
ATOS DOS APÓSTOLOS. Um primeiro artigo será dedicado ao livro dos Atos dos Apóstolos; um segundo, ao versículo 18 do capítulo XIX deste livro; um terceiro, aos Atos apócrifos dos apóstolos.
I. ATOS DOS APÓSTOLOS (Πράξεις Ἀποστόλων; Acta ou Actus apostolorum). — J. Autor. II. Data. III. Propósito. IV. Texto e versões. V. Comentários principais. VI. Informações doutrinárias.
I. AUTOR. — Os Atos dos Apóstolos são atribuídos a São Lucas pelo Concílio de Trento: Actus apostolorum a sancto Luca conscripti, sess. IV. Esta atribuição é plenamente justificada pelos testemunhos tradicionais e pelo exame intrínseco do livro. — 1º É certo que, por volta de meados do século II, a Igreja romana considerava São Lucas como o autor dos Atos. O Cânon de Muratori (160-170) diz, com efeito: Acta autem omnium apostolorum sub uno libro scripta sunt. Lucas optime Theophile comprehendit, quia sub præsentia ejus singula gerebantur. Santo Irineu, que reuniu em sua pessoa as tradições da Ásia e da Gália, expressa-se assim, após ter relatado diversos fatos dos Atos: Omnibus his cum adesset Lucas, diligenter conscripsit ea, uti neque mendax neque elatus deprehendi possit. Cont. hær., III, xiv, 1, P. G., t. VII, col. 914. Clemente de Alexandria, Strom., V, 12, P. G., t. IX, col. 124: Sicut et Lucas in Actibus apostolorum commemorat Paulum dicentem: Viri Athenienses... E cita o início do discurso no Areópago. Act., XVII, 22. Tertuliano, De jejun., x, P. L., t. II, col. 966: Porro, cum in eodem commentario Luce et tertia hora orationis demonstretur, sub qua Spiritu Sancto initiati pro ebriis habebantur, et sexta, qua Petrus ascendit in superiora. Cf. Act., II, 15; X, 9. Finalmente, Eusébio de Cesareia, que resume as antigas tradições em sua História Eclesiástica, coloca os Atos entre os livros canônicos, admitidos sem contestação, τὰ ὁμολογούμενα, H. E., III, 25, P. G., t. XX, col. 288, e os atribui nitidamente a São Lucas.
O exame intrínseco do livro confirma poderosamente os testemunhos tradicionais. "Uma coisa está fora de dúvida", diz o próprio Sr. Renan, Les apôtres, Introd., p. x, "é que os Atos tiveram o mesmo autor que o terceiro Evangelho e são uma continuação deste Evangelho. Não nos deteremos a provar esta proposição, a qual nunca foi seriamente contestada." Os prefácios que... estão à frente dos dois escritos, a dedicatória de um e de outro a Teófilo, a perfeita semelhança de estilo e de ideias, fornecem a este respeito abundantes demonstrações. Dado, com efeito, que a unidade de estilo em toda a obra supõe a unidade de autor; que o emprego do plural, "nós", a partir do capítulo XVI, revela claramente um companheiro de São Paulo, da mesma forma que os detalhes do relato mostram uma testemunha muitas vezes ocular; que entre os Atos e o terceiro Evangelho há um visível parentesco de estilo, de método e de doutrina geral; que o livro inteiro denota um conhecimento histórico aprofundado do mundo grego e romano; que, finalmente, todos estes caracteres reunidos convêm perfeitamente à pessoa de São Lucas, sem que nenhum outro escritor possa se prevalecer dos mesmos títulos: deve-se concluir logicamente que ele é o autor verdadeiro dos Atos dos Apóstolos. Veja Revue biblique, julho de 1895, p. 322-326. — Da mesma forma, todas as tentativas feitas pelos racionalistas para explicar de outra maneira a origem deste livro são hipóteses gratuitas e muitas vezes inverossímeis. Veja Vigouroux, Dictionnaire de la Bible, t. I, col. 155. Começa-se, aliás, no mundo racionalista, a retornar neste ponto ao sentimento tradicional da Igreja Católica. Veja M. Blass, Acta apostolorum sive Luce ad Theophilum liber alter, Göttingen, 1895; A. Harnack, Lukas der Arzt, etc., Leipzig, 1906; Die Apostelgeschichte, 1908.
II. DATA. — A tradição é omissa quanto à data precisa e ao local da composição dos Atos. Admite-se geralmente, entre os católicos, que foram redigidos ou, pelo menos, terminados em Roma, no ano 64, ao final do segundo ano do cativeiro de São Paulo. Este período da vida do apóstolo, sendo relativamente calmo, fornecia a São Lucas, que ainda vivia com ele, uma ocasião favorável para escrever seu livro. Esta conclusão é sugerida pela brusca interrupção do relato, precisamente neste momento, sem nos dar a conhecer o desfecho de um processo cujas peripécias anteriores foram cuidadosamente narradas. — A maior parte dos críticos protestantes e racionalistas atribui outra data aos Atos. Uns, como o Sr. Harnack, Die Chronologie der altchristlichen Literatur, I, 1, Leipzig, 1897, situam-nos sob o reinado de Domiciano, por volta do ano 93. Outros, como Baur (†1860) e sua escola, recuam a data até o século II. Esta última opinião é, aliás, geralmente abandonada hoje, e com infinita razão. Quanto à data atribuída pelo Sr. Harnack, ela é rejeitada por críticos como o Sr. Blass, que prefere, em suma, a data tradicional.
III. OBJETIVO. — O objetivo dos Atos é narrar, para as gerações futuras, as origens e a difusão da Igreja, primeiramente entre os judeus (I-IX) e, em seguida, entre os gentios (X-XXVIII). Em outros termos, mostram o progresso do cristianismo no mundo, durante cerca de trinta anos, seguindo o caminho indicado pelo próprio Jesus Cristo (At 1,8). O papel de São Pedro é preponderante na primeira parte (I-IX), e o de São Paulo na segunda (X-XXVIII). — Além deste objetivo primordial dos Atos, deve-se admitir outro, que seria a apologia de São Paulo e a intenção deliberada do autor de mostrar, na história do desenvolvimento da Igreja, o acordo completo que existia entre São Pedro e o apóstolo dos gentios, sua harmonia absoluta do ponto de vista dogmático e disciplinar? Certos católicos, como o Pe. Semeria (Revue biblique, julho de 1895, p. 320), acreditam dever dar a esta questão uma resposta afirmativa, mantendo, é claro, contra a escola racionalista de Tubinga, que sustenta uma opinião análoga, a historicidade e a veracidade absoluta dos Atos. Onde Baur vê apenas uma preocupação apologética, inspirando a obra de São Lucas e transformando-a em uma espécie de romance histórico em que os fatos seriam alterados deliberadamente para conciliar as partes opostas de São Pedro e São Paulo, o Pe. Semeria proclama a existência de fatos rigorosamente históricos, postos a serviço de uma tese de conciliação, por um emprego judicioso dos documentos que o autor tinha à sua disposição. Esta teoria é engenhosa, mas muitos a consideram contestável.
IV. TEXTO E VERSÕES. — I. TEXTO. — São Lucas escreveu os Atos em grego, um grego regularmente puro, mesclado, contudo, de numerosos aramaísmos, sobretudo na primeira parte de seu trabalho. Os principais manuscritos do texto são de dois tipos: os unciais, ou de escrita maiúscula, que são os mais antigos; e os cursivos, ou de escrita corrente e minúscula, que datam do século IX ao XV. Entre os unciais, os principais são: o Vaticanus (B), século IV; o Sinaiticus (א), século IV; o Alexandrinus (A), século V; o codex Ephraemi (C), século V; o codex Bezae ou Cantabrigiensis (D), grego e latim, século VI; o Laudianus (E), grego e latim, século VI. Pode-se acrescentar, embora menos importantes, o Mutinensis (H), século IX; o Angelicus (L), século IX; o Porfirianus (P), palimpsesto, século IX. — Os cursivos representam, em geral, um texto bem inferior aos unciais; contudo, os manuscritos 13, 31, 61, 137, 480 oferecem aqui e ali lições muito antigas e dignas de atenção.
De acordo com os críticos mais recentes e autorizados, Westcott e Hort (The New Testament in the Greek original, Londres, 1881; 2ª ed., 1896), é o Vaticanus que deve ser seguido de preferência para reconstituir, o máximo possível, o texto primitivo original, tal como saiu da pena de São Lucas. — Entre os outros manuscritos unciais, o codex Bezae tem uma importância especial porque, segundo Westcott e Hort (loc. cit., t. II, p. 149), «ele oferece, melhor que qualquer outro manuscrito grego, uma imagem fiel do estado em que os Atos eram geralmente lidos no século III e, provavelmente, boa parte do século II». Além disso, serve de base a uma teoria recente sobre a origem dos Atos. Se devemos acreditar no Sr. Blass, que formulou primeiramente esta teoria (loc. cit., Introd.), São Lucas teria fornecido sucessivamente duas edições de seu livro: a primeira contaria, como testemunhas principais, o codex Bezae, o palimpsesto latino de Fleury e a versão siríaca filoxeniana; a segunda seria aquela representada pela imensa maioria dos manuscritos e versões. Esta teoria teve como resultado atrair a atenção dos críticos sobre a recensão ocidental do texto e fazer com que se reconhecesse nela um valor maior do que se supunha anteriormente. — Entre os manuscritos cursivos, o 2 e o 4, de origem bizantina e tardia, merecem ser assinalados porque Erasmo utilizou-se apenas deles para constituir o primeiro texto impresso dos Atos, que publicou em 1516, e que se tornou, então, com ligeiras modificações, o célebre textus receptus, cujo valor foi muito sobrestimado pelas correntes protestantes. A maioria, aliás, reconhece isso hoje em dia.
II. VERSÕES. — As antigas versões possuem uma importância crítica considerável, frequentemente igual e, por vezes, até superior à dos manuscritos, quando sua antiguidade é bem constatada, pois representam, então, um texto mais antigo. As principais são: as latinas, as siríacas e as egípcias. — A mais antiga versão latina dos Atos é chamada comumente de Itálica, desde Santo Agostinho, que a prefere às outras versões ou recensões existentes em sua época. (De doctr. christ., II, 15, P. L., t. XXXIV, col. 46). Ela data, talvez, de meados do século III. Por volta do fim do século IV, São Jerônimo apresentou uma revisão que faz parte da Vulgata atual. Os principais manuscritos dos Atos assim revisados são o Amiatinus e o Fuldensis, do século VI. Ver Wordsworth e White, Novum Testamentum D. N. J. C. latine, Oxford, 1889, 5 volumes, fasc. der. A edição oficial na Igreja é a de Sisto V, revista e corrigida por ordem de Clemente VIII. As leis eclesiásticas proíbem qualquer alteração na terceira edição, a clementina, surgida em 1598. — A principal e a mais antiga das versões siríacas é a Peschito, do século II, notável por sua exatidão geral e sua literalidade. Segundo Westcott e Hort, não a possuímos mais hoje senão em um texto completamente revisado, no século IV ou V, por ordem da autoridade eclesiástica. Mais tarde, em 508, uma nova tradução, quase servil, foi feita sob os cuidados do bispo Filoxeno. Ela foi revisada em 616 por Tomás de Heracleia. Há, enfim, uma terceira versão siríaca, dita de Jerusalém, que Tischendorf situa no século V, e outros críticos em uma época posterior. — As versões egípcias ou coptas são a versão boáirica, do século II, que as completa; e a versão saídica, do século III, que é fragmentária. — Notemos ainda a versão etíope, do século IV ou V; e a versão armênia, do século V.
V. COMENTADORES PRINCIPAIS. — 1° Antigos: S. João Crisóstomo, que possui sessenta Homilias sobre os Atos, P.G., t. LI, col. 65-124; t. LX, col. 13-384; Cassiodoro, Complexiones in Actus apost., P.L., t. LXX, col. 1381-1406; S. Beda, Expositio super Acta apost. et Liber retractionis in Actus apost., P.L., t. XCII, col. 937-1032; Teofilacto, In Acta apostolorum, P.G., t. CXXV, col. 483-1132. — 2° Modernos: Erasmo, Adnotationes, Basileia, 1516; Vatable, Adnotationes, Paris, 1545; Gagny, Scholia, Paris, 1552; Arias Montanus, Elucidationes in Acta, Antuérpia, 1575; Luc de Bruges, Notationes, Antuérpia, 1583; Lorin, S.J., In Acta apost. commentaria, Lyon, 1605; G. Sanchez, S.J., Commentarii in Actus apost., Lyon, 1616; Fromond, Actus apostolorum... illustrati, Lovaina, 1654. — 3° No século XIX, entre os católicos: Beelen, Comment. in Acta apost., 2 in-4°, 2ª ed., Lovaina, 1864; Patrizi, S.J., In Actus apost. commentarii, Roma, 1867; Bisping, Exegetisches Handbuch, Münster, 1871, t. IV; Crelier, Les Actes des apôtres, Paris, 1883; J. Felten, Die Apostelgeschichte, 1892; J. Knabenbauer, Comment. in Actus apost., Paris, 1899; J. Belser, Die Apostelgeschichte, 1905. — Entre os autores de tradição protestante: Baur, Paulus der Apostel, 1867; Baumgarten, Apostelgeschichte, 1852; Page et Walpole, The Acts of the Apostles, 1895; Nösgen, Commentar über die Apostelgeschichte des Lukas, 1892; Wendt, Die Apostelgeschichte, 8ª ed., 1899; H. Holtzmann, Die Apostelgeschichte, 3ª ed., 1901; Rackham, The Acts of the Apostles, 1901, etc.
VI. INFORMAÇÕES DOUTRINÁRIAS. — I. DIVINDADE DO CRISTIANISMO. — Três classes gerais de fatos concorrem para estabelecê-la. São eles: 1° o testemunho dos apóstolos; 2° seus milagres; 3° os caracteres principais da Igreja nascente. — 1° O testemunho dos apóstolos. — O objetivo principal que se propõem os apóstolos, em seus discursos aos judeus, é provar que Jesus de Nazaré é o Messias divino anunciado e esperado há séculos: II, 36; IV, 27; X, 37, 38; IX, 22; XV, 3; XVIII, 28; de onde se segue que o cristianismo é uma religião divina. Ora, para fazer essa demonstração e atingir seu objetivo, os apóstolos se servem de dois meios: 1. Eles afirmam o grande fato da ressurreição de Jesus, e apresentam-se, acima de tudo, como as testemunhas autorizadas desse milagre: I, 22; I, 32; I, 15; IV, 33; V, 32, etc. É a função primeira de seu apostolado e como que o resumo de seus discursos. E essa afirmação é a expressão sincera de um conhecimento certo: sua atitude diante do sinédrio (IV, V) prova sua sinceridade; e suas relações anteriores com Jesus (I, 2, 3, 21, 22), assim como seu conhecimento das Escrituras (II, 24-36), demonstram sua competência. — 2. Eles citam e interpretam a Escritura, aplicando a Jesus diversas passagens messiânicas do Antigo Testamento, especialmente aquelas que concernem sua ressurreição, I, 24-36; XIII, 16-38, etc. — 2° Os milagres dos apóstolos. — Esses milagres provam a divindade de sua missão e, por conseguinte, da religião que ensinam. Os Atos assinalam, de uma forma geral, "os numerosos prodígios e milagres que faziam os apóstolos" (II, 43; V, 12, etc.); e, em particular, vários milagres retumbantes de São Pedro (III, 1; IX, 33-35; IX, 36-42) e vários de São Paulo (XIV, 11; XIV, 9; XV, 18; XIX, 12; XX, 10; XXVIII, 5, 8, 9). — 3° Caracteres principais da Igreja nascente. — 1. A intervenção miraculosa do Espírito Santo na fundação definitiva da Igreja, em Pentecostes, II, 1-5. — 2. A vida fervente dos primeiros cristãos, II, 44-47; IV, 32. — 3. A propagação rápida e o desenvolvimento considerável do cristianismo na Palestina (II, 41; IV, 4; V, 14; VIII; IX, 34), na Fenícia, em Chipre e até na Síria (XI, 19-22), em uma dúzia de anos; depois na Cilícia, na Macedônia, na Acaia e na Ásia (XV-XXI), e até em Roma (XXVIII, 24, 31), em uma vintena de anos. — 4° A coragem dos apóstolos e dos discípulos (IV, 13, 19, 20; V, 40, 41, etc.), coragem levada às vezes até o martírio (VII, 59; XII, 2). — 5. A solicitude miraculosa de Deus para com os apóstolos (V, 19), e especialmente São Pedro (XII) e São Paulo (XVI).
II. ECLESIOLOGIA. — A Igreja apresenta-se a nós desde a origem: 1° como uma sociedade autônoma e distinta do judaísmo; 2° provida de uma hierarquia que se desenvolve conforme as circunstâncias; 3° munida de seus poderes e de seus caracteres essenciais. — 1° Embora recrutada exclusivamente, na origem, no seio do judaísmo, a Igreja era, contudo, profundamente distinta pela doutrina especial que professava, II, 42; IV, 32-35; por seus ritos sacramentais, o batismo e a fração do pão, II, 41, 42; por suas reuniões específicas em casas particulares, em Jerusalém, para a fração do pão, II, 46. Esta distinção acentuou-se muito mais alguns anos depois, pela conversão e introdução dos pagãos na Igreja, XI, bem como pelas decisões do concílio de Jerusalém, XV, que constituíam a revogação implícita das observâncias mosaicas. — 2° A Igreja nascente foi primeiramente governada pelo colégio apostólico em sua totalidade, II, 42; IV, 32-35, etc. Mas logo os apóstolos tiveram que se adjuntar colaboradores, chamados diáconos, para auxiliá-los nos serviços de ordem material, e sem dúvida também de ordem litúrgica, VI, 1-6. Pouco depois, os Atos assinalam outra categoria de pastores, chamados ora pelo nome de πρεσβύτεροι, que a Vulgata traduz indistintamente por seniores, presbyteri, majores natu, e ora pelo nome de ἐπίσκοποι, episcopi. Cf. XX, 28; XX, 17. Esta terminologia algo flutuante pareceria indicar que o presbiterato e o episcopado (ver esses verbetes) não eram ainda, nesse momento preciso, duas funções nitidamente separadas, e militaria em favor da opinião de que o episcopado unitário apenas teria existido após a morte dos apóstolos. Em contrapartida, outras passagens dos Atos mostram claramente que a Igreja de Jerusalém, ao menos, era já governada por um bispo propriamente dito, São Tiago. O que o comprova é a posição excepcional que esse personagem detém na igreja em questão, XII, 17; XV, 13; XXI, 18. No seio do próprio colégio apostólico, a preeminência de São Pedro é visível. Ele exerce autoridade ao tomar a iniciativa da eleição de um décimo segundo apóstolo, de quem proclama a necessidade e as condições, I, 15-23; ao castigar severamente a falta de Ananias e Safira, V, 1-11; ao flagelar o crime de Simão, o mago, VIII, 20-24; ao receber, primeiramente, os judeus e, mais tarde, os gentios no seio da Igreja, II, 41; X, 9-48; ao estender sua solicitude não somente sobre o colégio apostólico, que ele vinga da calúnia, I, 15-21, mas sobre todas as igrejas particulares que percorre e visita, IX, 32; ao decidir, no concílio de Jerusalém, por uma declaração doutrinal importante, a questão de princípio que era debatida sobre as observâncias mosaicas, XV, 7-12. Seu encarceramento por Herodes e sua libertação por um anjo são cercados de todos os caracteres que supõem nele um chefe de grupo, XII, 1-12. Enfim, considerado como pregador e taumaturgo, seus discursos e seus milagres têm, na primeira parte dos Atos, um relevo e uma importância bem superiores aos dos outros apóstolos, dos quais ele é o porta-voz, I, 15-23; II, 14-44; III, 12-13; V, 3-9, 15, etc. — 3° A Igreja já está munida de seus caracteres e poderes essenciais. Ela é uma, embora dispersa em diversos países, IX, 31; santa, em seus chefes que sofrem com alegria pelo Cristo, V, 41, e em seus membros que levam uma vida fervorosa, II, 44-47; IV, 32, 34, 35; enfim, católica, no sentido de que seu divino fundador previu sua extensão até as extremidades da terra, I, 8, e que os apóstolos deram a essa predição, no espaço de trinta anos, uma execução magnífica, embora parcial. Act., passim. — A Igreja exerce seu poder doutrinal por uma pregação ininterrupta, passim, e por decisões dogmáticas, XV, 11, 19, 28; seu poder de ordem, pela administração do batismo, II, 4, etc., a imposição das mãos, VI, 6; VIII, 17; XIII, 2, 3, etc., a fração do pão, II, 42, 46, etc.; seu poder disciplinar, pelos decretos do concílio de Jerusalém, XV, 29.
II. TEOLOGIA (propriamente dita). — Os Atos mencionam: 1° a existência de um Deus criador, conservador e providência do mundo, fácil de conhecer, XVII, 24-30; seus principais atributos, tais como sua potência, IV, 30, 31, etc., sua justiça, V, 1-11; XII, 23, etc., sua misericórdia, IX, etc.; — 2° o dogma da Trindade: o Pai, I, 7; II, 22, 33, 36; III, 13, 18, 26, etc.; o Filho, II, 13, 26; IV, 27, 30; IX, 20, etc.; o Espírito Santo, I, 8, 16; II, 4; IV, 25; V, 3, 4, 32; VII, 54, etc. Sem dúvida, entre as passagens onde o Espírito Santo é mencionado, há algumas que são um pouco vagas e que visam mais uma graça ou um simples dom finito do que uma pessoa divina; mas a maioria demonstra ou supõe claramente a personalidade do Espírito Santo. As operações que lhe são atribuídas são, de fato, operações pessoais, I, 16; II, 38; V, 3, 19; VII, 51; IX, 31; XI, 12; XIII, 4, etc. Há mesmo textos que o chamam expressamente Deus, V, 3, 4; XXVIII, 25-29. Entre as obras que lhe são atribuídas especialmente, nota-se sua ação maravilhosa sobre os apóstolos, II, 1-5; IV, 8; V, 32; XIII, 2, 4; a assistência que lhes fornece para as decisões dogmáticas, XV, 28; a efusão da graça em geral, II, 38, sobretudo pelo sacramento da confirmação, VIII, 15-17; certos favores extraordinários, chamados desde então graças gratis datae, X, 44-46; XIX, 6.
IV. CRISTOLOGIA. — Jesus de Nazaré não é apenas o Messias ou o Cristo, II, 36; IX, 22; XVII, 3; XVIII, 28; mas ele é também Filho de Deus, III, 13, 26; IV, 30; VIII, 37; IX, 20; e Deus ele mesmo, XX, 28, já que, segundo o texto, o sangue pelo preço do qual a Igreja foi adquirida é o próprio sangue de Deus. Esta última passagem, XX, 28, prova ao mesmo tempo que Jesus Cristo é simultaneamente Deus e homem, e que ele possui suas duas naturezas na unidade de uma mesma pessoa, uma vez que é o mesmo que é Deus e que adquiriu a Igreja ao preço de seu sangue. É também uma prova da legitimidade da comunicação dos idiomas. — Quarenta dias após sua morte, Jesus subiu ao céu, onde está à direita do Pai, I, 3, 9-11; VII, 55, 56. Fora dele, não há salvação para os homens, IV, 12. Ele foi estabelecido juiz dos vivos e dos mortos, X, 42; e, da mesma forma que subiu ao céu no dia da Ascensão, voltará mais tarde, I, 11.
V. GRAÇA E SACRAMENTOS. — 1° Jesus Cristo é o princípio universal e indispensável da salvação, IV, 2; pois ele adquiriu a Igreja ao preço de seu sangue, XX, 28. É, portanto, por sua graça que todos os homens, judeus e gentios, devem ser salvos, XV, 11. A condição necessária da salvação é a fé sincera em Jesus Cristo, Filho de Deus, VIII, 37; XVI, 31; e, além disso, o arrependimento do pecado cometido, quando se trata dos adultos, II, 38; III, 19. — 2° Recebe-se então o batismo, que apaga os pecados, II, 38. O batismo é conferido, nos Atos, "ao nome de Jesus Cristo", isto é, segundo o texto grego (eis to onoma, XIX, 5; epi to onomati, II, 38), para pertencer ao Cristo e ser agregado à sua religião, sobre o fundamento de seu nome. É por oposição ao batismo de São João Batista que os Atos falam do batismo "ao nome de Jesus", ou seja, do batismo cristão. O batismo se administra com água natural, que é assim sua matéria remota, VIII, 36, 38; X, 47. O modo de aplicação da água não é indicado, salvo para o batismo do eunuco da rainha Candace, onde o batizante e o batizado desceram ambos à água e subiram em seguida, o que supõe o batismo por imersão, VIII, 38, 39. Três outras passagens, IX, 18; XVI, 33; XX, 16, onde se trata de batismos dados no interior de residências, não podem ser explicados senão na hipótese de um batismo conferido por infusão. O cuidado de batizar era ordinariamente confiado pelos apóstolos a ministros auxiliares, VI, 12, 13, 38; IX, 18; X, 48. — 3° Os novos cristãos recebiam em seguida, pela imposição das mãos dos apóstolos, o Espírito Santo, isto é, um sacramento distinto do batismo, a confirmação, VIII, 15-17; XIX, 6. Há, com efeito, neste rito, um sinal sensível e sagrado, produtor da graça, já que ele atrai o Espírito Santo às almas; tendo o caráter de uma instituição permanente, como deixa entender São Pedro, II, 38; cumprido somente sobre os cristãos já batizados, e pelo ministério exclusivo dos apóstolos. A efusão do Espírito Santo era por vezes acompanhada de dons extraordinários, XIX, 6; mas isso não era senão o efeito acidental e passageiro do sacramento. — 4° A "fração do pão", klasis tou artou, e a "comunhão", koinonia, das quais se fala nos capítulos II, 42, 46; XX, 7, não é outra coisa que a Eucaristia. A prova disso é a semelhança estreita dessas fórmulas com as do relato da Ceia, Mt 26, 26; Lc 22, 19; 24, 35. Cf. I Cor 10, 16. O ato litúrgico marcado de uma forma um pouco vaga, XIII, 2 (leitourgounton auto), parece também designar a Eucaristia, mas considerada sobretudo como sacrifício. — 5° Os Atos mencionam também o sacramento da penitência, ou pelo menos a confissão sacramental, na passagem bem conhecida XIX, 17-20? Nós a examinaremos no artigo seguinte. — 6° Há enfim um rito especial para constituir os ministros sagrados e os investir de funções particulares, VI, 1-7; XIII, 2, 3; XIV, 22; XX, 28. Este rito, chamado desde então ordem, consiste na imposição das mãos dos chefes eclesiásticos, é aplicado sob a ação do Espírito Santo, e confere poderes particulares e públicos na Igreja. Ele oferece assim os caracteres essenciais de um sacramento. Cf. I Tm 4, 14; 5, 22; II Tm 1, 6.
VI. DOGMAS DIVERSOS. — 1° A existência dos anjos e seu ministério junto aos homens, V, 19; VII, 26; X, 3, 7; XI, 13; XII, 7-16; XXVII, 22. — 2° A unidade da espécie humana, XVII, 26; e a estreita dependência do homem vis-à-vis de Deus, XVII, 28. — 3° A ressurreição e o julgamento, IV, 2; X, 42; XVI, 31, 32; XXII, 6; XXIV, 15, 21, 25. — 4° A necessidade e a eficácia da oração, IV, 31; VI, 4; X, 2, 4; XIII, 5; XXVIII, 24, etc. — 5° O mérito da esmola, IX, 36; X, 2, 4, etc. Ver os artigos do Dictionnaire consagrados aos diversos pontos de doutrina que acabam de ser indicados.
J. BELLAMY.
Autor: Sem assinatura
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