
Acácio (Ἀκάκιος) era grande orfanotrófio de Constantinopla e simples presbítero quando sucedeu a Genádio na sé patriarcal desta cidade, em 471. Demasiado desejoso de desempenhar um papel considerável na Igreja e sonhando em estender sua autoridade espiritual por todo o império do Oriente, abraça sucessivamente as opiniões mais opostas; hábil em salvaguardar seus interesses, flexível e astuto na perseguição de seus ambiciosos desígnios, "mostra-se, por mais de um traço, o precursor de Fócio." Hergenröther, Photius, Patriarch von Constantinopel, 1867, t. I, p. 110. Sob Basilisco (475-477), quando o bispo monofisita de Alexandria, Timóteo Ailuro, chamado de volta do exílio, tenta atrair para sua doutrina os católicos da capital, Acácio pareceu inclinar-se, de início, para as ideias de Timóteo e disposto a assinar a Encíclica imperial contra o concílio de Calcedônia. Foram os monges que alertaram o papa sobre a situação da Igreja de Bizâncio, e em sua resposta Simplício espanta-se com o silêncio de Acácio neste assunto. Mas, chamado ao seu dever pela atitude resoluta do povo e dos monges, o patriarca acabou por se posicionar como defensor da ortodoxia ameaçada. Ele faz rogar o santo estileta Daniel para vir dirigir a resistência às pretensões doutrinárias do imperador. Este, temendo um levante popular e amedrontado, ademais, pela aproximação de seu rival Zenão, revoga a encíclica por uma Contra-Encíclica onde Nestório e Eutiques eram condenados com todos os seus aderentes. A queda de Basilisco (477) foi tida como uma vitória da ortodoxia, o que valeu a Acácio grande consideração em todo o Oriente. Contudo, as decisões de Calcedônia continuavam a suscitar em Antioquia, em Jerusalém, em Alexandria sobretudo, protestos que se manifestaram mais de uma vez por motins sangrentos. Para pôr fim a isso, o patriarca de Constantinopla, de acordo com o patriarca monofisita de Alexandria, Pedro Monge, imaginou reunir católicos e monofisitas na adesão a um símbolo de conciliação, onde se encontrariam contidos os artigos de fé comuns a uns e a outros. O imperador publicou este novo símbolo sob o nome de Henótico ou formulário de união (482). Na mente de seus autores, este edito dogmático deveria servir de base à pacificação universal pela fusão de todas as comunhões em uma só. O Henótico declarava rejeitar qualquer outro concílio que não os de Niceia e de Constantinopla, e, ao mesmo tempo em que condenava Nestório e Eutiques, contentava-se em dizer que Jesus Cristo é um só Filho de Deus e não dois, sem falar da questão das duas naturezas; lançava anátema contra quem quer que fosse, em Calcedônia... Era, no fundo, o abandono do concílio de Calcedônia. Assim, o decreto de união, em vez de trazer a paz, não fez senão aumentar ainda mais as divisões; se operou uma aproximação, toda exterior, entre os semine Nestorianos, os semi eutiquianos e alguns ortodoxos, os verdadeiros católicos e os eutiquianos estritos rechaçaram o Henótico com igual desconfiança; no Egito, os eutiquianos estritos separaram-se de seu patriarca, que acusavam de tibieza, e contou-se mais uma seita monofisita, a dos acéfalos. O patriarca de Alexandria era então Pedro Monge, um dos mais ardentes sustentáculos do partido monofisita. Em 477, ele havia sucedido a Timóteo Ailuro, mas deposto pelo papa, banido pelo imperador e combatido pelo próprio Acácio, teve de se retirar. Mas em 481-482, a sé tendo ficado vaga pela morte de Timóteo Salofaciolo, Pedro Monge soubera ganhar as boas graças de Acácio e de Zenão e fazer-se reconhecer por eles como único patriarca de Alexandria, apesar da escolha que os ortodoxos haviam feito de João Talaiá. Este veio a Roma queixar-se de Acácio ao papa Félix III, sucessor de Simplício. Lá encontrou outras vítimas do patriarca, bispos exilados por não terem querido assinar o Henótico, e monges vindos para buscar junto à sé apostólica a luz e a direção de que precisavam. Antes de tomar uma decisão, Félix quis informar-se no local. Enviou dois legados, Vital e Miseno, que deveriam convidar Acácio a vir justificar-se perante um sínodo romano das acusações levantadas contra ele. Mas esses legados, depois de terem, a princípio, bravamente suportado os maus-tratos, não souberam resistir às lisonjas e aos presentes e consentiram em comunicar-se com Acácio e Pedro Monge: em punição de sua infidelidade, o papa os depôs do episcopado e os excomungou no sínodo romano de 484. Por sua vez, Acácio foi também deposto, separado da comunhão católica, e para todo o sempre atingido por anátema. A carta pela qual Félix III notifica ao patriarca a condenação, 28 de julho de 484, indica ao mesmo tempo os motivos deste julgamento: 1º Acácio, em desprezo aos cânones de Niceia, usurpou os direitos das outras províncias; 2º não só recebeu os heréticos em sua comunhão, mas lhes confiou inclusive bispados; 3º sustentou Pedro Monge em sua intrusão na sé de Alexandria; 4º maltratou, aprisionou os legados romanos e os impeliu a trair sua missão; 5º recusou-se a responder às acusações levantadas contra ele por João Talaiá perante a Sé Apostólica, resistiu com obstinação às instruções dos pontífices romanos e causou o maior escândalo a todas as Igrejas orientais. O defensor da Igreja romana, Tuto, foi enviado a Constantinopla para notificar ao patriarca a sentença proferida contra ele, e fazê-la conhecer também ao imperador, aos monges e ao povo. Acácio, forte da proteção de Zenão, recusou-se a receber o ato de sua própria condenação e não lhe deu qualquer importância; conseguiu mesmo ganhar para sua causa o enviado do papa; apagou ele mesmo dos dípticos o nome do pontífice romano, marcando assim, por uma ruptura ainda mais profunda, a separação das duas Igrejas. Numerosas violências foram exercidas contra os católicos, sobretudo contra os monges acemetas cuja fidelidade à ortodoxia incomodava as incessantes variações do bispo. De fato, este cisma realizava as vistas ambiciosas de Acácio ao fazer dele o chefe espiritual de todo o império do Oriente como o imperador era o chefe temporal. Acácio morreu fora da comunhão da Igreja romana, no outono de 489. O cisma acaciano haveria de sobreviver ao seu autor e durar trinta e cinco anos, 484-519.
Os textos relativos a estas controvérsias encontram-se em Mansi, Coll. concil., Florença, 1742, t. VII, col. 977-1166, e em P. G., t. LVIII, col. 41-69 (cartas de Simplício) e col. 893-967 (cartas de Félix III). Conservou-se de Acácio uma carta ao papa Simplício, P. G., ibid., col. 982, e outra a Pedro, bispo de Antioquia. Ibid., col. 1121. Ver também Ceillier, Hist. générale des auteurs sacrés, Paris, 1748, t. XV, p. 125-152; Hergenrother, Photius Patriarch von Constantinopel, Ratisbona, 1867, t. I, p. 110-145; E. Marin, Les moines de Constantinople, Paris, 1897, p. 228-232, 267-270; P. Batiffol, Littérature grecque chrétienne, Paris, 1897, p. 319.
Autor: E. Marin.
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