ESCOLA TEOLÓGICA DE ABELARDO

Verbete sobre ESCOLA TEOLÓGICA DE ABELARDO na Enciclopédia Católica

I. História. — 1° Existência de uma escola, que deriva de Abelardo. — Antes das recentes pesquisas do Pe. Denifle e de seu colega, o Pe. Gietl, um fato muito interessante para a história das origens da escolástica, a existência de uma escola teológica derivada de Abelardo e de seus escritos, era absolutamente ignorada. Ver Denifle, Abaelards Sentenzen und die Bearbeitungen seiner Theologia, em Archiv für Literatur und Kirchengeschichte des Mittelalters, Friburgo em Brisgóvia, 1885, t. I, p. 402 sq., 584 sq.; Gietl, Die Sentenzen Rolands nachmals Papstes Alexander III, in-8°, Friburgo em Brisgóvia, 1891. Sem dúvida, ninguém ignorava o imenso retumbante eco de suas lições que fazia tremer São Bernardo: «Ele se gaba», escrevia ao chanceler pontifício, «de ter aberto os canais da ciência aos cardeais e aos prelados da corte de Roma, de tê-los feito receber e apreciar seus livros e suas máximas, e de contar partidários devotados de seus erros entre aqueles mesmos nos quais ele deveria encontrar apenas juízes para condená-lo.» S. Bernardo, Epist., cccvi, P. L., t. CLXXXII, col. 543; cf. Epist., cxcIII, ibid., col. 359. Noutros lugares, o santo Doutor atesta igualmente a difusão extrema de seus livros: «Lêem-se as folhas envenenadas de Abelardo nas praças públicas; elas voam de mãos em mãos, a cidade e o campo engolem o veneno como se fosse mel... esses escritos se espalham entre todos os povos e passam de um país ao outro, etc.» Id., Epist., CLXXXIX, col. 355. Cf. Guilherme de Saint-Thierry, Epist. ad Bern., ibid., col. 531. Enfim, em filosofia, não se contestava a Abelardo o título de chefe de escola. João de Salisbury dissera muito claramente: Peripateticus Palatinus... nullos reliquit et adhuc quidem aliquos habet professionis hujus sectatores et testes. Metalogicus (escrito por volta de 1159), l. II, c. x, P. L., t. CXCIX, col. 874. De Rémusat, Abélard, Paris, 1855, t. I, p. 272, citava entre «os discípulos mais confirmados» de Abelardo: Berengário e Pedro de Poitiers (mais discípulo de Pedro Lombardo), Adão do Petit-Pont, Pedro Hélie, Bernardo de Chartres (trata-se de Bernardo Silvestris, frequentemente confundido com seu homônimo, cf. Clerval, Les écoles de Chartres, 1895, p. 248), Roberto Folioth, Menervius, Raul de Châlons, Godofredo de Auxerre, João o Pequeno, Arnaldo de Bréscia, Gilberto de la Porrée; este último, realista exagerado e nascido antes de Abelardo, só pôde ser seu discípulo num sentido muito amplo. Mas, em teologia, não se suspeitava que os escritos de Abelardo tivessem se tornado a base de um ensino muito difundido. O próprio Deutsch, Petrus Abaelard, Leipzig, 1883, p. 427, dizia: «Em filosofia pode haver a questão de uma escola de Abelardo, mas de forma alguma em teologia. Nenhum escrito do século XII revela sua dependência do pensamento de Abelardo. Uma escola, aliás, ainda que se tivesse formado, a condenação de Soissons (1121) tê-la-ia sufocado.» Cf. Denifle, op. cit., p. 404, 614. Hoje, como veremos, a dúvida não é mais permitida.

2° Obras da escola de Abelardo. — O Pe. Denifle apresenta-nos não um ou dois cursos de teologia, como para a escola de São Vítor, mas quatro Sumas de sentenças que dependem todas muito estreitamente da doutrina e do texto da Introductio ad theologiam. A primeira e também a mais preciosa tem por título (ms. 11, 77 de Nurembergue): Sententie Rolandi Bononiensis magistri auctoritatibus rationibus fortes. O nome apenas de seu autor dar-lhe-ia um preço singular. Com efeito, segundo a conjectura do Pe. Denifle, Archiv..., p. 438-452, apoiada em novas provas pelo Pe. Gietl, op. cit., p. 420, esta Suma é a obra do grande Papa Alexandre III (Rolando Bandinelli), cujo ensino da teologia e do direito canônico lançou tanto brilho em Bolonha. Por sua extensão, sua clareza, seu método rigoroso e o cuidado de resumir as controvérsias do tempo, ela constitui um documento de primeira ordem para a história da escolástica. Mas é sobretudo interessante ver um grande doutor resumir a teologia abelardiana, combatê-la frequentemente, e adotá-la, às vezes, até mesmo em pontos que ele deveria mais tarde condenar como Papa (ver adiante). — A segunda Suma é ainda de um escolarca de Bolonha, Ognibene, contemporâneo de Rolando, de quem se inspira mais de uma vez, e provavelmente o canonista bem conhecido a quem se atribui uma Abbreviatio Decreti. Denifle, op. cit., p. 469. Sua obra tem por título (ms. 191384 de Munique): Incipit tractatus et quorumdam sententie collecte ex diversis auctoritatibus mag. Omnebene. — As outras duas Sumas são anônimas e distinguem-se por uma cega fidelidade em seguir Abelardo em quase todos os seus erros. Uma, descoberta em Saint-Florian (Alta Áustria), ainda é inédita, como a de Ognibene, mas Denifle e Gietl deram-lhe numerosos extratos. A última não é outra senão a Epitome theologiae já conhecida (ver I ABELARDO, Vida e obras) e classificada com razão por Denifle entre os cursos de teologia inspirados por Abelardo. — Todas essas obras, de fato, têm como caráter comum uma dependência evidente da Introductio ad theologiam de Abelardo. Todas lhe emprestam o mesmo Incipit, que não se encontra nos manuscritos de nenhuma outra escola: Tria sunt in quibus humane salutis summa consistit, fides scilicet, caritas et sacramentum. Seguindo essa divisão totalmente abelardiana, elas reconduzem a teologia a essas três partes (os sacramentos, em todas elas, precedendo a caridade). Enfim, Abelardo é para eles o Magister Petrus (prova de que Pedro Lombardo não era ainda ilustre) ou mesmo, para Ognibene, o Magister propriamente dito, cujas visões e fórmulas se adota.

Assim, a ação de Abelardo exerceu-se por intermédio de uma multidão de mestres que, mesmo sem tê-lo ouvido (é o caso de Rolando), transplantavam sua doutrina nas escolas de todos os países. Ognibene ensina em Bolonha como Rolando (Denifle, loc. cit., p. 615), mas Rolando escreve suas sententiae em Roma (Gietl, loc. cit., p. 16), e o autor do manuscrito de Saint-Florian professa em Milão. É, aliás, em Roma que, antes de 1135, um cônego de Latrão, Adam, De scholis mag. Abaiolardi egressus, ensinava os erros de seu mestre sobre a encarnação e, combatido por Gerhoch de Reichersberg, preferiu a apostasia a uma retratação. Cf. Gerochi, Epist. ad collegium Cardinalium, em Pez, Thesaurus anecd. nov., t. VI, p. 522; cf. P. L., t. CXCIII, col. 376. Compreende-se melhor, depois disso, os alarmes de São Bernardo e também as expressões do satírico Gautier Map, afirmando que nas escolas «Abelardo era ensinado»,

Et professi plurimi sunt Abaelardum,

e acrescentando que a sentença obtida dos bispos pelo grande abade não era aceita sem reclamações:

Clamant a philosopho proles educati.
Cucullatus populi primas cucullati.
Ut sepe tunicis tribus tunicati
Imponi silentium fecit tanto vati (Abélard).
Walter Mapes, em The latin poems by Wright, Londres, 1841, p. 28; cf. Denifle, op. cit., p. 605 sq.

3° Sobrevivência da escola de Abelardo após a sua condenação. — A escola de Abelardo continuou florescente após a condenação de 1141; apenas tornou-se mais prudente e mais moderada. O P. Denifle, Archiv..., p. 604, 615, pensara que as quatro *Summae* fossem anteriores ao Concílio de Sens. Mas o P. Gietl, Die Sentenzen, etc., p. 17, provou que, ao menos as Sentenças de Rolando, são posteriores e foram escritas por volta de 1149. Nelas lê-se a fórmula Dicebat magister Petrus, que supõe Abelardo desaparecido; não se vê, contudo, menção à condenação, a não ser talvez nesta expressão, a propósito do otimismo: quidam a ratione Ecclesiae dissencientes (Ibid., p. 54). De resto, é certo que a admiração por Abelardo sobreviveu ao Concílio de Sens. É em 1159 que João de Salisbury cobria de elogios o seu antigo mestre. Mesmo após 1141, Pedro Lombardo, embora formado na escola tão ortodoxa de São Vítor, longe de esquecer as lições recebidas de Abelardo, folheava sem cessar a Introductio ad theologiam; é João da Cornualha, seu discípulo, que no-lo assegura. Eulogium ad Alexandrum III, P. L., t. CXCIX, col. 1052.

Muito tempo após a morte de Abelardo, Gerhoch de Reichersberg, em sua carta ao Papa Adriano IV contra os adopcionistas, não via neles senão discípulos de Abelardo, e mostra com pavor as escolas da França e de todos os países obscurecidas pela espessa fumaça que ele deixara atrás de si: Fumant scholæ plures in Francia et aliis terris permaxime a duabus caudis ticionum fumigantium vid. Petri Abaiolardi et episcopi Gilliberti. Quorum discipuli eorum dictis et scriptis imbuti hominem Verbo Dei imbutum negant esse Filium Dei, etc. Cod. ms. 4384 Admunt., em Bach, Die Dogmengeschichte..., t. II, p. 37.

Na França, a influência dos princípios de Abelardo surgiu à luz do dia no ensino de Guilherme de Conches. Filósofo antes que teólogo, ele deduzira as consequências do sistema e ensinava, sem disfarce algum, o puro sabelianismo. Guilherme de Saint-Thierry vê Abelardo reviver nele: «Eles pensam da mesma forma, falam da mesma forma, a não ser que um trai o outro sem suspeitar. O primeiro dissimulava, mas o segundo declara brutalmente o seu sentimento comum.» De erroribus Guillelmi de Conchis, P. L., t. CLXXX, col. 334. Ficamos bastante surpresos ao ver a famosa teoria sobre «o Espírito Santo alma do mundo» tornar-se já no século XII um evolucionismo materialista, segundo o qual o mundo dos corpos seria o único real, sendo Deus e a alma apenas a lei que preside a evolução dos seres: Stultorum quorumdam philosophorum videtur sententiam sequi, dicentium nihil esse præter corpora et corporea, non aliud esse Deum in mundo quam concursum elementorum et temperaturam naturæ, et hoc ipsum esse animam in corpore. Id., ibid., col. 339-340. Guilherme de Conches teve a sabedoria de se retratar no seu Dragmaticon philosophiæ. Histoire litt. de la France, t. XII, p. 464. Mas é claro que, se a escola de Abelardo tivesse tido apenas tais representantes, ela estaria perdida. Sua duração explica-se pela moderação de vários de seus mestres, de Rolando sobretudo, moderação devida em grande parte à influência da escola de São Vítor.

II. RELAÇÕES DA ESCOLA DE ABELARDO COM A ESCOLA DE SÃO VÍTOR. — Um segundo fato que ressalta das publicações dos padres Denifle e Gietl é a influência mútua que exerceram uma sobre a outra a escola aventureira de Abelardo e a escola tradicional de São Vítor. Esta última é representada pelos grandes nomes de Hugo, Ricardo e Adão de São Vítor e pelas obras seguintes: De sacramentis libri duo (de Hugo); Quæstiones in Epistolas S. Pauli, certamente posteriores a Hugo, uma vez que citam o mestre Achard (Hauréau, Les œuvres de Hugues de Saint-Victor, Paris, 1886, p. 29); o Speculum de mysteriis Ecclesiæ, P. L., ibid., col. 362, que não pôde ser escrito antes de 1180; enfim, a célebre Summa sententiarum que Du Boulay considerava, erroneamente, como a primeira *Summa*, modelo e origem de todas as outras (Bulæus, Hist. Univ. Paris., t. I, p. 64). Ora, é precisamente a comparação desta *Summa* com as *Summae* abelardianas que manifesta a fusão das duas escolas.

1º Influência da escola de São Vítor sobre a escola de Abelardo. — A escola de Abelardo retorna pouco a pouco à ortodoxia sob a influência dos escritos de São Vítor. A realidade dos empréstimos foi demonstrada para Rolando e para Ognibene pelo Pe. Gietl, Die Sentenzen..., p. 49, 50, 51 e passim. O resultado foi, em Rolando, sobretudo a correção de um bom número de erros. Sem dúvida, encontram-se ainda nele fórmulas suspeitas ou falsas, por exemplo, a famosa proposição: Christus, secundum quod homo, non est persona, nec aliquid, Die Sentenzen..., p. 176, proposição que ele deveria, como papa, condenar solenemente em 1170 e em 1179. Cf. Jaffé-Loewenfeld, Regesta pont. rom., n. 11806 (7894) e 12785 (8467); Denifle, Chartularium univ. Paris., t. I, n. 3 e 8; ver ADOPCIONISMO NO SÉCULO XII. Mas, na maioria das vezes, com plena independência, ele corrige Abelardo. Assim: 1. À sua definição de fé ele acrescenta uma palavra que teria satisfeito São Bernardo: Fides est CERTA existimatio rerum absentium; e, além disso, ele propõe a fórmula cara a Hugo: Fides est... INFRA SCIENTIAM et SUPRA OPINIONEM constituta. Die Sentenzen..., p. 10-11. Cf. Summa sent., P. L., t. CLXXVI, col. 43; De sacramentis, col. 327. — 2. A propósito da Trindade, ele ainda admite expressões ambíguas, inclusive a comparação do sigillum æneum, Die Sent., p. 29, mas apressa-se a explicar e a reconduzir tudo à verdade. — 3. Ele refuta sob todas as suas formas o otimismo do Magister Petrus, ibid., p. 54-89, como o haviam refutado Hugo e a Summa sententiarum. — 4. Ele rejeita o erro de Abelardo sobre o pecado original e toma emprestada da escola de São Vítor a teoria que o identifica com a concupiscência. Ibid., p. 132-136, 202; cf. De sacramentis, l. I, p. VII, c. XXVI-XXXII, P. L., t. CLXXVI, col. 298-302; Summa sent., tr. III, c. XI, col. 106. — 5. A explicação do resgate do homem a servitute diaboli é ainda extraída de São Vítor contra Abelardo. Die Sentenzen, p. 162; cf. De sacramentis, l. I, p. VIII, c. II, P. L., t. CLXXVI, col. 308. — 6. O mesmo ocorre quanto à eficácia do batismo de desejo, negada por Abelardo, mas ensinada por Rolando com a escola vitorina. Die Sentenzen, p. 209; Summa sent., tr. VI, c. XII, P. L., t. CLXXVI, col. 144; cf. De sacramentis, l. I, part. IX, c. V, col. 323. — 7. Mesmo sobre questões absolutamente livres, como a do «lugar dos anjos», Rolando abandona a tese de Abelardo (mais tarde abraçada pelos tomistas) de que os espíritos estão «fora de qualquer lugar», Epitome, c. XXVIII, P. L., t. CLXXVII, col. 1738, para adotar a teoria vitorina (e mais tarde suarista), dizendo angelos esse in loco, non tamen esse locales vel circumscriptibiles. Die Sentenzen, p. 88; cf. Hugo, De sacramentis, l. I, part. XIII, c. XVIII, col. 224; Summa sent., tr. I, c. V, col. 50.

2º Influência da escola de Abelardo sobre a escola de São Vítor. — Mas São Vítor, por sua vez, sofre a influência da escola de Abelardo, e o autor da Summa sententiarum deve-lhe uma parte dos progressos que ela realiza sobre o De sacramentis. — 1. Primeiro, o caráter patrístico: o argumento de tradição precedendo e inspirando as especulações racionais, eis na Summa o selo distintivo que a separa dos Libri de sacramentis, onde os Padres são esquecidos a ponto de que, nas quatro primeiras partes, talvez não se encontraria um único texto. Cf. Mignon, Les origines de la scolastique et Hugues de Saint-Victor, t. I, p. 180. Esta é uma modificação de extrema importância, visto que só ela deveria vivificar a escolástica e assegurar o sucesso de Pedro Lombardo. Ora, se ela foi motivada no autor da Summa sententiarum (ver præfatio, P. L., t. CLXXVI, col. 41) por preocupações de ortodoxia, ela havia sido inaugurada pela escola de Abelardo e facilitada pelo Sic et non, mina onde a Summa haurirá frequentemente. Desde o c. III, quatro textos são extraídos do c. II correspondente do Sic et non. P. L., t. CLXXVIII, col. 1353; cf. Denifle, Archiv, etc., t. I, p. 620. — 2. Outro progresso devido à escola de Abelardo é o método dialético, aplicado em sua severidade técnica ao ensino da teologia. Hugo, em sua obra De sacramentis, havia ainda feito uma obra literária, onde longos desenvolvimentos dissimulam a tese, as provas e as objeções. Abelardo, ao contrário, havia inspirado aos seus o amor pelo silogismo, o emprego de um método rigorosamente didático, cuja sobriedade iguala a precisão; entre as Somas do século XII, a de Rolando é, sem contestação, a obra-prima do gênero. Ora, a Summa sententiarum inspirou-se tão bem neste método abelardiano que Pedro Lombardo, em vez de se limitar a imitar, preferiu muitas vezes transcrevê-la. Cf. Mignon, Les origines de la scolastique et Hugues de Saint-Victor, p. 183 sq.

3. Nas doutrinas propriamente ditas, mais de um feliz empréstimo foi feito à escola de Abelardo pela de São Vítor. Assim, Hugo havia ensinado o retorno, após uma recaída, dos pecados anteriormente perdoados (De sacram., l. II, part. XIV, c. VIII, P. L., t. CLXXVI, col. 570). A Summa sententiarum, na esteira de Abelardo e de seus discípulos, rejeita este erro (cf. col. 570; cf. Abelardo, Expos. in Epist. ad Rom., P. L., t. CLXXVII, col. 864; Epitome, c. XXXVII, col. 1758; Ognibene e Roland em Gietl, op. cit., p. 249). Sob a mesma influência, a Summa restringe, sem a rejeitar inteiramente, a teoria semi-apolinarista de Hugo, que atribuía à humanidade de Jesus Cristo não somente a ciência incriada do Verbo, mas a onipotência e os outros atributos divinos (Hugo, De sacram., l. II, part. I, c. VI, col. 383; De sapientia animae Christi, col. 856). A escola de Abelardo estava aqui na verdade (Epitome, c. XXVII, P. L., t. CLXXVIII, col. 1737; Roland, op. cit., col. 166-171). A Summa sententiarum nega a onipotência na humanidade de Jesus Cristo e rejeita por aí o fundamento da doutrina de Hugo, mas admite ainda a ciência incriada e infinita (Tr. I, c. XVI, col. 74). Pedro Lombardo, por muito tempo hóspede de São Vítor, dará um passo a mais ao admitir uma ciência criada e inferior em clareza à ciência divina (Sent., l. III, dist. XIV, c. I, P. L., t. CLXXX, col. 783); mas a verdade inteira só triunfou com São Tomás.

4. Mas a Summa também buscou na escola de Abelardo vários erros estranhos a São Vítor. Assim, ela ensina com Abelardo que a fé sem a caridade não é de modo algum uma virtude (Tr. I, c. X, col. 45; cf. Abelardo, Introductio ad theol., l. II, P. L., t. CLXXVIII, col. 1051). Encontra-se também, como em Roland, a tese semi-donatista de que os padres excomungados não podem mais consagrar validamente (tr. VI, c. IX, col. 146; cf. Die Sentenzen Rolands, p. 218; Abelardo, Professio fidei, P. L., t. CLXXVIII, col. 107; e entre as obras falsamente atribuídas a Hugo de São Vítor, Quaestiones in Epist. sancti Pauli, q. CIII (ad Cor.), P. L., CLXXV, col. 602).

3° Qual é o autor da Summa sententiarum? — Um resultado inesperado, mas interessante, desta comparação é que o problema tão debatido da autenticidade da Summa sententiarum se encontra resolvido. Apesar da autoridade de Hauréau (Œuvres de Hugues de Saint-Victor, 1886, p. 73), do abade Mignon (op. cit., t. I, p. 31, 173-181), do próprio P. Gietl (op. cit., p. 34-40), do Dr. Kilgenstein e de Dom Baltus (Dieu d’après Hugues de Saint-Victor, na Revue bénédictine (Maredsous), 1898, p. 109 sq.), a Summa não pode mais ser atribuída a Hugo, embora emane de sua escola. O P. Denifle (Die Sentenzen von Saint-Victor, em Archiv für Liter., etc., t. III, p. 635-639), apoiando-se sobretudo no anonimato dos manuscritos, havia deixado a questão em suspenso. Mas as divergências doutrinais (muito esquecidas pelos críticos) entre a Summa e o Liber de sacramentis mudam a dúvida em certeza. Com efeito, a Summa sententiarum é certamente posterior ao Liber de sacramentis, do qual se inspira bastante frequentemente; aliás, doutrinas, método, fórmulas mesmo, tudo na Summa acusa um progresso evidente, e o abade Mignon destruiu ele mesmo para sempre a hipótese da Histoire littéraire de la France (t. XII, p. 36), que dela fazia um esboço do Liber de sacramentis. Ora, é absolutamente impossível que, após o De sacramentis, Hugo tenha composto a Summa. Esta, com efeito, empresta da escola de Abelardo erros que Hugo não tinha ensinado, e muito mais erros e fórmulas que ele expressamente combateu: Hugo havia muito sabiamente demonstrado que a extrema-unção pode ser reiterada como a eucaristia (De sacram., l. II, part. XV, col. 580). A Summa empresta da escola de Abelardo o erro contrário e dá uma explicação da qual o abade Mignon diz muito justamente "que ela não é digna de Hugo" (Op. cit., t. I, p. 206). Como, pois, atribuí-la a ele, sobretudo depois que ele a refutou ele mesmo? — Além disso, quando o autor da Summa corrige o erro de Hugo sobre a reviviscência dos pecados perdoados, os termos dos quais ele se serve não permitem pensar que ele tenha jamais compartilhado este erro. — Mesmo quando ele se inspira nas opiniões particulares de Hugo, vê-se que ele se alinha à ideia de outro; ele omite as teorias mais caras ao seu guia; ele não conserva nem a marcha, nem o estilo, nem as fórmulas, nem sobretudo esta bela divisão da teologia (baseada no plano histórico da providência redentora), divisão que Hugo desenvolveu várias vezes com tanta complacência. (Comparar a divisão geral em De sacramentis, Prologus, P. L., t. CLXXVI, col. 184 sq.; a Summa, tr. I, col. 43, começa pela fé, como Abelardo; a teoria sobre o progresso da fé em De sacram., l. I, part. X, c. VI, col. 336-340, Summa, tr. I, c. I, col. 46: alia quibus assentimus; a teoria errônea de Hugo sobre a eficácia dos sacramentos da antiga lei, De sacram., l. I, part. XI, c. I, col. 343; Summa, tr. IV, c. I, col. 149). Adicionemos um testemunho capital: os grandes teólogos do século XIII alegam frequentemente as Sententiae Hugonis, mas por este termo eles entendem o Liber de sacramentis, prova evidente que eles não atribuíam a Hugo a Summa sent.. Ver Alexandre de Hales: sobre o objeto principal da Escritura, I, q. 1, Veneza, 1576, fol. 2; cf. De sacram., l. I, part. I, col. 183; sobre o otimismo, Hales, Iª, q. XIX, m. III, a. 2, fol. 57; cf. De sacram., l. I, part. II, c. XX, col. 214; Hales, ibid., fol. 58, e De sacram., fol. 236. As objeções caem por si mesmas se se leva em conta a indicação preciosa de vários manuscritos, Denifle, em Archiv, t. III, p. 637, onde se lê este título: Sententiae mag. Ottonis ex dictis mag. Hugonis. A doutrina seria em geral a de Hugo, mas Othon(?), o verdadeiro autor, teria muito emprestado da escola de Abelardo.

4ª Conclusão: A qual das duas escolas deve-se finalmente atribuir o triunfo da escolástica? — A nenhuma exclusivamente: cada uma teve seu papel distinto. Elas não tiveram que erigir em princípio a introdução da filosofia na teologia; isso já estava feito por Santo Anselmo e, um pouco a contragosto, por Lanfranc. Como Abelardo, Hugo adotou o princípio e, na aplicação, eles desdobraram o mesmo zelo. É falso de todo ponto que a escola de São Vítor, por um excesso de simbolismo místico, tenha travado o desenvolvimento científico da fé. Cf. Dom Baltus, loc. cit., p. 440; Mignon, t. I, p. 178. Mas, por um lado, é bem à escola de Abelardo que são devidos principalmente os três aperfeiçoamentos essenciais da nova teologia: a ideia de condensar, em uma Soma digna deste nome, a síntese de toda a teologia, a introdução dos procedimentos mais severos da dialética e a fusão da erudição patrística com a especulação racional. A prioridade da escola de Abelardo, embora contestada (Dom Baltus, loc. cit., p. 109), é estabelecida por este único fato de que, no momento em que Hugo, ainda jovem, chegava da Saxônia a Paris (por volta de 1118), Abelardo, em todo o brilho de sua renomeada, preparava-se para escrever a Introductio ad theologiam. Por outro lado, somente a escola de São Vítor teve a glória de salvar o novo método posto em grande perigo pelas temeridades doutrinais de Abelardo. A heterodoxia do inovador, diz Harnack, “desacreditou a ciência, a tal ponto que os teólogos da geração seguinte tiveram uma posição difícil. Assim, pouco faltou para que a condenação fosse pronunciada contra as Sentenças de Pedro Lombardo.” Précis de l’histoire des dogmes, trad. Choisy, Paris, 1893, p. 330. Sem falar do fogoso Gautier de Saint-Victor, autor do panfleto Contra os quatro labirintos da França (Abelardo, Gilberto de la Porrée, Pedro Lombardo e Pedro de Poitiers, cf. P. L., t. CXCIX, col. 1129 sq.), os melhores espíritos, como Guiberto de Nogent, Guilherme de Saint-Thierry, São Bernardo, estavam espantados com os novos métodos. Cf. Mignon, op. cit., t. I, p. 165. Etienne de Tournay lançava terríveis acusações “contra esses fazedores de novas Somas.” Epist. ad rom. pont., em Denifle, Die Universitäten des Mittelalters, t. I, p. 746. Foi necessária a perfeita ortodoxia da escola de São Vítor e toda a sua prudente moderação no uso do novo sistema para fazer esquecer que seus primeiros promotores se chamavam Escoto Erígena, Berengário, Abelardo, para tranquilizar os crentes alarmados e aclimatar a nova teologia nas escolas católicas. Tal foi o verdadeiro papel de Hugo de São Vítor e de sua escola. Assim como os críticos católicos, Harnack proclamou Hugo de São Vítor “o mais influente dos teólogos do século XII”, porque, mais do que qualquer outro, ele contribuiu para a fusão das duas tendências em luta, a ortodoxia dogmática e a ciência filosófica. Ver Lehrbuch der Dogmengeschichte, t. II, p. 532; cf. Précis de l’histoire des dogmes, trad. Choisy, p. 330; Dom Baltus, loc. cit., p. 214.

A consultar: os estudos citados dos PP. Denifle e Gietl; H. Hurter, Nomenclator literarius, 3ª ed., Inspruck, 1906, t. II, col. 99-105; o abade Mignon, Les origines de la scolastique et Hugues de Saint-Victor, 2 in-8°, Paris, 1895; o abade Féret, La faculté de théologie de Paris et ses docteurs les plus célèbres, in-8°, Paris, 1894, t. I. E. PORTALIÉ.





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