MARTINHO DE BRAGA (São), morto em 580. — I. Vida. II. Obras.
I. Vida. Como seu ilustre homônimo, Martinho I de Tours, ele é originário da Panônia, onde deve ter nascido entre 510 e 520. Sabe-se muito pouco sobre a sua juventude. As diversas fontes, que se encontrarão enumeradas abaixo, indicam que ele permaneceu algum tempo no Oriente, o que confirma, aliás, o conhecimento que tem do grego. Visitou com certeza a Terra Santa, e talvez ali se tenha consagrado então à vida monástica, que, como se sabe, estava então extremamente desenvolvida nessas regiões. Foi do Oriente que Martinho veio, por mar, ao reino dos suevos, fundado um século e meio antes no ângulo noroeste da península ibérica. É impossível saber que razões o haviam determinado a essa viagem, mas Gregório de Tours, um contemporâneo, observa que a vinda de Martinho ao reino suevo coincide com a chegada a esse país das relíquias do grande são Martinho, que os enviados do rei Chararico tinham ido buscar em Tours. A Providência, diz Gregório, havia muito evidentemente preparado essa coincidência.
Sabe-se que os suevos haviam chegado pagãos em sua grande maioria, por volta de 410; bastante cedo uma parte dos invasores se havia convertido ao catolicismo; mas, no início do século VI, sob a influência dos godos, o reino dos suevos (que acabava de se constituir anexando à Galiza, seu habitat primitivo, o norte do atual Portugal) havia passado ao arianismo. Ver Isidoro de Sevilha, Historia de regibus Gothorum, n. 90, P. L., lxxxiii, col. 1081. Em meados do século VI, segundo Isidoro, o rei Teodomiro (que talvez seja o mesmo que o rei Chararico de que fala Gregório de Tours) sentira-se inclinado ao catolicismo. Para obter a cura de seu filho e afastar uma epidemia de lepra que grassava entre os suevos, tivera a ideia de recorrer à intervenção do grande taumaturgo das Gálias, são Martinho de Tours, de quem mandara pedir relíquias. O restabelecimento inesperado de seu filho, antes mesmo que as preciosas relíquias (tratava-se não de parcelas do corpo de Martinho, mas de panos que haviam tocado seu túmulo) tivessem chegado à Galiza, levara à conversão do rei, a qual determinaria rapidamente a da nação.
É nessas conjunturas que Martinho aporta ao reino dos suevos; os testemunhos de Gregório de Tours e de Isidoro de Sevilha não deixam dúvida sobre a parte considerável que ele teve no movimento de conversão, embora não precisem os meios empregados. Pode-se pensar numa ação profunda que um estrangeiro, vindo de longe e cercado do prestígio que dão a ciência e a santidade, teria exercido sobre o espírito do rei. Houve mais ainda: o impulso vigoroso dado ao catolicismo, que vegetava seja na antiga população, seja mesmo entre vários dos suevos. O mosteiro de Dúmio, que Martinho fundou não longe de Braga pouco depois de sua chegada, deve ter exercido sob esse aspecto uma grande influência. Martinho, que naturalmente havia sido seu primeiro abade, não tardou a ser elevado à dignidade episcopal, tornando-se assim bispo-abade, o que não é inaudito na época. É na qualidade de bispo de Dúmio que assiste ao I Concílio de Braga em 561, a primeira assembleia episcopal que se realizou após a conversão do rei ao catolicismo.
Nos anos que se seguiram, Martinho foi elevado à sé metropolitana de Braga, a única que existia no reino; mas, com profundo desinteresse, compreendeu que convinha dividir essa província eclesiástica demasiado considerável; a sé de Lugo foi erigida em metrópole, tendo por jurisdição a metade norte do reino, enquanto a metade sul permanecia sob a jurisdição de Braga. Tal é a situação que aparece no II Concílio de Braga, realizado em 572 e cujas deliberações Martinho dirigiu. Morreu cerca de dez anos depois, sem dúvida em 580. O martirológio romano faz menção dele em 20 de março.
II. Obras. Resta de Martinho um certo número de escritos, geralmente curtos e testemunhando antes de tudo preocupações de ordem prática; mostram ao menos que a reputação do bispo de Braga não é exagerada. Gregório de Tours, que parece ter tido relações pessoais com ele, escreve: Nulli secundus suis temporibus habebatur. Hist. Franc., t. V, xxxviii, P. L., t. lxxi, col. 352; o poeta Fortunato, tendo recebido de Martinho uma carta, celebra os méritos literários de seu correspondente, em tom ditirâmbico. Miscell., V, i et ii, P. L., t. lxxxviii, col. 177 sq. Um pouco mais tarde, Isidoro de Sevilha o qualifica em duas palavras: fide et scientia clarus. Hist. de reg., 91, P. L., t. lxxxiii, col. 1082. Isidoro teve em mãos algumas obras de Martinho, que menciona no De viris ill., n. 35, ibid., col. 1100. Esses escritos infelizmente não estão reunidos de maneira suficiente. Podem repartir-se da seguinte maneira.
1° Direito eclesiástico. Disse-se acima que Martinho foi o grande inspirador do I Concílio de Braga; poder-se-iam, portanto, pôr em sua conta os cânones publicados por essa assembleia e reproduzidos nas coleções conciliares. Ver J. S. d'Aguirre, Collectio maxima conciliorum Hispaniæ (citada segundo a 1ª edição), t. III, col. 203-206 e Mansi, Concil., t. IX, col. 835-841. Martinho, aliás, reuniu, ordenou e traduziu, talvez em vista desse mesmo sínodo, uma pequena coleção de cânones conciliares orientais. Um breve prefácio dedicando a coletânea a Nitigés, bispo de Lugo, indica claramente o objetivo que o autor se propôs: tornar acessível aos ocidentais a legislação eclesiástica já elaborada no Oriente. Esses Capitula Martini, aliás, não utilizam apenas as fontes gregas (concílios de Niceia, Ancira, Neocesareia, Gangras, Antioquia, Laodiceia), mas também decisões ocidentais: I Concílio de Toledo, I Concílio de Braga. Cf. Fr. Maassen, Geschichte der Quellen und Litteratur des kan. Rechts, t. I, p. 802-806. Certos capitula cujas fontes não se encontram poderiam ser do próprio Martinho. A coleção está dividida em duas partes: deveres dos eclesiásticos, deveres dos leigos. O fato de ter sido inserida na célebre Hispana favoreceu sua difusão. Texto em d'Aguirre, loc. cit., col. 212-219; Mansi, Concil., t. IX, col. 845-860.
A esses textos propriamente canônicos pode-se juntar a consulta dada a um bispo chamado Bonifácio: De trina mersione, publicada primeiramente por d'Aguirre, op. cit., col. 402-403, e reproduzida em Florez, España sagrada, t. XV, p. 423-426. Essa carta, importante para a história da forma do batismo, responde aos escrúpulos de um bispo, que pergunta a Martinho se a tripla imersão não é de importação ariana e se não deveria ser substituída pela imersão única. Ao que o bispo de Braga responde: Se a tripla imersão fosse praticada invocando-se cada vez, de maneira separada, o nome do Pai, depois o nome do Filho, depois o nome do Espírito Santo, teria incontestavelmente uma significação ariana, pois pareceria acentuar a divisão das pessoas, a ponto de negar a consubstancialidade. Mas a imersão praticada três vezes seguidas, invocando o nome (no singular) do Pai, do Filho e do Espírito, é inteiramente conforme à tradição católica. Preferir-lhe, sob pretexto de evitar toda contaminação ariana, a imersão única, seria ir em direção ao sabelianismo: uno nomine unitas substantiae, trina vero mersione distinctio trium ostenditur personarum. Sabe-se que o papa são Gregório I se mostrará mais liberal do que Martinho e aceitará que a Espanha use de um e de outro costume, Epist., I, xliii, P. L., t. lxxvii, col. 497.
Por fim, ligar-se-á aqui o brevíssimo opúsculo De Pascha, P. L., t. lxxii, col. 49-52, em que, sem estabelecer as regras do cômputo pascal, Martinho procura justificar-lhe o princípio: a Páscoa não é uma festa fixa, e não há motivo para deter-se na prática de vários bispos gauleses que, até esses últimos tempos (usque ante non multum tempus), celebravam sempre a festa na data de 25 de março (por ter-se mostrado confiante em falsas atas conciliares, Martinho imputa gratuitamente esse erro aos bispos gauleses). A festa deve regular-se pela consideração tanto do curso da lua quanto do domingo. A Páscoa é a festa do primeiro mês, e o primeiro mês só pode ser aquele que começa em 22 de março (no equinócio) e termina em 21 de abril; a solenidade pascal só pode, portanto, celebrar-se entre essas duas datas. É quase inútil observar que esse cômputo pascal já estava então abandonado na Itália.
2° Ascética e moral. Martinho dedicou-se sobretudo à formação religiosa e moral daqueles que dependiam dele. Por um lado, em seu mosteiro de Dúmio, deve a seus monges um ensino ascético. Provê a isso traduzindo, ou mandando traduzir para eles, essas máximas dos antigos Padres do deserto, que havia dois séculos edificavam todas as lauras do Oriente. Traduziu ele mesmo as Sententiæ ægyptiorum Patrum, compiladas por um autor anônimo. Texto em P. L., lxxiv, col. 381-394; mandou traduzir por seu discípulo Pascásio, que talvez tivesse trazido consigo do Oriente, as « palavras dos anciãos », Verba seniorum, P. L., t. lxxiv, col. 1025-1065. As pessoas do mundo tiveram também parte em sua solicitude; foi para uso delas que redigiu alguns pequenos tratados morais. Inspirava-se neles, aliás, muito largamente em Sêneca, tão largamente que toda a Idade Média atribuiu vários desses opúsculos ao filósofo pagão. O mais considerável tem por título Formula vitæ honestæ, seu de differentia quatuor virtutum; dedicado ao jovem rei Miro, trata brevemente da prudência, da magnanimidade, da continência e da justiça. Texto em P. L., t. lxxii, col. 21-28. Os opúsculos seguintes têm por título De ira, ibid., col. 41-50, estreitamente aparentado à obra de Sêneca; Pro repellenda jactantia, ibid., col. 31-36; De superbia, col. 35-38; Exhortatio humilitatis, col. 39-42; nestes três últimos a inspiração cristã se faz sentir mais. O Libellus de moribus, col. 29-32, é muito duvidoso, e mais ainda o De paupertate; os antigos manuscritos e os primeiros editores os atribuem, falsamente aliás, a Sêneca.
3° Pregação. Havia muito a fazer no reino dos suevos para levar o povo a uma prática conveniente da religião. O II Concílio de Braga exortava os bispos a lutar vigorosamente pela palavra contra a idolatria incessantemente renascente, ver can. 1. Pessoalmente, Martinho deve ter trabalhado nisso, e subsiste um curioso monumento de sua pregação. É uma homilia intitulada De correctione rusticorum, redigida por ele, a pedido de um de seus bispos e para servir de modelo a este. Texto em C. P. Caspari. Ela lança uma luz muito curiosa sobre a persistência, no fundo dos campos, das crenças e práticas pagãs. E isso era fato não somente dos bárbaros, que aliás parecem ter-se assimilado bastante cedo à antiga camada da população, mas dos próprios hispano-romanos. Em muitos lugares oferecem-se pequenos sacrifícios às fontes, aos mananciais, acendem-se velas em tais ou quais encruzilhadas da floresta, diante de certas árvores; faz-se escrúpulo de trabalhar no dia de Júpiter (quinta-feira); reserva-se muito especialmente à sexta-feira (dia de Vênus) a celebração dos casamentos, o 1º de janeiro é celebrado com solenidade, assim como as festas agrestes das paganalia (cf. Ovídio, Fastes, i, 669 sq.); as mulheres, ao tecer sua tela, invocam Minerva; há pior: encantamentos e maleficios.
Contra esse renascimento do paganismo, Martinho não conhece remédio melhor do que mostrar o caráter demoníaco da idolatria, e é assim que a primeira parte de seu opúsculo traça, tal como ele o imagina, o desenvolvimento do erro pagão. Caído do céu, por causa de seu orgulho, o diabo (ou Satanás), arrastando consigo um grandíssimo número de anjos decaídos, que se tornaram os demônios, reside com estes em nossa atmosfera. Invejosos dos homens, que devem, se permanecerem bons, ocupar o próprio lugar deles no céu, os espíritos impuros esforçam-se por arrastá-los ao mal, por fazê-los esquecer o Criador. Depois de os terem persuadido a adorar as forças da natureza, começam a aparecer aos homens, pedem-lhes santuários e sacrifícios dando-se o nome de homens já célebres por seus altos feitos, mas também por seus vícios, imponentes sibi vocabula sceleratorum hominum. Notar-se-á essa contaminação da teoria demonológica da idolatria com o evemerismo. Aos cristãos que se deixam arrastar a esse culto dos demônios, mesmo depois de seu batismo, Martinho lembra as promessas que fizeram no dia de sua iniciação, a renúncia a Satanás, a suas obras e a suas pompas que se exigiu deles, o pacto que desde então concluíram com Deus.
Exorta todos aqueles que faltaram a esses compromissos a fazer penitência e a renovar os juramentos outrora prestados. Essa homilia, muito bem composta, teve grande difusão; Caspari anotou o uso que dela se fez, seja na vida de santo Elói, l. II, c. xv, P. L., lxxxvii, col. 525 sq. (cf. o tratado De correctione rusticorum, falsamente atribuído a santo Agostinho, P. L., t. XL, col. 1169 sq.); no De singulis libris canonicis scarapsus de são Pirmínio, P. L., t. lxxxix, col. 1041; numa homilia em anglo-saxão do abade Aelfric, de que ele dá o texto, p. cxv-cxxi. Encontrar-se-iam certamente outros exemplos.
4° Diversos. Isidoro de Sevilha diz ter lido de Martinho, além do tratado De differentia quatuor virtutum, uma coletânea de epístolas, aliud volumen epistolarum in quibus hortatur vitae emendationem et conversationem fidei, orationis instantiam et eleemosynarum distributionem, et super haec omnia cultum virtutum omnium et pietatem. De vir. ill., P. L., t. lxxxiii, col. 1100. Esta indicação muito precisa deve visar a outra coisa que não as poucas cartas-prefácios que se leem à frente de diversos opúsculos de Martinho; a coletânea em questão parece, pois, perdida. Mas restam três pequenas peças em verso, P. L., t. lxxii, col. 51. Uma, celebrando os méritos de são Martinho de Tours, estava gravada na porta sul da basílica erguida pela munificência real ao taumaturgo das Gálias; outra era destinada ao refeitório do mosteiro de Dúmio; a terceira é o epitáfio composto por ele mesmo. Esses poucos versos testemunham que, nos países bárbaros, Martinho de Braga conservava ainda o sentimento da cultura antiga. Último sobrevivente de uma civilização que desaparece, apresenta-se ao mesmo tempo como o anunciador dos tempos novos, e é nisso que reside, justamente, o interesse desse convertedor dos suevos.
1. Fontes. Gregório de Tours, Historia Francorum, V, xxxviii, P. L., t. lxxi, col. 352; De miraculis S. Martini, I, xi, ibid., col. 923-925; Venantius Fortunatus, Miscellan., l. V, n. i, carta em prosa, resposta a uma carta de Martinho, n. ii, epístola em verso, P. L., t. lxxxviii, col. 177 sq.; Isidoro de Sevilha, De viris ill., 35, P. L., lxxxiii, col. 1100; Chronicon, 116, ibid., col. 1051-1055; Historia de regibus Gothorum, n. 90-91, ibid., col. 1081-1082.
2. Textos. Não há edição de conjunto; Migne, que reproduz Gallandi, é inteiramente insuficiente, t. lxxii, col. 17-51; a melhor coletânea seria ainda F. H. Florez, España sagrada, t. xv, Madrid, 1759, p. 333 sq., onde faltam apenas os Capitula e onde o De correctione rusticorum está incompleto. Este último tratado foi publicado com grande luxo de erudição por C. P. Caspari, Martin von Braccara's Schrift De correctione rusticorum, Christiania, 1883; a introdução, extremamente longa, dará todos os detalhes tanto sobre a obra mesma quanto sobre o conjunto da obra e a própria pessoa de Martinho. O De Pascha foi reeditado por A. E. Burn, Niceta of Remesiana, Cambridge, 1905, p. 93-107; os tratados morais, Formula vitae honestae, Liber de moribus, aos quais é preciso juntar um De paupertate, em Fr. Haase, edição das obras de Sêneca, t. iii, p. 458-475.
3. Trabalhos. Notícias nas diversas histórias literárias: Ceillier, Histoire des auteurs sacrés et ecclésiastiques, 2ª edição, t. xi, p. 350-352; Fabricius, Bibliotheca latina mediae et infimae aetatis, edição de Hamburgo, 1746, t. v, p. 38; Hefele-Leclercq, Histoire des conciles, t. iii, p. 175-181, onde se corrigirá a data de 563 do I Concílio de Braga para 561; p. 194-195; ver sobretudo o excelente trabalho de Caspari, acima mencionado, que dispensa todos os precedentes; para a bibliografia mais recente, O. Bardenhewer, Patrologie, 3ª edição, Friburgo-em-B., 1910, p. 566-567; Schanz-Krüger, Geschichte der römischen Litteratur, IV b, Munique, 1920, § 1253.
É. Amann.
Autor original: E. Amann
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