
...confiante e para se apropriar em toda a segurança da grande absolvição dada por Cristo, sem contar a múltipla utilidade da confissão privada pela qual se dispõe a ela (ou melhor, expõe-se a ela oferecendo-lhe matéria). Pfisterer, p. 73-77. Cf. Herzog, Realencyklopädie, art. Beichte, t. 1, p. 536. Vê-se, ao mesmo tempo, como Lutero pôde não ver na penitência senão um retorno ao batismo. Sendo o batismo a aplicação pessoal da remissão geral feita por Cristo, bastava lembrar-se dele, avivar nele sua fé — e a absolvição era um meio para isso, sem outro efeito, aliás, uma vez que o homem era justo enquanto se apropriasse pela fé da justiça de Cristo. E é bem assim que Lutero a entendeu primeiramente. Mas, como mostra Harnack, Dogmengeschichte, t. II, p. 733 sq., ele não ousou ir até o fim de suas ideias. Logo, mesmo assustado com as consequências que se tiravam de seus princípios, ele retomou pouco a pouco muitos dos "elementos católicos" que havia rejeitado, de tal modo que frequentemente fala como os católicos — embora lhes atribuindo, para combatê-los, doutrinas que eles nunca sustentaram. Ele voltou, assim, a insistir sobre o poder que a Igreja tem de ligar e desligar, de abrir e fechar o céu. Pfisterer, p. 69. É com essas reservas que se pode admitir o que diz Pfisterer, p. v, que "Lutero, sobre a confissão, sempre ensinou, em quase todos os pontos essenciais, a mesma doutrina".
A absolvição não é, portanto, somente, continua Pfisterer, resumindo a doutrina do mestre, um desejo vazio e sem força; é, ao mesmo tempo que um anúncio, uma oferta e uma comunicação da graça de Deus. O que os homens desligam na terra, em nome e pelo mandamento de Cristo, é imediata e instantaneamente desligado no céu. Os homens não são senão os instrumentos pelos quais o Senhor, que lhes pôs a palavra na boca, nos fala Ele mesmo e nos absolve. Daí vem — e Lutero aqui insiste sobre a vantagem de sua doutrina comparada à doutrina católica — que a palavra de absolvição é infalível e certa: "as chaves, segundo Lutero, não poderiam errar" — embora reconheça que os impenitentes e os infiéis rejeitam por sua culpa o dom da graça que lhes é oferecida e, por isso, tornam-se mais culpáveis e condenam-se a si mesmos. Pfisterer, p. 82 sq.
Concilia-se tudo isso como se pode, dizendo que o arrependimento é indispensável, é verdade, mas como "pressuposto necessário de uma fé verdadeira e viva", não como disposição para a justificação; e mantém-se que a fé sozinha justifica ao se apropriar do perdão anunciado pela boa nova da absolvição; quanto à eficácia infalível e absoluta da absolvição, explica-se por um poder misterioso ligado à palavra, poder de despertar no coração a fé, sufocada pelo pecado, e de fortalecer contra as fortalecer contra as tentações da desconfiança; poder que, aliás, exerce-se e faz-se sentir com uma força especial na absolvição privada. Desde então, todo cristão tem sempre direito à absolvição, e é um crime recusá-la a quem a pede. A absolvição não é, portanto, propriamente falando, um julgamento, uma sentença judiciária; é um anúncio evangélico, é uma oferta de graça que, para ser recebida, exige apenas a fé e que tem o poder de excitar essa fé. Vê-se a relação estreita, a identidade prática, que Lutero coloca entre a pregação evangélica e a absolvição. Pfisterer, p. 89 sq.
Daí também a necessidade da absolvição (pelo menos geral) para a salvação, análoga, ou melhor, idêntica à necessidade da pregação para a fé. Pfisterer, p. 105-106.
Pareceria, segundo isso, que o poder das chaves não seja senão um poder de desligar (por mais impróprio que seja o termo para marcar esse anúncio evangélico de perdão, é a ele que Lutero aplica os textos da Escritura sobre este assunto). É preciso, contudo, explicar também o poder de ligar. Lutero o faz dizendo que a absolvição — no foro interno, o único do qual temos que nos ocupar — quando não encontra a fé na alma (o que supõe que ela não a desperta infalivelmente), torna-se antes uma palavra de condenação. Cf. Pfisterer, p. 107 sq., que reconhece, p. 113, que, sobre este ponto, o pensamento de Lutero não é nem claro, nem consequente.
Este poder de anunciar o perdão divino, Lutero o coloca na comunidade dos crentes; todo mundo pode exercê-lo, e ninguém tem o direito de recusar a absolvição a quem vem a ele confessar-se pecador e pedir-lhe que o absolva. De onde quer que venha a absolvição, fosse de uma mulher, de uma criança, onde e de qualquer forma que seja pronunciada, na estrada, nos campos, seriamente ou por jogo, você está absolvido, contanto que você se creia absolvido. Assim falava Lutero nos começos (ver as proposições condenadas por Leão X em Denzinger, Enchiridion, n. 636, 637), e ele nunca cessou, na ocasião, de falar assim. Pfisterer, p. 129 sq. Ele exige, contudo, que a absolvição se dê em nome de Cristo e em virtude de seu mandamento. Realencyklopädie, loc. cit., p. 537. Mais tarde, mesmo, ele insistiu sobre a instituição (ele disse às vezes instituição divina) de um ministério público ao qual é preciso recorrer, salvo o caso de necessidade: de sorte que o exercício oficial e público do poder das chaves é reservado a ministros escolhidos da Igreja, e estabelecidos por Deus mesmo para suceder aos apóstolos. Pfisterer, p. 149 sq. Vê-se como tudo isso cheira ao catolicismo, e Harnack, p. 750, tem razão (Bossuet já o tinha mostrado, Hist. des variat., l. III, n. 23, 25, 26, 29, 47), de encontrar aí "um doblete do sacramento de penitência dos católicos, salvo, contudo, a obrigação da confissão auricular e da satisfação". Mas ele tem razão também de notar — e aqui ainda Bossuet o tinha precedido — que toda essa nova teoria nova da penitência e da absolvição traz de volta, querendo ou não, sob outros nomes e um pouco desfigurados, o opus operatum, o concurso do homem à sua justificação, a distinção do batismo e da penitência, a necessidade da caridade e das boas obras, todas essas velharias católicas tão descriadas.