ADOPCIONISMO (II. Exposição Doutrinária)

São Domingos

Toda a doutrina do adopcionismo resume-se em duas proposições: 1° Jesus Cristo enquanto homem, este homem que é Jesus Cristo, não é o verdadeiro filho, o filho próprio e natural de Deus; mas este filho próprio e natural é o Verbo eterno. — 2° Jesus Cristo enquanto homem, este homem que é Jesus Cristo, é apenas o filho adotivo de Deus, filius adoptivus, o filho nominal, nuncupativus, e de uma maneira figurada, per metaphoram. Em sua carta aos bispos das Gálias, os espanhóis formulavam sua crença nestes termos: Confitemur et credimus Deum Dei Filium ante omnia tempora sine initio ex Patre genitum, coæternum et consimilem et consubstantialem, non adoptione sed genere (generatione), neque gratia sed natura. — Confitemur et credimus, eum factum ex muliere, factum sub lege, non genere esse Filium Dei sed adoptione, neque natura sed gratia. P. L., t. CI, col. 1323. Tendo relatado este segundo artigo, a Synodica de Frankfurt acrescenta esta justa reflexão: Ecce serpens inter pomifera paradisi latitans ligna, ut incautos quosque decipiat. Ibid., col. 1332.

Os adopcionistas professavam bem alto que a natureza divina é essencial ao Verbo eterno; mas, quanto à humanidade, ele a tomou, assumpsit; ele a adotou, adoptavit. E raciocinavam assim: Visto que a humanidade de Cristo foi adotada por Deus o Verbo, Cristo é simplesmente o filho adotivo de Deus segundo sua humanidade, enquanto, sob o aspecto de sua divindade, ele é o próprio filho, o filho natural de Deus. Diziam ainda: Em razão de sua divindade, Cristo é filho de Deus por natureza; ao contrário, em razão de sua humanidade, ele não é filho de Deus senão por graça, e apenas pela vontade livre de Deus. Repetiam voluntariamente: O filho único do Pai é o verdadeiro filho de Deus, enquanto o primogênito de Maria é simplesmente filho adotivo. Credimus et confitemur Deum Dei Filium, lumen de lumine, Deum verum ex Deo vero, ex Patre unigenitum sine adoptione; primogenitum vero in fine temporis, verum hominem assumendo de Virgine in carnis adoptione; unigenitum in natura, primogenitum in adoptione et gratia. Ibid., col. 1324.

Para sustentar essas opiniões, recorria-se a todos os textos da Escritura que se expressam diferentemente a respeito da natureza divina de Cristo e de sua natureza humana, a respeito do Filho de Deus e do Filho do homem, e, com mais habilidade do que crítica leal, extraíam-se deles todas as conclusões desejadas pelo sistema. Recorria-se, em seguida, aos Padres e aos concílios que falaram do homo assumptus, do homo adoptatus, no sentido de natura humana assumpta. Com a ajuda de um pequeno sofisma, interpretavam esses textos não em seu sentido ativo — de que Cristo tomou, adotou para si a natureza humana —, mas em um sentido passivo: de que Cristo foi adotado por seu Pai, sob o aspecto de sua humanidade. Daí a dar o nome de filius a este adoptatus homo, não restava mais que um passo, e ele era dado com a mais perfeita desenvoltura. Interpretava-se no mesmo sentido distorcido a palavra adoptio, que se encontra várias vezes na liturgia moçárabe, e abusava-se da tese, tão elevada para nós, do primogênito, para rebaixar ao nível de seus irmãos a pessoa de Cristo, tornando-se, como eles, Filho de Deus pela graça, pela adoção sobrenatural, mas apenas em um grau superior.



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