ABRAÃO (SACRIFÍCIO DE)

Verbete sobre ABRAÃO (SACRIFÍCIO DE) na Enciclopédia Católica

Nós compararemos o sacrifício de Isaac por Abraão aos sacrifícios humanos oferecidos às falsas divindades nas religiões antigas; depois, exporemos as razões providentais disto.

I. O SACRIFÍCIO DE ABRAÃO E OS SACRIFÍCIOS HUMANOS NAS RELIGIÕES ANTIGAS. — 1° O relato bíblico deste sacrifício não supõe a existência entre os judeus da prática monstruosa dos sacrifícios humanos. Os críticos racionalistas que aplicam à religião... ...os israelitas eram primitivamente politeístas e ofereciam vítimas humanas a Jahvé, seu deus nacional, como seus contemporâneos, semitas ou cananeus, ofereciam às suas falsas divindades. A maioria dos povos com os quais Abraão esteve em relações, acreditavam, com efeito, honrar seus deuses e tornar-se propícios a eles imolando-lhes homens feitos ou crianças. Para a Babilônia e a Assíria, o fato é controverso. Contudo, pedras gravadas (fig. 1), servindo de selo ou de amuleto, de data muito antiga e de proveniência babilônica ou caldaica, parecem representar sacrifícios humanos. Ver G.-J. Ball, Glimpses of Babylonian Religion, I. Human sacrifices, nos Proceedings of the Society of biblical Archeology, fevereiro de 1892, t. XIV, p. 149-153. Por outro lado, os habitantes de Sepharvaim jogavam seus filhos no fogo em honra de Adramelech e de Anamelech, seus deuses. IV Reg., XVII, 31. Cf. Lenormant-Babelon, Histoire ancienne de l’Orient, 9ª ed., Paris, 1887, t. V, p. 307-308. Entre as tribos cananeias, o fato é incontestável. Os fenícios e os cartagineses são renomados pelos horríveis sacrifícios que ofereciam aos seus Baalim. Lenormant-Babelon, op. cit., Paris, 1888, t. VI, p. 577-578, 657-658; G. Maspero, Histoire ancienne des peuples de l’Orient, 5ª ed., Paris, 1893, p. 341-343. Mésa, rei dos moabitas, imolou seu filho mais velho sobre a muralha a fim de obter a vitória. IV Reg., III, 27. Cf. Sap., XII, 5. Deus havia proibido aos israelitas oferecer a Moloch vítimas humanas. Lev., XVIII, 21; XX, 2-5. Eles não observaram sempre esta proibição e imitaram os cruéis exemplos dos povos, seus vizinhos. IV Reg., XVI, 3; Ps. CV, 37-38; Jer., XIX, 35; Ezech., XXIII, 37. Para demonstrar que estes sacrifícios humanos não eram em Israel transgressões isoladas e passageiras da lei divina que ainda não estava promulgada, mas bem atos de culto regularmente praticados e autorizados, os racionalistas recorrem ao relato do sacrifício de Abraão, relatado no Gênesis, XXII, 1-14. Segundo Renan, Histoire du peuple d’Israël, Paris, 1887, t. I, p. 75-76, 92-93, 412, a lenda representava Abraão como um pai pacífico e humano; ela contava como, tendo tido o dever de sacrificar seu filho primogênito, ele lhe havia substituído por um cabrito, e ela mostrava assim que os israelitas não tinham sido mais isentos que seus congêneres do rito odioso dos sacrifícios humanos. Cf. Maspero, Hist. anc. des peuples de l’Orient, p. 345, nota 2. Tudo em mantendo ao relato bíblico seu caráter histórico, não se encontra nele uma prova da existência dos sacrifícios humanos em honra de Jeová. Deus, sem dúvida, em virtude de seu direito soberano de vida e de morte, pede que Isaac seja imolado, mas segundo a expressão do texto sagrado, Gen., XXII, 1, é para tentar Abraão e colocar à prova sua obediência e sua fé. O evento, de resto, mostra bem que Deus não exigia uma imolação real de Isaac, uma vez que Ele se opôs a isso e se contentou com a obediência de Abraão. A oblação de Isaac não foi, portanto, um sacrifício humano, mas somente uma prova para Abraão. Glaire, Les Livres saints vengés, Paris, 1845, t. I, p. 463-464; Vigouroux, La Bible et les découvertes modernes, 6ª ed., Paris, 1896, t. IV, p. 498-499. — 2° Mesmo ao ordenar imolar Isaac, Deus não aprova o costume bárbaro dos pagãos que sacrificavam seus filhos às falsas divindades, e Ele não mostra que tais sacrifícios, oferecidos em sua honra, lhe seriam agradáveis. Se, com efeito, um sacrifício humano devesse lhe ser agradável, este não poderia ser senão aquele que lhe fazia um homem segundo seu coração, tal como Abraão. Ora, Ele intervém miraculosamente para deter a mão do sacrificador, pronta para golpear. Gen., XXII, 10-12. S. Ambrósio, De virginitate, 2, n. 6, P. L., t. XVI, col. 267; F. de Hummelauer, Comment. in Genesim, Paris, 1895, p. 434. Sua vontade de não se ter por honrado pela imolação de vítimas humanas se manifestará mais tarde por uma lei formal que proibirá aos descendentes de Abraão imitar as nações pagãs e oferecer-lhe tais sacrifícios. Deut., XII, 31. Contudo, Deus, que é o autor da vida e da morte, I Reg., II, 6, permitiu legitimamente a Abraão imolar Isaac, seu filho inocente; Ele usou voluntariamente de seu direito absoluto de vida e de morte, Sap., XVI, 13, e a ordem que Ele deu não violou a justiça. S. Tomás, Sum.

theol., IIa IIae, q. XCIV, a. 4, ad 2um. Ao obedecer ao preceito divino, Abraão, por seu lado, não cometeu injustiça e não se pode dizer que ele tenha sido homicida em sua vontade. Id., ibid., Ia IIae, q. XCIV, a. 5, ad 2um; q. C, a. 8, ad 3um. Do mandamento dado por Deus a Abraão de imolar Isaac, deve-se, contudo, concluir que a imoralidade dos sacrifícios humanos não é uma imoralidade intrínseca e absoluta, que não sofre exceção nem dispensa; pois, de outra forma, Deus que ordenou ao patriarca a imolação de seu filho tê-lo-ia excitado e empurrado ao pecado, o que repugna absolutamente à sua santidade. F. de Hummelauer, Comment. in libros Judicum et Ruth, Paris, 1888, p. 222; P. Dornstetter, Abraham, p. 51-67..

II. RAISONS PROVIDENTIELLES DU SACRIFICE D’ABRAHAM


1° Deus quis provar a fé e a obediência de Abraão. — O relato mosaico, Gen., XXII, 1, nos ensina e são Paulo, Heb., XI, 17, repete que o Senhor tentou seu fiel servo, quando lhe deu a ordem em aparência cruel de imolar seu filho. Se o Senhor a impôs a ele, não era para se assegurar de sua fidelidade que lhe era conhecida, mas era para lhe fornecer a ocasião de manifestá-la, de adquirir os méritos ligados a um ato heroico de obediência e de se tornar um modelo acabado da fé mais viva e da submissão mais perfeita à vontade divina. Os santos Padres admiraram e louvaram, em termos eloquentes, a virtude de Abraão. S. Clemente de Roma, I Cor., X, 7; Funk, Opera Patrum apostolicorum, 2ª ed., Tubinga, 1887, t. I, p. 74; Orígenes, In Gen., homil. VIII, P. G., t. XII, col. 203-208; S. Ambrósio, Epist., LVIII, n. 14, P. L., t. XVI, col. 1181; De excessu fratris sui Satyri, II, n. 97, col. 1343; De officiis, I, n. 118-119, col. 58-59; De virginitate, 2, n. 9, col. 268; S. Agostinho, Serm., II, P. L., t. XXXVIII, col. 26-30; S. Pedro Crisólogo, Serm., X, P. L., t. LII, col. 216-217; S. Gregório de Nissa, De deitate Filii et Spiritus Sancti, P. G., t. XLVI, col. 568-573; S. João Crisóstomo, De b. Abraham, P. G., t. L, col. 738-739; Hom., XLVII, in Genesim, P. G., t. LIV, col. 429-432; S. Cirilo de Alexandria, Glaphyr. in Gen., I, P. G., t. LXIX, col. 144-145; Teodoreto, Quest. in Gen., q. LXXII, P. G., t. LXXX, col. 181; Basílio de Selêucia, Orat., VII, P. G., t. LXXXV, col. 104-141; Ruperto, De Trinitate et operibus ejus, In Genes., VI, 28, P. L., t. CLXVII, col. 426-427; Rabano Mauro, Comment. in Gen., II, 3, P. L., t. CVII, col. 566-567; Adão Escoto, Serm., XXXI, n. 9, P. L., t. CXCVIII, col. 289. Os rabinos admiraram... Eles também a obediência de Abraão e atribuíram a ele o mérito da salvação final de Israel. Talmud de Jerusalém, tratado Taanith, I, 4; trad. Schwab, Paris, 1888, t. VI, p. 157-158. Aliás, todas as circunstâncias do fato são de natureza a fazer sobressair a grandeza da prova imposta ao santo patriarca. É em meio à prosperidade, enquanto ele era rico, estimado, aliado aos habitantes da terra, chegado ao auge de seus votos pelo nascimento de um filho de Sara, que Deus lhe pede a renúncia mais sensível ao seu coração paterno. Ele lhe ordena imolar seu próprio filho, seu filho único na linhagem patriarcal, o único herdeiro das promessas, tanto mais caro quanto tinha sido mais ardentemente desejado e por mais tempo esperado. O preceito divino exige um holocausto real e exterior; ele ordena um sacrifício horrível e em aparência contraditório com as promessas. Gen., XXII, 2. O autor do Gênesis não nos revela nada da surpresa e dos combates interiores de Abraão; ele se contenta em narrar sua fé inabalável e sua pronta obediência. Com uma admirável simplicidade, sem consultar a carne e o sangue, impondo mesmo silêncio à razão que poderia ter discutido o comando divino, Abraão ocupou-se imediatamente dos preparativos do holocausto. Gen., XXII, 3. Ele considerava, diz são Paulo, Hebr., XI, 19, que Deus tem poder suficiente para ressuscitar Isaac dentre os mortos e manter por este milagre sua palavra jurada. Cf. S. Agostinho, De civitate Dei, XVI, 32, P. L., t. XLI, col. 510. Quando após três dias de marcha ele se aproximou da montanha que Deus lhe tinha designado, ele deixou seus servos e carregou a madeira do sacrifício sobre os ombros de Isaac. Ele mesmo, como sacerdote, carregava o fogo e a faca. Enquanto caminhavam, a criança, que ignorava ainda a sorte que a esperava, inquiriu ingenuamente qual era a vítima destinada ao holocausto. Abalado sem dúvida por esta pergunta até o fundo de suas entranhas e dominando pela fé os movimentos mais violentos da natureza, Abraão se limitou a responder: “Deus proverá.” Chegado ao lugar indicado, ele ergueu um altar e dispôs a madeira. Após ter evidentemente feito conhecer a Isaac as ordens de Deus, ele amarrou a vítima resignada para impedir qualquer resistência mesmo involuntária, e sem exprimir uma queixa nem soltar um suspiro, ele levantava já sua mão armada com a espada para golpear, quando Deus, satisfeito com o sacrifício interior do pai e do filho, enviou seu anjo para impedir o parricídio. Por sua obediência levada ao ponto de não poupar nem mesmo seu filho único, Abraão tinha mostrado até onde ia seu temor a Deus ou sua religião. À voz do anjo, ele levantou os olhos e percebeu atrás de si um carneiro que se tinha embaraçado pelos chifres no arbusto; ele o pegou e o imolou em lugar de seu filho. Gen., XXII, 4-13. Abraão, imolando Isaac ao Senhor, foi apresentado por Adão Escoto, De ordine et habitu canonic. premonst., Serm., V, n. 3, P. L., t. CXCVIII, col. 480-481, como o modelo do premonstratense que consagra sua vida à oração e às obras do zelo.

2° Deus quis prefigurar o sacrifício de seu próprio Filho.

— Embora o desígnio imediato de Deus, ao ordenar a Abraão que lhe oferecesse Isaac, tenha sido o de colocar à prova a fé e a obediência de seu servo, o Senhor, contudo, tinha ainda uma intenção profética. — 1. São Paulo a vislumbrou e a indicou, quando diz que Abraão recobrou seu filho ἐν παραβολῇ. Hebr., XI, 19. Das diversas interpretações desta passagem, aquela que parece a mais conforme ao pensamento do apóstolo é que o sacrifício de Isaac, terminado pela substituição do carneiro à primeira vítima, foi não somente um tema fecundo em ensinamentos morais, mas bem um símbolo, um tipo, uma figura do sacrifício de Jesus por seu Pai. Drach, Épîtres de saint Paul, 2ª ed., Paris, 1896, p. 778; F. X. Patrizi, Institutio de interpretatione Bibliorum, 2ª ed., Roma, 1876, p. 170. Viu-se também nesta palavra de são Paulo que Deus «não poupou nem mesmo seu próprio Filho», Rom., VIII, 32, uma alusão àquela do anjo a Abraão. Gen., XXII, 12. Fillion, La Sainte Bible, Paris, 1888, t. I, p. 89. — 2. Os Padres e os escritores eclesiásticos desenvolveram a indicação fornecida por são Paulo. A primeira das figuras da paixão que Tertuliano, Adversus Judæos, 10, P. L., t. II, col. 626, descobre no Antigo Testamento, é Isaac conduzido por seu pai como uma vítima à imolação e carregando a madeira de seu sacrifício. Ele prefigurava Cristo, outorgado por seu Pai como vítima de expiação e carregando ele mesmo sua cruz. Para santo Ireneu, Cont. hær., IV, 5, n° 4, P. G., t. VII, col. 986, Abraão, que sua fé impelia a obedecer à ordem do Verbo de Deus, ofereceu generosamente seu filho único e bem-amado em sacrifício a Deus, para que Deus, por sua vez, lhe concedesse o benefício de sacrificar seu Filho único e bem-amado para a redenção de toda a sua posteridade. São Melitão de Sardes, num fragmento reproduzido, P. G., t. V, col. 1216-1217, compara Isaac e o carneiro que lhe é substituído a Jesus-Cristo, oferecido por seu Pai e imolado sobre a Cruz. Orígenes, In Gen., homil. VIII, n. 8, P. G., t. XII, col. 208, aproxima a palavra do anjo, Gen., XXII, 12, daquela de são Paulo, Rom., VIII, 32, e mostra como Deus lutou em liberalidade com Abraão. Este patriarca ofereceu a Deus seu filho mortal que não devia morrer, e Deus entregou à morte por todos os homens seu Filho imortal. Que renderemos, pois, ao Senhor por tudo o que Ele nos concedeu? Deus Pai não poupou seu próprio Filho por nossa causa. Santo Ambrósio expôs diversas vezes o caráter figurativo do sacrifício de Abraão. Não somente este sacrifício indica as qualidades, a prontidão, a continuidade e a fé que tornarão nossos próprios sacrifícios agradáveis ao Senhor, De Cain et Abel, I, 8, P. L., t. XIV, col. 331-332, mas ele representa ainda o sacrifício de Jesus-Cristo sobre a cruz. Abraão acompanhava seu filho, como Deus Pai, Cristo na via do Calvário. No carneiro suspenso pelos chifres, Abraão viu Cristo pendurado na cruz e considerou sua paixão. De Abraham, I, 8, ibid., col. 447, 449. A abolição dos antigos sacrifícios e a consagração do novo são expressas pela oblação que Abraão fez de seu filho e pela imolação do carneiro. Não mostraram elas que a carne do homem, que lhe é comum com todos os animais da terra, e não a divindade do Filho único de Deus, devia ser submetida às chagas da paixão? In Ps. XXXIX enarrat., n. 12, ibid., col. 1061. Abraão viu a verdadeira paixão do corpo do Senhor na imolação do carneiro. Epist., LXXI, n. 1, P. L., t. XVI, col. 1244. Ele viu que Deus queria entregar por nós seu Filho à morte; ele conheceu este mistério da nossa salvação que devia operar-se sobre a madeira da cruz e não ignorou que, em um só e mesmo sacrifício, outro era aquele que parecia ser oferecido, outro aquele que podia ser imolado, De excessu fratris sui Satyri, II, n. 98, ibid., col. 1343. Santo Agostinho, Serm., II, P. L., t. XXXVIII, col. 27; Serm., XIX, col. 133, reconheceu Jesus na cruz no carneiro substituído a Isaac. Para são João Crisóstomo, In Gen., homil. XLVII, n. 3, P. G., t. LIV, col. 432-433, o evento inteiro era figurativo da cruz. É por isso que Cristo disse aos Judeus que seu pai Abraão desejara ver seu dia, vira-o e alegrara-se, Joa., VIII, 56. Como o viu ele com tantos anos de antecedência? Em sombra e em figura. O carneiro oferecido no lugar de Isaac representava o cordeiro racional oferecido pelo mundo. A própria oferenda de Isaac prefigurava a realidade. Dos dois lados, um filho único e bem-amado, oferecido por um pai que não poupava seu próprio filho. Mas a realidade superou a figura; o sacrifício do Filho de Deus foi cumprido pelo gênero humano inteiro. São Cirilo de Alexandria, Glaphyr. in Genes., III, P. G., t. LXIX, col. 140-144, reconhece na história do sacrifício [...ficado de Isaac] o mistério do Salvador e o desenvolve bastante longamente.

Em resumo, Abraão representa Deus Pai que entrega seu Filho único; os dois escravos que o acompanham, os dois povos, Israel e Judá; a viagem durante três dias, observação da lei por esses dois povos até o tempo de Jesus Cristo; a separação de Abraão e de seus servos, a separação temporária de Deus e de Israel; Isaac, o Cristo. Para Teodoreto, Quest. in Genes., q. LXXII, P. G., t. LXXX, col. 181-184, Deus não ordenou a Abraão imolar seu filho senão em razão do caráter figurativo do evento. Deus Pai ofereceu seu Filho pelo mundo. Isaac era o tipo da divindade, o carneiro o da humanidade do Salvador. Basílio de Selêucia, Orat., VI, P. G., t. LXXXV, col. 112, coloca essa última ideia na boca de Deus que clama a Abraão: «Meu Filho único entregará à morte o cordeiro de quem terá tomado a natureza. Que o gládio não toque em teu filho único; que a cruz não toque na divindade de meu filho único! O carneiro será imolado; a paixão atingirá a carne do Verbo encarnado. Que o carneiro e a carne sejam golpeados para que não entregues à morte aquele que tem a mesma natureza que tu! Pereça o carneiro que é a imagem do Cristo suspenso na cruz!» Para Teofilato, Enarrat. in Ev. Joannis, VIII, P. G., t. CXXIV, col. 37, assim como para São Crisóstomo, Abraão viu o dia de Cristo, isto é, sua cruz, pois ele prefigurava ele próprio essa cruz na oferta de Isaac e na imolação do carneiro. Em Jesus Cristo, a divindade não sofreu, apenas a natureza humana submeteu-se à paixão. Santo Efrém, In Genesim, Opera, Roma, 1737, t. I, p. 77, reconheceu no carneiro, preso ao arbusto e substituído a Isaac, uma figura do cordeiro, suspenso na cruz e morrendo pelo mundo inteiro. Se voltarmos aos escritores da Igreja latina, reencontramos ensinamentos análogos aos dos Padres gregos, e seguindo o autor do Liber de promissionibus et praedictionibus Dei, I, 17, P. L., t. LI, col. 746-747, Abraão viu a paixão de Cristo no sacrifício de Isaac. O patriarca representava Deus que não poupou seu próprio Filho e não se opôs à sua morte; Isaac, Jesus carregando a madeira de seu suplício; o carneiro, o Cristo coroado de espinhos; Isaac sobrevivente, o Salvador ressuscitado. Segundo São Máximo de Turim, Hom., LV, P. L., t. LVII, col. 356, o Senhor Jesus foi oferecido figurativamente por Abraão, quando este piedoso parricida substituiu seu filho único que ele ia imolar, pelo carneiro embaraçado nos espinhos. Aos olhos de São Paulino de Nola, Epist., XXX, P. L., t. LXI, col. 318, a substituição do carneiro por Isaac anunciava o mistério que devia se cumprir no Cristo, sendo este o cordeiro que devia ser imolado para a salvação do mundo. Santo Isidoro de Sevilha, Allegoriae, n. 20, P. L., t. LXXXIII, col. 104, reconheceu em Abraão o tipo de Deus Pai que entregou seu filho à imolação para salvar os homens. Rabano Mauro, Comment. in Genes., II, P. L., t. CV, col. 568-569, desenvolveu a mesma ideia. Abraão representa Deus Pai; Isaac, Jesus Cristo; os dois escravos, os Judeus, cujos sentimentos carnais e servis não lhes permitiam compreender a humildade de Cristo e que não foram ao local do sacrifício, porque não entendiam nada da paixão. Eles eram dois para figurar as duas frações do povo, Israel e Judá. O asno significava a loucura insensata dos Judeus, que carregavam os mistérios sem compreendê-los. Seu afastamento do local do sacrifício indica sua cegueira; eles só virão depois que os povos pagãos o tiverem adorado. Os três dias da viagem representam as três idades do mundo, antes da lei, sob a lei, sob a graça. O sacrifício foi cumprido na terceira idade, sob a graça. Isaac é o Cristo. Por que o carneiro lhe foi substituído? Porque o Cristo é uma ovelha, o cordeiro de Deus, filho pela origem divina, carneiro pela imolação. O carneiro, retido pelos chifres nos espinhos, figurava Jesus crucificado pelos Judeus e coroado de espinhos. Para São Bruno de Asti, Expositio in Genes., P. L., t. CLXIV, col. 199, Abraão representa alegoricamente Deus Pai; Isaac, Jesus obediente a seu Pai até a morte de cruz; o altar, a cruz; o carneiro, a carne de Cristo. O Cristo, que é ao mesmo tempo Deus e homem, é impassível e imortal como Deus; ele é passível e mortal como homem. Sobre a cruz, apenas a carne de Cristo é crucificada. O carneiro, cujos chifres estão embaraçados nos espinhos, representa Jesus coroado de espinhos. O abade Ruperto, De Trinitate et operibus ejus, In Genes., VI, 30, 31, P. L., t. CLXVII, col. 428-430, expõe um pouco diferentemente as mesmas ideias. Notemos apenas as particularidades da exposição. Os dois servos que acompanham Abraão são os dois Testamentos que celebram de comum acordo a paixão de Jesus.

Na hora da crucificação, as Escrituras calam-se para não retardar o suplício da cruz, tão útil ao gênero humano. O fogo é o Espírito Santo pelo qual o Filho de Deus ofereceu a si mesmo; o gládio não é somente a morte, mas também a potência imperial. Abraão portava-o, porque não esteve na potência dos judeus fazer morrer Jesus Cristo; é Deus o Pai quem fixou o lugar, o tempo e o gênero de morte de seu Filho. Deus ligou seu Filho sobre o altar do sacrifício, não por um laço frágil, mas pelo preceito do amor, para que ele não afastasse com desdém o cálice da paixão. Cf. Rupert, De glorificatione Trinitatis et processione S. Spiritus, V, 5, P. L., t. CLXIX, col. 101, e Allegoriae in Vetus Testamentum, atribuído a Hugues de Saint-Victor, 6, 7, P. L., t. CLXXV, col. 647. 3° A liturgia romana aproximou o sacrifício de Abraão do sacrifício eucarístico. Em um prefácio do Sacramentaire léonien, P. L., t. LV, col. 148, o sacerdote cantava: «Abraão celebrou a figura da hóstia de louvor que nós imolamos a Deus todos os dias.» No cânone da missa, suplicamos ao Senhor que acolha favoravelmente o sacrifício que lhe oferecemos, como teve por agradáveis os sacrifícios de Abel, de Abraão e de Melquisedeque. Na missa do santíssimo sacramento, na prosa Lauda Sion, São Tomás nos faz cantar da eucaristia: In figuris praesignatur, cum Isaac immolatur.

4° A arte cristã vem completar o testemunho da liturgia e dos Padres e, na esteira da tradição patrística, podemos invocar em favor do caráter figurativo do sacrifício de Abraão uma tradição monumental antiga e contínua. As pinturas das catacumbas representam esse sacrifício como figura da eucaristia. No cubiculum A’ da primeira área do cemitério de Calliste, que foi construído antes do fim do século III, Abraão está pintado no momento em que vai imolar Isaac (fig. 2). O pai e o filho estão ambos em oração, os braços estendidos para o céu na atitude própria aos orantes. O carneiro mesmo eleva sua cabeça, como para se oferecer. Um feixe de lenha, apoiado contra uma árvore, lembra as circunstâncias históricas do sacrifício e não permite duvidar do significado da cena. Becker, Die Darstellung Jesu Christi unter dem Bilde des Fisches, Breslau, 1866, p. 118, pretendeu que ela representava o sacrifício sangrento de Jesus na cruz, sacrifício oferecido por Deus o Pai. Mas seu lugar no meio dos cubicula ditos dos sacramentos e ao lado de outros símbolos da eucaristia, obriga a reconhecer uma representação figurada do sacrifício não sangrento. Ela faz, com efeito, par com a pintura do sacerdote consagrando sobre o altar, «cumprindo o ofício de Cristo, diz São Cipriano, Epist., lxiii, n. 14, P. L., t. iv, col. 386, imitando o que Cristo fez, oferecendo um verdadeiro e perfeito sacrifício em nome da Igreja a Deus o Pai.» G. B. De Rossi, La Roma sotterranea cristiana, Roma, 1867, t. iii, p. 342-343. Cf. P. Allard, Rome souterraine, 2e édit., Paris, 1877, p. 386-387, 396-397. No hipogeu anônimo que é contíguo ao cemitério de Soteris, reencontraram-se os restos de uma pintura do sacrifício de Isaac, do século IV. Abraão mantém a mão esquerda sobre a cabeça de Isaac, nu e de joelhos; a mão direita levantava sem dúvida o gládio para golpear. Vê-se o carneiro à direita, e à esquerda uma pira acesa. De Rossi, op. cit., 1877, t. iii, p. 346, e tav. xvi, n. 5. Vestígios de uma outra pintura do cemitério de Generosa deixam reconhecer uma outra representação do mesmo sacrifício. Vê-se ainda um cordeiro e um homem vestido com uma túnica. As letras ABRAHAM indicam parcialmente o nome do personagem. De Rossi, ibid., p. 669. O abade Martigny, Dictionnaire des antiquités chrétiennes, 2e édit., Paris, 1877, p. 4-6, descreveu ou reproduziu um certo número de representações desse sacrifício. No segundo concílio de Niceia, realizado em 787, citou-se na quarta sessão, Mansi, Concil., Florença, 1767, t. xii, col. 40, uma passagem de um sermão de São Gregório de Nissa, De deitate Filii et Spiritus Sancti, P. G., t. xlvi, col. 572. O santo bispo conta ter lançado muito frequentemente os olhos sobre uma imagem, que o fazia sempre verter lágrimas. Via-se nela Isaac de joelhos sobre o altar e as mãos ligadas atrás das costas. Abraão, de pé atrás de seu filho, pousava sua mão esquerda sobre a cabeça de Isaac e dirigia contra a vítima a ponta do gládio que ele segurava com a mão direita. Essa citação, feita como se reportando a uma imagem da paixão de Jesus, serviu para refutar os iconoclastas. O mesmo assunto era representado em alguns antigos mosaicos e sobre azulejos de terracota. Um desses tijolos foi encontrado em 1893 nas ruínas de uma basílica em Hoadjeb-el-Aisun. M. Le Blant acredita poder atribuí-lo a uma época vizinha do século VI. Ver Bulletin épigraphique, 1893, t. xiii, p. 399.

Um dos medalhões da patena de vidro, encontrada em Colônia em 1864 e conservada no Vaticano, reproduz o sacrifício de Abraão. P. Allard, Rome souterraine, p. 422. Sobre estes objetos diversos, bem como sobre o sarcófago de Junius Bassus e sobre aquele que é guardado na basílica de Santa Maria Maior, estas representações fazem parte de um ciclo simbólico de assuntos bíblicos. Elas figuram ordinariamente o Cristo que se oferece a si mesmo em holocausto no Calvário. Contudo, nos mosaicos de São Vital de Ravena, que são do século VI, assim como sobre diferentes objetos de uma época posterior, elas estão unidas aos sacrifícios de Abel e de Melquisedeque e simbolizam manifestamente o sacrifício eucarístico. Grimouard de Saint-Laurent, Guide de l’art chrétien, Paris, 1874, t. iv, p. 30-31, 53-55. Nos vitrais da Idade Média, o simbolismo do sacrifício de Abraão é indicado por este verso latino: Signantem Christum puerum pater immolat istum. Uma placa nielada do século XII recorda que o carneiro representa a humanidade do Salvador: Hoc aries præfert quod homo Deus hostia defert. X. Barbier de Montault, Traité d’iconographie chrétienne, Paris, 1890, t. ii, p. 54, 91, 96. Cf. Dictionnaire d’archéologie chrétienne, t. i, col. 411-419. É assim que se transmitiu até nós, pela palavra e pela imagem, o ensinamento do duplo significado místico do sacrifício de Abraão, que representa ao mesmo tempo o sacrifício sangrento de Jesus Cristo na cruz e sua oblação não sangrenta na eucaristia. Cf. card. Meignan, L’Ancien Testament dans ses rapports avec le Nouveau. De l’Eden à Moïse, Paris, 1895, p. 341-350.



Autor original: E. MANGENOT


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