I. Do século II. II. Do século XII. III. Do século XV.
I. Do século II. — Seu nome não se encontra nem em Santo Irineu, nem em Tertuliano, nem no pseudo-Tertuliano, nem nos Philosophumena, mas sua existência não pode ser posta em dúvida. Pois, por seus devaneios metafísicos, sobretudo pela ausência de moralidade, eles estão muito estreitamente aparentados, se é que não se confundem, com tais ou quais discípulos de Carpócrates e de seu filho Epifânio. Desde os nicolaítas, o esforço, em certos espíritos desviados, voltava-se para uma especulação capaz de encobrir e legitimar as piores depravações do coração. Condenar o matrimônio e proclamar o amor livre para libertar a carne, afirmar sua independência pela violação resoluta da lei moral, por toda sorte de excessos, e ver, nesse transbordamento de luxúria, a comunhão, a perfeição, a santidade por excelência: tal era o objetivo perseguido e realizado pela maioria dos gnósticos. Havia entre eles tal ausência de senso moral, tal emulação de ignomínia, que uns se reclamavam de Caim. Por que outros não se teriam reclamado de Adão?
Clemente de Alexandria denuncia, nos carpocracianos, a comunidade das mulheres, as reuniões noturnas, a promiscuidade vergonhosa, sem, contudo, nomear os adamitas (Strom., III, II, P.G., t. VIII, col. 1112, 1113). O primeiro a nomeá-los é Santo Epifânio. Ele diz que os ἀδαμιανοί realizavam suas reuniões em locais aquecidos e que, para melhor imitar Adão antes da queda, colocavam-se em estado de completa nudez. Ele os compara à toupeira que se esconde sob a terra e zomba de sua vã pretensão de reproduzir o Adão do paraíso terrestre (Hæres., LII, P.G., t. XLI, col. 958, 959). Santo Agostinho diz dos Adamiani: Nudi mares feminaeque conveniunt, nudi lectiones audiunt, nudi orant, nudi celebrant sacramenta et ex hoc paradisum suam arbitrantur ecclesiam (Hæres., XXXI, P.L., t. XLII, col. 34).
Nem Epifânio, nem Agostinho renovam as acusações precisas de Clemente de Alexandria. Mas, dada a natureza humana com sua concupiscência, estas acusações, diante de tais práticas, permanecem verossímeis. Segundo Teodoreto, foi Pródico, um discípulo de Carpócrates — cujos princípios de imoralidade teria ainda exagerado —, quem fundou a seita dos adamitas, entre os quais se praticava a união livre dos sexos para realizar a iniciação mística, a verdadeira comunhão, na promiscuidade das reuniões noturnas, uma vez apagadas as tochas. À parte Clemente de Alexandria, a quem ele cita, ignoramos onde colheu esses detalhes (Hær. fab., I, 6, P.G., t. LXXXIII, col. 352, 353). O que se pode afirmar é que houve gnósticos, no século II, suficientemente depravados para levar o relaxamento aos seus limites extremos e que, se não deram a si mesmos o nome de adamitas, foi sob essa designação que foram posteriormente conhecidos.
II. Do século XII. — Moreri, no Dictionnaire, art. Tandemus, pretende que Tandemus (Tanquelmo em Hergenröther, Histoire de l’Eglise, trad. Belet, Paris, 1891, t. V, p. 162) renovou a heresia dos antigos adamitas no início do século XII. É verdade que esse personagem considerava os opera carnis, mesmo em público, não como um ato de sensualidade, mas como uma obra de espiritualidade, que agia em conformidade e que punha à morte aqueles que não podia persuadir. São Norberto trabalhou eficazmente na conversão de seus tristes sectários. Bayle, no Dictionnaire, art. Turlupins, pretende que o título de adamitas se aplica melhor aos turlupinos do século XIV que, sob Carlos V, viveram — sobretudo na Saboia e no Delfinado — more cynicorum et canum, fundaram a Irmandade dos Pobres e tiveram de ser combatidos pelos inquisidores, que conseguiram fazê-los desaparecer.
III. Início do século XV. — Nas Flandres, apareceu então um iluminado chamado Picard, sedutor emérito, que se dizia Filho de Deus, enviado como um novo Adão para restabelecer sobre a terra a lei da natureza, que ele fazia consistir na comunidade das mulheres e no estado de nudez completa. Passou à Alemanha e acabou por estabelecer-se na Boêmia, onde seus partidários proclamaram-se os únicos livres e praticavam, diziam eles, a vida de Adão no paraíso. O terrível Ziska perturbou sua felicidade paradisíaca e os exterminou em 1421.
Desde então, a torrente lamacenta, desencadeada pelos gnósticos e maniqueus, engrossada pelos valdenses, albigenses e outros desequilibrados, não cessou de correr aqui ou acolá e de reaparecer em intervalos irregulares, segundo as circunstâncias, canalizando tudo o que a natureza humana contém de depravado. A história já não encontra adamitas organizados em seita; mas registra tentativas isoladas que lembram um pouco as do século II. É assim que Hefele (Wetzer, Dict. de théol. cath., trad. Goschler, t. I, p. 65) assinala na Áustria, primeiramente em 1781, depois em 1848, tentativas desse gênero, rapidamente reprimidas pela força. Em nosso século, os devaneios dos falanstérios na França e a seita dos mórmons na América, sem chegar a prescrever a nudez adâmica, não constituem menos fenômenos, de certa forma renovados do século II, que provam até onde pode descer a natureza humana em seus instintos de depravação e em seu misticismo sensualista.
Autor: G. BAREILLE