TIAGO DE VORAGINE

TIAGO DE VORAGINE

TIAGO DE VORAGINE, dominicano, arcebispo de Gênova († 1298). — I. Vida. II. Obras.

I. Vida. — Tiago nasceu por volta de 1228 ou 1230, em Varaggio (Varazze ou Varage), donde seu sobrenome — mas deveria dizer-se Varagine — é erro de um copista que substituiu por um o o primeiro a; a localidade fica no golfo de Gênova, não longe de Savona. Em 1244, veste o hábito dominicano e se faz notar entre seus irmãos de religião pelo zelo no estudo e pela conduta edificante. Depois de sua profissão religiosa, ensina com brilho a teologia em várias casas de sua ordem e chama a atenção sobre si pelo talento de pregador. Prior de seu convento aos trinta e cinco anos, é eleito provincial da Lombardia em 1267 e exerce esse cargo por dezoito anos. Por ocasião da morte de Carlos Bernardo, arcebispo de Gênova, em 1288, Tiago é eleito pelo capítulo para substituí-lo, mas recusa. Obezzon de Fiesque, patriarca de Antioquia, expulso de sua sé pelos sarracenos, é nomeado administrador da diocese de Gênova, mas quando vem a morrer, quatro anos depois (1292), fazem-se novas instâncias a Tiago, que desta vez é obrigado a ceder. O papa Nicolau IV deseja sagrá-lo ele próprio e, com esse intuito, manda chamá-lo a Roma: o pontífice vem a morrer nesse entretempo e Tiago recebe a consagração episcopal das mãos do bispo de Óstia. Apressa-se em voltar a Gênova, bem decidido a não mais deixar sua diocese.

Dedica-se desde então aos deveres de seu cargo e obtém reais êxitos por sua eloquência persuasiva: depois de três anos de esforços, faz cessar as divisões entre guelfos e gibelinos de sua cidade episcopal, mas essa paz de 1295 dura pouco tempo. Quando os guelfos, secretamente instigados pelo rei de Nápoles, retomam a luta, vê-se o prelado expor a própria vida e lançar-se no meio dos combatentes para separá-los. Mostrou-se de uma generosidade admirável para com os pobres; antes de morrer, quis que se retirasse do custo de seus funerais uma soma destinada a aliviar os infelizes. Tiago de Voragine morreu a 14 de julho de 1298, após sete anos de episcopado. Os bolandistas citam um calendário em que é qualificado de bem-aventurado, mas não há nenhum vestígio de culto que lhe tenha sido prestado. Acta Sanct., juillet, t. iv, p. 1.

II. Obras. — 1° Tiago de Voragine deixou Sermões para a Quaresma, para os domingos, para as festas dos santos ao longo do ano, sobre a santíssima Virgem. Traduzidos para o latim, foram impressos nos séculos XVI e XVII, sob o título: Sermones super Evangelia dominicarum, festa sanctorum totius anni, per quadragesimam integram, cum sermonibus de planctu B. M. V. et Mariale aureum in 160 sermones distributum: citam-se em particular as edições seguintes: Brixen, 1483, Augsburgo, 1484, Veneza, 1497 e 1544. Uma coletânea desses sermões encontra-se em manuscrito na Biblioteca municipal de Tours, herdeira do fundo de Marmoutier. Essas instruções denotam uma simplicidade, uma bonomia originais, capazes de comover: é verdadeiramente lamentável que o método escolástico ocupe nelas um lugar excessivamente grande; há divisões, subdivisões, pontos cortados em outros pontos que por sua vez são cortados. Ver E. C. Richardson, Voragine as a preacher, dans Princeton theological Review, 1904, t. ii, p. 442. O sermão sobre os estigmas de são Francisco é verdadeiramente curioso, as explicações dadas parecem supor teorias psicológicas modernas que se reencontram entre os

2° Crônica da cidade de Gênova. — Tiago de Voragine faz nela a história dessa cidade desde a fundação até cerca do ano 1295. — Muratori a editou nos Scriptores rerum Italicarum, t. i, p. 1-56; T. de Wyzewa nos assegura que a cópia reproduzida é inexata, que é preciso preferir-lhe um manuscrito da primeira metade do século XIV que se encontra na Biblioteca municipal de Gênova.

3° Os contemporâneos de Tiago nos asseguram que ele deu uma tradução da Bíblia em italiano, a primeira que se tenha feito nessa língua, e depois um volumoso comentário de santo Agostinho.

4° Chegamos enfim à Legenda dos Santos, Legenda Sanctorum, redigida em latim, que, logo depois de sua composição, foi chamada: Legenda aurea, Legenda dourada. A obra foi alternadamente exaltada e denegrida além da medida. Em nossos dias, em que se volta a ela, constata-se a mesma diferença de apreciação, em termos contudo mais moderados. Assim T. de Wyzewa, um dos últimos tradutores da Legenda dourada para o francês, não deixa de fazer-lhe o elogio; P. Meyer diz que ela obteve uma popularidade muito pouco merecida. Notice sur un légendier français du XIIIe siècle, dans Notes et extraits des manuscrits de la Bibliothèque nationale, in-4°, Paris, 1899, t. xxxvi, 1re partie, p. 2.

1. Época de composição; objeto e finalidade do autor. — Segundo T. de Wyzewa, a obra foi composta por volta de 1255, quando Tiago ainda era jovem professor de teologia: a história lombarda que forma o seu apêndice se detém na morte de Frederico II e não assinala a eleição do papa Alexandre IV em 1254. Além disso, Tiago não nomeia uma só vez em sua obra Tomás de Aquino, que, desde 1255, começava a ser uma das glórias da ordem dos frades pregadores. O autor se propõe fornecer leituras sobre a vida dos santos. As histórias que conta, quer que as tomemos a sério, ressalvadas as reservas quanto ao valor de suas fontes. O livro destina-se a fornecer ao povo lições e exemplos diretamente inspirados na palavra de Jesus Cristo. Se a história nem sempre é bem exata, certamente se encontra nele o testamento mais autêntico legado por doze séculos de cristianismo, uma exposição das partes mais salientes dos atos dos santos propostas à admiração dos leitores.

2. Conteúdo. — Não se deveria tornar Tiago de Voragine responsável por aquilo que foi publicado sob o seu nome: veremos que a difusão da obra foi considerável e, por essa razão, a Legenda dourada foi aumentada com inserções e apêndices. Assim, a edição latina de Colônia de 1483 contém bom número de lendas que não são de nosso autor. As interpolações atingiram um número fantástico: enquanto as edições de 1470, ainda quase conformes ao texto primitivo, contêm cerca de 280 capítulos, a obra original tinha 182, uma edição francesa de 1480 tem 440, a edição inglesa de W. Caxton tem 448. «É para desejar, escreve o P. Poncelet, que um homem corajoso se dê ao trabalho de preparar uma edição crítica da Legenda dourada, não somente dos capítulos escritos por Tiago de Varazze, mas também das vidas de santos abreviadas que se encontram acrescentadas a numerosos exemplares, tanto manuscritos quanto impressos.» Le Légendier de Pierre Calo, dans Analecta Bollandiana, 1910, t. xxix, p. 24.

3. Difusão da obra. — Foi verdadeiramente extraordinária. Primeiramente, fizeram-se cópias dela; Quétif indica grande número delas que subsistem nas bibliotecas. Quétif-Echard, Scriptores Ordinis Praedicatorum, 1719, t. i, p. 454, t. ii, p. 818. P. Paris enumera nove em seu trabalho sobre os manuscritos franceses da Biblioteca nacional, 1838-1848, t. ii, p. 87, t. vii, p. 175. Depois da invenção da imprensa, sucederam-se numerosas edições: contaram-se mais de 70, outros dizem 90, antes do ano de 1500, e é preciso acrescentar-lhes as traduções em diversas línguas. Ver a respeito dessas edições, Panzer, Annales typographiques, t. v, p. 454, t. xi, p. 484; J. Brunet, Manuel du libraire, 5e édit., 1864, t. v, p. 1305 sq. M. Pellechet, Jacques de Voragine, liste des éditions de ses ouvrages publiées au XVe siècle, dans Revue des Bibliothèques, 1895, t. v, p. 89 et 225. A melhor edição no século XIX é a de Th. Græsse, Leipzig, 1846, e 1850, Breslau, 1890.

Quanto às traduções, só se podem mencionar aqui as principais. a) Em francês: em Lyon, em 1470. A Legenda dourada é apresentada como diligentemente corrigida segundo o latim por mestre João Batailler; os exemplares são raríssimos. Ver Bibliotheca Spenseriana, t. iv. Três outras edições da Legenda dourada em francês foram dadas por Antoine Vérard, em 1490, 1493 e 1496: um exemplar da edição de 1493, na Biblioteca do rei, foi descrito por Van Praet. — Brunet, dans Nouvelles recherches bibliographiques, 1832, t. iii, p. 432, mencionou diversas edições aparecidas em Lyon em 1512, em Paris em 1525, em Poitiers em 1522, em Paris em 1554 e três outras sem data. No século XIX temos: G. B(runet): La Légende dorée par Jacques de Voragine, traduite du latin et précédée d'une notice historique et bibliographique, Paris, 1843, 2 vol. in-12. Teodor de Wyzewa: La Légende dorée, traduite du latin d'après les plus anciens manuscrits avec Introduction, Notes, Index, in-8°, Paris, 1913, serviu-se de uma edição latina impressa em Lyon em 1517 e reportou-se a edições mais antigas, a cópias manuscritas.

b) Em inglês: a Legenda traduzida para o inglês foi uma das primeiras obras a que se dedicou a atividade do impressor W. Caxton: Golden Legend, em 1483, e em 1493 (essas duas edições são introuvables). Ver W. Caxton, The Golden Legend with an introduction by A. Aspland, in-fol., London, 1878. — c) Em italiano: Nic. Manerbi, Légende di tutti santi e le sante. Essa edição não tem data, mas a epístola dedicatória traz a data de 1475. Várias vezes reimpressa, apareceu em Milão em 1529, em Veneza, em 1551 e 1578, com acréscimos e correções; foi redigida em estilo moderno em 1030. — d) Uma tradução holandesa apareceu em Delft em 1472, em Gouda em 1478; uma tradução boêmia foi editada primeiro em Pilsen entre 1475 e 1479, depois em Praga em 1495: essas duas últimas publicações são raríssimas.

4. Descrédito da obra. — A partir sobretudo do século XVI, fizeram-se amargas críticas à Legenda dourada. O espanhol L. Vives e, depois dele, Melchior Cano, Launoy, Baillet etc., tudo censuraram no autor, incriminaram seu estilo, sua boa-fé. João Bolland não julgou dever aceitar um juízo tão severo. Eis o que escreve: «Estou longe de aprovar tudo o que publicou Tiago de Voragine; contudo, que ele tenha seguido documentos antigos, não poderia duvidar; acho mesmo que a maior parte de suas histórias concorda com as peças autênticas e originais... Penso que a Legenda é, o mais das vezes, vítima da injúria nos juízos que dela fazem os modernos.... Sempre fiz grande caso de L. Vives, homem profundamente erudito, cheio de gravidade e de prudência. Partilho de seu parecer quando reclama, nos escritos concernentes aos atos dos santos, mais exatidão do que ordinariamente se empregou; mas quando maltrata o santo e sábio autor da Legenda: «Era um coração de chumbo, uma boca de ferro», admiro-me disso da parte de um personagem tão grave, tão moderado. Talvez tenha tomado isso de Erasmo, seu mestre. Erasmo, esse aristarco severíssimo que encontra o que repreender em cada autor... Tem este ridículo de criticar o que não compreende e o que ignora. Que o estilo de Tiago de Varazze não seja mais castigado que o dos escritores de seu tempo, concedo: o certo é que não era apenas um sábio e um santo, mas que era dotado de uma prudência e de um juízo notáveis.» Acta Sanctorum, janvier, t. i, p. 18.

Essa citação um tanto longa resume a nossos olhos a resposta que se pode dar aos agravos do século XVII. Em nossos dias, salvo algumas exceções, parece que se volta a sentimentos mais moderados a respeito da velha legenda. Alguns, sem dúvida, não lhe testemunham muita simpatia, como o autor do artigo: The Golden Legend, dans The Church quarterly Review, 1903, t. lvii, p. 29-52. Outros a tratam com mais indulgência, como E. Richardson, Jacobus de Voragine and the Golden Legend, dans The Princeton theological Review, 1903, t. i, p. 267: «O autor, diz ele, só quis escrever um livro de devoção sob uma forma artística... Essa coletânea é admiravelmente concebida para aumentar o amor a Jesus Cristo, promover o culto e o respeito aos santos, animar as almas à caridade, à fortaleza, à pureza. É, contudo, à sua maneira, um documento histórico, interessante para o conhecimento da época e do público a que se dirige.» É a mesma nota que exprimem A. Baudrillart, La psychologie de la Légende dorée, dans Minerva, 1902, t. v, p. 24; J. C. Broussolle, La Légende dorée, dans L'université catholique, nouvelle série, t. xliv, 1903, p. 321; P. Poncelet, artigo já citado. A maior parte das obras que falaram de Tiago de Voragine encontra-se indicada em U. Chevalier, Répertoire des Sources historiques du moyen âge, Biobibliographie, t. ii, col. 2331: acrescentamos a essa lista alguns mais recentes, sem mencionar de novo os que foram citados no decorrer do artigo.

F. Anfrosi, Memorie istoriche appartenenti alla vita del B. Jacopo de Varagine dell'ordine dei Predicatori, arcivescovo di Genova, Gênes, 1816, in-8°; L'Année Dominicaine, 1895, t. vii, p. 253; J. C. Broussolle, Préface à la Légende dorée, Paris, 1907; G. B(runet), La Légende dorée par Jacques de Voragine, traduite du latin et précédée d'une notice historique et bibliographique, Paris, 1843, 2 vol.; P. Butler, Legenda aurea : légende dorée, Golden Legend, Baltimore, 1899, in-8°; C. Cave, Scriptores ecclesiastici, 1745, t. ii, p. 334; Douhet, Dictionnaire des Légendes, 1855, p. 777; F. Ellis, dans Bibliothèque de l'École des Chartes, 1892, p. 647; Fabricius, Bibliotheca Graeca, 1719, t. x, p. 156; Bibliotheca latina medii aevi, 1735, t. iv, p. 51; G. Guénebauld, Dictionnaire iconographique, 1850, p. 905; T. Hardy, Descriptive catalogue of materials relating to the history of Great Britain and Ireland, Londres, 1865, t. i, p. 802; H. Hurter, Nomenclator, 3e éd., t. ii, col. 432; P. Meyer, La traduction provençale de la Légende dorée, dans Romania, 1898, t. xxvii, p. 93; Muratori, Rerum Italic. scriptores, 1720, t. ix, p. 3; M. Ott, Jacopo de Voragine, dans Catholic Encyclopaedia, t. viii, p. 262; Oudin, Scriptores ecclesiast., 1722, t. iii, p. 612; Suppl., p. 125; M. Pellechet, Jacques de Voragine, liste des éditions de ses ouvrages publiés au XVe siècle, dans Revue des Bibliothèques, 1895, t. v, p. 89 et 225; J. B. Roze, La Légende dorée, dans Revue de l'art chrétien, 1867, t. xi, p. 38; La Légende dorée de Jacques de Voragine, nouvellement traduite en français avec introduction, notices, notes, recherches, Paris, 1902, 3 vol. in-8°; T. de Wyzewa, La légende dorée traduite du latin d'après les plus anciens manuscrits, Paris, 1902.

J. Baudot.

Autor original: J. Baudot

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