ATOS DOS APÓSTOLOS, XIX, 18

Verbete sobre ATOS DOS APÓSTOLOS, XIX, 18 na Enciclopédia Católica

Multique credentium veniebant confitentes et annuntiantes actus suos.

Polloi te (D, polloi de) ton pepisteukoton erchonto exomologoumenoi kai anaggellontes tas praxeis auton.

Narra-se, nos versículos precedentes, que certos judeus de Éfeso tinham tentado inutilmente expulsar, em nome de Cristo, o demônio de um possesso, o qual se lançara sobre eles e os maltratara. "Este fato, diz o texto, tornou-se conhecido por todos os judeus de Éfeso; foram tomados de temor e glorificavam o nome do Senhor Jesus. E muitos daqueles que tinham crido, etc." O texto acrescenta que muitos também queimaram publicamente seus livros de magia, representando um valor de cinquenta mil denários; e conclui que, assim, a palavra de Deus crescia e era confirmada. At., XIX, 13-21.

De qual confissão se trata no versículo 18? A discussão do texto, quase completamente negligenciada pelos Padres (veja-se, contudo, Ecumênio, P. G., t. CXVIII, col. 252), não assumiu uma certa importância na história da exegese senão a partir das controvérsias surgidas no século XVI entre católicos e protestantes. Objetando estes que a Escritura não menciona em parte alguma a prática da confissão sacramental, os teólogos católicos foram levados a estudar mais de perto o texto dos Atos, e muitos creram encontrar nele uma resposta à objeção que lhes faziam. Um dos principais foi Belarmino, que discutiu bastante longamente o texto em suas Controversiae, De pœnitentia, l. III, c. IV, Lyon, 1590, t. I, p. 1624. Mas sua exegese é um pouco sumária, e ele se aplica sobretudo a refutar Lutero e Calvino que, contrariamente à evidência, viam nas palavras actus suos, τὰς πράξεις, não ações culpáveis, mas ações miraculosas. Os comentaristas do século XVII e do XVIII estudaram mais seriamente essa passagem, chegando, aliás, a conclusões diferentes. A opinião que se pronuncia pela confissão sacramental é sobretudo representada por Cornelius a Lapide, Commentarius in Acta apostolorum, Antuérpia, 1698, p. 290. A opinião negativa, que não vê no texto senão uma confissão semelhante àquela que o precursor exigia antes de conferir seu batismo, é defendida sobretudo por Estius, Annotationes in præcipua ac difficiliora sacræ Scripturæ loca, Paris, 1663, p. 601, e por Lorin, Commentarius in Actus, Colônia, 1617, p. 715. Entre essas duas opiniões, alguns exegetas não querem se pronunciar, sob o pretexto de que ambas se equilibram. Deste número é Calmet, Commentaire littéral sur les Actes des apôtres, Paris, 1726, p. 979, erroneamente classificado entre os partidários da primeira opinião por Crelier, Les Actes des apôtres (coleção Lethielleux, Paris, 1883, p. 283). As duas opiniões continuaram, no século XIX, a dividir os intérpretes, com a diferença de que os partidários da primeira parecem ter menos valor exegético, se excetuarmos, contudo, o Pe. Corluy, que soube expô-la com uma força e uma clareza desconhecidas de seus predecessores, em seu Spicilegium dogmatico-biblicum, 1884, p. 444-448. A outra interpretação é sobretudo representada por Beelen, Commentarius in Acta apostolorum, Louvain, 1850, t. II, p. 132-134; Patrizi, In Actus commentarii, Roma, 1867, p. 153; Cambier, De divina institutione confessionis sacramentalis, Louvain, 1884. Veja-se t. II, col. 833-834.

A questão, diz com razão o Sr. Vacant, no Dictionnaire de la Bible de Vigouroux, art. Confession, t. II, col. 915, resume-se a saber se os crentes que vinham assim confessar as suas ações eram batizados ou não; pois, se tinham recebido o batismo, há motivo para considerar a sua confissão como sacramental; e, se não eram batizados, tal coisa é impossível. A opinião afirmativa invoca as seguintes razões: 1º O termo "crentes" designa, no Novo Testamento, os fiéis batizados. At., II, 44; IV, 32; V, 14; XV, 5; XXI, 20, 25; Efés., I, 19, etc. — 2º Há aqui uma razão especial para dar este sentido à palavra πεπιστευκότων, pois o texto distingue estes "crentes" dos judeus e dos gentios de que se trata no versículo precedente. Sem dúvida, esta distinção não aparece claramente no grego, onde se encontra πολλοί τε, e não πολλοί δέ; mas é uma lição que não é absolutamente certa, visto que há πολλοί δέ no importante manuscrito D (ver o art. ACTOS DOS APÓSTOLOS), assim como nas versões coptas. — 3º É mais natural pensar que os efésios, assim levados pelo temor do demônio a confessar as suas faltas e a desfazer-se dos seus livros de magia, eram cristãos cuja consciência não estava tranquila. Tal confissão compreende-se menos em judeus e gentios, mesmo dispostos a converter-se, pois não podiam cogitar receber a absolvição sacramental e tinham, aliás, o batismo à sua disposição.

A opinião negativa faz valer os seguintes argumentos: 1º O termo "crentes" não se aplica exclusivamente aos batizados nos Atos dos Apóstolos; designa também catecúmenos não batizados. At., XI, 21; XVI, 8. O Pe. Corluy reconhece ele mesmo que a palavra πεπιστευκότων não significa necessariamente, apesar da sua forma no passado, fiéis batizados há certo tempo, mas pode designar o estado de espírito dos judeus e pagãos que tinham ficado impressionados com os eventos narrados nos Atos e já tinham começado a crer. — 2º A distinção que se pretende estabelecer entre estes "crentes" e os outros não tem fundamento. A lição πολλοί τε é suficientemente garantida pela quase unanimidade dos manuscritos e das versões. Em boa crítica, não se pode hesitar entre esta lição quase unânime e a que é dada pelo manuscrito D, onde abundam variantes singulares, e por duas versões cuja importância exata ainda é mal conhecida. — 3º A confissão de que se trata compreende-se melhor, diz-se, em cristãos. Uma confissão sacramental, sim; uma confissão extra-sacramental, não. Ora, a questão é precisamente saber em qual categoria se deve classificá-la. É erradamente que certos partidários da primeira opinião creem encontrar um argumento favorável na palavra ἐξομολογούμενοι, confitentes, visto que é a mesma palavra que designa a confissão feita ao Precursor. Mt., III, 6. — 4º É inverossímil que cristãos recentemente batizados, como eram os efésios, tivessem continuado em tão grande número a entregar-se à magia após o seu batismo. Ora, ressalta claramente do conjunto do texto que as pessoas assim aditas à magia eram as mesmas que os "crentes" mencionados por São Lucas. — 5º Finalmente, a segunda opinião pode reclamar a seu favor a conclusão final do relato, onde é dito que "a palavra de Deus crescia e se fortalecia", isto é, segundo o sentido ordinário desta fórmula, que a Igreja recrutava novos fiéis. — Estes últimos argumentos, sem serem decisivos, parecem-nos mais probantes do que os da primeira opinião. São bastante sólidos, em todo o caso, para merecerem ser tomados em séria consideração pelos teólogos, que evitarão, assim, provar uma tese certa por meio de argumentos contestáveis.

J. BELLAMY.



Autor: Sem assinatura



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