
As seitas dissidentes da Inglaterra rejeitam claramente o sacramento da penitência e não têm absolvição propriamente dita. O mesmo ocorre, ou quase, com a Kirk da Escócia, com a Igreja protestante da Irlanda e, até pouco tempo atrás, com a Igreja episcopal da América. Portanto, só precisamos nos ocupar da Igreja anglicana propriamente dita.
I. TEXTOS OFICIAIS. — O pensamento da Igreja anglicana sobre a absolvição deve ser buscado, antes de tudo, nos documentos oficiais. Estes documentos são de três tipos: litúrgicos, dogmáticos, canônicos. A liturgia oficial, consignada no Livro de Oração Comum (The Book of common Prayer, comumente o Prayer-Book), emprega três fórmulas de absolvição: a primeira no ofício da manhã e no da tarde, a segunda no ofício da Ceia ou comunhão, a terceira na cerimônia da visita aos enfermos. Dou estas fórmulas de acordo com a tradução impressa em Jersey. Mas, como esta tradução é por vezes «suavizada» por consideração aos calvinistas, farei a ressalva na ocasião.
O ofício da manhã começa com sentenças escriturísticas, convites ao arrependimento, pedidos de perdão, confissões de que se é pecador; segue-se uma exortação à humilde confissão de suas faltas, depois uma «confissão geral que todos devem dizer de joelhos após o ministro». Imediatamente após vem uma absolvição «que deve ser pronunciada pelo sacerdote sozinho e em pé, permanecendo o povo de joelhos». Ei-la: «O Deus todo-poderoso, o Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que não deseja a morte do pecador, mas antes que ele se converta de sua iniquidade e que viva, que também deu poder e mandamento aos seus ministros para declarar e pronunciar ao seu povo penitente a absolvição e a remissão de seus pecados, perdoa a todos aqueles que se arrependem em verdade, e que creem sem fingimento em seu santo Evangelho, e a todos os absolve. Por isso, peçamos-lhe que lhe apraza dar-nos um verdadeiro arrependimento e seu Santo Espírito, a fim de que o culto que lhe rendemos lhe seja agradável e que toda a nossa vida seja pura e santa no futuro; de modo que cheguemos enfim à sua glória eterna, por Jesus Cristo Nosso Senhor.» O povo deve responder: «Amém.» O mesmo ocorre no ofício da tarde, o qual, como o da manhã, deveria, de acordo com a rubrica, ter lugar todos os dias do ano.
No ofício da comunhão, há igualmente confissão geral e absolvição. A confissão é feita por um dos ministros, «em nome de todos os que se propõem a participar da santa comunhão, todos estando de joelhos». Após a confissão, o sacerdote (ou o bispo, se estiver presente) levanta-se e, voltado para o povo, pronuncia esta absolvição: «O Deus todo-poderoso, nosso Pai celestial, que por sua grande misericórdia prometeu a remissão dos pecados a todos aqueles que se convertem a ele com uma verdadeira fé e um sério arrependimento, queira ter piedade de vós; perdoar-vos todos os vossos pecados e livrar-vos deles; sustentar-vos e afirmar-vos em todo bem e conduzir-vos à vida eterna; por Jesus Cristo Nosso Senhor. Amém.» Tal é a segunda absolvição.
Mas, ao lado desta absolvição geral que corresponde à confissão geral, há lugar, antes da comunhão, para uma absolvição particular que corresponde a uma confissão particular. De fato, a primeira exortação para anunciar a comunhão próxima termina assim: «E porque não é necessário que ninguém venha à santa comunhão sem uma plena confiança na misericórdia de Deus e sem uma consciência tranquila, se houver alguém entre vós que não possa (o inglês acrescenta: por este meio, isto é, pelo meio do arrependimento sozinho) colocar seu espírito em repouso, e que ainda precise de consolação ou de conselho, que se dirija a mim ou a algum outro ministro da palavra de Deus, que tenha a prudência e as luzes necessárias; a fim de que, descobrindo-lhe seu mal, receba, pelo ministério da palavra de Deus, a garantia da absolvição de seus pecados (inglês: e que descubra seu mal, open his grief, a fim de receber pelo ministério da santa palavra de Deus o benefício da absolvição), com os conselhos espirituais que podem apaziguar sua consciência e livrá-lo de todo tipo de dúvidas e escrúpulos (inglês: ao mesmo tempo que conselho e aviso espiritual para o apaziguamento de sua consciência e para não deixar lugar a nenhum escrúpulo nem inquietação: aqui não são apenas os conselhos que devem apaziguar a consciência, é ainda e sobretudo a confissão privada, com a absolvição).» Se alguém quiser aproveitar o convite, que fórmula de absolvição deve empregar? O Prayer-Book de 1549 indicava a da visita aos enfermos. Esta indicação foi suprimida no Prayer-Book de 1552 e não foi restabelecida. Mas, de fato, é a que empregam os clergymen que recebem a confissão privada. Ei-la, tal como a apresenta o cerimonial da visita aos enfermos: «Em caso, diz a rubrica, de a consciência do enfermo lhe reprovar algo importante, ele será exortado aqui a fazer uma confissão detalhada (inglês: special) de seus pecados. E após esta confissão, o sacerdote lhe dará a absolvição, se ele a pedir com humildade e insistência, da seguinte maneira: «Nosso Senhor Jesus Cristo, que deixou à sua Igreja o poder de absolver todos os pecadores que se arrependem e creem nele verdadeiramente, queira te perdoar tuas ofensas por sua grande misericórdia; e, por sua autoridade que me é confiada, eu te absolvo de todos os teus pecados. Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo.» O penitente responde: «Amém.» — Como se vê, é, essencialmente, nossa fórmula da absolvição sacramental.
Dessas três fórmulas, a primeira é declarativa, a segunda é metade declarativa, metade deprecativa (como muitas das orações da Igreja), a terceira é indicativa. As duas primeiras, por seu lugar na liturgia e por seu caráter, assemelham-se muito às absolvições dos ofícios católicos, às quais sucederam; mas, sob a influência visível dos reformadores do continente, tomaram um papel muito mais importante: deviam, de fato, ocupar o lugar, ordinariamente, da absolvição sacramental, assim como a confissão geral que as precede devia ocupar o lugar da confissão privada. Não há dúvida, portanto, de que a Igreja anglicana pretendia fazer uso do poder das chaves, tal como o reivindica na primeira e na terceira fórmula. Quanto à terceira fórmula e à confissão privada que a precede, não é senão uma concessão às velhas ideias, um compromisso com os atrasados que não se sentiam plenamente tranquilizados pelas novas maneiras de perdoar os pecados. Enganar-se-ia, pois, quem buscasse aí um pensamento dogmático.
Resta saber que valor os autores do Prayer-Book atribuíam às duas absolvições que pretendiam usuais. Não o disseram; mas tudo indica que pensavam a esse respeito como os reformadores do continente; e Lea, A history of auricular confession in the latin Church, Londres, 1896, p. 521, tem razão ao dizer: «A fraseologia algo vaga (da primeira absolvição) parece ter sido escolhida com cuidado para deixar entender... que o sacerdote apenas manifesta o perdão concedido por Deus.» É verdade que, na ordenação (ver o Prayer-Book), o sacerdote recebe, nos termos evangélicos, o poder de perdoar e reter os pecados. Mas, sobre este poder, a Igreja da Inglaterra explicou-se claramente no sentido anticatólico. Entre os 39 artigos de 1562, que «contêm a verdadeira doutrina da Igreja anglicana» e que todos devem aceitar «no sentido literal e gramatical», o 25º não reconhece senão dois sacramentos instituídos por Jesus Cristo: o batismo e a ceia do Senhor.
Autor original: J. BAINVEL