NEUMAYR (FRANCISCO)

NEUMAYR (FRANCISCO)

NEUMAYR Francisco, da Companhia de Jesus (1697-1765). Nascido em Munique a 17 de janeiro de 1697, entrou no noviciado em 1712, e lecionou durante uma dezena de anos as humanidades e a retórica. Depois de ter sido empregado nas missões, dirigiu a partir de 1733 a Congregatio latina major de Munique; em 1752, foi nomeado pregador ordinário da catedral de Augsburgo; permaneceu nesse cargo durante onze anos, e gozou de grande reputação de orador controversista. Teve de deixar esse ministério em 1763 e morreu em Augsburgo a 1º de maio de 1765.

A obra literária que deixou é bastante considerável; mas os 112 números que lhe consagra o P. Sommervogel não devem causar ilusão; muitas das obras em questão são finos opúsculos de poucas páginas. Para pôr um pouco de ordem na longa enumeração de Sommervogel, introduziremos algumas divisões, que correspondem aliás bastante bem à ordem cronológica.

1° Poesia e belas-letras. Dispensamo-nos de enumerar as tragédias e comédias latinas, compostas na época em que o P. Neumayr lecionava retórica. Estão reunidas em seu Theatrum politicum sive tragædiæ ad commendationem virtutis et vitiorum detestationem, in-4°, Augsburgo-Ingolstadt, 1760, que tem ao menos um interesse documentário; o mesmo se pode dizer de sua Idea poeseos sive methodica institutio de præceptis, praxi et usu artis, in-12, Ingolstadt, 1751, onde o autor dá frequentemente como exemplo suas próprias poesias latinas, que compunha com bastante graça; o mesmo de sua Idea rhetorices, in-8°, Ingolstadt e Augsburgo.

2° Piedade e ascetismo. Diretor da grande congregação de Munique, o P. Neumayr foi frequentemente chamado a dar meditações e retiros, tanto a laicos como a eclesiásticos; publicou um bom número deles, seja em latim, seja em alemão, e reuniu posteriormente esses opúsculos em algumas coletâneas: Gratia vocationis sacerdotalis... resuscitata per commentationes accommodatas sacras venerabili clero, in-8°, Munique, 1745; numerosas edições latinas; edições alemãs no século XVIII e no XIX. Theatrum asceticum sive meditationes sacræ, coletânea das meditações dadas durante as quaresmas de 1739 a 1747, in-4°, Ingolstadt-Augsburgo, 1747, numerosas edições latinas no século XVIII.

Deve-se destacar em particular, como característica da devoção mariana da época, Idea cultus mariani: sodalitatibus Deiparæ consecratis proprii, in-12, Munique, 1747, numerosas edições. Via compendii ad perfectionem statui religioso competentem octiduano itinere emetienda, em duas partes: 1. Meditationes, Augsburgo-Munique-Ingolstadt, in-12, 1757; 2. Examina, dissertationes, considerationes et instructiones, in-8°, Augsburgo, 1759; a 2ª edição em um só volume in-8°, Augsburgo, 1759. A Vita reflexa sive usus examinis quotidiani, in-8°, Augsburgo, 1761, apresenta-se como um extrato do livro anterior. O pequeno tratado intitulado Vir apostolicus sive doctrina methodica de utili et facili praxi functionum sacerdotalium, in-12, Ingolstadt-Augsburgo, 1752, é apresentado pelo autor como um apêndice ao livro De gratia vocationis.

Várias obras são consagradas mais especialmente às virtudes cristãs ou à luta contra diversos defeitos: Wesenheit, Krafft und Uebung der göttlichen Tugenden des Glaubens, der Hoffnung und der Liebe, in-8°, Ingolstadt-Augsburgo, 1749. Exterminium acediæ, in-8°, Augsburgo-Munique-Ingolstadt, 1755; várias edições. Curatio melancholiæ oder Gedult in Trübsalen, in-8°, Augsburgo-Ingolstadt, 1757. Finalmente, a teoria geral do ascetismo foi tratada de modo bastante sumário em Idea theologiæ asceticæ scientiam sanctorum... exhibens, in-8°, obra póstuma, publicada em Augsburgo em 1781, frequentemente reeditada e ainda em 1853 em Paris, sem falar de diversas traduções em alemão, polonês, italiano, francês.

3° Teologia. Afora os escritos e as conferências de controvérsia das quais falaremos mais adiante, o P. Neumayr pouco publicou além de trabalhos catequéticos: Kern des Christenthums, oder christ-katholische immerwährende Glaubens- und Sittenlehre in Uebung gesetzt, in-8°, Augsburgo-Innsbruck, 1762, numerosíssimas edições, várias delas no século XIX. Religio prudentum sive sola fides catholica fides prudens, in-8°, Augsburgo-Ingolstadt, 1764, de tendências apologéticas, frequentemente reeditada; há uma edição alemã: Religion eines vernünftigen Mannes, ibid., 1769.

Como muitos de seus confrades, o P. Neumayr foi levado a tomar posição na querela do probabilismo. Em uma de suas conferências de Augsburgo, havia posto, dirigindo-se, segundo pretendia, aos publicistas protestantes, esta questão: Ob der Probabilismus, oder die gelindere Sittenlehre catholischer Schulen abscheulich und zu vermaledeyen seye? 40 p. in-4°, terça-feira de Páscoa, 1753; publicou no ano seguinte a mesma apologia do probabilismo em latim: Quæstio an probabilismus sive doctrina moralis benignior... abominabilis et execratione sit digna? Este opúsculo latino foi posto no Índice a 29 de maio de 1760. A Congregação estimou sem dúvida que a cátedra cristã não era o lugar para tratar dessas questões de escola. Foi o que também disseram ao autor um certo número de adversários católicos do probabilismo. Ver Sommervogel, col. 1672-1673; e cf. Fleury, Histoire ecclésiastique, continuação, l 246, § 52. Contra esses ataques, nosso autor se defendeu em umas Notæ theologicæ pro tutela probabilismi, in-4°, Munique-Ingolstadt, onde toma particularmente como adversário o P. Domingos Reichard, O. P.

4° Controvérsia. O P. Neumayr deve sua mais sólida reputação às conferências que pregou em Augsburgo, e que estão quase todas orientadas no sentido da controvérsia. É um gênero de que gostava, e nele desenvolvia uma tenacidade e um mordente que por vezes correm o risco de o tornar pouco simpático. Mencionemos apenas sua controvérsia escrita com o beneditino apóstata H. Rothfischer, que versa tanto sobre a profissão de fé desse convertido ao luteranismo, quanto sobre a reforma escolar de que ele começava a tratar diante da opinião pública. Ver os n. 35-38 de Sommervogel.

De interesse mais considerável são as conferências de controvérsia em que o orador tomou primeiro como adversários os protestantes. Muitas foram publicadas, logo depois de pronunciadas, em pequenos livretos in-4° de 30-40 páginas. O autor as reuniu em 2 vol. in-4°, Heilige Streitreden über wichtige Glaubensfragen, Munique-Ingolstadt, 1757-1760, depois em 4 outros vol., 1763-1764. Os princípios essenciais do protestantismo são aí longamente discutidos. Houve, ao que parece, queixas, pois o orador tratou ex professo, no dia dos Santos Inocentes de 1753, esta questão: Ob mit Recht heilige Streit-Reden in der Kirche Gottes üblich seyen? Em várias ocasiões também, refutou expressamente respostas escritas feitas às suas conferências; cf. por exemplo os n. 54, 55 de Sommervogel. A partir de 1760, deixando quase completamente de lado a controvérsia antiprotestante, dirige-se aos livres-pensadores e trata das questões da existência de Deus, da Providência, do destino humano, etc.

As conferências do P. Neumayr têm mais da lição acadêmica do que do sermão; ele é frio e raramente se eleva aos movimentos de eloquência; é um discutidor e parece procurar mais reduzir seus adversários ao silêncio do que convertê-los. Mas é forte, premente, dialético consumado. Seria curioso saber se tinha protestantes em seu auditório, e a impressão que lhes causava. Imagina-se antes que fortalecia os católicos em sua fé do que que trazia de volta ao rebanho romano as ovelhas desgarradas. Incontestavelmente, ele marca uma data na história da pregação católica na Alemanha.

Tudo o essencial está em Sommervogel, Bibliothèque de la Compagnie de Jésus, t. v, col. 1654-1683, cf. t. ix, col. 716; Hurter, Nomenclator, 3ª ed., t. v a, col. 235-237.

É. Amann.

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