NICODEMOS HAGIORITA (1748 ou 1749-1809). — I. Vida. Canonista, liturgista, hagiógrafo, autor ascético, editor, Nicodemos é um dos mais fecundos autores, e certamente o monge mais laborioso de que se possa gloriar a Igreja grega desde há vários séculos. Nascido em Naxos, de onde vem também sua denominação de ὁ Νάξιος, recebeu no batismo o nome de Nicolau.
Aos dezesseis anos, foi estudar em Esmirna. Deixou essa cidade para voltar à sua pátria, a fim de evitar as represálias turcas que se seguiram à vitória dos russos em 1770. Vai depois a Hidra, onde o encontro com Mácario de Corinto é um primeiro marco de sua carreira literária. Em 1775, dirige-se ao monte Atos e toma o hábito no mosteiro de Dionísio.
Em 1777, Mácario de Corinto vem ao monte Atos e pede a Nicodemos que revise sua Filocalia. Nicodemos aceita e compõe, além disso, o prefácio e as notícias dos Padres. Revisa também o Evergetinós, publicado em 1783. Fez mais ainda pelo Encheirídion de Mácario, em favor da comunhão frequente, que acabara de aparecer em Veneza em 1777. Reelaborou-o e aumentou-o consideravelmente. Esta nova edição apareceu em Veneza em 1783, sem nome de autor, como a primeira, mas com um título diferente.
É sob essa forma que o livro foi condenado em 1785 por Procópio de Esmirna como contrário à lei e escandaloso. Diante da resistência dos monges do Atos, o decreto foi anulado por Neófito durante seu primeiro patriarcado (1789-1794). Na controvérsia dos cólibas, Nicodemos tomou partido pela manutenção da tradição que fixava sua celebração no sábado.
Em 1778, depois de um ano passado em Skyropoula sob a direção de Arsênio o Peloponésio, volta ao Atos e reveste o grande hábito. Estabelece-se num eremitério no alto de Kyriakou. Em 1784, nova visita ao Atos de Mácario de Corinto, à qual se liga a preparação da edição das Obras de Simeão o Novo Teólogo e de diversas outras obras.
Nosso laborioso monge é depois chamado a Salônica por Atanásio de Paros para preparar a edição das obras de Gregório Pálamas. O trabalho, enviado a Viena, não pôde ver a luz; a tipografia acabara de ser suprimida por medida política, por ter publicado um panfleto que incitava os cristãos do Oriente a se revoltarem contra o jugo turco.
A visita ao Atos de Agápio Leonardos, que lhe trouxe sua Syllogè pántōn tōn hierôn kai theíōn kanónōn, recentemente publicada em Veneza em 1787, é para Nicodemos a ocasião de um novo e muito importante trabalho, pelo qual se interessam, a julgar pela lista dos subscritores, não só o monte Atos por inteiro, mas a própria Grande Igreja, as ricas cristandades da Moldávia e os longínquos mosteiros da Palestina. Refiro-me ao Pedálion, coletânea dos cânones da Igreja grega, acompanhada de comentários e numerosas notas. Agápio e Nicodemos trabalharam nele em conjunto.
Teve-se muita dificuldade para obter a aprovação patriarcal, que só foi concedida após exame e correções, por parecer do sínodo, feito pelo didascalo e hierocérix Doroteu. Essa aprovação dava um caráter oficial à publicação. Por infelicidade, o monge a quem se havia encarregado de vigiar a impressão não compartilhava a opinião dos dois autores sobre os cólibas, cuja querela estava apaziguada havia mais de quinze anos. Além disso, tinha certas ideias pessoais que lhe interessava propagar. Permitiu-se, sem avisar ninguém, correções e acréscimos, que suscitaram um clamor geral no Atos quando o livro apareceu, e afligiram muito o bom Nicodemos.
A vida de nosso monge acabou de escoar-se no Atos, em diversas estadas, na composição ou na edição de numerosas obras. O fim dela foi entristecido pelo decreto promulgado em 1807 por Gregório V, que resolvia definitivamente a querela dos cólibas no sentido da liberdade. Nicodemos escreveu então sua Apología písteōs, opúsculo em que defende várias de suas opiniões. A questão dos cólibas ocupa mais da metade dele. Nessa mesma apologia, repele a calúnia de vários que o acusam de pensar que o corpo e o sangue do Salvador na eucaristia são passíveis e corruptíveis.
Este último escrito de Nicodemos só apareceu em 1819, dez anos depois de sua morte, ocorrida em 14 de julho de 1809. E é talvez em réplica a essa publicação que Gregório V, patriarca pela terceira vez, promulgou em agosto de 1819 uma nova encíclica cujo único objeto era confirmar a de 1807.
II. Obras. Várias delas foram editadas depois da morte do autor. Salvo os textos litúrgicos e certas edições de textos, estão em grego vulgar, e é isso que valeu a nosso autor seu sucesso.
1° Obras hagiográficas. 1. Néon Martyrológion, in-4°, Veneza, 1799, notícias de numerosos neomártires de 1492 a 1496; 2ª ed., in-8°, Atenas, 1856 (contém duas notícias novas). 2. Synaxaristés, Veneza, 1819, in-4°, 3 volumes, tradução da obra de Maurício, diácono, com correções, acréscimos, múltiplas notas e esclarecimentos, obra capital para o estudo da hagiografia grega. Uma primeira tradução havia sido feita outrora por Margúnios, mas tão indigesta que os monges lhe preferiam, como mais compreensível, o próprio texto original. Outras edições, Constantinopla, 1842-1846, in-8°, 13 volumes; Zante, 1868, in-4°, 3 volumes (língua retrabalhada); Atenas, 1868, in-4°, 2 volumes (língua retrabalhada); 3. Néon Eklógion, in-4°, Veneza, 1803, coletânea de Vidas de santos, das quais cerca da metade viveram depois de Fócio; 2ª edição, in-4°, Constantinopla, 1863. 4. Acoluta de São Constantino de Hidra, publicada no Néon Leimōnárion, 1819, p. 153-169. 5. Acoluta dos santos Padres do Atos, in-8°, Hermópolis (Siros), 1847. 6. Acoluta de São Cirilo de Alexandria, no Néon Leimōnárion, t. II, Hermópolis (Siros), 1856, p. 57-62. 7. Acoluta do imperador São João Vatatzés, in-8°, Constantinopla, 1872, sem valor do ponto de vista histórico. 8. Acoluta de Simeão o Novo Teólogo, in-fólio, Hermópolis (Siros), 1877. Para o título completo destas obras, ver L. Petit, Bibliographie des acolouthies grecques. A acoluta de São Fanúrio, publicada sob o nome de Nicodemos, não é dele.
2° Obras litúrgicas. 1.
Στέφανος τῆς ἀειπαρθένου ἤτοι Νέον Θεοτοκάριον (título mais conhecido), in-4°, Veneza, 1796, coletânea de 62 cânones de 22 melodistas em honra da santa Virgem; outras edições: in-4° Constantinopla, — 1849 in-fol., Veneza, 1883 in-fol.,; ; Atenas, 1906.
2. Εὐχολόγιον, Constantinopla, 1799 (segundo Sathas. O autor da Vida de Nicodemo menciona, com efeito, que Nicodemo — ἐδιόρθωσε καὶ ἐκαλλώπισε τὸ εὐχολόγιον). 3. Κανόνες ὀκτόηχοι (sic) εἰς τὸν θεόλογον Ἰωάννην ποίημα Ἰωσὴφ τοῦ ὑμνογράφου, ... καὶ ἕτεροι δύο συντεθέντες παρὰ... Νικοδήμου τοῦ Ναξίου καὶ κατ' ἀλφάβητον 24 οἶκοι ποίημα... Ἰωάννου τοῦ εὐγενικοῦ, in-8°, Leipzig, 1799 (segundo Zaviras, p. 502, cf. Échos d'Orient, t. xiii, p. 111), Ἐγχειρίδιον περιέχον τὰ ἀσματικὰ ἐγκώμια καὶ τὸν κανόνα τοῦ Ἐπιταφίου, in-4°, — Constantinopla, 1800 (segundo Vrétos, t. i, p. 133).
4. Κῆπος χαρίτων ἤτοι Ἑρμηνεία γλαφυρὰ εἰς τὰς θ' ᾠδὰς τῆς στιχολογίας, in-4°, Veneza, 1819, coletânea de comentários sobre as nove odes, seguida de peças de diferentes autores (o patriarca Caliste, José Calotetes, o patriarca — Genádio), de um epistolário e de outras coisas.
5. Ἑορτοδρόμιον ἤτοι Ἑρμηνεία εἰς τοὺς ἀσματικοὺς κανόνας τῶν δεσποτικῶν καὶ θεομητορικῶν ἑορτῶν, in-4°, Veneza, 1836. Explicação, com o auxílio dos Padres, dos cânones — para as festas do Senhor e da Mãe de Deus.
6. Νέα Κλίμαξ, ἤτοι Ἑρμηνεία εἰς τοὺς ἑβδομήκοντα πέντε ἀναβαθμοὺς τῆς Ὀκτωήχου, in-4°, Constantinopla, 1844, explicação dos anabathmos do octoeco com o auxílio de diversos autores — eclesiásticos.
3° Obras ascéticas e místicas. 1. Φιλοκαλία τῶν ἱερῶν νηπτικῶν, in-fol., Veneza, 1782, coletânea muito importante para o conhecimento da ascética grega; 2ª edição, in-4°, 2 volumes, Atenas, 1893, que contém, além disso, textos do patriarca Caliste — ausentes da primeira edição, ver t. ii, p. 412-455.
2°. Περὶ συνεχοῦς μεταλήψεως, Veneza, — 1783 (ver acima), 2ª edição, Atenas, 1887.
3. Ἀόρατος πόλεμος, Veneza, 1796, adaptação do Combattimento espiritual de Scupoli. A obra termina com uma série de orações a Cristo em forma de οἴκοι litúrgicos, dispostas em ordem — alfabética sob o título Εὐχαὶ κατὰ ἀλφάβητον.
4. Ἐπιτομὴ ἐκ τῶν προφητανακτοδαβιτικῶν Ψαλμῶν, Ἀπάνθισμα διαφόρων κατανυκτικῶν εὐχῶν, in-4°, Constantinopla, 1799. Outra edição Atenas, 1864. Esta obra contém uma antologia do Saltério e de numerosos autores (em língua ática), assim como a tradução por Demétrio Cidônio dos Solilóquios apócrifos de santo Agostinho. Tudo isso é precedido de um tratado de Nicodemo sobre a penitência (72 páginas), no qual ele trata sobretudo da contrição dos pecados, e seguido de um discurso — sobre o episcopado (18 páginas), também de Nicodemo.
5. Πνευματικὰ γυμνάσματα, in-4°, Veneza, 1800, composto sob a influência dos Exercícios espirituais de santo Ignácio, 2ª edição, Atenas, 1869, composta de duas partes: uma (425 páginas) consiste em 34 meditações longamente desenvolvidas, todas em três pontos; a outra (p. 426-656) compreende 30 meditações curtas, para um mês, oito exames e oito leituras. Cada uma dessas meditações curtas tem seus três pontos enunciados em algumas linhas e termina com uma reflexão para — a jornada que corresponde ao nosso buquê espiritual.
6. Ἐγχειρίδιον Συμβουλευτικόν, περὶ Φυλακῆς τῶν πέντε Αἰσθήσεων, τῆς τε Φαντασίας, καὶ τῆς τοῦ Νοὸς, καὶ Καρδίας. Καὶ περὶ τοῦ, ποῖαί εἰσιν αἱ πνευματικαί, καὶ οἰκεῖαι τοῦ Νοὸς ἡδοναί, in-4°, sine loco, 1801, principal obra ascética — de Nicodemo; 2ª edição, in-8°, Atenas, 1885.
7. Χρηστοήθεια τῶν χριστιανῶν, in-4°, Veneza, 1803, precioso para conhecer a vida dos cristãos do Oriente no tempo do autor; outras edições Hermópolis (Siros), 1838; in-8° Quios, 1887. Nesta última edição, umas quarenta — páginas foram acrescentadas que não são de Nicodemo.
8. Ὁμολογία πίστεως ἤτοι ἀπολογία δικαιοτάτη,..., in-8°, Veneza, 1819 (ver acima). — 4° Obras canônicas.
1. Ἐξομολογητάριον — este título não existe na edição primitiva, que começa assim: Βιβλίον ψυχωφελέστατον, mas encontra-se a partir da 3ª edição, in-8°, Veneza, 1794. Compreende três partes: instrução ao confessor, cânones penitenciais de João, o Jejuador, instrução ao penitente. Outras edições em 1804, apenas a 1ª parte: διδασκαλία, (Vrétos, t. i, p. 121); 3ª edição, in-8°, Veneza, 1818; 4ª edição, in-8°, Veneza, 1835; 1ª edição, 1854 (Sathas, p. 626); 8ª edição, in-8°, Veneza, 1866; outra edição, in-8°, Atenas, 1895. Além disso, esta obra foi publicada em turco (com letras grecas) pouco depois — de sua primeira edição, in-4°, Constantinopla, 1799.
2. Πηδάλιον (Gubernaculum) τῆς νοητῆς νηός, in-fol., Leipzig, 1800; a obra mais renomada de Nicodemo. Outras edições Atenas, 1841, Zante, Atenas: 1864, in-4°; 1886, in-4°. — 5° Obras escriturísticas.
1. Comentário das Epístolas de são Paulo, por Teofilato da Bulgária, traduzido para a língua vulgar e enriquecido — de numerosas notas, 3 volumes in-4°, Veneza, 1819.
2. Comentário dos Salmos por Eutímio Zigabeno, traduzido para a língua vulgar, e acompanhado de notas múltiplas, 2 volumes in-4°, Constantinopla, 1819-1821.— 3. Καθολικαὶ Ἐπιστολαί, Veneza, 1806, (segundo uma nota da Βίος ἐν συνόψει.). A Βίος καὶ πολιτεία confirma que Nicodemo fez para as sete epístolas católicas o mesmo trabalho que para as epístolas de são Paulo e o Saltério.
— 6° Edições de obras. 1. Συναγωγὴ τῶν θεοφθόγγων ῥημάτων καὶ διδασκαλιῶν τῶν θεοφόρων καὶ ἁγίων πατέρων... ἐκτεθεῖσα παρὰ Παύλου... κτήτορος μονῆς... τῆς Εὐεργέτιδος, obra conhecida e citada sob o nome de Evergetinos, in-fol. Veneza, 1783 in-4°,; Constantinopla 1861 (ver — acima a participação de Nicodemo nesta obra).
2. As Obras de Simeão o Novo Teólogo, edição em grego vulgar publicada em Veneza em 1790. A folha de rosto menciona como autor desta tradução Dionísio Zagoraios, mas Nicodemo colaborou nela, segundo o testemunho — da Βίος ἐν σύνοψει e da Βίος καὶ πολιτεία.
3. Βίβλος ψυχωφελεστάτη περιέχουσα ἀποκρίσεις διαφόροις ὑποθέσεσιν ἀνηκούσας συγγραφεῖσα παρὰ... Βαρσανουφίου καὶ Ἰωάννου, contendo no início a vida dos dois santos, in-4° Veneza, 1816. Nicodemo também preparou, além da edição malograda das obras de Palamás (ver acima), a da Ἀλφαβηταλφάβητος, poema teológico de Melécio o Confessor; ele não teve tempo de fazê-lo imprimir. O prefácio apareceu na revista Γρηγόριος ὁ Παλαμᾶς, t. v (1921), p. 576-582. A obra inteira acaba de ser publicada no Monte Atos. Uma carta de Nicodemo ao patriarca Gregório V foi publicada, ibid., t. ii, p. 435. Eis o início: "O portador, vindo da Hungria para a presente, e batizado, ou melhor dizendo καταβαπτισμένος e manchado pela mancha dos latinos, dirige-se por meu intermédio à vossa toda santa sublimidade, pedindo com fervor que seja batizado com o batismo ortodoxo da Igreja de Cristo, nossa Igreja oriental" (vê-se por esta citação que é inútil recorrer às interpolações do pouco escrupuloso Teodoritos para explicar o sentimento antilatino que anima o Πηδάλιον).
Onuphreos Iberites, Βίος ἐν συνόψει τοῦ... Νικοδήμου Ἁγιορείτου, no início da edição do Comentário das epístolas de são Paulo (1819) e reproduzida também em outros lugares; A. P. Vrétos, Νεοελληνικὴ Φιλολογία, Atenas, 1854, t. i, p. 233-234; Sathas, Νεοελληνικὴ Φιλολογία, Atenas, 1868, p. 624; Zaviras, Νέα Ἑλλάς, Atenas, 1872, p. 469-470; 500-502; Ph. Meyer, Zeitschrift für Kirchengeschichte, t. xi, p. 560 sq., 573 sq.; o mesmo, Nikodemos Hagiorites, em Realencyklopädie für protestantische Theologie, t. xiv, Leipzig, 1904, p. 62-63; L. Petit, La grande controverse des colybes, em Échos d'Orient, t. ii (1899), p. 321 sq.; do mesmo, Bibliographie des acolouthies grecques, p. xxix-xxxiv, 121 e 229-230 (descrição de algumas obras de Nicodemo); do mesmo, Macaire de Corinthe, aqui, t. ix, col. 1449-1452; Eutímio hieromonge (um contemporâneo), Βίος καὶ πολιτεία καὶ ἀγῶνες... Νικοδήμου μονάχου, texto publicado por Lavriotès, em Γρηγόριος ὁ Παλαμᾶς, t. iv, (1920), p. 636-641 e t. v (1921), p. 210-218; M. Jugie, Theologia dogmatica christianorum orientalium, t. 1, Paris, 1925, p. 530; M. Viller, Nicodème l'Hagiorite, na Revue d'ascétique et de mystique, t. v (1924), p. 174-177; Legrand-Petit-Pernot, Bibliographie hellénique du XVIIIe siècle, II parte, descrição de algumas obras de Nicodemo, ver no índice onomástico. — V. Grumel.
Autor original: V. Grumel.
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