parece ser, de fato, a mais provável. Ela não faltou, aliás, com defensores na antiguidade eclesiástica e nos tempos modernos. Com os Padres anteriores ao século IV, são Crisóstomo afirma várias vezes e muito explicitamente que, assim como Abraão, justificado pela fé antes de ter sido circuncidado, In Rom., homil. VII, n. 5, P. G., t. LX, col. 461; homil. XII, n. 1, col. 473, os antigos patriarcas, Isaac, Jacó, assim como Raabe, a mulher pública, foram justificados pela fé. Homil. II, n. 6, col. 40.

Os escritores gregos permaneceram apegados ao sentimento de Crisóstomo. No século XVI, Luciano, beneditino de Mântua, Joannis Chrysostomi commentaria in epistolam Pauli ad Romanos, Brescia, 1538, obra colocada no Índice do concílio de Trento, sustentou o sentimento dos Padres gregos, de que a circuncisão era simplesmente um sinal distintivo dos israelitas e que ela não tinha qualquer eficácia para a salvação. Sainjore (R. Simon), Bibliothèque critique, Paris, 1708, t. 1, p. 354, 358-360. Aliás, outro beneditino, Druthmar, que viveu no século IX, via a circuncisão simplesmente como um sinal exterior que distinguia os judeus dos estrangeiros, ao mesmo título que as franjas das vestes. Expositio in Matth., c. iv, P. L., t. cvi, col. 1447. Estius, comentando Rom., iv, 11, declara admodum probabile signum circumcisionis ex divina institutione nihil ad justitiam valuisse, sed nudum fuisse signum fœderis quod Deus iniit cum Abraham ejusque posteritate. É, ao menos, a única coisa que é afirmada no Gênesis. É o sentimento dos antigos, de são Crisóstomo e dos gregos que o seguiram. A opinião contrária só prevaleceu entre os latinos após santo Agostinho. Absolutissima in omnes beati Pauli et septem catholicas apostolorum epistolas commentaria, Paris, 1666, p. 44-45. Sobre I Cor., vii, 18, ele afirma que a circuncisão não tinha por si mesma qualquer valor para a justiça e a salvação, nem no tempo de que fala são Paulo e onde ela era um sacramento morto, nem mesmo no tempo da antiga lei. Ela só valia então pela sua relação com a lei da graça pela fé e essa relação é objeto de discussão por parte dos teólogos. Ibid., p. 260.

II. A CIRCUNCISÃO CONFERIA A GRAÇA? — Existe sobre este ponto três opiniões: 1° Negativa. — Foi sustentada por são Tomás, Belarmino, Cano e Vasquez, etc., em nossos dias, por De Augustinis. São Tomás, Sum. theol., Ia IIae, q. lxii, a. 6, ad 1um, após ter trazido diversas opiniões, conclui assim: Et ideo melius dicendum videtur quod circumcisio, sicut et alia sacramenta veteris legis, erat solum signum fidei justificantis.

Um pouco mais adiante, q. lxx, a. 4, ele se exprime assim: “In circumcisione conferebatur gratia quantum ad omnes gratiæ effectus; aliter tamen quam in baptismo. Nam in baptismo confertur gratia ex virtute ipsius baptismi, quam habet in quantum est instrumentum passionis Christi jam perfectæ; in circumcisione autem conferebatur gratia non ex virtute circumcisionis, sed ex virtute fidei passionis Christi, cujus signum erat circumcisio; ita scilicet que homo qui accipiebat circumcisionem, profitebatur se suscipere talem fidem, vel adultus pro se, vel alius pro parvulis. Unde et apostolus dicit (Rom., iv, 11) quod Abraham accepit signum circumcisionis signaculum justitiæ fidei, quia scilicet justitia erat ex fide significata, non ex circumcisione significante. Cf. Ia IIæ, q. cii, a. 2 (aplica-se a todos os ritos da antiga lei); In Rom., lect. 11, c. iv. Essa opinião se apoia: 1.

em Rom., iv, 9-12, onde são Paulo ensina que a circuncisão não justifica, já que Abraão foi justificado antes de ser circuncidado, e em Gál., iv, 9, onde todos os ritos da antiga lei são chamados de «fracos e pobres elementos»; 2. no concílio de Florença, que diz ao falar dos sacramentos da antiga lei: Illa enim non causabant gratiam, sed eam solum per passionem Christi dandam esse figurabant, e no concílio de Trento, sess. VII, can. 2, que parece insinuar esta tese: Si quis dixerit ea ipsa novæ legis sacramenta a sacramentis antiquæ legis non differre, nisi quia ceremoniæ sunt aliæ et alii ritus, anathema sit. Cf. Denzinger, Enchiridion, 6e édit., p. 160, 195.

2° Afirmativa. — Foi sustentada por Alexandre de Hales, são Boaventura, Valentia, Suarez. São Boaventura diz: Circumcisio conferebat gratiam habilitantem ad bonum, licet tam parvulam, quod solum merebatur dici deletiva culpæ et non habilitativa potentiæ. IV Sent., dist. I, part. II, a. 2, q. ii. Essa opinião se apoia: 1. na autoridade de santo Agostinho; comentando Gen., xvii, 14, o santo doutor diz: Circumcisio enim illa octavi diei figuram resurrectionis diei Salvatoris et GRATIAM BAPTISMI gestabat, Hypognosticon, l. V, c. v, P. L., t. XLIV, col. 1653; 2. na autoridade de Inocêncio III, que declara, c. Majores, l. III, Decret., tit. XLII, c. 8, que o «batismo sucedeu à circuncisão».

3° Intermediária. — O representante desta opinião é sobretudo de Lugo, disp. V, sect. 11, n. 40; segundo esta opinião, a circuncisão conferia a graça, não enquanto rito da lei mosaica, mas enquanto continha o remedium naturæ; ela conferia a graça não enquanto a criança era agregada ao povo judeu, mas enquanto por ela era agregada ao povo fiel. Cf. Hurter, Theologiæ dogmaticæ compendium, 3e édit., t. III, p. 281. Estius, In IV Sent., disp. I, § 29-32, Paris, 1662, t. iv, p. 26-30, ensina que a circuncisão não conferia a graça, nem mais nem menos que os sacramentos da antiga lei. Todavia, tendo sido instituída antes da lei, ela não era um sacramento da lei. Mas, tal como as cerimónias antigas que não justificavam per se et a Christo separatæ, a circuncisão não justificava tampouco per se et a gratia Christi separata. Tendo sido instituída como sinal do futuro, ad significationem futurorum quæ per Christum oportebat fieri, ela conferia a justificação em virtude da graça de Cristo que ela representava. É assim que o batismo a substituiu.

III. DE QUE MANEIRA A CIRCUNCISÃO CONFERIA A GRAÇA? — A resposta a esta questão resulta do que precede. Ela varia segundo os doutores:

1° São Tomás recusa à circuncisão o poder de conferir a graça ex opere operato. Cf. para esta tese, Billuart, tr. XVI, diss. III, a. 6, n. 2; de Lugo, disp. V, sect. 1, n. 61.

2° São Boaventura, Escoto e, entre os modernos, Estius, parecem sustentar que a circuncisão conferia a graça ex opere operato. Cf. De Augustinis, op. cit., p. 54.

3° Finalmente Suarez, disp. X, sect. 1, admite que, em certos casos apenas, ela conferia a graça ex opere operato: Sed INTERDUM, diz ele, eis datam esse [gratiam] preter opus operantis solum ob specialem necessitatem, cui divina providentia non statuit aliter subvenire, que necessitas in parvulis tantum accidebat.

Autor original: V. Ermoni

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