
ABSOLUTO (I), absolutum, ἀπόλυτον: aquilo que está desatado, sem vínculo ou dependência; aquilo que é independente e, por conseguinte, basta-se a si mesmo. — I. Natureza segundo a doutrina tradicional. II. Natureza segundo os modernos. III. Existência.
I. NATUREZA SEGUNDO A DOUTRINA TRADICIONAL. — O absoluto opõe-se ao dependente e não ao relativo; pois ele não exclui a relação em virtude da qual outro ser dependeria dele. Poder-se-ia até demonstrar que ele implica essa relação na hipótese de que algo exista fora dele. — 1º O ser que é por si mesmo, τὸ ἱκανόν, e não exige nenhuma causa para chegar à existência; que é em si, τὸ ἀνυπόθετον, e não requer nenhum substrato para subsistir; que é a si e para si, τὸ αὐτάρκες, e encontra em si mesmo seu próprio fim, assim como possui nele a sua razão de existir: este ser é absoluto em toda a sua plenitude, ele é “o absoluto” (absoluto total, ou absoluto absoluto). Concebe-se que tal ser é essencialmente infinito, perfeito, eterno e necessário, pois o finito e o imperfeito dependem do limite que os circunscreve; aquilo que começou, aquilo que é contingente, depende de uma causa exterior que o pôs no ser e pode retirar-lhe o seu concurso. Contudo, não se deve confundir, como M. Rabier (Psychologie, Paris, 1887, p. 457), a noção de absoluto com as de infinito, de perfeito e de necessário. — 2º Os seres nos quais se encontra alguma independência são ainda chamados de “absolutos” (absolutos parciais ou relativos), em razão e na proporção exata dessa independência. As essências são absolutas porque são independentes de toda vontade e de todo poder, e porque o próprio Deus, em quem elas têm sua razão, não poderia mudá-las. A substância, mesmo criada e finita, é absoluta porque é em si mesma, porque é irrecepta. A qualidade de absoluto deve, portanto, ser recusada aos acidentes, que, não sendo nem propriedades essenciais nem subsistentes, dependem necessariamente da essência e da substância. — 3º O absoluto encontra-se também na ordem do verdadeiro e na do bem. Na primeira dessas ordens, as proposições analíticas são absolutas e extraem sua verdade de si mesmas, isto é, da análise do seu sujeito, enquanto as proposições sintéticas só são verdadeiras pela veracidade dos fatos contingentes que exprimem. Em relação às conclusões que derivam deles, os princípios são absolutos, já que são evidentes por si mesmos. As realidades objetivas são também chamadas de absolutas em relação ao conhecimento ao qual impõem sua verdade e do qual são independentes. — 4º A ordem do bem encerra absolutos correlativos. Na distinção entre os atos bons e os atos indiferentes, que corresponde à distinção entre os juízos analíticos e os juízos sintéticos, aqueles extraem sua bondade da sua própria natureza e representam o absoluto; o dependente e o relativo residem nos atos indiferentes que as circunstâncias extrínsecas tornam bons ou maus. Os fins, que são aos meios o que os princípios são às conclusões, representam igualmente o absoluto, enquanto os meios, que são bons pela bondade do fim, são relativos e dependentes. A série de fins e meios que culmina no fim supremo constitui o dever. Ela é tão independente da vontade quanto as realidades objetivas o são do conhecimento: ela é o absoluto do dever. A vontade que quer esses fins e esses meios, e a razão que conhece as realidades objetivas, são as faculdades do absoluto.
II. NATUREZA SEGUNDO OS MODERNOS. — Os sentidos atribuídos pelos modernos à palavra absoluto são muito numerosos. Quase todos podem ser reduzidos a um ou outro dos sentidos que acabamos de definir. As teorias sobre o absoluto são igualmente muito variadas e pecam, umas por excesso, outras por defeito. — 1º Entre as primeiras, deve-se incluir o panteísmo, que exagera a realidade do absoluto ao identificar, a exemplo dos antigos eleatas, todas as coisas com o Um e com o Absoluto. Seja ele o eu-sujeito (Fichte), ou o eu-objeto (Schelling), seja que se confunda com o ser transcendental (Hegel), o absoluto está em toda parte, ele é tudo; apenas ele possui verdadeiramente o ser, o restante é apenas aparência e mobilidade. Seguindo Malebranche, os ontologistas exageram o conhecimento do absoluto quando nos concedem a intuição direta e imediata deste. — 2º Contudo, as opiniões mais difundidas são aquelas que atacam a noção do absoluto para esvaziar-lhe o conteúdo e restringir ou até negar a sua realidade. Para os fenomenistas e os associacionistas, todas as coisas devem ser reduzidas a fatos e às suas leis: o absoluto-substância não existe; os mais audaciosos chegam a negar o absoluto-Deus; vivemos em meio a puras aparências e na contínua mobilidade. Os agnósticos e os positivistas, se nem sempre chegam a negar a existência do absoluto, declaram-na indemonstrável. Kant afirma a impossibilidade da passagem da ideia do absoluto à existência do absoluto; Herbert Spencer relega o absoluto à região do incognoscível. Antes dele, Hamilton, querendo “exorcizar o fantasma do absoluto”, tentou mostrar que ele é inconcebível e que sua ideia, ao envolver contradição, é uma pseudoideia.
III. EXISTÊNCIA. — A existência do absoluto total, não sendo objeto de intuição nem de consciência, demonstra-se pelo raciocínio. Aqueles que definem o absoluto por oposição ao relativo foram levados a duvidar de sua existência ou a negá-la. Com efeito, o relativo só pressupõe o absoluto como termo de uma relação. O móvel prova o primeiro motor, o efeito prova a causa, os meios provam o fim, a ordem prova o princípio, etc. Ora, estas ideias de motor, de causa, de fim e de princípio encerram uma relação. A existência do absoluto deduz-se diretamente da existência do dependente. O ser dependente exige um princípio do qual ele dependa e que não seja, ele próprio, dependente; este princípio é o absoluto. A existência do absoluto prova-se também por todos os argumentos que demonstram a existência de Deus, pois eles demonstram que Deus existe enquanto absoluto.
BIBLIOGRAFIA: Hamilton, Fragments de philosophie, La philosophie de l’absolu, Paris, 1840; Stuart Mill, La philosophie de Hamilton, c. II-IV, Paris, 1869; Herbert Spencer, Les premiers principes, IVe part., Paris, 1871; Ravaisson, La philosophie en France au XIXe siècle, Paris, 1868; A. Fouillée, La philosophie de Platon, IIe part., t. I, c. I, Paris, 1859; Le mouvement idéaliste, Paris, 1897; Le mouvement positiviste, Paris, 1897; P. Kleutgen, Die Philosophie der Vorzeit, n. 554 sq., 944 sq., Inspruck, 1860; Edm. Braun, La logique de l’absolu, Paris, 1887; Louis Liard, La science positive et la métaphysique, t. I, c. IX sq., Paris, 1883; Paul Janet, Principes de métaphysique, etc., t. IV, leçon 2e, Paris, 1897; Cyrille Blondeau, L’absolu et sa loi constitutive, Paris, 1897; E. Boirac, L’idée du phénomène, Paris, 1894; Jaugey, Dictionnaire apologétique, Paris, 1889, artigos Dieu, Panthéisme.
A. CHOLLET.