OPTATO DE MILEVE (SÃO)

OPTATO DE MILEVE (SÃO)

OPTATO DE MILEVE (SÃO), assim chamado da cidade de Mileve (Mila), na África, século IV. À frente de uma obra que se propõe responder às dificuldades levantadas pelos donatistas contra os católicos, lê-se, nos melhores manuscritos, este simples título: Optati Milevitani libri numero VII. Os outros títulos que se encontram — De schismate donatistarum, Contra Parmenianum donatistam — são de invenção moderna.

I. O personagem. A pessoa desse Optato de Mileve é pouco conhecida. São Jerônimo, sua primeira testemunha, escreve dele, em 392: Optatus Afer episcopus Milevitanus ex parte catholica scripsit Valentiniano et Valente principibus adversus donatianæ partis calumniam libros sex, in quibus asserit crimen donatianorum in nos falso retorqueri. De vir. ill., 110, P. L., t. XXIII, col. 705. Santo Agostinho o menciona em diversas ocasiões e fala dele e de sua obra com estima; por exemplo: Legant qui volunt quæ narret et quibus documentis quam multa persuadeat venerabilis memoria: Milevitanus episcopus catholicæ communionis Optatus. Cont. epist. Parmeniani, III, 5, 1, P. L., t. XLIII, col. 37; cf. De doctrina christiana, II, 61, t. XXXIV, col. 63; De unit. Eccles., XIX, 50, t. XLIII, col. 430. Ele explorou abundantemente sua obra na controvérsia antidonatista; os próprios donatistas a ela se referiram amplamente na conferência de 411. Brevic. collat., III, L, XX, 38, ibid., col. 647; Ad donat. post collat., XXXI, 54, ibid., col. 685; Augustin., Epist., CXLI, 9, t. XXXIII, col. 581. Um século mais tarde, São Fulgêncio de Ruspe compara Optato de Mileve a Agostinho de Hipona e a Ambrósio de Milão. Ad Monim., II, 13, 15, t. LXV, col. 193, 195.

Mas, por mais precisas que sejam, essas informações são pouco explícitas. Delas se tirará que Optato era bispo de Mileve (hoje Mila, a uns trinta quilômetros a noroeste de Constantina), na segunda metade do século IV; segundo toda verossimilhança, morreu em 392; Agostinho certamente não o conheceu vivo. Como a data da composição de sua grande obra pode se fixar por volta de 366, e como nesse momento ele já é bispo há vários anos, é preciso fazê-lo nascer por volta de 320. É tudo o que se pode dizer dele.

II. A obra. 1º Estado do texto. Em sua forma atual, a obra de Optato comporta sete livros; mas vimos que São Jerônimo conhecia apenas seis. O livro VII, aliás, deixa-se separar com bastante facilidade dos seis primeiros, e dá, a uma primeira leitura, a impressão de não ter sido redigido de um só jato. Os materiais que o compõem não são homogêneos e, em sua bela edição, E. Du Pin já havia relegado a apêndice três longos trechos que lhe pareciam, com toda evidência, interpolados. Cf. em P. L., t. XI (que reproduz essa edição), col. 1098, 1101, 1104, trechos que estão destacados da col. 1083 B, 1084 B, 1085 A. P. Monceaux propôs, a respeito da composição desse livro VII, uma hipótese que explica bastante bem a contextura atual. Posteriormente à primeira aparição da obra, algumas críticas foram feitas a ela no campo donatista. Para lhes responder, Optato empreendeu uma revisão de seu trabalho.

Por um lado ele retocou um certo número de passagens nos m seis primeiros livros, completou por exemplo, l. II, c. et iv, as duas listas dos papas e dos bispos donatistas de Roma; por outro lado começou a redação de um suplemento no qual queria insistir sobre um aspecto novo da questão. Mas não teve tempo de aperfeiçoar sua redação. Essa nova edição que ele havia empreendido foi publicada por outro clérigo de seu círculo, executor testamentário ou mandatário benévolo. Infelizmente, o discípulo traiu o mestre crendo servir à sua memória. Vários trechos do Apêndice foram inseridos no livro III ou em outro lugar, continuando ao mesmo tempo a figurar no livro VII xn = VII (III, v: ver o aparato crítico da edição Ziwsa, p. 99, l. 10, e a nota a de P. L., col. 1093). Outros trechos, sobretudo o c. i, foram pesadamente interpolados (são os trechos indicados acima segundo E. du Pin). Essas interpolações devem ser muito antigas, pois se encontram em todos os nossos manuscritos. Como a maioria das transposições, são provavelmente obra do clérigo africano que deu a segunda edição. Daí o aspecto incoerente do l. VII, mistura de fragmentos autênticos, de trechos utilizados em outro lugar e de amplificações parasitas.

«A incoerência vem simplesmente das circunstâncias da publicação: Optato não pôde realizar seu projeto, e esta segunda edição que preparava foi dada por um discípulo tão inábil quanto pouco escrupuloso.» P. Monceaux, Histoire littéraire de l'Afrique chrétienne, t. v, p. 255-256.

2° Ocasião. A data dessa revisão pode ser fixada por volta de 385, pois a lista dos papas de Roma menciona Sirício, que sucedeu a Dâmaso em dezembro de 384. Quanto à data da primeira, P. Monceaux reduziu bem os dois termos entre os quais os críticos anteriores a situavam, ou seja, 363-378 (reinado comum de Valente e de Valentiniano); ele chega, por considerações muito justas, a atribuir a composição da obra aos anos 366-367. Op. cit., p. 249. Tal como se apresenta, essa primeira edição de 366-367 se apresenta como uma resposta ao chefe do donatismo, Parmeniano, bispo de Cartago.

Este, retornado à África em 362, no dia seguinte ao rescrito de Juliano que anulava a sentença de proscrição pronunciada por Constâncio, havia reorganizado a Igreja dissidente, muito maltratada pelo filho de Constantino. Ao mesmo tempo, numa série de panfletos contra «a Igreja dos traditores», havia atacado violentamente os católicos. A obra de Optato de Mileve propõe-se a replicar às acusações feitas pelo prelado donatista, I, vi, P. L., t. xi, col. 895; ed. Ziwsa, p. 8, sem no entanto se obrigar a seguir sempre a mesma ordem que este último. Tanto mais que, resolvido a elevar o debate, o bispo de Mileve queria discutir o conjunto do sistema donatista; nada valia mais, pensava ele, do que uma franca explicação para suprimir na África essa penosa divisão que durava havia mais de meio século.

Esses diversos pontos de vista se entrelaçam, portanto, no tratado de Optato: resposta às calúnias dos donatistas, discussão teológica das pretensões cismáticas, convite à união.

3° Análise. Por mais claramente indicada que esteja, I, vu, col. 896, p. 9, a divisão de Optato talvez não tenha todo o rigor lógico que o autor promete, e isso se deve precisamente aos diversos pontos de vista nos quais ele se coloca sucessivamente. Após uma observação preliminar sobre dois erros de detalhe de Parmeniano, que havia qualificado de pecadora a carne de Cristo, I, vin, col. 897, p. 9, e havia fingido confundir os hereges com os cismáticos, I, ix-xn, col. 898-908, p. 10-15, o bispo católico entra no âmago de seu assunto.

O prelado donatista fingia considerar os católicos como cismáticos. De posse dos documentos, Optato vai demonstrar que os cismáticos são propriamente os donatistas. A própria história dos acontecimentos ocorridos em Cartago no dia seguinte à grande perseguição é reconstituída por Optato com a ajuda de um dossiê cujas peças haviam sido reunidas anteriormente, e do qual ele possuía ao menos uma parte. Cf. Monceaux, op. cit., p. 269-276. Essa história mostra que os autores do cisma eram eles próprios traditores; que esses traditores opuseram, sem nenhuma razão legítima, Majorino ao bispo de Cartago, Ceciliano, e que os julgamentos por eles proferidos contra os católicos se aplicam com toda exatidão a eles mesmos. Assim o livro I de Optato constitui uma fonte importante da história das origens do donatismo.

O livro II se refere mais à teologia, pois tende a decidir, em nome dos princípios, entre as duas Igrejas que, na África, reivindicam a obediência dos fiéis. Segundo o testemunho da Escritura, a verdadeira Igreja deve se reconhecer por sua universal difusão. Ora, confinada a um canto da África, a Igreja donatista não poderia pretender possuir esse caráter, II, i; em vão também reivindica a posse dos dotes: cathedra, angélus, Spirilus, Jons r sigillum, que, segundo o próprio Parmeniano, são a marca da autêntica Igreja de Cristo. Nem os donatistas têm a união com a cátedra de Pedro, estabelecida em Roma, e centro mesmo da unidade in qua una ab omnibus : cathedra unitas servarelur, II, n, col. 947, p. 36; nem eles têm, em cada uma de suas comunidades, «o Anjo do batismo, o qual está em ligação» necessária com as «cátedras» autênticas, II, vtr col. 958, p. 42. Desde então eles não podem ter tampouco o Espírito Santo, vu, col. 959, p. 43, nem a fonte de água viva, nem o selo de santificação, vin, col. 961, p. 44.

Observar-se-á que a demonstração da legitimidade da Igreja católica por suas notas ou caracteres coincide apenas parcialmente com aquela que instituem os apologistas modernos. Descobrir-se-ia nela, no entanto, o esboço dos desenvolvimentos atuais sobre a catolicidade, a unidade, a apostolicidade e a santidade que deve possuir a verdadeira Igreja. Mas Optato ainda é bastante inábil no manejo dessa argumentação, e seu livro II logo se volta para o relato das violências cometidas pelos donatistas contra os católicos.

O livro III se move na mesma ordem de ideias, sendo a apologia, pela história, das iniciativas tomadas pelo governo imperial para restabelecer na África a unidade religiosa.

Embora reconhecendo que os artífices dessa política tiveram por vezes a mão pesada, ab operariis unitatis multa quidem aspere gesta sunt, III, i, col. 987, p. 67, Optato observa que, se sofreram, os donatistas só a si mesmos devem culpar. São eles que, primeiro, solicitaram nessas querelas a intervenção do Estado; é a sua indisciplina, são as suas violências e os seus atentados, depois de terem sido rejeitados em suas reivindicações, que atraíram sobre eles a vindita das leis. Em vão se fariam passar por mártires.

Quanto aos católicos, que os sectários pretendiam tratar como pecadores cuja oblação não merece senão desprezo, o livro IV empreende mostrar que não merecem semelhante reprovação. Os pecadores são, ao contrário, os cismáticos, e os textos sagrados alegados por estes se voltam contra eles mesmos.

Muito mais importante aos olhos do teólogo revela-se o livro V, relativo à questão do batismo e das condições de sua validade. Fiéis à velha doutrina africana que santo Cipriano havia tão infelizmente defendido, os donatistas consideravam nulo o batismo conferido fora da Igreja verdadeira, isto é, fora da sua, e reiteravam o batismo aos católicos que, de boa vontade ou por força (este último caso não era raro), vinham à sua comunhão. Desde o concílio de Arles de 314, os católicos africanos haviam aderido, ao contrário, à velha doutrina romana que reconhecia, sob certas condições, a validade do batismo conferido pelos dissidentes. De Africa autem, quod propria lege sua utantur, ut rebaptizent, placuit, ut, ad Ecclesiam si aliquis hæreticus venerit, interrogent eum symbolum, et si perviderint eum in Patre et Filio et Spiritu Sancto esse baptizatum, manus tantum et imponatur; quodsi interrogatus symbolum, non respon­derit Trinitatem hanc, merito baptizetur. Texto em Ziwsa, App., p. 208.

Optato assimilou muito bem os argumentos que militam a favor da doutrina romana. Na colação do sacramento, não é à pessoa do ministro que se deve atentar; os efeitos maravilhosos que ele opera e que Optato descreve com complacência não podem ser atribuídos senão à ação de Deus: Quis fidelium nesciat singu­lare esse baptisma virtutum : criminum mortem, vitam, nativitatem immortalem, cælestis regni comparatio­nem, innocentiæ portum, peccatorum naufragium : has res unicuique credenti non ejusdem rei operarius, sed credentis fides et Trinitas praestat. V, i, col. 1047, p. 121. Cf. viii, col. 1058, p. 134, onde o ministro do batismo é comparado ao fabricante de púrpura, que não produz por si mesmo a preciosa cor, mas é obrigado a tomá-la de empréstimo aos moluscos marinhos: si igitur operarius iste per tactum solum dare colorem non potest, sic nec operarius baptismatis ex se sine Trinitate dare aliquid potest.

A ação de Deus está ligada à invocação do nome das três pessoas da Trindade, diríamos hoje à observância dos ritos prescritos. Mas as disposições pessoais daquele que se submete a esses ritos também entram em consideração: Restat jam de credentis merito ali­quid dicere, viii, cujus est fides, col. 1060, p. 137. Por onde se vê que Optato estabelece, com um começo de exatidão, os princípios relativos à eficácia dos sacramentos que santo Agostinho não tardará a desenvolver. Compreende-se então a aspereza com que condena a prática donatista da rebatização, sem suspeitar que ela podia reclamar o patrocínio de santo Cipriano.

As sacrílegas violências de que os donatistas se utilizaram para impor seu batismo aos católicos já batizados não são, infelizmente, as únicas que se podem imputar a eles. O livro VI acumula os relatos dos múltiplos atentados contra as coisas santas e as pessoas consagradas a Deus de que os donatistas se tornaram culpados, muito especialmente desde seu retorno sob Juliano, o Apóstata; altares e cálices quebrados (notar de passagem o que se diz dos altares in quibus et vota populi et membra Christi portata sunt, VI, i, col. 1065, p. 142), virgens sagradas constrangidas, após penitência, a uma nova profissão religiosa, livros sagrados roubados assim como os objetos de culto, cemitérios tirados dos católicos. Sente-se passar nessas páginas a indignação do autor, à lembrança de acontecimentos muito recentes dos quais foi testemunha.

Mas o que, talvez, lhe toca ainda mais o coração é o sucesso que a propaganda donatista encontrou nos meios católicos, a penosa transformação que operou naqueles que se deixaram seduzir: ex ovibus subito facti sunt vulpes, ex fidelibus perfidi, ex patientibus rabidi, ex pacificis litigantes, ex simplicibus seductores, ex verecundis impudentes, feroces ex mitibus, ex innocen­tibus malitiæ artifices. VI, viii, col. 1080, p. 155.

Já nos explicamos acima sobre a maneira como nasceu o livro VII. É um conglomerado de trechos de origem diversa. O início (uma vez retiradas as interpolações indicadas mais acima) é um protesto de benevolência dirigido por Optato aos dissidentes; a Igreja católica está pronta a acolhê-los hoje, como estava pronta a acolher seus antepassados da primeira geração. (O interpolador inseriu nessas declarações uma desculpa em boa forma da conduta dos traditores, que destoa singularmente.) Após o convite de Optato vêm «três pequenas dissertações sem vínculo entre si, destinadas provavelmente a serem inseridas em outras partes da obra: duas discussões sobre a interpretação dos textos bíblicos recentemente alegados pelos donatistas, e uma apologia de Macário, o terrível artífice da unidade, que os dissidentes reprovavam aos católicos por terem admitido à comunhão.» Monceaux, op. cit., p. 263.

4° Valor. Como já indicamos, a parte dedicada à teologia na obra de Optato não é muito considerável. Sublinhamos de passagem o esboço que ele dá de uma teoria das notas ou caracteres da verdadeira Igreja e o início de uma discussão sobre a eficácia dos sacramentos. Tudo isso precisará ser retomado, completado, precisado, assim como as ideias por ele formuladas sobre a repressão da heresia pela violência. Sobre esse último ponto o pensamento de Optato ainda hesita.

O bispo de Mileve gostaria de deixar ao Estado somente a responsabilidade das medidas coercitivas tomadas contra os dissidentes; ele percebe bem que há no emprego da violência, mesmo ao serviço da verdade, algo que não está inteiramente de acordo com o espírito do Evangelho. Ele alega, a favor das severidades postas em prática pelos «artífices da unidade», circunstâncias atenuantes: no fundo, foram os donatistas que começaram. Não deixa, no entanto, de considerar que a severidade por vezes teve bons resultados, e que ela é, por conseguinte, menos odiosa do que pareceria a princípio. Arguistis operarios unita­tis : si ipsam unitatem improbare, potestis ! Nam aestimo vos non negare unitatem summum bonum esse. Quid nostra, quales fuerint operarii, dummodo quod operatum bonum esse constet ? Nam vinum a et peccatoribus operariis et calcatur et premitur et sic inde Deo sacrificium offertur... III, iv, col. 1012, p. 85. Santo Agostinho, na segunda fase de sua luta contra o donatismo, reconhecerá a si mesmo nesses pensamentos.

É sobretudo como historiador que Optato apresenta interesse. Sua sinceridade e sua boa-fé, postas em dúvida muito imprudentemente pelos críticos alemães D. Vælter e O. Seeck, foram magistralmente demonstradas por L. Duchesne. Preocupado em opor aos documentos mais ou menos apócrifos, frequentemente alegados pelos donatistas, peças de autenticidade verificada, Optato se aplicou a reunir um dossiê do donatismo o mais completo possível, e desse dossiê ele se serviu com muita habilidade.

Insuficiente e apresentando graves lacunas para o período das origens do cisma (Optato, por exemplo, não conhece a existência do concílio de Arles), a documentação de Optato é muito mais completa para a época seguinte. O bispo de Mileve havia sabido reunir, sobre esse tempo, um conjunto de peças do mais alto interesse: editos imperiais, cartas e relatórios dos governadores, peças judiciárias, atas dos concílios donatistas, mandamentos e cartas pastorais dos bispos dissidentes, etc. A esses documentos escritos, aos quais ele remete frequentemente, acrescentavam-se os testemunhos orais e as lembranças pessoais do autor.

Compreende-se o alto valor de um escrito apoiado em tal massa de provas. L. Duchesne e P. Monceaux o puseram admiravelmente em evidência; desde seus trabalhos, não há mais razão para se ater às objeções que uma crítica um pouco apressada havia acumulado contra a obra de Optato. Sem dúvida as pesquisas posteriores de Agostinho, na época da grande conferência de 411, conseguiram esclarecer melhor uma história que foi, desde as origens, infinitamente complicada, mas foi tomando como ponto de partida a obra do bispo de Mileve que o bispo de Hipona chegou a esse resultado. Como diz muito justamente P. Monceaux, Agostinho «aperfeiçoou a máquina de guerra, mas essa máquina havia sido concebida, executada, posta em movimento, por Optato de Mileve, que nesse domínio foi o precursor e o mestre de Agostinho.» Op. cit., p. 306.

5° Um sermão recentemente descoberto de Optato. Em 1917, dom G. Morin publicou, em apêndice a uma coletânea de sermões inéditos de santo Agostinho, um sermão, De natale Domini, que atribuía hipoteticamente a Optato de Mileve: S. Aurel. Augustini tractatus sive sermones inediti, Kempten e Munique, 1917, p. 167-178, cf. p. iii. Esse sermão foi publicado segundo um ms. de Wolfenbüttel do século ix.

Em 1922, utilizando um ms. de Fleury-sur-Loire do século viii (hoje em Orléans, bibliot. mun., n. 131), dom A. Wilmart deu uma recensão melhor desse texto e se pronunciou com muita decisão a favor da atribuição a Optato. Texto em Revue des sciences religieuses, 1922, t. ii, p. 282-291; o estudo precede e segue o texto, p. 271-302. O sermão não se destina, como pareceria a princípio, à festa dos Santos Inocentes, mas sim à de Natal. Ele é expressamente atribuído a Optato pelo ms. de Fleury, e não só nada no texto se opõe a essa atribuição, mas a comparação com a língua e as ideias do tratado contra os donatistas é extremamente favorável a essa ideia.

Numa nota da Revue bénédictine, 1923, t. xxxv, p. 24-26, dom A. Capelle forneceu um confirmatur a essa demonstração. Ela não convenceu A. Pincherle, Un sermone donatista attributo a S. Optato di Milevi, em Bilychnis, 1923, que quis atribuir o texto a um donatista; mas esse paradoxo não tem chance de prevalecer.

I. Texto. A edição princeps foi dada em Mogúncia, em 1549, por J. Cochlaeus, segundo um único ms., aliás bastante mediocre; em 1563, F. Baudoin dá em Paris uma nova edição, que foi reeditada em 1569 (ver aqui, t. ii, col. 479), com, desta vez, o livro VII, que ainda não havia aparecido; cabe citar também a admirável edição de Ellies du Pin, Paris, 1700, e Amsterdã, 1701, reeditada com correções em Antuérpia, 1702, é ela que passou para a Bibl. vet. Patr. de Gallandi, t. v, p. 459 sq, e para P. L., t. xi, col. 883 sq. Sobre as outras edições ver Schænemann, Bibl. historico-litteraria, t. i, p. 343 sq. (reproduzido em P. L., t. xi, col. 875 sq.). A última edição crítica é a de C. Ziwsa no Corpus de Viena, xxvi, 1893; cf. do mesmo autor Beiträge zu Optatus v. Mil., em Eranos Vindobonensis, 1893, p. 174-176. Tradução francesa por P. Vieil, Paris, 1664.

A coletânea das peças justificativas diversas. A várias retomadas, Optato remete, em seu texto, a documentos que se encontrarão, diz ele, ao fim de sua obra: quorum exemplar scriptum infra est, I, xxii; volumen actorum, quod si quis voluerit, in novissimis partibus legat, I, xxvi. Um único dos mss. de Optato, o Paris. 1711 (antigo Colbert. 1951, proveniente do mosteiro de São Paulo de Cormery-sur-Indre) dá, na sequência do livro VII, uma série de documentos relativos ao primeiro período do donatismo. As duas primeiras peças se referem à Purgatio Cæciliani e à Purgatio Felicis: as outras oito são cartas, das quais seis de Constantino. Texto reproduzido em apêndice na edição Ziwsa, p. 183-216. Esse dossiê não corresponde exatamente ao que Optato cita. Segundo a estimativa de P. Monceaux, op. cit., t. v, p. 270-271 (cf. t. iv, p. 213-216), é preciso dele retirar as oito Epistulæ que só foram acrescentadas à coletânea no tempo de santo Agostinho.

Por outro lado os Gesta purga­tionis, tanto de Ceciliano quanto de Félix de Aptonga, eram muito mais volumosos do que o que se conserva no Parisinus; nesse ms. não subsiste, em suma, senão a primeira e a última peça desses Gesta. As pesquisas de L. Duchesne mostraram, aliás, que esse recueil era anterior a Optato, tendo sido compilado por um clérigo africano entre 330 e 347; Optato o anexou ao seu tratado. A autenticidade das peças é absolutamente certa. Sobre a literatura relativa a essa questão, ver abaixo.

II. Estudos. Notícias nos manuais de patrologia ou de história literária; entre os mais recentes: O. Bardenhewer, Altkirchliche Literatur, t. iii, 1912, p. 491-494; M. Schanz, Gesch. der römischen Litteratur, t. iv, 1a parte, 2a ed., 1914, § 959; P. de Labriolle, Hist. de la littér. latine chrétienne, 1920, p. 333, 393-395; mas sobretudo P. Monceaux, Histoire littéraire de l'Afrique chrétienne, t. v, 1920, p. 240-306; O. R. Vassal-Phillips, The work of St Optatus, bishop of Milevis, against the donatists, Londres, 1917.

Sobre a teologia de Optato: E. Michaud, La vieille théologie catholique d'Optat de Milève, d'après son « De schismate donatistarum », em Revue internationale de théologie, t. xvi, 1908, p. 238 sq.; P. Batiffol, Le catholicisme de saint Augustin, t. i, 1920, p. 77-108; sobre a data do tratado cf. uma nota de A. Pincherle em Ricerche religiose, t. iii, 1927, p. 110-115.

Sobre o dossiê do donatismo: D. Vælter, Der Ursprung des Donatismus, Friburgo-en-B., 1883; O. Seeck, Quellen und Urkunden über die Anfänge des Donatismus, em Zeitschr. für Kirchengesch., t. x, 1889, p. 505; Urkundenfälschungen des 4. Jahrh., I. Das Urkundenbuch des Optatus, ibid., t. xxx, 1909, p. 181; L. Duchesne, Le dossier du donatisme, em Mélanges d'archéol. et d'hist. publiés par l'École française de Rome, t. x, 1890, p. 589-650; H. Schrors, Drei Aktenstücke in betreff des Konzils von Arles. Textverbesserungen und Erläuterungen, em Zeitschr. der Savigny-Stiftung für Rechtsgesch., kanon. Abt., t. xi, 1921, p. 429-439; Norman H. Baynes, em Journ. of theol. studies, t. xxvi, 1921-1925, p. 37-44; C. Turner, Adversaria critica: Notes on the anti-donatist dossier and on Optatus, books I, II, ibid., t. xxvii, p. 283-296.

É. AMANN.

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