ATOS (APÓCRIFOS) DOS APÓSTOLOS

Verbete sobre ATOS (APÓCRIFOS) DOS APÓSTOLOS na Enciclopédia Católica

I. Atos de São João. II. Atos de Santo André. III. Atos de São Tomé. IV. Atos de Pedro e Paulo. V. Atos de Paulo e Tecla. VI. Atos de São Filipe.

A literatura dos atos apócrifos dos apóstolos compõe-se daquilo que nos chegou, em redações mais ou menos expurgadas, destas Πράξεις (Atos) do século II, onde se expressaram, por meio de ficções — romanescas e pueris em sua maioria — certas tendências, seja morais, seja dogmáticas, do catolicismo popular. São os vestígios dessas expressões que pretendemos salientar neste artigo.

I. ATOS DE SÃO JOÃO. — Possuímos amplos fragmentos da Πράξεις Ἰωάννου (Atos de João) primitiva, composição da segunda metade do século II. O Sr. Bonnet apresentou a edição crítica nos Acta apostolorum apocrypha, Leipzig, 1898, t. II, 1, p. 151-216. Os primeiros fragmentos são episódios miraculosos, sem colorido doutrinário. No terceiro, contudo, notaríamos diversas belas invocações de um estilo litúrgico bastante arcaico (77-84).

O quarto fragmento, de todos o mais característico, é um relato concernente ao Salvador e posto nos lábios do próprio São João. Jesus, após ter escolhido Pedro e André, vem até João e Tiago e diz-lhes para segui-lo. Tiago pergunta ao seu irmão: "Este menino, que... na margem nos chama, o que quer?". "Que menino?", replica João. "Então não vês um homem de pé, com um semblante alegre?". "Não", responde ele; "mas desembarquemos e vejamos o que ele quer". Como, em silêncio, puxássemos o barco para a terra firme, ele veio nos ajudar. E ele me apareceu com a cabeça calva e a barba grisalha, enquanto Tiago o via jovem e imberbe. "Frequentemente", prossegue São João, "ele me apareceu sob os traços de um homem pequeno, vil. Outro prodígio: quando eu repousava sobre o seu peito, ora seu peito me parecia macio, ora me parecia resistente como a pedra. Certa vez, ele me conduziu com Tiago e Pedro ao monte onde costumava rezar, e vimos nele uma claridade luminosa indizível. Outra vez, sobre esse mesmo monte, como ele se tivesse levantado para rezar à parte, aproximei-me sozinho e vi-o sem suas vestes, nu, mas ele não se assemelhava a um homem: seus pés, mais brancos que a neve, iluminavam a terra; sua cabeça tocava o céu. A surpresa me fez soltar um grito. Ele se virou, e eu já não via senão um homem pequeno, que, tomando-me pelo queixo, disse-me: 'João, não sejas incrédulo, mas cheio de fé'. Quanto a mim, sofri no queixo durante trinta dias, até lhe dizer: 'Se uma carícia tua causa este mal, o que seria de uma bofetada?'. E ele: 'A ti, não tentar aquele que não pode ser tentado'. Outra vez, em Genesaré, à noite, João ouve uma voz que diz a Jesus: 'Aqueles que tu escolheste ainda não creem em ti'. E o Senhor responde: 'Dizes bem, pois são homens'. Ainda prodígios: um dia tento agarrá-lo, e descubro que ele é imaterial, incorpóreo e como se não fosse. Um fariseu nos convida para uma refeição; cada conviva tem um pão diante de si: Jesus reparte seu próprio pão entre os convivas e essa parcela basta para saciar a cada um. Frequentemente, caminhando com ele, quis ver a marca de seus passos no solo, e jamais a vi. O que vos digo aqui é pouco, pois as grandes maravilhas devem atualmente ser silenciadas; elas são indizíveis e não se pode mais relatá-las do que ouvi-las" (87-93). Na sequência, São João relata o hino que Jesus teria cantado com seus discípulos antes de ser entregue (94-96), e que é uma oração de estilo arcaico, de tendência gnóstica.

Mais adiante, ainda no mesmo quarto fragmento, surge uma narrativa da paixão. São João não permaneceu junto de Jesus; ele fugiu para o monte das Oliveiras: ali, na sexta hora do dia, no momento em que as trevas cobrem toda a terra, Jesus aparece diante de João. "Lá embaixo", diz-lhe Ele, "em Jerusalém, crucificam-me, transpassam-me com uma lança, dão-me fel a beber; a ti falarei, ouve o que direi. Trouxe-te a este monte para que ouças o que um discípulo deve ouvir de um mestre, de um homem de Deus". Ao dizer isso, mostrava-me uma cruz luminosa e a multidão. E vi o Senhor sobre a cruz. Ele não tinha aparência (σχῆμα), mas apenas uma voz, uma voz que não era a sua voz familiar, mas uma voz doce e bela, verdadeiramente de um Deus, e que dizia: "Esta cruz de luz é chamada ora verbo, ora espírito, ora Jesus, ora Cristo, ora porta, ora caminho, ora pão, ora semente, ora ressurreição, ora filho, ora pai, ora vida, ora verdade, ora fé, ora graça. Assim é para os homens, mas, na realidade, ela é em si mesma o pensamento e, para nós, a expressão, a definição de tudo... não a cruz de madeira que vais ver, nem sou eu o crucificado, eu a quem tu ouves sem ver. Fui tomado por aquilo que não sou; o que dizem que sou é humilde e indigno de mim. E como o lugar do meu repouso não se vê nem se diz, eu, o mestre dele, não serei visto". Esse amontoado gnóstico prossegue, e nós o abreviamos para citar apenas os traços característicos. "Sabe", diz Jesus, "que estou todo no Pai e o Pai em mim. Não sofri nada daquilo que dirão que sofri: esta paixão que te mostrei, quero que a chamem de mistério. O que vês, eu te mostrei; o que sou, somente eu sei, ninguém mais. Oves dizer que sofri; eu não sofri. Que não sofri; eu sofri. Que fui ferido; não fui golpeado. Que fui pendurado; não fui pendurado. Que o meu sangue correu; não correu. Simplesmente, o que dizem de mim não é real, mas o que não dizem, isso eu sofri. Entende: o sofrimento do Verbo, o sangue do Verbo, a chaga do Verbo, a crucificação do Verbo, a morte do Verbo: pensa primeiro no Verbo, pensa depois no Senhor, e em terceiro lugar no homem e naquilo que ele sofreu". O apóstolo João, tendo terminado de relatar os discursos de Cristo, conjura os fiéis que o escutam a venerar não um homem, mas um Deus infalível, um Deus imutável, um Deus acima de todo poder, de todos os anjos e criaturas, um Deus mais antigo que os séculos (97-105).

O quinto fragmento, designado habitualmente sob o título de Metastasis ou morte de São João, inicia-se por uma espécie de homilia dirigida por João aos fiéis que acorreram num domingo. A homilia é seguida por uma oração a Deus, de um colorido litúrgico que se acentuará ainda mais. Pois João pede pão e profere uma verdadeira oração eucarística. Após o que, parte o pão com os seus fiéis. Depois, vai para fora da cidade, manda cavar a sua sepultura e deita-se nela, não sem antes proferir uma última oração: "Ó Tu que me deste a ciência pura (γνῶσις) de Ti, Deus Jesus, pai e mestre das coisas supercelestes; Tu que me conservaste até esta hora puro e sem ter tocado nenhuma mulher; Tu que, quando jovem, queria casar-me, apareceste-me e disseste: João, preciso de ti; Tu que, quando queria ainda casar-me, disseste sobre o mar: João, se não és meu, deixo-te casar; Tu que me deixaste gemer por dois anos e que, no terceiro ano, me abriste os olhos da inteligência; Tu que fizeste com que a minha alma não possuísse nada além de Ti somente..." (106-115).

O quinto fragmento, que deve a sua conservação ao fato de conter a narrativa do fim solene do apóstolo, guardou o vestígio de preocupações encratitas. Os encratitas não são um grupo isolado, mas sim um espírito muito difundido no século II, um espírito de rigorismo que prenuncia os cismas dos marcionitas, dos montanistas e, mais tarde, dos novacianos, e para o qual a salvação tem como condição a abstinência de toda sensualidade: daí a condenação do casamento, bem como do uso de carne e vinho. É bem esse o espírito que encontramos na oração de São João agradecendo a Deus por ter escapado do casamento, e o sentido da palavra de Jesus: "Se não és meu, deixo-te casar". A tendência encratita é suficientemente comum no século II para que tenhamos de encontrar mais adiante muitos outros vestígios dela.

O docetismo é mais raro porque, sendo um erro não moral, mas cristológico, foi eliminado mais rapidamente. O docetismo é uma tentativa de cristologia que distingue Jesus do Cristo, faz do Cristo um ser impassível e deseja que apenas Jesus tenha sofrido: dois seres, dos quais um, o divino, é intermitente, a menos que o outro, o humano, seja fantasmagórico. O autor do nosso quarto fragmento concebe o Salvador como uma aparição: a Tiago ele se mostra sob os traços, ora de uma criança, ora de um jovem; a João, sob os traços, ora de um velho pequeno e feio, ora de um ser luminoso e impalpável. A paixão, sobretudo, presta-se a estes desenvolvimentos. Uma aparência (ὄψις) sofre na cruz, um "não sei o quê" de humilde e indigno do Cristo. O impalpável Cristo, ao contrário, não sofreu, não foi crucificado, não morreu; o que foi o seu estado durante a paixão é um mistério; o que parecia era irreal, o que era real foi impenetrável como o Verbo, que é o seu sujeito. E este Verbo, ele próprio, é tudo no Pai. A distinção do Pai e do Filho não existe, pois os termos Verbo, Luz, Espírito, Jesus, Cristo, Filho, Pai, Vida, Verdade e Graça são idênticos, como tantos outros qualificativos do Divino. Reconhecemos aí as características da cristologia dos grandes mestres do gnosticismo — Basilides, Valentino, Saturnino —, expressas não em fórmulas, mas em imagens. Em um tempo em que a cristologia ainda estava longe das precisões consagradas pelas definições de Éfeso e Calcedônia, era inevitável expressar em imagens infantis a distinção confusamente concebida das duas naturezas.

II. ATOS DE SÃO ANDRÉ. — Da Περίοδος Ἀνδρέου, composição contemporânea da Περίοδος Ἰωάννου, chegaram até nós apenas reformulações tardias e expurgadas. A edição crítica desses diversos textos pode ser encontrada na obra de M. Bonnet, Acta apostolorum apocrypha.

Primeiramente, um Μαρτύριον sob a forma de uma carta supostamente endereçada pelos presbíteros e diáconos das igrejas da Acaia a todas as Igrejas do mundo, composição que não é anterior ao século IV e que tem de notável apenas a bela invocação de Santo André à cruz sobre a qual está prestes a morrer: Salve crux... O bona crux que decorem et pulchritudinem de membris Domini suscepisti, etc.

Em seguida, um Μαρτύριον, onde é relembrada primeiramente a missão atribuída a cada um dos apóstolos, depois a de André, que é pregar na Bitínia, na Lacedemônia e na Acaia, e a conversão que ele realizou em Patras do procônsul Lesbios. Mas Lesbios é substituído por Egeates, que manda prender o apóstolo, manda crucificá-lo e, em seguida, por desespero, suicida-se. Este relato depende da Περίοδος original. Algumas passagens possuem uma sensível cor arcaica, tal como a invocação à cruz (14): «Salve, ó cruz... que há muito tempo me esperavas: venho a ti que me desejavas. Conheço o mistério para o qual foste erguida: tu foste erguida no mundo para fortalecer as instabilidades: tu te elevas em direção aos céus para manifestar o Verbo: tu te estendes à direita e à esquerda para colocar em fuga a potência inimiga e para reunir o mundo na unidade: tu estás plantada na terra para unir aos supracelestes as coisas debaixo da terra. Ó cruz, instrumento da salvação do Altíssimo, etc.» Já vimos a cruz desempenhar um papel nos Atos de São João: ela era chamada de Cruz de Luz e era uma entidade que se identificava ao Verbo, ao Espírito, ao Pai, ao Filho, a todos os vocábulos divinos. «A cruz — lemos em um fragmento do valentiniano Teódoto —, é o sinal da separação que está no pleroma: ela separa os fiéis dos infiéis, assim como separa o mundo do pleroma: por este sinal, que ele carregou sobre os seus ombros, Jesus introduz as sementes no pleroma.» Excerpt. Theodot., 42. Na teologia gnóstica, onde se multiplicam ao infinito os intermediários sobrenaturais, a cruz é talvez o elemento mais sintético, assim como é o mais concreto. O docetismo, ao reduzir o Cristo a um fantasma, foi levado a exaltar a Cruz para não reduzir a nada a virtude redentora da paixão. A entidade cruz já não se distingue do crucificado: «Bela é a cruz — diz ainda o Μαρτύριον de Santo André (16) —, pois ela é vivificante: belo é o crucificado, pois ele é o redentor das almas.» Pode-se comparar o texto do nosso Μαρτύριον e o texto tão conhecido Salve crux... O bona crux que decorem, etc., que a liturgia popularizou, para julgar a transformação que o tema arcaico sofreu ao se despojar de todo gnosticismo.

Sobre Santo André, possui-se uma peça intitulada Atos de André e Matias na Cidade dos Antropófagos, outra peça que depende da Περίοδος original, mas composta de ficções enormes sem alcance doutrinário. O mesmo deve ser dito de uma última peça intitulada Atos de Pedro e André: ao retornar da cidade dos Antropófagos, André encontra São Pedro, «Perieco de toda a Igreja», e juntos dirigem-se à «cidade dos Bárbaros»: aqui também, ficções expurgadas de qualquer elemento doutrinário e retidas apenas pelo seu caráter maravilhoso.

III. ATOS DE SÃO TOMÉ. — Temos, se não a Περίοδος Θωμᾶ original, pelo menos uma redação que deve ser muito próxima dela. M. Bonnet forneceu a edição crítica: Acta Thomae, Leipzig, 1883, a qual ele reeditou em 1903. Conjecture-se que a Περίοδος Θωμᾶ deva ser uma composição da primeira metade do século III.

Estes atos, na forma em que os possuímos, dividem-se em doze episódios (πράξεις), seguidos pela paixão do apóstolo (μαρτύριον). Logo no início do primeiro episódio, recorda-se, como nos Atos de André, a missão conferida pelo Senhor a cada um dos apóstolos, e então a de Tomé, que é evangelizar a Índia. Ele chega à cidade de Andrapólis, em meio a uma festa pública oferecida pelo rei indiano por ocasião do casamento de sua filha. Tomé, que assiste ao banquete, começa a entoar um cântico à Sabedoria, de simbolismo intenso e inspiração gnóstica. Ao cair da noite, o próprio Jesus, sob a aparência de Tomé, aparece aos jovens esposos na câmara nupcial: “Saibam”, diz-lhes ele, “que, se vos abstiverdes de toda união impura, tornar-vos-eis templos santos. Guardai-vos de ter filhos, pois os filhos são ocasião de todas as preocupações e de todas as faltas. Se, contudo, conservardes vossas almas na pureza para Deus, tereis filhos vivos em um matrimônio verdadeiro e sem mácula; sereis os paraninfos do Esposo que é toda imortalidade e luz”. Convencidos, os dois esposos declaram no dia seguinte ao rei e à rainha que a obra de opróbrio e confusão está longe deles. Segue-se a indignação do rei, que deseja prender Tomé, mas o apóstolo já havia partido. Percebe-se aqui a tendência encratita deste pequeno romance: ele expressa, sem restrições, a condenação das núpcias e defende que, no matrimônio, a paternidade e a maternidade são uma degradação.

No segundo episódio, o rei Gundoforo confia a Tomé, apresentado como arquiteto, a ordem de construir um palácio e entrega-lhe o dinheiro necessário. O apóstolo distribui o dinheiro em esmolas e, quando o rei lhe pergunta se pode visitar o palácio, ele responde que só poderá fazê-lo ao deixar esta vida. Sobrevém a cólera do rei, que manda lançar Tomé na prisão. Todavia, Gad, irmão do rei, morre e, no outro mundo, é admitido a ver o palácio que as esmolas do apóstolo prepararam para o rei. Ele ressuscita para instruir seu irmão, e ambos são feitos cristãos por Tomé. A cena de sua iniciação possui uma liturgia bastante singular. Os dois irmãos pedem “o selo do banho” (τὴν σφραγῖδα τοῦ λουτροῦ), pois, dizem ao apóstolo, tu nos ensinaste que o Deus que pregas “reconhece suas ovelhas por este selo que é seu”. O apóstolo responde: “Regozijo-me em ver-vos receber este selo e participar comigo desta eucaristia e bênção do Senhor, e tornar-vos perfeitos nela”. Ele ordena, então, que tragam óleo “para que, por este óleo, recebam o selo”; o óleo é trazido e o apóstolo, de pé, dá-lhes o selo (σφραγίζειν αὐτούς), espalhando o óleo sobre suas cabeças e pronunciando uma longa invocação de estilo litúrgico gnóstico: “Venha o santo nome de Cristo... Venha o carisma supremo; venha a mãe misericordiosa; venha a economia do masculino; venha aquela que revela os mistérios ocultos; venha a mãe das sete casas, o sacerdote dos cinco membros...”. Feito isso, o apóstolo parte o pão e comunica aos iniciados a eucaristia de Cristo (26-27). Nesta iniciação, fala-se do “banho” apenas incidentalmente, enquanto em todo o restante a iniciação parece reduzir-se a uma unção com óleo.

Em outro episódio, o episódio do dragão íncubo, a mulher que, por cinco anos, se entregara ao dragão, uma vez liberta, pede ao apóstolo “o selo”. E aqui, novamente, temos uma cena de iniciação. O apóstolo, lemos, fez a mulher aproximar-se e, impondo a mão sobre ela, selou-a (σφραγίζων) em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo; ele selou também vários outros candidatos com ela. Depois, pediu ao diácono que trouxesse uma mesa e um banco: sobre a mesa colocou-se um linho, sobre o linho o pão da bênção (ἄρτον τῆς εὐλογίας) e, de pé, o apóstolo pronuncia uma epiclese semelhante àquela que o vimos pronunciar: “Vem, misericórdia perfeita; vem, comunhão do masculino; vem tu que conheces os mistérios da ordem..., vem, mãe escondida..., vem comunicar-te a nós nesta eucaristia que celebramos em teu nome...”. Dito isto, ele sinalizou o pão com o sinal da cruz, partiu-o e distribuiu-o, primeiramente à mulher: “Que isto seja para a remissão de teus pecados e a redenção de tuas faltas eternas” (46-47).

No sexto episódio, um jovem, no momento em que leva a eucaristia aos lábios, vê suas duas mãos secarem. “A eucaristia condenou-te”, diz-lhe o apóstolo, “qual é o teu pecado?”. O jovem responde que, tendo recebido “o selo”, exortou sua concubina a abraçar a pureza perfeita que o apóstolo pregava. Como a mulher recusou, o jovem matou-a. A pedido do homicida, o apóstolo ressuscita a morta, que, ao retornar à vida, descreve os suplícios infligidos aos pecadores no inferno. A descrição deste inferno é o único ponto a ser notado (52-55).

No episódio de Carísio e sua esposa Migdônia, esta é convertida pelo apóstolo à prática da perfeita pureza no matrimônio: tal conversão gera um desentendimento no casal, cujas peripécias são longamente narradas. Migdônia recebe o batismo. "Dá-me", diz ela ao apóstolo, "o selo de Cristo, e que de tuas mãos eu receba o banho da incorruptibilidade." Em seguida, dirigindo-se à sua ama, pede-lhe que traga pão e água. Como a ama protesta e sugere trazer vários pães e, em vez de água, medidas de vinho, Migdônia recusa: ela deseja apenas água (κρᾶσιν ὕδατος), um pão e óleo. A ama obedece e, então, com Migdônia de pé e a fronte descoberta, o apóstolo derrama óleo sobre sua cabeça, dizendo: "Óleo santo que nos foi dado para a santificação, mistério oculto no qual a cruz nos foi revelada, tu és a simplicidade dos membros velados, tu és aquele que mostra os tesouros escondidos, tu és o progresso do que é útil: que tua força venha e que tua liberdade se estabeleça sobre tua serva Migdônia." É verdade que, tendo sido derramado o óleo, encontra-se ali uma fonte para batizar Migdônia; contudo, não há dúvidas de que essa menção ao batismo por água não seja uma correção tardia, pois, logo após, o apóstolo, partindo o pão e tomando a taça de água, faz com que Migdônia comungue dos mistérios de Cristo, dizendo: "Recebeste o selo, toma posse da vida eterna." O selo, isto é, a unção, parece ser ainda o elemento principal da iniciação. Perto do fim do episódio, o oficial Siforo converte-se com sua esposa e sua filha: eles se consagram à pureza perfeita e pedem o "selo". E o apóstolo os catequiza assim: "O batismo é a remissão dos pecados: ele regenera e renova o homem, que por ele é três vezes elevado e participa do Espírito Santo." Ele acrescenta: "Glória à potência inefável: glória àquele que entra no banho do batismo: glória a ti, que reconduzes os homens do erro e os fazes participar de ti." Ao dizer isso, derramava óleo sobre suas cabeças, depois mandou trazer uma bacia (λεκάνην) e os batizou em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Em seguida, traz-se pão sobre uma mesa e o apóstolo o abençoa: "Faz deste pão o pão vivo, para que aqueles que dele comerem permaneçam incorruptíveis, etc." Temos aqui um batismo propriamente dito; mas, ainda aqui, a unção desempenha um papel prévio e importante. Notemos também que o batismo e a eucaristia estão estreitamente ligados à concepção encratita da vida cristã.

No décimo primeiro episódio, o rei Misdeu, por sua vez, vê sua esposa convertida por Tomé. Juntos, Carísio e Misdeu penetram no local onde Tomé ensina, agridem-no violentamente e o fazem lançar na prisão. Porém, em sua prisão — trata-se do décimo segundo episódio —, todos os convertidos de Tomé o reencontram, além do próprio filho do rei Misdeu, Vasanes, que vivia com sua esposa, desde o matrimônio, em perfeita pureza; ele não tem dificuldade em tornar-se cristão. As portas da prisão abrem-se por si mesmas; dirigem-se à residência de Vasanes, onde serão batizados Vasanes e as irmãs de Migdônia. "Tomé tomou óleo em uma taça de prata e disse: Ó fruto mais nobre que os outros frutos, ó fruto incomparável, ó fruto misericordioso, os homens, graças a ti, sabem vencer seus adversários: tu coroas os vencedores, tu és o símbolo da alegria: tu evangelizas aos homens a sua salvação: tu dás luz àqueles que estão nas trevas, tu adoças as amarguras: venha, ó Jesus, tua força vitoriosa, que ela fortifique este óleo..." O apóstolo derrama o óleo primeiramente sobre a cabeça de Vasanes e, depois, sobre a das mulheres, dizendo: "Em teu nome, Jesus Cristo, que isto seja para estas almas remissão dos pecados, derrota do inimigo, salvação." Em seguida, batiza-se com água, mas sem qualquer solenidade semelhante, e, imediatamente depois, ocorre a eucaristia. O relato do martírio de São Tomé encerra este longo romance.

Desta rápida análise deve emergir a impressão geral de que os Acta Thomae pregam um encratismo rigoroso. A liturgia limita-se à iniciação e à eucaristia. Essa iniciação, na qual o batismo desempenha um papel tão apagado que, por vezes, nem sequer é mencionado, é operada pelo "selo", a unção com óleo sobre a cabeça, sendo o óleo considerado uma matéria eminentemente simbólica. A presença de uma unção com óleo na liturgia batismal é atestada desde o século II; contudo, aqui, manifestamente, essa unção possui uma importância excepcional que nenhum outro texto lhe confere. Celso fala de cristãos entre os quais "aquele que recebe o selo é chamado de Novo e Filho, e responde quando o recebe: Eu fui ungido com a unção branca da árvore da vida" (Contra Celsum, VI, 27). Tais cristãos são os gnósticos ofitas, e é de meios semelhantes que procede o simbolismo litúrgico dos Acta Thomae.



Autor: J. BELLAMY



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