NERSÉS IV

NERSÉS IV

NERSÉS IV, catolicós armênio de 17 de abril de 1166 a 13 de agosto de 1173, chamado também Glaiétsi ou Klaiétsi, do nome de sua residência Hromklá (Rom-Kelah, «castelo romano»). Seu outro sobrenome, muito usado entre os armênios, Chenorhali (Chenorhali), o Gracioso, foi-lhe aplicado por seus contemporâneos como expressão de seu caráter afável e filantrópico, assim como do estilo eloquente e clássico de suas obras. Nersés Glaiétsi ou Chenorhali foi, de fato, não só um dos maiores patriarcas e doutores da Igreja armênia, mas ainda um corifeu da literatura haicaniana, que ilustrou com epopeias célebres.

Nascido, em 1102, da estirpe palavúnida, bisneto de Gregório Magistros e irmão do catolicós Gregório III Pahlavúni (1113-1166), passou sua primeira juventude dedicado aos estudos e às obras pias, no célebre convento de Garmir-Vankh (Convento Vermelho), situado na Siav-Liarn, a «Montanha Negra», na Cilícia, em companhia de seu irmão mais velho Gregório, o qual, eleito patriarca da Armênia em 1113, conferiu pessoalmente a ordenação sacerdotal a seu irmão Nersés, com a idade de 18 anos, em 1135, e o elevou, pouco depois, ao episcopado.

Durante o longo pontificado de seu irmão, Gregório III, que reinou 53 anos, Nersés Glaiétsi foi, para dizer a verdade, a alma e o eixo da chancelaria patriarcal; foi ele que, como coadjutor espiritual e secretário-conselheiro, assistiu o catolicós com a maior dedicação. Em 1139, o bispo Nersés acompanhou Gregório III ao sínodo latino de Antioquia.

A grande e nobre tarefa da reunião da Igreja armênia com a Igreja grega, já empreendida pelo catolicós Gregório III, que para esse efeito havia convocado (1165) o concílio ou sínodo geral de Hromklá, teve em Nersés um promotor ardente. Em 1166, ordenado catolicós, já em idade avançada, exerceu plenamente esse cargo depois da morte de Gregório III, ocorrida nesse mesmo ano de 1166. Todos os seus esforços convergiram, desde então, para a união das duas Igrejas.

Nersés, que, ainda em vida de seu predecessor, havia conferenciado, numa viagem à Cilícia, com Alexos, genro do imperador Manuel I Comneno, sobre a questão da união, foi convidado pelo imperador a uma conferência pessoal em Constantinopla. Nersés, detido em Hromklá pelo concílio que presidia, enviou a Manuel I um tratado teológico expondo a fé da Igreja haicano-gregoriana.

Nesse primeiro tratado, Nersés Glaiétsi aplica-se sobretudo a mostrar a vacuidade da afirmação grega, que reprovava aos armênios a heresia monofisita, expondo que os termos «de uma só natureza em Cristo» eram entendidos pelos armênios, não no sentido de Êutiques, mas no sentido ortodoxo representado por São Cirilo de Alexandria, a saber, o da unidade de pessoa. Os armênios empregam, continua sua exposição, o termo uma só natureza para significar a união indivisível do Verbo divino com a humanidade. Se, em vez de empregar o termo armênio antzn, «a pessoa» ou «a hipóstase», Nersés, seguindo o uso armênio, prefere a fórmula baseada no armênio bnoutiun, «a natureza», é simplesmente por espírito conservador e por certo oportunismo de chefe de Igreja nacional, guiado e determinado pelo temor do nestorianismo.

Em suma, o catolicós armênio, em seu tratado, justificava, a despeito de certos termos pouco usuais na teologia ortodoxa, o ensinamento gregoriano sobre a incarnação e os outros pontos de dogma contestados pelos gregos. O imperador e o patriarca, plenamente satisfeitos, e preocupados em concluir a magnífica empresa da união das Igrejas, enviaram para esse fim, de Constantinopla a Hromklá, para assistir ao concílio, o célebre teólogo e filósofo Teoriano.

Essa conferência entre Teoriano e Nersés IV prolongou-se até 1170. De volta a Constantinopla, Teoriano apresentou ao imperador duas cartas de Nersés, uma íntima e outra oficial, nas quais o catolicós reiterava sua disposição para uma união próxima, e constatava que as Igrejas grega e armênia não diferiam essencialmente no dogma. Contudo, reservava-se o direito de apelar antes ao concílio dos bispos de sua Igreja, antes de publicar a profissão de fé exigida pelos gregos.

Em 1172, houve uma segunda conferência de Teoriano, representante do patriarca grego, com Nersés, na presença de prelados e doutores armênios e sírios, na qual Nersés se mostrou extremamente conciliador, não tendo senão um objetivo: dissipar os pontos em litígio e conciliar seus bispos com o partido grego. Além do dogma da dualidade das naturezas em Cristo, Nersés aceitou ainda a correção de certos usos contrários à prática dos gregos (Tournebize, Hist. pol. et religieuse de l'Arménie, p. 248). Cedeu e fez concessões além do que era exigível para a reconciliação.

Nove pontos foram formulados como bases e condições da união. Por seu espírito de moderação, havia preparado tudo para concluir a obra e consagrar a união num grande concílio dos bispos armênios. No entanto, o formalismo excessivo e o orgulho dominador dos gregos frustraram a empresa de unificação que, por sucessivas procrastinações, teve de ficar inacabada. Já o bispo da Albânia e os da Armênia eram convidados a comparecer ao sínodo da reconciliação, quando o venerável catolicós, com 75 anos de idade, morreu em Hromklá, em 1173.

Reconhecido e venerado como santo já em vida, foi beatificado e canonizado solenemente, logo depois, pela Igreja armênia, que o exalta como uma de suas maiores glórias.

Suas obras teológicas dividem-se em escritos exegéticos (interpretação do evangelho de São Mateus) e em tratados dogmáticos expondo a fé e os usos da Igreja armênia, geralmente em forma de cartas dirigidas ao imperador Manuel I, ao patriarca grego, ao patriarca sírio Miguel. Sua encíclica, promulgada no início de seu reinado (1166) ao povo armênio, e sua carta pastoral dirigida aos sacerdotes de Samósata, fornecem-nos um precioso quadro da situação religiosa da Armênia contemporânea.

O abade Villefroy, douto armenólogo, cita Nersés Glaiétsi como um dos mais eloquentes «Padres da Igreja armênia». Citemos especialmente ainda seu célebre livro ou formulário de orações, contendo as orações para «as 24 horas do dia e da noite» e dividido em 24 parágrafos, obra traduzida em 36 línguas (Cappelletti, t. ii, p. 171 sq.; Veneza, 1882).

Nersés Chenorhali ou Glaiétsi é grande sobretudo como poeta. Sua obra-prima, intitulada Yessus Orhi, «Jesus o Filho», segundo as duas palavras iniciais, é uma história poética ou crônica rimada da Sagrada Escritura, dando em resumo um quadro magnificamente combinado e colorido do Antigo e do Novo Testamento, em três partes e em 8.000 versos, obra qualificada como «epopeia verdadeiramente divina» pelo P. Jacques Villotte. Já em sua juventude, havia esboçado uma história poética da Armênia, Vipasanouthiun, «Epopeia».

Além disso, temos de Nersés: 1. Uma Elegia sobre a tomada de Edessa pelo sultão de Alepo, Emadeddin Zenghi, em 1144, contendo 2.090 versos, cujo título armênio é Oração-Lamentação, composta poeticamente, ao estilo de Homero, sobre a tomada da grande Edessa, no ano 593 da era armênia, em 23 de dezembro, na terceira hora de um domingo. 2. Duas homilias em verso, uma sobre a Santa Cruz, a outra sobre a hierarquia divina. 3. Uma grande série de poesias sagradas sobre diferentes temas, em metros prosódicos variados.

Epistola pastoralis S. Nersetis Clajensis quam ex armenio latinitate primum donatam... edidit Joseph Cappelletti, Veneza, 1829; Oghpe Edessia khaghakhi, Elégie sur la ville d'Édesse, edição original, Madras, 1810; Élégie sur la prise d'Édesse par les musulmans, por Nersès Klaietsi, patriarca da Armênia, publicada pela primeira vez, em armênio, pelo Dr. J. Zohrab, obra publicada pela Société asiatique, Paris, 1828; Recueil des historiens des croisades, Documents arméniens, t. i, p. 226-268; Élégie sur la prise d'Édesse, editada com versão francesa por Edouard Dulaurier; Sancti Nerselis Clajensis Armeniorum catholici opera, nunc primum ex armenio in latinum conversa notisque illustrata studio et labore D. Josephi Cappelletti, presbyteri veneti, vol. i-ii, Venetiis, typis PP. Mechitharistarum in Insula S. Lazari, MDCCCXXXIII, in-8°, 287 p.; Preces sancti Nierses Armeniorum patriarchæ, Turcice, Græce, Latine, Italice et Gallice redditæ, Veneza, Saint-Lazare, 1810; Preces Nierses Clajensis sexdecim linguis: Armenice literalis, Armenice vulgaris, Græce literalis, Græce vulgaris, Latine, Italice, Gallice, Hispanice, Germanice, Anglice, Hollandice, Illyrice, Serviane, Hungarice, Turcice et Tatarice armeniacis characteribus, Veneza, Saint-Lazare, 1813; Preces... editæ, Ven., 1837. Additio: Islandice, lingua antiqua Danorum, Danice, Groenlandice. — Preces... (1-13), triginta sex linguis: Æthiopice, Albano-Gheghice, Anglice, Arabice, Armenice, Cantabrice, Celtice, Chaldaice, Danice, Gallice, Germanice, Græce, Groenlandice, Hebraice, Hibernice, Hispanice, Hollandice, Hungarice, Iberice, Illirice, etc., etc., Veneza, 1882, 600 p.; Nersès Chnorhali, œuvres poétiques [Jésus le fils, Yissous Orli (épopée biblique), etc., etc.], Veneza, 1830 (armênio); F. Nève, Le patriarche Nersès IV, dit Schnorhali, envisagé comme écrivain (L'Arménie chrétienne, Louvain, 1886, p. 269, 286, etc.); Fr. Tournebize, Histoire politique et religieuse de l'Arménie, Paris, 1000, p. 239-253; Gareguin, Histoire de la littérature arménienne, p. 621-642; Nouvelle bibliographie arménienne, por P. Arsène Ghazikian, Veneza, 1909, p. 223-263.

J. Karst.

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