MIGÉCIO, hereje espanhol do fim do século VIII. Esse personagem, cujo nome também se encontra escrito Mingentius, é muito mal conhecido. De um lado, Elipando de Toledo (o pai do adocionismo espanhol), numa carta a Fidelis, vangloria-se de ter sufocado a heresia dos migecianos num concílio realizado em Sevilha: Ego et cæteri fratres mei in Ispalitanis... tum in festis paschalium quam in cæteris erroribus Migetianorum hæresim emendavimus. P. L., t. XCVI, col. 918 D. Do mesmo Elipando conservou-se uma carta, ou antes uma violenta invectiva, dirigida ao próprio Migécio, ibid., col. 859-867; ela enumera os diversos erros do personagem.
Enfim, ainda da Espanha nos vem uma informação sobre Migécio na carta escrita pelos bispos daquele país aos bispos francos, depois da primeira condenação por estes do adocionismo espanhol. Ver aqui, t. I, col. 404-405. Para desacreditar Béatus, o adversário de Elipando, os prelados espanhóis o comparam a Migécio: Cui similem dixerimus antiphrasium Beatum: Migetio Cananorum nisi et Salibanorum (?) magistro. Isso lhes dá ocasião de contar sobre este último algumas anedotas próprias a desacreditá-lo. P. L., t. CI, col. 1330 BC.
Por outro lado, o papa Adriano I foi informado dos erros de Migécio. Embora hostil às ideias de Elipando, ele não deixa de assinalar os erros de Migécio, nos quais se deixou enredar o bispo missionário Égila: Non recte ille Egila prædicat, sed errores quosdam Mingentii magistri sui sequens extra catholicam disciplinam, ut fertur, conatur docere. Em Codex carol., 97 (al. 95), P. L., t. XCVIII, col. 376 A, e Mon. Germ. hist., Epist., t. III, p. 637. Se acrescentarmos, enfim, uma alusão aos Migentiani, que são aproximados dos donatistas e dos luciferianos numa carta do bispo Saul de Córdova (em Florez, España sagrada, t. XI, p. 166), teremos feito o giro completo dos documentos referentes a nosso personagem.
O mais claro ainda é o que diz Elipando, cuja paixão, infelizmente, obscurece bastante as expressões. A Migécio ele reprova uma concepção falsa da Trindade, sobre a qual voltaremos; depois, um rigorismo moral que se traduz por exigências excessivas quanto à santidade dos sacerdotes, pela proibição de certos alimentos, pela interdição de comer com os infiéis; por fim, uma tendência a exaltar desmedidamente a dignidade e a importância da Igreja e da cidade de Roma.
Esse último ponto explica bem como o bispo missionário Égila, enviado à Espanha pelo arcebispo Willicar de Sens para ali trabalhar na reforma eclesiástica, ligou-se a Migécio, em quem encontrava uma «devoção» para com a Sé romana bem rara na Espanha daquela época. Juntos também, Égila e Migécio devem ter protestado contra diversos abusos de ordem moral ou disciplinar que se haviam multiplicado desde a conquista árabe; sobretudo devem ter lutado contra o relaxamento geral que levava os cristãos a se conformarem aos costumes dos sarracenos. Devem tê-lo feito com certa veemência, e erigindo em princípio máximas contestáveis. Devem também ter notado que o cômputo pascal diferia do que era doravante seguido em Roma. Sobre essa atividade de Égila, veja-se duas cartas muito elogiosas de Adriano I, Cod. carol., 96 e 95 (al. 97), P. L., t. XCVIII, col. 336 e 333, Mon. Germ. hist., Epist., t. III, p. 643, 647. Tudo isso os expôs à suscetibilidade dos bispos espanhóis, e muito especialmente à do primaz de Toledo, que acabaram por denunciá-los a Roma.
Mas Elipando não insiste apenas nessa agitação indiscreta, mas também nas incongruências teológicas de Migécio. A crer nele, estas teriam sido enormes: Tres personas corporeas in divinitate esse protestaris. Ele teria dito (ou insinuado) que havia na divindade três pessoas corporais: a pessoa do Pai seria Davi, a do Filho seria o homem-Jesus, a do Espírito Santo, o apóstolo Paulo. P. L., t. XCVI, col. 860 D. Os críticos modernos tentaram dar um sentido pensável a essas expressões; imaginaram em Migécio uma espécie de sabelianismo ou de samosatenismo, que teria descrito a atividade divina exercendo-se na história por três homens especialmente inspirados por Deus: Davi, Jesus, Paulo. Para sustentar essa acusação de sabelianismo, traduzem por Sabellianorum o estranho
Salibanorum da carta dos bispos espanhóis. Alguns encontraram nisso uma lembrança do priscilianismo, a velha heresia espanhola, uma influência do maometismo. Tudo isso é talvez bem refinado. Não haveria aqui, simplesmente, um procedimento de polêmica de Elipando de Toledo, atribuindo, com base em indícios muito tênues, enormidades a seu adversário? Ele teria aproveitado, por exemplo, uma exegese demasiado literal que Migécio dava do salmo Eructavit ou do Conserva me, para lhe fazer dizer uma absurdidade sobre Davi; de uma palavra sobre Paulo, órgão do Espírito Santo, para inventar essa fábula de que Paulo é a terceira pessoa da Trindade. E quanto ao ensinamento de Migécio sobre a segunda pessoa, ele é conforme à ortodoxia, e as acusações que Elipando lhe dirige traem justamente as insuficiências de sua própria cristologia. Tudo isso é tão conforme aos procedimentos da polêmica em geral, e da polêmica teológica em particular, que é preciso esperar outras provas para atribuir, mesmo ao ignorante e ao iluminado que Migécio pôde ter sido, as absurdidades de que o acusa Elipando.
As fontes foram todas citadas no artigo. Quanto a estudos, veja-se J.-B. Einhuber, Dissertatio dogmatica de hæresi Elipandi et Felicis, reproduzida em P. L., t. CI, col. 337-438, sobre Migécio, ver col. 355 e segs.; Hefele-Leclercq, Histoire des conciles, t. III/2, col. 985; Hauck, Kirchengeschichte Deutschlands, 3ª-4ª ed., t. II, Leipzig, 1912, p. 298-301.
É. Amann.
Autor original: É. Amann
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