MARTINHO DE COCHEM

MARTINHO DE COCHEM

MARTINHO DE COCHEM, frade menor capuchinho da província renana (1634-1712), é um dos autores espirituais mais conhecidos nos países de língua alemã. Nascido em 13 de dezembro de 1634 na pequena cidade de Cochem, às margens do Mosela, Martinho Linius conservou seu nome de batismo quando recebeu o hábito religioso no noviciado de Aschaffenburg, em 2 de março de 1653. Dez anos mais tarde o encontramos na cátedra de lente de filosofia, da qual descia aos domingos e dias de festa para dedicar-se ao ministério pastoral nas igrejas de Mogúncia e dos arredores. Esse devia ser o seu caminho. O capítulo provincial de 1668 desobrigou-o de suas funções e destinou-o à vida ativa. Pregador, catequista, confessor, vai de um convento a outro, e sua reputação está tão bem estabelecida que, em 4 de setembro de 1682, o príncipe-arcebispo de Mogúncia o nomeia missionário e visitador do comissariado eclesiástico de Aschaffenburg. Em consequência da guerra dos Trinta Anos, os sacerdotes e mestres-escola ali eram em número demasiado pequeno, e havia ruínas materiais e morais a reerguer.

Durante cerca de três anos, o P. Martinho se ocupa dessas múltiplas tarefas; depois volta à vida ordinária do convento. Seu nome havia ultrapassado os limites de sua província religiosa, era requisitado fora e percorreu assim o Tirol, a Áustria e a Boêmia. Quando voltou às margens do Reno, o arcebispo de Tréveris o estabeleceu por sua vez visitador de sua diocese. No capítulo de 1700, foi de novo devolvido à vida conventual, não para entregar-se ao repouso, mas para continuar a trabalhar até o fim da vida. Decano de sua província religiosa, jubilar de profissão e de sacerdócio, o P. Martinho extinguiu-se suavemente no pequeno convento de Waghäusel, perto de Philippsburg, onde havia pedido para terminar a vida, à sombra do santuário de Maria, em 10 de setembro de 1712. Durante sessenta anos o P. Martinho se consagrara ao ministério mais ativo; descansava entregando-se à leitura e à composição de seus opúsculos e de suas obras. Escreveu muito, talvez demais, pois se percebe em vários de seus livros a pressa com que trabalhava. Não procuraremos mencioná-los todos, nem indicar suas múltiplas edições; muitos estão esquecidos, outros continuam sendo reimpressos e fazem as delícias das almas piedosas.

O primeiro foi o catecismo que publicou, sendo ainda lente de filosofia, Kinderlehr-Büchlein, oder Auslegung dess catholischen Catechismi, in-12, Colônia, 1666. Em 1682 o arcebispo de Mogúncia o tornava obrigatório em sua diocese e, durante pelo menos vinte e cinco anos, permaneceu o manual oficial dos catequistas, como prova uma reedição de 1712; citam-se outras, 1715, 1725, 1748, 1761, 1782. Como se havia tornado raríssimo, o P. Bento de Calcar, capuchinho, reimprimiu-o em 1886, segundo a edição de 1712. Está dividido em cinquenta lições, uma por semana, procede por perguntas e respostas; sua fonte principal é o pequeno catecismo de são Canísio.

Uma das obras mais conhecidas do P. Cochem é a « Vida de Cristo », Das Leben Christi, Frankfurt, 1677, da qual mil e quinhentos exemplares foram vendidos em um ano. Encorajado por esse resultado, o autor revia seu livro, desenvolvia-o, e em 1680 publicava a quarta edição sob este título: Das grosse Leben Christi, oder: ausführliche, andächtige und bewegliche Beschreibung des Lebens und Leidens unseres Herrn Jesu Christi und seiner glorwürdigsten Mutter Maria..., 2 in-8°, Frankfurt. Três anos mais tarde dava dela um resumo, Das kleine Leben Christi. Até o fim da vida ocupou-se em melhorar essa obra, que, dizia ele mesmo, estava em todas as mãos. Ainda em nossos dias está em muitas mãos; a edição dada por A. Meier, Friburgo, 1869, foi tirada em 25 000 exemplares e continuam a aparecer novas. Na grande Vida de Cristo, ele agrupa em torno do Salvador as principais personagens do Novo Testamento, a santíssima Virgem e são José, Joaquim e Ana, Maria Madalena e sua irmã, assim como todos os que ele chama os santos amigos de Cristo. Além dos evangelhos, serve-se amplamente das revelações de santa Brígida, e as citações que acompanham o texto remetem a são Bernardo, santo Anselmo, são Boaventura e a numerosos autores eclesiásticos e profanos. As narrativas terminam numa meditação seguida de uma oração.

O P. Cochem detém-se longamente na Paixão, e pretende-se que sua obra tenha tido grande influência sobre as representações da Paixão em uso no Tirol. Wackernell, Altdeutsche Passionsspiele aus Tirol, Graz, 1897. Essa influência faz-se sentir igualmente nas visões de Catarina Emmerich. Diel-Kreiten, Klemens Brentano, Friburgo, 1878.

Outra obra importante do P. Martinho, pelo menos quanto ao número de volumes, é constituída por suas coletâneas de histórias, lendas e exemplos. A primeira, Das ausserlesene History-Buch, 4 in-4°, apareceu sucessivamente em 1687, 1690, 1692, 1715; esta última foi impressa após a morte do autor, aos cuidados do P. René de Colônia. O livro de histórias foi seguido por Das Lehrreiche History-und Exempel-Buch, nach dem Alphabet beschrieben, 4 in-4°, 1696, 1697, 1699. Se esses dois primeiros tiveram várias edições, o seguinte, Die neue Legend der Heiligen, 4 in-4°, 1708, teve apenas uma. É que se lhe preferia outra obra mais curta, escrita por um confrade, o P. Dionísio de Luxemburgo († 1703), e que ele mesmo havia revisto e publicado, Die verbesserte Legend der Heiligen, Augsburgo, 1705. Essas lendas são tomadas dos Acta Sanctorum, dos quais o autor tinha à disposição os vinte e sete primeiros volumes, dos Anais de Barônio e de outras obras hagiográficas e históricas. A última coletânea de que temos de falar tem por título Historiæ ecclesiasticæ ex Baronio desumptæ, das ist Kirchlische Historien, 2 in-4°, 1694, 1706. Essa história eclesiástica, principalmente consagrada à Alemanha, detém-se na morte de Carlos V (1558), faltando as fontes ao autor. Seu objetivo é ao mesmo tempo religioso e apologético, e por isso omite cuidadosamente tudo o que pudesse não edificar o leitor.

Cheguemos à obra principal do P. Cochem, a que trata da Missa.

Ele havia editado primeiramente um opúsculo latino, Affectus sub Missa eliciendi continentes claram ac perutilem instructionem de summa sacrificii Missæ præstantia ejusque fructuosa auditione..., in-12, Marchtal, 1697, que logo transformou e que se tornou Medulla Missæ super mel dulcis, sive copiosa ac nervosa declaratio supremæ excellentiæ maximæque efficaciæ sacrosancti Missæ sacrificii, in-8°, Colônia, 1700. Escrita em latim, essa obra era inútil para o comum dos fiéis, que, como ele observava com pesar, não encontravam em seus livros de missa nenhum ensinamento sobre a dignidade e a utilidade do santo sacrifício; por isso o traduziu para o alemão: Medulla missæ germanica das ist Teutsch Messbuch, über Honig süss. Darin eine aussführliche und nachtrückliche Erklärung der höchsten Fürtrefflichkeit und grosten Nutzbar-keit dess allerhochwürdigsten Opfers der H. Mess, in-8°, Colônia, 1702.

É uma exposição substancial e posta ao alcance de todos da doutrina católica sobre a Missa. Em trinta capítulos, diz-lhe a essência, mostra-a renovando os mistérios da encarnação e da redenção, cumprindo todos os fins do sacrifício, diz-lhe os frutos e ensina a maneira de colhê-los. Para tornar a leitura mais atraente, tem o cuidado de entremear exemplos às explicações tomadas dos Padres e Doutores, dos teólogos e dos místicos. Poucas obras encontraram semelhante acolhida e, depois de mais de dois séculos, ainda é procurada; as edições passadas e presentes não se podem contar. Traduzida uma primeira vez em francês, com prefácio do P. Monsabré, La sainte Messe, in-12, Paris, 1891, foi-o de novo por uma religiosa clarissa de Mazamet, Explication du saint sacrifice de la Messe... tradução francesa de A. Rugemer, Paris-Tournai, 1899, 14ª edição, 212º milhar, ibid., 1922. Existe também em inglês, Cochem's Explanation of the holy sacrifice of the Mass, Nova York, 1896, em italiano, Spiegazione del santo sacrificio della Messa, in-8°, Florença, 1909, em polonês, Wyklad ofiarny Mszy, Posen, 1876.

A Messerklärung é a melhor obra do P. Cochem e, só ela, lhe merece um lugar de escol entre os autores espirituais, e é ela que tornou seu nome popular mais do que todos os seus outros escritos. Estes são numerosos demais para obter aqui sequer uma simples menção: livros de devoção, sob os títulos mais variados, Baumgarten, Liliengarten, Myrrhengarten, Blumengarten, Distelgarten; livros para os doentes, Kräftiges Krankenbüchlein, Grossere Krankenbuch; livros para os soldados, Gebetbüchlein für Soldaten; coletâneas de orações para os diferentes tempos do ano, Heiliger Zeiten Gebetbuch, Gebetbuch für die Charwoche, de fórmulas indulgenciadas, Güldener Himmelsschlüssel, Köstliches Ablassbüchlein, de cantos, Katholische Cantual, etc. Enumeram-se setenta e três, sem falar dos extratos, das adaptações e das reedições. A influência do P. Cochem sobre a vida cristã foi considerável e profunda; faz-se sentir ainda.

A vida e os escritos do P. Martinho de Cochem foram objeto de dois estudos de conjunto: o primeiro se deve a uma religiosa da Adoração perpétua de Mogúncia, S. Maria Bernardina, P. Martin von Cochem. Sein Leben, sein Wirken, seine Zeit, Mogúncia, 1886; o segundo, e o principal, é o do P. João Crisóstomo Schulte, O. M. Cap., P. Martin von Cochem, 1634-1712. Sein Leben und seine Schriften, Friburgo-em-B., 1910, extraído dos Freiburger theologische Studien, onde se encontra uma copiosa bibliografia das fontes a consultar.

P. Edouard d'Alençon.

Autor original: P. Edouard d'Alençon

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