MARSOLLIER (TIAGO)

MARSOLLIER (TIAGO)

MARSOLLIER Tiago (1647-1724), nasceu em Paris em 1647, tornou-se cônego regular de Santa Genoveva, depois prepósito e arquidiácono de Uzès, e foi enviado pelos superiores da congregação para restabelecer a boa ordem no capítulo dessa cidade. Marsollier fixou-se em Uzès, onde morreu em 30 de agosto de 1724.

Os escritos de Marsollier são muito variados; a maior parte refere-se à história eclesiástica e indiretamente à teologia. Seu primeiro trabalho é a Histoire de l'origine des dîmes, des bénéfices et autres biens temporels de l'Église, in-12, Lyon, 1689, obra curiosa e raríssima, na qual o autor se inspirou em Fra Paolo (Le traité des bénéfices); — foi posta no Índice por decreto de 5 de julho de 1694. Depois apareceu a Histoire du cardinal Ximénès, archevêque de Tolède et régent d'Espagne, in-12, Toulouse, 1693, reeditada em 1704 e em 1739. (Journal des Savants de 22 e 29 de junho de 1693, p. 221-238 e de 31 de março de 1704, p. 163-167; Mémoires de Trévoux, abril e maio de 1704, p. 507-524, e fevereiro de 1740, p. 231-250). O escrito de Marsollier foi atacado numa obra anônima intitulada Marsollier découvert et confondu dans ses contradictions.

Em 1693, Marsollier publicou a Histoire de l'Inquisition et de son origine, in-8°, Colônia, 1693; nesse escrito, o autor estuda a conduta da Igreja a respeito dos hereges, a origem e o estabelecimento das leis e dos procedimentos da Inquisição, que remonta ao tempo em que os católicos se cruzaram contra os albigenses; narra a história particular da Inquisição de Estado de Veneza e, por fim, os sentimentos da Igreja acerca da excomunhão e da deposição dos soberanos em caso de heresia e de apostasia; neste ponto, Marsollier pretende que a Igreja não pode nem excomungar nem depor os soberanos, e que os súditos não devem levar em conta o interdito lançado nessas condições por um juiz eclesiástico. A obra foi posta no Índice em 19 de maio de 1694 (Journal des Savants de 26 de abril e 3 de maio de 1694, p. 183-199). O abade Goujet, em sua Histoire des Inquisitions, 2 vol. in-12, Colônia, 1759, apenas reproduziu, em seu t. Ier, o escrito de Marsollier, e, no t. II, Goujet narra o estabelecimento da Inquisição em Portugal e uma relação da Inquisição de Goa, segundo um relato do Sieur Dellon.

A Histoire d'Henri VII, roi d'Angleterre, 2 vol. in-12, Paris, 1697, e 1724, é a obra-prima de Marsollier, que nela conta a história da Inglaterra até a morte desse rei, em 22 de abril de 1509 (Journal des Savants, março e 7 de abril de 1697, p. 139-150). A vida de são Francisco de Sales, in-4° ou 2 vol. in-12, Paris, 1700, foi muitíssimas vezes reeditada em Paris, Lyon e Tours no decurso dos séculos XVIII e XIX, e merece esse sucesso. A vida de dom Armand Jean Le Bouthillier de Rancé, abade e reformador da Trapa, 2 vol. in-12, Paris, 1703, 1758, suscitou algumas polêmicas (Mémoires de Trévoux, maio de 1703, p. 767-794). Foi muito vivamente atacada por dom Gervaise, num escrito intitulado Jugement critique, mais équitable, des vies de feu l'abbé de Rancé, réformateur de l'abbaye de la Trappe, écrites par les sieurs Marsollier et de Maupéou, in-12, Londres, 1742. A Vie de Rancé publicada por Marsollier foi traduzida para o italiano por Burlamaqui, in-4°, Lucca, 1706.

Marsollier doravante se inspira mais ou menos diretamente em Erasmo, em particular no tratado Du mépris du monde et de la pureté de l'Église chrétienne, avec un discours de l'Enfant-Jésus et une lettre aux religieuses de Cambridge de l'Ordre de saint François, que contém um excelente elogio da solidão, in-12, Paris, 1713; é uma tradução de Erasmo na qual Marsollier apenas substituiu um comentário e acrescentou no Prefácio um elogio do próprio Erasmo (Journal des Savants, 20 de novembro de 1713, p. 616-620). Depois publicou a Apologie ou la justification d'Érasme, in-12, Paris, 1713 (Journal des Savants, 14 de maio de 1714, p. 311-317 e Mémoires de Trévoux, junho de 1714, p. 935-953). Essa Apologie foi muito fortemente atacada no Journal de Trévoux de junho de 1714, p. 954-972 e março de 1723, p. 507-526, e num artigo das Mémoires littéraires, atribuído ao P. Le Courrayer. Apareceu também uma Critique de l'Apologie d'Érasme de M. l'abbé Marsollier, in-12, Paris, 1720, na qual se sustenta que Erasmo é um «apóstata precursor de Lutero, que ataca o celibato dos sacerdotes, a divindade de Jesus Cristo e que truncou os Padres» cujas obras publicou (Journal des Savants, 15 de janeiro de 1720, p. 33-37).

Em Les entretiens sur les devoirs de la vie civile et sur plusieurs points de morale, in-12, Paris, 1714 e 1715, Marsollier toma Erasmo por modelo e quer ressuscitar o verdadeiro espírito da conversação; são diálogos entre diversos personagens (Journal des Savants, 30 de julho de 1714, p. 493-496 e Mémoires de Trévoux, maio de 1714, p. 788-798). A vida da bem-aventurada Madre de Chantal, fundadora, primeira religiosa e superiora da Ordem da Visitação Santa Maria, 2 vol. in-12, Paris, 1715, foi muitíssimas vezes reeditada e foi abreviada por um anônimo em 1752 (Mémoires de Trévoux, outubro de 1717, p. 1563-1587). Enfim, é preciso acrescentar a Histoire de La Tour d'Auvergne, duc de Bouillon, in-4°, Paris, 1719 e 3 vol. in-12, Amsterdam, 1726; nela se encontram narrados os fatos importantes dos reinados de Francisco II, Carlos IX, Henrique III, Henrique IV, a menoridade e os primeiros anos do reinado de Luís XIII (Journal des Savants de 22 de maio de 1719, p. 321-325 e Mémoires de Trévoux de março e abril de 1723, p. 463-480, 557-575).

Michaud, Biographie universelle, t. XXVII, p. 82-83; Hoefer, Nouvelle biographie générale, t. XXXIV, col. 982-983; Quérard, La France littéraire, t. V, p. 562-563; Feller, Biographie universelle, édit. Pérennès, 1842, t. VIII, p. 212-213; Moréri, Le grand dictionnaire, édit. de 1759, t. VII, p. 284-285 e Suppl., t. II, p. 77; Richard et Giraud, Bibliothèque sacrée, t. XVI, p. 217-218; Chaudon et Delandine, Dictionnaire universel historique, critique et bibliographique, 9e édit., 1810, t. XI, p. 229-230; Barral, Dictionnaire historique, littéraire et critique, 6 vol. in-8°, Avignon, 1758-1762, t. III, p. 369-370; Nicéron, Mémoires pour servir à l'histoire des hommes illustrés, t. VII, p. 341-367; Dupin, Bibliothèque des écrivains ecclésiastiques du XVIIe siècle, t. VII, p. 45-47; Goujet, Bibliothèque du XVIIIe siècle pour servir de continuation à celle de Dupin, t. II, p. 170-174; Desessarts, Les siècles littéraires de la France, 7 vol. in-12, Paris, 1800-1803, t. IV, p. 302-303; Dictionnaire des auteurs ecclésiastiques, 4 vol. in-8°, Lyon, 1767, t. III, p. 107-108; Hurter, Nomenclator, 3e édit., t. IV, col. 1259; Encyclopédie des sciences religieuses, t. VIII, p. 741-742.

J. Carreyre.

Autor original: J. CARREYRE

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