MIGNE, Tiago Paulo, sacerdote francês, publicista e editor, nascido em Saint-Flour (Cantal), em 25 de outubro de 1800, morto em Paris, em 24 de outubro de 1875. I. Biografia. II. Obra (col. 1725). III. Apreciação (col. 1738).
I. Biografia. — Depois de uma infância um tanto turbulenta, Tiago Paulo Migne foi levado, em 1817, pelo abade Salesse, do colégio de Saint-Flour, a Orléans, onde fez seus estudos de teologia. Quando terminou sua formação clerical, ainda jovem demais para receber as ordens, foi enviado, como professor de quarta série, ao colégio de Châteaudun, onde deu mostras de tais qualidades pedagógicas que o diretor lhe propôs renunciar a seu favor. Depois de um estágio de três anos, recebeu a ordenação sacerdotal em 1824; mas antes, querendo rever sua teologia, dedicou a esse estudo, durante seis meses, quinze horas por dia.
Foi então imediatamente encarregado da administração de três paróquias do cantão de Châtillon-sur-Loing, Aillant-sur-Milleron, la Charme e Dammartin; depois, como o clima pantanoso dessa região era contrário à sua saúde, foi enviado a Auxy, que, mal instalado, deixava por Puiseaux, importante sede de cantão do Gâtinais. Seu ministério foi muito frutuoso: repartia seu tempo entre o estudo e o cuidado das almas, fazendo-se já notar por uma atividade infatigável, mostrando as qualidades características de seus compatriotas, a energia, a resistência e uma indomável tenacidade que haveriam de assegurar o êxito de seus empreendimentos.
A revolução de 1830 teve sua repercussão em Puiseaux: um incidente ocorreu no dia de Corpus Christi de 1831; foi exagerado e ampliado. O abade Migne respondeu a seus detratores num opúsculo intitulado De la liberté, par un prêtre. Alargando o debate, tratava de questões importantes do direito eclesiástico em suas relações com a autoridade secular. Dom Brunault de Beauregard, tendo sabido da próxima publicação desse opúsculo, pediu ao autor que lhe comunicasse as provas. Este as levou a ele. Sem ter, dizem, tomado o cuidado de examinar o opúsculo, o bispo opôs-se à sua publicação. O pároco de Puiseaux submeteu-se e guardou silêncio. Cf. Biographie du clergé contemporain, Paris, 1841, t. III, p. 305-306.
Algum tempo depois desse incidente, preocupado com a feliz influência que a imprensa podia exercer, quis fundar um jornal e pediu, para se dirigir a Paris, seu exeat a Dom de Beauregard. Obteve-o em 9 de novembro de 1833, redigido em termos muito lisonjeiros. Partiu, pois, para Paris, levando consigo o Sr. Dufour de La Tuilerie, recebedor do registro, e o Sr. Toupenay, professor de sua comuna, a quem interessara em seu projeto.
Mas o jornalismo não haveria de retê-lo por muito tempo, pelo menos de modo exclusivo. Já em 1836 abandonava L'Univers para empreender uma obra de outra envergadura, que, na linguagem hiperbólica que lhe será familiar, comparará à perfuração do monte Cenis, à construção de dez catedrais, e que chamará o empreendimento mais colossal do século. Essa obra, que ele intitulava Bibliothèque universelle du clergé, devia compreender 2.000 volumes in-4°. Não seria isso um empreendimento quimérico?
Chegava a Paris sem dinheiro nem protetores; tinha uma instrução comum. Mas, em compensação, era ativo, hábil, empreendedor, muito versado em negócios, fecundo em recursos, não detestando, quando necessário, a propaganda, mas pondo-a a serviço das boas causas; a imaginação sempre em labor de obras gigantescas, possuindo em alto grau a arte de descobrir talentos ignorados, de tirar deles habilmente partido e de fazê-los concorrer para seu objetivo; dotado daquela paciência que nenhuma resistência cansa, de uma força de vontade que fazia tudo ceder diante dela, criando obras sobre obras, e conseguindo levar a bom termo, sem outros capitais além de sua confiança em si mesmo e de sua energia, um dos empreendimentos mais consideráveis de nosso século, a edição de uma enciclopédia teológica que compreenderá vários milhares de volumes. Dom F. Cabrol, Histoire du cardinal Pitra, Paris, 1893, p. 108.
De fato, trabalhou em suas publicações, sem nenhuma interrupção, até o incêndio de suas Oficinas Católicas, em fevereiro de 1868. Encontrou, no início, graves dificuldades. Se foi encorajado de todos os lados, se recebeu dez mil cartas de conselhos e de felicitações, nem por isso deixou de esbarrar na oposição do arcebispo de Paris. Dom de Quélen, embora reconhecendo a excelência das publicações empreendidas pelo abade Migne, julgava que sua obra, tendo caráter comercial, não podia ser dirigida por um clérigo. Ordenou, pois, ao editor que suspendesse seus trabalhos.
Migne acreditou ver, nessa medida que o atingia, o resultado da intervenção de livreiros movidos pela inveja; grandes interesses estavam em jogo no empreendimento; por fim, o abade Migne podia alegar que não era nem impressor nem livreiro, pertencendo as duas licenças a Victor Migne, seu irmão e colaborador. Recusou-se a se submeter. O arcebispo lhe retirou os poderes e proibiu-o de dizer a missa.
Poucos meses antes de morrer, Dom de Quélen havia proposto ao abade Migne converter essa especulação particular em uma obra diocesana, da qual o arcebispo seria o superior e ele o diretor. Querendo manter toda a sua liberdade, Migne rejeitou essa proposta.
Dom Affre seguiu a princípio a mesma linha de conduta de seu predecessor. Viu-se mesmo na obrigação de condenar, por duas vezes, A Voz da Verdade, novo jornal publicado por Migne.
Mas, tocado pelas explicações francas do editor e pelo prejuízo que a suspeita da autoridade eclesiástica podia causar às suas publicações, levantou finalmente, em 10 de novembro de 1817, a proibição que pesava sobre Migne: este não era mais obrigado a dizer sua missa em Versalhes, onde Dom Gros o acolhera paternalmente.
Em 2 de junho de 1819, tomou em seu nome a licença de impressor-tipógrafo, no Petit-Montrouge. Dom Sibour o incentivará, concedendo-lhe um subsídio de 5.000 francos para a compra de livros e confiando-lhe a edição dos Atos da Igreja de Paris.
O entusiasmo do público católico nem sempre correspondeu aos esforços do editor. Ao prestar contas do t. CV da Patrologia latina, A. Bonnetty, diretor dos Annales de philosophie chrétienne, escrevia em 1853: «Esta obra não deveria ser protegida mais do que é pelos governos, pelos bispos e por todos os católicos.» Ann. de philos. chrét., t. XLVII, p. 162.
Observação semelhante é feita quatro anos depois pelo mesmo escritor, a propósito da Patrologia grega: «Lamentamos dizer que está muito longe de ser verdade que a maioria dessas casas (bibliotecas dos bispados, dos grandes e pequenos seminários, das principais paróquias, comunidades religiosas...) tenha subscrito esta bela e boa publicação. O editor ainda está bem abaixo de seus adiantamentos e, se não tivesse dedicado a esta obra todo o seu crédito e todos os lucros de suas publicações anteriores, teria sido obrigado a interromper a impressão.» Op. cit., t. LV, p. 250.
Contudo, as demonstrações de simpatia não faltaram, desde o início, à obra de Migne. De Roma, de todo o universo católico, afluíram os incentivos de cardeais, bispos, sacerdotes e leigos instruídos. Na França, os Annales de philosophie chrétienne, pela pena de seu diretor, o abade A. Bonnetty, fizeram-lhe uma poderosa propaganda, reproduzindo seus prospectos, analisando suas publicações, respondendo às contestações levantadas contra certas obras pela Bibliographie catholique.
Em 1856, o concílio provincial de Périgueux, tít. I, c. 9, recomendava ao clero as Patrologias latina e grega, assim como as demais obras saídas dos prelos dos Ateliers catholiques. Ann. de philos. chrét., t. LVII, p. 163-164.
Outro elogio público foi feito a Migne no Senado: na sessão de 20 de junho de 1862, pelo barão Ch. Dupin: «Um simples cura de aldeia, o Sr. Migne, empreendeu, sozinho e com o concurso financeiro do clero inferior, publicar, a baixo preço, sem luxo, uma coleção erudita e completa, coleção em que os textos mais fiéis são postos diante das versões mais autorizadas, uma coleção em que figuram os Livros sagrados, os Padres da Igreja latina e grega, todos os grandes teólogos, todos os oradores sacros, todos os comentários, e também os melhores escritos dos bispos de nossos dias. Tal será a Biblioteca universal da Igreja católica. Já apareceram 850 volumes, que custaram dezessete milhões; restam ainda a publicar 1150 volumes, que custarão vinte e três milhões, e, para levar a cabo esse empreendimento, nada se pediu ao governo, nada além da paz pública e da segurança do trabalho... Foi com seus modestos recursos que o clero francês inaugurou essa grande empresa católica. Depois, leigos generosos vieram em seu auxílio....» Ann. de philos. chrét., t. LXV, p. 243-244.
As censuras feitas por Bonnetty à indiferença do clero francês parecem, portanto, um pouco exageradas. Este sustentou o editor por meio de numerosas subscrições. Saíam, em média, a cada ano, quarenta volumes in-4° da tipografia do Petit-Montrouge; num prospecto de 1864, Migne observava que quatrocentos volumes estavam em reimpressão; que cem volumes novos haviam sido compostos nos dois anos anteriores e que seriam postos no prelo assim que a reimpressão em curso terminasse: «A rapidez de sua tiragem, acrescentava ele, surpreenderá tanto quanto alegrará os setenta mil clientes dos Ateliers catholiques.» Ann. de philos. chrét., t. LXIX, p. 77.
Apesar da modicidade dos preços, não se podia exigir um esforço maior do clero francês. Se a obra monumental empreendida permaneceu inacabada, o incêndio de 12 de fevereiro de 1868 é o único responsável. O fogo começou no edifício das prensas tipográficas e, em um instante, alcançou todas as oficinas e quase todos os depósitos.
Os danos foram consideráveis, irreparáveis em sua maior parte. Os clichês das grandes coleções, em número de 667.855, foram destruídos, e dos destroços retirou-se apenas uma massa de perto de seiscentas toneladas de chumbo. A fábrica de mobiliário de igrejas, de órgãos, de estátuas, de quadros, de baixos-relevos, que Migne havia acrescentado à sua tipografia, foi igualmente atingida pelo incêndio: um grande órgão de trinta mil francos, prestes a ser entregue, foi inteiramente fundido.
Dos doze milhões que representavam o material e as mercadorias, segundo o último inventário, salvaram-se apenas seis milhões. Cf. Journal général de l'imprimerie et de la librairie, 15 de fevereiro de 1868, p. 25. A perda era enorme; as seguradoras ofereceram apenas uma soma irrisória: em 29 de janeiro, pagaram ao editor 1.348.327 francos, recusando-se a dar mais.
Seguiu-se um processo longo e penoso, que só terminou em 20 de dezembro de 1871. Migne obteve uma soma de 3.044.152 francos. Era apenas a metade dos danos causados pelo incêndio. Cf.
Le droit, 22 de dezembro de 1871; Gazette des tribunaux, 22 de dezembro de 1871. A indenização recebida do seguro foi insuficiente para permitir a Migne retomar as publicações interrompidas.
Ele quis, apesar de tudo, lutar contra o destino. Arruinado, procurou obter novos recursos, por expedientes que não eram irrepreensíveis aos olhos da autoridade eclesiástica. Retomou seu comércio de mobiliário sacro e organizou um tráfico de intenções de missas. Como preço das mercadorias ou dos volumes entregues, recebia estipêndios de missas.
O arcebispado se alarmou com essas práticas. Deu a Migne a ordem formal de cessá-las. Este resistiu e incorreu em suspensão. Pouco depois, por um decreto de 25 de julho de 1874, Roma declarava ilícito todo arranjo do gênero dos que ele havia imaginado. Cf. Acta S. Sedis, t. VIII, p. 107-109; Many, Prælect. de missa, Paris, 1903, p. 193.
Essas provações, somando-se às fadigas e preocupações que lhe havia imposto a direção de sua vasta empresa, vieram a vencer as forças do abade Migne: sua vista havia se tornado consideravelmente diminuída, estava quase cego. Em 24 de outubro de 1875, morria em Paris, deixando a lembrança de «um dos polígrafos e dos compiladores mais extraordinários que menciona a história da erudição.» C. V. Langlois, Manuel de bibliographie historique, Paris, 1904, p. 399.
II. A obra de Migne. — 1º O publicista. — Chegado a Paris em 1833, Migne se preocupou imediatamente com a organização do jornal que queria fundar. Lançou dois prospectos, o do Univers religieux e o do Spectateur.
O primeiro era o mais completo: já manifesta o gosto pela propaganda espalhafatosa que caracterizará mais tarde os anúncios dos volumes da Bibliothèque universelle: «Apresentaremos, dizia ele, as noções mais católicas sobre as questões mais interessantes por sua atualidade: danças, bailes, teatros, romances, empréstimo a juros, impostos diversos, divórcio, salário do clero, dos sacerdotes... tudo com a mais extrema reserva.» Eug. Veuillot, Louis Veuillot, Paris, 1913, t. I, p. 358.
Propunha-se escolher seus colaboradores no seio «das duas opiniões religiosas que dividem a França católica». Isso equivalia a dizer que rompia com o antigo galicanismo e que abriria amplamente a porta aos defensores dos direitos de Roma e da Igreja. Não deveria servir a nenhum partido, nem político nem religioso. Era católico, eis tudo.
O sucesso correspondeu à expectativa do fundador. A Tribune catholique, que havia sido fundada, em 1833, pelo Sr. Bailly para defender as ideias do Avenir, no que tinham de legítimo, fundiu-se com o Univers. Em três semanas, este havia obtido mais de mil e oitocentos assinantes. Quanto ao Spectateur, nunca existiu senão de nome. Seus subscritores receberam o Univers.
O primeiro número do jornal apareceu em 3 de novembro de 1833. Tinha por título: L'Univers religieux, politique, scientifique et littéraire, e por divisa: Unidade nas coisas certas, liberdade nas duvidosas, caridade, verdade, imparcialidade em todas. O diretor-fundador havia obtido a promessa de colaboração dos homens mais notáveis da capital: os Srs. Bailly, proprietário e principal redator da Tribune catholique, Cayol, Choron, Clarion, Fontaine, Gauthier de Claubry, Gerbert, que redigiu os primeiros artigos sob a assinatura de Migne, Guilbert, Hennequin, Lauras, Charles Nodier, d'Ortignes, de Paravey, Pardessus, Récamier, Rendu.
Na realidade, muito poucos desses «homens notáveis» deram uma colaboração assídua ao Univers. Por outro lado, o abade Migne soube atrair para sua obra um número considerável de jovens zelosos que haviam de exercer mais tarde uma influência considerável, tais como os irmãos Foisset, Ozanam, Lallier, Lamarche, Du Lac, Lacarrière, Léon e Eugène Bore, Desdouits, H. de Bénald, H. de Viel-Castel, Turquéty, de Montrond, etc.
O sucesso inicial não se confirmou. Querendo conciliar todos os partidos, o Univers religieux acabou alienando-os todos. Foi alvo dos ataques do Ami de la Religion, órgão quase oficial do mundo católico. Migne abandonou o jornal, no qual, absorvido pelos trabalhos de direção e administração, pouco havia escrito. Seus artigos são assinados L. M., o que às vezes os fez ser atribuídos a La Mennais.
Em 1836, cedeu seu jornal ao Sr. Bailly, que o conservou até o dia em que L. Veuillot assumiu a direção. Cf. Eug. Veuillot, Louis Veuillot, t. I, p. 357-364.
Esse abandono do jornalismo não era definitivo. Em 1846, Migne fundava a Voix de la Vérité, auxiliado pelo abade Clavel e com a colaboração de um eminente jurisconsulto, o abade Romain Prompsault, que havia de compor, para a Encyclopédie catholique, um Dictionnaire raisonné de droit et de jurisprudence, en matière civile et ecclésiastique.
O objetivo do jornal era dar aos membros do clero e às comunidades religiosas consultas jurídicas. Mas não se ocupou exclusivamente dos conflitos com a autoridade civil; tomou em mãos a defesa dos sacerdotes em desacordo com seu bispo. Essa atitude desagradou à autoridade: Dom Affre censurou e proibiu o jornal por dois mandamentos, datados de 20 de agosto e 29 de outubro de 1847; a medida foi levantada em 7 de novembro.
Em 1854, Dom Sibour atingiu novamente a Voix de la Vérité, por uma consulta dada sobre o caso de dois sacerdotes, proibidos pelo arcebispo. Essas intervenções arquiepiscopais tornaram os redatores mais prudentes.
Quando, em 1860, o Univers foi suprimido por decreto imperial, o proprietário desse jornal, Taconet, entrou em relações com Migne, que lhe cedeu a Voix de la Vérité; esta deu lugar ao Monde, que havia de, mais tarde, reunir-se ao Univers. Cf. Ed. Leterrier, L'abbé Migne, in Les Contemporains, p. 12-15; Eug. Veuillot, op. cit., t. III, p. 345-347.
A Voix de la Vérité foi substituída por outra folha, destinada unicamente ao clero, La Voix canonique, liturgique, historique, bibliographique, anecdotique, que apareceu a partir de 1861. Victor-Étienne Migne havia fundado e dirigido, de 1850 a 1854, o Journal des faits: «Todos os jornais em um.»
O abade Migne transformou esse jornal e lhe deu um novo título, La Vérité: durou apenas alguns dias, de 12 a 20 de fevereiro de 1854. Vendeu-o ao Sr. Prost, banqueiro, e substituiu-o, em 1857, pelo Courrier de Paris. Cf. Hatin, Bibliographie de la Presse périodique française, Paris, 1866, p. 533; Vapereau, Dictionnaire universel des contemporains, Paris, 1880, p. 1290.
2º O editor. — Migne abandonou a direção do Univers religieux para se lançar em um empreendimento muito mais considerável. Seu objetivo era reunir em grandes coleções todos os tesouros da tradição católica. Assim, não se deve procurar nessas publicações obras novas, trabalhos originais: só se os encontrará em número restrito.
«Com seu espírito prático e simplificador e a ignorância um pouco ingênua dos principiantes, ele concebia toda ciência sob a forma de dicionário ou enciclopédia.» Dom Cabrol, Hist. du card. Pitra, p. 109. Ele se contentará em reunir os antigos produtos da erudição eclesiástica, para pôr facilmente à disposição do clero instrumentos de trabalho.
Desses trabalhos antigos, alguns haviam permanecido em estado de manuscritos, outros conhecidos apenas por simples fragmentos; a maioria, enterrada no fundo das bibliotecas, era inacessível por sua raridade e seu preço elevado. Migne quer reuni-los em uma imensa Bibliothèque universelle du clergé, ou Cours complet sur chaque branche de la science ecclésiastique, que deveria compreender dois mil volumes, de formato cômodo e uniforme, pequeno in-4° em duas colunas, e de preço modesto, não devendo o conjunto da coleção custar mais do que dez mil francos, ou apenas sete mil e seiscentos francos, para aqueles que pagassem integralmente o preço das coleções, desde o recebimento dos primeiros volumes que dela fazem parte.
Como realizar tal proeza? Os poucos recursos de que dispunha Migne haviam sido tragados pelo Univers religieux. Ele soube interessar em seu empreendimento um certo número de eclesiásticos e de leigos que lhe forneceram os primeiros fundos necessários. Recorreu primeiro à tipografia do Sr. Bailly, praça da Sorbonne; mas em breve fundaria, no Petit-Montrouge, perto das barreiras d'Enfer e du Maine, o mais belo estabelecimento de tipografia e livraria que então existisse.
Encontravam-se em seus Ateliers catholiques, ao lado das salas de composição, cinco prelos a vapor, uma fundição, uma estereotipia, ateliês de acetinagem, de brochura, de encadernação, destinados unicamente às obras que ele publicava. Reunindo assim em suas mãos todos os ramos da livraria, podia chegar a uma produção extremamente rápida, a ponto de fazer sair de suas prensas um volume por semana, e sobretudo diminuir as despesas de edição, baixar consideravelmente o preço dos volumes.
Trezentos operários estavam vinculados ao estabelecimento do Petit-Montrouge. Entre eles encontrava-se certo número de sacerdotes infortunados, que o editor acolheu em sua tipografia e que lhe foram de grande auxílio para a composição e a correção das provas. Migne queria que, do ponto de vista tipográfico, suas publicações fossem tão perfeitas quanto possível.
A suas prensas mecânicas, substituiu em breve prensas manuais, menos rápidas, mas que proporcionavam melhores resultados. Cuidados muito particulares foram dedicados à correção das provas, a ponto de as despesas assim ocasionadas igualarem as exigidas pela composição. As correções eram revistas sucessivamente em cinco provas.
Assim corrigidas e revisadas, as folhas eram entregues ao clicheiro, transformadas em páginas de metal que as tornavam imutáveis. Uma última folha, tirada sobre o clichê, ainda era revista. Todas as grandes coleções foram assim estereotipadas a fim de evitar novos erros nas reimpressões. Assim, em 1865, contratou quarenta revisores, por dez anos, em condições muito onerosas, para a revisão minuciosa das chapas estereotipadas. Tais precauções deviam resultar em um trabalho cuidadoso.
Dos dois mil volumes anunciados, mais de mil foram publicados. É difícil seguir exatamente a ordem cronológica no exame dessas publicações; aliás, várias coleções apareceram simultaneamente. Agruparemos, pois, o conjunto dessas obras sob quatro títulos: 1º as principais coleções (exceto as patrologias); 2º as patrologias; 3º as obras diversas; 4º interrupção das publicações, sua continuação após a morte de Migne.
— I. As principais coleções. — a) De 1838 a 1810 apareceu o Cours complet d'Écriture sainte: Scripturae sacræ cursus completus, ex omnium commentariis perfectissimis ubique habilis, et a magna parte episcoporum necnon theologorum Europae catholicae universim ad hoc interrogatorum designatis, unice conflatus; plurimis annotantibus presbyteris ad docendos levitas, pascendosve populos alte positis, annotavit vero simul et edidit J. P. M., 25 vol. in-4°.
Esses comentários e tratados são os dos jesuítas J. Bonfrère, Corneille de Lapierre, do dominicano Noël Alexandre, do beneditino dom Calmet, dos abades de Vence e Glaire, de Fr. Vatable e de Le Maistre de Sacy, ilustrados com notas e dissertações tomadas não só dos comentadores católicos, mas também dos melhores autores judeus, luteranos, calvinistas, anglicanos, etc. Três volumes de complementos foram acrescentados à coleção: o último contém dezesseis Índices e um Atlas geográfico e iconográfico do Cours complet d'Écriture sainte, in-fol. de 76 pranchas.
b) Imediatamente após o Cours complet d'Écriture sainte, era publicado o Theologiae cursus completus... sob um título idêntico ao do Cursus Scripturae sacræ, em 25 vol. in-4°. Como o título o enuncia, o método seguido foi o mesmo que para o Cours d'Écriture sainte. As obras são dadas no texto latino ou na tradução francesa, em ordem metódica, sem qualquer preocupação cronológica.
Com exceção do De præscriptionibus de Tertuliano e do Commonitorium de São Vicente de Lerins, todos os tratados de teologia reproduzidos nesta coleção datam do século XVI ao XIX, com algumas partes compostas pelos editores. O número de volumes, que deveria ser de vinte e cinco, foi elevado a vinte e oito.
O último compreende cinco tábuas, muito úteis para a consulta do Cours de théologie methódico: 1ª uma indicação de todas as matérias tratadas; 2ª a nomenclatura dos autores por ordem de tomo; 3ª a lista alfabética dos autores e títulos das obras; 4ª uma tábua combinada e curiosa estatística dos nomes, profissões, países e morte dos 238 autores contidos nos dois cursos de Escritura sagrada e de teologia; 5ª uma tábua universal analítica dando, sob cada palavra essencial, uma análise completa da matéria que ela contém.
Os dois cursos de Escritura sagrada e de teologia conservaram seu valor; é evidente que se deve fazer uma escolha entre esses comentários e esses tratados, dos quais vários são excelentes, outros de menor valor. É certamente muito cômodo, para o exegeta e para o teólogo, encontrar reunidos os principais autores que trataram de determinada questão bíblica ou teológica.
c) Pode-se dizer o mesmo das Démonstrations évangéliques dos mais célebres defensores do cristianismo, traduzidas em sua maioria das diversas línguas em que haviam sido escritas, reproduzidas integralmente, não por extratos, anotadas e publicadas pelo abade Migne, 18 vol. in-4°, mais um volume de introdução e um de conclusão. Os dezesseis primeiros volumes apareceram em 1842 e 1843; os outros quatro, alguns anos depois.
O objetivo do editor era reunir o que havia de mais convincente e mais importante para a defesa de nossa fé, o que permitia seguir passo a passo as diferentes fases da polêmica católica. Para isso, escolheu fragmentos de cento e dezessete autores. Infelizmente, depois de apresentar algumas obras de Tertuliano, Orígenes, Eusébio de Cesareia e Santo Agostinho, ele passa imediatamente a Montaigne. Alguns autores bem escolhidos, indo do século V ao XVI, teriam permitido seguir todos os progressos da polêmica cristã.
Foi com razão que se deu um lugar importante aos apologistas modernos, como Wiseman, Milner, Chassey, etc.; Migne recorre até ao testemunho de protestantes, como Leibniz, Jacquelot, Saurin, Keith, e ao de filósofos anticristãos, como J.-J. Rousseau. O t. XVIII contém, com tábuas muito cuidadas, um tratado, Révision des Démonstrations évangéliques, pelos editores, abrangendo as doutrinas heréticas dos autores não ortodoxos de que se serviram, e, do abade Chassay, um Tableau des apologistes chrétiens depuis la Renaissance jusqu'à la Restauration, indicando o grau de confiança de que gozam junto aos críticos credenciados, especificando suas obras.
d) Em 1844, começava uma nova publicação, a dos Orateurs sacrés, em duas séries, cujo título basta dar para se perceber a importância, do ponto de vista da história da pregação na França, do século XVI ao XIX. A primeira série compreende 66 volumes: Collection intégrale et universelle des Orateurs sacrés du premier et second ordre, et collection intégrale ou choisie de ceux du troisième ordre, publicados segundo a ordem cronológica, a fim de apresentar, como num só golpe de vista, a história da pregação na França, durante mais de três séculos, com seus começos, seus progressos, seu apogeu, sua decadência e seu renascimento.
A segunda série, de 33 volumes, apareceu de 1856 a 1866. Ela contém: 1º as obras oratórias dos pregadores que mais ilustraram a cátedra francesa desde 1789 até nossos dias; 2º os mais notáveis mandamentos ou discursos da maioria de nossos senhores arcebispos ou bispos da França, da Saboia e da Bélgica; 3º os sermões de vinte e cinco dos pregadores contemporâneos mais distintos; 4º a coleção dos melhores homilistas antigos e modernos; 5º uma série de obras sobre as regras da boa pregação. A coleção completa deveria compreender cento e dois volumes; o 100º estava no prelo quando se deu o incêndio de 1868.
e) Ao mesmo tempo que a primeira série dos Orateurs sacrés, aparecia a primeira das Encyclopédies théologiques, assim anunciada: Première encyclopédie théologique ou série de Dictionnaires sur toutes les parties de la science religieuse, offrant en français et par ordre alphabétique, la plus claire, la plus facile, la plus commode, la plus variée et la plus complète des théologies, 50 tomos em 52 volumes, 1844-1852. De 1851 a 1859, apareceu uma Nouvelle encyclopédie théologique de 52 tomos em 53 volumes, e de 185f a 185^ uma Troisième et dernière encyclopédie théologique, em 66 volumes; ou seja, em tudo, 171 volumes de Dictionnaires sobre todos os ramos das ciências tanto humanas quanto divinas.
Antigas obras são reproduzidas nesta coleção, atualizadas quanto às descobertas e aos resultados recentes da ciência, por meio de notas ou apêndices: é o caso do Dictionnaire de théologie dogmatique de Bergier, posto em relação com os progressos das ciências atuais, pelo abade Pierrot. Mas a maior parte é devida a autores contemporâneos. É a parte mais nova da obra de Migne; mas é também a que mais perdeu seu valor: trabalhos desse gênero frequentemente precisam ser revisados e atualizados. Certos desses dicionários podem, no entanto, ainda prestar grandes serviços, tal o Dictionnaire des Apocryphes de l'Ancien Testament et du Nouveau Testament, t. XXIII e XXIV da Troisième Encyclopédie.
f) Para ilustrar essas coleções relativas à ciência religiosa, Migne fez entrar em suas publicações um Cours complet d'histoire ecclésiastique, em 27 volumes. Os dezessete primeiros volumes são obra de Henrion e vão do período das origens até o pontificado de Pio IX. Após a morte de Henrion, em 1862, o abade Vervoost continuou a publicação, a partir de 1849.
g) Por fim, às coleções de certa importância se liga a Summa aurea de laudibus B. Mariée virginis, em 13 volumes, cuja publicação começou em 1866. Esta coletânea compreende os escritos importantes sobre a Mãe do Salvador, que não tinham lugar nas Patrologias, como os de Alberto Magno, de Canísio, de Suárez, de Trombelli, de Benedito XIV e de Malou.
Assim, em poucos anos, de 1838 a 1844, Migne havia começado, senão terminado, a publicação de coleções que deveriam conter juntas perto de quatrocentos volumes, sem contar as edições de menor interesse, das quais falaremos mais adiante (cf. obras diversas). Nesse meio-tempo, havia traçado o plano do que deveria ser sua obra mais importante sob todos os aspectos e a melhor, sua Patrologia, cujos primeiros volumes deveriam aparecer em 1844.
Uma primeira publicação patrística, fora da Patrologia, já havia aparecido em 1842, referente às obras de santo Agostinho e de são J. Crisóstomo: Sancti Augustini Hipponensis episcopi opéra omnia post Lovaniensium theologorum recensionem castigata denuo ad manuscriptos codices gallicanos, vaticanos, belgicos... necnon ad editiones antiquiores et castigatiores, opera et studio monachorum ordinis sancti Benedicti e congregatione S. Mauri, editio novissima, emendata et auctior, accurante M***, 11 volumes divididos em 16 tomos.
A edição de são João Crisóstomo, 10 volumes divididos em 13 tomos, traz um título idêntico: Joannis Sancti Chrysostomi archiepiscopi Constantinopolitani opera omnia... Esta edição compreende apenas a tradução latina. O editor utiliza o texto dos beneditinos, levando em conta as críticas que haviam sido feitas, pondo as notas ao pé das páginas, dando, em alguns lugares, uma nova ordem às matérias contidas nos antigos volumes.
— 2. As Patrologias. — a) Objetivo e plano do editor. — Por que uma nova edição dos Padres da Igreja? Em um prospecto de 1864, Migne responde a essa pergunta: «O preço desmesurado e sempre crescente das antigas edições, a necessidade cada vez mais séria de recorrer às fontes, sobretudo nas investigações religiosas, o despertar da ciência eclesiástica e a restauração católica do passado tornam indispensável uma nova edição dos Padres.» Ann. de philos. chrét., t. LXIX, p. 78.
Quer, portanto, pôr à disposição dos estudiosos o conjunto dos documentos que constituem a tradição católica, obras dos escritores eclesiásticos dos doze primeiros séculos. Para atingir esse objetivo, reunirá em uma primeira coleção os escritores latinos e, em uma segunda, os escritores gregos.
Bonnetty criticou essa divisão, deixando supor que há duas tradições, a da Igreja latina e a da Igreja grega. Teria preferido uma divisão fundada no lugar onde esses escritores escreveram e ensinaram, e não na língua que nos conservou seu ensinamento. Cf. Ann. de philos. chrét., t. XXXIII, p. 395-396. O plano adotado por Migne se justifica muito bem: é o mesmo que atualmente se adota para as publicações patrísticas de Berlim e de Viena, a primeira dedicada aos escritores gregos, a segunda aos escritores latinos.
A ordem seguida será a ordem cronológica. Às obras dos Padres, o editor acrescentará os trabalhos, as dissertações úteis que foram feitas sobre esses escritores, assim como as variantes, notas, observações necessárias para a compreensão do texto. Por fim, para que a nova publicação possa estar realmente ao alcance de todos, ela é feita a um preço muito baixo: cinco francos para os volumes da Patrologia latina, oito francos para os da Patrologia grega, para aqueles que subscreverem as duas séries.
«Dizemo-lo aqui, escreve Bonnetty, sem parcialidade e depois de todos os órgãos da imprensa, é um fenômeno que um só homem, sem ser ajudado por nenhum governo, tenha podido realizar semelhantes resultados.» Ann. de philos. chrét., t. XXXIII, p. 349. Esse resultado é tanto mais extraordinário e redunda em tanta honra para Migne quanto, poucos anos antes, um projeto semelhante, empreendido por Castelli, que havia recebido os incentivos de Gregório XVI e de vários soberanos católicos, que havia obtido que se pusessem à sua disposição as prensas da Propaganda, havia fracassado completamente.
— b) A execução. — Para levar a bom termo tal empreendimento, Migne precisava de colaboradores. Dirigiu-se a dom Guéranger. O abade de Solesmes lhe indicou o novo prior de Saint-Germain-des-Prés, formado em Solesmes, dom Pitra. Dom Pitra estava preparado para colaborar ativamente, nessa parte, com o editor católico. Havia feito dos Padres, durante o seminário, seu estudo favorito, e seu gosto pela patrística ainda se desenvolvera em Solesmes.
Aceitou sem hesitar e, três dias depois, trazia um prospecto que dava, «em poucas páginas, uma visão muito clara do conjunto do projeto, a lista dos autores, das edições e das dissertações que deveriam entrar nessa coleção.» Dom Cabrol, Histoire du card. Pitra, p. 111. Era impossível pensar em fazer, para cada autor, uma edição crítica: um projeto tão vasto jamais teria sido realizado.
O melhor era escolher as edições dos Padres e dos escritores eclesiásticos que se julgavam as melhores, as notas que a elas se acrescentariam, as dissertações mais raras e mais notáveis que acompanhariam o texto, sem contudo se proibir de corrigir o texto segundo os melhores manuscritos, de indicar as variantes importantes das principais edições, de dar alguns fragmentos inéditos, fazendo, em uma palavra, uma verdadeira editio variorum, como foi o caso para Tertuliano, Minúcio Félix, São Cipriano, etc... Dom Pitra assumiu grande parte da tarefa.
Migne, no Index XI, sob a rubrica «Editores Patrologiae, inter quos præcipuus R. P. Pitra, O. S. B.», P. L., Tables, t. I, col. 338, não cita outro nome senão o do prior de Saint-Germain. Teve, pois, na edição da Patrologia uma parte importante, dedicando-lhe um trabalho considerável. De fato, colaborou em toda a Patrologia latina e na Patrologia grega, até Fócio. Em 1865, já cardeal, enviava a Migne notas para a continuação dos escritores latinos até 1150.
Ao lado de dom Pitra e dos beneditinos da França, outros colaboradores merecem ser mencionados: Dom Malou, bispo de Bruges, de Glasgow, Forbes, Floss, professor na Universidade de Bonn, Æhler, professor em Halle, Nolte, de Viena, Denzinger, professor na Universidade de Wurzbourg, que forneceu diversos fragmentos inéditos, Caillau, que fez Migne se beneficiar dos manuscritos beneditinos de que era depositário.
Depois da preparação dos materiais que deveriam entrar nas Patrologias, era preciso passar à composição. Migne quis que, nesse ponto, sua obra fosse irrepreensível. Os sacerdotes que havia acolhido na tipografia do Petit-Montrouge estavam naturalmente destinados aos papéis de compositores e de revisores das obras latinas.
Para a Patrologia grega, a tarefa era menos fácil. A fim de obter um texto nítido e elegante que pudesse competir com as mais belas edições modernas, fez primeiro gravar por Friry dois tipos de caracteres, dos quais um, itálico, devia realçar as palavras e as citações que se queria distinguir do texto; é um aperfeiçoamento que Migne foi o primeiro a introduzir na impressão da língua grega. Esses caracteres foram fundidos em seus ateliês.
Buscou depois, fora da França, compositores e revisores que não apenas conheciam as letras gregas, mas compreendiam o que compunham. Teve assim vários gregos como compositores, Sympsomo, Pantazidès e Dobriadès. Vinculou a si como revisores Lehmann, de Leipzig, Reitchard, de Stuttgard, Sidon, de Cologne, Beyerlé, de Hanovre, Guardia, de Palma, Laas d'Aguerr, de Hollande, Tarlet, de Bruxelles, o hebraísta Drach, etc.; atenção particular foi dada aos acentos, muito negligenciados pelos antigos beneditinos.
O editor não recuou diante dos maiores sacrifícios para alcançar uma perfeição tipográfica tão grande quanto possível: foi assim para as Hexaples de Orígenes. Dezoito folhas dessa obra já estavam clichadas; Drach, que estava encarregado da direção e da correção do volume, quis colocar em seu lugar as variantes do manuscrito de Coislin, que os beneditinos haviam remetido para o fim. Lançaram-se à fundição os dezoito clichês, e todo o volume foi retomado por Drach. Do mesmo modo, fez acrescentar ao volume já impresso da Préparation evangélique de Eusébio 260 colunas, para utilizar o trabalho de Séguier de Saint-Brisson, variantes e notas.
Esses detalhes bastam para dar uma ideia precisa da soma extraordinária de trabalho e dos esforços contínuos que se impuseram ao editor e a seus colaboradores para terminar, em vinte e dois anos, a publicação dos 388 volumes que contêm as duas Patrologias. Mas, mais ainda do que o trabalho material, o que é preciso admirar aqui é a iniciativa ousada, o senso de organização, o espírito de ordem que supõem, no editor, a execução e a realização de um empreendimento tão colossal.
— c) As fontes. — A fonte mais importante de onde Migne deveria extrair é a Maxima bibliotheca veterum Patrum et antiquorum scriptorum ecclesiasticorum, publicada em 27 vol. in-fol., em Lyon, em 1677, sexto refundimento da Bibliotheca SS. Patrum, editada, um século antes, por Marguarin de la Bigne, 8 vol., in-fol., Paris, 1575, completada sucessivamente com o auxílio da Bibliothèque des Pères, publicada pela Universidade de Cologne, em 1616, da coletânea liturgica de Hittorp e das publicações do P. Fronton du Duc, 1618-1624.
Outra fonte importante é a Bibliothèque des Pères do P. Galland, que retomou, para completá-la, a Bibliothèque de Lyon, acrescentando-lhe os Pères gregos e orientais em seu texto original; esta publicação havia permanecido inacabada, 12 vol., in-fol., Venise, 1765-1788.
Além dessas grandes coleções, Migne recorreu a um grande número de bibliotecas particulares: às bibliotecas polêmicas de Simler, Scripta veterum latina, Zurich, 1571, de Gesner, Theologorum aliquot græcorum veterum orthodoxorum..., Zurich, 1559-1560, de Foggini, Opéra selecta SS. Patrum, Romae, 1754-1771, de Gilbert Mauguin, Veterum scriptorum qui I X° s. de praedestinatione scripserunt opéra et fragmenta, Paris, 1650, d'Oberthür, Opéra polemica SS. Patrum, Wurzbourg, 1777-1791; aux bibliothèques ascétiques de Chantelou, Bibliotheca Patrum ascetica, Paris, 1661-1673, de Poussines, Thésaurus asceticus, Paris, 1684, de Pez, Bibliotheca ascetica antiquo-nova, Ratisbonne, 1723-17 10; à l'Homiliarium patristicum de Pelt, Rheinwald et Voigt, Berlin, 1829-1834; aux éditions des Pères apostoliques de Cotelier, SS. Patrum qui temporibus apostolicis floruerunt, Paris, 1072, d'Ittig, Bibliotheca Patrum apostolicorum, Leipzig, 1699-1700, de Lud. Frey, Epistolæ SS. Patrum apostolicorum, Bâle, 1742, de Rich. Russel, SS. Patrum apostolicorum... opera genuina, Londres, 1746, d'Hornemann, Scripta genuina græca Patrum apostolicorum, Copenhague, 1828-1829, de Hefele, Patrum apostolicorum opéra, Tubingue, 1839, de Jacobson, Patres apostolici, Bâle, 1840; aux collections des poètes chrétiens d'Arevalo, Rome, 1710, à celle des Pères de l'Église d'Angleterre, publiée par les docteurs d'Oxford.
Vários fragmentos foram tomados da Bibliotheca orientalis de Assémani, Rome, 1719-1728; da Bibliotheca latina e da Bibliotheca græca de Fabricius, Hambourg, 1697 et 1705-1728; aux Bibliothèques de Photius et de Zaccaria; do Thésaurus monumentorum ecclesiasticorum et historicorum de Canisius, complété par Basnage, Amsterdam, 1725; do Thésaurus novus anecdotorum de Martène et Durand, Paris, 1717; do Veterum aliquot scriptorum... spicilegium de Luc d'Achery, Paris, 1655-1677; do Spicilegium SS. Patrum ut et haereticorum... de Grabe, Oxford, 1698- 1714; do Spicilegium Patrum... de Fabricius, Hambourg, 1716-1718; do Spicilegium de Mai, Rome, 1839- 1844; dos Analecta vetera de Mabillon, Paris, 1675- 1685; dos Analecta graeca de Montfaucon, Paris, 1688; de coleções semelhantes de Kollarius, de Amaduzzi; do Thésaurus anecdotorum novissimus de Pez, Augsbourg, 1721-1729; dos Anecdota græca de Muratori, Padoue, 1709, de Wolf, Hambourg, 1721; do l'Anecdotorum fasciculus de Mingarelli, Rome, 1756; dos Anecdota sacra de Levis, Turin, 1789; dos Anecdota græca de Boissonnade, Paris, 1832; dos Opuscula dogmatica, Opuscula varia, Opéra varia de Sirmond, Paris, 1630, 1675, 1695; da Bibliotheca concionatoria de Combéfîs, Paris, 1682: das Miscellanea de Baluze, Paris, 1678-1715; dos Sacra antiquitatis monumenta de Hugo, Etival, 1732; dos Deliciæ eruditorum de Lami, Florence, 1736-1755; da Collectio prima dos Vindemiæ litterariae de Schannat, Leipzig, 1732; dos Reliquiae sacrae de Routh, Oxford, 1814-1818; dos Fragmenta Patrum græcorum de Münter, Copenhague, 1788; às Catenae de Leipzig, d'Oxford, de Venise, de Cologne; às diversas coleções de dom Martène, de Casimir Oudin, de Hoffmann, de Lorenzana, de Zacagny, de Quirini, de Calaardi, de Trombelli, de Mai, etc.
Quanto às cartas dos Soberanos Pontífices, as Epistolae romanorum Pontificum de dom Coustant, Paris, 1721, foram reproduzidas integralmente. Por fim, os textos de certos Padres foram tomados de edições particulares: a edição de Tertuliano, inteiramente nova, é obra de dom Pitra; a de São Cipriano foi tomada de Baluze et dom Morand, Paris, 1726: a de Arnobe, de Orelli, Leipzig, 1816- 1817; a de Lactance, de Lenglet du Fresnoy, Paris, 1748; as de Juvencus, Dracontius, Sédulius, Prudence et saint Isidore, de Arevalo, Rome, 1792; a de Lucifer de Cagliari, dos frères Coleti, Venise, 1778; a de São Dâmaso, de Merenda, Rome, 1754: a de Santo Optat, de Ellies du Pin, Paris, 1700; a de Sulpice-Sévère, de Prado, Vérone, 1741-1751: a de São Chromace, de Braïda, Udine, 1816; as de São Jerônimo e Rufin, de Vallarsi, Venise, 1766-1772; a de São Paulin, de Muratori, Vérone, 1736; a de Marius Mercator, de Garnier, Paris, 1673; a de Salvien, de Baluze, Paris, 1663, 1684; as de São Léon e de São Zenon, de P. et J. Ballerini, Venise, 1753-1757; a de São Hilário, de dom Coustant, Paris, 1693; a de Santo Ambroise, de du Frische et DICT. DE THÉOL. CATH. Le Nourry, Paris, 1650-1690; a de Santo Agostinho, de Blampin, Coustant..., Paris, 1679-1700; a de São Gregório, o Grande, de Sainte-Marthe, Paris, 1705; a de São Gregório de Tours, de Ruinart, Paris, 1699, a de Cassiodore, de J. Garet, Rouen, 1679; a dos Apologistas do século II, de Maran, Paris, 1720; a de Santo Irineu, de Massuet, Paris, 1710; a de São Cirilo de Jerusalém, da edição de Touttée publicada por Maran, Paris, 1720; a de São Basílio, de Garnier et Maran, Paris, 1721-1730; a de São Gregório de Nazianze, de Clémencet et Caillau, Paris, 1778 et 1840; a de São Prosper, de Le Brun des Marettes et Mangeant, Paris 1711; a de São Gregório de Nysse, de Forbes, Burntisland, 1855; a de Santo Épiphane, de Æhler, Berlin, 1859.
— d) A publicação. — O Cours de Patrologie começou a aparecer em 1844. Porta um desses imensos títulos que Migne tanto apreciava, enumerando com complacência as qualidades da publicação: Patrologiae cursus completus, sive Bibliotheca universalis integra, uniformis, commoda, œconomica, omnium SS. Patrum, doctorum, scriptorumque ecclesiasticorum qui ab aevo apostolico ad Innocentii III tempora floruerunt; recusio chronologica omnium quae exstitere monumentorum catholicae Traditionis per duodecim priora Ecclesiæ saecula, juxta editiones accuratissimas, inter se cumque nonnullis codicibus manuscriptis collatas, perquam diligenter castigata; dissertationibus, commentariis lectionibusque variantibus continenter illustrata; omnibus operibus post amplissimas editiones quæ tribus novissimis sæculis debentur absolutas detectis, aucta; indicibus particularibus analyticis, singulos sive tomos, sive auctores alicujus momenti subsequentibus, donata; capitulis intra ipsum textum rite disposita, necnon et titulis singularum paginum marginem superiorem distinguentibus subjectamque materiam significantibus, adornata; operibus cum dubiis tum apocryphis, aliqua vero auctoritate in ordine ad Traditionem ecclesiasticam pollentibus, amplificata...; editio accuratissima, cæterisque omnibus facile anteponenda, si perpendantur: characterum nitiditas, chartæ qualitas, integritas textus, perfectio correctionis, operum recusorum tum varietas, tum numerus, forma voluminum perquam commoda sibique in toto operis decursu constanter similis, pretii exiguitas, præsertimque ista collectio, una, methodica et chronologica, sexcentorum fragmentorum opusculorumque hactenus hic illic sparsorum, primum autem in nostra Bibliotheca, ex operibus ad omnes aetates, locos, linguas formasque pertinentibus, coadunatorum.
A Patrologia latina foi publicada em primeiro lugar: seus 217 tomos em 218 volumes in-4° apareceram de 1844 a 1855, em duas séries, a primeira, de Tertuliano a São Gregório, o Grande (t. I a LXXIII), 1844-1849, a segunda, de São Gregório, o Grande, a Inocêncio III (t. LXXIV a CCXVII), 1849-1855, reproduzindo os escritos ou fragmentos de escritores eclesiásticos, em número de 261.
De 1862 a 1865, apareceram quatro volumes de Indices da Patrologia Latina, compreendendo 235 tábuas gerais ou especiais que deveriam servir de chaves. A composição dessas tábuas supõe um trabalho considerável. Não custaram a redigir, segundo Migne, menos de meio milhão de francos, nem menos de quinhentos anos de trabalho de cinquenta homens.
Apesar do labor extraordinário que exigiram, não prestam todos os serviços desejáveis: seu fracionamento excessivo obriga frequentemente a recorrer a várias dessas 235 tábuas para encontrar a informação procurada. Pode-se, no entanto, lamentar que o quinto volume de Indices, que havia custado dois anos de trabalho tipográfico e que estava clichado, tenha sido destruído pelo incêndio de 1868 e não tenha podido ser reconstituído posteriormente. Devia conter, entre outros, um Index généralis Scripturæ e, sobretudo, um Index patristicus, composto pelo cardeal Pitra, dando um panorama dos Padres e escritores da Igreja latina de Inocêncio III ao concílio de Trento, e uma notícia bibliográfica sobre todas as obras eclesiásticas impressas ou manuscritas desde os tempos apostólicos até o século XVI.
A Patrologia grega apareceu em duas edições: uma edição greco-latina e uma edição latina. A edição greco-latina foi publicada de 1857 a 1866, compreendendo 161 tomos em 166 volumes, repartida em duas séries, a primeira indo de São Barnabé a Fócio, t. I a CIV, 1857-1861, a segunda de Fócio ao concílio de Florença, t. CV a CLXI, 1863-1866. As duas partes contêm as obras de cerca de oitocentos autores ou escritores anônimos. A edição dos Padres gregos somente em latim compreende 81 tomos em 85 volumes, 1856-1867.
Como havia feito para os Padres latinos, Migne havia preparado para a Patrologia grega tábuas que teriam formado, com as obras de Michel Apostolicus, das quais várias eram inéditas, o t. CLXII. Esse volume estava composto e clichado quando sobreveio o incêndio. Os esforços feitos posteriormente para recuperar os textos utilizados por Migne nesse volume permaneceram sem resultado, a despeito da presença de sua tradução no t. LXXXI da edição latina dos Padres gregos. Embora o desejasse, Migne não pôde retomar a publicação desse volume.
Essa lacuna foi preenchida, quanto às tábuas, por diferentes autores: Index alphabeticus in Patrologiae a J. P. Migne editae seriem graecam, gr. in-8°, Saint-Pétersbourg, 1881 (Kreisberg); J.-B. Pearson, Conspectus auctorum quorum nomina indicibus Patrologiae graeco-latinae a J. P. Migne editae continentur, gr. in-8°, Cambridge, 1882; Dor. Scholarios, Κλεὶς Πατρολογίας καὶ βυζαντίνων συγγραφέων ἤτοι εὑρετήριον τῶν συγγραμμάτων τῶν Πατέρων κτλ... περιεχομένων ἐν τῇ τοῦ Μιγνίου Πατρολογίᾳ .... in-4°, 611 p., Athènes, 1879; Τάμειον τῆς Πατρολογίας ἤτοι συλλογὴ τῶν ἐν τῇ Πατρολογίᾳ τῇ ὑπὸ Μιγνίου περιεχομένων κυριωτέρων ἐννοιῶν, φράσεων καὶ ὑποθέσεων, 2 vol. in-4°, xix-622 p., Athènes, 1879-1887.
O melhor complemento foi dado por F. Cavallera, cujo volume de Indices torna desde então fácil o emprego dos 161 tomos desta coleção e fornece a quem quiser estudar os Padres um precioso instrumento de trabalho: Patrologiae cursus completus, accurante J. P. Migne. Series graeca. Indices digessit Fernandus Cavallera, lector Theologiae positivae in Instituto catholico Tolosano, in-4°, 218 p., Paris, Garnier, 1912. Cf. Rev. d'hist. ecclés., 1913, p. 443-444; Bullet. d'anc. littér. et d'arch. chrét., 1913, p. 155-156.
Esta tábua, muito prática, está dividida em três partes, a primeira dando a lista, volume por volume, dos autores contidos em toda a obra, a segunda, as obras de todos os escritores gregos, classificados por ordem alfabética, com indicação das notícias, dissertações e tábuas que lhes dizem respeito, a terceira, metódica, agrupando as obras sob as rubricas gerais: dogmática, apologética, polêmica, Escritura sagrada, hagiografia e homilética, liturgia, moral e ascetismo, direito, letras e ciências, poesia.
Em sua concisão, esta tábua presta mais serviços do que os quatro grossos volumes dos Indices da Patrologia latina. Para servir de introdução às obras contidas nas duas Patrologias, foram inseridas notas biográficas e literárias, tomadas de excelentes críticos, de Fabricius, de Cave, de Ughelli, de Mansi, dos Bolandistas, de Mabillon, dos autores da Gallia christiana, dos da Histoire littéraire de la France.
Essas notas têm por vezes grande valor, como as Conjecturae et emendationes de J. H. Nolte, precioso trabalho de crítica textual sobre os apologistas gregos do século II, P. G., t. VI, col. 1705-1816; as Quæstiones criticæ et historicæ de Macariorum Aegyptii et Alexandrini vitis de H. J. Floss, P. G., t. XXXIV, col. 1-176; as Origeniana de Huet, que se estendem por 651 colunas, P. G., t. XI, col. 633-1284.
— 3. Obras diversas. As grandes coleções que acabam de ser mencionadas são apenas uma parte da obra de Migne. De 1840 a 1856, ao mesmo tempo que os diferentes Cursus, publicava perto de cem volumes; de 1856 a 1868, uma cinquentena.
Em 1841, editava as Œuvres de sainte Thérèse, em 4 vol., acompanhadas de meditações sobre as virtudes da santa pelo cardeal Lambruschini, dos Atos de sua canonização e de mais de 150 cartas e 180 peças que jamais haviam sido publicadas ou traduzidas, assim como obras de São João da Cruz, de São João de Ávila, de São Pedro de Alcântara e de Álvares, oferecendo assim um conjunto das doutrinas da mais alta escola mística espanhola. No mesmo ano aparecia, em 4 vol., a Perpétuité de la foi de l'Église catholique: sobre a eucaristia, por Nicole, Arnauld, Renaudot, etc.; sobre a confissão, por Denis de Sainte-Marthe; sobre os principais pontos que dividem católicos e protestantes. O primeiro desses livros encontrava-se com dificuldade; esta publicação tinha seu interesse na época do movimento de Oxford, para chamar a atenção dos protestantes sobre os pontos controvertidos.
Não podemos senão indicar as demais publicações feitas durante o período de 1840 a 1856: Somme théologique de S. Thomas d'Aquin, 4 vol.; Catholicum lexicon, ou triple grammaire et triple dictionnaire hébraïques ou chaldaïques, por Gesenius, Drach, Tempestini e du Verdier, 1 vol., obra criticada por L. Barges, na Bibliographie catholique de novembro de 1848, p. 211, como inacessível para os principiantes, inútil para as pessoas instruídas, perigosa para os católicos (A. Bonnetty faz justiça a esses ataques nos Annales de philosophie chrétienne, t. XXXVIII, p. 62-77); Quatre années pastorales ou Prônes pour quatre ans, por Badoire, 1 vol.; Bibliothèque canonique, juridique, morale..., por Lucius Ferraris, 8 vol.; Actes et histoire de l'Église de Paris, publicados por ordem de Dom Sibour, 1 vol.; Histoire du concile de Trente, por Pallavicini, 3 vol.; Les catéchismes philosophique, polémique, historique, de Feller, Rohrbacher, Fleury, Bellarmin, Olier, 2 vol.; les Praelectiones theologicae, de Perrone, 2 vol. os Monuments inédits, de Faillon, 2 vol.; a Polyglotte catholique em doze línguas, 1 vol.; o Manuel pratique ou répertoire ecclésiastique, 1 vol.; as Institutiones catholicæ in modum catecheseos, de Pouget, 12 vol.; as Messes pontificales, 1 vol.; as Obras completas de Bossuet, ; Boudon, 11 vol.; Bérulle, 1 vol., 3 vol.; de la Baudrand, ; Tour, 7 vol.; 2 vol.; de Pressy, 2 vol.; Lefranc de Pompignan, 2 vol.; Bergier, 8 vol.; La Luzerne, ; Thiébaut, 8 vol.; de 6 vol.; Arvisenet, 1 vol.; Riambourg, 1 vol.; Frayssinous, 1 vol. Por fim, as Obras completas de S. Tomás, em 26 volumes, foram anunciadas como estando no prelo em 1856.
De 1856 a 1868, saíram da Imprimerie catholique: o Abrégé du droit canonique universel, por Maupied, 2 vol.; os Livres sacrés de toutes les religions, por Pauthier e Brunet, 2 vol.; o Rituel des Rituels, 2 vol.; a Somme ou Abrégé de la théologie de Suarez, pelo P. Noël, 2 vol.; o Accord de la raison, des faits et des devoirs sur la vérité du catholicisme, por Houteville, Gauchat e Carra de Vaux, 1 vol.; o Bossuet des gens du monde, pelo abade Macé, 1 vol.; os Indices de la Somme de saint Thomas, podendo adaptar-se a todas as edições, 8 vol.; a Somme philosophique de saint Thomas contre les Gentils, reprodução do manuscrito da Vaticana, por Uccelli, 2 vol.; o Lexicon manuale ad scriptores mediæ et infimæ latinitatis, por Maigne d'Arnis, 1 vol.; as Recherches historiques sur les peuples anciens et leurs cultes, do abade Desroches, 1 vol.; Satan, ses œuvres et ses pompes, do P. Héliodore de Paris, 1 vol.; as Obras completas de São Francisco de Sales, 9 vol.; de Bonald, 4 vol.; Gérard, 3 vol.; Fléchier, 2 vol.; La Chétardie, 2 vol.; Lefrançois, 2 vol.; Tronson, 2 vol.; Fénelon, 1 vol.; du Voisin, 1 vol.; Émery, 1 vol.; Gerdil, 1 vol.; Lantages, 1 vol.; Régnier, 1 vol.
Assim, quase mil e cem volumes foram publicados entre 1838 e 1868; e o plano de Migne previa levar a dois mil o número de volumes da Bibliothèque universelle du clergé.
4. Interrupção das publicações; sua continuação depois da morte de Migne. O incêndio de 1868, do qual já falamos anteriormente, pôs fim às publicações do abade Migne. Várias obras, cujos manuscritos tinham sido conservados, puderam ser retomadas depois e concluídas: foi o caso da Histoire ecclésiastique, cujo t. xxiii estava no prelo. Outras não puderam ser completadas: assim foi para a Patrologie latine, no tomo ccxxii; para a Patrologie grecque, no tomo clxii; para os Orateurs sacrés, nos três últimos volumes (t. c a cii). Outras, enfim, prontas para aparecer, ou cuja impressão já tinha começado, nunca viram a luz. Foi o caso dos Statuts des Statuts, que deviam compreender 6 volumes e reunir as Œuvres théologiques de Mgr Dupanloup; de uma obra do abade Maupied, Theologia positiva; dos Points fondamentaux de la foi catholique, em 16 vol.; de um grande número de obras que, na sua maioria, já estavam clichadas.
Ao mesmo tempo, desapareciam os projetos de outras coleções cuja realização Migne sonhava há muito tempo. A primeira dessas publicações que permaneceram em projeto era o Orbis christianus, anunciado desde 1817: Orbis christianus in provincias ecclesiasticas distributus, quo series et historia Summorum Pontificum, cardinalium, patriarcharum, primatum, archiepiscoporum, episcoporum, abbatum, paræciarum, uno verbo, personarum, rerum et institutionum religiosarum omnis generis, ab origine Ecclesiarum ad nostra tempora deducuntur et probantur ex authenticis instrumentis ad calcem voluminum appositis. A obra deveria compreender 80 volumes in-4°, pelo preço de 480 francos; teria sido para o universo católico o que é a Gallia christiana para a França. Os catorze volumes dessa coleção teriam ali ocupado seu lugar, junto com outras publicações análogas para os diferentes países, sendo essas antigas coleções corrigidas, completadas, atualizadas. Para as regiões onde o trabalho ainda não tivesse sido feito, a composição fora confiada a "verdadeiros beneditinos pela ciência". Para a execução, Migne exigia um mínimo de quinhentas assinaturas. Cf. Ann. de phil. chrét., t. xxxvi, p. 403-404.
Pouco tempo depois, Migne anunciava como devendo ser em breve posta no prelo uma Collection universelle et complète des conciles généraux, nationaux, provinciaux et synodaux, em 80 volumes in-4°, ao preço de quinhentos francos. Essa coleção deveria ser "mais que quádrupla da de Labbe e Cossart, e mais que dupla da de Mansi e Coleti, cujos 31 vol. in-fol. são dificilmente encontráveis ao preço de mil e duzentos francos". Ann. de phil. chrét., t. liii, p. 321.
O editor tinha ainda a intenção de completar suas Patrologias com uma coleção de todos os Padres e autores eclesiásticos latinos de Inocêncio III ao concílio de Trento, cujas obras foram impressas em diferentes formatos e são quase impossíveis de encontrar, e com outra coleção de todos os autores latinos e gregos cujas obras, muito numerosas, ainda se encontram manuscritas.
A falta de recursos tinha retardado a realização desses projetos: a edição da Patrologie grecque e das Tables de la Patrologie latine tinha exigido um adiantamento de fundos considerável. A. Bonnetty tinha formulado o desejo de que o episcopado católico, ajudado pelo governo, se tornasse adquirente dos clichês das duas Patrologias, que constituíam uma imensa biblioteca de metal. O produto dessa venda teria permitido a Migne começar imediatamente suas novas coleções, que teriam sido tão preciosas quanto suas publicações patrísticas. Cf. Ann. de phil. chrét., t. lxxiii, p. 412-413.
Esse desejo não foi atendido. Importava, no entanto, que o que restava da obra de Migne depois do incêndio não desaparecesse. O depósito de folhas boas tinha sido em parte preservado; algumas coleções podiam ser completadas; podia-se reimprimir o que estava esgotado. A livraria Garnier comprou, em 1876, aos herdeiros de Migne, o que restava da tipografia e da casa editora: ela terminou a Histoire ecclésiastique, os Orateurs sacrés, deu Tables à Patrologie grecque e reeditou as obras esgotadas.
As primeiras obras reeditadas foram submetidas a uma nova composição, a qual, do ponto de vista da correção, revelou-se bastante mediocre; resultaram daí também diferenças de paginação entre as edições antigas e as novas, o que era um inconveniente muito grave para obras de uso corrente, como as duas Patrologias.
Em suas Tables de la Patrologie grecque, Cavallera cuidou de colocar entre colchetes a nova paginação, ao lado da antiga. Essa precaução suprime apenas em parte a dificuldade. Felizmente, as novas edições são feitas agora por um processo de exatidão absoluta: a fotografia.
Na Patrologie grecque, as obras recompostas, que sofreram mudança de paginação, são as seguintes: S. Dionísio Areopagita, t. iii; Apologistas do século II, t. vi; S. Basílio, t. xxxi e xxxii; S. Gregório de Nazianzo, t. xxxvi; Fócio, t. cii (a nova edição omitiu os Addenda seu Epistola ad Ecclesiam Antiochenam) e civ; tradição católica do século X, t. cxvii; Œcumenius, t. cxix.
Vários tomos da Patrologie latine também foram recompostos e, por isso, puderam sofrer mudança de paginação. São as obras de S. Jerônimo, t. xxii; de Santo Agostinho, t. xxxii e xlvii; de Ennodius-Boécio, t. lxiii; de S. Germain-Pelágio II, t. xlvii; de Walafrido Estrabão, t. cxiii; de Ratramne, t. cxxi; de Anastásio Bibliotecário, t. cxxvii e cxxix; de Burchard de Worms, t. cxl; de S. Bruno, t. clii; de Guiberto, t. clvi; de S. Bruno de Asti, t. clxiv; de Abelardo, t. clxxviii; de S. Bernardo, t. clxxxii; de Santa Hildegarda, t. cxcvii (informações fornecidas pela Librairie Garnier).
As demais obras das duas Patrologias que, esgotadas, foram reimpressas, seja por nova composição, seja por fotografia, processo atualmente empregado, concordam com a edição original do abade Migne, cuja obra se encontra assim continuada tal como ele a havia realizado.
Suas obras ainda gozam do favor do público: sua venda anual atinge a cifra média de 500.000 francos. É verdade que a Librairie Garnier já não pode vender seus volumes ao preço ínfimo pelo qual Migne os dava, por assim dizer, a seus assinantes.
III. — Apreciação. A obra de Migne e a crítica. Uma publicação tão considerável e tão rápida dos documentos da Tradição católica não podia ser perfeita em todos os pontos; devia suscitar muitas críticas. É certo que há, nessa imensa compilação, muita confusão, muitas coisas inúteis, ao lado de outras que resistiram ao tempo.
Certos críticos foram demasiado severos para com a obra de Migne, considerada em seu conjunto. Krüger, na Realencyklopaedie de Hauck, t. xv, p. 0, vê na Patrologia um obstáculo para a ciência: "Os sábios, diz ele, são tentados por esses volumes cômodos a negligenciar as excelentes edições antigas que Migne reproduziu com negligência e com numerosos erros."
Outros lhe "reprovaram, diz dom Cabrol, não ter seguido um plano bem definido, ter admitido em sua coleção peças que não tinham relação com ela: cartas, diplomas, algumas liturgias; as atribuições são errôneas; os spuria são frequentemente compostos sem cuidado; certas edições poderiam ter sido melhor escolhidas... Também se falou de erros de impressão." D. Cabrol, Histoire du card. Pitra, p. 112, n. 2.
Pode-se ainda lamentar certas omissões, ou a presença de duplicatas; assim, a Chronique d'Idace é dada duas vezes, segundo Galland, P. L., t. li, col. 873-980, e segundo Garzon e de Ram, P. L., t. lxxiv, col. 701-750.
Muitos desses defeitos eram inevitáveis: explicam-se, em grande parte, pela época em que vivia o editor. Migne julgou não poder fazer melhor do que se colocando na escola e na esteira dos beneditinos, que se guiavam por seu sentimento, por seu conhecimento dos autores, pela antiguidade dos manuscritos. Seria injusto exigir de um editor de meados do século XIX o método crítico aplicado, em nossos dias, à edição dos Padres.
Aliás, Migne queria colocar imediatamente ao alcance dos sábios todos os tesouros da Tradição católica. A que teria ele chegado, se tivesse sido necessário entregar-se, para cada Padre, a um estudo crítico dos manuscritos, fazer para cada um uma editio variorum? Ainda estaríamos esperando a conclusão dessa publicação. E se nos fosse necessário, como quer Krüger, recorrer sempre às antigas edições, quantos estariam hoje na impossibilidade de consultar os Padres?
Migne não fez uma edição crítica; mas "ele não era filólogo, e não se deve esquecer que, em 1844, ter-se-ia tido bastante dificuldade em encontrar, no exterior como na França, homens a par dos métodos que só deveriam dar seus frutos alguns anos mais tarde. Se Lachmann já tinha publicado a maior parte de suas edições, seu Lucrèce é, porém, de 1850; Ritschl publicou seu Plaute em 1848. Não se deve pedir a Migne mais do que ele podia e queria dar." Lejay, Rev. d'hist. et de litt. relig., 1896, p. 98.
Mesmo assim, não se deve exagerar essa ausência de crítica na obra de Migne, sobretudo nas Patrologias: várias de suas edições são verdadeiramente edições críticas. "Ele encontrou mais de uma vez a ocasião de mostrar que não era estranho, longe disso, aos melhores hábitos da erudição." Bibliothèque de l'École des Chartes, IVe série, t. i, p. 62-67.
Quanto aos erros de impressão, o próprio Migne respondeu às censuras que lhe eram feitas. Cf. 1er vol. des Tables de la P. L., verso do título. Ele confessa que as primeiras edições saídas de suas prensas não eram de modo algum perfeitas, e isso ainda é exato para os primeiros volumes da Patrologie latine; mas tomou, para a correção das provas, revisadas até cinco vezes, tais precauções que essas censuras perderam, em grande parte, seu fundamento. "É um fato, diz ele, que a correção nunca foi levada tão longe em nenhuma edição, antiga ou contemporânea." Ele não teme prometer um prêmio de vinte e cinco centavos por cada erro de impressão que lhe for apontado na Patrologie grecque. Em todo caso, há menos erros nas duas Patrologias do que nas coleções de Lyon, de Combéfis, de Labbe e Mansi.
Aliás, sábios que utilizaram amplamente as edições de Migne, o P. de Buch, Denzinger, (loin l'il ra), testemunham de sua excelente correção tipográfica. Cf. Tables de la P. L., t. i, verso do título.
Autor original: L. Marchal
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