ABBADIE Jacques

Verbete sobre ABBADIE Jacques na Enciclopédia Católica

Jacques Abbadie nasceu por volta de 1654, na pequena cidade de Nay (Béarn). Jean de la Placette, ministro da religião reformada, foi seu primeiro mestre. Ele estudou sucessivamente nas escolas protestantes de Puylaurens, de Saumur e finalmente de Sedan onde, ainda muito jovem, obteve o grau de doutor em teologia. Alguns anos mais tarde, a pedido do conde de Espence, que representava em Paris o eleitor de Brandemburgo, Frederico-Guilherme, ele dirigiu-se a Berlim e assumiu a direção espiritual dos calvinistas franceses refugiados nesta cidade (1680). Com a morte de Frederico-Guilherme, ele seguiu para a Inglaterra e para a Irlanda com o marechal de Schomberg. Tendo este último sido morto na batalha do Boyne (1690), Abbadie veio para Londres, foi nomeado pregador dos reformados franceses e, depois, deão de Killalow, na Irlanda. Ele faleceu em 2 de outubro de 1727, em Sainte-Marie-le-Bone, pequena paróquia então distinta de Londres e agora reunida a esta cidade.

De todas as obras de Abbadie, a mais importante é o Traité de la vérité de la religion chrétienne (Tratado da verdade da religião cristã), 2 vol. in-8°, Roterdã, 1684. Uma nova edição, aumentada com vários capítulos, apareceu em Roterdã em 1688, em 2 vol. in-12; ela foi seguida de muitas outras durante o século XVIII. Em 1826, Lacéte, vigário geral de Dijon, reeditou esta obra com notas explicativas e críticas. Este tratado foi traduzido para o inglês por Lambert, bispo de Dromore (Londres, 1694), e para o alemão por Billelbeck (Frankfurt, 1712, e Leipzig, 1721). Abbadie indica ele mesmo, em seu prefácio, o plano de sua apologia. A demonstração compreende duas partes: na primeira, desce-se desta proposição: há um Deus, até esta: Jesus, Filho de Maria, é o Messias prometido. Ele estabelece sucessivamente a existência de Deus, a existência da religião natural, a necessidade de uma revelação, a origem divina da religião mosaica e da religião cristã. Na segunda parte, sobe-se desta proposição: há cristãos no mundo, até esta: há um Deus, pois o cristianismo vem de Deus; o testemunho dos mártires e dos apóstolos, os fatos certos relatados no Novo Testamento e a excelência desta religião são a prova certa disso.

O Traité de la divinité de Notre-Seigneur Jésus-Christ (Tratado da divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo), in-12, Roterdã, 1689, sucede ao precedente; nas edições posteriores, ele é juntado a ele e torna-se a terceira parte (edição Lacéte, Dijon, 1826). É uma espécie de demonstração pelo absurdo cujos principais pontos são: se Cristo não é Deus, ele é inferior a Maomé, é melhor ser muçulmano ou judeu do que cristão, Jesus e os apóstolos enganaram o mundo, não há mais nenhuma harmonia entre os dois Testamentos e nossa religião não passa de um amontoado de superstições ou de uma comédia.

Estes dois tratados são dirigidos contra os ateus e os incrédulos. Abbadie resume neles, felizmente, os trabalhos apologéticos do século XVII e do século XVIII. Sua argumentação simples e sólida é cheia de clareza e fineza; ele se destaca na exposição das provas morais do cristianismo. Todos estes méritos valeram ao seu livro um grande sucesso. Bayle, anunciando nas Nouvelles de la République des Lettres, no mês de outubro de 1684, o aparecimento do Traité sur la vérité de la religion chrétienne, fazia-lhe o maior elogio: “Há muito tempo, dizia ele, que não se fazia um livro onde houvesse mais força e mais extensão de espírito, mais grandes raciocínios e mais eloquência.”

Embora emanasse de um autor protestante, esta apologia foi bem acolhida na França. Aliás, sendo a demonstração dirigida contra os descrentes e não estando a religião reformada diretamente em causa, Abbadie não tinha de combater a Igreja romana. Por isso, ele se abstém em geral de atacá-la; todavia, caso necessário, ele não lhe poupa suas críticas. Contudo, mesmo fora de qualquer polêmica, as doutrinas de Abbadie não são absolutamente irrepreensíveis. Mais de uma vez, o apologista protestante se separa dos teólogos católicos, seja porque não admite ou expõe apenas uma parte de seu ensinamento, seja porque rejeita completamente suas ideias. Assim, quando ele estabelece, L. I, seç. II, c. VI, a necessidade de uma revelação, ele afirma simplesmente que a revelação é indispensável para reparar a religião natural corrompida pelo paganismo. Mas qual é esta necessidade? É física ou moral? É a mesma para todas as verdades manifestadas nos livros do Antigo e do Novo Testamento? Abbadie não precisa. Ele não compreendeu o verdadeiro papel da inteligência humana em relação às verdades reveladas. Segundo ele, “a fé e a razão, a teologia e a filosofia diferem essencialmente em que uma percebe seu objeto sem tomar a tarefa de penetrar sua maneira e consiste mesmo nesta submissão que a impede de levar sua vista mais longe; ao passo que a outra busca conhecer as coisas, a maneira e as causas físicas das coisas”... O teólogo não deveria de forma alguma buscar captar o como das coisas divinas; ele deveria contentar-se em saber que elas existem. Os esforços tentados pelos doutores da Igreja e sobretudo pelos escolásticos para chegar a uma inteligência mais profunda dos mistérios da Trindade, da Encarnação, da graça, da predestinação, não passam de uma tentativa orgulhosa e estéril. Abbadie desdenha a metafísica da Escola, opõe a metafísica dos apóstolos e declara que a abandona voluntariamente, 2ª parte, 4ª seç., c. IX; 2ª parte, 6ª seç., c. VIII. É aparentemente por estes motivos ou outros... muito semelhantes, que o Traité de la vérité de la religion chrétienne foi colocado no Index, em 5 de julho de 1695, e o Traité de la divinité de N.S., em 15 de maio de 1702.

As outras obras teológicas de Abbadie são as seguintes: Réflexions sur la présence réelle du corps de Jésus-Christ dans l’eucharistie (Reflexões sobre a presença real do corpo de Jesus Cristo na eucaristia), in-12, Haia, 1685, onde o autor combate a doutrina católica sobre a transubstanciação e adoração da santa eucaristia; Les caractères du chrétien et du christianisme (Os caracteres do cristão e do cristianismo), in-12, Haia, 1686; L’art de se connaître soi-même ou la recherche des sources de la morale (A arte de conhecer-se a si mesmo ou a busca das fontes da moral), in-12, Roterdã, 1692. Numa edição de Lyon, in-12, 1693, o Dr. Cohade suprimiu algumas passagens favoráveis aos calvinistas; La vérité de la religion chrétienne réformée (A verdade da religião cristã reformada), 2 in-8°, Roterdã, 1718; L’ouverture des sept sceaux par le Fils de Dieu ou le triomphe de la croix et de la religion (A abertura dos sete selos pelo Filho de Deus ou o triunfo da cruz e da religião), in-12, Amsterdã, 1721.

Niceron, Mémoires pour servir à l’histoire des hommes illustres, Paris, 1727, t. xxxiii; Haag, La France protestante, Paris, 1848, t. I; Moreri, Dictionnaire; Biographies universelles de Feller, de Michaud e de Hoefer; Lichtenberger, Encyclopédie des sciences religieuses, Paris, 1877, t. I, art. Abbadie.
V. OBLET.




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