NICOLAI Lourenço, da Companhia de Jesus (1538-1622). Nascido em Oslo em 1538, na época em que o luteranismo já era a religião do país, foi educado nessa confissão. Estudou em Copenhague, onde obteve o grau de mestre em artes, e começou a teologia por volta de 1558, mas sem avançar muito, pois partiu logo depois para Lovaina, onde fez a conhecença dos jesuítas, que o levaram pouco a pouco ao catolicismo. Mas sua conversão não teria sido imediata, pois Nicolaí teria voltado primeiro a seu país, recebido a ordenação na Igreja luterana e assumido uma paróquia em 1562; mas tudo isso não tem nada de certo. Em 1563, está de novo em Lovaina, entra na Companhia de Jesus em 2 de fevereiro de 1564, é ordenado sacerdote em 1565, e permanece ainda algum tempo no colégio de Lovaina.
Professo dos quatro votos em 18 de outubro de 1575, é designado pelo Padre geral, Everardo Mercuriano, para a nova missão que se pretende enviar à Suécia. As circunstâncias são favoráveis. Em parte por razões pessoais, em parte sob a influência de sua esposa Catarina Jaguelão, polonesa e católica, o rei João III medita restabelecer na Suécia a antiga religião. Em 1574, o jesuíta Estanislau Warszewicki tinha vindo a Estocolmo como enviado secreto da Santa Sé. Permanece apenas algumas semanas, mas tem tempo de perceber o que é possível fazer e, numa carta ao geral da Companhia, insiste para que se enviem à Suécia dois padres, um polonês, outro bem versado nas línguas do Norte. É assim que Nicolaí é designado para essa delicada missão; chega a Estocolmo no fim de abril de 1576 (ver A. Theiner, t. i, p. 432).
Só o rei está a par de seu caráter e de sua situação; o jesuíta se apresenta como um sábio que percorreu a Europa. Tendo sabido que o rei queria fundar um novo colégio em Estocolmo, viera oferecer seus serviços a Sua Majestade. Nicolaí é com efeito aceito como professor de teologia na nova fundação, e começa a ensinar já em julho. Compreende-se que tenha podido usar esse posto para minar habilmente as próprias bases da teologia luterana. Em breve nomeado reitor do colégio, exerceu sobre vários dos alunos uma ação pessoal considerável e os conduziu ao catolicismo. Alguns desses jovens puderam ser enviados ao Colégio Germânico de Roma; esperava-se fazer deles sacerdotes que não tardariam a voltar para reconquistar a Suécia ao catolicismo.
Ao mesmo tempo que desempenhava suas funções professorais, Nicolaí constituía-se o defensor das inovações litúrgicas do soberano, o qual se esforçava por catolicizar o culto luterano; ao mesmo tempo, tinha que manter Roma informada da situação e transmitir à Santa Sé os pedidos que o rei fazia para facilitar o retorno do país à unidade. O P. Theiner publicou algumas das cartas assim dirigidas ao geral da Companhia. Em dezembro de 1577, viu-se chegar a Estocolmo o jesuíta Possevino como enviado da Santa Sé. Desde esse momento, Nicolaí tinha se declarado abertamente; o sucesso parecia assegurado. Em maio de 1578, o rei comungou da mão de Possevino. Mas, depois da partida deste, em 20 de maio de 1578, deu-se uma reviravolta em seu espírito, sob a influência dos pastores luteranos. Um passo em falso de Nicolaí, num assunto de dispensa de casamento bastante delicado, forneceu um excelente pretexto a seus adversários. O jesuíta viu-se excomungado pelo arcebispo (luterano) de Upsala e teve que ser afastado da direção do colégio de Estocolmo. Sobre todo esse episódio, ver A. Theiner, p. 543 sq.
Por outro lado, o rei se impacientava por não receber de Roma as concessões que exigia: casamento dos sacerdotes, comunhão sub utraque, missa em língua vulgar. Quando Possevino reapareceu em julho de 1579, as coisas já estavam bem comprometidas. Cada vez mais, a opinião se levantava contra a política religiosa do rei e contra aqueles que eram seus agentes. No Pentecostes de 1580, estouraram tumultos em torno do Colégio teológico, onde Nicolaí continuava a residir; para tirar todo pretexto à agitação, o rei proibiu Nicolaí de ali pregar ou mesmo de ensinar; a direção passou às mãos de um luterano que, aliás, inclinava para o catolicismo.
Em 10 de agosto, Possevino deixava Estocolmo, levando Nicolaí e um de seus confrades, com alguns dos alunos que tinham formado. Depois de uma estada em Roma e em Viena, Nicolaí foi enviado em novembro de 1582 a Olomouc, onde teve uma situação importante no colégio dos jesuítas; em 1587, obteve o doutorado em Praga. Mas teve de voltar aos países do Norte, a Braunsberg, primeiro, depois à Dinamarca, onde tentou por volta de 1606 fundar um colégio. Morreu em Vilna em 5 de maio de 1622.
Sommervogel menciona dele: Confessio christiana de via quam christianus populus in tribus regnis septemtrionalibus, Daniae, Sueciae et Norvegiæ constanter confessus est ...usque ad Christianum III Daniae. Norvegiæque — et Gustavum Sueciae reges, in-4°, Cracóvia, 1601. Sotwel atribui-lhe também: De reformata religione christiana per ministros evangelicos introducta deliberatio, a studiosis danis et norvegis proposita professoribus Academiæ Hafniensis die 10 octobris 1602, Cracóvia, 1606.
Os historiadores protestantes atribuem-lhe também a redação do missal publicado por João III em 1576 sob este título: Liturgia Suecanæ Ecclesiæ catholicae et orthodoxae, conformis, suecice et latine, in-fol., Estocolmo, 1576; texto reproduzido em F. Münter, Magazin für Kirchengeschichte und Kirchenrecht des Nordens, t. ii, Altona, 1793, p. 19-68. Essa atribuição é totalmente inverossímil. Esse missal, que apresenta uma mistura muito característica das formas exteriores da missa romana e das orações da liturgia luterana, não pode ter sido composto pelo nosso jesuíta, nem sob sua direção, nem com sua aprovação. Aliás, a questão da data é decisiva. A. Theiner mostrou bem que, no momento em que se redigia essa liturgia, que é bem obra pessoal do rei e de seu conselheiro Fechten, o P. Nicolaí se preparava em Lovaina para pronunciar seus votos solenes. Haveria interesse em reencontrar uma Confessio fidei synodi Upsalensis in regno Sueciæ, A. D. 1593 celebratæ, que é, sem dúvida, a crítica da confissão de fé que pôs fim às tentativas de romanização na Suécia. Este ms. figurava antigamente na biblioteca Zaluski. J. Baazius, Inventarium Ecclesiæ Sveo-Gothorum, Linköping, 1642, todo o l. III, e particularmente c. xxvi sq.; Sacchini, Historia societatis Jesu, pars IV, sive Everardus, Roma, 1652; L. Maimbourg, Histoire du luthéranisme, Paris, 1680, l. VI, perto do fim; Pufendorf, Histoire de Suède avant et depuis la fondation de la monarchie, trad. fr., Amsterdã, 1732, t. ii, p. 80 sq.; J. N. Schrökh, Christliche Kirchengeschichte seit der Reformation, Leipzig, 1805, t. iv, p. 359; Aug. Theiner, Schweden und seine Stellung zum heiligen Stuhl unter Johann III., Sigismund III. und Karl IX., Augsburgo, 1838, 2 vol., dos quais o 2° contém sobretudo documentos, obra plena de coisas, mas extremamente intricada, ver sobre Nicolaí, t. i, p. 421 sq., 431, 433, 438 sq., 442, 446 sq., 450, 463, 496, 543-546, 585 sq., 606, 655, 657; t. ii, p. 3, 25 e, entre os documentos, p. 147-149; H. Biaudet, Le Saint-Siège et la Suède durant la seconde moitié du XVIe siècle, t. i, Origine et époque des relations non officielles (1570-1576), Paris, 1907, completado por um vol. de peças justificativas, com o subtítulo Notes et documents, obra capital que infelizmente não foi continuada.
Além dessas obras gerais, ver as diversas Bibliothèques de la Compagnie de Jésus, em particular Sommervogel, t. v, col. 1707; e duas monografias, uma protestante, A. Brandrud, Klosterlasse, et Bidrag til den jesuistiske propagandas historie i Norden, Kristiania, 1895, a outra católica, A. Perger, S. J., Jesuitpateren Laurits Nielssen, saakaldt Klosterlasse, Kristiania, 1896. Reunimos essas diversas informações em nosso artigo, Un jésuite professeur de théologie luthérienne à Stockholm en 1576, na Revue des sciences religieuses, 1929, t. ix, p. 188-210.
É. Amann.
NICOLAÍTAS, seita herética da época apostólica. Esta seita é muito mal conhecida; as informações fornecidas sobre ela apresentam contradições bastante notáveis. Convém, pois, reunir e classificar primeiro os documentos que falam dela, e fazer depois a crítica das informações assim obtidas.
— I. Documentos que a ela se referem. 1° Sagrada Escritura. O nome dos nicolaítas encontra-se duas vezes nas pequenas cartas que formam o início do Apocalipse. A carta ao anjo da Igreja de Éfeso felicita-o por odiar as obras dos nicolaítas: τοῦτο ἔχεις ὅτι μισεῖς τὰ ἔργα τῶν Νικολαϊτῶν, ἃ κἀγὼ μισῶ, Apoc. ii, 6.
O anjo da Igreja de Pérgamo, ao contrário, não parece ser bastante firme em sua luta contra eles: "Tenho contra ti, diz o Senhor, algumas pequenas coisas: pois tens aí gente que mantém a doutrina de Balaão, o qual mostrava a Balac o meio de colocar uma pedra de escândalo diante dos filhos de Israel, para (fazê-los) comer dos sacrifícios dos ídolos e (fazê-los) fornicar. Semelhantemente tens também tu gente que se apega à doutrina dos nicolaítas", οὕτως ἔχεις καὶ σὺ κρατοῦντας τὴν διδαχὴν τῶν Νικολαϊτῶν ὁμοίως, ibid., v. 14-15.
Desses dois trechos aproximou-se, não sem razão, a carta à Igreja de Tiatira, que vem imediatamente depois da precedente. O anjo dessa comunidade é censurado por sua falta de energia em relação a uma mulher, Jezabel, que se diz profetisa, que "doutrina" (διδάσκει) e faz errar os servos de Jesus, ensinando-lhes a fornicar e a comer dos sacrifícios dos ídolos, πλανᾷ τοὺς ἐμοὺς δούλους πορνεῦσαι καὶ φάγειν εἰδωλόθυτα, v. 20. Ela e seus partidários serão duramente castigados; quanto aos outros fiéis de Tiatira "que não aderem a essa doutrina e que não conhecem as profundezas de Satanás, como dizem", οἵτινες οὐκ ἔγνωσαν τὰ βαθέα τοῦ Σατανᾶ, ὡς λέγουσιν, v. 21, o Senhor não lhes quer impor outro fardo.
A aproximação entre a mulher Jezabel (com seus partidários) e os nicolaítas visados na carta à Igreja de Pérgamo justifica-se pelo fato de que, de um lado e de outro, enuncia-se a mesma queixa. Em Tiatira, como em Pérgamo, difunde-se um ensinamento, διδαχή, que justifica a "fornicação" e a manducação dos sacrifícios dos ídolos ou carnes imoladas aos ídolos. A estas poucas frases se reduzem as indicações do Novo Testamento que se referem diretamente
Autor original: É. Amann.
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