
I. Texto e tradução. II. Histórico. III. Interpretação. IV. Importância.
I. TEXTO E TRADUÇÃO. — Eis primeiramente o texto, no qual imprimimos em letras maiúsculas as partes das quais temos o original mesmo sobre o mármore.
ΕΚΛΕΚΤΗΣ ΠΟΛΕΩΣ Ο ΠΟΛΙΤΗΣ ΤΟΥΤ’ ΕΠΟΙΗΣΑ
ΖΩΝ ΙΝ’ ΕΧΩ ΠΑΤΡΑΣ ΣΩΜΑΤΟΣ ΕΝΘΑ ΘΕΣΙΝ
ΟΥΝΟΜ’ ΑΒΕΡΚΙΟΣ ΩΝ Ο ΜΑΘΗΤΗΣ ΠΟΙΜΕΝΟΣ ΑΓΝΟΥ
ΟΣ ΒΟΣΚΕΙ ΠΡΟΒΑΤΩΝ ΑΓΕΛΑΣ ΟΡΕΩΝ ΠΕΔΙΟΙΣ ΤΕ
ΟΦΘΑΛΜΟΥΣ ΜΕΓΑΛΟΥΣ ΕΧΕΙ ΠΑΝΤ’ ΕΠΟΡΩΝ
ΟΥΤΟΣ ΓΑΡ Μ’ ΕΔΙΔΑΞΕ... ΓΡΑΜΜΑΤΑ ΠΙΣΤΑ
ΕΙΣ ΡΩΜΗΝ ΟΣ ΕΠΕΜΨΕΝ ΕΜΕΝ ΒΑΣΙΛΕΙΑΝ ΑΘΡΗΣΑΙ
ΚΑΙ ΒΑΣΙΛΙΣΣΑΝ ΙΔΕΙΝ ΧΡΥΣΟΣΤΟΛΟΝ ΧΡΥΣΟΠΕΔΙΛΟΝ
ΛΑΟΝ Δ’ ΕΙΔΟΝ ΕΚΕΙ ΛΑΜΠΡΑΝ ΣΦΡΑΓΙΔ’ ΕΧΟΝΤΑ
ΚΑΙ ΣΥΡΗΝ ΠΕΔΟΝ ΕΙΔΟΝ ΚΑΙ ΑΣΤΕΑ ΠΑΝΤΑ ΣΥΡΙΗΝ
ΕΥΦΡΑΤΗΝ ΔΙΑΒΑΣ ΠΑΝΤΗ Δ’ ΕΣΧΟΝ ΣΥΝΟ-
ΠΑΥΛΟΝ ΕΧΩΝ ΕΠΙ... ΠΙΣΤΙΣ ΠΑΝΤΗ ΔΕ ΠΡΟΗΓΕ
ΚΑΙ ΠΑΡΕΘΗΚΕ ΤΡΟΦΗΝ ΠΑΝΤΗ ΙΧΘΥΝ ΑΠΟ
ΠΑΝΜΕΓΕΘΗ ΚΑΘΑΡΟΝ ΟΝ ΕΔΡΑΞΑΤΟ ΠΑΡΘΕ-
ΝΟΣ ΑΓΝΗ
ΚΑΙ ΤΟΥΤΟΝ ΕΠΕΔΩΚΕ ΦΙΛΟΙΣ ΕΣΘΙΕΙΝ ΔΙΑ ΠΑΝΤΟΣ
ΟΙΝΟΝ ΧΡΗΣΤΟΝ ΕΧΟΥΣΑΝ ΚΕΡΑΣΜΑ ΔΙΔΟΥΣΑ ΜΕΤ’ ΑΡΤΟΥ
ΤΑΥΤ’ ΑΒΕΡΚΙΟΣ ΩΔΕ ΘΕΟΙΣ ΕΓΡΑΨΑΝ
ΕΒΔΟΜΗΚΟΣΤΩ ΕΤΕΙ ΚΑΙ ΔΕΥΤΕΡΩ ΗΓΟΝ ΑΛΗΘΩΣ
Ο ΔΕ ΝΟΩΝ ΕΥΞΑΤ’ ΥΠΕΡ ΑΒΕΡΚΙΟΥ ΠΑΣ Ο ΣΥΝΩΔΟΣ
ΟΥ ΜΕΝΤΟΙ ΤΥΜΒΩ ΤΙΣ ΕΜΩ ΕΤΕΡΑΝ ΤΙΝΑ ΘΗΣΕΙ
ΕΙ Δ’ ΟΥΝ ΡΩΜΑΙΩΝ ΤΑΜΕΙΩ ΘΗΣΕΙ ΔΙΣΧΙΛΙΑ ΧΡΥΣΑ
ΚΑΙ ΧΡΗΣΤΗ ΠΑΤΡΙΔΙ ΙΕΡΟΠΟΛΕΙ ΧΙΛΙΑ ΧΡΥΣΑ.
Tradução:
Cidadão de uma cidade distinta, fiz este túmulo enquanto vivo, a fim de ter ali um dia um lugar para meu corpo; meu nome é Abercio; sou o discípulo de um pastor puro, que apascenta seus rebanhos de ovelhas por montes e planícies, que tem olhos muito grandes que veem tudo. É ele quem me ensinou as escrituras fiéis, quem me enviou a Roma para contemplar a cidade soberana e ver a rainha de vestes de ouro, de sapatos de ouro. Vi lá um povo que porta um selo brilhante. Vi também a planície da Síria, e todas as cidades, e Nísibis para além do Eufrates. Por toda parte tive confrades, tinha Paulo por... E a fé por toda parte me conduzia. Por toda parte ela me serviu um peixe de fonte, muito grande, puro, que pescou uma virgem pura. Ela o dava sem cessar a comer aos amigos, ela tem um vinho delicioso, ela o dá com o pão. Abercio, ordenei escrever estas coisas aqui na idade de setenta e dois anos verdadeiramente. Que o confrade que entende reze por Abercio. Não se deve colocar um túmulo sobre o meu: senão duas mil moedas de ouro de multa para o fisco romano, mil para minha querida pátria Hierápolis.
II. HISTÓRICO. — Tillemont expressa-se assim a respeito de São Abercio: “O nome de São Abercio é célebre entre os gregos, que lhe fazem um ofício solene no dia 22 de outubro. Os latinos não o conheceram, e seu nome não se encontra de modo algum nos antigos martirológios. Barônio colocou-o no romano no mesmo dia em que os gregos o fazem. Diz ter tido em mãos uma carta deste santo a M. Aurélio, traduzida do grego, e cheia de um espírito apostólico. Promete dá-la em seus Anais; mas em vez de fazê-lo, queixa-se de que ela lhe escapou das mãos, e que não a pôde reencontrar.” *Mém. hist. eccl.*, Paris, 1701, t. I, p. 299. E mais adiante, p. 621, o mesmo crítico lembrando que Barônio assegura que se deslizaram na vida grega de Abercio várias coisas que não se poderia aprovar: “Poderia bem, diz ele, ter tido particularmente em vista o epitáfio que se pretende que o santo ditou ele mesmo. Pois é bastante estranho que um santo bispo, com setenta e dois anos e perto de morrer, que nos descrevem como um homem totalmente apostólico, ordene gravar em seu túmulo que ele foi enviado a Roma para ver palácios, uma imperatriz toda coberta de ouro até seus sapatos, e um povo adornado com anéis magníficos; que ele defenda enterrar alguém acima dele; e que ele ordene que quem o fizer, pagará duas mil peças de ouro ao tesouro imperial, e mil à cidade de Hierápolis. Estes não são os pensamentos ordinários dos santos quando se preparam para a morte.” Se reproduzimos estas linhas de Tillemont, não é pelo fácil jogo de zombar da crítica interna, mas para notar que os críticos eclesiásticos, no estudo do epitáfio de Abercio, tiveram por primeiro sentimento a desconfiança.
Dom Pitra foi o primeiro a julgar bem o valor deste epitáfio, que De Rossi qualificaria mais tarde de epigramma dignitate et pretio inter christiana facile princeps. Boissonade, Anecd. græc., Paris, 1833, t. V, tinha publicado o texto grego da Vita Abercii. Dom Pitra passou além dos escrúpulos jansenistas de Tillemont como um sábio que, como se disse, encontrava no epitáfio da Vita “um sabor de simbolismo primitivo desconhecido aos apócrifos”; ele isolou-o da prosa, onde estava encerrado, e não teve dificuldade em descobrir um texto métrico que não estava sem analogias surpreendentes com a inscrição de Pectorius de Autun; ele publicou-o em seu Spicilegium Solesmense, Paris, 1855, t. II, p. 533. Os bolandistas, em 1858, no t. VII dos Acta sanctorum de outubro, p. 515-519, reeditaram o texto grego da vida de Abercio e comentaram o epitáfio no mesmo sentido que dom Pitra. O autor da Vida grega não teria tido força para inventar de toda a peça o epitáfio métrico de seu santo. Não se pode mesmo duvidar que ele tenha tido uma inscrição real diante dos olhos quando escreve (n. 40): “Abercio preparou seu túmulo, uma pedra quadrangular de altura igual à largura, e sobre esta pedra o altar... sobre o qual ele gravou o epitáfio que aqui vai.” Renan, que não acreditava poder dar direito a uma menção a este epitáfio, limitava-se a notar que os “atos fabulosos” de Abercio pareciam ter sido fabricados sob a visão de epitáfios de Hierápolis. Orig. du christ., 1879, t. VI, p. 432.
Três anos mais tarde, uma primeira descoberta epigráfica trazia um primeiro controle em favor de nosso epitáfio. O Sr. Ramsay, explorando um pequeno cantão da Frígia, o vale de Sandukly, encontrava ali os restos de três cidades antigas, das quais a segunda era conhecida na história do montanismo, Brouzos, Otrous, Hierápolis; e no pequeno vilarejo de Keleudres, sobre uma coluna de pedra diante da mesquita, ele levantava uma inscrição grega métrica, da qual eis o texto e a tradução:
[Ε]ΚΛΕΚΤΗΣ ΠΟ[ΛΕ]ΩΣ Ο ΠΟΛΙΤ[ΗΣ Τ]ΟΥΤ’ ΕΠΟΙΗΣΑ
ΖΩΝ ΙΝ’ ΕΧΩ ΦΑΝΕΡ[ΩΣ] ΣΩΜΑΤΟΣ ΕΝΘΑ ΘΕΣΙΝ.
ΟΥΝΟΜ’ ΑΛΕΞΑΝΔΡΟΣ ΑΝΤ[ΩΝ]ΙΟΥ ΜΑΘΗΤΗΣ ΠΟΙΜΕΝΟΣ ΑΓΝΟΥ
ΟΥ ΜΕΝΤΟΙ ΤΥΜΒΩ ΤΩ ΕΜΩ ΕΤΕΡΑΝ ΤΙΝΑ ΘΗΣΕΙ
ΕΙ Δ’ ΟΥΝ ΡΩΜΑΙΩΝ ΤΑΜΕΙΩ ΘΗΣΕΙ ΔΙΣΧΙΛΙΑ [ΧΡΥΣΑ]
ΗΟ [ΚΛΗΣΤΗ] ΠΑΤΡΙΔΙ ΙΕΡΟΠΟΛΕΙ [ΧΙΛΙΑ ΧΡΥΣΑ]
ΕΓΡΑΨΕΝ ΕΡΩΤΙΚΩΣ ΖΩΝΤΟΣ ΕΜΟΥ.
ΣΙΩΝΗ ΠΑΡΑΓΟΥΣΑ ΚΑΙ ΜΗ [ΠΡΟΣ]ΕΧΟΥΣΙΝ ΤΕ Α[Ρ]ΑΝ.