MELITÃO DE SARDES (Santo), século II. I. A personagem. — II. Os escritos.
I. A personagem. As raras indicações que se encontram sobre Melitão de Sardes na antiga literatura cristã mostram que ele foi, em sua época, uma personagem de primeiro plano. Mas sua lembrança se apagou muito depressa, como a de bom número de escritores antigos. O levantamento dos testemunhos que lhe dizem respeito, ao mesmo tempo que justificará a curta biografia que tentaremos escrever, permitirá apreciar o desaparecimento progressivo da personagem e de sua obra.
1° Testemunhos anteriores a Eusébio. O mais antigo é o de Policrates de Éfeso, na carta que, por volta de 195, dirige ao papa Vítor e na qual defende o uso pascal da Ásia, invocando as «grandes luzes» que ali brilharam. Entre elas assinala em último lugar (segundo a ordem cronológica) : Μελίτωνα τὸν εὐνοῦχον, τὸν ἐν ἁγίῳ πνεύματι πάντα πολιτευσάμενον, «Melitão, o eunuco, que se guiava em tudo pelos conselhos do Espírito Santo.» Em Eusébio, H. E., V, xxiv, P. G., t. XX, col. 496 A. Segundo toda verossimilhança, a expressão εὐνοῦχος, como muito frequentemente nos textos antigos, deve entender-se daquele que guarda a continência voluntária. Pouco tempo depois, Clemente de Alexandria, numa obra perdida, respondia aos argumentos apresentados por Melitão em favor desse mesmo uso asiático. — Atestação de Eusébio, ibid., IV, xxvi, col. 393 A. Tertuliano interessava-se também por ele, embora não partilhasse suas ideias sobre o montanismo, e num tratado igualmente desaparecido, De extasi libri VII, zombava da loquacidade declamatória de Melitão. Atestação de S. Jerônimo, Vir. ill., 24, P. L., t. XXIII, col. 678. — Hipólito (ou o autor anônimo do Pequeno Labirinto) invocava seu testemunho para combater a heresia de Artêmon : «Quem não conhece, escreve ele, os livros de Ireneu, de Melitão e de outros que proclamam o Cristo Deus — e homem?» Em Eusébio, V, xxviii, col. 512 C. Aproximadamente na mesma data, Orígenes cita, em seu comentário sobre os Salmos, uma opinião de nosso autor, segundo a qual Absalão teria sido o tipo, a figura do diabo. In Psalm., III, 1, P. G., t. XII, col. 1120. Do mesmo modo, no comentário sobre Gên., 26, cita uma ideia de Melitão, que parecia atribuir a Deus a corporeidade. Μελίτων συγγράμματα καταλελοιπὼς περὶ τοῦ ἐνσώματον εἶναι τὸν Θεόν. Ibid., col. 93 A.
2° Informações fornecidas por Eusébio. — Em várias ocasiões Eusébio volta a Melitão. A Crônica (ao menos na versão jeronimiana) assinala, no 11º ano de Marco Aurélio, a entrega ao imperador, por Melitão de Sardes, de uma apologia pelos cristãos. Cf. P. L., t. XXVII, col. 472. A História eclesiástica invoca o testemunho dele em favor da autenticidade do rescrito supostamente dirigido por Antonino Pio ao Κοινόν da Ásia. H. E., IV, xiii, P. G., t. XX, col. 337 A; menciona-o também entre os escritores que floresceram no tempo desse imperador, IV, xxi, col. 378; enfim, consagra-lhe uma notícia literária considerável, à qual teremos de voltar. IV, xxvi, col. 392-398. Essa notícia fornece o mais claro de nossos conhecimentos sobre Melitão.
3° Informações posteriores. São Jerônimo mal pode ser mencionado, pois o capítulo XXIV do De viris, que trata de Melitão, não é quase mais que uma simples tradução (com alguns contrassensos) da notícia de Eusébio. P. L., t. XXIII, col. 678; consultar de preferência a edição Bernoulli, na coleção Krüger, Sammlung ausgewählter k. und dg. Quellenschriften, n. 11. Contudo, o conhecimento de nosso autor não desaparece completamente da Igreja latina. No século V, Genádio, em seu tratado De Eccles. dogm., menciona expressamente Melitão, como tendo professado sobre a corporeidade de Deus ideias análogas às de Tertuliano, op. cit., IV, P. L., t. LVIII, col. 982; e os melitianos, que ele assinala no c. LV, col. 994, como partidários do milenarismo, poderiam bem ser gente que leu Melitão e aceitou suas ideias (?). A Igreja grega não o conhece muito melhor. Pitra, Spicileg. Solesm., t. II, p. X, n. 1, conjecturou que, na passagem em que discute as opiniões dos autores eclesiásticos que escreveram περὶ ψυχῆς τε καὶ σώματος, Gregório de Nissa pode visar uma obra de Melitão que, na lista de Eusébio, traz com efeito esse título. Cf. Gregório de Nissa, De hominis opificio, XXVIII, P. G., t. XLIV, col. 229 B. Esse indício parece bem fugaz.
Em contrapartida, é certo que o autor do Chronicon pascale, no século VII, conhece, ao menos por Eusébio, a existência de Melitão e da apologia por ele dirigida a Marco Aurélio. An. 169, e também 164-165, P. G., t. XCII, col. 632, 639. Também no século VII, Anastásio, o Sinaíta, reunindo os testemunhos patrísticos contra os monofisitas, cita, com referências em apoio, algumas passagens do velho bispo. Hodegos, c. XII e c. XIII, P. G., t. LXXXIX, col. 197 A, 228 D-229 A B. E o monge do Sinai qualifica Melitão de Θεῖος καὶ πάνσοφος ἐν διδασκάλοις. Catenas sobre o Gênesis que podem remontar à mesma data fornecem quatro escólios dados como de Melitão. Depois disso, é o esquecimento completo. A Igreja síria o conhecera ela também, pois um ms. siríaco, sobre o qual voltaremos, dá alguns extratos, que parecem autênticos, de uma obra que se crê ter reencontrado na lista de Eusébio. Por outro lado, um copista acrescentava o nome de Melitão, o filósofo, a uma apologia do cristianismo, em que julgava reencontrar a obra do bispo de Sardes de quem Eusébio falara. Mas as confusões já começaram; continuarão na Idade Média, tanto no Oriente quanto no Ocidente, e é sinal de que, se o antigo doutor não é totalmente um desconhecido, ao menos já não representa para aqueles que lhe transcrevem o nome nenhuma recordação precisa.
É com o auxílio dessas magras informações que é preciso situar o velho escritor. Ignoramos tudo de seus antecedentes : em particular, é impossível dizer o lugar e a data de seu nascimento. Bispo de Sardes, tomou parte na primeira controvérsia sobre a fixação da Páscoa, como resulta do início do livro περὶ τοῦ Πάσχα, que Eusébio nos conservou, controvérsia que teve lugar «em Laodiceia, no tempo em que Servílio Paulo era procônsul da Ásia e em que Sagaris foi martirizado».
Ora, conhece-se um procônsul da Ásia que se chamava não Servílio, mas Sérgio Paulo (é também a lição de Rufino em sua tradução de Eusébio), cuja administração terminou em 167; é, pois, antes dessa data que se deve situar a conferência de Laodiceia. A data da Apologia é referida pela Crônica de Eusébio ao (10º ou) 11º ano de Marco Aurélio, 169. São os únicos acontecimentos da vida de Melitão aos quais é possível atribuir uma data um pouco firme. Quando se situa uma viagem que fez nosso autor ao Oriente, εἰς ἀνατολήν, viagem que lhe deu ocasião de verificar o conteúdo do cânon do Antigo Testamento (Eusébio, loc. cit., col. 396 C D), é impossível dizê-lo. A atitude de Tertuliano em relação a Melitão indica suficientemente que o bispo de Sardes combatera o montanismo nascente. Mas sabe-se quanto é difícil precisar a época em que começou esse movimento. A data da morte de Melitão tampouco pode ser precisada. Ele já adormecera no Senhor quando Policrates de Éfeso, por volta de 195, escrevia ao papa Vítor, mas havia pouco tempo, sem dúvida, pois figura em último lugar na lista das «grandes luzes» da Ásia, a qual parece seguir uma ordem cronológica. Deixara, em todo caso, uma reputação de santidade e sabedoria que permitia colocá-lo entre as mais santas personagens que aquela província conhecera.
II. Os escritos. Eusébio teve nas mãos, sem dúvida na biblioteca de Cesareia, bom número de obras compostas por Melitão; dá a lista delas, sem pretender que seja completa e contenha todas as produções do autor : «Dos livros que compôs, eis os que são de nosso conhecimento.» H. E., IV, xxvi, col. 392 A. Parece que se encontraram vestígios de obras desconhecidas de Eusébio. Enfim, numa época mais ou menos remota, diversas obras foram postas, erroneamente, sob o nome do bispo de Sardes. Examinaremos sucessivamente essas três categorias de escritos.
1° A lista de Eusébio. Pretendeu-se que essa lista estava redigida segundo a ordem cronológica, de modo que permitiria restituir a série das preocupações de nosso autor, mas não se apresentou nenhuma prova sólida em apoio dessa opinião. Mencionaremos simplesmente os escritos na ordem em que Eusébio os dá, indicando seu conteúdo provável e assinalando os raríssimos fragmentos que puderam conservar-se. Texto segundo a ed. Schwartz do Corpus de Berlim, Eusebius Werke, t. II a, p. 380 sq.
1. Τὰ περὶ τοῦ πάσχα δύο, Dois livros sobre a Páscoa; trata-se, evidentemente, da controvérsia sobre a maneira de fixar a festa da Páscoa. Segundo a carta de Policrates, Melitão era partidário do uso quartodecimano. Eusébio, loc. cit., n. 3, p. 382, dá três linhas da obra, indicando em que ocasião foi composta : o debate de Laodiceia.
2. Τὸ περὶ πολιτείας καὶ προφητῶν, Sobre a maneira de viver e os profetas. Rufino, em sua tradução, ibid., p. 381-383, faz disso duas obras distintas : De optima conversatione liber unus sed et de prophetis; o grego não autoriza essa tradução. São Jerônimo entendeu : Sobre a maneira de viver dos profetas, o que parece mais exato. Trata-se, verossimilmente, de um escrito antimontanista, em que se levava em conta o desacordo, verdadeiro ou falso, entre a vida dos novos profetas e suas pretensões : argumento muitas vezes explorado nessa controvérsia. Ver o art. Montanismo.
3. Ὁ περὶ ἐκκλησίας, Sobre a Igreja; relativo talvez à mesma controvérsia, em que os católicos invocavam de bom grado a autoridade da Igreja.
4. Ὁ περὶ κυριακῆς λόγος, Sobre o domingo; em relação, talvez, com a controvérsia pascal.
5. Ὁ περὶ πίστεως ἀνθρώπου, Sobre a fé do homem; título surpreendente, de que Jerônimo omitiu o fim, sem dúvida porque não o compreendia, que a tradução siríaca de Eusébio substituiu por φύσεως, Da natureza; mas que é atestado pelos melhores mss. gregos e por Rufino : De fide hominis.
6. Ὁ περὶ πλάσεως, Sobre a criação (do homem); em relação, sem dúvida, como o precedente e os seguintes, com a controvérsia antignóstica.
7 e 8. Ὁ περὶ ὑπακοῆς πίστεως αἰσθητηρίων; título incompreensível; Rufino fez dele, com razão, ao que parece, duas obras distintas : De obedientia fidei, De sensibus, o que dá Jerônimo : De fidei sensibus librum unum, De fide librum unum.
9. Ὁ περὶ ψυχῆς καὶ σώματος, Da alma e do corpo; Rufino leu De anima et corpore et mente, o que supõe uma lição π. ψυχῆς καὶ σώματος καὶ νοός, a qual figura em alguns mss. sob a forma ἢ νοός (bastante singular para um título), quanto à lição γενέσεως que Ed. Schwartz deixa figurar em seu texto, seria preciso, para resolvê-la, uma discussão em que não podemos entrar. São Gregório de Nissa, como dissemos, talvez tenha conhecido essa obra. Sobre os fragmentos siríacos que poderiam provir dela, ver mais adiante, col. 545.
10. Ὁ περὶ λουτροῦ, Do batismo. Parece ter-se conservado um fragmento importante, que Pitra descobriu no Cod. vatic. 2022, fol. 238, sob este título : Μελήτωνος ἐπισκόπου Σαρδέων περὶ λουτροῦ, e publicou nos Analecta sacra, t. II, 1884, p. 3 sq. Outro ms. foi descoberto por Mercati, Ambr., I, 9, sup., que deu as variantes na Theol. Quartalschrift, 1894, t. XXVI, p. 597. A. Harnack deu um texto crítico em Marcion (Texte und Unters., t. XLV), p. 421*. O interesse da passagem recai sobre o batismo de Cristo, que Marcião rejeitava; a obra inteira podia, pois, visar esse herege.
11. Περὶ ἀληθείας, Da verdade.
12 e 13. Περὶ πίστεως, καὶ γενέσεως Χριστοῦ, de que Rufino faz dois livros distintos : De fide, De generatione Christi. Talvez seja melhor ler, com alguns mss. : π. κτίσεως καὶ γενέσεως Χ., não importando aliás a palavra κτίσις o sentido preciso de criação. Anastásio, o Sinaíta, Hodegos, c. XIII, P. G., t. LXXXIX, col. 228-229, cita uma passagem de uns vinte linhas que declara tomar do l. III da obra de Melitão Περὶ τῆς σαρκώσεως Χ.; não há quase dúvida de que se trate do tratado em questão. Anastásio diz expressamente que a obra era dirigida contra Marcião.
14.
Λόγος αὐτοῦ προφητείας, título obscuro, que Rufino entende : De prophetia ejus, o que significaria Sobre a profecia do Cristo; Jerônimo traduz : De prophetia sua; tratar-se-ia de profecias feitas por Melitão; é melhor entender : Um livro (de Melitão) sobre a profecia, sem dúvida de inspiração antimontanista. Harnack pensa que um fragmento desse escrito estaria conservado num dos Papiros de Oxirrinco, Comptes rendus de l'Académie de Berlin, 1898, p. 517-520. Cf. Grenfell e Hunt, The Oxyrynchus Papyri, t. I, p. 8-9.
15. (Diversas testemunhas do texto põem aqui uma segunda vez Περὶ ψυχῆς καὶ σώματος, n. 9, sem dúvida por ditografia, mas muito antiga, pois Rufino e a versão siríaca têm também essa lição, depois do que vem) Περὶ φιλοξενίας, Sobre a hospitalidade.
16. Ἡ κλείς, A chave, que se acreditou, mas erradamente, ter reencontrado no século XIX.
17 e 18. Τὰ περὶ τοῦ διαβόλου καὶ τῆς ἀποκαλύψεως Ἰωάννου, Do diabo e do Apocalipse de João, de que Rufino e Jerônimo fazem, não sem razão talvez, duas obras diferentes; mas não é esse o sentido do grego tal como o dão as melhores testemunhas. Orígenes encontrou sem dúvida no livro sobre o diabo a opinião segundo a qual Absalão teria sido a figura do diabo. Quanto ao milenarismo de que Genádio, ver acima, acusa Melitão, é aqui que ele tinha ocasião de se exprimir.
19. Περὶ ἐνσωμάτου θεοῦ, De Deus corporal. Dificilmente pode tratar-se da encarnação. Orígenes, como vimos, traduz o título claramente : Περὶ τοῦ ἐνσώματον εἶναι τὸν Θεόν, em Melitão : e vê um antropomorfita. Por estranha que pareça, a ideia da corporeidade de Deus foi sustentada também por Tertuliano, que não chega a conceber uma substância incorpórea.
20. Τὸ πρὸς Ἀντωνῖνον βιβλίδιον, O opúsculo a Antonino. Trata-se da Apologia já mencionada duas vezes por Eusébio e da qual são dados, algumas linhas adiante, três fragmentos bastante importantes. Melitão apela ali para a retidão do soberano (Marco Aurélio) e protesta o lealismo dos cristãos. Nascidos no mesmo momento, o cristianismo e o Império são destinados a fazer a felicidade da humanidade. Somente os maus imperadores, Nero, Domiciano, perseguiram a religião; a dinastia dos Antoninos, ao contrário, a defendeu contra o fanatismo popular, testemunha o rescrito de Adriano a Fundano e as recomendações de Antonino às cidades da Grécia. Acreditou-se, no século XIX, ter reencontrado essa apologia de Melitão; num exame mais atento, foi preciso renunciar a essa ideia.
21. À parte da lista precedente, e na sequência dos três fragmentos da Apologia, Eusébio assinala enfim Ἐκλογαί, Extratos, dos quais dá o prefácio dirigido a certo Onésimo. Este desejara saber com precisão quais eram os Livros santos antigos, seu número e a ordem em que estão colocados. Numa viagem ao Oriente, Melitão informou-se, pois, sobre o cânon do Antigo Testamento, que transcreve para uso de seu correspondente. É o cânon palestinense, excluindo os deuterocanônicos; mas nele falta Ester? e, por outro lado, a ordem dos livros aproximar-se-ia antes da da Bíblia grega. Texto interessante para a história do Cânon. Dessas Escrituras Melitão declara, no fim de seu prefácio, que fez extratos, que dividiu em seis livros. Tratar-se-ia, pois, de Trechos escolhidos, o que não excluiria aliás a existência de notas explicativas. Ora, as catenas conservaram sob o nome de Melitão quatro escólios em que se institui uma comparação entre o sacrifício de Isaac e o de Jesus Cristo. Texto em Routh, Reliquiae sacrae, 2ª ed., t. I, p. 122-124, e em Otto, Corpus apolog., t. ix, p. 416-418. A autenticidade dos escólios 2º e 3º é indubitável, como também a do começo do 1º; mas o fim deste é uma ampliação do tema desenvolvido no início; quanto ao 4º, a maneira como compara o texto grego com o hebraico e o siríaco não convém ao asiático Melitão; esse escólio é aliás atribuído, em outros mss., a Eusébio de Emesa.
2° Suplemento à lista de Eusébio. 1. Mencionamos acima o Περὶ σαρκώσεως Χριστοῦ, Sobre a encarnação do Cristo, atribuído por Anastásio, o Sinaíta, a Melitão e que bem poderia não ser diferente do Π. γενέσεως Χ. 2. O mesmo Anastásio, Hod., xii, P. G., t. lxxxix, col. 197 A, reunindo os testemunhos patrísticos para opor aos gaianitas, cita um «de Melitão de Sardes, do sermão sobre a paixão, ἐκ τοῦ λόγου τοῦ εἰς τὸ πάθος.» Essa citação de uma linha é importante para a história das doutrinas antimarcionitas ou antignósticas : Ὁ Θεὸς πέπονθεν ὑπὸ δεξιᾶς Ἰσραηλίτιδος. Deve tratar-se de um tratado sobre a realidade da paixão do Cristo.
Ora, um ms. siríaco, British Muséum, cod. nitr. 12 156, fol. 70, contém em seguida dois fragmentos atribuídos a Melitão, bispo de Sardes, o 1º ex tractatu de anima et corpore, o 2º ex sermone de cruce, depois, fol. 76, um 3º Melitonis episcopi de fide, enfim, fol. 77, um 4º Melitonis episcopi urbis Atticæ, ex sermone de passione. Texto siríaco em W. Cureton, Spicilegium syriacum, frag. 1-3, p. 31-33; frag. 4, p. 49-50; trad. latina em Otto, op. cit., p. 419-423. Esses fragmentos se reencontram ou nesse mesmo ms., ou em outros atribuídos a diversos autores, em particular a Alexandre de Alexandria († 328). Embora referidos pelo ms. a obras diversas, têm bem o ar de fazer parte de um desenvolvimento único em que o orador (pois se trata, com toda a certeza, de um sermão) põe em viva oposição os atributos divinos do Cristo e os rebaixamentos de sua paixão. De um estudo atento da tradição manuscrita, G. Krüger concluiu que faziam parte de um único escrito de Melitão, intitulado περὶ ψυχῆς καὶ σώματος καὶ εἰς τὸ πάθος, que Eusébio conheceu e que Hipólito e Alexandre de Alexandria utilizaram. Cf. Zeitsch. für wissensch. Theologie, 1888, t. xxxi, p. 434-448. Harnack deteve-se nessa conclusão.
3° Obras falsamente atribuídas a Melitão. 1. A apologia siríaca. Em 1855, W. Cureton, de um lado, e E. Renan, de outro, publicaram, o primeiro com uma tradução inglesa, o segundo com uma tradução latina, um texto siríaco, proveniente do ms. Syr. addit. 14 652 do British Muséum, e que se apresenta como o «discurso do filósofo Melitão pronunciado diante de Antonino César».
Trata-se de uma breve apologia da religião cristã, que começa por um vivo ataque contra as superstições pagãs e prossegue com um premente convite a abraçar a fé no verdadeiro Deus, quaisquer que possam ser os preconceitos ou mesmo as dificuldades que se encontrem. Não é um soberano senhor de impor a sua vontade? Que serviços não prestaria à sua dinastia se se convertesse! O tema, como se vê, é muito diferente do que desenvolvem as outras apologias do século II dirigidas aos imperadores. Não se trata de levar um soberano a deixar a liberdade de consciência aos seus súditos, mas de arrastá-lo ele próprio ao cristianismo, que ele imporia em seguida ao seu povo. O primeiro movimento dos críticos, após a publicação desse texto, foi considerá-lo como a apologia de Melitão mencionada por Eusébio. Mas apresentou-se uma primeira objeção: nenhum dos três fragmentos citados pela História eclesiástica se encontra no texto siríaco, que no entanto parece não apresentar nenhuma lacuna; além disso, a apologia siríaca parece ser não uma tradução, mas um texto original: certas alusões a usos religiosos do Norte se referem à Síria e à região eufratesiana. Tudo isso impede que se considere o asiático Melitão como o autor dessa curiosa peça. Neste ponto todos os críticos estão hoje de acordo. Quanto a poder descobrir o autor dessa apologia, é outra questão. Th. Ulbrich gastou muita engenhosidade para fazer dela o resumo de uma alocução de Bardesano ao rei de Edessa, Abgar IX, o qual efetivamente se converteu ao cristianismo. Essa tese nos parece bem pouco sólida; mais vale saber ignorar.
2. A chave. A lista de Eusébio contém uma obra intitulada A chave, ἡ κλείς, sobre cuja natureza só nos resta conjeturar. Com base em indicações de críticos do século XVII, Pitra, após longas pesquisas, julgou descobrir uma tradução latina do texto num ms. da Biblioteca de Estrasburgo (destruído no incêndio de 1870). Publicou essa versão em 1855 no Spicilegium Solesmense, t. II. É um dicionário dos sentidos alegóricos da Escritura, dispostos não em ordem alfabética, mas segundo o assunto. Mas logo se demonstrou que esse texto latino era não uma tradução, mas um original datado da Idade Média, que utilizava santo Agostinho e são Gregório Magno. Essa questão, que suscitou polêmicas bastante vivas, está hoje definitivamente resolvida.
3. De transitu B. Mariae. Uma das recensões latinas desse apócrifo, de que se tratou no t. V, col. 1638, apresenta-se como de Melito servus Christi, episcopus ecclesiae Sardicensis, que, na qualidade de discípulo de João, escreve aos «irmãos que habitam em Laodiceia». Texto em Tischendorf, Apocalypses apocryphes, Leipzig, 1866, p. 124-136. Essa própria indicação parece, como todo o prólogo, ser de origem latina e datar da época em que as narrativas apócrifas relativas à assunção começaram a circular no Ocidente. Sabe-se que o Decreto dito de Gelásio proscreve o Liber qui appellatur transitus id est assumptio S. Mariae, mas sem falar de Melitão.
4. De passione S. Joannis evangelistae. O nome de Melitão, bispo de Laodiceia (sic), lê-se igualmente à frente de uma paixão de são João, que foi publicada desde o século XVII, depois em Fabricius, Cod. apocr: N. T., t. II, p. 604-623 e, mais recentemente, em 1875, na Bibliotheca Casinensis, t. II, p. 66-72. Melitão expõe, no prólogo, a doutrina ímpia de Leucius, que escreveu os atos dos apóstolos João, Tomé e André: De virtutibus quidem plurima vera dixit, de doctrina vero multa mentitus est; isto para explicar o trabalho a que se entregou: conservando toda a sua narrativa, expurgar os Atos de João das falsas doutrinas. Th. Zahn mostrou bem que se tratava aqui de uma remodelação da história de João, narrada pelos Acta Johannis de Leucius, Acta Joannis, Erlangen, 1880, p. xvii sq.
5. Catena in Apocalypsim. Um ms. da Biblioteca universitária de Iena, n. 142, contém uma cadeia sobre o Apocalipse introduzida por esta notícia, Incipit liber Mitothonis super apokatypsim b. Ioannis apostoli, que foi impressa em Paris em 1512, mas sem o nome de Melitão. Esse escrito de data muito tardia prova ao menos, coisa surpreendente, que o nome do velho bispo de Sardes não era completamente desconhecido no fim da Idade Média; essa compilação datar-se-ia, com efeito, dos inícios do século XIV.
Conclusão. Livre de toda essa vegetação parasita, a obra de Melitão se reduz para nós a bem pouca coisa, e é preciso muita engenhosidade para arriscar-se a escrever uma notícia sobre a teologia de Melitão. O único ponto que convém assinalar é a precisão notável, para a época, de sua doutrina cristológica. Os fragmentos conservados por Anastácio Sinaíta, de um lado, os restos assaz importantes do sermão sobre a paixão, de outro, mostram que existiam, já nessa época, fórmulas que exprimiam de maneira bastante feliz a existência em Jesus Cristo de um duplo elemento, divino e humano; é já quase a terminologia diofisita. Se se estivesse mais seguro de que Tertuliano conheceu a obra inteira de Melitão, poder-se-ia ficar tentado a atribuir à influência do bispo de Sardes certas fórmulas bem cunhadas do doutor africano. É, pois, lamentável que o conjunto da produção considerável de Melitão, produção que, por sua variedade e extensão, faz justamente pensar na de Tertuliano, tenha sido vítima de um naufrágio tão completo.
Textos e edições. Indicamos, para cada um dos fragmentos conservados, o lugar onde encontrá-los. Encontrar-se-ão agrupados da melhor forma em Otto, Corpus apologetarum christianorum, t. IX, Iena, 1872, p. 374-378, 497-512; para o Περὶ λουτροῦ, que ali não figura, utilizar de preferência a recensão de Harnack, Texte und Unters., t. XIV, p. 121*.
Trabalhos. Podem-se negligenciar todas as antigas histórias literárias; as bibliografias assinalam a memória de F. Piper, nos Theologische Studien und Kritiken, 1838, t. XI, p. 54-154, que ainda pode prestar serviços. A questão de conjunto é tratada da melhor forma por A. Harnack, Die Ueberlieferung der griechischen Apologeten, em Texte und Untersuchungen, t. I, fasc. 1, 1883, p. 240-278, reproduzido quase textualmente em Altchristliche Literatur, t. I, 1893, p. 246-251; cf. Chronologie, t. I, 1896, p. 358 sq., 517 sq., 522. Trabalho de conjunto também em K. Thomas, Melito von Sardes, Osnabrück, 1893 (tese), medíocre; num art. de Salmon no Dict. of Christian Biography, III, p. 894-899; no art. de E. Preuschen, Realencyclopädie, t. XII, p. 564-567; notícia de O. Bardenhewer, Altkirchliche Literatur, t. I, p. 546-557. Sobre a apologia siríaca, o estado da questão é bem apresentado em Theoph. Ullrich, Die pseudo-melitonische Apologie, nos Kirchengeschicht. Abhandlungen de Sdralek, 1906, IV, p. 69-148; mas a demonstração que tende a atribuir a obra a Bardesano deixa a desejar; cf. as críticas de F. Haase, em Texte und Unt., t. XXXIV, fasc. 4, 1909, p. 67-72. A controvérsia sobre a Clavis perdeu muito do seu interesse; o essencial foi dito primeiro por Pitra, no Spicil. Solesmense, t. II, 1855, e nas Analecta sacra, t. II, 1884, depois em sentido contrário por O. Rottmanner e L. Duchesne, Bulletin critique, 1885, p. 47-52, 196-197, e por O. Rottmanner, na Theol. Quartalschrift, 1896, t. LXXVIII, p. 614-629.
E. Amann.
Autor original: E. Amann
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