MARTÈNE (EDMUNDO)

MARTÈNE (EDMUNDO)

MARTÈNE Edmundo, beneditino da congregação de Saint-Maur (1654-1739). I. Vida e obras. II. A teologia em sua obra.

I. Vida e obras. — Edmond Martène nasceu em Saint-Jean-de-Losne (atualmente da diocese de Dijon), em 22 de dezembro de 1654. Concluídos os estudos, foi encerrar-se na reclusão e fez profissão em Saint-Remy de Reims, abadia da ordem beneditina, em 8 de setembro de 1672. A leitura do comentário de Trithème sobre a regra de São Bento deu-lhe a ideia de escrever ele próprio um comentário dessa mesma regra e, com esse fim, leu os antigos autores ascéticos, as antigas regras, as Atas dos santos da ordem de São Bento, as obras de São Bernardo, os antigos costumes de Cluny. Chamado a Saint-Germain-des-Prés para trabalhar nas edições dos Padres da Igreja, foi dirigido em seus estudos por dom Luc d'Achéry; ali, descobriu entre os manuscritos da abadia alguns antigos comentários sobre a Regra e começou a redigir o seu próprio trabalho. Encorajado por dom Mabillon, que examinara seus primeiros cadernos, publicou em 1690 seu Comentário em latim, compilação do que seus predecessores disseram de melhor sobre a regra de São Bento. Commentarius in regulam S. P. N. Benedicti, litteralis, moralis, historicus, in-4°, Paris, 1690. Trabalhou em seguida sobre os ritos monásticos e publicou De antiquis monachorum ritibus libri quinque, 2 in-4°, Lyon, 1690.

Logo após a morte de dom Claude Martin (9 de agosto de 1696), dom Martène apressou-se a escrever a vida daquele que fora seu mestre. Tendo os superiores levantado dificuldades à impressão, a Madre Marie de l'Incarnation de Québec, que possuía uma cópia, fez publicar a obra com este título: La vie du Vénérable P. dom Claude Martin, religieux bénédictin de la Congrégation de Saint-Maur, écrite par un de ses disciples, in-8°, Tours, 1697. O incidente acarretou o exílio de dom Martène em Evron, no Baixo Maine, e a proibição de comprar sua obra nos mosteiros da congregação. Todavia, dom Martène não permaneceu muito tempo em Evron; foi chamado a Rouen para ajudar dom de Sainte-Marthe em sua edição das Obras de São Gregório Magno, mandou reimprimir a Vida do venerável Claude Martin, in-12, Rouen, 1698, e publicou as Maximes spirituelles du même vénérable P. dom Claude Martin... tirées de ses ouvrages et confirmées par les sentiments des Saints Pères, in-12, Rouen, 1698. Mandou imprimir na mesma cidade De antiquis Ecclesiæ ritibus libri quatuor, 2 in-4°, 1700; depois, dois anos mais tarde, De antiquis Ecclesiæ ritibus tomus tertius, in-4°, Rouen, 1702.

Pode-se considerar como continuação dessa obra o Tractatus de antiqua Ecclesia disciplina in divinis celebrandis officiis, in-4°, Lyon, 1706, ao qual dom Martène juntou três pequenos tratados: o Ordo Romanus de Crassis, os Estatutos da Igreja de Estrasburgo, um livro de orações extraído de um manuscrito da abadia de Saint-Benoît-sur-Loire. Por fim, deu ao público uma coletânea de escritores e de monumentos morais, históricos e dogmáticos sob o título Veterum scriptorum et monumentorum moralium, historicorum, dogmaticorum ad res ecclesiasticas, monasticas et politicas illustrandas collectio nova, in-4°, Rouen, 1700. Encarregado de recolher documentos para a Gallia christiana empreendida por dom Denis de Sainte-Marthe, fez diversas viagens com dom Ursin Durand e, em colaboração com este, deu as três obras: Thesaurus novus anecdotorum, 5 in-fol., Paris, 1717; Veterum scriptorum et monumentorum ecclesiasticorum amplissima collectio, 9 in-fol., Paris, 1724-1733; Voyage littéraire de deux religieux bénédictins de la Congrégation de Saint-Maur, 2 in-4°, Paris, 1717-1724.

Contra os ataques à eleição do superior geral por compromisso, dom Edm. Martène compôs um Mémoire pour faire voir que les élections du supérieur Général de la congrégation faites par compromis ne sont pas contraires aux usages du royaume. Este trabalho se encontra no t. I da História manuscrita da Congregação de Saint-Maur. Carregado de anos e privado de seu companheiro, dom Martène não interrompeu seus trabalhos: deu uma segunda edição de seu De antiquis Ecclesiæ ritibus, 4 in-fol., Anvers, 1736; publicou os escritos deixados pelos PP. Mabillon, Ruinart e Massuet para os Anais da ordem, sob o título Annales ordinis S. Benedicti, tomus sextus, in-fol., Paris, 1739.

Dele restam: Lettre au P. Lebrun de l'Oratoire sur l'usage de réciter en silence une partie de la messe (manuscrita); Histoire manuscrite de l'Abbaye de Marmoutier avec les preuves (foi publicada no século XIX pelo Sr. Chevalier, 2 in-8°, s. l., 1874-1875); Histoire de la Congrégation de Saint-Maur continuée de 1739 à 1747 par dom Fortel (manuscrita); uma Vida dos santos para opor à do Sr. Baillet (não se faz menção dela no inventário dos manuscritos de dom Martène). Em contrapartida, na Biblioteca dos manuscritos de Saint-Germain-des-Prés, encontra-se um manuscrito de dom Martène com o título: La vie des justes de la Congrégation de Saint-Maur. Dom Heurtebize acaba de publicá-lo nos Archives de la France monastique, t. XXVII, XXVIII e XXX, Ligugé, 1924-1926. Infatigável, nosso religioso preparava dois tomos para dar continuação aos Acta Sanctorum O. S. Benedicti de Mabillon, quando morreu em Saint-Germain-des-Prés, de um ataque de apoplexia, em 20 de junho de 1739. Tinha 85 anos, deixando a reputação de grande sábio e de santo religioso.

II. A teologia em sua obra. — Ela não ocupa nela, nem de longe, um lugar tão amplo quanto a liturgia e o direito canônico. Todavia, encontra-se no De antiquis Ecclesiæ ritibus o que a tradição oferece sobre a administração dos sacramentos, as disposições com que se devem recebê-los, sobre os ministros, a matéria, a forma etc. No prefácio do t. Iº do Thesaurus novus anecdotorum, os autores (Martène e Durand) declaram-se abertamente pela necessidade do amor de Deus no sacramento da penitência: invocam sobre esse ponto a autoridade de Adão de Perseigne, segundo o qual essa era, havia mais de seiscentos anos, a doutrina comum. O prefácio do t. V do mesmo Thesaurus é em grande parte consagrado ao exame da teologia de Abelardo: os dois autores defendem aí São Bernardo contra aqueles que o acusaram de ter condenado levianamente o infeliz monge. O t.

I do Voyage littéraire relata um fato singular: na biblioteca dos Padres mínimos de Dijon, mostraram-se aos viajantes alguns tratados de teologia positiva do cardeal A. Oregius, de onde o P. Pétau, S. J., teria tirado seus dogmas teológicos. O relato feito por dom Martène foi vivamente combatido pelo jesuíta Fr. Oudin, em seu Mémoire concernant les traités théologiques du card. A. Oregius, où l'on examine si le P. Pétau en a tiré ses dogmes. Esta memória se encontra no Journal des Savants de maio de 1719. O prefácio do t. IV da Veterum scriptorum... amplissima collectio, que deve servir igualmente para o t. V, contém observações sobre o relaxamento da abstinência na quaresma. O longo prefácio do t. VII apresenta uma história do Grande Cisma do Ocidente tirada dos melhores autores da época.

Dom Tassin, Histoire littéraire de la Congrégation de Saint-Maur, Bruxelles, Paris, 1770, p. 542-563; in-4°; F. Lecerf de la Viéville, Bibliothèque historique et critique des auteurs de la Congrégation de Saint-Maur, in-12, La Haye, 1726, p. 298-307; Moréri, Grand Dictionnaire historique, na palavra Martène; Hœfer, Nouvelle biographie universelle, t. XXXIII, col. 1002; Bulletin d'histoire bénédictine, suplemento à Revue bénédictine, p. 682, 942, 1170, 1172, etc.; Kerker, Mabillon, t. V, p. 377, 445, 462; M. Valéry, Correspondance inédite de Mabillon et de Montfaucon avec l'Italie, 3 in-8°, Paris, 1846, t. II, p. 47.

J. Baudot.

Autor original: J. Baudot

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