NAHUM. — Um dos doze profetas menores.
I. O profeta. — II. O livro (col. 9).
I. O profeta. 1° Seu nome e sua personalidade. Este nome de Naum em hebraico e de Ναούμ no grego dos Setenta não aparece, no Antigo Testamento, senão no título do sétimo dos profetas menores. Significa aquele que fortalece, que reconforta: De consolator, diz São Jerônimo. Esta perfeita conveniência do nome do profeta com o conteúdo da profecia, que anuncia a Judá a ruína de seu mais temível inimigo, não resulta, como por vezes se sugeriu, de que este nome tivesse sido imaginado e acrescentado por um redator tardio ao oráculo sobre Nínive.
A exatidão do título da profecia é aliás geralmente admitida; sua primeira parte, Oráculo sobre Nínive, correspondendo bem ao assunto do livro, e a segunda, Livro da visão de Naum de Elqosch, supondo, à falta de autenticidade, uma antiga tradição.
Fora da informação muito breve deste título e dos dados que se podem extrair do próprio livro, o Antigo Testamento não fornece nenhuma informação para reconstituir a personalidade do profeta. Tudo o que se pôde acrescentar a estes poucos dados é de origem tardia e de pouco valor.
Segundo o conteúdo certamente autêntico do livro, isto é, a maior parte dos c. ii-iii, o autor do oráculo sobre Nínive aparece como um patriota ardente, entusiasta, transbordando de uma alegria exuberante ao pensamento da ruína próxima e irremediável do antigo adversário de Judá. A opressão e o rebaixamento que seu povo sofrera havia gerações tinham azedado sua alma; o contínuo espetáculo dos sofrimentos que a tirania dos senhores assírios infligia a Israel fora uma dura prova para sua fé na bondade e no poder de Javé.
Mas agora tudo vai mudar; ao desânimo que arriscava afundar-se no desespero vai suceder uma veemente indignação contra o antigo inimigo, e um verdadeiro canto de triunfo à perspectiva de uma revanche retumbante.
Tais acentos, disse-se, recordam apenas de longe os de Sofonias ou de Jeremias, contemporâneos do vate de Elqosch; não fazem dele, no entanto, seu adversário, tido por um profetismo estreito e superficial, desprovido daquele ideal moral que propunham e defendiam os profetas do século VII e do século VIII. É demasiado pouco, com efeito, um oráculo tão curto e com um objeto bem determinado para julgar a atitude geral de Naum e opô-lo a seus contemporâneos, cujas obras também não faltam, de resto, em sombrias predições dirigidas aos inimigos de Israel e de Judá.
2° Sua origem. A qualificação de elqoschita, Ἐλχεσαῖος, junta ao nome de Naum, é habitualmente considerada como a indicação de seu lugar de origem. Alguns, segundo São Jerônimo, pretendiam sim reconhecer nela o nome do pai do profeta, mas não era essa a opinião deste; ele via nela a menção da pátria de Naum. Cf. Commentariorum in Naum prophetam liber unus, Prologus. P. L., t. xxv, col. 1232. Assim o entenderam igualmente a maioria dos modernos.
Mas onde estava situada Elqosch? Nenhuma menção se faz a ela em outro lugar na Bíblia. Para nos informar a seu respeito, não existem praticamente senão tradições de origem recente, em sua maioria. Assim, a identificação da pátria de Naum permanece incerta e objeto de discussão entre os comentadores.
Saint Jérôme escreve em seu comentário: Elcesi quidem et : usque hodie in Galilaea viculus..., parvus vix ruinis veterum ædificiorum indicans vestigia; sed tamen notus Judæis et mihi quoque a circumducente monstratus. Ibid.
Apesar do número respeitável de seus partidários (Kuenen, Wildeboer, Driver, Cornely, Crampon), esta opinião dificilmente pode ser aceita. É, com efeito, pouco provável, embora não impossível, que na época da composição do livro, no século VII, portanto bastante tempo depois da destruição do reino do Norte, tivesse nascido um profeta hebreu na Galileia. Os fariseus do tempo de Nosso Senhor sem dúvida também não o pensavam, eles que respondiam a Nicodemos: «Examina com cuidado e verás que não sai profeta da Galileia.» Jo., vii, 52.
Uma outra opinião, cuja tradição não remonta além do século XVI (cf. Assémani, Bibliotheca orientalis, t. i, p. 525; t. iii, p. 352) e que no entanto encontrou partidários até os nossos dias (Ewald, Kleinert, Lehmann-Haupt), propõe a identificação do lugar de origem de Naum com Al-Kûsh, situada a cerca de vinte e cinco milhas ao norte de Mossul. Assim o profeta teria nascido na Assíria, não longe da cidade contra a qual fulmina seu oráculo; descenderia de uma dessas famílias israelitas deportadas por Tiglate-Falasar ou Sargão depois da queda do reino de Samaria; a precisão e a exatidão dos detalhes da descrição que ele dá da capital assíria, o emprego de palavras aramaicas, e até mesmo assírias, confirmariam essa tradição (Ewald).
Não é de modo algum necessário admitir essa hipótese, que sua própria novidade basta para tornar suspeita, para dar razão daquilo que Naum sabe sobre Nínive. O que ele diz a respeito, com efeito, não excede o que se podia ter aprendido na Palestina, depois de tantos anos de relações frequentes com os invasores assírios. Tudo o que dizia respeito à Assíria era, havia mais de um século, do mais alto interesse para os dirigentes de Judá. A visão dos exércitos assírios não era um acontecimento extraordinário na Síria, e um vaivém incessante existia entre Jerusalém e Nínive; assim, nada de surpreendente que o essencial da construção e da defesa da capital assíria não tenha sido ignorado pelos chefes de Judá.
Uma última indicação, enfim, mais digna de atenção, é-nos sugerida pelo próprio livro, cujo tom geral e as alusões, plenas de simpatia por Judá, nos convidam a considerar seu autor como um habitante do Reino do Sul, tanto mais que não se encontra nenhuma alusão às esperanças que um acontecimento como a queda de Nínive certamente deveria ter feito nascer no coração de um israelita do Reino do Norte ou de um exilado.
É por isso que a identificação de Elqosch com o bir El-Qaus, na vizinhança de Beth-Gibrin, a antiga Eleutherópolis — identificação já atestada por um texto do De vitis prophetarum, falsamente atribuído a Santo Epifânio, P. G., t. xliii, col. 409 — poderia ser aceita, à falta de outra melhor estabelecida. Nestlé, Strack, Nowack, van Hoonacker, J. M. P. Smith e outros ainda a admitem. Assim, em sentido amplo, Naum seria um compatriota de Miqueias de Moreset.
Pode-se acrescentar às hipóteses acima mencionadas, mas simplesmente para registro, a opinião totalmente fantasiosa de Hitzig, que faz de Cafarnaum — a aldeia de Naum — a pátria do profeta.
3° Sua época. Mais importante e mais fácil de esclarecer é a questão da época em que vivia o profeta, e mais especialmente do momento exato da composição de seu livro. O oráculo de Naum nos dá, a este respeito, duas indicações preciosas: anuncia como muito próxima a ruína de Nínive, e, por outro lado, faz uma alusão muito explícita à ruína de No-Amon (Tebas) no Egito, iii, 8-10. Os anos que datam estes dois acontecimentos marcarão, pois, os limites extremos do tempo em que se deve situar o oráculo de Naum.
Para o primeiro destes acontecimentos, a data situada até estes últimos anos por volta do ano 606 antes de Cristo deve ser transferida para o ano 612. A Nova crônica babilônica de Nabopolassar, para os anos 616 a 609, publicada em 1923 por C. J. Gadd, informa-nos que Nínive, atacada simultaneamente pelos medos, os citas e os babilônios, foi tomada e arruinada em 612, portanto cinco ou seis anos mais cedo do que se acreditava até então. The fall of Nineveh, The newly discovered babylonian chronicle, n° 21901, in the British Museum, edited with transcription, translation..., Londres, 1923.
É, pois, antes desta data de 612 que se deve situar o oráculo sobre Nínive, pois não se poderia seriamente pretender que ele tivesse sido composto depois do fato. Se a visão profética tem por vezes o aspecto do relato de um acontecimento já ocorrido, particularmente na descrição do assalto dado a Nínive e de sua conquista, c. ii, é manifesto que temos diante de nós uma predição da queda e da destruição da capital assíria; cf. sobretudo iii, 11. Sabe-se que essa destruição foi tão completa que, dois séculos mais tarde, Xenofonte, na retirada dos dez mil, atravessou o país sem mesmo registrar o nome da antiga metrópole desaparecida.
Para determinar a data do segundo acontecimento, importa saber primeiro qual é a cidade designada pela palavra No-Amon, Naum, iii, 8, e precisar depois a que episódio de sua história se faz alusão, Naum, iii, 8-10. Os antigos interpretes viam em No-Amon a cidade que precedeu Alexandria, e São Jerônimo, em sua tradução, já a designa sob esse nome mais recente de Alexandria, mas tem o cuidado de advertir, em seu Comentário, que foi só muito mais tarde que a cidade recebeu esse nome de Alexandre Magno. Op. cit., P. L., t. xxv, col. 1260.
Hoje, com poucas exceções (Brugsch, Happel, Spiegelberg), o acordo fez-se entre os modernos sobre a identificação de No-Amon com Tebas, Διόσπολις ἡ μεγάλη, no Alto Egito. No-Amon é o nome religioso da cidade, a exata transcrição do egípcio que significa a cidade ou o domínio do deus Amon, principalmente honrado em Tebas; encontra-se ainda em outro lugar no Antigo Testamento sob a forma abreviada de No: Jer., xlvi, 25; Ez., xxx, 14, 15, 16; os Setenta traduzem Διόσπολις e a Vulgata Alexandria, mas é sempre de Tebas que se trata.
A única dificuldade que se pode opor a esta identificação é sugerida pela descrição da cidade. Assentada no meio dos rios, rodeada de águas, tendo o mar por muralha e as águas por parede, iii, 8, No-Amon se assemelha mais à Tebas do delta do que à do Alto Egito; mas a comparação com Nínive exige uma cidade pelo menos igual em poder, e não é esse o caso dessa cidade do delta, que não desempenhou nenhum papel importante na longa história do Egito.
A descrição, aliás, não é tão incompatível com a situação da capital do Alto Egito. Quando o Nilo transbordava, suas águas vinham bater nos muros da cidade de Tebas, e não era então de modo algum uma imagem forçada representar a cidade protegida pelo mar. A tomada de Mênfis, no século VIII (por volta de 721), recorda uma situação semelhante. Confiantes na proteção das águas, que atingiam quase o alto dos muros a leste da cidade, seus defensores tinham negligenciado reforçar a defesa desse lado; o inimigo ali aportou com sua frota e assim entrou na praça. V. Breasted, Ancient records of Egypt, ix, p. 411, 434; e History of Egypt, p. 513.
Não era apenas durante a inundação que as águas faziam uma muralha para a cidade; mesmo depois de seu recuo, os fossos que sem dúvida rodeavam a cidade permaneciam cheios, constituindo de fato uma defesa permanente, surpreendentemente semelhante à de Nínive. O emprego de tal modo de proteção das cidades no Egito remonta ao século XIX. Cf. J. M. P. Smith, W. A. Ward, J. A. Bewer, Micah, Zephaniah, Nahum, Habakkuk, Obadiah and Joel, Edimburgo, 1912, p. 342.
Não é, de resto, o único exemplo em que a palavra mar é tomada no sentido de rio: assim, ainda para o Nilo, no livro de Isaías, xviii, 2(?); xix, 5; para o de Job, xiv, 11; e para o do Eufrates, no de Jeremias, li, 36.
Não haverá, enfim, que levar em conta a parte de exagero na descrição de Naum? Não tendo visto, muito provavelmente, a cidade de Tebas, ele depende, para sua informação, dos relatos de mercadores e de viajantes, que de bom grado dão lugar à imaginação. Cf. a descrição de Nínive em Jon., iii, 3.
O profeta entende, pois, falar realmente de Tebas, a primeira grande cidade do Oriente, a cidade das cem portas, Ilíada, ix, 381-383, cuja fama era grande em todo o mundo antigo e cujas ruínas, os mais imponentes vestígios recuperados da antiga civilização, atestam ainda hoje o esplendor.
Mas a que acontecimento ele alude? Até a descoberta das inscrições de Assurbanipal, a resposta podia permanecer incerta, alguns mesmo não queriam ver nos v. 8-10 do c. iii senão um acréscimo tardio (Hitzig): hoje, reconhece-se quase unanimemente que é da tomada de Tebas pelos exércitos vitoriosos dos Assírios em 663 que fala o vate de Elqosch. Seu oráculo situa-se assim entre os anos 663 e 612. Cf. Schrader, Keilinschriften und das Alte Testament, 2ª ed., p. 450 sq.; C. Laigicr, art. No-Amon em Vigouroux, Dictionnaire de la Bible, t. iv, col. 1651.
Tal não é, todavia, a opinião de Wellhausen, que observa que a lembrança da vitória dos Assírios sobre o Egito não era precisamente indicada para anunciar a ruína de Nínive. A resposta, com efeito, à pergunta do profeta dirigindo-se a Nínive: «Vales tu mais que Tebas?», era fácil, pois os exércitos de seu rei acabavam de triunfar sobre ela. Naum teria, pois, em vista um outro cerco mais recente, datando da segunda metade do século VII.
A conclusão não se impõe: a comparação entre as capitais dos dois poderosos impérios tem simplesmente por objetivo estabelecer a possibilidade da ruína de Nínive, e dissipar as ilusões de seus habitantes, lembrando que a mais poderosa das praças-fortes do Egito tinha ela própria sucumbido, a despeito de tudo o que parecia devê-la tornar inexpugnável.
Quanto à época precisa em que convém situar, entre estas duas datas extremas de 663 e 612, o oráculo de Naum, ela não é tão fácil de determinar com certeza. Por um lado, a lembrança da queda de Tebas é tão viva que o próprio acontecimento deve ser bastante recente; por outro lado, a queda de Nínive aparece tão iminente que deve ter se seguido de perto ao oráculo que a anunciava; a invasão da Assíria parece já coisa consumada. Naum, iii, 13.
Não se escapa à dificuldade aderindo à opinião de Hitzig, Winckler, König, segundo a qual se trataria aqui, não do fim do Império assírio, mas apenas da revolta de Samas-sum-ukin, irmão de Assurbanipal e rei de Babilônia, em 652. A situação, por ocasião desta revolta, está muito longe de corresponder àquela que visa o profeta Naum: nenhum traço de cisma no império assírio, o ataque vindo antes de um inimigo externo; sobretudo, em nenhum momento dessa revolta dos vassalos de Assurbanipal em 652, a situação de Nínive foi tão desesperada que pudesse motivar a expectativa confiante de sua destruição, tal como a proclama Naum; não se tratava então, aliás, de aniquilar a Assíria e sua capital, mas simplesmente de conquistar a independência e assegurar o domínio sobre todo o país.
Pensou-se ainda em outras circunstâncias mais recentes em que Nínive teria sido ameaçada; mas, ou a situação não corresponde à do oráculo (invasão dos citas), ou os testemunhos são insuficientes (campanha dos medos sob Fraortes, depois Ciáxares, segundo Heródoto). Resta, portanto, que é realmente a queda de Nínive, ocorrida em 612, que é visada na profecia de Naum. É a opinião hoje geralmente aceita pelos críticos como Nowack, van Hoonacker, Steuernagel, Smith, etc.
As circunstâncias que acompanharam o acontecimento levam a supor que o oráculo que o predizia não deve tê-lo antecedido de muito. Nos anos, com efeito, que o precederam, o prestígio da capital assíria desapareceu completamente, a ameaça de uma destruição imediata pesa sobre ela, o inimigo já está no país. Não é a um tal desenvolvimento da situação histórica, presságio do fim do domínio assírio, que melhor se compreende a composição do oráculo sobre Nínive? A lembrança, permanecida tão viva, da ruína de Tebas não contradiz isso.
Compreende-se sem dificuldade a imensa impressão que deve ter produzido a queda de uma das mais célebres metrópoles do Oriente, nos meios em que sua fama havia há muito se difundido. Em nenhuma parte o estupor foi maior do que nesse país de Judá, cujos políticos se haviam, para vivo desespero dos profetas, acostumado a olhar para o Egito como para o socorro supremo. Não há dúvida de que a lembrança da catástrofe foi duradoura.
Se a alusão de Naum prova que ele falou depois de 663, nada obriga a situar seu oráculo bem próximo dessa data; meio século não devia bastar para fazer esquecer o acontecimento colossal. O elqoshita, por outro lado, anuncia como muito próxima a ruína de Nínive... O caráter irreparável da catástrofe, descrita por Naum, convida a aproximar seu oráculo da ruína final. «O estado da Assíria, sua decadência no decurso dos últimos anos de Assurbanipal e sob os reinados de seus sucessores, constituem o meio e o contexto mais naturais para a maldição triunfal que anuncia o fim da terrível traficante dos povos.» J. Touzard, L'âme juive pendant la période persane, Revue biblique, 1017, p. 60-61.
Não há motivo para se demorar na refutação da hipótese de Happel e de Haupt, que situam Naum na época macabaica. Os argumentos invocados em seu favor não parecem muito convincentes. Se as diferenças, fáceis de apontar entre Naum e os profetas pré-exílicos, são certamente marcantes, elas não são tais, sobretudo quando reduzidas às justas proporções, que imponham a redação do oráculo à época pós-exílica e sobretudo macabaica.
Não se prova mais isso pretendendo que Nínive não é aqui senão um símbolo para designar o reino sírio de Antíoco Epifânio, cuja destruição os c. ii-iii prediriam. Esta interpretação, que faz do antigo inimigo de Israel, os Assírios, o tipo de seu inimigo mais recente, Antíoco Epifânio, está em oposição radical com as características do livro de Naum, pelo menos nos elementos cuja autenticidade não poderia ser seriamente contestada. Nenhum dos traços, com efeito, da profecia encontra sua aplicação na época dos Asmoneus, enquanto todos os seus elementos, ao contrário, se ajustam perfeitamente aos acontecimentos do último quarto do século VII.
«O que há a observar, diz com razão van Hoonacker, é que ela não põe em cena o próprio Javé como autor direto da ruína de Nínive, e que o interesse de Israel não é explicitamente destacado. Nada traduz melhor a ausência de especulação escatológica no profeta. Não só está escrito sob a impressão da situação histórica de que é testemunha, são os acontecimentos que se cumprem ou se preparam que absorvem toda a sua atenção e que ele descreve sem neles buscar um motivo para proclamar a exaltação do povo de Javé e seu futuro triunfo. É inútil insistir na diferença radical que oferece, a este respeito, a profecia de Naum, nos cap. ii-iii, com as de Joel, de Abdias, etc.» Les douze petits prophètes, Paris, 1908, p. 415.
II. O livro. 1° Análise. O título do livro, Oráculo sobre Nínive, indica bem o elemento essencial dos três capítulos que o compõem. Estes se agrupam em duas partes bem distintas, tanto por seu objeto quanto, sobretudo, por sua forma literária.
A primeira, c. i e v. 2 do c. ii (heb. i – ii, 1, 3), começa por uma descrição geral da justiça de Deus e de sua cólera vingadora, i, 2-20, e prossegue com o anúncio do castigo do inimigo ainda não nomeado e com promessas de livramento para Judá, i + ii, 1, 3. A segunda parte, ii, 3-iii (heb. ii, 4-iii), contém o oráculo propriamente dito contra Nínive, servindo o que precede de introdução.
Duas seções ou dois quadros para anunciar o próximo castigo de Nínive: primeiro ii, 1, 3-13: estes versículos fazem uma pintura muito viva do ataque contra Nínive e de sua devastação, da fuga de seus defensores e da pilhagem da cidade, ressaltando ironicamente o contraste entre a antiga tirania exercida pela poderosa Nínive e a aflição que vai atingi-la; em seguida o c. iii, que retoma a descrição da ruína da capital assíria, lembrando seus incontáveis crimes, causa de seu castigo, e sobretudo sua perfídia para com os outros povos, que por sua vez a desprezarão e a escarnecerão; que ela não se vanglorie de ser inexpugnável, pois, assim como Tebas, ela não é invencível; sua destruição será total, sob os aplausos de todas as nações.
— 2° Unidade e autenticidade. Este simples olhar sobre o livro de Naum revela a diferença muito clara entre o c. i e os dois seguintes. «Tanto quanto os quadros dos c. ii-iii nos retraçam situações concretas, contempladas ou pressentidas em sua viva realidade, tanto o discurso do c. i se limita a um desenvolvimento de ideias abstratas. Parece bem que, a partir do v. 11, Nínive seja visada; mas as acusações que lhe são imputadas e o tratamento com que é ameaçada ainda são concebidos sob fórmulas vagas e gerais que se aplicariam a qualquer inimigo de Israel. Chamou-se, com razão, a esta composição um salmo. O autor nela exalta o caráter temível e o poder de Javé, a quem nada resiste, que esmaga seus inimigos, que esmagará notadamente o inimigo visado, v. 11 sq., sem contemplação e de uma vez por todas.» Van Hoonacker, op. cit., p. 418-449.
Se a estas observações se acrescenta que o c. i, em sua forma primitiva, constituía um poema alfabético, ver abaixo, compreender-se-á que se tenha posto a questão da unidade e da autenticidade do oráculo sobre Nínive atribuído em seu conjunto a Naum. Esta questão foi levantada pela primeira vez por H. Gunkel em um artigo da Zeitschrift für die A. T. Wissenschaft, 1893, p. 233 sq. Nele afirma não somente a independência do c. i, já reconhecida por Berthold, mas também sua origem diferente. No que tem de essencial, a hipótese foi admitida por quase todos os comentadores na sequência.
Eis aqui os principais argumentos, primeiro para os v. 2-10, que convém distinguir de 11-15. Este primeiro grupo, sobretudo i, 2-10, revela uma época mais recente do que a de Naum: a forma acróstica é demasiado artificial para ter sido empregada por um profeta do vigor e da originalidade de Naum; o tom, na realidade o de um salmo, é demasiado diferente da linguagem profética, demasiado abstrato, demasiado teológico, para que se possa atribuir o capítulo à mesma mão que os dois seguintes, de aspecto tão vivo: um é a linguagem da reflexão, o outro a da paixão profética; o caráter indefinido e escatológico destes versículos, e sobretudo de 3b-7, distingue-se muito claramente daquele do oráculo autêntico dos c. ii-iii; este caráter sem dúvida se reencontra no livro de Sofonias, mas é para conduzir ao anúncio de acontecimentos históricos, enquanto aqui a teofania escatológica é sem desfecho prático e sem relação com a catástrofe final. Cf. J. M. P. Smith, op. cit., p. 268-269.
Estes argumentos não têm certamente igual valor; aquele, por exemplo, que se tira da forma alfabética está longe de ser decisivo, pois se encontra tal modo de composição poética em uma obra, as Lamentações, que não está muito distante da época de Naum. Nem por isso deixa de ser verdade que o conjunto dos argumentos invocados constitui uma objeção séria contra a autenticidade destes primeiros versículos do livro.
Mas por que, perguntar-se-á, tê-los acrescentado ao oráculo de Naum? A adição foi voluntária ou acidental? E, se ela é voluntária, como é provável, foi composta em uma época bastante recente para servir de introdução, ou foi antes utilizada por um redator que não teria notado sua forma acróstica? Tantas questões a que é difícil responder com certeza.
Quanto aos versículos 11-15 (heb., i, 11-14, ii, 1), aos quais é preciso juntar o v. 2 do c. ii, observou-se que uns, 11, 12, 14 do c. i e 1 do c. ii, têm por objeto Nínive ou a Assíria, enquanto os outros, 13, 15 do c. i e 2 do c. ii, têm por objeto Judá ou Sião; concluiu-se disso (Wellhausen e depois dele quase todos os comentadores) que a sequência do oráculo, representada por i, 11, 12, 14, ii, 1, 3, era interrompida por i, 13, 15, ii, 2, que, a despeito de sua unidade de tom e de ponto de vista, a saber, a expectativa plena de esperança do livramento de Judá, são considerados como glosas mais ou menos independentes, obra de um ou vários redatores cuja época só pode ser vagamente conjecturada: outros veem nisso um dos elementos constitutivos do salmo alfabético (Gunkel, Happel...) enquanto os versículos 11, 12 (?), 14, e 1 do c. ii seriam o começo do oráculo autêntico de Naum (Smith). Steuernagel encontra esse começo em i, 12: «Assim fala Javé»; van Hoonacker em i, 1, 3...
A estas conclusões, cujo caráter hipotético não é necessário sublinhar, acrescentemos esta simples observação sugerida pelo estudo de i, 11-ii, 3: toda esta parte do texto de Naum, onde se revela uma desordem tanto do ponto de vista da sequência das ideias quanto do próprio sentido das frases, deve ter sido fortemente remanejada.
A unidade e a autenticidade do resto do livro, ii, 3-iii, são geralmente admitidas e não poderiam, aliás, ser seriamente contestadas. «Pela estrita identidade de seu objeto e o encadeamento dos quadros aí retraçados, os cap. ii-iii mostram bastante claramente que formam uma composição literária de perfeita unidade. A igual vivacidade do estilo, que se mantém do começo ao fim, não faz senão confirmar esta apreciação; compare-se, por exemplo, sob este ponto de vista, as frases ii, 11 e iii, 2-3, igualmente caracterizadas pela maneira abrupta com que se sucedem os traços que as compõem; compare-se ainda iii, 14 e ii, 5, etc.» Van Hoonacker, op. cit., p. 413.
As teorias de Happel e de Haupt, de que já se tratou a propósito da época do profeta, reencontram-se aqui, igualmente opostas às da grande maioria dos críticos, sobre a unidade e a autenticidade do oráculo de Naum. Para Happel, estes três capítulos são tantos fragmentos independentes, obra de autores diferentes; as duas seções de que se compõe o c. i tendo sido, além disso, submetidas separadamente a um trabalho de reelaboração.
Para Haupt, o livro não é senão uma coleção liturgica de quatro poemas, os dois primeiros, i, 2-10; iii, 1-17; i, 11, 14; i, ii, 1; i, 12, 15; ii, 2, da época dos Macabeus; os dois últimos, iii, 8-15; ii, 3a-5, 8b, 6-8a, 9-12, dos 7 dias que precederam imediatamente a queda de Nínive. Tais opiniões, de alguns representantes de uma crítica desvairada, não poderiam ser consideradas, como justamente se observou, senão como estranhas à ciência exegética. Cf. Touzard, loc. cit., p. 59.
— 3° Texto. 1. Forma poética. Um dos argumentos contra a autenticidade do c. i, ver acima, é tirado de seu caráter de poema alfabético. O primeiro a quem se deve uma observação a este respeito é G. Frohnmayer, segundo Fz. Delitzsch, Biblischer Kommentar über die Psalmen, 5ª ed., Leipzig, 1894, p. 115. Depois dele, a forma poética deste c. de Naum foi objeto de numerosos trabalhos.
Em várias ocasiões, Bickell tentou reconstituir em sua integridade o poema alfabético que julgava completo nos v. 2-10. Cf. Zeitschrift der deutschen morgenländischen Gesellschaft, 1880, p. 559 sq.; Carmina Veteris Testamenti metrice, 1882; Zeitschrift für kathol. Theologie, 1886, p. 550 sq. A tentativa foi retomada por H. Gunkel, que reconhecia que o salmo primitivo compreendia todo o capítulo I (menos 11, 12, 15) e o v. 2 do c. ii. Zeitschrift für A. T. Wissenschaft, 1893, p. 223 sq. Mas, enquanto a sequência das letras do alfabeto hebraico se reencontra bastante facilmente até lamed ou mem, já não é o mesmo caso para a segunda parte do poema, fortemente perturbada ou remanejada.
Bickell, na sequência de Gunkel, retomou sua tentativa de reconstituição do poema em i-ii, 3. Das alphabetische Lied in Nahum, i-ii, 3, em Sitzungsberichte der philos.-hist. Classe der kais. Akademie der Wissenschaften, Viena, 1894, v. Abhandl.
A maioria dos críticos admite hoje a existência de um poema alfabético, c. i, de Naum; alguns, com Wellhausen, o restringem aos v. 2-8 ou 2-10; outros o estendem até o c. ii, mas considerando que toda tentativa de reconstituição além do v. 9 ou 10 é puramente conjectural: Gray, Kennedy, Driver, M. Smith (1906), Sievers, J. P. Sellin, que acrescenta i, 12. Van Hoonacker, em seu comentário, dá o texto hipotético do salmo acróstico por inteiro, reconhecendo também, ele mesmo, que se trata de pura hipótese, pelo menos no que diz respeito à segunda parte do trecho, a partir do dístico mem. Op. cit., p. 422-432. De fato, para chegar a isso, é obrigado a fazer sofrer ao texto tais violências que sua tentativa não poderia se impor.
O resto do livro, capítulos ii-iii, foi também estudado, mas muito menos, quanto à forma poética. Happel foi o primeiro, nos tempos modernos, a dispor todo o livro sob a forma de poema; Budde encontra o metro elegíaco nos capítulos ii e iii, Zeitschrift für A. T. Wissenschaft, 1882, p. 35 sq. Marti e Duhm, admitindo a existência desse mesmo metro, chegam a reconstituições estróficas diferentes.
J. M. P. Smith, em seu comentário, distingue três seções em i, 11-iii, 19: a primeira, que compreende apenas uma estrofe de 8 linhas, quase perfeita quanto ao ritmo elegíaco de 3+2 acentos, i, 13, 12, 15, ii, 2; a 2ª, composta de 5 estrofes, as 4 primeiras de 6 linhas, a última de apenas 3; a 3ª enfim com 6 estrofes de 8, 6, 6, 6, 8 e 4 linhas; se o metro elegíaco se reencontra aqui e ali, só se o pode pretender restabelecer de uma ponta a outra fazendo o texto sofrer um tratamento contrário a toda regra sensata de crítica textual. Cf. op. cit., p. 273.
2. Estilo. — Se o metro e o ritmo do oráculo de Naum não têm a perfeição e a regularidade dos de outros livros proféticos, o oráculo sobre Nínive pode, no entanto, ser considerado, com razão, uma pequena obra-prima da poesia hebraica, tanto pela elevação do pensamento e a profundidade do sentimento, quanto pela expressão extraordinariamente viva que o autor soube dar-lhes. O profeta excela, com efeito, em pintar nas mais vivas cores situações que a imaginação evoca sem dificuldade.
De todos os profetas, observa Driver, é ele quem mais se aproxima, em dignidade e em força, de Isaías. Introduction to the literature of the Old Testament, 7ª ed., p. 336. Seu poema, observa Cornill, é o grito do sofrimento e da vingança de todo um povo oprimido contra seu opressor, Einleitung in das Alte Testament, §29.
No século XVIII, Lowth dizia com razão: «De todos os pequenos profetas, nenhum tem tanta sublimidade, calor e audácia quanto Naum. Acrescentemos que sua profecia forma um poema completo e regular. Seu exórdio é magnífico; os preparativos para a destruição de Nínive... a descrição e o desenvolvimento desta destruição são pintados com as cores mais vivas, e com uma clareza e uma majestade maravilhosas. De sacra poesi Hebræorum (ed. Rosenmüller), Leipzig, 1835, p. 246.
São Jerônimo, enfim, a propósito do brilhante quadro do combate contra Nínive, já fazia esta observação: Tam pulchra autem juxta hebraicum et : prœlium praeparantis picturas similis ad se exercitus descriptio est, ut omnis meus sermo sit vilior. Op. cit., P. L., t. xxv, col. 1254.
3. Estado do texto. O fim do c. i, 11-15, já o observamos, aparece fortemente remanejado e perturbado. Se o resto do livro está melhor conservado, seu texto permanece ainda incerto em vários trechos: a presença de termos de aparência técnica contribui, por sua parte, para essa incerteza. Cf. Buhl em Zeitschrift für A. T. Wissenschaft, 1885, p. 181 sq.; G. A. Smith, The twelve prophets, t. ii, p. 89; L. Reinke, Zur Kritik der älteren Versionen des Propheten Nahums, Münster, 1867. Para a comparação com os Setenta e a versão siríaca, ver K. A. Vollers, Das Dodekapropheton der Alexandriner, 1880; Mark Sebôk, Die syrische Übersetzung der zwölf kleinen Propheten und ihr Verhältniss zu dem massoretischen Text, und zu Übersetzungen namentlich den LXX und dem älteren Targum, Leipzig, 1887.
4° Doutrina. 1. Deus — a) Seus atributos. O estudo doutrinal do livro de Naum distingue, como o estudo literário, o capítulo I dos dois seguintes. É sobretudo no primeiro que se pode recolher um ensinamento religioso sobre Javé, revelando-se como um Deus zeloso e vingador, que sabe esperar com paciência a hora do juízo e do castigo de seus adversários. Cf. Ex., xx, 5; xxxiv, 14; Deuter., iv, 24; xxxii, 35; Is., xxxiv, 8; lxiii, 1. Este pensamento da vingança de Javé sobre seus inimigos é frequente na literatura bíblica, sobretudo a partir da época de Jeremias. Cf. Jer., xi, 20; li, 11; Ezech., xxv, 14, 17; Ps., xciv, 1; Rom., xii, 19.
A própria natureza, da qual Deus é o soberano senhor, será sacudida por ocasião da manifestação desta cólera vingadora, e o fogo, símbolo da ira e da santidade de Javé, fará sua obra de destruição e de purificação. Cf. Mich., i, 3-4; Jud., v, 4; Hab., iii, 3-5. Tais ideias e tais descrições são familiares às perspectivas escatológicas do judaísmo pós-exílico. Sua presença neste ponto do livro de Naum se explicaria pelo que dissemos sobre a autenticidade de seu primeiro capítulo, e pela incerteza de seu texto, onde puderam ter-se infiltrado glosas tardias.
Temível para os que o odeiam, Javé é pleno de misericórdia para os que nele confiam no dia da angústia. Cf. Deut., v, 9, 10. É este um pensamento que volta frequentemente aos lábios dos profetas e dos salmistas no decurso da história do povo de Israel; toda esta história, com efeito, sobretudo desde o início do período assírio, foi uma longa agonia de espera; continuamente a realização das esperanças de Israel era adiada, mas, mesmo quando tudo parecia torná-las vãs, a fé e a confiança retomavam-se na expectativa das grandes coisas que a bondade de Deus reservava a seus filhos. «Eis sobre os montes os pés de um mensageiro de boas-novas que anuncia a paz. Celebra as tuas festas, ó Judá, cumpre os teus votos! Pois o perverso não passará mais por ti, ele está inteiramente destruído.» Naum, i, 15; cf. Is. lii, 7.
— b) O governo do mundo. Do oráculo propriamente dito sobre Nínive, ii-iii, desprende-se antes de tudo esta ideia de que Deus, senhor da natureza e de seu povo, o é também de todas as nações, mesmo das mais poderosas, e que sua justiça se exercerá igualmente contra elas, para punir seus crimes. O profeta representa evidentemente Javé como o Deus dos deuses, o rei dos reis, tendo em suas mãos a sorte das nações, a de Nínive em particular, para quem soou a hora da justiça, que é também a do castigo: «Ai da cidade de sangue! Há muito tempo, basta, tudo nela não foi senão fraude, violência e rapina.» Naum, iii, 1.
Inscrições e baixos-relevos assírios testemunham eloquentemente a verdade desta acusação: quantas vezes a Palestina não teve de sofrer os invasores vindos das margens do Tigre e do Eufrates! Mas não é esse seu único crime. «Por causa das múltiplas fornicações da cortesã de encantos atraentes, experta em sortilégios, que enganava os povos com suas fornicações e as nações com seus sortilégios. Eis-me aqui contra ti! Palavra de Javé dos exércitos.» Naum, iii, 4-5 (tradução de van Hoonacker).
De que crime se trata exatamente? Para alguns exegetas seria a idolatria de Nínive que estaria sendo estigmatizada segundo a linguagem figurada que empregam ordinariamente os profetas, quando condenam e censuram o culto dos falsos deuses em Israel. Quando se trata do povo escolhido, cuja aliança com seu Deus é representada como uma união matrimonial, compreende-se que toda ruptura desta aliança, sobretudo pelo culto prestado a deuses estrangeiros, apareça como uma fornicação, uma prostituição, um adultério; cf. Os., ii, 4 sq.; mas quando se trata das nações pagãs, usaram os profetas de tais expressões para designar seus cultos idolátricos, frequentemente acompanhados de práticas licenciosas? Não parece ser esse o caso, pelo menos no que diz respeito a Naum.
Fornicações e encantamentos, que fazem de Nínive a cortesã de encantos atraentes e a hábil feiticeira, designariam os incontáveis recursos empregados para seduzir as nações e exercer sobre elas uma verdadeira fascinação pelo desdobramento do fausto e da opulência. «Seria em última análise esse fausto orgulhoso, essa opulência feita dos despojos dos vencidos, e sobretudo a exploração dessa magnificência como meio de domínio moral sobre os povos submetidos, que Naum faria aqui censura à capital assíria.» Van Hoonacker, op. cit., p. 443.
A escolha dos termos empregados pelo profeta para caracterizar a ação funesta de Nínive, cortesã e feiticeira, pode ter-lhe sido sugerida tanto pelo uso da prostituição sagrada quanto pelo das encantações, cujas fórmulas constituem todo um ramo da literatura assírio-babilônica; mas não são esses usos em si mesmos que ele tem em vista.
5° Naum e os outros profetas.
O ensino de Naum sobre Deus e um ou outro de seus atributos não permite certamente igualá-lo a Oséias, Isaías, Miquéias ou Jeremias, do ponto de vista do valor doutrinal; isso não quer dizer, porém, que, preocupado exclusivamente com a ruína de Nínive, ele não tenha nenhuma importância religiosa, tendo a teologia biblica realmente pouco a colher nele. Pode-se mesmo "perguntar se este escritor, diz L. Gautier, é verdadeiramente um profeta... Talvez não seja senão um poeta hábil, versado no conhecimento dos melhores modelos." Introduction à l'Ancien Testament, 2e édit., 1914, p. 509.
Ainda que nos limitemos ao único oráculo dos capítulos ii-iii, a profecia de Naum está longe de ser um simples exercício literário; dela se desprende, como já mostramos, a noção muito nítida do domínio soberano de Jahvé sobre todas as nações e de sua justiça no governo delas. Se o vidente de Elqosh não é igual aos maiores dentre os profetas, também não é seu adversário. Certamente o contraste é grande entre sua obra e a deles, sobretudo a de seus contemporâneos Sofonias e Jeremias.
Deve-se, a exemplo de alguns comentadores modernos de Naum, Nowack, J. M. P. Smith e outros, concluir que ele é o representante de um profetismo nacional, estreito, superficial, intransigente, do profetismo, em uma palavra, dos falsos profetas? Para ele, como para estes últimos, o ponto de vista nacional prevaleceria sobre o ponto de vista religioso. Enquanto o desaparecimento da soberania assíria nem sequer é mencionado por Jeremias, e o nome de Nínive não aparece nem uma vez em toda a sua obra, a visão de Naum está unicamente ocupada com o acontecimento que vai pôr fim ao domínio assírio.
Se seu autor não vai até a oposição ativa ao profeta de Anatot, ele permanece indiferente a seus esforços em vista da conversão de seu povo; bem longe de se lamentar com ele sobre o pecado de Judá e de advertir seus compatriotas do grave perigo de perseverar em seu caminho, ele os convida à alegria pelo anúncio da ruína próxima do antigo opressor. Essa alegria, Jeremias não podia saboreá-la, nem mesmo compreendê-la: estava demasiado absorvido pelas preocupações e alarmes que seu povo lhe causava para encontrar alguma consolação na desgraça de outra nação, fosse ela mesmo a Assíria, e sabia, aliás, muito bem que a situação desesperada de Judá não encontraria nisso nenhum alívio.
Em suma, o ponto de vista de Naum seria, segundo esses críticos, o mesmo que o de Hananias que, no tempo de Sedecias, exultava com a ideia de que Jahvé ia quebrar o poder de Babilônia. Jer., xxviii, 15; ou ainda o dos quatrocentos profetas em oposição a Miquéias, filho de Jemla, I Reg., xxii. Para tais profetas as relações entre Jahvé e seu povo eram indissolúveis; se por vezes a cólera divina se inflamava contra Israel para abandoná-lo a seus inimigos, isso só podia ser por um tempo; a ideia de que tal abandono pudesse tornar-se completo, que Jahvé pudesse permitir o triunfo definitivo de um inimigo idólatra sobre seu povo, tal ideia era estigmatizada como uma traição tanto a Israel quanto a seu Deus.
Não, jamais Jahvé, o Deus de todo poder e de toda santidade, toleraria o triunfo dos adoradores dos falsos deuses; jamais a terra de Judá e o templo de Jerusalém poderiam sofrer a profanação pagã. A homens animados de tais sentimentos, a esperança da ruína de Nínive, a antiga e implacável inimiga, devia trazer, compreende-se sem dificuldade, uma alegria delirante; o oráculo de Naum, grito de vingança mas também de fé, era a expressão exata disso. Cf. J. M. P. Smith, op. cit., p. 281-282.
Não se tem o direito de apoiar uma teoria tão estranha em duas ou três páginas de um texto profético; isoladas de seu contexto e do resto das coleções nas quais figuram, certas invectivas de Isaías, de Jeremias ou de Ezequiel contra as nações dariam exatamente a mesma nota. Cf. Is., xiii-xiv, xv-xvi; do mesmo modo Is., xlvii; Jer., xlvi, 1-12; xxviii; Ezech., xxvi, 19; etc. Não há razão para crer que, em dois oráculos, Naum tenha entregado toda a sua alma. É preciso dar crédito à tradição que, alimentada nas fontes do profetismo mais autêntico, não hesitou em colocar o Elqosita no rol dos Doze. J. Touzard, loc. cit., p. 59.
Para os comentadores do conjunto dos doze pequenos profetas, ver a bibliografia dos artigos já publicados no Dictionnaire de théologie catholique sobre esses profetas. Entre as obras especiais sobre o livro de Naum pode-se mencionar os comentários de E. Breenen, Nahumi vaticinium expositum, philologice et critice, Harderwijk, 1808; C. W. Justi, Nahum neu übersetzt und erläutert, Leipzig, 1820; O. Strauss, Nahumi de Ninivo vaticinium explicavit et assyriis monumentis illustravit, Berlim, 1853; A. B. Davidson, Nahum, Habakuk and Zephaniah, Cambridge, 1896; J. Happel, Das Buch des Propheten Nahums erklärt, Wurzbourg, 1902; S. R. Driver, The minor prophets, Nahum, Habakuk, Zephaniah, Haggai, Zachariah, Malachi, Edimburgo, 1906; P. Haupt, The book of Nahum, dans Journal of biblical literature, 1907, t. xxvi, p. 1-53; J.-M.-P. Smith, Micah, Zephaniah and Nahum, dans Smith, Ward, Bewer, Micah, Zephaniah, Nahum, Habakkuk, Obadiah and Joel, Edimburgo, 1912; os trabalhos de M. Breiteneicher, Ninive und Nahum mit Beziehung der Resultate der neuesten Entdeckungen historisch-exegetisch bearbeitet, Munique, 1861; A. Billerbeck und A. Jeremias, Der Untergang Ninevehs und die Weissagungschrift des Nahum von Elkosch, dans Beiträge zur Assyriologie und semitischen Sprachwissenschaft, de Frd.
Delitzsch et Haupt, 1898, t. iii, p. 87-188; Th. Friedrich, Nineve's Ende und die Ausgänge des Assyrischen Reiches, dans Festgaben zu Ehren Max Büdinger's, 1898, p. 13-52; J. Halévy, Recherches bibliques: le livre de Nahum, dans Revue sémitique, 1905, t. xiii, p. 97-123; P. Haupt, Eine alttestamentliche Festliturgie für den Nikanortag, dans Zeitschrift der deutschen morgenländischen Gesellschaft, t. lxi, p. 275-297; W. Staerk, Das assyrische Weltreich im Urteil der Propheten, 1908, p. 174-181; do mesmo, Ausgewählte poetische Texte des A. T., fasc. 2, Amos, Nahum, Habakuk, Leipzig, 1908; J. Doller, Ninive « gleich einem Wasserteiche », Nah., ii, 9, dans Biblische Zeitschrift, 1908, vi, p. 104-108; P. Kleinert, Nahum und lier Fall Ninives, dans Theologische Studien und Kritiken, 1910, t. lxxxiii, p. 501-533; L. Gry, Un épisode des derniers jours de Ninive, Nah., ii, 8, dans Revue biblique, 1910, p. 398-403; J. Touzard, L'âme juive pendant la période persane, dans Revue biblique, 1917, p. 57-61. A notar, enfim, os artigos sobre Naum, publicados nas diferentes enciclopédias: de Kennedy, dans Hastings, A Dictionary of the Bible (1900); de Budde, dans Cheyne, Encyklopædia biblica (1902); de Volck, dans Haupt, Protest. Realencyklopaedie (1903); de Welte-Kaulen, dans Wetzer-Welte, Kirchenlexicon (1895); de Fillion, dans Vigouroux, Dictionnaire de la Bible (1906).
A. Clamer.
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