MÁXIMO, O HAGIORITA, dito o GREGO, teólogo greco-russo (1480?-1556). Vida. I. II. Obras.
I. VIDA. Aquele a quem os russos chamam Máximo, o Grego, e que recebe igualmente o cognome de Hagiorita, porque foi, durante alguns anos, monge no Monte Atos, nasceu em Arta (Epiro) por volta de 1480. Como muitos gregos dessa época, foi fazer seus estudos no Ocidente, especialmente em Veneza, onde foi aluno de João Láscaris, e em Florença, onde conheceu Savonarola. O fogoso dominicano causou-lhe profunda impressão, e ele falava dele mais tarde com admiração. Visitou também a França e permaneceu algum tempo em Paris. Por volta de 1507, fez-se monge no mosteiro atonita de Vatopedi, cuja rica biblioteca o atraía.
Em 1515, tendo o grão-knyaz moscovita Vassili Ivanovitch pedido aos vatopedianos que lhe enviassem o monge Sabas para traduzir obras gregas em eslavo e em russo, os monges, em lugar de Sabas, velho e decrépito, despacharam-lhe Máximo, embora este ainda ignorasse a língua russa. Recebido em Moscou com muita honra, Máximo pôs-se imediatamente ao trabalho. Aprendeu depressa o russo, sem captar, aliás, todos os seus matizes, o que lhe ocasionou depois mais de um dissabor. No início deram-lhe como auxiliares dois tradutores, que vertiam para o eslavo eclesiástico o que ele lhes ditava em latim. Sua primeira tradução, a do Comentário do Saltério, foi bem acolhida pelo knyaz e pelo metropolita Varlaão. Máximo, contudo, permitira-se corrigir aqui e ali o texto dos salmos e cometera algumas inexatidões. Levou de frente essa tradução com a de um Comentário do livro dos Atos; depois o knyaz mandou-lhe transcrever e traduzir várias obras para sua biblioteca. Tendo notado que as traduções eslavas dos livros litúrgicos fervilhavam de faltas e incorreções, Máximo empreendeu-lhes a reforma e corrigiu sucessivamente o Triódio, o Horológio, as Menéias das festas e o Apóstolo.
Máximo não se limitou a esse papel científico. Pôs-se também como reformador de toda a sociedade moscovita, então em plena decadência moral. Atacou tanto os vícios dos grandes quanto os defeitos dos clérigos e dos monges e as superstições populares. Os monges estavam então divididos em duas facções rivais: havia os Zavolgskii startsi, partidários da pobreza evangélica e da vida interior, e os Iossifianos, do nome de seu chefe José Volotskii, que amavam para seus mosteiros as grandes propriedades e as rendas opulentas, e para suas igrejas os ricos ícones e tudo o que favorecia os esplendores do culto exterior. Máximo ficou do lado dos Zavolgskii. Desagradou ao metropolita Daniel, que sucedera a Varlaão em 1521, recusando-se a fazer a tradução da História eclesiástica de Teodoreto; e, em 1524, perdeu as boas graças do knyaz, cujo divórcio desaprovou. Fez tanto que logo teve contra si todo mundo em Moscou. Para perdê-lo, seus inimigos mais encarniçados o acusaram de corresponder-se secretamente com os turcos e, em particular, com o embaixador da Porta, Skinder.
Nos primeiros meses de 1525, seu processo foi instruído em vários sínodos, e ele foi finalmente condenado como herege. A grande heresia de que se tornara culpado era ter ousado pretender que havia faltas nos antigos livros litúrgicos eslavos e ter ele mesmo operado correções nesses livros. Algumas dessas correções eram, com efeito, errôneas, e explicavam-se pelo conhecimento insuficiente que Máximo tinha do eslavo e do russo. Uma delas referia-se à sessio Filii ad dexteram Patris. Pelo verbo que empregara ao traduzir uma passagem do Triódio, Máximo havia ensinado que o Filho só estava sentado à direita do Pai no tempo, e não desde toda a eternidade. Tivera também o erro de pôr em dúvida a autocefalia da Igreja russa. Encerrado primeiro na prisão do mosteiro Volokolamskii "para conversão, emenda e penitência", e com proibição de escrever e de compor, teve muito a sofrer física e moralmente.
Levado de novo a julgamento no concílio de Moscou de 1531, depois da morte de Skinder, viu-se acusado de toda sorte de delitos religiosos, políticos e científicos. Por mais que se humilhasse e reconhecesse que lhe haviam escapado incorreções e inexatidões em suas traduções, não conseguiu desarmar o ódio do metropolita Daniel, que o enviou à prisão do mosteiro de Ostrotch, na diocese de Tver. Passou ali mais de doze anos, privado da comunhão. Foi em vão que os patriarcas orientais, os monges do Atos e o próprio Máximo, por várias súplicas, se dirigiram a Ivan IV, o Terrível, que sucedera a Vassili em 1533, para obter que o prisioneiro fosse devolvido à sua pátria. Só nos últimos anos de sua vida é que se abrandou um pouco a sua sorte e lhe permitiram assistir aos ofícios e comungar. Em 1551, foi transferido para a laura da Trindade, perto de Moscou, onde Ivan IV o visitou um dia. Convocado ao concílio de Moscou de 1554, que se ocupou da heresia de Bachkine, recusou-se a comparecer, receando que o envolvessem ainda nesse caso. Morreu em 1556.
Perseguido em vida pelos russos, Máximo viu-se por eles aureolado depois da morte. Os historiadores eclesiásticos e profanos da Rússia saúdam nele um santo e um grande homem, um precursor das reformas necessárias de Nicon, um mártir da civilização, um dos educadores do povo russo. Ele, que passou grande parte de sua vida nas prisões monásticas por crime de heresia, é considerado agora um grande defensor da Ortodoxia e figura na lista dos santos russos, em 21 de janeiro.
II. OBRAS. Tem-se alguma dificuldade em compreender esses elogios ditirâmbicos, quando se considera a mediocridade de sua herança literária, especialmente no domínio teológico, que foi, contudo, para ele, o principal. À parte seus trabalhos de tradução e de gramática, essa herança é constituída por uma série de opúsculos de polêmica religiosa versando sobre assuntos de dogma, de moral ou de liturgia. Máximo ataca os latinos, os luteranos, os maometanos, a seita racionalista dos judaizantes, que fizera sua aparição na Rússia no fim do século XV. Ataca a astrologia, que então causava furor na Moscóvia.
Na querela do Aleluia, tratava-se de saber se se devia cantar um duplo ou um triplo Aleluia na missa; ele toma partido pelo duplo Aleluia, que os anjos incorpóreos ensinaram um dia "a Inácio, o Teóforo". Entre esses opúsculos, os principais são os seguintes: 1. Discurso contra o escrito mentiroso de Nicolau Niemtchine, que pretendera que entre a fé latina e a fé grega não havia diferença. 2. Elogio dos santos Apóstolos Pedro e Paulo, em que se atacam as três inovações latinas dos ázimos, do purgatório e da processão do Espírito Santo. 3. Dois outros opúsculos contra os latinos, um dos quais, relativo à processão do Espírito Santo e à adição ao símbolo, foi traduzido em latim por Jorge Krijanitch († 1678) e foi publicado por A. Palmieri, no Bessarione, série III, 1912, t. ix, p. 54-79, 379-384. É dirigido contra o mesmo Nicolau Niemtchine (trata-se de Nicolau Boulev, primeiro médico do knyaz Vassili Ivanovitch), que escrevera uma carta sobre a processão do Espírito Santo ao boiardo Teodoro Karpov. Percorrendo esse opúsculo, pode-se fazer uma ideia da maneira de Máximo: citações escriturísticas e patrísticas, acompanhadas de comentários tomados em sua maioria aos polemistas bizantinos, e de violentas diatribes contra os latinos. 4. A obra intitulada Loutsidarious, que é ao mesmo tempo uma refutação e uma imitação do tratado de Honório de Autun, intitulado Elucidarium sive dialogus de summa totius christianæ theologiæ. O grego, embora ataque aqui e ali o latino, saqueia-o sem vergonha; inspira-se também na obra do mesmo intitulada Imago mundi. O Loutsidarious foi publicado em Moscou em 1859 por Tikhonravov nos Anais (Lietopis) de literatura russa e de antiguidades, 1859, t. i.
Apesar do pouco valor intrínseco dessas produções, Máximo exerceu real influência sobre os russos, que ele superava em muito por sua cultura. Mesmo condenando-o e perseguindo-o, estes tomaram-lhe emprestada mais de uma ideia. Percebe-se isso percorrendo a coleção canônica do Stoglav ou dos Cem capítulos, promulgada no concílio de Moscou de 1551. Pode-se lamentar que esse grego, que conhecia o Ocidente católico e dele recebera o melhor de seu saber, tenha alimentado nos moscovitas esse violento espírito de hostilidade em relação ao catolicismo, que lhes fora já infundido pelos bizantinos no período precedente.
As obras de Máximo, o Grego, foram publicadas em três volumes pela Academia eclesiástica de Kazan, de 1859 a 1862. As obras teológicas e polêmicas encontram-se no t. I. Essa coleção não contém certos opúsculos já editados, seja no Scrigial (1656), seja na História da Igreja russa do metropolita Platão Levchine († 1812), seja no Jornal do Ministério da Instrução pública (1834), no Moskvitianine (1842), na Descrição dos manuscritos do Museu Roumiantsev (n° 254), p. 369.
A obra principal sobre Máximo e sua obra é a de Ikonnikov, Maxime le Grec, 2 vol., Kiev, 1865-1866. Gmakine, Le métropolite Daniel et ses œuvres, Moscou, 1881, fala também com frequência dele. Encontram-se panoramas parciais ou resumos de sua vida e de sua atividade literária nos diversos manuais de literatura russa e nos seguintes artigos ou dissertações: 1° do metropolita Eugênio, Renseignements historiques sur Maxime le Grec, no Messager de l'Europe, n° 21 e 22 (1813); 2° de Filareto de Tchernigov, artigo no Moskvitianine, 1842, n° 11; 3° de A. Gorskii, artigo sobre a vida de Máximo, o Grego, até 1520, nos Suppléments aux œuvres des saints Pères, t. XVIII (1859), p. 144-192; 4° de Nilskii, considerações gerais sobre a influência de Máximo, na Lecture chrétienne, 1862, t. I, p. 313-386, sob o título: Maxime le Grec, martyr de la civilisation; 5° de Nélidov, Maxime le Grec, na coletânea Dix leçons sur la littérature russe, Moscou, 1895; 6° de Pypine, Questions d'ancienne littérature russe, no Messager de l'Europe, 1894, n. 7; de Sinaïskii, Court aperçu de l'activité religieuse et sociale de saint Maxime le Grec pour réfuter et corriger les erreurs, les déficits et les vices de la société russe au XVIe siècle, Petersburgo, 1898; 7° Procès de Maxime le Grec et de Bassian Patrikiev, e Dispute du métropolite Daniel avec le moine Maxime le Grec, nas Lectures de la Société impériale d'histoire et d'archéologie à l'université de Moscou, 1847, n. 7 e 9. Notícia de A. Gorifeld, na Entsiklopéditcheskii Slovar, t. xxv, Petersburgo, 1896, p. 447-449.
M. Jugie.
Autor original: M. Jugie
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