NÉERCASSEL (João de) (1625-1686), bispo de Castória e vigário apostólico na Holanda, nasceu em Gorcum em 1625; fez seus estudos em Santa Ágata e depois em Louvain, no colégio de Santa Pulquéria, e em seguida veio a Paris; entrou no Oratório em 1645 e foi estudar teologia em Saumur. De volta à Bélgica em 1652, foi em Malines diretor espiritual da casa do Oratório, e ensinou teologia no seminário arquiepiscopal. Em 1653, foi encarregado, em parte, da administração da diocese de Utrecht.
Nomeado bispo de Castória e provigário apostólico para a Holanda, criou o cabido de Utrecht por um ato de 22 de abril de 1664, quando substituiu Baudouin Catz, de quem havia sido primeiramente coadjutor. Em 1670, foi a Roma para dar a conhecer ao papa Clemente X o estado da religião católica na Holanda, e assinou então o Formulário de Alexandre VII. Contudo, permaneceu sempre muito ligado aos chefes do jansenismo e, em particular, a Arnauld, que, em 1679, se hospedou em sua casa no início de seu exílio. Néercassel morreu em Zwolle em 6 de junho de 1686.
Os escritos de Néercassel expõem uma moral austera, totalmente conforme às teses dos jansenistas, que lhe foram sempre favoráveis. Entre esses escritos, deve-se citar Tractatus de sanctorum ac præcipue beatae Mariæ virginis cultu, Utrecht, in-8°, 1665. Este escrito foi traduzido para o holandês, in-8°, Antuérpia, 1673, e para o francês por G. Le Roy, abade de Hautefontaine, in-8°, Paris, 1679. Depois de estabelecer, contra os calvinistas, a legitimidade do culto dos santos e especialmente da Santíssima Virgem, o autor, nos dois últimos tratados, indica os sentimentos interiores de amor e louvor, e as marcas exteriores pelas quais se pode honrar os santos (terceiro tratado) e o soberano poder da Santíssima Virgem (quarto tratado). A tradução de Le Roy traz a aprovação de Petitpied, de 8 de dezembro de 1678.
L'affermissement dans la foi et la consolation dans les persécutions, in-8°, Bruxelas, 1670. — Tractatus de lectione Scripturarum, in quo protestantium eius legendi praxis refellitur. catholicorum vero stabilitur; accedit dissertatio de interprete Scripturarum, in-12, Emmerich, 1077. O escrito foi traduzido para o francês por Le Roy, in-12, Colônia, 1680, e foi atacado com bastante vivacidade por Suivais (pseudônimo de um jesuíta, chamado Ratterel), mas Néercassel respondeu em La Parole de Dieu défendue. O bispo de Castória traduziu para o latim o Traité de l'exposition de la foi de Bossuet, que lhe agradeceu por uma carta de 22 de maio de 1678.
Dissertatio in qua expanditur num nobilibus catholicis in Hollandis jus competat pro arbitrio suo designandi ac nominandi pastores super populum catholicum, in-4°, s.l., 1682.
A obra capital de Néercassel, a que suscitou mais polêmicas e na qual aparecem os princípios rigoristas, tem por título Amor pœnitens, sive de divini amoris ad pœnitentiam necessitate et recto clavium usu libri duo, cum appendice in qua quorumdam theologorum doctrinæ de remissione peccatorum nonnullæ difficultates proponuntur et demonstratur vera sententia S. Thomae Aquinatis de sacramento pœnitentiae, in-8°, Utrecht, 1682; a segunda edição, muito aumentada, apareceu em 1685, 2 vol. in-8°, com a aprovação de Arnaud, bispo de Angers, 4 de outubro de 1685, de Montgaillard, bispo de Saint-Pons, 20 de setembro de 1685, e de vários teólogos belgas e franceses. Os jansenistas, aliás, elogiaram muito este escrito, e o abade Guibert o traduziu para o francês, 3 vol. in-12, Utrecht, 1741. O P. Quesnel também fez uma tradução dele, segundo uma carta que escreveu ao bispo de Castória em 1º de janeiro de 1684 (Correspondance de Quesnel, t. II, p. 34, 35).
A obra começa com uma carta dedicatória do bispo ao seu clero; depois mostra a necessidade e indica as condições do amor de Deus para obter o perdão dos pecados; o segundo livro examina o uso legítimo das chaves e a conduta dos confessores e dos penitentes em relação ao sacramento da penitência. No Apêndice, Néercassel propõe várias dificuldades a respeito da contrição e do poder das chaves, e dá esclarecimentos sobre algumas passagens de seu livro; e numa segunda parte, mostra que os africanos começaram a confessar-se depois dos festins de devassidão, e que as absolvições concedidas a alguns pecadores, logo que renunciavam ao pecado, não podem autorizar nem legitimar as absolvições precipitadas, contra as quais ele se insurgiu no segundo livro do Amour pénitent.
Arnauld provavelmente colaborou nesse trabalho, e encontram-se as mesmas ideias e as mesmas expressões nas Six dissertations sur l'opinion des docteurs de Louvain touchant la rémission des péchés par les sacrements, propostas a M. Haslé, e na Dissertation sur le vrai sentiment de saint Thomas (ver Œuvres d'Arnauld, t. XXVI, p. 213-237). Néercassel havia combinado com Arnauld o plano desta obra para provar a necessidade do amor dominante, e Arnauld compôs vários escritos para defender seu amigo (Œuvres d'Arnauld, t. II e IV, p. 155-184). Néercassel defendeu-se ele mesmo, em diversos escritos que permaneceram manuscritos, os quais deixou a seu discípulo Van Heussen, justamente aquele que redigiu, mais tarde, a notícia tão elogiosa de Néercassel na Batavia sacra. São uma:
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