TIAGO BAR SALIBI

TIAGO BAR SALIBI

TIAGO BAR SALIBI, chamado também Dionísio, do nome que tomou por ocasião de sua consagração episcopal, morto metropolita monofisita de Amid (Diarbékir) em novembro de 1171. — I. Vida. II. Obras. III. Doutrina.

I. Vida. — Tiago nasceu em Melitene, hoje Malatiyah, na Pequena Armênia, de um pai que levava o nome de Salibâ. Nada sabemos de sua juventude: era diácono e já conhecido por sua eloquência quando escreveu um tratado sobre a Providência divina, no qual, distinguindo os castigos que Deus envia aos homens das desgraças que lhes sobrevêm por sua incúria, refutava João, bispo de Mardin, autor de uma obra sobre o mesmo assunto. Esse bispo havia escrito depois da tomada de Edessa por Zengi e causado escândalo na Igreja jacobita, ao pretender que o desastre fora um acontecimento puramente natural, e que a cidade não teria sido tomada se o exército franco ali se encontrasse. Irritado por um simples diácono ter ousado dar lições a um bispo, talvez também sentindo que seu adversário levava a melhor, João o denunciou ao patriarca Atanásio VIII e reclamou contra o temerário uma sentença de interdito.

Sem ir ao fundo da questão, o patriarca, desejoso de fazer respeitar a autoridade, pronunciou a condenação pedida, mas Tiago, a fim de justificar-se, apresentou-se diante do sínodo e, por toda defesa, leu a memória incriminada. O patriarca, então, aprovou o texto que havia condenado sem conhecê-lo. Mais ainda, depositou toda a sua confiança em Tiago e, depois de tê-lo nomeado bispo de Mar'asch, consagrou-o sob o nome de Dionísio, em 1154, ao que parece. Enviou-o em seguida a reconciliar-se com o bispo de Mardin e a tomar posse de sua sé. Barhebrœus, Chronicon ecclesiasticum, t. i, p. 503 sq. e 511-514. Sendo os jacobitas, no século xii, bastante escassos na Mesopotâmia do Norte, os patriarcas decidiram em várias ocasiões reduzir o número dos bispos; assim, em 1155, Dionísio viu acrescentar-se à sua diocese a de Mabboug, Ibid., t. i, p. 515 sq.

A administração de semelhantes comunidades deixava sem dúvida muitos lazeres, e Dionísio os empregou como homem estudioso; tanto quanto Tiago de Edessa, diz Miguel, teria merecido o sobrenome de «Φιλόπονος». Chronique de Michel le Syrien, edit. Chabot, p. 698, trad., t. iii, p. 344. Qualquer que tenha sido o lugar de sua residência habitual, encontrava-se em Melitene, sua pátria, quando foi chamado à cabeceira do patriarca gravemente doente. Este queria confiar-lhe a sé metropolitana de Amid, mas Dionísio recusou essa oferta muito honrosa, Chronicon ecclesiasticum, t. i, p. 351 sq. Algum tempo depois, o patriarca morria e os bispos se reuniam para a eleição de seu sucessor. Dionísio contribuiu poderosamente para fazer eleger Miguel (1166); e, algumas semanas mais tarde, pronunciava a homilia na tomada de posse do patriarca. Este, desejando sem dúvida conservá-lo perto de sua residência, confirmou-lhe a sé de Amid e obteve que fosse fixar-se nessa cidade, Chronicon ecclesiasticum, t. i, p. 539 sq., 543 sq.

Os historiadores não assinalam nenhum acontecimento importante para esse último período de sua vida; contam, contudo, que restaurou a igreja da Mãe de Deus e nela instituiu uma escola, cujo professor foi seu próprio síncelo, o diácono Abraão. Miguel nota mesmo que Abraão se instruía primeiro junto ao metropolita, depois ia comunicar aos jovens sua ciência recém-adquirida, p. 697, trad., t. iii, p. 340 sq. É nessa mesma igreja que Dionísio foi sepultado, no decurso de tesrin II 1483 dos selêucidas (= novembro de 1171). Chronicon ecclesiasticum, t. i, col. 559 sq.

II. Obras. — Bar Salibi é autor de grande número de obras, das quais várias partes foram traduzidas para o árabe. Conhecem-se dois catálogos siríacos dessas obras: um deles se encontra na Crônica de seu contemporâneo, o patriarca Miguel, p. 699, trad., t. iii, p. 344 sq.; o outro, que é um fragmento isolado, foi impresso por J. S. Assemani, Bibliotheca Orientalis, t. ii, Roma, 1721, p. 210 sq., segundo o ms. Vaticano siríaco 37. Bar Salibi comentou a maior parte dos livros do Antigo Testamento e todos os do Novo, mesmo o Apocalipse; sobre esses comentários e o método exegético do autor, ver o artigo de F. Nau, no Diction. de la Bible, t. iii, col. 1098 sq. Ocupou-se igualmente de formulários litúrgicos, revisou talvez o ordo batismal e deu uma recensão do ofício ferial; duas anáforas levam seu nome. Atribui-se-lhe um compêndio da história dos Padres, dos santos e dos mártires, bem como um resumo dos cânones apostólicos. Suas cartas haviam sido reunidas em corpo. Escreveu poucos versos; conhecem-se pelo menos sete peças, das quais duas sobre a tomada de Edessa e três sobre a de Mar'asch.

Como obras que interessam especialmente à teologia, temos a citar: 1. Um compêndio de teologia, do qual não possuímos nenhum manuscrito, e que Dionísio intitula em sua explicação da liturgia: «Livro da teologia e do mistério da Encarnação, sobre as naturezas inteligíveis e sensíveis, sobre os sacramentos da Igreja, etc.» Ver Corpus scriptorum christianorum orientalium, Scriptores syri, sér. II, t. xciii, p. 1, trad., p. 33. — 2. Uma confissão de fé, uma explicação do símbolo de Niceia, e a de um símbolo jacobita: nenhuma dessas obras, das quais aliás se têm manuscritos, foi editada. — 3. Um tratado contra as heresias, ao qual se faz várias vezes alusão na explicação da liturgia sob os títulos: Livro de controvérsia contra as heresias modernas, op. cit., p. 27, trad., p. 51; Tratado e controvérsia contra os calcedonenses, p. 15, trad., p. 43, ou ainda Livro de refutação dos calcedonenses, isto é, dos melquitas, p. 72, trad., p. 84, Ampla disputa contra os armênios, p. 71, trad., p. 83. No ms. Vaticano siríaco 96, um capítulo contra os muçulmanos é dado como extrato do Livro da refutação daquele que perscruta a fé.

A lista das obras de Bar Salibi publicada por Assemani anuncia escritos contra os muçulmanos, os judeus, os nestorianos, os calcedonenses, os armênios, os idólatras; parece que sejam as partes de um vasto tratado. Existe talvez um manuscrito do conjunto em Deir-Za'faran. Moisés ibn 'Atâsah utilizou amplamente esse tratado em sua apologia em árabe do monofisismo jacobita, da qual existe uma cópia no ms. Vaticano árabe 74.

Três partes estão representadas em bibliotecas da Europa; nada foi ainda publicado. — 4. Um tratado sobre a Providência, que deve ser o escrito contra João de Mardin. Dele restam, ao que parece, apenas dois fragmentos inseridos por Miguel em sua Crônica, edit. J.-B. Chabot, p. 634-6, trad., t. iii, p. 272-274; p. 691 sq., trad., t. iii, p. 300-302. — 5. Homilias; a que foi pronunciada por ocasião da entronização do patriarca Miguel foi inserida, por ordem deste, no pontifical jacobita para ser lida nas entronizações de patriarcas e, mutatis mutandis, de bispos e metropolitas, cf. J.-B. Chabot, Discours de Jacques (Denys) bar Salibi à l'intronisation du patriarche Michel dans Journal Asiatique, xe série, t. IX, 1908, p. 87-115. Uma homilia contra os que ficam mais de quarenta dias sem receber o sacramento da eucaristia encontra-se no ms. de Florença Mediceum oriental. 40. — 6. Comentários sobre os Padres: a lista publicada por J. S. Assémani cita os três Capadócios, o Pseudo-Areopagita, Severo de Antioquia e Pedro de Calínico; resta-nos apenas um comentário sobre os cânones de Penitência de Evágrio, e um curioso — 7. Manual destinado a ensinar aos fiéis como devem declarar seus pecados e aos sacerdotes quando e como absolverão seus penitentes. J. S. Assémani publicou quase todo este pequeno tratado, Bibliotheca Orientalis, t. ii, p. 172-173. — 8. Uma explicação da liturgia eucarística, escrita entre 1166 e 1171, na qual as considerações dogmáticas se misturam ao comentário das cerimônias e orações, editada e traduzida em latim por J. Labourt, Corpus scriptorum christianorum orientalium, Scriptores syri, sér. II, t. xciii, Paris, 1903, depois de ter sido analisada na Bibliotheca Orientalis, t. ii, p. 176-207.

Esta obra, corrigida nas passagens expressamente monofisitas, circulou entre os maronitas, inserida como livro II no tratado sobre o sacerdócio atribuído a João Maron. Essa recensão foi traduzida em latim por José-Luís Assémani, Codex liturgicus Ecclesiae universae, livre IV, t. v, Roma, 1752, p. 227-297. Uma recensão breve desse comentário existe numa tradução árabe executada na segunda metade do século XV por Moisés ibn 'Atâsah, ms. Vaticano árabe 74, f. 161-210. Pode-se aproximar desse importante tratado uma explicação dos mistérios do santo crisma, que possuímos em tradução árabe no ms. Vaticano siríaco 159, f. 288v°-290v°. Em contrapartida, os comentários das ordenações inseridos no pontifical jacobita, Vaticano siríaco 51, f. 107v°-109v°, e que J. S. Assémani atribuía a Dionísio, Bibliotheca Orientalis, t. ii, p. 171 (com um erro de impressão Ecchellensis 5 em vez de 4), parecem pertencer a Moisés bar Képha, como foi proposto na Bibliothecae Vaticanae catalogus, t. ii, Roma, 1758, p. 322.

III. Doutrina. — À falta da profissão de fé de Bar Salibi e de suas explicações dos símbolos, que são inéditas, temos uma breve exposição de sua doutrina nas trinta e uma primeiras seções de sua introdução ao comentário dos Evangelhos, edit. I. Sedlacek e J.-B. Chabot, Corpus scriptorum christianorum orientalium, Scriptores syri, sér. II, t. xcviii, Paris, 1906. Além disso, J. S. Assémani, analisando as obras de Bar Salibi, anotou, Bibliotheca Orientalis, t. ii, p. 158-169, os pontos de doutrina mais importantes. Deus é eterno, conhecido do homem pela Revelação, mas também pela razão, que o apreende como causa do universo. Há um só Deus; mas, superior às outras criaturas, que são compostas de duas substâncias, matéria e forma, ele é três subsistências, qnômê, sendo o Pai causa natural do Filho, a quem faz nascer ab œterno, e do Espírito, que também faz proceder de si ab œterno. Tendo o homem caído no pecado, Deus veio à terra para libertá-lo. Foi o Filho que se encarnou, e não o Pai ou o Espírito, a fim de que as propriedades das pessoas não fossem viciadas, pois o Pai gera, o Filho é gerado, o Espírito Santo procede; convinha, portanto, que o Filho gerado se encarnasse e nascesse. Não foi, pois, a vontade de Deus que habitou no seio da Virgem, mas o Verbo. O Verbo não foi maculado pelo contato da carne, assim como não é maculado ao formar cada dia no seio das mães aqueles que elas hão de dar à luz, pois Deus está igualmente distante e próximo de todas as criaturas e não é maculado pelo contato de nenhuma delas.

Sobre o momento da Encarnação, Bar Salibi toma partido contra Filoxeno de Mabboug. Este pensava que o Verbo de Deus só esteve presente no seio da Virgem a partir do quadragésimo dia depois da concepção, crendo aliás que as almas humanas só vinham habitar nos corpos nesse momento. Bar Salibi critica essa opinião e se pronuncia, seguindo a doutrina dos Padres gregos, pela presença do Verbo a partir da concepção, cf. Bibliotheca Orientalis, t. ii, p. 158 sq. Entre a morte de Cristo e sua ressurreição, a divindade permaneceu unida, de um lado, à sua alma e, de outro, ao seu corpo, embora ambos estivessem separados, p. 168. — Cristo, ao se encarnar, uniu-se ao corpo humano tal como era antes do pecado de Adão; esse corpo era, como pensa a maioria dos doutores gregos e siríacos contra Filoxeno, mortal por natureza, tendo Adão recebido a imortalidade, a princípio, apenas como um favor sobrenatural, p. 169. Os santos ainda não gozam do paraíso, mas somente da felicidade que nossos primeiros pais tinham no paraíso terrestre; todas as almas dos justos entrarão juntas no céu por ocasião da ressurreição universal, p. 166. Por fim, J. S. Assémani assinala um erro sobre a eucaristia, p. 191: em certas passagens, parece que Bar Salibi admite a união hipostática do pão e do vinho à pessoa do Verbo. Mas há outras passagens, op. cit., p. 178, nas quais a conversão do pão e do vinho no corpo e no sangue do Salvador é francamente expressa. A opinião exata de Bar Salibi não aparece com clareza. Importa notar, para terminar, que Bar Salibi é um dos autores jacobitas cuja influência mais se manteve ao longo dos séculos; seus comentários sobre o Novo Testamento, em particular, não cessaram de ser copiados ou utilizados nas cadeias.

Uma das raríssimas obras antigas impressas no Oriente é uma versão árabe, aliás modificada, de seu comentário aos Evangelhos, cuja primeira parte (Mateus e Marcos) foi publicada no Cairo sob o título « o livro intitulado a pérola incomparável, que é o comentário do Novo Testamento » (em árabe). Nos repertórios alfabéticos, procurar antes sob a palavra « Dionísio ».

R. Duval, La littérature syriaque, 3e édit., Paris, 1907, p. 399 sq.; W. Wright, A short history of syriac Literature, Londres, 1894, p. 246-250; A. Baumstark, Geschichte der syrischen Literatur, Bonn, 1922, p. 295-297; U. Chevalier, Répertoire des sources historiques du moyen âge, Bio-bibliographie, Paris, 1903-1904, t. i, col. 1177.

E. Tisserant

Autor original: E. Tisserant

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