ABELARDO

Verbete sobre ABELARDO na Enciclopédia Católica

Ver ABELARDO, col. 36 seg.


ABELARDO (ABAILARD, ABEILLARD, ABULARD ou ESBAILLARD) Pedro


Em latim Abailardus, Abaielardus, Baiolensis, Bailardus, Peripateticus Palatinus, etc., filósofo e teólogo, foi, por seu ensino, seus escritos, seu método e mesmo seus erros, um dos espíritos mais influentes da primeira metade do século XII (1079-1142). Estudaremos em um primeiro artigo sua vida e suas obras, em um segundo, sua doutrina e suas proposições condenadas por Inocêncio II, em um terceiro, sua escola e seus discípulos.

I. ABELARDO (Vida e Obras de). — I. Vida. II. Obras. III. Crítica.

I. Sua vida. — Nascido na Bretanha, na senhoria do Palet (em latim Palatium), a quatro léguas de Nantes, Pedro havia herdado de seu pai Berengário, gentil-homem instruído, um gosto muito vivo pelas letras e, ainda muito jovem, segundo o costume do tempo, percorreu as províncias em busca de escolas de dialética. O sobrenome de Abelardo parece devido a uma brincadeira de Thierry de Chartres, que lhe ensinava matemática. Cf. Clerval, Les écoles de Chartres au moyen âge, 1895, p. 192. Teve como mestres em filosofia os chefes das duas escolas rivais: Roscelino primeiro, o fogoso nominalista que, condenado em Soissons em 1092, após um curto exílio na Inglaterra, havia retomado suas lições na colegiada de Sainte-Marie de Loches; depois, por volta de 1100 em Paris, Guilherme de Champeaux, chefe dos realistas, então em todo o brilho de sua glória. Admirou-se por toda parte os sucessos do jovem bretão, sua sutileza maravilhosa, sua facilidade em todos os ramos do trivium e do quadrivium, sem excetuar a música, onde ele se destacava.

Mas logo se revelou seu espírito inquieto e presunçoso. Ele se colocou como rival de Guilherme e engajou contra ele sua primeira luta. Aos vinte e três anos, funda uma escola em Melun, residência da corte (1102), depois a transporta para Corbeil, e retorna enfim a Paris para assediar Guilherme até em seu retiro de Saint-Victor, onde, em disputas públicas, ele o obriga, conta ele mesmo, Historia calamitatum, P. L., t. CLXXVIII, col. 119, a modificar sua doutrina. Esta vitória sobre aquele que se chamava "a coluna dos doutores" ilustrou o jovem mestre que não tardou a fundar em Sainte-Geneviève uma escola famosa. Mas, os triunfos dialéticos não lhe bastando mais, ele vai buscar a ciência sagrada em Laon, onde atrai a imensa reputação de Anselmo. Ele não encontrou, diz ele ainda, "senão uma árvore carregada de folhas sem frutos, um lar de onde escapava muita fumaça e nenhum brilho." Ibid., col. 123. As inimizades que ele levantou, ao elevar uma cátedra rival em frente à de Anselmo, expulsaram-no de Laon; mas ele não partiu senão para receber em Paris, com o título de cônego (sem estar nas ordens), a direção da grande escola de Notre-Dame (1113). Então começa para o escolástico de trinta e quatro anos um período de glória cujo brilho, atestado por todos os contemporâneos, parece fabuloso. Cf. de Rémusat, Abélard, t. I, p. 44. Da Inglaterra, da Bretanha, "do país dos suevos e dos teutões", de Roma mesmo acorriam até cinco mil ouvintes, entre os quais se contou mais tarde dezenove cardeais, mais de cinquenta bispos ou arcebispos e um papa (Celestino II), sem falar do célebre tribuno Arnaldo de Bréscia.

Estes sucessos inauditos embriagaram Abelardo: o orgulho indômito que o havia feito nomear "o rinoceronte" o empurrou a novidades temerárias; ao mesmo tempo ele se abandonava às mais vergonhosas paixões, assim como atestam as reprovações de seu amigo Fulco de Deuil, Epist., xvi, P. L., t. CLXXVIII, col. 378, e esta triste confissão de Abelardo mesmo: Cum totus in superbia et luxuria laborarem. Historia calam., ibid., col. 126. Mas, acrescenta ele, o castigo estava próximo. Foi terrível e doravante a vida de Abelardo não será mais que uma sucessão ininterrupta de lutas, de desapontamentos e de condenações.

A primeira catástrofe eclodiu em 1118. Sabe-se da sedução de Heloísa, sua fuga para a Bretanha, o nascimento de Astrolábio, o casamento secreto exigido e depois divulgado pelo cônego Fulberto, tio de Heloísa, enfim a retirada desta ao mosteiro de Argenteuil e a bárbara vingança exercida sobre Abelardo. Sob o golpe desta humilhação, Abelardo vai sepultar-se na abadia de Saint-Denis, onde abraça a vida monástica. Longe de lá encontrar o repouso, ele fez novos inimigos. Tendo, a instâncias de seus discípulos, retomado suas lições em Saint-Denis e depois em Saint-Ayoul perto de Provins, ele agravou ainda seus erros e, sob pretexto de refutar o triteísmo de Roscelino, ele ressuscitou o sabelianismo. Resultou disso primeiro uma polêmica de uma violência inaudita entre Abelardo e seu antigo mestre, Epist., xiv, xv, P. L., t. CLXXVIII, col. 356-372, depois a denúncia, talvez por Roscelino, ibid., col. 357, certamente por Alberico e Lotulfo de Reims, do opúsculo de Abelardo De unitate et Trinitate divina, recentemente publicado por Stölzle. No concílio de Soissons (1121) presidido pelo célebre cardeal legado Conon de Urach, Abelardo foi condenado a jogar ele mesmo seu livro ao fogo, e a ser encerrado no mosteiro de Saint-Médard. Libertado pelo legado, ele retornou a Saint-Denis, ulcerado, mas sempre opinioso.

Nós só podemos mencionar a tempestade que ele excitou em Saint-Denis ao negar a origem areopagítica da abadia; sua retirada em uma solidão deserta perto de Nogent-sur-Seine onde ele funda a escola do Paráclito, logo povoada de milhares de discípulos; seus novos problemas de doutrina com Claraval e os premonstratenses; sua estadia em Saint-Gildas-de-Rhuys (Morbihan), cujos monges o elegeram abade (1125) sem suspeitar que ele deixaria deles o mais terrível retrato, Hist. calam., ibid., col. 179; enfim seu retorno ao Paráclito (1129) para lá acolher Heloísa após a dispersão do mosteiro demasiado relaxado de Argenteuil, e estabelecê-la como primeira abadessa do mosteiro que ele funda para ela, e ao qual, a seu pedido, ele dá uma regra. Epist., viii, col. 255-326. Cf. Epist., vii, ix.

Em 1136, João de Salisbury nos mostra de novo Abelardo em sua cátedra da montanha Sainte-Geneviève, lutando contra a seita dos cornificianos e arrebatando a palma da lógica de todos seus contemporâneos. Metalogicus, ibid., col. 867, 832. Era seu último triunfo. Seu ensino e as obras compostas em seus anos de solidão tinham adicionado novos erros aos antigos sobre a Trindade. Em 1139, um abade cisterciense, Guilherme de Saint-Thierry, lança o grito de alarme ao transmitir a São Bernardo e a Godofredo, bispo de Chartres, as proposições mais ousadas do inovador. Em vão Bernardo, em uma visita amigável, tenta trazê-lo de volta; Abelardo pede ao arcebispo de Sens, Henrique Sanglier, para se justificar publicamente em um sínodo.

O concílio, composto dos bispos e abades das duas províncias de Sens e de Reims, se reúne em Sens na oitava de Pentecostes, em presença do rei Luís VII acompanhado de numerosos senhores (1141 e não 1140, como se havia acreditado até aqui). V. Deutsch, Die synode zu Sens 1141 und die Verurtheilung Abélards, in-8°, Berlim, 1880; Denifle, Archiv für Literatur und Kirchengeschichte des Mittelalters, 1885, t. I, p. 418. Abelardo teria querido discutir. Mas Bernardo, lendo as proposições extraídas de seus escritos, o intimou a desautorizá-las ou a retratá-las. Desconcertado, o inovador apela ao papa e se retira. O concílio então condena as proposições, reservando ao papa o julgamento sobre a pessoa do autor. Este parte para Roma, onde conta com poderosos amigos. Mas em Lyon ele aprende que Inocêncio II confirmou a sentença e o condena ele mesmo a ser encerrado em um mosteiro (16 de julho de 1141). Cf. Jaffé-Loewenfeld, Regesta pont. rom., 1885, n. 8148 [5767] e 8149 [5767].

Mas, em sua passagem por Cluny, a providência lhe preparava um consolador. Pedro, o Venerável, o acolhe com bondade, o detém em sua abadia, o suaviza, o reconcilia com São Bernardo, obtém do papa mantê-lo perto de si, e lhe inspira uma retratação que, apesar de traços visíveis de amargura, é sinceramente católica. Professio fidei, P. L., ibid., col. 178. Abelardo viveu ainda alguns meses no recolhimento, na oração, no estudo e na penitência, merecendo, por sua submissão à Igreja e suas austeras virtudes, um magnífico elogio de Pedro, o Venerável. Ver Petri Venerabilis Epistolae, P. L., t. CLXXXIX, l. III, epist. iv, Ad Innocentium II, col. 304; l. IV, epist. xxi; l. VI, epist. xxiii, Ad Heloisam, col. 347, 428. Ele tinha sido enviado para descansar ao priorado de Saint-Marcel, quando a morte o atingiu na idade de 63 anos (12 de abril de 1142). A pedido de Heloísa, Epist. ad Petrum Ven., ibid., col. 427, as cinzas de Abelardo foram sepultadas no Paráclito, de onde foram levadas, neste século, a Paris, ao cemitério do Père-Lachaise.

II. OBRAS DE ABELARDO. — I. OBRAS DOGMÁTICAS. — Quatro tratados constituem a parte mais interessante da herança teológica de Abelardo: 1° a obra descoberta e publicada pelo Dr. Remigius Stölzle, sob este título: Abelards 1121 zu Soissons verurtheilter Tractatus de unitate et Trinitate divina, in-8°, Friburgo na Brisgóvia, 1891, p. xxxvi-101; 2° a Theologia christiana, editada em 1717 por Dom Martène no Thesaurus novus anecdotorum, t. V, col. 1189; 3° a Introductio ad theologiam, publicada em 1616 por d'Amboise; 4° a Soma das Sentenças publicada por Reinwald, sob o título de Epitome theologiae christianae, in-8°, Berlim, 1835. Todas essas obras, exceto talvez o Epitome, estão incompletas, pelo menos em sua forma atual. As divisões em livros e capítulos são posteriores e perturbam o plano do autor, especialmente no Epitome. Numerosas passagens, às vezes capítulos inteiros, são quase idênticos nestes diversos tratados: daí problemas de crítica até aqui muito discutidos. Uma comparação atenta das quatro obras leva, contudo, a conclusões certas:

1. A ordem cronológica de composição é a ordem mesma na qual nós as enumeramos. O estudo das modificações trazidas aos fragmentos comuns prova que o De unitate precedeu a Theologia, e esta a Introductio. Cf. por exemplo uma longa passagem comum ao De unitate, etc., edição citada, p. 43-54, à Theologia, P. L., t. CLXXVIII, col. 1241-1247, e à Introductio, ibid., col. 1059-1065. Constata-se, de uma à outra destas obras, o progresso do pensamento e da expressão (ver os modos de identidade em De unitate, p. 50, Theologia, col. 1247, e Introductio, col. 1065), novas leituras (cf. Theologia, col. 1170; Introductio, col. 1039), frases intercaladas sem corrigir as antigas transições (cf. Theologia, col. 1246, e a Introductio, col. 1064, quas tamen, etc.). Já não é possível crer com Dom Martène e Hefele, Histoire des conciles, trad. Delarc, t. VII, p. 161; 2ª ed. alem., 1886, t. V, p. 358, que a Introductio, composta antes de 1120, tenha sido condenada em Soissons: segundo Abelardo ele mesmo, o livro de Soissons era um "opúsculo sobre a Trindade", Epist., xiv, P. L., t. CLXXVIII, col. 357, enquanto a Introductio é uma Soma sobre toda a teologia. Além disso, ela é estritamente posterior ao ano 1183, uma vez que fala de Pedro de Bruys. Introductio, l. II, ibid., col. 1056. O Pe. H. Denifle, O. P., aprova as conclusões de Goldhorn sobre este ponto. Ver Abelards Sentenzen und die Bearbeitungen seiner Theologia, em Archiv für Literatur und Kirchengeschichte des Mittelalters, 1885, t. I, p. 612, 603, etc.

2. O De unitate et Trinitate divina não é, portanto, um resumo da Theologia, e ainda menos "uma expressão mais completa do pensamento de Abelardo sobre a Trindade", como pensou um sábio crítico. Mignon, Les origines de la scolastique et Hugues de Saint-Victor, in-8°, Paris, 1896, t. I, p. 167. É bem, assim como provou Stölzle, no prefácio de sua edição, op. cit., p. X seg., o tratado especial sobre a Trindade do qual Abelardo era tão orgulhoso e que foi queimado em Soissons. O R. P. Mandonnet, O. P., pensa com razão que "esta obra forma, com a carta apologética de Roscelino, a parte mais importante do dossiê relativo aos seus conflitos com Abelardo". Revue thomiste, 1897, p. 300. — A Theologia christiana é apenas uma segunda edição, com novos desenvolvimentos, do De unitate et Trinitate divina, do qual ela reproduz o plano, as numerosas objeções e o texto integral, salvo curtíssimos fragmentos (cerca de 15 páginas) julgados inúteis ou obscuros. É a revanche de Abelardo contra o concílio de Soissons: no retrato tão pouco lisonjeiro de Alberico de Reims, Theologia christ., l. IV, P. L., t. CLXXVIII, col. 1285, est et alius in Francia..., há uma alusão à cena de Soissons narrada na autobiografia de Abelardo. Hist. calamit., ibid., col. 147. A obra parece terminar ao fim do livro IV, como indicam o plano, a expressão mesma de novissima quaestio, Theologia christ., l. IV, ibid., col. 1313, e sobretudo a conclusão final Hec nos... Ibid., col. 1718. A obra não parece incompleta senão pela adição inoportuna do livro V, emprestado palavra por palavra do livro II da Introductio para a qual deve ter sido composta.

3. A Introductio ad theologiam é a mais importante das obras de Abelardo. Apesar do título adicionado por um copista, ela é uma verdadeira Soma de teologia composta para o uso das escolas: Scholarium nostrorum petitioni, prout possumus, satisfacientes, aliquam sacre eruditionis summam quasi divine scripture introductionem conscripsimus, lê-se no prólogo. Ibid., col. 979. O Pe. Denifle estabelece muito bem, loc. cit., Archiv, t. I, p. 589, 601, 611, que esta obra, começada por Abelardo desde sua retirada em Saint-Denis, não pôde ser continuada senão mais tarde. Mas desde o início aparece aqui pela primeira vez esta divisão da teologia em três partes, que, logo seguida no Sic et non, será célebre na escola abelardiana: 1° da fé (e dos mistérios); 2° dos sacramentos (e da Encarnação); 3° da caridade. É à Introductio que virão beber todas as Somas de sentenças publicadas pelos discípulos de Abelardo. Ver III ABELARDO (ESCOLA DE). Ela é também muito certamente esta obra designada sob o nome de Theologia Abailardi, da qual Guilherme de Saint-Thierry, e depois dele São Bernardo, emprestaram os textos incriminados em Sens. O quadro seguinte facilita a verificação: a primeira coluna indica as citações feitas por Guilherme, a segunda os trechos da Introductio de onde são extraídas:

Disput. c. Abailardum (Pat. t. CLXXXIV) | Introductio ad theologiam (P. L. t. CLXXVIII)
Cap. I, col. 249 | L. I, c. 1, col. 981 (édit. Cousin, t. II, p. 5)
Cap. I, col. 250 | L. I, c. V-IX, col. 987-989 (Cous., t. II, p. 10-18)
Cap. II, col. 244 | L. II, c. XII, col. 1068 (Cous., t. II, p. 97)
Cap. IV, col. 257 | L. II, c. XIV-XV, col. 1072 (Cous., t. II, p. 100)
Cap. V, col. 265 | L. I, c. XIX, col. 1020 (Cous., t. II, p. 45)

Infelizmente a comparação não pode mais prosseguir: resta-nos apenas da Introductio a primeira parte sobre a fé e a Trindade. Sobre este assunto, Abelardo bebe na Theologia christiana capítulos inteiros, ao mesmo tempo que, por intermináveis digressões, ele destrói a harmonia de seu plano e essa rápida precisão tão necessária a uma Soma de teologia.

4. O Epitome, melhor chamado no manuscrito de Admont Sententiae Petri Baiolardi, cf. Gietl, Die Sentenzen Rolands, 1891, p. 22, é ao contrário um compêndio de teologia metódica, claro e preciso. O Pe. Denifle conclui, não sem verossimilhança, que não é de Abelardo ele mesmo, embora reproduza em toda parte muito exatamente seu sistema, suas divisões e suas fórmulas. Op. cit., Archiv, etc., t. I, p. 402, 420, 592. Ainda menos é um simples caderno de aluno, como supunham Gieseler e Hefele: o segundo manuscrito descoberto pelo Pe. Gietl exclui esta hipótese. É, portanto, um manual de teologia abelardiana, resumindo toda a Introductio ad theologiam, tal como deve ter existido com as três partes anunciadas no início. Daí o preço deste resumo que supre as partes perdidas da grande obra e cuja fidelidade nos é garantida pelo fato de que doze capítulos (de 37) se reencontram palavra por palavra na parte conservada da Introductio. O Epitome é, portanto, em relação a esta, o que é relativamente às Sentenças de Pedro Lombardo o famoso resumo de Bandinus. Segundo a conjectura do Pe. Denifle, quando São Bernardo fala das sentenças de Abelardo, Epist., CXC, seu tract. de erroribus Abailardi, c. VI, P. L., t. CLXXXII, col. 1062; cf. Epist., CLXXXI, ibid., col. 353, talvez ele tivesse sob os olhos este Epitome.

5. O Sic et non, publicado em parte por V. Cousin (1835), mas cuja primeira edição completa foi dada em Marburgo em 1851, por Henke e Lindenkohl, não é, segundo Abelardo ele mesmo no prólogo, P. L., t. CLXXVIII, col. 1349, senão uma compilação de textos, em aparência contraditórios, tirados da Escritura ou dos Padres, sobre 158 questões importantes da religião. Levantar tantas dificuldades sem resolver nenhuma, é certamente um jogo de espírito tão temerário quanto perigoso. Sábios concluíram que Abelardo, já cético, queria lançar nos espíritos fermentos de dúvida. Cf. Vigouroux, Les Livres saints et la critique rationaliste, 3ª ed., 1890, t. I, p. 347. Mas um cálculo tão perverso não se concorda nem com o prólogo desta obra, nem com a fé que, em Abelardo, sobreviveu sempre aos seus erros.

II. OBRAS EXEGÉTICAS, MORAIS, APOLOGÉTICAS. — 1. À exegese pertencem o Expositio in Hexaemeron e os Commentariorum super S. Pauli epistolam ad Romanos libri quinque, cf. Vigouroux, Dictionnaire de la Bible, art. Abelardo, t. I, col. 30; ali é feita menção de um Expositio super Psalterium, e de um outro super epistolas Pauli (Bibl. nat., ms. 1. 2543). A segunda obra merece sozinha a atenção porque encerra a doutrina de Abelardo sobre a predestinação, a redenção, o pecado original e a graça. — 2. O Scito te ipsum seu Ethica, publicado por B. Pez no Thesaurus anecdotorum novissimus, t. I, 3ª parte, p. 626 seg., é um tratado de moral mais filosófica que religiosa cujos graves erros foram levantados por São Bernardo. Ver III ABELARDO (Artigos condenados por Inocêncio II). Abelardo expôs a mesma doutrina no poema moral, Carmen ad Astralabium filium, que M. Hauréau publicou integralmente (1040 versos, em vez de 461 já conhecidos) nos Notices et extraits des manuscrits de la Bibliothèque nationale, 1893, t. XXIV, 2ª parte, p. 153 seg. Encontra-se ali uma prova da autenticidade das cartas controversas de Heloísa e das tristes fraquezas que ela revela, mesmo após sua profissão. Notice, por Hauréau, loc. cit., p. 156. — 3. O Dialogus inter philosophum, judeum et christianum, editado por Reinwald em 1831, é uma apologia do cristianismo ao mesmo tempo original e obscura. Ao julgamento fortemente motivado de M. Vigouroux, Les Livres saints, t. 1, p. 339, este livro, por causa de suas tendências racionalistas, é "uma das composições mais temerárias" do inovador. — 4. Ao ascetismo se relacionam, com os hinos e outros opúsculos, os Sermones (37), conferências bastante frias dirigidas em sua maioria às religiosas do Paráclito. — 5. Mencionemos também as 17 Cartas, interessantes sobretudo para a história de Abelardo. A primeira é um relato de sua vida que Duchesne anotou sabiamente.

III. OBRAS FILOSÓFICAS. — O público não conhecia o menor escrito filosófico de Abelardo, quando V. Cousin publicou as Ouvrages inédits d’Abélard pour servir à l’histoire de la philosophie scolastique en France, in-4, Paris, 1836. Este volume continha, com longos extratos das glosas sobre Aristóteles, Porfírio e Boécio, a Dialectica, dirigida por Abelardo a seu irmão Dagoberto, para a educação de seus sobrinhos. Esta Dialética não é mais um comentário do pensamento de outro, mas uma obra pessoal, um tratado completo de lógica, regular e metódico. As confidências do autor sobre seus aborrecimentos e sobre sua morte próxima, abandono de erros outrora acariciados, fazem supor que a obra foi revista após o concílio de Sens. Cousin, Introduction aux ouvrages inédits, p. 31-37. O fragmento sobre Les genres et les espèces é, segundo Cousin, ibid., p. 17, "a peça mais interessante do grande processo do nominalismo e do realismo, no século de Abelardo."

III. CRÍTICA. — Poucos escritores tiveram ao mesmo tempo censores mais severos e admiradores mais entusiastas. Cf. os Epitáfios de Abelardo recolhidos em P. L., t. CLXXVIII, col. 103-106; ed. Cousin, t. 1, p. 717. Dom Clément era certamente duro demais quando concluía que, graças à sua paixão pelas novidades, Abelardo, "homem de muito espírito... tornou-se apenas um sofista orgulhoso, um mau raciocinador, um poeta medíocre, um orador sem força, um erudito superficial, um teólogo réprobo." Histoire littéraire de la France, t. XI, p. 248. Mas as reabilitações tentadas outrora por d'Amboise e Dom Gervaise, multiplicadas neste século pelos escritores racionalistas, ultrapassam bem de outra forma a medida. É moda glorificar em Abelardo um representante do livre-pensamento, uma vítima dos rancores de São Bernardo, cf. de Rémusat, Abélard, t. 1, p. 214, o grande renovador da filosofia e "o Descartes do século XII", Cousin, Introduction aux ouvrages inédits, p. 6, enfim "o criador do método escolástico". Picavet, Abélard et Alexandre de Hales, créateurs de la méthode scolastique, Paris, 1896, p. 1-14. Há ali calúnias e exageros.

1° Abelardo nunca foi livre-pensador ou incrédulo: suas explicações dos dogmas são, é verdade, muito frequentemente marcadas por racionalismo; mas ele foi e quis ser um crente sincero. De antemão ele se submeteu sempre ao julgamento da Igreja. Cf. Introductio ad theologiam, prólogo, P. L., t. CLXXVIII, col. 980; ed. Cousin, p. 3; Theol. christ., l. II e III, P. L., t. CLXXVIII, col. 1171, 1218; ed. Cousin, t. 1, p. 406, 454. No mais forte da luta ele dirige a Heloísa esta enérgica profissão de fé onde se lê: Nolo sic esse philosophus ut recalcitrem Paulo; non sic esse Aristoteles ut secludar a Christo. Epist., XVI, P. L., t. CLXXVIII, col. 375; ed. Cousin, t. 1, p. 680. Após a decisão de Roma, sua submissão edificou Pedro, o Venerável. — 2° A justiça e mesmo a necessidade urgente da condenação de Abelardo não pode mais ser contestada hoje. Desde a publicação de suas obras, já não é possível dizer que simples imprudências de linguagem foram transformadas em heresias monstruosas e chiméricas. "As proposições condenadas, confessa de Rémusat ele mesmo, Abélard, t. 1, p. 215, são em geral autênticas e os apologistas de Abelardo tiveram razão em contestá-las." As denegações violentas do inovador, cf. Apologia, P. L., t. CLXXVIII, col. 106; ed. Cousin, t. 1, p. 719, provam apenas seu embaraço ou ainda, após o Pe. Denifle, a fraqueza de seu caráter; ousado na afirmação, ele ziguezagueava na defesa. Quanto ao perigo que estes erros faziam correr à fé, ele foi posto em luz pela descoberta recente dos manuscritos da escola de Abelardo. Denifle, O. P., Abelards Sentenzen, etc., em Archiv, loc. cit., t. 1, p. 592 e passim. Não é mais um pensador isolado, mas toda uma legião de doutores que derrubavam os dogmas fundamentais. À medida que as escolas do século XII são mais bem conhecidas, torna-se evidente que, sem as condenações de Abelardo e de Gilberto de la Porrée, o paganismo ameaçava reinar ali como mestre. Cf. Clerval, Les écoles de Chartres au moyen âge, in-8°, Chartres, 1895, seç. VI, p. 244 seg.

3° Em filosofia, Abelardo criou um sistema novo? Não temos que decidir. Notemos apenas que, seria ele verdadeiramente o inventor do conceitualismo, este sistema bastardo não é afinal senão um nominalismo disfarçado e, segundo o mote de C. Jourdain, Dictionnaire des sciences philosophiques, art. Abelardo, "dissimula a dificuldade em vez de resolvê-la." Aliás, número de críticos duvida que Abelardo seja conceitualista e pretendem que, seguindo Cousin, os filósofos franceses se enganaram sobre seu pensamento. Os contemporâneos com João de Salisbury viram nele, antes, um nominalista. Metalogicus, l. II, c. XVII, col. 1068 (Cous., t. II, p. 97). Segundo Stöckl, Lehrbuch der Geschichte der Philosophie, 2ª ed., Mainz, 1875, p. 404, e o cardeal Gonzales, Histoire de la philosophie, traduzida do espanhol pelo Pe. de Pascal, in-8°, Paris, 1890, t. II, p. 153, em vão se buscaria nele uma solução precisa e expressa do problema dos universais. Também de Rémusat admite ele também que Abelardo "não foi um grande homem; não foi nem sequer um grande filósofo, mas um espírito superior, de uma sutileza engenhosa, um raciocinador inventivo e um crítico penetrante..." Abélard, t. 1, p. 273. — 4° A verdadeira glória de Abelardo é ter contribuído em grande parte para o desenvolvimento do método escolástico. Certamente ele não foi o criador, como pretende M. Picavet: Anselmo já tinha aparecido, e Hugo de Saint-Victor não se mostra menos ávido que ele de filosofia e de explicação racional. Mas a Introductio ad theologiam parece bem ser a primeira Soma empreendida para coordenar em uma só obra todo o ensino da fé. Hugo escreveu apenas depois dele sua grande obra De sacramentis. Cf. Mignon, Les origines de la scolastique, t. 1, p. 166. Além disso, apaixonado ao mesmo tempo pela dialética e pela erudição sagrada, Abelardo inspirou à sua escola o gosto pela discussão dos textos patrísticos, recolhidos no Sic et non, e este método mais seco em sua severidade didática, mas mais preciso, que a distingue da escola de Saint-Victor. Cf. Denifle, op. cit., em Archiv, t. 1, p. 613-620. Citamos para terminar o julgamento benevolente do Pe. de Régnon, Études de théologie positive sur la sainte Trinité, in-8°, Paris, 1892, t. II, p. 87; após ter mostrado o Proteu, ora inspirando-se em sua fé, ora abandonando-se ao racionalismo que o persegue, ele conclui nestes termos: "Tal foi Abelardo! grande figura perante a qual não se pode permanecer indiferente. Admira-se o homem de gênio, ama-se a grande criança, condena-se o inovador, respeita-se o penitente."

I. EDIÇÕES DAS OBRAS DE ABELARDO. — A primeira e a mais incompleta apareceu em Paris, in-4°, 1616, sob este título: Petri Abelardi philosophi et theologi... et Heloissae conjugis ejus... opera, etc. Ela é atribuída por alguns exemplares a André Duchesne, e por outros a François d'Amboise, o autor da Préface apologétique. A segunda foi dada por Migne em 1855, no t. CLXXVIII da P. L. Nela faltam apenas as obras filosóficas, publicadas por Cousin, e o De unitate et Trinitate divina. Victor Cousin, após as obras inéditas de Abelardo (1836, ver mais acima), publicou, com o concurso de C. Jourdain e E. Despois, as P. Ab. opera hactenus seorsim edita, 2 in-4°, Paris, 1859. Estes três volumes reunidos formam a melhor edição.


ABELARDO (ARTIGOS CONDENADOS POR INOCÊNCIO II)


I. Os documentos. II. Verdadeiro sentido dos artigos condenados e sistema teológico de Abelardo.

I. OS DOCUMENTOS. — Da condenação de 1121 em Soissons, nenhum documento oficial restou. Segundo Otão de Freising, De rebus gestis Friderici I, l. I, c. xlvii, em Recueil des hist. des Gaules, t. XII, p. 654, recriminava-se a Abelardo o ensino do sabelianismo, e São Bernardo nos ensina que as novas obras proscritas em 1141 reproduziam o livro queimado em Soissons. Epist., CXC, P. L., t. CLXXXII, col. 557. Ora, sobre a condenação de 1141, temos os rescritos de Inocêncio II e os Capitula errorum Abailardi.

1. RESCRITOS DE INOCÊNCIO II. — Numa carta endereçada em 16 de julho de 1141 aos arcebispos Henrique de Sens e Sansão de Reims, aos seus sufragâneos e ao abade de Claraval, o papa dizia: "Nos itaque, qui in cathedra sancti Petri, cui a Domino dictum est: Et tu aliquando confirma fratres tuos, licet indigni residere conspicimur, communicato fratrum nostrorum episcoporum cardinalium consilio, destinata Nobis a vestra discretione capitula et universa ipsius Petri dogmata sanctorum canonum auctoritate cum suo auctore damnavimus, eique tanquam haeretico perpetuum silentium imposuimus. Universos quoque erroris sui sectatores et defensores a fidelium consortio sequestrandos et excommunicationis vinculo innodandos esse censemus." Jaffé-Loewenfeld, Regesta pontificum Roman., t. I, n. 8148; P. L., t. CLXXIX, col. 515.

Uma segunda carta do mesmo dia mandava aos mesmos prelados "de fazer encerrar separadamente nos mosteiros que parecessem convenientes, Pedro Abelardo e Arnaldo de Bréscia, que fabricaram dogmas perversos e atacaram a fé católica, e de fazer queimar seus livros em toda parte onde se encontrarão". Jaffé-Loewenfeld, ibid., n. 8149; P. L., ibid., col. 517.

Destes textos, resulta: 1° que a doutrina de Abelardo e o autor ele mesmo são declarados hereges; 2° que suas obras são condenadas ao fogo (pelo menos a Introductio, o Scito te ipsum e o Expositio Epistolae ad Romanos que são formalmente denunciados por São Bernardo, Epist., CXC, P. L., t. CLXXXII, col. 1061, 1062); 3° que as proposições de Abelardo enviadas a Roma são especialmente reprovadas sem que a censura que elas merecem seja determinada.

II. ARTIGOS CONDENADOS. — Nenhuma lista absolutamente oficial tendo sido conservada, damos a mais completa, publicada por d'Argentré, Collectio judiciorum, Paris, 1728, t. I, p. 24, reproduzida por Mansi, Concil., t. XXI, col. 568, e Denzinger, Enchiridion, 10ª ed., n. 368-386. É a que foi comunicada a Abelardo no concílio de Sens, uma vez que, na sua retratação, P. L., t. CLXXVIII, col. 568; ed. Cousin, p. 720, ele a examina artigo por artigo (salvo contudo os 3° e 16° artigos que são omitidos). Ela concorda com a lista publicada por d'Amboise, Praefatio apologetica, P. L., t. CLXXVIII, col. 79, exceto para os artigos 8 e 15. Enfim a lista enviada a Roma, descoberta por Dom Durand, e publicada por Mabillon, Sancti Bernardi opera, t. I, p. 640; P. L., t. CLXXXII, col. 1049, estava reduzida a catorze capítulos com extratos de Abelardo longos demais para serem reproduzidos aqui. Marcamos então com um * os artigos 3, 14, 15-19 que, antes da sentença romana, foram cortados. No artigo 14, o texto ininteligível dado por d'Amboise, d'Argentré, Mansi: ad Patrem qui ab animo non est, foi retificado segundo o texto de Abelardo citado na lista romana. P. L., ibid., col. 1082. A data é também retificada segundo Jaffé-Loewenfeld, loc. cit.

[TABELA DE ARTIGOS CONDENADOS]
1. Quod Pater sit plena potentia, Filius quaedam potentia, Spiritus Sanctus nulla potentia. (O Pai é a potência completa, o Filho é uma certa potência, o Espírito Santo não é de modo nenhum uma potência.)
2. Quod Spiritus Sanctus non sit de substantia Patris aut Filii. (O Espírito Santo não é da substância do Pai ou do Filho.)
3*. Quod Spiritus Sanctus sit anima mundi. (O Espírito Santo é alma do mundo.)
4. Quod Christus non assumpsit carnem, ut nos a jugo diaboli liberaret. (Cristo não se encarnou para nos libertar do jugo do demônio.)
5. Quod nec Deus et homo, neque haec persona, quae Christus est, sit tertia persona in Trinitate. (Nem Cristo Deus e homem, nem esta pessoa que é Cristo, é uma das três pessoas na Trindade.)
6. Quod liberum arbitrium per se sufficit ad aliquid bonum. (O livre arbítrio por suas próprias forças é suficiente para operar algum bem.)
7. Quod ea solummodo possit Deus facere vel dimittere, vel eo modo tantum, vel eo tempore, quo facit et non alio. (Deus não pode realizar ou omitir senão o que Ele realiza ou omite, e ainda somente da maneira e no tempo que Ele o faz e não de outro modo.)
8. Quod Deus nec debeat nec possit mala impedire. (Deus não deve nem pode impedir o mal.)
9. Quod non contraximus culpam ex Adam, sed poenam tantum. (Adão não nos transmitiu sua culpa, mas somente a pena de seu pecado.)
10. Quod non peccaverunt, qui Christum ignorantes crucifixerunt, et quod non culpae adscribendum est, quidquid fit per ignorantiam. (Aqueles que crucificaram Cristo, sem conhecê-lo, não pecaram e nada do que se faz por ignorância deve ser imputado como culpa.)


ABELARDO (ARTIGOS CONDENADOS)


11*. No Cristo não havia o espírito do temor de Deus.
12. O poder de ligar e desligar foi dado aos apóstolos somente, e não aos seus sucessores.
13. Os atos exteriores não tornam o homem nem melhor nem pior.
14. Ao Pai, que não procede de nenhum outro, pertence em propriedade ou de maneira especial a operação, mas não a sabedoria e a bondade.
15*. O temor, mesmo filial, é excluído da vida futura.
16*. O demônio insinua a sugestão ao mal pela ação das pedras ou das plantas.
17*. O advento no fim dos tempos pode ser atribuído ao Pai.
18*. A alma de Cristo não desceu ela mesma aos infernos; ela apenas penetrou ali por sua potência.
19*. Nem o ato exterior, nem a vontade deste ato, nem a concupiscência ou o prazer excitado por ela constituem o pecado, e nós não somos obrigados a querer sufocar este prazer.

III. VERDADEIRO SENTIDO DOS ARTIGOS CONDENADOS E SISTEMA TEOLÓGICO DE ABELARDO. — O sistema de Abelardo subverte os principais dogmas cristãos: 1° a fé e o método teológico; 2° a Trindade e a criação; 3° a encarnação e a redenção; 4° a natureza do homem e a graça; 5° a moral.

1° Erros sobre a fé e o método teológico. — Embora a série dos artigos não faça menção disso, o racionalismo inconsciente era o grande pesar de Guilherme de Saint-Thierry e de São Bernardo contra Abelardo: era a principal reprovação expressa na carta dos Padres de Sens a Inocêncio II. P. L., t. CLXXXII, col. 357. Apesar de magníficas apologias da fé (ver Introductio, l. II, P. L., t. CLXXVIII, col. 1226, onde se diz: credi salubriter debet quod explicari non valet), no fundo mesmo de seu sistema reina a confusão da fé e da filosofia. — 1. De ambos os lados, o objeto é o mesmo, os mistérios não existem mais: "A Trindade é uma das verdades que todos os homens creem naturalmente." Theologia christiana, l. V, P. L., t. CLXXVIII, col. 1123; Introductio, l. II e III, col. 1051-1086; Comm. in Epist. ad Rom., col. 803. — 2. Os filósofos foram divinamente inspirados como os profetas. Introductio, l. I, col. 998; Theologia christ., l. I, col. 1126-1165; De unitate, p. 4. Platão falou melhor que Moisés da bondade divina. Theol. christ., l. II, col. 1175. Os filósofos estão, portanto, salvos, muito mais, são santos "cujas virtudes reproduzem a perfeição evangélica". Theol. christ., l. I, col. 1179-1206. — 3. O motivo da fé é rejeitado: "Não se aceita uma verdade de fé porque Deus a disse, mas porque a razão está convencida." Introductio, l. I, col. 1050. "Somente os ignorantes recomendam a fé antes de compreender." Introductio, l. II, col. 1046-1057. — 4. A certeza da fé é abalada pela definição famosa que dela faz uma opinião, uma conjectura: Est quippe fides existimatio rerum non apparentium. Introductio, l. I, col. 981; l. III, col. 1051; S. Bernardo, Epist., CXC, P. L., t. CLXXXII, col. 1061.

2° Erros sobre a Trindade e a ação divina (artigos 14, 7, 8, 3). — 1. O sabelianismo devia nascer deste racionalismo latente. Assim que se quer explicar a Trindade pela razão, é preciso renunciar à distinção real das três pessoas. Para Abelardo elas não são senão os três atributos da divindade, potência, sabedoria e bondade: os nomes Pai, Filho e Espírito Santo são desviados de seu sentido próprio. Cf. Introductio, l. I, P. L., t. CLXXVIII, col. 989; l. II, col. 1086; Theol. christ., l. II, col. 1259-1261, 1278. Daí esta famosa comparação do sigillum aeneum que indignava Guilherme de Saint-Thierry. P. L., t. CLXXX, col. 255. — Tal é a origem do artigo primeiro: ao Pai sozinho pertence a onipotência. Cf. Introductio, l. I, col. 994; l. II, P. L., t. CLXXVIII, col. 1068-1069; Theologia christ., l. I, col. 1136; ver sobretudo a primeira Apologia, ed. Cousin, t. II, p. 730. — "O Espírito Santo não é da substância do Pai e do Filho" (artigo 2), porque, no pensamento de Abelardo, o Espírito Santo, sendo amor, deve ser o amor não de Deus, mas das criaturas; todo amor deve ser com efeito, diz ele, o amor de um outro. Introductio, II, P. L., t. CLXXVIII, col. 1072. — Vê-se também por que (no artigo 14) a potência é reservada ao Pai sozinho, como ao Filho a sabedoria e ao Espírito Santo a bondade. — 2. Na obra da criação, Abelardo, seduzido pelos devaneios de Platão, substitui a liberdade e a onipotência de Deus pelo otimismo mais exagerado: Deus não pode fazer nada de outra forma que a que faz (art. 7), ele não poderia impedir o mal que Ele permitiu (art. 8). O mundo não podia ser melhor. Se Deus com efeito tivesse podido fazer melhor e não o tivesse querido, seria Ele infinitamente bom, e não se poderia acusá-Lo de inveja? Introductio, l. III, col. 1093-1103; Theol. christ., l. V, col. 1324-1330. A retratação de Abelardo, Fidei confessio, col. 107, mais franca sobre o artigo 7, é ainda nebulosa sobre o artigo 8. O otimismo de Abelardo, sobre o qual se calam São Bernardo e Guilherme de Saint-Thierry, foi vivamente combatido pelo autor anônimo do Disputatio adv. Abail., P. L., t. CLXXX, col. 318-322, por Roberto Pulleyn, Sententiarum libri octo, l. II, P. L., t. CLXXXVI, col. 109, por Hugo de Saint-Victor, De sacramentis, l. I, part. II, c. XXII, P. L., t. CLXXVI, col. 214, e pelo autor da Summa sententiarum, falsamente (ver o artigo seguinte) atribuída a Hugo. P. L., t. CLXXVI, col. 69. — 3° O panteísmo está contido na teoria do "Espírito Santo alma do mundo"? É certo que esta última ideia foi por muito tempo uma das mais caras a Abelardo e que as citações de Zenão, de Platão, de Virgílio e de Macróbio dão a impressão de uma concepção espinosista do mundo. De unitate et Trin., ed. Stölzle, p. 10; Theol. christ., l. I, P. L., t. CLXXVIII, col. 1144-1166; Introductio, l. I, col. 1019-1080. Mais de um de seus discípulos aceitou de fato as consequências panteístas desta fórmula. Acreditamos, no entanto, com de Rémusat, Abélard, t. II, p. 288, e Vacandard, Abélard, p. 238, que a acusação de panteísmo formulada contra Abelardo por Caramuel, Lobkowitz, Fessler e Rixner, não é fundada. Do resto, na revisão de sua Dialectica, part. V, ed. Cousin, p. 475, ele rejeitou expressamente esta teoria do mundo "animal imenso, vivendo de uma alma divina". Amaury de Chartres não deriva, portanto, dele, como se tem dito, mas de Escoto Erígena e sobretudo de Thierry de Chartres. Clerval, Les écoles de Chartres, p. 318.

3° Erros sobre a encarnação (art. 5, 4, 17, 18, 12). — 1. A teoria de Abelardo sobre a pessoa do Homem-Deus contém em germe o nestorianismo, sapit Nestorium, dizia São Bernardo. Ele concordava bem que há em Jesus Cristo uma só pessoa, Epitome, c. XXIV, P. L., t. CLXXVIII, col. 1732, e que o Cristo, como Verbo, é uma pessoa da Trindade, mas ele negava que o Homem-Deus, ou mesmo "esta pessoa que é o Cristo" seja uma pessoa da Trindade (art. 5). Cf. Apologia I Abailardi, na ed. Cousin, t. II, p. 730. Sem dúvida é ignorar a comunicação dos idiomas, como observa Vacandard, Abélard, p. 248, mas há além disso uma concepção errônea da união hipostática que por muito tempo vai perturbar as escolas. Segundo Abelardo...


ABELARDO (ARTIGOS CONDENADOS)


Lard, não se pode dizer sem impropriedade de termos: "Deus é homem;" deve-se dizer Deus HABET hominem, o Verbo assumiu, possui a humanidade, como um traje com o qual não há identidade. Daí nascerá na escola de Abelardo a famosa tese Christus ut homo, non est aliquid, que, adotada por Pedro Lombardo, erguerá tempestades até sua condenação por Alexandre III em 1179. Cf. III ABELARDO (ESCOLA DE) e ADOTIANISMO NO SÉCULO XII.

2. A redenção é totalmente aniquilada no sistema de Abelardo: "O Verbo não se fez homem para nos libertar do jugo do demônio" (art. 4), mas somente para dar um grande exemplo de caridade. Abelardo podia sem dúvida, contra uma opinião exagerada de seu tempo, negar ao demônio um verdadeiro direito sobre o homem culpado, e fazer dele seu carcereiro, carcerarius. Mas ele nega também os direitos da justiça divina, e destrói a satisfação de Cristo: Jesus não é de modo nenhum uma vítima que expia, é um modelo cuja paixão não tem outro objetivo senão excitar nosso amor. "Como a mordida de Adão em uma maçã seria expiada pelo crime bem mais horrível da morte de Jesus Cristo?" Exposit. in Epist. ad Rom., P. L., t. CLXXVIII, col. 834-836; Epitome, c. xxi, col. 1730. Este erro é um daqueles que Abelardo mais explicitamente rejeitou em sua retratação. Ibid., col. 107.

3. Abelardo negou a descida de Jesus Cristo aos infernos (art. 18) e atribuiu ao Pai o último advento (art. 17)? Os textos faltam para decidir. O Expositio symboli, P. L., t. CLXXVII, col. 626, de onde parece extraído o 18° artigo, pode ter um sentido ortodoxo.

4. O poder das chaves, deixado por Jesus Cristo à sua Igreja, parece destruído pelo artigo 12 que o reserva somente aos apóstolos. A fórmula é bem de Abelardo, Scito te ipsum, c. xxvi, col. 674, e seu pensamento é muito obscuro, embora ele fale menos do poder de jurisdição que do dom de discernimento no uso das chaves. Ele quer recusar o poder de absolver aos bispos simoníacos e indignos, preludiando assim aos erros de Wiclef. Em sua retratação, ele reconhece o poder das chaves nos ministros indignos, enquanto eles são tolerados pela Igreja; estas últimas palavras reservam a opinião muito difundida no século XII de que a consagração feita por um padre excomungado é inválida. Cf. Die Sentenzen Rolands, ed. Gietl, Friburgo, 1891, p. 217.

4° Erros sobre a natureza e a graça. — Abelardo não quer ser pelagiano, mas seu racionalismo o leva sempre à negação da ordem sobrenatural.

1. Mais pecado original; pois, se Abelardo conserva a palavra, ele entende por aí uma pena, não uma culpa (art. 9). Cf. Expositio in Epist. ad Rom., P. L., t. CLXXVIII, col. 867-873; Ethica, c. ii, col. 639-641; c. xiv, col. 654; Epitome, c. xxx. A retratação de Abelardo sobre este ponto é ainda insuficiente. Ibid., col. 107.

2. Mais graça preveniente: a liberdade pode sozinha fazer fazer o bem (art. 6). Não é que ele negue a necessidade da graça, mas como Pelágio ele chamava de graça todo dom gratuito de Deus, mesmo a liberdade ele mesmo. Este erro, muito claramente sustentado na primeira apologia, Opera, ed. Cousin, t. I, p. 731, é retratado na segunda, ed. Cousin, t. II, p. 721. P. L., t. CLXXVIII, col. 107.

3. Mais intervenção direta do demônio, sua ação se limitando a pôr em jogo as forças naturais dos elementos e das plantas (art. 16). Cf. Ethica, c. iv, col. 647.

5° Erros morais. — A Ética de Abelardo seria, segundo de Rémusat, sua obra mais original; mas aí ainda seu espírito excessivo em tudo o extraviou. A moralidade subjetiva ou formal faz com que ele esqueça a moralidade objetiva dos atos.

1. Sob pretexto de que não há menosprezo de Deus fora do consentimento, ele não vê mais nada de mau nas inclinações da concupiscência, nem nos gozos defendidos. Tal é o sentido do artigo 19, resumo muito exato da Ethica, c. I, col. 638-645.

2. O ato exterior não tem mais valor moral (art. 13); Abelardo ousa escrever que "todos os atos são indiferentes em si mesmos e não se tornam bons ou maus senão pela intenção daquele que age". Ibid., c. vii, col. 630; cf. Epitome, c. xxxiv, col. 1755; Problemata Heloissae, probl. 24, col. 710.

3. Confundindo com a ignorância invencível aquela que é voluntária e culpada, ele desculpa formalmente mesmo o deicídio dos Judeus (art. 10). Cf. Ethica, cc. xi e xiv, col. 653 seg.

4. Sobre a caridade, Abelardo caiu nos dois excessos contrários. Por um lado, ele a exalta a ponto de negar todo mérito aos atos das outras virtudes, assim como lhe reprova a censura da Faculdade de Paris, em P. L., t. CLXXVIII, col. 112; cf. Introductio ad theol., ibid., col. 987. A este erro relacionavam-se talvez os artigos 11 e 15 que excluem o temor filial tanto da alma de Jesus Cristo quanto das almas dos bem-aventurados. Por outro lado, Mabillon, In oper. sancti Bernardi, P. L., t. CLXXXII, col. 1035, e Martène, In pref. ad theologiam Abailardi, P. L., t. CLXXVIII, col. 1120, lhe reprovam com razão por ter rejeitado absolutamente o batismo de desejo e recusado à caridade o poder de justificar sem o sacramento. Cf. Expositio in Epist. ad Rom., l. II, P. L., t. CLXXVIII, col. 845; Theol. christ., l. II, col. 1205.

A censura da Faculdade de Paris em 1616, Op. Abail., ibid., col. 109-112, assinala ainda várias opiniões singulares de Abelardo sobre pontos especiais. Nós nos deteremos apenas em um artigo que não figura na lista de Sens, mas que foi condenado por Inocêncio III, uma vez que se encontra na série romana dos Capitula, c. ix, na ed. Cousin, t. II, p. 768, e Op. sancti Bernardi, P. L., t. CLXXXII, col. 1052. Abelardo ensinava sobre a eucaristia esta estranha opinião, que Jesus Cristo deixa de estar presente sob as espécies, desde que elas são desrespeitosamente tratadas, por exemplo se elas caem ao chão; daí a fórmula condenada: Corpus Christi non cadit in terram. São Bernardo, Epist., cxc, De err. Ab., c. iv, P. L., t. CLXXXII, col. 1062, e Guilherme de Saint-Thierry, Disput. adv. Ab., c. ix, P. L., t. CLXXX, col. 280, foram também vivamente chocados com a teoria de Abelardo sobre os acidentes eucarísticos que, dizia ele, "estão no ar", estão "suspensos no ar". Cf. Die Sentenzen Rolands, ed. Gietl, p. 233-235.

I. FONTES DO SÉCULO XII. — 1° São Bernardo, suas cartas à corte romana sobre Abelardo; as mais importantes são: as cartas CXCII e CCCXXXVIII endereçadas ao papa, em nome dos Padres do concílio de Sens, P. L., t. CLXXXII, col. 357, 540; à carta CCCXXXVII, se relaciona a coleção dos Capitula, ibid., col. 1049; as cartas pessoais de Bernardo ao papa, carta CLXXXIX, col. 354; carta CCCXXXI, col. 585, e sobretudo a carta CXC que contém um verdadeiro tratado De erroribus Abailardi, col. 249-282; 2° Guilherme de Saint-Thierry, Epist. ad Gaufridum et Bern., Op. S. Bern., ibid., col. 53-54; Disputatio adv. Abailardum, P. L., t. CLXXX, col. 249-282; 3° Disputatio catholicorum Patrum adversus dogmata Petri Abelardi, refutação (anônima) da primeira apologia de Abelardo, P. L., ibid., col. 283-328; 4° Berengário, discípulo de Abelardo, publicou a seu favor seu Apologeticus, coleção de injúrias contra os Padres de Sens, que permaneceu inacabada, do qual o autor endereçou uma retratação equívoca ao bispo de Mende, nas Op. Abelardi, P. L., t. CLXXVIII, col. 1851-1873.

II. CRÍTICAS DOS ERROS DE ABELARDO. — A censura dos doutores da faculdade de teologia de Paris, publicada em 1616 como contra-veneno das obras de Abelardo, Op. Abel., ibid., col. 109-112; Mabillon, Admonitio in opusc. XI S. Bernardi, P. L., t. CLXXXII, col. 1045; Martène, Observationes praeviae ad Theol. christ. Abel., no Thesaurus novus anecdot., t. V, p. 1139-1156, e Op. Abel., P. L., t. CLXXVIII, col. 1413; H. Hayd, Abälard und seine Lehre in Verhältniss zur Kirche und Dogma, in-4°, Ratisbona, 1863; Johanny de Rochely, Saint Bernard, Abélard et le rationalisme, in-12, Paris, 1867; d'Argentré, Collectio Judiciorum..., Paris, 1728, t. I, p. 20; Dr J. Bach, Die Dogmengeschichte des Mittelalters vom christologischen Standpunkte, in-8°, Viena, 1875, t. II, p. 43-88; Vigouroux, Les Livres saints et la critique rationaliste, 3ª ed., in-12, Paris, 1890, p. 337-385; de Régnon, Etudes de théologie positive sur la Trinité, in-8°, Paris, 1892, t. II, p. 65-85. Ver também as obras citadas no artigo precedente, sobretudo Hefele, Vacandard, Dom Clément, assim como os trabalhos indicados dos Pes. Denifle e Gietl.


ABELARDO (ESCOLA TEOLÓGICA DE)


I. História. — 1° Existência de uma escola, que deriva de Abelardo. — Antes das recentes pesquisas do Pe. Denifle e de seu colega, o Pe. Gietl, um fato muito interessante para a história das origens da escolástica, a existência de uma escola teológica que deriva de Abelardo e de seus escritos, era absolutamente ignorada. Ver Denifle, Abaelards Sentenzen und die Bearbeitungen seiner Theologia, em Archiv für Literatur und Kirchengeschichte des Mittelalters, Friburgo na Brisgóvia, 1885, t. I, p. 402 seg., 584 seg.; Gietl, Die Sentenzen Rolands nachmals Papstes Alexander III, in-8°, Friburgo na Brisgóvia, 1891. Sem dúvida ninguém ignorava o imenso retumbamento de suas lições que fazia tremer São Bernardo: "Ele se gaba", escrevia ele ao chanceler pontifício, "de ter aberto os canais da ciência aos cardeais e aos prelados da corte de Roma, de ter feito com que recebessem e saboreassem seus livros e suas máximas, e de contar partisans devotados de seus erros entre aqueles mesmos em quem ele não deveria encontrar senão juízes para condená-lo." S. Bernardo, Epist., cccvi, P. L., t. CLXXXII, col. 543; cf. Epist., cxcIII, ibid., col. 359. Mais adiante, o santo Doutor atesta igualmente a difusão extrema de seus livros: "Leem-se as folhas envenenadas de Abelardo nas praças públicas; elas voam de mãos em mãos, a cidade e o campo engolem o veneno como mel... estes escritos se espalham entre todos os povos e passam de um país ao outro, etc." Id., Epist., CLXXXIX, col. 355. Cf. Guilherme de Saint-Thierry, Epist. ad Bern., ibid., col. 531. Enfim em filosofia não se contestava a Abelardo o título de chefe de escola. João de Salisbury tinha dito muito claramente: Peripateticus Palatinus... nullos reliquit et adhuc quidem aliquos habet professionis hujus sectatores et testes. Metalogicus (escrito por volta de 1159), l. II, c. x, P. L., t. CXCIX, col. 874. De Rémusat, Abélard, Paris, 1855, t. I, p. 272, citava entre "os discípulos mais comprovados" de Abelardo: Berengário e Pedro de Poitiers (mais discípulo de Pedro Lombardo), Adão do Petit-Pont, Pedro Hélie, Bernardo de Chartres (trata-se de Bernardo Silvestris, frequentemente confundido com seu homônimo, cf. Clerval, Les écoles de Chartres, 1895, p. 248), Roberto Folioth, Menervius, Raul de Châlons, Godofredo de Auxerre, João o Pequeno, Arnaldo de Bréscia, Gilberto de la Porrée; este último, realista exagerado e nascido antes de Abelardo, não pôde ser seu discípulo senão em um sentido muito amplo. Mas em teologia não se suspeitava que os escritos de Abelardo fossem tornados a base de um ensino muito espalhado. Deutsch ele mesmo, Petrus Abaelard, Leipzig, 1883, p. 427, dizia: "Em filosofia pode ser questão de uma escola de Abelardo, mas de modo nenhum em teologia. Nenhum escrito do século XII revela sua dependência do pensamento de Abelardo. Uma escola aliás se tivesse se formado, a condenação de Soissons (1121) a teria sufocado." Cf. Denifle, op. cit., p. 404, 614. Hoje, vamos ver, a dúvida já não é permitida.

2° Obras da escola de Abelardo. — O Pe. Denifle nos apresenta não uma ou duas aulas de teologia, como para a escola de Saint-Victor, mas quatro Somas de sentenças que todas dependem muito estreitamente da doutrina e do texto da Introductio ad theologiam. A primeira e também a mais preciosa tem por título (ms. 11, 77 de Nuremberg): Sententie Rolandi Bononiensis magistri auctoritatibus rationibus fortes. O nome só de seu autor lhe daria um preço singular. Com efeito, segundo a conjectura do Pe. Denifle, Archiv..., p. 438-452, apoiada sobre novas provas pelo Pe. Gietl, op. cit., p. 420, esta Soma é a obra do grande papa Alexandre III (Roland Bandinelli), cujo ensino da teologia e do direito canônico lançou tanto brilho em Bolonha. Por sua extensão, sua clareza, seu método rigoroso e o cuidado de resumir as controvérsias do tempo, ela constitui um documento de primeira ordem para a história da escolástica. Mas é sobretudo interessante ver um grande doutor resumir a teologia abelardiana, combatê-la frequentemente, e adotá-la às vezes mesmo em pontos que ele deveria mais tarde condenar como papa (ver mais adiante). — A segunda Soma é ainda de um escolástico de Bolonha, Ognibene, contemporâneo de Roland de quem ele se inspira mais de uma vez, e provavelmente o canonista bem conhecido a quem se atribui uma Abbreviatio Decreti. Denifle, op. cit., p. 469. Sua obra tem por título (ms. 191384 de Munique): Incipit tractatus et quorumdam sententie collecte ex diversis auctoritatibus mag. Omnebene. — As duas outras Somas são anônimas e se distinguem por uma cega fidelidade em seguir Abelardo em quase todos os seus erros. Uma, descoberta em Saint-Florian (Alta Áustria), é ainda inédita, como a de Ognibene, mas Denifle e Gietl deram muitos extratos dela. A última não é outra que o Epitome theologiae já conhecido (ver I ABELARDO, Vida e obras) e classificado com razão por Denifle entre as aulas de teologia inspiradas por Abelardo. — Todas essas obras com efeito têm por caráter comum uma dependência evidente da Introductio ad theologiam de Abelardo. Todas lhe emprestam o mesmo Incipit, que não se reencontra nos manuscritos de nenhuma outra escola: Tria sunt in quibus humane salutis summa consistit, fides scilicet, caritas et sacramentum. Seguindo essa divisão toda abelardiana, elas trazem a teologia a essas três partes (os sacramentos em todos precedendo a caridade). Enfim Abelardo é para eles o Magister Petrus (prova que Pedro Lombardo não era ainda ilustre) ou mesmo para Ognibene o Magister simplesmente, de quem se adota as visões e as fórmulas.

Assim a ação de Abelardo exerceu-se por uma multidão de mestres que, mesmo sem tê-lo ouvido (é o caso de Roland), transplantavam sua doutrina nas escolas de todos os países. Ognibene ensina em Bolonha como Roland, Denifle, loc. cit., p. 615, mas Roland escreve suas sentenças em Roma, Gietl, loc. cit., p. 16, e o autor do manuscrito de Saint-Florian leciona em Milão. É aliás em Roma, que antes de 1135, um cônego de Latrão, Adão, De scholis mag. Abaiolardi egressus, ensinava os erros de seu mestre sobre a encarnação, e, combatido por Gerhoch de Reichersberg, preferiu a apostasia a uma retratação. Cf. Gerochi, Epist. ad collegium Cardinalium, em Pez, Thesaurus anecd. nov., t. VI, p. 522; cf. P. L., t. CXCIII, col. 376. Compreende-se melhor depois disso os alarmes de São Bernardo e também as expressões do satírico Gautier Map afirmando que nas escolas "Abelardo era ensinado",
Et professi plurimi sunt Abaelardum,
e acrescentando que a sentença obtida dos bispos pelo grande abade, não era admitida sem reclamações:
Clamant a philosopho proles educati.
Cucullatus populi primas cucullati.
Ut sepe tunicis tribus tunicati
Imponi silentium fecit tanto vati (Abelardo).
Walter Mapes, em The latin poems by Wright, Londres, 1841, p. 28; cf. Denifle, op. cit., p. 605 seg.

3° Sobrevivência da escola de Abelardo após sua condenação. — A escola de Abelardo foi ainda florescente após a condenação de 1141, somente ela se tornou mais prudente e mais moderada. O Pe. Denifle, Archiv..., p. 604, 615, tinha pensado que as quatro Somas eram anteriores ao concílio de Sens. Mas o Pe. Gietl, Die Sentenzen, etc., p. 17, provou que pelo menos as Sentenças de Roland são posteriores e foram escritas por volta de 1149. Lê-se ali a fórmula Dicebat magister Petrus, que supõe Abelardo desaparecido; não se vê ali contudo mencionada a condenação, se não talvez nesta expressão, a propósito do otimismo, quidam a ratione Ecclesiae dissencientes. Ibid., p. 54. Do resto é certo que a admiração por Abelardo sobreviveu ao concílio de Sens. É em 1159 que João de Salisbury cobria de elogios seu antigo mestre. Mesmo após 1141, Pedro Lombardo, embora formado na escola tão ortodoxa de Saint-Victor, longe de esquecer as lições recebidas de Abelardo, folheava sem cessar a Introductio ad theologiam; é João da Cornualha, seu discípulo, que nos assegura. Eulogium ad Alexandrum III, P. L., t. cxcix, col. 1052.

Bem após a morte de Abelardo, Gerhoch de Reichersberg, em sua carta ao papa Adriano IV contra os adotianos, não via neles senão discípulos de Abelardo, e mostra com pavor as escolas da França e de todos os países obscurecidas pela espessa fumaça que ele tinha deixado atrás dele: Fumant scholæ plures in Francia et aliis terris permaxime a duabus caudis ticionum fumigantium vid. Petri Abaiolardi et episcopi Gilliberti. Quorum discipuli eorum dictis et scriptis imbuti hominem Verbo Dei imbutum negant esse Filium Dei, etc. Cod. ms. 4384 Admunt., em Bach, Die Dogmengeschichte..., t. II, p. 37.

Na França, a influência dos princípios de Abelardo apareceu à luz do dia no ensino de Guilherme de Conches. Filósofo antes que teólogo, ele tinha deduzido as consequências do sistema e ensinava, sem disfarce algum, o puro sabelianismo. Guilherme de Saint-Thierry vê reviver nele Abelardo: "Eles pensam da mesma forma, eles falam da mesma forma, se não fosse que um trai o outro sem suspeitar. O primeiro dissimulava, mas o segundo declara brutalmente seu sentimento comum." De erroribus Guillelmi de Conchis, P. L., t. CLXXX, col. 334. Fica-se bastante surpreso ao ver a famosa teoria sobre "o Espírito Santo alma do mundo", tornar-se já no século XII um evolucionismo materialista, segundo o qual o mundo dos corpos seria o único real, Deus e a alma sendo somente a lei que preside à evolução dos seres: Stultorum quorumdam philosophorum videtur sententiam sequi, dicentium nihil esse praeter corpora et corporea, non aliud esse Deum in mundo quam concursum elementorum et temperaturam naturae, et hoc ipsum esse animam in corpore. Id., ibid., col. 339-340. Guilherme de Conches teve a sabedoria de se retratar em seu Dragmaticon philosophiae. Histoire litt. de la France, t. XII, p. 464. Mas é claro que se a escola de Abelardo não tivesse tido senão tais representantes, ela estava perdida. Sua duração se explica pela moderação de vários de seus mestres, de Roland sobretudo, moderação devida em grande parte à influência da escola de Saint-Victor.

II. RELAÇÕES DA ESCOLA DE ABELARDO COM A ESCOLA DE SAINT-VICTOR. — Um segundo fato que resulta das publicações dos Pes. Denifle e Gietl, é a influência mútua que exerceram uma sobre a outra a escola aventureira de Abelardo e a escola tradicional de Saint-Victor. Esta é representada pelos grandes nomes de Hugo, Ricardo e Adão de Saint-Victor e pelas obras seguintes: De sacramentis libri duo (de Hugo); Quaestiones in Epistolas S. Pauli, certamente posteriores a Hugo, uma vez que citam o mestre Achard; Hauréau, Les œuvres de Hugues de Saint-Victor, Paris, 1886, p. 29; o Speculum de mysteriis Ecclesiae, P. L., ibid., col. 362, que não pôde ser escrito antes de 1180; enfim a célebre Summa sententiarum que Du Boulay olhava erroneamente como a primeira Soma, modelo e origem de todas as outras. Bulæus, Hist. Univ. Paris., t. I, p. 64. Ora é precisamente a comparação desta Soma com as Somas abelardianas que manifesta a fusão das duas escolas.

1° Influência da escola de Saint-Victor sobre a escola de Abelardo. — A escola de Abelardo retorna pouco a pouco à ortodoxia sob a influência dos escritos de Saint-Victor. A realidade dos empréstimos foi demonstrada para Roland e para Ognibene pelo Pe. Gietl, Die Sentenzen..., p. 49, 50, 51 e passim. O resultado foi em Roland sobretudo a correção de bom número de erros. Sem dúvida encontram-se ainda nele fórmulas suspeitas ou falsas, por exemplo a famosa proposição: Christus, secundum quod homo, non est persona, nec aliquid, Die Sentenzen..., p. 176, proposição que ele deveria como papa condenar solenemente em 1170 e em 1179. Cf. Jaffé-Loewenfeld, Regesta pont. rom., n. 11806 (7894) e 12785 (8467); Denifle, Chartularium univ. Paris., t. I, n. 3 e 8; ver ADOTIANISMO NO SÉCULO XII. Mas na maioria das vezes com plena independência ele corrige Abelardo. Assim: 1. À sua definição da fé ele acrescenta uma palavra que teria satisfeito São Bernardo: Fides est CERTA existimatio rerum absentium; e além disso ele propõe a fórmula de Hugo, Fides est... INFRA SCIENTIAM et SUPRA OPINIONEM constituta. Die Sentenzen..., p. 10-11. Cf. Summa sent., P. L., t. CLXXVI, col. 43; De sacramentis, col. 327. — 2. A propósito da Trindade ele admite ainda expressões ambíguas, mesmo a comparação do sigillum aeneum, Die Sent., p. 29, mas ele se apressa em explicar e em trazer tudo à verdade. — 3. Ele refuta sob todas as suas formas o otimismo do Magister Petrus, ibid., p. 54-89, como o tinham refutado Hugo e a Summa sententiarum. — 4. Ele rejeita o erro de Abelardo sobre o pecado original e empresta à escola de Saint-Victor a teoria que o identifica com a concupiscência. Ibid., p. 132-136, 202; cf. De sacramentis, l. I, p. VII, c. XXVI-XXXII, P. L., t. CLXXVI, col. 298-302; Summa sent., tr. III, c. XI, col. 106. — 5. A explicação do resgate do homem a servitute diaboli é ainda tirada de Saint-Victor contra Abelardo. Die Sentenzen, p. 162; cf. De sacramentis, l. I, p. VIII, c. II, P. L., t. CLXXVI, col. 308. — 6. O mesmo se dá da eficácia do batismo de desejo, negada por Abelardo, mas ensinada por Roland com a escola vitoriana. Die Sentenzen, p. 209; Summa sent., tr. VI, c. XII, P. L., t. CLXXVI, col. 144; cf. De sacramentis, l. I, part. IX, c. V, col. 323. — 7. Mesmo sobre questões absolutamente livres como a do "lugar dos anjos", Roland abandona a tese de Abelardo (mais tarde abraçada pelos tomistas) que os espíritos estão "fora de todo lugar", Epitome, c. XXVIII, P. L., t. CLXXVII, col. 1738, para adotar a teoria vitoriana (e mais tarde suaresiana) dizendo angelos esse in loco, non tamen esse locales vel circumscriptibiles. Die Sentenzen, p. 88; cf. Hugo, De sacramentis, l. I, part. XIII, c. XVIII, col. 224; Summa sent., tr. I, c. V, col. 50.

2° Influência da escola de Abelardo sobre a escola de Saint-Victor. — Mas Saint-Victor por sua vez sofre a influência da escola de Abelardo, e o autor da Summa sententiarum lhe deve uma parte dos progressos que ela realiza sobre o De sacramentis. — 1. Primeiro o caráter patrístico: o argumento de tradição precedendo e inspirando as especulações racionais, eis na Summa o selo distintivo que a separa dos Libri de sacramentis, onde os Padres são esquecidos a ponto de que nas quatro primeiras partes não se encontraria talvez um só texto. Cf. Mignon, Les origines de la scolastique et Hugues de Saint-Victor, t. I, p. 180. Esta é uma modificação de uma extrema importância, uma vez que só ela deveria vivificar a escolástica, e assegurar o sucesso de Pedro Lombardo. Ora, se ela foi motivada junto ao autor da Summa sententiarum (ver praefatio, P. L., t. CLXXVI, col. 41) por preocupações de ortodoxia, ela tinha sido inaugurada pela escola de Abelardo, e facilitada pelo Sic et non, mina onde a Summa beberá frequentemente. Desde o c. III, quatro textos são tomados do c. II correspondente do Sic et non. P. L., t. CLXXVIII, col. 1353; cf. Denifle, Archiv, etc., t. I, p. 620. — 2. Um outro progresso devido à escola de Abelardo é o método dialético, aplicado em sua severidade técnica ao ensino da teologia. Hugo, em sua obra De sacramentis, tinha feito ainda uma obra literária, onde longos desenvolvimentos dissimulam a tese, as provas e as objeções. Abelardo ao contrário tinha inspirado aos seus... Com o amor do silogismo, o emprego de um método rigorosamente didático, cuja sobriedade iguala a precisão; entre as Somas do século XII, a de Roland é, sem contestação, a obra-prima do gênero. Ora, a Summa sententiarum inspirou-se tão bem neste método abelardiano que Pedro Lombardo, em vez de se limitar a imitar, preferiu muitas vezes transcrevê-la. Cf. Mignon, Les origines de la scolastique et Hugues de Saint-Victor, p. 183 seg.

3. Nas doutrinas propriamente ditas, mais de um feliz empréstimo foi feito à escola de Abelardo pela de São Vítor. Assim, Hugo havia ensinado o retorno, após uma recaída, dos pecados anteriormente perdoados (De sacram., l. II, part. XIV, c. VIII, P. L., t. CLXXVI, col. 570). A Summa sententiarum, na esteira de Abelardo e de seus discípulos, rejeita este erro (cf. col. 570; cf. Abelardo, Expos. in Epist. ad Rom., P. L., t. CLXXVII, col. 864; Epitome, c. XXXVII, col. 1758; Ognibene e Roland em Gietl, op. cit., p. 249). Sob a mesma influência, a Summa restringe, sem a rejeitar inteiramente, a teoria semi-apolinarista de Hugo, que atribuía à humanidade de Jesus Cristo não somente a ciência incriada do Verbo, mas a onipotência e os outros atributos divinos (Hugo, De sacram., l. II, part. I, c. VI, col. 383; De sapientia animae Christi, col. 856). A escola de Abelardo estava aqui na verdade (Epitome, c. XXVII, P. L., t. CLXXVIII, col. 1737; Roland, op. cit., col. 166-171). A Summa sententiarum nega a onipotência na humanidade de Jesus Cristo e rejeita por aí o fundamento da doutrina de Hugo, mas admite ainda a ciência incriada e infinita (Tr. I, c. XVI, col. 74). Pedro Lombardo, por muito tempo hóspede de São Vítor, dará um passo a mais ao admitir uma ciência criada e inferior em clareza à ciência divina (Sent., l. III, dist. XIV, c. I, P. L., t. CLXXX, col. 783); mas a verdade inteira só triunfou com São Tomás.

4. Mas a Summa também buscou na escola de Abelardo vários erros estranhos a São Vítor. Assim, ela ensina com Abelardo que a fé sem a caridade não é de modo algum uma virtude (Tr. I, c. X, col. 45; cf. Abelardo, Introductio ad theol., l. II, P. L., t. CLXXVIII, col. 1051). Encontra-se também, como em Roland, a tese semi-donatista de que os padres excomungados não podem mais consagrar validamente (tr. VI, c. IX, col. 146; cf. Die Sentenzen Rolands, p. 218; Abelardo, Professio fidei, P. L., t. CLXXVIII, col. 107; e entre as obras falsamente atribuídas a Hugo de São Vítor, Quaestiones in Epist. sancti Pauli, q. CIII (ad Cor.), P. L., CLXXV, col. 602).

3° Qual é o autor da Summa sententiarum? — Um resultado inesperado, mas interessante, desta comparação é que o problema tão debatido da autenticidade da Summa sententiarum se encontra resolvido. Apesar da autoridade de Hauréau (Œuvres de Hugues de Saint-Victor, 1886, p. 73), do abade Mignon (op. cit., t. I, p. 31, 173-181), do próprio Pe. Gietl (op. cit., p. 34-40), do Dr. Kilgenstein e de Dom Baltus (Dieu d’après Hugues de Saint-Victor, na Revue bénédictine (Maredsous), 1898, p. 109 seg.), a Summa não pode mais ser atribuída a Hugo, embora emane de sua escola. O Pe. Denifle (Die Sentenzen von Saint-Victor, em Archiv für Liter., etc., t. III, p. 635-639), apoiando-se sobretudo no anonimato dos manuscritos, havia deixado a questão em suspenso. Mas as divergências doutrinais (muito esquecidas pelos críticos) entre a Summa e o Liber de sacramentis mudam a dúvida em certeza. Com efeito, a Summa sententiarum é certamente posterior ao Liber de sacramentis, do qual se inspira bastante frequentemente; aliás, doutrinas, método, fórmulas mesmo, tudo na Summa acusa um progresso evidente, e o abade Mignon destruiu ele mesmo para sempre a hipótese da Histoire littéraire de la France (t. XII, p. 36), que dela fazia um esboço do Liber de sacramentis. Ora, é absolutamente impossível que, após o De sacramentis, Hugo tenha composto a Summa. Esta, com efeito, empresta da escola de Abelardo erros que Hugo não tinha ensinado, e muito mais erros e fórmulas que ele expressamente combateu: Hugo havia muito sabiamente demonstrado que a extrema-unção pode ser reiterada como a eucaristia (De sacram., l. II, part. XV, col. 580). A Summa empresta da escola de Abelardo o erro contrário e dá uma explicação da qual o abade Mignon diz muito justamente "que ela não é digna de Hugo" (Op. cit., t. I, p. 206). Como, pois, atribuí-la a ele, sobretudo depois que ele a refutou ele mesmo? — Além disso, quando o autor da Summa corrige o erro de Hugo sobre a reviviscência dos pecados perdoados, os termos dos quais ele se serve não permitem pensar que ele tenha jamais compartilhado este erro. — Mesmo quando ele se inspira nas opiniões particulares de Hugo, vê-se que ele se alinha à ideia de outro; ele omite as teorias mais caras ao seu guia; ele não conserva nem a marcha, nem o estilo, nem as fórmulas, nem sobretudo esta bela divisão da teologia (baseada no plano histórico da providência redentora), divisão que Hugo desenvolveu várias vezes com tanta complacência. (Comparar a divisão geral em De sacramentis, Prologus, P. L., t. CLXXVI, col. 184 seg.; a Summa, tr. I, col. 43, começa pela fé, como Abelardo; a teoria sobre o progresso da fé em De sacram., l. I, part. X, c. VI, col. 336-340, Summa, tr. I, c. I, col. 46: alia quibus assentimus; a teoria errônea de Hugo sobre a eficácia dos sacramentos da antiga lei, De sacram., l. I, part. XI, c. I, col. 343; Summa, tr. IV, c. I, col. 149). Adicionemos um testemunho capital: os grandes teólogos do século XIII alegam frequentemente as Sententiae Hugonis, mas por este termo eles entendem o Liber de sacramentis, prova evidente que eles não atribuíam a Hugo a Summa sent.. Ver Alexandre de Hales: sobre o objeto principal da Escritura, I, q. 1, Veneza, 1576, fol. 2; cf. De sacram., l. I, part. I, col. 183; sobre o otimismo, Hales, Iª, q. XIX, m. III, a. 2, fol. 57; cf. De sacram., l. I, part. II, c. XX, col. 214; Hales, ibid., fol. 58, e De sacram., fol. 236. As objeções caem por si mesmas se se leva em conta a indicação preciosa de vários manuscritos, Denifle, em Archiv, t. III, p. 637, onde se lê este título: Sententiae mag. Ottonis ex dictis mag. Hugonis. A doutrina seria em geral a de Hugo, mas Othon(?), o verdadeiro autor, teria muito emprestado da escola de Abelardo.

4° Conclusão: A qual das duas escolas deve-se finalmente atribuir o triunfo da escolástica? — A nenhuma exclusivamente: cada uma teve seu papel distinto. Elas não tiveram que erigir em princípio a introdução da filosofia na teologia; isso já estava feito por Santo Anselmo e, um pouco a contragosto, por Lanfranc. Como Abelardo, Hugo adotou o princípio e, na aplicação, eles desdobraram o mesmo zelo. É falso de todo ponto que a escola de São Vítor, por um excesso de simbolismo místico, tenha travado o desenvolvimento científico da fé. Cf. Dom Baltus, loc. cit., p. 440; Mignon, t. I, p. 178. Mas, por um lado, é bem à escola de Abelardo que são devidos principalmente os três aperfeiçoamentos essenciais da nova teologia: a ideia de condensar, em uma Soma digna deste nome, a síntese de toda a teologia, a introdução dos procedimentos mais severos da dialética e a fusão da erudição patrística com a especulação racional. A prioridade da escola de Abelardo, embora contestada (Dom Baltus, loc. cit., p. 109), é estabelecida por este único fato de que, no momento em que Hugo, ainda jovem, chegava da Saxônia a Paris (por volta de 1118), Abelardo, em todo o brilho de sua renomeada, preparava-se para escrever a Introductio ad theologiam. Por outro lado, somente a escola de São Vítor teve a glória de salvar o novo método posto em grande perigo pelas temeridades doutrinais de Abelardo. A heterodoxia do inovador, diz Harnack, "desacreditou a ciência, a tal ponto que os teólogos... teólogos da geração seguinte tiveram uma posição difícil. Assim pouco faltou para que a condenação não fosse pronunciada contra as Sentenças de Pedro Lombardo." Précis de l’histoire des dogmes, trad. Choisy, Paris, 1893, p. 330. Sem falar do fogoso Gautier de Saint-Victor, autor do panfleto Contra os quatro labirintos da França (Abelardo, Gilberto de la Porrée, Pedro Lombardo e Pedro de Poitiers, cf. P. L., t. cxcix, col. 1129 seg.), os melhores espíritos, como Guiberto de Nogent, Guilherme de Saint-Thierry, São Bernardo, estavam assustados com os métodos novos. Cf. Mignon, op. cit., t. I, p. 165. Etienne de Tournay lançava terríveis acusações "contra estes fazedores de novas Somas." Epist. ad rom. pont., em Denifle, Die Universitäten des Mittelalters, t. I, p. 746. Foi necessária a perfeita ortodoxia da escola de Saint-Victor e toda a sua prudente moderação no uso do novo sistema, para fazer esquecer que seus primeiros promotores se chamavam Escoto Erígena, Berengário, Abelardo, para rassegurar os crentes alarmados, e aclimatar a nova teologia nas escolas católicas. Tal foi o verdadeiro papel de Hugo de Saint-Victor e de sua escola. Tão bem quanto os críticos católicos, Harnack proclamou Hugo de Saint-Victor "o mais influente dos teólogos do século XII", porque, mais do que nenhum outro, ele contribuiu para a fusão das duas tendências em luta, a ortodoxia dogmática e a ciência filosófica. Ver Lehrbuch der Dogmengeschichte, t. II, p. 532; cf. Précis de l’histoire des dogmes, trad. Choisy, p. 330; dom Baltus, loc. cit., p. 214.

A consultar: os estudos citados dos Pes. Denifle e Gietl; H. Hurter, Nomenclator literarius, 3ª ed., Innsbruck, 1906, t. II, col. 99-105; o abade Mignon, Les origines de la scolastique et Hugues de Saint-Victor, 2 in-8°, Paris, 1895; o abade Féret, La faculté de théologie de Paris et ses docteurs les plus célèbres, in-8°, Paris, 1894, t. I. E. PORTALIÉ.

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ABELARDO (VIDA E OBRAS DE)


Mas ainda nem o Epitome nem o Sic et non são ali tão completos quanto nas edições alemãs reproduzidas por Migne. L. Tosti (ver mais abaixo) publicou, segundo um manuscrito de Monte Cassino, fragmentos novos e importantes do Sic et non.

II. FONTES CONTEMPORÂNEAS. — Elas são indicadas com cuidado por de Rémusat, Abélard, t. I, p. 438, e resumidas nas sábias notas de Duchesne sobre a Historia calamitum. O Recueil des historiens des Gaules reuniu os fragmentos referentes a Abelardo de João de Salisbury, t. XIV, p. 300, de Otão de Freising, t. XIII, p. 654, das Vies de saint Goswin et de saint Bernard, t. XIV, p. 327, 370, 442.

III. MONOGRAFIAS. — Eis as mais importantes, por ordem cronológica: dom Gervaise, La vie de P. Abeilard, abbé de Saint-Gildas de Ruis, O. de Saint-Benoît, et celle d’Héloïse son épouse, 2 in-12, Paris, 1720; Jos. Berington, The history of the lives of Abeillard and Heloisa..., in-4°, Londres, 1784; Ign. Aur. Fessler, Abélard und Heloise..., 2 in-8°, Berlim, 1807; Luigi Tosti, Storia di Abelardo e dei suoi tempi, in-8°, Nápoles, 1851; Ch. de Rémusat, Abélard, sa vie, sa philosophie et sa théologie, 2 in-8°, Paris, 1855; o mesmo, Abélard, drame, publicado por Paul de Rémusat, in-8°, Paris, 1877; o abade Vacandard, Abélard, sa lutte avec saint Bernard, sa doctrine, sa méthode, in-12, Paris, 1881; cf. o mesmo, Vie de saint Bernard, t. II, p. 140-176; S. Mart. Deutsch, Peter Abélard, ein kritischer Theologe der zwölften Jahrhunderts, in-8°, Leipzig, 1883.

IV. COLEÇÕES GERAIS. — Dom Ceillier, Histoire générale des auteurs sacrés, 1758, t. XXII, p. 153-192; dom Clément, Histoire littéraire de la France, 1763, t. XII, p. 86-152; Morin, Dictionnaire de philosophie et de théologie scolastiques, in-4°, Paris (Migne) 1856, col. 179-367; Hefele, Conciliengeschichte, 2ª ed. (Knöpfler), § 610 e 616, t. V, p. 358, 451; trad. franc. Delarc, t. VII, p. 164, 250.

V. SOBRE ABELARDO FILÓSOFO. — Ver as Histoires de la philosophie au moyen âge: Cousin, Introduction (às obras inéditas), p. V-203, reproduzida nos Fragments de philosophie au moyen âge; Hauréau, Histoire de la philosophie scolastique, in-8°, 1850, t. I, p. 267-287; Rousselot, Études sur la philosophie dans le moyen âge, t. II, p. 1-109. Sobre o teólogo, cf. o artigo seguinte.


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