ABSOLUTAMENTE

Verbete sobre ABSOLUTAMENTE na Enciclopédia Católica

ABSOLUTAMENTE (absolute), advérbio empregado frequentemente na linguagem teológica. Possui vários sentidos, conforme se refira às qualidades dos seres, às suas diferenças ou à sua necessidade.

I. QUALIDADES. — As qualidades dos seres: 1º convêm-lhes essencialmente e por si mesmas, ou então não lhes são atribuídas senão em virtude de uma comparação estabelecida entre eles e outros seres. No primeiro caso, afirma-se delas de modo absoluto; no segundo caso, são atributos relativos. — Pedro é «homem», ele é «príncipe dos apóstolos». Tomado em si mesmo, ele é «homem», sê-lo-á absolutamente; ele não é «príncipe dos apóstolos» senão comparativamente, visto que este título não lhe pertence senão em decorrência de uma relação com os outros apóstolos.

2º Os teólogos tomam o advérbio absolute neste sentido, quando dizem que as criaturas são absolutamente seres e relativamente não-seres. Tomada absolutamente e em si, toda criatura é um ser, uma vez que possui a sua essência, a sua existência e as suas propriedades próprias. São Tomás afirma-o ao mostrar que o ser, a verdade ou a bondade de Deus é o princípio e a causa do ser, da verdade ou da bondade das criaturas, mas não é formalmente nem este ser, nem esta verdade, nem esta bondade. Sum. theol., Ia, q. VI, a. 4; q. XVI, a. 5, 6; In IV Sent., l. I, dist. VIII, q. 1, a. 1; Quaest. disp., De verit., q. 1, a. 4. — Comparativamente, a criatura é antes um não-ser. Se a compararmos a Deus, que sozinho possui o ser em toda a sua plenitude, ela não é senão uma participação longínqua, um nada ao lado deste Ser por essência. Se a compararmos à existência, ela é ainda um não-ser, pois é contingente, isto é, não é por si mesma, é indiferente a ser ou a não ser. Finalmente, se a compararmos a todas as outras criaturas existentes ou possíveis, ela é tão limitada, e deve-se negar dela tantas perfeições que não possui e tantas naturezas que não é, que os filósofos puderam chamá-la de um ser finito e um não-ser infinito. Ela é, pois, um não-ser sob o tríplice título de participada, de contingente e de finita. Cf. Kleutgen, Die Philosophie der Vorzeit, Innsbruck, 1860, n. 944.

3º A teologia distingue ainda com cuidado, e num sentido análogo, o que convém absolutamente à divindade e o que não lhe convém senão relativamente; donde a necessária distinção, em Deus, do absoluto e do relativo, correspondendo à distinção da natureza e das pessoas, da Unidade e da Trindade. Convém absolutamente à divindade ser, pensar, querer, ser infinita, necessária, perfeita, todo-poderosa; convém-lhe relativamente engendrar e ser engendrada. Se a considerarmos absolutamente, ela é um só Deus; sob o aspecto relativo, ela é três pessoas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, e esta distinção do relativo e do absoluto permite compreender, tanto quanto possível num mistério, por que não há contradição em situar simultaneamente a Unidade e a Trindade em Deus. Cf. Petau, De Deo, IV, c. VII-XI; De Trinit., IV; Franzelin, De Deo trino, th. XXI.

Por vezes, os teólogos conferem outro sentido à palavra «absolutamente» e requerem outras condições das qualidades para afirmá-las de modo absoluto. «Absolutamente» é então tomado como «pura e simplesmente».

4º A brancura, dizem eles com os filósofos escolásticos, convém absolutamente ao europeu, que é branco por toda a sua pessoa; ela não convém absolutamente, mas parcialmente, ao africano, cujos dentes apenas são brancos. Neste caso, absolutamente opõe-se a parcialmente; o sentido absoluto opõe-se a um sentido restritivo, no qual a brancura já não é afirmada absolutamente porque não é a qualidade senão de uma porção do corpo.

5º Noutros casos, o sentido absoluto opõe-se a um sentido ampliativo, e absolutamente opõe-se a completamente: exemplo: as riquezas são ditas absolutamente, isto é, pura e simplesmente boas, embora não o sejam em certas circunstâncias especiais; ao contrário, as virtudes são completamente boas, porque o são sempre e em qualquer circunstância em que nos encontremos. Sum. theol., Ia IIae, q. IV, a. 4, ad 2um. São Tomás emprega ainda a palavra absolutamente nesta acepção, quando diz que o corpo vivo de Nosso Senhor era o mesmo que o seu corpo morto, se tomarmos a coisa absolutamente, isto é, se considerarmos pura e simplesmente a sua individualidade hipostática; mas que não era o mesmo se, em vez desta individualidade persistente, buscarmos uma identidade inteira e total. Sum. theol., Ia, q. 1, a. 5.

II. DIFERENÇAS. — 1º Duas denominações diferem absolutamente quando os seus objetos são real e intrinsecamente distintos; por exemplo, Maria e José, o peso e o calor, a inteligência e a imaginação; a diferença é apenas conotativa se estas duas denominações designam uma só e mesma realidade sob aspectos diversos: criador e santificador diferem conotativamente, porque se referem a um mesmo Deus considerado, por um lado, como fonte do ser e, por outro, como princípio de santidade. Deus e santificador diferem ainda conotativamente, uma vez que o primeiro nome designa Deus tomado em si mesmo e o segundo o significa como termo de uma relação.

2º Os lógicos distinguem, noutro sentido, os termos absolutos ou substantivos e os termos conotativos ou adjetivos. Os primeiros exprimem substâncias: terra, homens, etc., ou qualidades consideradas como subsistentes: a redondeza, a sabedoria, a humanidade; os segundos significam as qualidades no seu sujeito: redondo, sábio, etc. Estes termos diferem dos substantivos e dos adjetivos gramaticais. Cf. Logique de Port-Royal, part. I, c. 1.

III. NECESSIDADE. — Absolutamente é dito, enfim, das coisas necessárias, e é então oposto a hipoteticamente.

1º As essências são absolutamente necessárias; a existência de Deus, que é a Sua própria essência, é absolutamente necessária; as propriedades essenciais dos seres participam da necessidade das essências e são também absolutamente necessárias. As essências são ditas absolutamente necessárias porque não podem deixar de ser de tal natureza, ainda que possam não existir; Deus, que não apenas não pode deixar de ser tal, mas também não pode deixar de existir, ocupa o grau supremo do absoluto no necessário.

2º Para bem discernir o que é absolutamente necessário daquilo que o é apenas hipoteticamente, é preciso recorrer às causas dos seres. As duas causas internas, material e formal, que constituem a essência, conferem, pelo próprio fato, o absolutamente necessário; as duas causas externas, eficiente ou final, criam a necessidade hipotética. Com efeito, uma coisa é absolutamente necessária ou porque é exigida pela causa material, quando esta existe: por exemplo, é absolutamente necessário que um triângulo de ouro seja pesado; ou porque é imposta pela causa formal: por exemplo, é absolutamente necessário que, em um triângulo, os três ângulos sejam iguais a dois retos. No primeiro caso, a matéria; no segundo caso, a forma do triângulo são causas de necessidade absoluta.

3º A necessidade hipotética, oposta à necessidade absoluta, tem por vezes a sua fonte na ação das causas eficientes. Não é absolutamente necessário que eu exista; mas isso é necessário, supondo que Deus queira criar-me; é uma necessidade hipotética, isto é, que surge na hipótese dada. A coação pertence a este tipo de necessidade, pois é uma violência exercida por agentes exteriores; é necessário que o homem careça de liberdade, supondo que o lancem na prisão: necessidade hipotética ou de coação. Por vezes, a necessidade hipotética provém das causas finais: não é absolutamente necessário que eu coma ou que tome o trem, mas isso é necessário, supondo que eu queira viver ou passar da França para a Rússia. Há graus nesta necessidade, conforme o meio empregado para atingir o fim seja indispensável ou apenas útil: o alimento é indispensável para viver, o trem é apenas útil para ir à Rússia. Sum. theol., I, q. LXXXII, a. 4. Vê-se que a necessidade hipotética pode coexistir com a contingência, uma vez que a primeira vem do exterior e a segunda é intrínseca: o meio necessitado pelo fim não deixa de ser contingente em si mesmo.

4º A presciência divina cria uma necessidade e essa necessidade é absoluta ou hipotética? Os meus atos previstos por Deus são absoluta ou hipoteticamente necessários? Cf. S. Boaventura, In IV Sent., l. I, dist. XXXVIII, a. u, q. 1; S. Tomás, Quæst. disp., De verit., q. 11, a. 12, ad 3um; S. Anselmo, De concordia præscientiæ et prædestinationis, q. 1, De concord. presc. Dei cum lib. arb., c. u, P. L., t. CLVIII. Eles não podem ser absolutamente necessários, pois poderiam não ter sido previstos e não ter sido realizados. São, no máximo, necessários, supondo que Deus os tenha previsto. Mas esta previsão divina, por si mesma, não traz de modo algum aos meus atos uma necessidade análoga à necessidade de coação imposta pelas causas eficientes: ela não exerce sobre eles qualquer influência; os meus atos permanecem inteiramente livres. Mais do que dizer que é necessário que eles existam, devo afirmar que é certo que eles existirão; eles serão infalivelmente, mas não necessariamente.

Cf. para todo o artigo: Signoriello, Lexicon peripateticum philosophico-theologicum, v° Absolute, III, IV, VI, IX, Nápoles, 1872; G. Reeb, Thesaurus philosophorum, dist. A., I, II, III, IV, VI, VII, ed. Cornoldi, Paris, 1875; Mellinii, Lexicon, v° Absolutum, Connotare, Connotata, Connotativum.

A. CHOLLET.





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