Nairon ou Naironus (em árabe, Naïroun ou Nairoun). Sob este nome agrupamos os três filhos do maronita Miguel, filho de Makhlouf Nairon, a saber: Nicolau, Fauste ou Faustus (em árabe, Morhedj) e João-Mateus. Duas notas, uma escrita no ms. 410, fol. 77 v., do fundo Vat. syriaq., e a outra no ms. 7262, fol. 143 v., do fundo Vat. latin, nos informam que os dois primeiros vieram ao mundo na Europa. Como seus irmãos, o terceiro deve também ter nascido lá, pois, sabemo-lo pelas mesmas notas, o pai deles estava estabelecido em Roma. O nome Nairon é frequentemente seguido da denominação Banesius ou Banensis (originário de Bân, aldeia do Líbano setentrional), que indica a origem da família. Os três irmãos fizeram seus estudos no colégio maronita de Roma. Nicolau entrou lá em 1634, Fauste em 1636 e João-Mateus em 1642. Ibid. e fol. 143 r° do dito ms. 7262. Os dois últimos, notadamente Fauste, são mais conhecidos que o primeiro.
I. Fauste. Após terminar seus estudos, deixou Roma no mês de novembro de 1619 para se dirigir ao Líbano, em companhia do P. Miguel Saboûnâ, o Hesronita, que viera pedir, em nome do novo patriarca, João Sefraouî, o pálio e a confirmação pontifícia. A viagem de Fauste viria a ser de grande utilidade para sua Igreja. De fato, Sefraouî acabara de empreender a revisão de certos livros liturgicos a fim de os fazer imprimir: com isso, queria subtrair o texto às fantasias e aos erros dos copistas e facilitar sua aquisição ao clero. Ficou, pois, encantado de ver chegar de Roma um aluno que podia ajudá-lo a realizar seu projeto.
Fauste ainda não era clérigo. O patriarca fez-lhe conferir, em Bikfaïya, pelo arcebispo Isaac Chedraouî, as ordens menores; um mês mais tarde, deu-lhe ele mesmo, em 'Aramoûn (Kasrawân), o diaconato; depois, em 8 de abril de 1650, o presbiterato, no convento de Mar 'Abdâ Harhariâ (atualmente seminário nacional). No mesmo ano, enviou-o de volta a Roma para pedir ao papa que fizesse imprimir o Phenqith (ܦܢܩܝܬ) ou Próprio das festas fixas, revisto e corrigido por ele com o concurso de dois arcebispos; encarregou-o igualmente de apresentar à impressão o texto do Novo Testamento que deveria servir para as leituras nos ofícios liturgicos.
Encontramos todos esses detalhes nos prefácios e nas notas latinas e árabes, escritas por Fauste no início do Phenqith e do livro dos evangelhos de que se tratará mais adiante, e no prefácio árabe acrescentado por Ecchellensis à parte hiemal do Phenqith. Por isso nos parece surpreendente que de la Roque, que conhecia Fauste, tenha ignorado o fato de sua ordenação sacerdotal. "Era apenas diácono, diz ele, nunca tendo querido ser ordenado padre, por sentimento de humildade." Voyage de Syrie et du Mont-Liban, t. ii, Paris, 1722, p. 130. Essa afirmação de um contemporâneo induziu em erro vários historiadores, notadamente Joseph Debs, arcebispo maronita de Beirute (†1907), Histoire de la Syrie, t. vii, Beirute, 1903, p. 343.
Logo que chegou a Roma, Fauste pôs-se ao trabalho. Expôs ao sumo pontífice e à Propaganda o desejo do patriarca. Imediatamente, deu-se a ordem de proceder à impressão do Phenqith; deixou-se para mais tarde a do Novo Testamento. A S. Congregação confiou a Fauste o encargo de traduzir para o latim o livro dos ofícios; nomeou-o membro da comissão que deveria examiná-lo e encarregou-o, com Ecchellensis, da correção das provas.
Começada em 1652, a edição da parte de inverno foi terminada em 1656. Esta parte tem por título: Officia sanctorum juxta ritum Ecclesiae maronitarum. Pars hiemalis edita auctoritate sanctissimi patris nostri Innocentii X abundantia clementiae D. et Sanctissimi Patris nostri Alexandri VII. A impressão da parte estival pelas prensas da Propaganda começou em 1657; foi concluída em 1666, segundo a data escrita em algarismos latinos, em 1665, segundo os algarismos siríacos. Seu título é: Officia sanctorum maronitarum. Pars aestiva edita auctoritate sanctissimi Patris nostri D. Alexandri papae VII.
Quanto ao Novo Testamento, foi impresso em Roma em 1703, sob a supervisão de Fauste e de outro maronita, José El-Bâni. Está dividido em dois volumes onde a indicação das perícopes a ler na missa e nos ofícios está bem marcada. Os dois volumes têm um título geral: Novum testamentum syriacum et arabicum; e trazem depois cada um um título particular, o primeiro: Sacrosancta Jesu Christi evangelia jussu S. C. de Prop. Fide ad usum Ecclesiae nationis Maronitarum edita; o segundo: Acta apostolorum, epistolae catholicae, et divi Pauli, jussu S. C. de Prop. Fide ad usum Ecclesiae nationis Maronitarum edita cum Apocalypsi D. Joannis.
Extraímos todas essas informações dos prefácios e das notas que se encontram no início e no fim desses diferentes volumes.
A atividade de Fauste não se limitou à edição dos livros liturgicos. Além de ter prestado serviços aos maronitas na qualidade de procurador do patriarca junto à Santa Sé, escreveu várias obras, das quais as duas principais são: 1° Dissertatio de origine, nomine, ac religione Maronitarum, Roma, 1679; 2° Euoplia fidei catholicae romanae historico-dogmatica, ex vetustissimis Syrorum, seu Chaldaeorum monumentis eruta, ubi de christianis orientalibus, deque eorum ritibus, doctrina, et fide quoad articulos a novatoribus nostri temporis impugnatos, Roma, 1691.
Fauste obteve a cátedra de língua siríaca na Sapiência e um canonicato na igreja colegiada de Santo Eustáquio de Roma. Prefácio do 1º volume do Novo Testamento.
"Juntaremos a esses sábios (maronitas), diz o Sr. de la Roque, o próprio Fauste Nairon, porque consagrou toda a sua vida ao estudo, e porque nos restam vários monumentos de sua doutrina e de sua aplicação... Distinguiu-se entre seus compatriotas, sobretudo por sua grande capacidade nas línguas orientais. Na sequência, foi sucessor de Ecchellensis em sua cátedra de professor no colégio da Sapiência, e intérprete da congregação da Propaganda... Recebi, como já disse em outro lugar, algumas cartas latinas desse sábio maronita, que denotam um homem hábil, e que são escritas com tanta cortesia quanto modéstia..."
Fauste Nairon morreu em Roma no ano de 1711, com cerca de oitenta anos, numa grande reputação de piedade e de capacidade nas letras orientais. Ibid., p. 127-130.
II. João-Mateus. É por vezes designado ora pelo prenome de João, ora pelo de Mateus, o que deu lugar a confusão. De fato, certos autores, como o P. Cheikho, fixados no nome de João, não souberam reconhecer o nosso Nairon sob a denominação de Mateus Banesius. L. Cheikho, La nation maronite et la Compagnie de Jésus aux xvie et xviie siècles (Extrait de la revue Al-Machriq), Beirute, 1923, p. 114, n. 4. O autor da nota do ms. 7262, que citamos acima, fol. 143 r°, e Fauste Nairon, no prefácio árabe da parte estival do Phenqith, fazem desaparecer toda equívoco a esse respeito: nos dois lugares, dão ao mesmo personagem os prenomes de João-Mateus.
Após terminar seus estudos, João-Mateus Nairon foi colocado pela Propaganda à frente do colégio maronita de Ravena. O patriarca Douaïhi (†1704), Notice sur le collège maronite de Rome (em árabe), publicada pelo P. Cheikho, ibid., p. 122; Fauste Nairon, Préface arabe de la partie estivale du Phenqith. Foi ali que recebeu o presbiterato, em 1663, das mãos do arcebispo maronita Isaac Chedraouî, então de passagem por aquela cidade. Relação de viagem de Chedraouî (em árabe) publicada pelo P. L(ouis) C(heikho) na revista Al-Machriq, t. ii (1899), p. 942; Fauste Nairon, ibid.
Em seguida à suprressão desse estabelecimento por Alexandre VII, João-Mateus voltou a Roma, onde exerceu as funções de procurador do patriarca maronita junto à Santa Sé, e, após a morte de Ecchellensis em 1664, as de scriptor na Vaticana. Cf. um poema árabe relativo aos alunos do colégio maronita de Roma, escrito em 1669 pelo padre Elias El-Ghazîrî, dans Cheikho, La nation maronite et la Compagnie de Jésus aux xvie et xviie siècles, p. 114; Douaïhî, ibid., p. 122. Sobre o colégio de Ravena, ver acima, t. x, col. 66.
João-Mateus completou o catálogo dos manuscritos orientais da Vaticana, iniciado por Ecchellensis. Esse catálogo permanece inédito e encontra-se na Biblioteca Vaticana. Tem por título: Catalogus codicum mss. linguarum orientalium vaticanæ bibliothecæ nempe samaritanæ, syriacæ, etc. etc. S. D. N. Innocentio XI P. M., Emin. et Rev. Laurentio Brancato de Lauræa S. R. E. Card. bibliothec., illustriss. D. Emanuele a Schelstrate ejusdem bibliothecae primo custode. Inceptus ab Abrahamo Ecchellense et absolutus a Jo. Matthaeo Nairono Banesio maronitis, in eadem bibliotheca scriptoribus, A.D. MDCLXXXVI.
Cabe corrigir o que se disse acima, t. x, col. 115-116, onde o catálogo é atribuído a Fauste. Eis o que dizia o card. A. Mai, que fora prefeito da Vaticana, a respeito desse catálogo: «Vir Abrahamus Ecchellensis, et deinde Jo. Matthaeus Naironus, (qui duumviri illustrandis etiam sacris orientalium rebus facem Assemanis praetulerunt), arabicorum nostrorum catalogum antiquitus contexuerunt, quae lucubratio apud nos adhuc superest cum hoc titulo: Catalogus codicum mss. linguarum orientalium... Antiquus sane hic catalogus haud indignus suis auctoribus est; ceterum multo parcior verborum est, quodque magis interest, nonnisi clxxxvii codices comprehendit, quorum lxix christiani argumenti sunt, reliqui mahometani.» Scriptorum veterum nova collectio, Roma, t. iv, 1831, p. viii.
III. Nicolau. Dele sabemos muito pouco. Recebeu as ordens menores e o diaconato, e foi um dos que auxiliaram Fauste na edição do Phenqith. De fato, figura entre os colaboradores no prefácio da parte estival desse livro, escrita em 1665; e ali é chamado de diácono.
P. Dib.
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