MAROUTA DE MAYPHERQAT (SÃO)

MAROUTA DE MAYPHERQAT (SÃO)

MAROUTA DE MAYPHERQAT (SÃO). Morreu bispo dessa cidade (chamada também Mayyâfâriqîn ou Martirópolis) provavelmente entre 418 e 420. I. Vida. — II. Obras.

I. Vida. As fontes habituais da história literária siríaca não forneceram até aqui nenhuma informação sobre o nascimento e a juventude de Marouta; mas um autor muçulmano, o célebre geógrafo Yâqout († 1229), em seu Kitâb mu'djam al-bouldân, edit. Wüstenfeld, Leipzig, 1869, t. iv, p. 703-707, na palavra Mayyâfâriqîn, dá sobre o conjunto de sua vida informações que merecem ser resumidas. O pai de Marouta governava a Sofene (o vilaiete do Diyâr Bekr, diz Yâqout) e chamava-se Liyoutâ. De seus três filhos, os dois mais velhos partiram a serviço do imperador Teodósio, o Grande (379-395), enquanto o mais novo, Marouta, permanecia na casa paterna e se aplicava com o maior sucesso ao estudo das ciências. Tendo morrido Liyoutâ, Marouta assumiu o seu cargo, primeiro sob o reinado de Teodósio, depois sob seu sucessor Arcádio (Constantino, no relato de Yâqout, que se engana por ter retido que o império, após a morte de Teodósio I, ficou fixado definitivamente em Constantinopla). Marouta, que se fazia notar por seu zelo em construir igrejas e mosteiros, residia primeiro na cidade de Amid; mas tendo sofrido as depredações cometidas pelos persas, escolheu, a uns cinquenta quilômetros ao norte, um local pouco acessível para ali pôr suas riquezas a salvo.

Nesse ínterim, uma filha do rei da Pérsia tendo adoecido, um cortesão aconselhou recorrer à habilidade médica de Marouta. Sapor manda pedi-lo a Constantino (Arcádio). Marouta vem e cura a moça. Sapor lhe agradece, convida-o a fixar sua morada. Marouta responde: «a paz e a concórdia». E redige um tratado de amizade entre os dois imperadores durante a vida deles. Depois, quando Marouta está para partir, Sapor o autoriza a lhe dirigir um novo pedido. E Marouta responde: «Desejaria que me desses tudo o que tens em teu país dos ossos desses monges e desses cristãos que teus soldados mataram». Tendo obtido satisfação, Marouta transporta essas relíquias para o lugar que escolhera para ali estabelecer sua fortuna, isto é, Maypherqat. Vai prestar contas ao imperador das promessas de paz que obtivera, depois se aplica à construção da nova cidade, com a ajuda do imperador, que lhe pede alguns anos mais tarde que ali edifique uma cidadela para fazer dela um bastião da defesa do Império contra a Pérsia.

Relatamos a narrativa de Yâqout porque representa a tradição local de Maypherqat. Nosso geógrafo deve ter visitado a cidade, descreve-lhe os monumentos, os muros, as portas, sabe que os gregos a chamaram Madoursâlâ (Martirópolis), que ele explica exatamente «cidade dos mártires». Existe ainda, diz ele, um grande mosteiro construído por Marouta sob a invocação dos apóstolos Pedro e Paulo e, na sinagoga vizinha, um vaso de mármore negro em cujo interior há um globo de vidro contendo sangue, que Marouta trouxera de Roma. Esse sangue, que os judeus disseram a Yâqout ser o de Josué, filho de Nun, cura da lepra aqueles que são ungidos com ele; reconhecer-se-á nele sem dúvida uma das preciosas relíquias, como as que continha em Roma o altar do Sancta Sanctorum: sangue de mártir encerrado numa ampola de vidro. Zakariyâ Qazwînî († 1283) reproduziu na segunda parte de sua cosmografia, Kitâb âthâr al bouldân, edit. Wüstenfeld, Gotinga, 1848, p. 379, algo da narrativa de Yâqout. Oscar Braun, De sancta Nicœna Synodo, syrische Texte des Maruta von Maipherkat... übersetzt, nos Kirchengeschichtliche Studien de Knöpfler, Schrörs e Sdralek, Münster, 1898, t. iv, fasc. 3, p. 5, que cita o texto de Qazwînî, não descobriu a fonte dele.

Yâqout nada diz do episcopado de Marouta; não esqueçamos que é muçulmano e só se interessa pelo nosso personagem como fundador de Martirópolis, mas conservou os fatos característicos de sua vida, sua missão na Pérsia, onde fundou, ao menos por algum tempo, relações de amizade entre persas e romanos, e seu culto particular pelos mártires persas. O que lhe relataram sobre a origem e a família de Marouta não é indiferente para a inteligência de sua vida; compreende-se que o filho de um homem importante, que ocupara ele próprio um cargo oficial, tendo além disso dois irmãos a serviço do imperador e talvez na corte, tenha sido encarregado de missões ao mesmo tempo diplomáticas e religiosas junto aos soberanos sassânidas.

Duas vezes ao menos Marouta foi a Ctesifonte: Sócrates o afirma explicitamente, H. E., VII, 8, P. G., t. lxvii, col. 753: «Marouta, tendo então deixado a Pérsia, voltou a Constantinopla; mas pouco depois foi de novo enviado aos persas.» Não se compreende como o Sr. Labourt pôde escrever: «Sócrates parece conhecer apenas uma missão do bispo de Maipherqat.» Le christianisme dans l'Empire perse, Paris, 1904, p. 88, n. 5. Mari e Amr, cujos testemunhos nos foram conservados no Livro da Torre, conhecem igualmente, embora com cronologia diferente, duas intervenções de Marouta na Pérsia. A primeira teve lugar o mais tardar em 399. O motivo da embaixada nos escapa; havia muitas, diz Sócrates (desde que Bahram IV inaugurara com os romanos uma política de aproximação). Não sabemos sequer se o Rei dos reis, junto ao qual Marouta foi enviado, era Bahram IV ou Yazdedjerd I, cujo reinado começou a 14 de agosto de 399.

Os historiadores orientais pensam que Marouta fora chamado à corte da Pérsia como médico, porque, diz Amr, todos os médicos cristãos desse país haviam sido martirizados ou haviam fugido, Maris Amri et Slibæ de patriarchis Nestorianorum commentaria, edit. H. Gismondi, part. II, Roma, 1896, p. 23, trad., p. 13. Mas é melhor sustentar com Sócrates que Marouta tinha realmente qualidade de embaixador; nosso historiador sabe aliás que o bispo livrou Yazdedjerd de uma dor de cabeça obstinada e que essa cura maravilhosa foi a origem de seu crédito, loc. cit.: cf. Mari, op. cit., part. I, Roma, 1899, p. 29, trad. p. 25 sq. Tornado conselheiro do novo Rei dos reis, Marouta veio em socorro das cristandades do império sassânida, tão provadas sob Sapor II por uma longa e violenta perseguição (339-379); obteve para elas um regime de liberdade e, ao que parece, de benevolência.

Socrates, Mari, Amr, loc. cit.; Chronique de Se'ert, Patr. Orient., t. v, p. 318 [206]. A eleição do catolicós Isaac teve lugar desde os primeiros dias da paz religiosa e, como a cronologia habitualmente aceita a coloca antes do fim de 399, Labourt, op. cit., p. 85, n. 4, pensar-se-á que a partida de Marouta para o Oriente ocorreu antes do advento de Yazdedjerd. É provável que Marouta tenha permanecido na Pérsia durante bastante tempo; Socrates e os historiadores orientais mostram-no fazendo sombra aos conselheiros ordinários do rei, escapando às ciladas dos magos, que temem os efeitos de sua influência sobre o monarca. Contudo, no decurso de 403, ele havia voltado ao Império romano: assiste às reuniões que precedem o famoso concílio do Carvalho, na margem asiática do Bósforo. Foi um acidente fortuito que nos revelou aí a sua presença: certo dia, pisou tão desastradamente o pé do bispo Cyrinus, que este morreu de gangrena, após várias intervenções cirúrgicas. Socrates, H. E., VI, 15, 19, P. G., t. lxvii, col. 709, 721; Sozomène, H. E., VIII, 16, ibid., col. 1557. Marouta terá prolongado sua estada na capital até o fim da tragédia da qual Crisóstomo foi a vítima. Por volta do fim de 404, quando o patriarca exilado já havia chegado a Cucuso, ele escrevia a Olímpia: «Não abandones o bispo Marouta, na medida em que puderes, cuidando de arrancá-lo do abismo. Tenho muita estima por ele por causa dos assuntos da Pérsia...» Epist., XIV, P. G., t. lii, col. 618. Vê-se por este texto que Marouta permanecera entre os adversários de João; mas não devia estar entre os mais encarniçados, pois Crisóstomo tivera a esperança de encontrá-lo e de seu próprio exílio lhe enviava duas cartas, recomendadas à diligência de Olímpia. Tillemont julgou, por causa de uma expressão deste texto, que Marouta tinha ido à Pérsia depois dos acontecimentos de 403 e que de lá chegava no momento em que Crisóstomo escrevia a Constantinopla; mas basta, para explicar a curiosidade deste, que lhe tenha sido impossível ter uma conversa com Marouta no fim de 403, o que é muito compreensível quando se sabe em que perturbação Crisóstomo passou os últimos meses de sua permanência em sua cidade episcopal. P. DIB.

Marouta tivera anteriormente relações pessoais com João? É verossímil que, antes de ir à Pérsia, tivesse permanecido uma ou várias vezes na capital. Mas não temos sobre este ponto nenhum testemunho definitivo. Mari fala da participação de Marouta num concílio que teria reunido cento e cinquenta bispos em Constantinopla, situando aliás esse concílio depois da primeira missão no Oriente, loc. cit., p. 31, trad., p. 27; Amr, p. 25, trad., p. 14 sq. Mas o concílio «dos 150 bispos» é o de 381, e nenhum dos documentos que lhe dizem respeito menciona Marouta. O único testemunho relativo a uma atividade de Marouta nos assuntos eclesiásticos do Império romano, afora o que já foi relatado, encontra-se numa informação de Fócio sobre um concílio realizado em Sida, na Bitínia, contra os messalianos, Biblioth., cod. 52, P. G., t. ciii, col. 88. Fócio chama Marouta de bispo dos sofarenos, ou sofenos, Μαρουθᾶ τοῦ Σουφαρηνῶν ἔθνους, ao passo que Socrates o chama de bispo da Mesopotâmia, ὁ Μεσοποταμίας ἐπίσκοπος. Estas denominações confirmam de maneira bastante inesperada o relato de Yâqout: foi somente depois de ter estado na Pérsia que Marouta mandou construir em Maypherqat (Μαῖπα para os gregos, Ptolomeu, Géographie, l. V, c. xii, edit. Müller, t. ii, Paris, 1901, p. 948) um estabelecimento estável, uma cidade capaz de dar o seu nome a um bispado.

A data do concílio de Sida não é exatamente conhecida; Hefele, que dele trata sob os anos 388-390, põe em dúvida sua existência. Hefele-Leclercq, Histoire des Conciles, t. ii a, p. 75. Marouta voltou à Pérsia para completar a obra começada, após uma curta estada no Ocidente, e sempre com a qualidade de embaixador, segundo Socrates, loc. cit., P. G., t. lxvii, col. 753. Esta legação parece ter tido um caráter permanente. Seja como for, Marouta estava na corte da Pérsia em 410; para afirmá-lo, não temos apenas o testemunho mais ou menos suspeito de um cronista, mas as atas do concílio nacional da Igreja persa realizado no décimo primeiro ano do reinado de Yazdedjerd, e cuja primeira sessão teve lugar a 1º de fevereiro de 410. O. Braun, Das Buch der Synhodos, Stuttgart et Vienne, 1900, p. 5-35; Synodicon Orientale ou Recueil de synodes nestoriens, edit. J. B. Chabot, dans Notices et extraits, Paris, 1902, t. xxxvii, p. 17-36, trad., p. 253-275. Esta data não é atestada por Mari, que situa o sínodo de Isaac durante a primeira missão de Marouta, mas é garantida por Amr e pela Chronique de Séert, «o décimo primeiro ano de Yazdedjerd», e por Elia bar Sinaya, «ano 721 dos gregos». L. J. Delaporte, Chronographie de Mar i Elia bar Sinaya, dans Bibliothèque de l'École des Hautes-Études, fasc. 181, Paris, 1910, p. 71; Corp. script. or. christ., Script. Syri, sér. III, t. vii, p. 111, trad., p. 53.

Marouta permaneceu ainda por muito tempo na Pérsia? Estava lá no ano que se seguiu ao sínodo: é a ele que a crônica de Séert atribui a designação do catolicós Ahav, sucessor de Isaac, Patr. Orient., t. v, p. 324 [212]. Mais ainda, segundo Amr e Mari, e mesmo segundo Socrates, lendo σὺν ᾿Αδλαάτῳ com J. Labourt, op. cit., p. 90, n. 1, a ação de Marouta na Pérsia continuou até o pontificado de Yahballàhà (415-420). Esses três autores narram, com algumas divergências quanto aos detalhes, uma cura operada pelo catolicós na presença do bispo. O acontecimento pode situar-se, quer no início do pontificado de Yahballàhà, quer depois de este ter sido enviado a Constantinopla pelo Rei dos reis em 417-419. As atas de Pîrôz, em Bedjan, Acta sanctorum et martyrum, t. iv, p. 256, dizem que, em seu regresso, o catolicós era acompanhado por Marouta; Amr diz por outro lado que Acácio, metropolita de Amid, assistiu igualmente a esse milagre, ora, a missão de Acácio na Pérsia durou até o sínodo de 420. As atas dessa reunião, Synodicon orientale..., p. 37-42, trad., p. 276-284, não mencionam Marouta; conclui-se geralmente que ele havia deixado de viver. J. Labourt, op. cit., p. 89. As fontes históricas utilizadas acima não contêm nenhuma informação sobre a morte de Marouta.

O sinaxário constantinopolitano a situa em 16 de fevereiro, Acta SS., Propylaeum ad acta novembris, col. 469 sq., e diz que ela teria ocorrido no dia aniversário da dedicação, pelo santo bispo, da igreja de Martirópolis. O sinaxário árabe-jacobita depende estreitamente deste relato, 22 'amsir, Patr. Orient., xi, p. 841 [807] sq., assim como o sinaxário etíope, 22 yakatît. Restaurador da Igreja persa, o bispo de Maypherqat é citado a 4 de dezembro pelo martirológio romano; deve ter sido citado pela maior parte dos calendários siríacos; encontramos seu nome, por exemplo, a 3 de outubro num calendário jacobita de Alepo, F. Nau, Martyrologes et ménologes orientaux, Patr. Orient., t. x, p. 63, e na sexta sexta-feira de Moisés, com outros bispos de Amid e Maypherqat, num evangeliário nestoriano do século XIII. Ms. Sachau 304, dans Hss.-verzeichnisse der kgl. Bibl. zu Berlin, xxiii, p. 30. Mas não se assinala nenhuma vida de Marouta em siríaco. Existe, no entanto, uma em armênio, que parece provir de uma fonte siríaca e que manifesta certa semelhança com a notícia de Yâqout, cujos elementos foram, cremos, recolhidos em Maypherqat. Esta vida, da qual se tem um texto aceitável, a partir de ao menos três manuscritos, nas Vitae et passiones sanctorum (em armênio), Venise, 1874, t. ii, p. 17-32, já havia sido publicada por Aucher, Sanctorum acta pleniora (em armênio), Venise, 1810, t. i, p. 585-609, anotações, p. 609-618 (corrigir Bibliotheca hagiographica orientalis, n. 720), mas com retoques infelizes inspirados ao editor pela Bibliotheca orientalis.

Os ascendentes de Marouta são, neste relato, um de origem síria, Auda, provavelmente 'Abda pronunciado 'Awdà, sacerdote dos ídolos e chefe da Sofene (Dzoph), o outro, Maria, filha de um nakharar armênio e cristã, mas estes são os avós do bispo. Auda faz-se batizar e toma o nome de Marouta; tem três filhos: o primogênito lhe sucede, os outros dois partem a serviço do rei. Quando Auda-Marouta morreu, sua mulher vai em peregrinação a Jerusalém e Antioquia; ao voltar à Sofene, seu filho primogênito acaba de ter um filho, que se chama Marouta como seu avô. Aos cinco anos, a criança é confiada, para sua educação, ao sacerdote Marmara, que se deve restituir como màr Mari. Marouta torna-se bispo de Dzoph, vai à Pérsia para curar o filho de Yazdedjerd, cura o próprio rei de uma violenta dor de cabeça e torna-se seu amigo. Marouta dirige-se a Teodósio II para levar-lhe a mensagem de paz do Rei dos reis; reenviado à Pérsia, começa, de passagem, a construção de Maypherqat, etc. Este relato, cuja redação parece tardia, é prolixo, sobrecarregado de considerações edificantes, menos vivo que a notícia de Yâqout. Representa, ao menos como esta, a tradição da Igreja mesopotâmica, da qual nenhum testemunho siríaco nos chegou. O sinaxário armênio contém, a 21 mareri (= 28 de maio), edit. de Constantinopla, 1706, p. 777 sq., um elogio que depende desta vida. Uma vida grega se encontra a 28 de fevereiro numa coletânea de menologias da biblioteca sinodal de Moscou, n. 376, fol. 132-135 v°, ms. do século XI ornado de ricas miniaturas. Ver Archim. Vladimir, Description systématique de la Bibliothèque synodale de Moscou (em russo), part. I, Moscou, 1894, p. 564, já citada por Braun, loc. cit., p. 11. O corpo de são Marouta, primeiro enterrado em Maypherqat, havia sido transferido para o Egito; J. S. Assémani viu, no mosteiro de Santa Maria dos Sírios, no deserto de Escete, o lugar onde repousava. Bibl. orient., t. i, p. 179. Conservavam-se também na biblioteca desse mosteiro atas de são Marouta que Assémani não pôde comprar, ibid.; esse ms. não chegou nem ao Vaticano, nem ao Museu Britânico.

II. OBRAS. Marouta aparece antes de tudo diante da história como o restaurador da Igreja da Pérsia sob Yazdedjerd I, mas não há dúvida de que teve certa atividade literária. 'Abdisô bar Berikhô, no fim do século XIII, escreve no capítulo LVII de seu catálogo dos autores sírios: «Marouta, bispo de Maypherqat, médico experimentado, compôs um livro de paixões (dos mártires), hinos e cantos em honra dos mártires; traduziu também os cânones dos 318 Padres e compôs uma história desse santo concílio (de Niceia).» Bibl. orient., t. iii, p. 73 sq. É bastante natural que um bispo, amigo dos mártires, na situação de Marouta, tenha recolhido com igual cuidado os restos de seus corpos e os relatos de seus suplícios; mas é permitido também suspeitar que escritores tardios tenham estendido sem provas certas o campo de sua atividade. Como, em todo caso, distinguir entre as paixões em língua siríaca a coleção do bispo de Maypherqat? J.-S. Assémani, que havia trazido do mosteiro de Santa Maria dos Sírios, no deserto de Escete, dois antiquíssimos mss. hagiográficos, reivindicou deliberadamente para Marouta todas as atas posteriores a Eusébio de Cesareia até o relato do martírio de são Tiago o Intercisus, inclusive († 27 de novembro de 421). A argumentação não é concludente e é melhor confessar que, no estado atual de nossos conhecimentos, não se poderia afirmar com certeza nem num sentido nem no outro.

Seria preciso primeiro, para estudar a autenticidade das coleções, distinguir entre os dois mss. do Vaticano, 160 e 161. É assim, por exemplo, que a paixão de são Tiago o Intercisus, posterior à data proposta acima para a morte de Marouta, não figura no Vatic. syr. 160. Ora, os fol. 80-210 desse ms., que formam a mais antiga coleção de paixões conhecida, foram escritos na primeira metade do século V, pois seu caráter é muito próximo ao dos mss. do Eusébio siríaco, datados de 411 e 412; cf. Anal. Bolland., 1921, t. xxxix, p. 338. Embora mutilado de suas últimas páginas, esse códice nos prova que, certamente na primeira metade e provavelmente no primeiro quarto do século, houve na Mesopotâmia uma ampla coleção de atas de mártires, orientais e ocidentais. É tentador atribuir a composição dessa coleção àquele cuja atividade na busca dos corpos santos fez dar à sua sede o nome de Martirópolis, o embaixador de Arcádio; não podia, portanto, ignorar o grego, foi ao mesmo tempo o coletor das paixões persas e o tradutor das atas ocidentais.

Outros além de Marouta haviam também trabalhado em recolher os relatos dos suplícios suportados sob Sapor; segundo a crônica de Séert, Patr. Orient., t. iv, p. 289 [79]: «Marouta, bispo de Maypherqat, e o patriarca Ahay escreveram o martirológio daqueles que sofreram o martírio no tempo de Sapor.» Amr e Mari nem mesmo mencionam, a esse respeito, senão o catolicós Ahay, loc. cit. Parece igualmente impossível determinar quais cantos litúrgicos foram compostos por Marouta: A. Baumstark propõe atribuir-lhe certas peças em honra dos mártires, que são cantadas pelos nestorianos e caldeus católicos nas vésperas e nas matinas dos dias de semana. Gesch. der syr. Literatur, Bonn, 1922, p. 53.

Célebre por seu amor aos mártires, Marouta não o foi menos pelo zelo em fazer aplicar na Pérsia as decisões de Niceia. É certo, pelas atas do concílio de 410, Synodicon orientale, p. 20 sq., trad., p. 258-260, que os membros desse sínodo tomaram conhecimento de uma coleção de cânones «dos 318 Padres», cujo texto o embaixador de Arcádio lhes trazia, e juraram conformar-se a ela. A crônica de Séert fala dos cânones «provenientes da cópia de Marouta, bispo de Maypherqat», Patr. orient., t. iv, p. 280 [70]; 'Abdisô fala, como foi dito, de uma tradução dos cânones e de uma história do concílio. J.-S. Assémani nada havia reencontrado deles e lamentava que essas preciosas obras devessem, em algum ponto do Oriente, servir de pasto à vermina, Bibl. orient., t. I, p. 195; parece bem, entretanto, que tenhamos recuperado algo delas. Entre os mss. copiados no Oriente pelos cuidados de d. Clemente David, há dois, Borgia syr. 81 e 82 (outrora K. VI. 3 e 4), que contêm uma série de textos canônicos. O começo do ms. 82 apresenta um aspecto singular: o original do qual foi copiado, no mosteiro de Hormizd, perto de Mossul, tinha as primeiras folhas deterioradas e deslocadas; o copista consciencioso, mas tímido, transcreveu-as de ponta a ponta, deixando em branco o lugar das palavras ilegíveis ou destruídas. As primeiras 115 páginas referem-se ao concílio de Niceia, e como aí se encontra uma carta de Marouta ao catolicós Isaac, tem-se fundamento para buscar nelas o corpus redigido por Marouta em favor das cristandades persas. O sr. Braun, que publicou uma tradução de todo esse conjunto na obra mencionada acima, De sancta Nicæna synodo, enumera como segue a série dos trechos cujo encadeamento é certo, p. 13 sq.: fragmentos dos cânones 15-20 de Niceia, lista dos bispos presentes ao concílio, carta do imperador Constantino dando a ordem de queimar os escritos de Ário, carta de Marouta ao catolicós Isaac, enfim 73 cânones.

As peças que fazem parte da coleção, mas numa ordem indeterminada, são: o símbolo de Niceia-Constantinopla, provavelmente com comentário, que era a última peça do códice, a explicação de certos termos gregos em uso na Igreja, alguns desenvolvimentos históricos sobre o monaquismo, um catálogo de treze heresias, enfim uma história de Constantino, de Helena e do concílio. O sr. Braun pensa que estes três últimos trechos pertencem à carta de Marouta. Mas essa carta é bem autêntica, ao menos em todas as suas partes? As dificuldades foram perfeitamente discernidas pelo sr. Braun: a história de Constantino e de sua mãe, que se torna originária dos arredores de Edessa, está longe demais da verdade para que se possa atribuí-la a um bispo apenas meio século posterior aos acontecimentos que relata e que havia frequentado a corte de Constantinopla. É provável, contudo, que no fundo do texto transmitido pelo ms. Borgia syr. 82 haja algo de Marouta, mas as adições nos impedem de reencontrar o estado primitivo. Quanto à explicação do símbolo, não pode remontar ao início do século V, pois nela se alude às controvérsias entre monofisitas e nestorianos.

Duas partes da coleção merecem atenção particular: os 73 cânones e o catálogo das heresias. Se o siríaco é o único a estabelecer no contexto uma relação entre Marouta e os 73 cânones, diz-se expressamente na coletânea canônica de Abu'l-faradj 'Abd Allah ibn at-Tibb († 1043), ms. Vatic. arab. 153, fol. 15, que eles foram «traduzidos por Marouta, bispo de Mayyâfârîqîn, a pedido de mâr Isaac». Sua fortuna foi grande, pois, se só se os encontra com sua ordem primitiva nas coletâneas nestorianas de Ibn at-Tibb e de Elias Djauharî († por volta de 900), ms. Vatic. arab. 157, fol. 31-52 v°, eles passaram, com outra distribuição, para a maior parte das coleções canônicas da Síria e do Egito, melquitas ou copto-jacobitas, formando uma parte do que se costuma chamar «cânones árabes de Niceia». Cf. Hefele-Leclercq, Histoire des conciles, t. I a, p. 158 sq. e n. 3. Não temos de nos estender sobre esta questão; vários cânones não podem remontar à época de Marouta. O sr. Braun pensa, todavia, que, para ajudar Isaac na reorganização da Igreja persa, o bispo de Maypherqat havia composto uma coletânea de certos regulamentos em uso na Igreja de Antioquia, e que essa coletânea formaria o fundo da coleção atual. Esta tese deve ser retida.

O catálogo das heresias, que interessa particularmente aos teólogos, parece indiscutivelmente autêntico: não contém nenhuma alusão às controvérsias cristológicas do século V, e as heresias que nele se encontram são bem aquelas que podiam ser citadas por um bispo da Mesopotâmia por volta do ano 400. Esse catálogo havia sido publicado em Mansi, Concil., t. II (1759), col. 1056-1060, numa tradução de Abraão Ecchellensis. Mas não se sabia o que pensar dessa passagem de um prefácio ao concílio de Niceia tirado ex arabicis Orientalium codicibus, sem nenhuma indicação de autor. A publicação de Braun, ao recolocar esse texto em seu quadro histórico, conferiu-lhe um novo valor; foi a ocasião para A. von Harnack reimprimir os elementos conhecidos, tradução do siríaco por Braun e do árabe, interpolado, por Ecchellensis, com um breve comentário histórico, Der Ketzer-Katalog des Bischofs Maruta von Maipherkat, dans Texte und Untersuch., N. F., t. iv, fasc. 1 b, Leipzig, 1899. A edição do texto siríaco ainda faltava; d. Rahmânî a publicou segundo o ms.

Borgia e um outro, sem lacunas, de Alqoch, com uma tradução latina e interessantes anotações segundo os escritores siríacos, Studia Syriaca, fasc. 4, Documenta de antiquis hæresibus, Charfé, 1909, p. 98-103 da paginação siríaca; introd., p. 29-55, trad., p. 76-80. Haveria sem dúvida pouco a ganhar, para o estabelecimento do texto, no exame das traduções árabes; é bom, contudo, assinalar que o catálogo existe sem interpolações na coletânea de Elias Djauharî, Vatic. arab. 157, fol. 19 v°-21 v°, e, sob uma forma menos pura, na Lampe des Ténèbres, c. i, § 18, Vatic. arab. 623, fol. 17 v°-20 v°; cf. art. Kabar (Sams ar-Ri'âsah Abû'-l Barakât), t. viii, col. 2293. Os heréticos mencionados são os judeu-cristãos designados com o nome de sabatianos, os partidários de Simão o mago ou simonianos, os marcionitas, os discípulos de Paulo de Samósata, os maniqueus, os audianos (texto siríaco de Rahmânî, traduções árabes de Elias Djauharî e de Ibn Kabar: fotinianos em Ecchellensis, nome em branco em Braun-Harnack), os borborianos, os koukeanos análogos aos samaritanos, os bardesanitas, os arianos, eunomianos e macedonianos, os montanistas, os timoteanos, que se assemelham aos apostólicos ou apotáticos de Epifânio, Hæres lxi (Harnack). Enfim, os cátaros ou novacianos.

J.-S. Assémani reivindicou também para o bispo de Maypherqat a composição de uma anáfora e de um comentário sobre os evangelhos, Bibl. orient., t. i, p. 179, mas esses escritos pertencem a um outro Marouta, morto bispo de Takrit em 649. As duas personagens foram confundidas e Takrit audaciosamente identificada a Maypherqat, ibid., p. 174. Este erro tem a vida dura; é assim que o encontramos na notícia do Dictionary of Christian biography, 1882, t. iii, p. 859; Kirchenlexikon, 2ª edit., 1893, t. viii, col. 958-960, sob a assinatura de Zingerle; The Catholic Encyclopædia, 1910, t. ix, p. 748; Enciclopedia universal ilustrada Europeo-Americana, Barcelone, t. xxxiii, p. 606. Além das obras mencionadas no decorrer do artigo, ver W. Wright, A short history of syriac literature, Londres, 1894, p. 44-46; Realencyklopädie für protestantische Theologie und Kirche, t. xii, Leipzig, 1903, p. 392 sq., art. de Nestlé; Rubens Duval, La littérature syriaque, 3e éd., Paris, 1907, p. 122 sq., 159 sq.; A. Baumstark, Geschichte der syrischen Literatur, Bonn, 1922, p. 53 sq.; O. Bardenhewer, Geschichte der altkirchlichen Literatur, t. iv, Fribourg-en-B., 1925, p. 380-385.

E. Tisserant.

Autor original: E. Tisserant

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