
Não será fora de propósito dizer uma palavra da abstinência monástica nesta mesma Igreja, onde todos os religiosos seguem a regra de São Basílio. Para eles, a abstinência ou xerofagia é a regra geral; os dias em que lhes é permitido relaxar em parte apenas de sua rigorosa observação não são senão a exceção. Todavia, a permissão de usar alimentos proibidos pela lei monástica da xerofagia não se estende jamais à carne, que permanece sempre proibida, sem exceção possível. Logo, quando as rubricas indicam que há solução completa da abstinência ou permissão de usar todos os alimentos, isso significa, para os religiosos, que eles podem se nutrir, nesses dias, de peixes, ovos, laticínios, azeite e vinho, mas jamais de carne. Esses dias de solução total são: de 25 de dezembro a 4 de janeiro; a festa da Epifania; a semana que precede a Septuagésima; a semana de Páscoa e a de Pentecostes. Há, além disso, um certo número de dias de festas que detêm o segundo grau após aquelas que acabam de ser indicadas, e nas quais é permitido aos monges usar ovos, laticínios, peixe, azeite e vinho, se caírem em um dia ordinário; de peixe, azeite e vinho somente, se se encontrarem em um dia de abstinência para todos. Finalmente, há ainda outras festas de um grau menor, nas quais o uso de azeite e vinho é permitido aos religiosos: há um número maior desta última categoria do que das primeiras. Typica varia, em Pitra, Spicilegium Solesmense, Paris, 1858, t. IV, p. 445 sq.
HISTÓRIA DOS TEMPOS DE ABSTINÊNCIA NA IGREJA GREGA
Digamos agora uma palavra, para terminar, da origem das diversas abstinências prescritas e ainda conservadas na Igreja grega. A mais antiga de todas, incontestavelmente, é aquela que está ligada à quarta e sexta-feira de cada semana. A Didaché fala disso, VII, 1, Funk, Doctrina duodecim apostolorum, Tubinga, 1887, p. 23; o que permite ligar essa observância à tradição apostólica: é verdade que este documento, assim como o Pastor de Hermas, Sim., V, 4, P. G., t. II, col. 958, e Funk, Opera Patrum apostolicorum, Tubinga, 1887, p. 450, que não fixa os dias, mencionam o jejum e não expressamente a abstinência, mas esta última era inseparável daquele, ao ponto de que o uso se conservou no Oriente de se servir ainda hoje do nome de jejum para designar a simples abstinência, mesmo quando ela não impõe a monofagia.
Quanto à abstinência da Grande Quaresma, é igualmente certo que sua prática remonta à mais alta antiguidade, embora a Didaché não faça menção. Já se fala dela no século II, no momento da querela sobre a celebração da Páscoa. Mas houve na origem divergências práticas bastante notáveis relativamente ao número dos dias da Quaresma. No século IV, a menção da santa quarentena já é muito frequente, e Santa Sílvia nos ensina que, no fim desse mesmo século, observava-se em Jerusalém um jejum de quarenta dias (como entre nós, observa ela), repartidos em oito semanas, pois não se jejuava no Oriente nem no sábado nem no domingo, exceto o sábado santo. Ver Peregrinatio, ibid., p. 89. São Cirilo de Jerusalém, Procathec., n. 4, e Cat., IV, n. 3, P. G., t. XXXIII, col. 341, 457; Eusébio, De solemnitate paschali, n. 4, P. G., t. XXIV, col. 697; os Cânones apostólicos (can. 68), Mansi, Concil. ampliss. coll., Florença, 1759, t. I, col. 44, e as Constituições apostólicas, l. V, c. XIII, P. G., t. I, col. 860, falam igualmente de um jejum de quarenta dias; este jejum era mais rigoroso na semana santa, durante a qual somente as Constituições apostólicas parecem impor a estrita xerofagia. L. V, c. XV, XVI, P. G., t. I, col. 880-889. A abstinência do jejum dito dos santos apóstolos e daqueles que precedem as festas da Assunção e do Natal não se tornou obrigatória senão em uma época muito posterior. Não se encontra traço dela nos cânones dos concílios anteriores ao século VIII; tudo leva a crer que ela foi introduzida pelo costume e que passou dos mosteiros para a prática dos fiéis. São Nicéforo, patriarca de Constantinopla no início do século IX, faz contudo menção dela em seu Typicon, como de uma lei já existente e obrigatória para todos. Pitra, Juris Eccl. Grec. hist., Roma, 1868, t. II, p. 327.
Seja como for dessa origem, é bom constatar ao terminar que, apesar das reduções praticadas no número dos dias de abstinência, resta ainda o suficiente hoje para atingir o número mínimo de 180, o que faz um dia de abstinência a cada dois dias para o ano inteiro. Assim, não faltam autores orientais que reclamam uma diminuição nova em relação, dizem eles, com o estado atual das populações para as quais haveria aí uma carga muito pesada. Essas queixas se produzem tanto entre os gregos unidos quanto entre os gregos não unidos, e, muito recentemente, uma brochura árabe sobre as reformas a introduzir na Igreja melquita unida não hesitava em dizer que essas abstinências muito numerosas não são mais bem observadas pelos fiéis e não podem mais sê-lo.
Autor: P. Michel
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