MASSARELLI Ângelo, prelado italiano, célebre sobretudo pelo fato de ter sido secretário do concílio de Trento (1510-1566). — Nascido em San Severino, na Marca de Ancona, em 1510, fez na Universidade de Siena seus estudos de direito, deixou-a com o título de doctor in utroque, foi a Roma, onde se esforçou por fazer carreira, embora simples leigo. Entrado em 1538 ao serviço de Jerônimo Aleandro, acompanhou-o em sua legação à Alemanha. Por ocasião da morte de Aleandro, Massarelli passou ao serviço do cardeal Marcelo Cervin, em 1º de abril de 1542, que o ocupou de início como bibliotecário. Quando Marcelo partiu para Trento, na qualidade de presidente do concílio que ia abrir-se, Massarelli o acompanhou (fevereiro de 1545). Sem outra situação oficial, no início, que a de secretário do legado, desempenhou um papel considerável nos preparativos da assembleia e esteve a par de muitos acontecimentos.
A partir de 1º de abril de 1546, foi designado secretário provisório do concílio: o provisório durou até a translação para Bolonha (março de 1547); em Bolonha (março de 1547-setembro de 1549), Massarelli é o secretário oficial. Após a prorrogação dessa assembleia, Massarelli volta a Roma, e assiste ao conclave que elege Júlio III (8 de fevereiro de 1550). Nomeado por este secretário pontifício, é enviado a Trento em abril de 1551, para ali exercer as funções de secretário do concílio, que recomeça em 1º de maio. Tendo sido a assembleia dissolvida em abril de 1552, Massarelli volta a Roma e retoma suas funções na cúria; continua-as sob o efêmero Marcelo II, seu antigo protetor (9 de abril-1º de maio de 1555) e sob Paulo IV (1555-1559). Este último o nomeou em 1557 bispo de Telese. Massarelli, que entrara na clericatura no momento em que Júlio III o nomeara secretário pontifício, recebeu, portanto, as três ordens sagradas em 18 de dezembro de 1557 e foi sagrado bispo três dias depois. Quando Pio IV ordenou a retomada do concílio, o novo bispo de Telese, que não deixara a cúria, retomou o caminho de Trento (março de 1561), na qualidade de secretário da assembleia; mas seu papel parece ter sido muito menos importante durante esse último período. Terminado o concílio (dezembro de 1563), Massarelli recebeu a ordem de fazer subscrever pelos que tinham direito as peças oficiais e de transportar a Roma todos os papéis interessantes ao sínodo. Em 11 de dezembro de 1563, deixava definitivamente Trento, para voltar a Roma. Ocupou-se desde então em pôr a limpo as atas conciliares que a cúria tinha de início a intenção de publicar. Não tendo agradado a primeira redação à comissão cardinalícia encarregada da publicação, Massarelli pôs-se de novo à obra, mas não pôde levá-la a bom termo; morreu em 16 de julho de 1566, após uma curta enfermidade.
Ele aparece antes de tudo ao historiador da teologia como secretário do concílio de Trento; e é um imenso serviço que prestou ao compilar as atas volumosas de uma assembleia que durou tanto tempo, e que se ocupou de questões diversas. No art. Trento (Concílio de), estudar-se-á o valor dessas Atas, de que Massarelli foi o redator. Não podemos insistir nisso presentemente; baste dizer que os recentes trabalhos sobre o concílio de Trento mostraram que, no conjunto, as atas de Massarelli reproduzem de maneira suficiente a fisionomia das diversas sessões. Não menos interessantes, talvez, que as Atas conciliares são os Diários, diaria, que foram mantidos por certo número de testemunhas, e que informam sobre grande número de pormenores laterais da assembleia. Ora, Massarelli foi um memorialista incansável; numa série de diários, consignou, muito frequentemente dia a dia, os acontecimentos grandes ou pequenos de que foi testemunha. Esses diversos diários, dos quais vários já tinham servido aos antigos historiadores do concílio, e dos quais algumas partes já tinham vindo a lume, acabam de ser publicados, com todo o cuidado desejável, na magnífica edição do Concilium Tridentinum da Görresgesellschaft. Encontrar-se-ão no t. I, p. lxviii-cxxiv (a completar pelo t. II, p. xv-xlix), todas as informações desejáveis sobre essa produção de Massarelli. Baste dar aqui um breve apanhado.
O diarium I (diário nº 1), publicado t. I, p. 149-404, contém lembranças de Massarelli de 22 de fevereiro de 1545 a 1º de fevereiro de 1546, em latim até 2 de maio de 1545, depois em italiano. Este primeiro diário não fornece quase nada sobre os atos das congregações, às quais Massarelli ainda não assistia. O diário nº 2, diarium II, t. I, p. 405-466, em latim, muito menos importante, contém numa primeira parte os documentos anteriores ao concílio, depois um diário dos acontecimentos entre 6 de fevereiro de 1545 e 11 de março de 1547; não é então senão um resumo dos nº 1 e 3. O diário nº 3, diarium III, t. I, p. 467-626, em latim, vai de 18 de dezembro de 1545 a 11 de março de 1547; como encerra numerosas lembranças sobre as congregações particulares, às quais Massarelli só assistiu a partir de 1º de abril de 1546, resta determinar as fontes de onde o autor tomou suas informações para a primeira parte. O diário nº 4, diarium IV, t. I, p. 627-873, em latim, é inteiramente consagrado às sessões realizadas em Bolonha e vai de 12 de março de 1547 a 10 de novembro de 1549.
Os três diários seguintes têm muito menos importância para a história do concílio. O nº 5, diarium V, t. II, p. 1-148, em latim, é exclusivamente consagrado ao conclave que se seguiu à morte de Paulo III e desembocou na eleição de Júlio III; vai de 6 de novembro de 1549 a 8 de fevereiro de 1550. O nº 6, diarium VI, t. II, p. 149-243, em latim, contém as lembranças relativas aos primeiros tempos de Júlio III, 8 de fevereiro de 1550-8 de setembro de 1551, e só se refere à retomada do concílio a partir de 15 de abril de 1551 (p. 223), quando Massarelli é despachado a Trento com extrema urgência. O nº 7, diarium VII, t. II, p. 245-362, em latim, indo de 12 de fevereiro de 1555 a 30 de novembro de 1561, tampouco se refere aos assuntos de Trento senão a partir de março de 1561 (p. 353), e ainda assim de modo extremamente sumário; o belo ardor dos primeiros tempos, que fazia Massarelli redigir até três diários sucessivos do primeiro período do concílio, decididamente decaiu; seja fadiga, seja tédio, seja abatimento, deixa cair a pena, em 30 de novembro de 1561, numa frase inacabada. É a outros memorialistas que é preciso recorrer para a última parte do concílio.
Além da redação das Atas e dos Diários, Massarelli, que tinha reais aptidões para os trabalhos de arquivo, e cuja erudição os contemporâneos apreciavam, deixou em ms. vários estudos sobre diversos pontos de história. O ms. 269 da Biblioteca Vittorio Emanuele em Roma contém documentos reunidos por Massarelli sobre os pontificados de Inocêncio VI, Urbano VI, Gregório XII, Alexandre V, o concílio de Florença, etc. Quatro mss. dos Arquivos vaticanos, Arm., XI, t. 43, 44, 45 e Varia Polit., t. 103, contêm vários estudos do mesmo autor sobre diversos pontos de arqueologia e de história. Assim também um ms. da biblioteca comunal de San Severino. Análise sumária em Conc. Trident., I, p. xcviii-ci.
1. Estudo de fundo de S. Merkle, em Concilium Tridentinum. Diariorum, actorum, epistularum, tractatuum nova collectio, Friburgo em B., 1901, t. I, prolegom., p. lxviii-cxxiv; cf. p. xv-xlix; Hurter, Nomenclator, 3ª edição, t. III, col. 95-98.
É. Amann.
Autor original: E. Amann
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