MARCOS EUGÉNICOS

MARCOS EUGÉNICOS

MARCOS EUGÉNICOS, arcebispo de Éfeso, teólogo grego da primeira metade do século XV. — I. Vida. II. Obras.

Vida. — Nascido em 1391-1392 em Constantinopla, onde seu pai Jorge Eugénicos exercia as funções de sacelário do patriarcado e de mestre-escola, Manuel (é o nome que havia recebido no batismo o futuro Marcos) não teve de início outro professor senão o próprio pai. Órfão aos treze anos, por volta do ano de 1405, estudou retórica com João Chortasmenos, e filosofia com Jorge Gemisto, famoso depois sob o nome de Pletão. Devemos essas informações a um sinaxário ainda inédito, mas que vamos publicar em breve, devido à pena de João Eugénicos, o próprio irmão de Marcos. Ao cabo de alguns anos, o aluno tornou-se mestre por sua vez, e viu agruparem-se em torno de sua cátedra numerosos discípulos, alguns dos quais têm grande nome na história. Tais são, para citar apenas os dois mais ilustres, Teodoro Agalliano e Jorge Escolário; ambos testemunham ter seguido as lições de Eugénicos, o primeiro numa autoapologia ainda inédita, mas que publicaremos em breve, o segundo numa carta escrita por volta de 1441 a seu antigo mestre, P. G., t. CLX, col. 710 A. Segundo o relato de Agalliano, o futuro arcebispo de Éfeso portava então o título de retor, cujas funções consistiam em explicar as santas letras na igreja patriarcal. Em 1416, por ocasião da morte do patriarca Eutímio, Manuel Eugénicos tornara-se νοτάριος τῶν ῥητόρων: é assim que ele mesmo se designa, no início do cânon que escreveu nessa data em louvor do prelado falecido, seu benfeitor.

Aos vinte e seis anos, por conseguinte por volta de 1418, abandonando suas funções e seus títulos, foi fazer-se monge, sob o nome de Marcos, na ilha de Antigoni, à entrada do golfo de Nicomédia. Viveu ali dois anos sob a direção de um certo Simeão, sobre o qual se gostaria de estar mais amplamente informado. Mas, tornando-se as incursões turcas cada vez mais ameaçadoras, mestre e discípulo julgaram prudente deixar a ilha para buscar na capital um abrigo menos precário. Fixaram-se no mosteiro de São Jorge dos Manganes, cuja localização acaba de ser reencontrada entre a ponta do serralho e Gul Hane, nas imediações de Deirmen-Kapou e de Demir-Kapou; foi nesse retiro que Marcos compôs, segundo seu irmão, a maior parte de suas obras; algumas não são mais que respostas a perguntas postas pelo imperador João VIII Paleólogo, e esse pormenor nos mostra em que estima se tinha na corte o monge dos Manganes.

Por isso não surpreende ver Marcos tomar parte nessas laboriosas conferências em que se elaboraram, entre Constantinopla, Roma e Basileia, os projetos que não tardaram a levar à convocação em Ferrara de um concílio geral, ao qual os gregos deviam comparecer. Durante as negociações, tendo morrido o velho arcebispo de Éfeso, Joasafe, Marcos lhe foi dado por sucessor no decurso do ano de 1437. É ainda ele que o patriarca de Alexandria primeiro, depois o patriarca de Jerusalém escolheram por procurador no concílio. Essa mudança de procuração ocorrera a pedido do imperador; como acarretava consequências na ordem das precedências, deu lugar a uma querela bastante viva, na qual o novo arcebispo de Éfeso deixou ver os primeiros sintomas daquela suscetibilidade melindrosa que ia mostrar-se no concílio em toda a sua fealdade. Finalmente, é como procurador do patriarca de Antioquia que devia sentar-se na assembleia. Fez-se a vela para a Itália em 27 de novembro de 1437, e em 4 de março de 1438 teve lugar em Ferrara a primeira entrevista do papa com os prelados. Quanto ao concílio propriamente dito, só se abriu em 9 de abril.

Sobre os primeiros debates de Ferrara, no decurso dos quais foi examinada a questão do purgatório, Marcos nos deixou três discursos de extensão desigual, mas altamente interessantes; tratar-se-á deles mais adiante no parágrafo relativo às suas obras polêmicas. No mês de outubro seguinte começou a fastidiosa discussão sobre a processão do Espírito Santo, ou antes, sobre o acréscimo do Filioque ao Símbolo. Na sessão de 10 de outubro, Marcos inaugurou, pela leitura e pela interminável explicação dos decretos dos primeiros concílios ecumênicos, o processo de obstrução do qual não devia mais afastar-se. Em seu notável discurso de 11 de novembro, o cardeal Juliano Cesarini quis acabar com essa irritante chicana do acréscimo para levar o debate ao terreno da própria doutrina. Marcos opôs-se a isso com todas as suas forças; mas os gregos, cansados afinal, tanto quanto os latinos, dessas estéreis discussões, decidiram passar adiante.

Nesse ínterim, o concílio foi transferido para Florença, onde as sessões recomeçaram em 26 de fevereiro de 1439. Em 2 de março, Marcos, querendo responder ao dominicano João de Monte Negro, pôs-se a discutir um a um os textos alegados em favor da tese latina, e essas escaramuças de textos não duraram menos de cinco sessões consecutivas: era de novo o marcar passo. Para sair desse impasse, o imperador convidou Marcos a expor simples e claramente a doutrina grega. Marcos o fez na sessão de 17 de março, e foi então que pronunciou o mais importante talvez de seus discursos dogmáticos. Feito isso, recusou-se a reaparecer no concílio, prosseguindo, nas reuniões privadas de seus compatriotas, sua irredutível oposição. Quando chegou por fim o momento de assinar o decreto de união, recusou-se obstinadamente a isso, provando assim aos gregos, sem o querer sem dúvida, que a liberdade em Florença não havia sido acorrentada pelos latinos.

Regressado a Constantinopla com seus colegas, em 1º de fevereiro de 1440, escapou-se de lá clandestinamente em 15 de maio para retirar-se a Éfeso. Mas ali o aguardavam dificuldades de outra ordem. Os turcos, senhores do país, pediram-lhe o berat ou diploma de investidura de seu bispado. Como não o tinha, viu-se alvo de importunações de toda espécie, que o fizeram por fim tomar o partido de ir ao monte Atos, entre os monges de Vatopedi. Mas, detido no caminho pelos emissários do imperador, foi mantido prisioneiro em Lemnos durante dois anos inteiros, do mês de agosto de 1440 a 4 de agosto de 1442. É nesta última data que foi libertado, como ele mesmo testemunha numa epigrama que publicamos e comentamos na Revue de l'Orient chrétien, 1923, t. xxiii, p. 414, 415.

Uma vez recuperada a liberdade, ele voltou a Constantinopla e ali prosseguiu a luta até sua morte, ocorrida num dia 23 de junho; o sinaxário, de que tomamos emprestado este interessante pormenor, acrescenta que ele tinha então cinquenta e dois anos. Mas, como o ano não é indicado, perguntou-se por muito tempo de que 23 de junho se tratava. Expusemos em outro lugar, Patrologia orientalis, t. xvii, p. 327 sq., os motivos que nos levam a escolher o 23 de junho de 1444. Em contrapartida, Mons. Mercati, que havia optado anteriormente pelo ano de 1445, hesita ainda em ficar do nosso lado, Scritti d'Isidoro il cardinale ruteno, Roma, 1926, p. 122-126. Como todos os pormenores de cronologia dados acima, na biografia de Marcos, repousam sobre essa data, queiram permitir-nos voltar aqui à questão.

Numa carta a João Basilicos, Jorge Scholarios fala de Marcos de Éfeso como de um homem já morto, P. G., t. clx, col. 655 D; diz aí também já ter publicado duas obras sobre a processão do Espírito Santo. Esta última passagem é omitida, como muitas outras, na muito defeituosa edição de Migne, mas se encontra na cópia da referida carta contida no Coislin 101, f° 286. Ora, essa cópia foi executada por Silvestre Siropulo, no mês de agosto de 1445. A conclusão se impõe: as obras de Scholarios são anteriores a essa data e, tendo a morte de Marcos ocorrido antes, a questão é saber se esse 23 de junho é o desse mesmo ano de 1445 ou se deve ser recuado para o ano precedente. Na Patrologia orientalis, loc. cit., adotamos a segunda alternativa, porque nos parecia materialmente impossível situar a composição e a transcrição das três obras acima mencionadas de Scholarios no curto intervalo que separa o 23 de junho de 1445 do mês de agosto seguinte, data da cópia do Coislin 101. Mons. Mercati pergunta, a esse propósito, se a subscrição do Coislin 101 se refere, sem exceção, a todos os fascículos do manuscrito. Não é essa a questão: basta que ela diga respeito à carta a João Basilicos; e é certamente assim. No Coislin 101, a carta de que falamos forma um caderno à parte, e a nota que nos ocupa vem imediatamente a seguir ao texto.

Mons. Mercati pergunta ainda se os dois livros sobre a processão do Espírito Santo mencionados na carta a João Basilicos devem ser obrigatoriamente identificados, como fizemos, com os dois volumosos tratados compostos por Scholarios, na sequência das quinze conferências contraditórias que esse autor teve com Bartolomeu Lapacci. Sobre este ponto também, estamos em condições de afirmar que se trata realmente desses e que só pode tratar-se desses, pois são os primeiros que Scholarios escreveu contra os latinos. E isso não é uma afirmação gratuita. Desde o c. i do l. Ier, Scholarios confessa ter tomado da pena para sair da situação falsa que lhe faziam gratuitamente, uns suspeitando-o de conivência com os latinos, outros acusando-o de guardar um silêncio culpável, outros enfim vendo-o procurar um terreno de conciliação. Como teria podido usar tal linguagem no início desse primeiro livro, se já tivesse tomado posição anteriormente por obras tornadas públicas? Se insistimos neste ponto, é porque ele é capital, pois sabemos por outro lado que Scholarios só saiu de sua reserva depois da morte de Marcos. Mons. Mercati, é verdade, chega a perguntar-se se a cena dos últimos momentos do arcebispo de Éfeso, essa cena dramática em que Scholarios promete ao moribundo mudar daí em diante de atitude, não terá sido um tanto embelezada por Agalianos, que reproduziu depois, de memória, as palavras trocadas então entre Marcos e Scholarios. Mas esse escrúpulo desaparece, se nos damos ao trabalho de comparar a passagem do c. i do l. Ier a que acabamos de aludir com o relato de Agalianos, tal como o publicamos, Patrologia orientalis, t. xvii, p. 489 sq.; de uma parte e de outra, o pensamento é idêntico. Há mais: o manuscrito que seguimos foi revisto por Scholarios, como o provam as notas autógrafas que assinalamos em nossa edição. É preciso, portanto, admitir que os dois livros sobre a processão do Espírito Santo visados na carta a João Basilicos são realmente os que indicamos como anteriores ao mês de agosto de 1445.

Consideremos agora essas duas obras em si mesmas: a primeira compreende nada menos que 250 páginas de um forte in-8°, e a segunda, 180 páginas do mesmo formato. Por mais que se amontoem hipóteses sobre hipóteses, não se chegará a situar a composição de duas obras dessa amplitude entre o 23 de junho e o mês de agosto de um mesmo ano. Somos, pois, forçosamente levados a recuar a morte de Marcos para o 23 de junho de 1444, e essa data é a única que concilia todas as dificuldades. Santo Antonino, é verdade, afirma em sua Crônica que Bartolomeu Lapacci, presente em Constantinopla com o legado pontifício Francisco Condulmer, discutiu publicamente com Marcos. R. Morçay, Chronique de S. Antonin. Fragments originaux du titre XXII (1378-1459), Paris, 1913, p. 6 sq., e sabemos, por outro lado, que Condulmer só chegou às águas do Bósforo no fim de julho de 1445. Mas santo Antonino, ao falar-nos da presença de Lapacci em Constantinopla por ocasião da visita do legado, não nos diz que ele tenha chegado à capital bizantina ao mesmo tempo que Condulmer; assim como dela partiu seguramente depois deste último, bem pôde ali ter chegado muito tempo antes e entregar-se com Marcos aos torneios teológicos lembrados por santo Antonino. Seja como for, a morte de Marcos de Éfeso deve ser certamente fixada em 23 de junho de 1444.

A oração fúnebre do defunto foi pronunciada primeiro por Scholarios, depois por João Eugênico, irmão de Marcos. A monódia composta por Scholarios foi publicada a partir do Parisinus 1218, f° 3-6, primeiro por A. Norov, Œuvres inédites de Marc Eugénicos et de Georges Scholarios, Paris, 1858, p. 68-88, depois no Ανάπλασις, n. 305-307, enfim por Sp. Lampros, que a julgava uma obra inédita, Παλαιολόγεια καὶ Πελοποννησιακά, Atenas, 1912, t. ii, p. 28-39. A monódia escrita por João Eugênico é tida como perdida, mas pensamos ter reencontrado dela um fragmento bastante longo. Scholarios compôs igualmente sobre Marcos um breve epitáfio, publicado por A. Norov, op. cit., p. 90, e como inédito por Sp. Lampros, op. cit., p. 42, com vários erros de leitura.

Quanto à segunda epigrama publicada pelo mesmo Lampros, ibid., p. 43, longe de ser, como afirma o autor, uma composição de Scholarios em honra de Marcos de Éfeso, é uma epigrama de Marcos de Éfeso ele próprio sobre Marcos, o eremita. Encontra-se ainda no mesmo Sp. Lampros, op. cit., p. 42, uma epigrama composta em honra de Marcos por Teodoro Agalianos; ela já havia sido impressa na acolutia de Marcos, edição de 1834, p. 54. João Eugênico compôs ainda, em honra do herói da ortodoxia grega, um ofício que por muito tempo se recitou na família dos Eugênicos. Editamos atualmente o texto dele em Studi bizantini, t. II, Roma, 1926, segundo dois manuscritos do monastério do monte: o n. 388, f° 764-768, de Iviron, Athos, e o Baroccianus 216, f° 346-351. É nessa fonte que foram haurido as informações novas contidas na notícia que precede; é aí também que havia haurido, sem o dizer, Manuel, o Retor, para a redação da estranha vida de Marcos que publicamos, Patr. orient., t. XVII, p. 491-522.

II. Obras. 1. Obras litúrgicas; 2. Epigramas; 3. Cartas e opúsculos científicos; 4. Obras oratórias; 5. Obras ascéticas; 6. Exegese; 7. Questões filosófico-teológicas; 8. Obras polêmicas.

1° Obras litúrgicas. Como a maioria dos escritores bizantinos, Marcos Eugênico estreou na carreira das letras por composições litúrgicas, naquele estilo verboso e vazio dos hinógrafos, em que a abundância de palavras supre a indigência do pensamento. Essas obras consistem ora em simples estiquiras em honra de algum santo, ora em cânones ou cânticos de nove odes, ora em acolutias ou ofícios completos. Alguns dos cânones foram publicados: um em honra do patriarca Eutímio († 1416), por É. Legrand, Revue des Études grecques, 1892, t. V, p. 422-426; oito em honra da Virgem Hodegetria, por Constantino Œconomos, nos Ὑμνῳδῶν ἀνέκδοτα, Atenas, 1840, p. 89-132. Semelhantemente, a acolutia de Simeão Metafrasta o foi por A. Papadopoulos-Kérameus em seus Ἀνέκδοτα Ἑλληνικά, Constantinopla, 1884, p. 100, 101. Mas isso é apenas uma parte muito pequena do que encerram os manuscritos.

Não contente de compor ele mesmo ofícios ou orações, Marcos nos deixou sobre algumas peças da liturgia comentários que não carecem de interesse. É primeiro uma Explicatio ecclesiastici officii conservada em grande número de manuscritos, como o Cosinitzensis 192, f° 55, o Canonicianus 50, f° 2, o Iberiticus 288, f° 219 v°-229, os Parisini 1218, f° 455 v°- (Vladimir), editada pela primeira vez pelo patriarca Dositeu em apêndice às obras de Simeão de Tessalônica, in-fol., Jassy, 1683, e impressa em P. G., t. CLV, col. 1164 sq. Certos capítulos desse tratado aparecem às vezes isolados nos manuscritos, como os trechos contidos nos Iberiticus 12 e no Cosinitzensis 192; são aí simples extratos, e não fragmentos, como o julgaram certos sábios. Assim, o trecho do Cosinitzensis se encontra em P. G., ibid., col. 1192. Em contrapartida, não se encontra em Migne um curto capítulo sobre as festas da Epifania ou o Dodecameron que os manuscritos nos conservaram, como o Reginensis 67, f° 16, o Iberiticus, o Hierosolymitanus, patriarcal 8; mas talvez a edição de Dositeu seja incompleta.

Possui-se ainda de Marcos um comentário puramente literário, ou melhor, literal, sobre as odes iâmbicas de são João Damasceno para a Epifania e Pentecostes; encontra-se ele no Vaticanus e no Ambrosianus 606 (M 1, 16 sup.), f° 184 v°-210. É o opúsculo tão infelizmente denominado Paraphrasis in Pentecostarium por Alácio, Dissertatio de libris ecclesiasticis Graecorum, p. 280, e, depois dele, por Fabricius-Harles, Bibliotheca graeca, t. XI, p. 676, P. G., t. CLX, col. 1075.

2° Epigramas. Como todos os bizantinos, Marcos Eugênico cultivou também a epigrama, e nos deixou nesse gênero cerca de vinte composições, algumas das quais não carecem de graça; seu assunto não entra no quadro deste dicionário. Todas essas peças foram publicadas, segundo o manuscrito de Cosinitza, por A. Papadopoulos-Kérameus, em Ἀνέκδοτα Ἑλληνικά, Constantinopla, 1884, p. 102-105. Ver sobre essa publicação o Δέλτιον τῆς ἱστορικῆς καὶ ἐθνολογικῆς ἑταιρείας, II, p. 679-681, e Ἀρχαιολογικὴ ἐφημερίς, 1886, p. 238-244. Embora muito curtas, essas modestas peças apresentam grande interesse histórico e reclamariam, para serem valorizadas, um amplo comentário que não estaria aqui em seu lugar.

3° Cartas e opúsculos científicos. Remetendo o leitor aos parágrafos especiais para as cartas de Marcos que versam sobre um assunto determinado, como a filosofia ou a controvérsia, mencionaremos aqui as duas cartas anônimas que contém o Laurentianus, plut. 9, cod. 13; como se encontram aí em meio a outros opúsculos de Marcos, vários sábios não hesitaram em atribuí-las a ele. C. L. Kayser as publicou primeiro em sua edição de Filóstrato, Philostratei libri de gymnastica quae supersunt, Heidelberg, 1840, p. 176-180. Reapareceram depois como inéditas na revista ateniense a Pandora, t. VI, p. 450-452. Não é aqui o lugar de iniciar uma discussão a propósito de sua atribuição a Marcos Eugênico, mas nossa impressão é que não são dele; fazem alusão à viagem ao Ocidente de Manuel II Paleólogo, e Marcos, no momento dessa viagem, não havia atingido o seu décimo ano. Poder-se-ia supor que ele só lembrou essa viagem como recordação retrospectiva; mas o teor da carta mal autoriza essa hipótese. Por outro lado, pode muito bem pertencer a Marcos Eugênico a carta dirigida por um Marcos, sacerdote e monge, a Isidoro, eleito metropolita de Kiev, para felicitá-lo por sua promoção: acaba de ser publicada, segundo o Vaticanus 706, f° 182-183 v°, por Mons. Giovanni Mercati, Scritti d'Isidoro il cardinale ruteno, Roma, 1926, p. 154-156.

Encontra-se em vários manuscritos um pequeno tratado de astronomia em quatorze capítulos intitulado Μέθοδος εἰς τοὺς ἐν Ἰταλίᾳ συστάντας νέους προχείρους κανόνας τοὺς καλουμένους κύκλους. Inc. Τῶν κανόνων τούτων σύστασις γέγονε μὲν παρά τινος τῶν ἐν Ἰταλίᾳ μαθηματικῶν. O matemático a que essas palavras fazem alusão não é outro senão o judeu Jacó Poel, que havia elaborado essas tábuas para a latitude de Perpinhão em 1331.

Durante sua estada na Itália, Marcos devia ter encontrado a obra e, encantado com sua simplicidade, a traduzira para o grego. Essa tradução se encontra no Ambrosianus 69 sup., nos Constantinopolitani S. Sepulcri 817 e 700, no Vatopedinus 188, 107, e enfim no Vaticanus 1879, f° 231-238 v°. Este último é uma cópia de Isidoro, o futuro cardeal rutênio, um dos mais calorosos promotores da união de Florença; sobre tudo o que toca a este tratado, ver Mercati, Scritti d'Isidoro il cardinale ruteno, Roma, 1926, p. 11 e 12-16. Se nos reportarmos ao Ambrosianus, a tradução datar-se-ia dos primeiros dias do mês de maio de 1431. Se a data não foi modificada pelo copista, como acontece frequentemente nos tratados deste gênero quanto aos exemplos tomados do ano em curso, essa tradução representaria a última produção literária de Marcos Eugênico. O Baroccianus 216, f° 360, contém um fragmento de cálculo pascal elaborado no ano de 1437; valeria a pena verificar se este tratado nada tem em comum com aquele de que acabamos de falar. É preciso dizer o mesmo do trecho seguinte Τοῦ ἁγίου Ἐφραὶμ πρὸς τὸ σχόλιον Ἰωάννου τοῦ Πεδιασίμου, que se lê no f° 161 v° do ms. n. 16 (II. 136) da Rossiana, entrado depois da guerra na biblioteca Vaticana.

4° Obras oratórias. Classificamos sob este título, em razão de seus caracteres gerais, não somente os discursos propriamente ditos, mas também essas espécies de composições muito apreciadas dos bizantinos que, sob o nome d'ἐκφράσεις, constituíam simples exercícios de retórica. C. L. Kayser, Philostratei libri de gymnastica quae supersunt, in-8°, Heidelberg, 1840, p. 129-175, publicou seis trechos desse gênero que atribui a Marcos Eugênico, mas os dois primeiros, p. 129-142, são expressamente atribuídos pelos manuscritos a Macário Macros. O 6° trecho é de João Eugênico, irmão de Marcos, segundo o testemunho dos manuscritos. O n. 5 é anônimo no único manuscrito que no-lo conservou; confessamos que certo ar de parentesco com os outros dois trechos, que são indubitavelmente de Marcos, é um argumento muito fraco para nos autorizar a atribuí-lo a ele. Assim, pois, dos seis trechos publicados por Kayser, só são de Marcos o 3° e o 4°.

O 3° se encontra em muitos manuscritos sob o título de Ἐφραὶμ ὁσία; é a descrição de um quadro representando os funerais do santo diácono de Edessa. Inc. Καὶ νεκρὸν ἔστιν ἐνταῦθα ἰδεῖν. O texto dele está conservado nos manuscritos seguintes: Cosinitzensis 192, f° 115, Iberiticus 388, f° 131, Laurentianus, plut. 4, cod. 21, f° 1, e plut. IX, cod. 11, f° 223, Parisinus 1291, f° 101-103 v°, Urbinas 111, f° 164-165, Guelferbytanus 82; é sobre este último que foi feita a edição de Kayser, op. cit., p. 142-154.

2. Uma segunda ἔκφρασις é intitulada Μάρτυρες στεφανῖται. Marcos descreve nela o suplício de um grupo de mártires e seu triunfo. Inc. Χαρίεν μὲν ἰδεῖν καὶ ἀγωνιζομένους τουτουσὶ τοὺς ὁπλίτας. Non, a conservaram o Cosinitzensis 192, f° 110, o Iberiticus 388, f° 131, o Laurentianus, plut. IX, cod. 14, f° 210-214, o Parisinus 1292, 101, o Guelferbytanus 82, de onde provém a edição de Kayser, op. cit. p. 154-163. Sob o título errôneo de Ecphrasis animam agentis, o opúsculo é citado por Alácio, De synodo Photiana, Roma, 544. Adão N. Diamantopoulos, que não compreendeu o latim de Alácio, transforma esse mesmo título neste Ἔκφρασις τῆς διαθέσεως. Ver seu livro: Μάρκος ὁ Εὐγενικὸς καὶ ἡ ἐν Φλωρεντίᾳ σύνοδος. É um famoso contrassenso que permite a esse entusiasta historiador de Marcos aumentar de um artigo a lista das obras de seu herói, estando a descrição Μάρτυρες στεφανῖται já citada na p. 266.

3. É ainda um exercício de retórica, mas desta vez sob forma de uma carta ao imperador João Paleólogo, o opúsculo Δῶρόν τοι τοῦτο μικρόν, ὦ μέγιστε βασιλεῦ. Nessa graciosa fantasia, o autor põe em paralelo quatro flores, a violeta, a rosa, o lírio e o açafrão. Encontra-se a peça no Cosinitzensis 192, f° 27, sobre o qual A. Papadopoulos-Kérameus a publicou, Ἀνέκδοτα ἑλληνικά, Constantinopla, 1884, p. 98-100, e no Ambrosianus A. 80 inf., que é incompleto; esse infeliz acidente não impediu Sp. Lampros, que ignorava a edição de Papadopoulos-Kérameus, de republicar o trecho, mas truncado, em Παλαιολόγεια, I, p. 33, 34. Assinalaremos entre os outros manuscritos os n. 163, 274 e 275 de Dionísiu no monte Athos, o Angelicus 18, f° 88 v°, o Ottobonianus 60, f° 265, o Parisinus 2005, f° 323, o Scorialensis III. Ω. 2, f° 142 v°. Leão Alácio, De octava synodo Photiana, Roma, 1663, p. 545, citou dele um curto fragmento reproduzido por P. G., t. CLX, col. 1104.

Afora esses ensaios de pura fantasia, restam-nos de Marcos peças verdadeiramente oratórias.

4. Commentarius in sanctum Eliam prophetam. Inc. Ἔδει μὲν ὡς ἀληθῶς ἡμῖν οὐρανοδρόμου τοῦ λόγου. Esta peça está conservada em três manuscritos de Oxford: Barocci. 145, f° 98-109, Canonici. 50, f° 26, Miscellanea 242, f° 267, no n. 91 do conde de Leicester, f° 38-54 v°, e no n. 388, f° 198, de Iviron, onde é incompleta. Escrito a pedido dos habitantes da ilha de Creta, esse panegírico, observa jocosamente Gregório, o protosincelo, valeu ao seu autor um duplo favor: de um lado, a proteção de santo Elias e, de outro, um barril de vinho cretense. P. G., t. CLX, col. 185 D. O panegirista, faz notar ainda o mesmo Gregório, afirma neste discurso que desde já os santos veem a Deus face a face, ao passo que pretende, em sua polêmica contra os latinos, que a visão beatífica é adiada até o dia do juízo. A observação é justa, e a passagem, citada por Gregório, loc. cit., se encontra textualmente nos manuscritos, por exemplo no Baroccianus 145, f° 107.

5. Homilia in dormitionem sancti patris nostri Macarii Corone. Inc. Ὁδῷ τινι ἔοικεν ἡ πρόσκαιρος αὕτη ζωή. A peça é muito magra em informações sobre Macário. O único pormenor a assinalar é que era originário de Tessalônica. Só que sabemos, por outro lado, que era higúmeno do monastério dos Manganes, e que fez parte, em 1430, da embaixada que se dirigiu ao papa Martinho V para tratar da união das Igrejas. Siropulo, Historia concilii Florentini, A Haia, 1660, p. 12. A monódia de Marcos é, portanto, posterior a essa data. Encontra-se o texto dela no Mosquensis 245 (Vladimir), f° 164-166, e no Scorialensis III. Ω. 12, f° 144 v°-147.

6. Μονῳδία ἐπὶ τῇ ἁλώσει Θεσσαλονίκης. Inc. Ὦ πικρᾶς ἀγγελίας. Esta peça, que deplora a tomada de Tessalônica pelos turcos em 1430, está conservada no Cosinitzensis 192, f° 82-92, de onde A. Papadopoulos-Kérameus publicou extratos no Annuaire du Syllogue littéraire grec de Constantinople, 1886, t. XVII, Suplemento, p. 52. Seria interessante compará-la com uma monódia semelhante de João Eugênico, irmão de Marcos, cujo texto possuímos, mas seria preciso para isso publicar simultaneamente os dois trechos.

7. Προσφώνησις ἱκετήριος τῷ μεγαλομάρτυρι Γεωργίῳ. Inc. Ἄριστε ἀθλητῶν, ἐμοὶ μὲν οὐδ’ὅθεν ἄρξομαι. Esta peça, que tem ao mesmo tempo do panegírico e da oração, se encontra no Cosinitzensis 192, f° 77, e no Iberiticus 388, f° 343, 344; nada oferece de interessante para a lenda do santo.

5° Obras ascéticas. Resta-nos relativamente pouca coisa das obras ascéticas de Marcos de Éfeso; por isso passaremos rapidamente sobre este capítulo.

1. Epistola ad Theodosium monachum lapsum. Inc. Ἐγώ σε πλησίον ὄντα μαθών. Vigorosa diatribe dirigida a um monge que havia deixado o hábito para tomar mulher. Lê-se nela, depois de uma comparação bastante prolixa entre o monge apóstata e o filho pródigo da parábola evangélica, um extenso extrato da carta de são João Crisóstomo ao monge Teodoro, ocasionada por uma queda análoga. Deve datar dos últimos anos de Marcos, que nela recorda suas lutas contra os latinos. O texto nos foi conservado no Ambrosianus 053, f° 11 v°-15.

2. De verbis in divina prece contentis: Domine Iesu Christe, fili Dei, miserere nobis. Há poucas orações que venham tão frequentemente como esta aos lábios dos monges do Oriente, e é natural que Marcos a tenha comentado num opúsculo ainda muito apreciado pelos leitores da Φιλοκαλία τῶν ἱερῶν νηπτικῶν, Veneza, 1783, onde apareceu em tradução neogrega. Os editores da Filocalia não lhe conheceram o autor, mas a paternidade de Marcos não poderia ser posta em dúvida, e vários manuscritos a atestam formalmente. Tais são o Cosinitzensis 192, f° 5, o Iberiticus 388, f° 256 v°, o Monacensis 256, f° 304, o Mosquensis 245 (Vladimir), f° 166-168, o Parisinus 1292, f° 94 v°-98.

3. Capita exhortatoria valde utilia. Inc. Σπούδαζε, ὅταν σε ἔρχωνται λογισμοὶ πονηροί. Estão contidos no Parisinus Suppl. gr. 64, f° 45 v°-47 v°, sobre o qual foi feita a edição greco-russa bastante defeituosa de Abraão Norov, Œuvres inédites de Marc d'Éphèse et de Georges Scholarios, Paris, 1858, p. 43-53. É dessa edição que são tomados os extratos publicados por fatias na revista ateniense Σωτήρ, t. XV, passim.

4. Dialogus super obedientia cum Isidoro quodam. Inc. Ἰσίδωρος. Ἤθελον, ὦ πάτερ, ὀλίγ’ἄττα περὶ ὑπακοῆς ἀκοῦσαί σου διαλεγομένου. É uma conversa sem grande originalidade sobre a excelência da obediência, conservada no Panteleemonensis 339, f° 71-75 v°, e no Cosinitzensis 192, f° 52 v°.

5. Canones octo contra praecipua vitia. Embora se apresentem sob a forma de um cânon litúrgico e estejam dispostas segundo a ordem dos oito tons, essas oito peças nada têm a ver com a liturgia; têm respectivamente por objeto os oito pecados capitais, cujos nomes seguem: a gula, a luxúria, a avareza, o desânimo ou o desespero, a ira, a preguiça, a vanglória, a soberba. Encontra-se o texto completo no Cosinitzensis 192, f° 82-112 v°, e no Panteleemonensis 339, f° 1-54 v°, ao passo que, contrariamente ao índice e mesmo ao título, o Parisinus Suppl. 64, f° 45-47, contém apenas o primeiro cânon da série.

Seria aqui o lugar de falar da Ὁμιλία εἰς τὴν θεοπαράδοτον εὐχὴν τὸ Πάτερ ἡμῶν ὁ ἐν τοῖς οὐρανοῖς, que se lê sob o nome de Marcos de Éfeso no Vindobonensis philol. gr. 195, f° 181-190; mas o Parisinus 2075, f° 385-393, atribui esse comentário a João Eugênico, irmão de Marcos, e sendo este último manuscrito autógrafo, é evidente que a peça em questão deve ser excluída do catálogo das obras do arcebispo de Éfeso. Uma conclusão semelhante se impõe para o Comentário sobre o símbolo, que vem, no mesmo manuscrito de Viena, imediatamente depois da Ὁμιλία sobre o Pai-Nosso, f° 190 v°-219 v°. Esse comentário, apesar do que diga o catálogo, não é de Marcos, mas de seu irmão, que formalmente o atribui a si no referido Parisinus 2075, onde ele próprio transcreveu sua obra nos f° 363-383.

6° Exegese. Entre os opúsculos de Marcos, há vários consagrados a elucidar certas dificuldades escriturísticas; por isso cremos dever assinalá-los à parte, embora não constituam um comentário propriamente dito, mas antes uma consideração de ordem escriturística. Eis a enumeração deles:

1. In illud: « Qui in forma Dei existens, non rapinam arbitratus est esse se aequalem Deo, sed semetipsum exinanivit, formam servi accipiens, in similitudinem hominum factus et habitu inventus ut homo ». Este trecho está conservado no Parisinus 1292, f° 118, e no Vatopedinus f° 458... publicado pelo monge Jasão na revista ateniense Σωτήρ, 1890, t. xiii, p. 65-71.

2. In illud: « Quot sunt centum numeri talentorum in parabola debitoris ». Idem: Cosinitzensis 192, f° 112, etc. Depois de examinar o que significa o número respectivo dos diversos talentos, Marcos pergunta-se, para terminar, se é possível não somente esconder o talento recebido, mas ainda destruí-lo.

3. In illud evangelii Si in Tyro et Sidone factæ essent virtutes, quæ factæ sunt in vobis, olim in cilicio et cinere pœnitentiam egissent. Visto que as cidades acima mencionadas teriam aproveitado melhor que os judeus a graça do Salvador, por que este não foi ter com elas? Não há nessa abstenção alguma injustiça? Tal é a questão resolvida por Marcos num curto opúsculo que nos conservou o Iberiticus 388, f° 843.

4. Sobre a aparente contradição que há entre certos conselhos evangélicos e a necessidade de manter a ordem social e de punir. Se é preciso abandonar a túnica a quem toma o manto, apresentar a outra face a quem vos feriu na primeira, dar a todo solicitante, perdoar setenta e sete vezes sete a quem vos ofendeu, para que guardar tribunais e promulgar leis? E se a mesma coisa pertence a todos e a cada um, como poderá o Estado subsistir?

Tal é o problema que Marcos examina num opúsculo que guardaram o Cosinitzensis 192, f° 120 v°, o Parisinus 1292, f° 84-88, o Panteleemonensis 339.

5. Se uma fé tão pequena quanto o grão de mostarda é capaz de transportar as montanhas, de onde vem que nem os apóstolos nem os outros grandes santos tenham realizado tal prodígio? E como, por outro lado, pôde são Paulo dizer: Si habuero OMNEM fidem ita ut montes transferam? Se é preciso ter toda a fé, omnem, que é feito dessa fé semelhante ao grão de mostarda do Evangelho? E se a fé semelhante ao grão de mostarda basta, por que o Apóstolo se serve da palavra omnis? A resposta que Marcos dá a este pequeno problema se encontra no Cosinitzensis 192, f° 71-73, no Mosquensis 245 (Vladimir), f° 84, e no Parisinus 1292, f° 87 v°-92.

6. De fructibus Spiritus. Inc. Οἱ καρποὶ τοῦ πνεύματος εἴρηνται μὲν διὰ τὸ δηλωτικόν. Curta consideração conservada no Parisinus 1292, f° 98, no Iberiticus 388, f° 941, no Panteleemonensis 339, f° 105 v°-107 v°, e no Vatopedinus 478, f° 108, sobre o qual foi feita a edição deste trecho aparecida no Σωτήρ, 1889, t. XII, p. 311, 342.

7° Questões filosófico-teológicas. Semelhantes como processo literário às questões de exegese que acabam de ser assinaladas, os problemas examinados nos opúsculos que vamos mencionar são bem distintos por seu objeto: versam sobre um ponto de ordem puramente moral, o mais das vezes partindo de uma dificuldade, seja de filosofia, seja de teologia. Agrupá-los-emos, pois, sob um mesmo título, não tendo o autor, em seus desenvolvimentos, se preocupado em respeitar ele próprio escrupulosamente os domínios respectivos de uma e outra ciência.

1. De angelis contra Argyropuli sententiam. Inc. Ὁ Θεὸς πῶς ὂν ἀκρότατον καὶ ἀδιάδοχον. Neste tratado, Marcos quis provar, contra Argiropulo, que, se Lúcifer caiu, não foi por não ter implorado de Deus a luz ou a graça (pois não simplesmente por negligência e por covardia). Indistintamente, assegura Marcos, cada um participa desde a origem da luz divina. O texto se encontra no Ambrosianus 6, no Cosinitzensis 192, no Iberiticus 388, no Parisinus 1292, f° 58, publicado como obra de Jorge Scholarios por Sp. Lampros em Ἀργυροπούλεια, Atenas, 1908, p. ρκʹ-ρκεʹ.

2. Ad reuerendum hieromonachum Isidorum de uita terminata. Inc. Οὔτ’αὐτὸς ἠπόρεις, ὦ μακάριε δέσποτα. Os limites da vida humana são fixados de antemão por Deus, ou dependem simplesmente das leis da natureza, sem nenhuma intervenção da predeterminação divina? Tal é a questão que Isidoro havia posto a Marcos. Este lhe responde por uma distinção entre a presciência divina, cujo caráter é absoluto, e a predeterminação, que só tem um valor relativo. Enquanto nada escapa à presciência divina, Deus só determina o que é bom. Por conseguinte, só a vida e a morte dos justos são determinadas por Deus, e é deles somente que está escrito que um cabelo não cairá da cabeça sem a vontade divina. Asserção errônea que um contemporâneo de Marcos, Jorge Scholarios, não hesitou em refutar com bastante vivacidade, em seu terceiro tratado da Providência, onde nos fornece, ainda por cima, interessantes pormenores a propósito da conferência realizada na presença do imperador. P. G., CLX, col. 1127. Ver a refutação de outro contemporâneo, Teófanes de Medeia, S. Eustratiadès, Κατάλογος τῶν κωδίκων τῆς μεγίστης Λαύρας τῆς ἐν τῷ ἁγίῳ ὄρει, Paris, 1925, p. 429, 430. Numerosos manuscritos nos conservaram o texto deste tratado de Marcos; tais são: o Atheniensis da Câmara dos deputados 229, f° 1, o Cosinitzensis 192, f° 33, o Monacensis 29, f° 160 v°-165, o Mosquensis 245, f° 145, o Matritensis 77, o Philippicus 1483, f° 80-85, os Parisini 963, f° 313 v°, e 2075, f° 237, o Scorialensis III. Ω. 2, f° 130 v°-134 v°. Não mencionamos os do Athos. Publicado por Boissonade nos Anecdota nova, Paris, 1814, p. 349-362, o tratado foi reproduzido por P. G., t. CLX, col. 1193-1200.

3. De resurrectione. Inc. Τὸ τῆς ἀναστάσεως δόγμα παρὰ μὲν Ἕλλησιν οὐδενὸς ἠξίωτο λόγου. Depois de afirmar, contra os pagãos e algumas seitas judaicas, o dogma da ressurreição, Marcos examina as dificuldades que esse dogma suscita sob o duplo ponto de vista da razão e da fé, tanto em relação ao composto humano quanto em consideração do estado de imortalidade em que Deus criou o primeiro homem. Por outro lado, como conciliar a verdade do dogma da ressurreição com o fato da decomposição total do corpo sobrevinda após a morte? O tratado não carece de interesse; encontra-se nos manuscritos Cosinitzensis 192, f° 47, Monacensis 29, f° 165-176 v°, Parisinus 1292, f° 67-75, Scorialensis III. Ω. 2, f° 127-130.

4. Ad reuerendissimum hieromonachum Dionysium de dominico et divino sanguine. Inc. Ἐζητημένον ἤδη τῷ μεγάλῳ πατρὶ Γρηγορίῳ τῷ Θεολόγῳ. Marcos estuda neste opúsculo o problema da redenção; pergunta-se a quem o sangue do Salvador foi diretamente oferecido e como esse mesmo sangue se tornou o resgate do gênero humano. Mss. Cosinitzensis 192, f° 12-15, Cyprius 31, f° 183-185, Iberiticus 388, f° 902, Parisinus 1292, f° 78-82.

5. De anima brutorum quæstio et responsio. Neste opúsculo, Marcos põe a si mesmo a seguinte questão: Se a alma humana é imortal porque se move a si mesma, por que as almas dos animais, que também se movem a si mesmas, não são igualmente imortais? É que, responde Marcos, a alma humana, substância dotada de inteligência, tem por destino natural viver separada de si mesma, pode sempre mover-se, e portanto é imortal, ao passo que nos animais a alma, longe de ser uma substância separada, não constitui senão uma atividade (ἐντελέχεια), uma potência atuante de seu próprio corpo; pode bem mover este, mas sem mover-se a si mesma. Não se poderia, pois, considerá-la como uma substância em perpétua atividade, e, desde então, como naturalmente imortal. Conservado nos manuscritos Cosinitzensis 192, f° 73 v°-75, Parisinus 1292, f° 92-94, este pequeno tratado foi publicado por Marg. Evangelidès nos Mélanges Kontos, Atenas, 1893, p. 395-397.

6. Um outro opúsculo é intitulado Εἰς τὸν βασιλέα Ἰωάννην τὸν Παλαιολόγον ἀπορήσαντα. Certos mss. acrescentam πρὸ τοῦ λατινισμοῦ, isto é, opúsculo composto antes do concílio de Florença, e não, como o entendeu Fabricius, dubitantem de Latinorum ritu, fazendo da expressão πρὸ τοῦ λατινισμοῦ um complemento de ἀπορήσαντα. Esta última palavra deve ser seguida de uma pontuação forte. Inc. Σὺ μέν, ὦ θειότατε βασιλεῦ, οὐ διαλείπεις. Marcos examina aí uma questão que lhe havia posto o imperador: Por que Deus criou o homem tão fraco, sem atrativo pelo bem e muito inclinado ao mal, a ponto de sua vida formar apenas uma sequência quase ininterrupta de pecados? Parece que o Criador deveria ou ter libertado o homem de suas paixões, ou lhe ter dado a força de se voltar para o bem, ou pelo menos não o ter por responsável, condenando-o ao inferno, por atos que ele não estava em condições de evitar. É, vê-se, o grave problema do mal e do livre-arbítrio. A resposta de Marcos é relativamente longa e de modo algum desprovida de interesse. Mss. Atheniensis 1202, f° 73-89 v°, Cosinitzensis 192, f° 15, Iberiticus 131, f° 150 v°-168, Mosquensis 244, f° 1-5, Parisinus 963, f° 300-313, Panteleemonensis 339, f° 81 v°-105 v°, Scorialensis III. Ω. 2, f° 134 v°-142, Vatopedinus 509, f° 1. Sp. Lampros publicou o início dele, Παλαιολόγεια, t. 1, Atenas, 1912, p. 135, segundo o n. 602 da Academia romena; ele não soube que todo o tratado, menos o início, já havia sido editado por A. Jahn, Zeitschrift für die historische Theologie, 1845, t. xv, fasc. 4, p. 46-73, segundo o Monacensis 495, f° 9-21, incompleto do começo. Marcos inspirou-se manifestamente em Nicolau Cabasilas; toma emprestado deste, não somente as ideias, mas passagens textuais, como o notou W. Gass, Die Mystik des Nikolaus Kabasilas vom Leben in Christo, Greifswald, 1849, p. 83-86. Só assinalaremos aqui, para memória, os três fragmentos que se leem, cada um sob um título especial, no Ambrosianus 86 (B. 33 sup.) f° 162 v°, 167, 167 v°, e nos mss. 329, n. 175, e 678, n. 29, do monastério de Iviron no monte Athos; são simples extratos do opúsculo de que acabamos de falar.

7. O tratado seguinte é exclusivamente teológico: tem por fim elucidar esta questão Διατί ἡ θεότης μονάς καὶ τριάς ἔστι, καὶ πρόεισι μὲν ἄχρι τριάδος, οὐ μὴν δὲ περαιτέρω. καὶ διατί μὴ ἔστι δυάς. Inc. Πρὸς μὲν τὴν τοιαύτην ἐρώτησιν οὐκ ἔστιν ἀπόκρισις. Marcos começa por fazer observar que, concebida nesses termos, a questão está mal posta; se ignoramos o porquê de tantas coisas que contudo nos tocam de perto, como pretender sondar o porquê dos mistérios divinos? Teria sido preciso dizer: De que maneira Deus é ao mesmo tempo uno e trino? ou: uma vez posto o princípio da unidade de Deus, como conciliar essa unidade com a trindade das pessoas? e, sabendo por outro lado que a trindade é uma verdade de fé, como harmonizá-la com a unidade? À guisa de resposta, Marcos desenvolve as seguintes proposições: 1. A unidade de Deus em três pessoas não é coisa impossível; 2. é conveniente que Deus, sendo uno, seja ao mesmo tempo trino; 3. é necessário que assim seja; 4. é não menos necessário que Deus, sendo trino, seja ao mesmo tempo uno. Mss. Constantinopolitanus scholæ nationalis 36, f° 103, Cosinitzensis 192, f° 113, Laurentianus, plut. 74, cod. 1, f° 262 v°-264, Mega Spelaion 48, f° 101 v°, Vatopedinus 478, f° 59-62.

8. Solutiones dubiorum quorumdam ipsi a quodam satrapa propositorum. Inc. Ποίου σχήματος ἐστὶν ὁ Θεός. Neste opúsculo, que apresenta com o precedente certa analogia quanto ao procedimento literário, Marcos responde a toda uma série de questões bastante díspares: 1. sobre o aspecto de Deus; 2. sobre a unidade ou a pluralidade dos céus; 3. sobre o céu; 4. sobre as regiões de baixo da terra; 5. a divindade encarnou-se toda inteira no seio da Virgem Maria? 6. o demônio existia antes da criação do mundo? 7. que queria o demônio quando dizia ao Salvador: Si cadens adoraveris me, dabo tibi omnia regna? 8. o paraíso está no céu ou sobre a terra? 9. o inferno é eterno ou não? 10. os quadrúpedes e as aves têm ou não discernimento? 11. o corpo, em suas ações boas ou más, segue a direção da alma? 12. de quantos elementos o homem é composto e quais são eles? 13. as mortes que sobrevêm por acidente são previstas e predestinadas por Deus? 14. as enfermidades corporais são causadas pelo demônio ou por Deus? 15. por que os bons têm tantos sofrimentos a suportar, enquanto os maus levam vida alegre? 16. que será, no fim dos tempos, da terra e do céu? 17. o fim dos tempos chegará sete mil anos depois da criação do mundo? 18. qual é o mais poderoso destes três elementos: o fogo, a água e o ar? 19. as almas dos justos e dos pecadores conhecem, antes do juízo final, a sorte que lhes está reservada? Esse curioso Quodlibetum se encontra nos mss. Ambrosiani 653, f° 94-97, e 899, f° 151, Monacensis 256, f° 136-143, Parisini 1218, f° 127-133, e Suppl. gr. 64, f° 48 v°-50, Scorialensis III. Ω. 2, f° 148. Propomo-nos editá-lo em breve.

8° Obras polêmicas. Antes de examinar as obras de controvérsia deixadas por Marcos de Éfeso, devemos começar por eliminar da lista que os bibliógrafos dela fizeram certo número de artigos que, por mais que sejam citados com complacência por esses mesmos bibliógrafos, nem por isso deixam de constituir embustes literários, ou atribuições errôneas, ou lamentáveis confusões. Um ex-jesuíta cretense, Nicolau Comneno Papadopoli, em suas Prænotiones mystagogicæ, p. 325, outorga a Marcos a seguinte obra: Apologia de fuga sua; em outro lugar, p. 172, atribui-lhe ainda um opúsculo intitulado Contra encyclicam Bessarionis; em muitos outros lugares, p. 42, 356, 420, cita, sob o nome do arcebispo de Éfeso, um Antirrheticum contra Andræam Colossensem. Fabricius, em sua Bibliotheca græca, registra sem suspeitar de nada essas três obras, e J. Hergenröther, P. G., t. clxi, col. 9, enumerando aqueles dos livros de Marcos que nobis hucusque occurrerunt, insere gravemente na lista os mesmos três opúsculos sob os n. 13, 14 e 15. J. Dräseke faz o mesmo em seu artigo Zu Marcus Eugenicus von Ephesus, em Zeitschrift für Kirchengeschichte, 1891, t. xii, p. 100; do mesmo modo Adão N. Diamantopoulos, Μάρκος ὁ Εὐγενικός, Atenas, 1899, p. 27 e 268, 269.

Ora, essas três obras, nunca o repetiremos demais, jamais existiram senão na fértil imaginação do falsário cretense, que continua ainda hoje a fazer ludibriados em plena Roma.

Fabricius, na notícia reproduzida, P. G., t. clx, col. 1071, cita o seguinte opúsculo: Opus adversus Latinos, ubi de Spiritu Sancto processione, de azymis, etc. Marcos Eugênico, sem maior fundamento dado, é o autor de um opúsculo de Metone — que, contra toda expectativa, como o notam escrupulosamente os sábios, é citado por Fabricius e por ele tomado do manuscrito de Viena — que começa assim — encontra-se, mas anônimo e com a menção, para Demetracópulo, Ὀρθόδοξος Ἑλλάς. M. atribui-o a Acominato, ao mesmo tempo que o mantém mais adiante, em sua notícia sobre Marcos, entre as obras do arcebispo de Éfeso. Não é aqui o lugar de procurar o verdadeiro autor do tratado; bastar-nos-á dizer que ele nada tem de comum com o estilo habitual de Marcos de Éfeso. Deve ser igualmente descartada a carta μετὰ τῶν πρέσβεων τοῦ πάπα, que Adão N. Diamantopoulos atribui a Marcos (segundo o ms. de Vladimir), f° 2-19. Essa carta tem por autor um arcebispo de Éfeso, como se exprime o título, mas como indica o conteúdo, que ele vivia sob o imperador Teodoro, é preciso evidentemente identificá-lo, não com Marcos Eugênico, mas com Nicolau Mesarites.

Em contrapartida, seríamos levados a atribuir a Marcos o tratado que certo monge Marcos compôs contra Barlaão e Acindino e que contém o ms. Coislin 288; Montfaucon publicou-lhe o índice, Bibliotheca Coisliniana, Paris, 1715, p. 104. Como veremos mais adiante, Marcos escreveu muito longamente contra Barlaão e Acindino, e bem pôde constituir, com fim prático, um repertório de textos análogo ao do ms. 288; seria preciso, para decidir a questão, verificar o emprego desses textos nos dois tratados compostos por Marcos entre essas datas. Sob os n. 16 e 17, dando os incipit, Fabricius assinala, primeiro Capita syllogistica, depois um Epilogus, que pertencem efetivamente ao arcebispo de Éfeso, mas não constituem duas obras independentes; o primeiro é um breve resumo, de que teremos de falar mais adiante, e o segundo não é senão a conclusão do discurso pronunciado em Ferrara, na sessão 25. Trata-se, pois, em um e outro caso, de simples extratos que se faria mal em continuar a citar como dois opúsculos distintos.

Feitas essas eliminações, pode-se, ao examinar as obras de controvérsia que constituem sem dúvida a maior parte da herança literária de Marcos de Éfeso, repartilas em duas séries, segundo as doutrinas que ele combateu: os acindinistas e os latinos.

1. A refutar os acindinistas, Marcos consagrou a mais luminosa de suas obras, a qual, se fosse impressa, não compreenderia menos de dois livros, contra um célebre teólogo de reputação mundial, morto em 1346, Demétrio Cidones, de Mitilene. A obra mencionada em P. G., t. CLX, não é descrita por nenhum dos historiadores da literatura bizantina. Depois de um prólogo, em que o autor expõe o fim que persegue, a obra se divide em dois livros, dos quais o primeiro, κατὰ τὰς τάξεις τῶν ἱερῶν γραφῶν, opõe à doutrina dos acindinistas os argumentos e os testemunhos dos Padres; esses dois livros são em seguida, numa série de 73 proposições ou capítulos, recapitulados em silogismos que se pode dizer constituírem o fundo natural dos dois livros precedentes, cuja doutrina resumem brevemente. Esses capítulos são intitulados Κεφάλαια συλλογιστικά κατὰ τῆς αὐτῆς αἱρέσεως τῶν Ἀκινδυνιστῶν. Foram publicados, primeiro por Serafim de Pisídia como suplemento à sua edição em três línguas do panfleto de Eustrácio Argentis intitulado Βιβλίον καλούμενον: Ῥαντισμοῦ, Leipzig, 1758, p. 227-256, depois como inéditos por W. Gass, Die Mystik des Nikolaus Cabasilas, Greifswald, 1849, p. 221-236.

Gass serviu-se, para sua publicação, do Vindobonensis theolog. 171 (Nessel), f° 1-11; não conheceu o ms. gr. n. 81 de Iviron, f° 611-621, nem o n. 250 do Roussico, f° 77-81, nem o n. 65 do Metóquio do Santo Sepulcro em Constantinopla, nem sobretudo os três mss. seguintes que contêm, antes dos Capita syllogistica, os dois grandes livros contra Calecas: Canon. 49, f° 10 v°-91 v°, Mega Spelaion 48, f° 2-65, Iviron 430, f° 1-91; o antigo n° 645 de Sp. Lampros. Esse sábio não reconheceu, ao examinar o ms., a natureza da obra nem seu autor: atribui-a a Gregório Palamas, ao passo que o nome de Palamas volta a cada página sob a pena do escritor, prova evidente de que esse escritor nada tem de comum, salvo a doutrina, com o fundador do palamismo. É preciso acrescentar em atenuação a Lampros que o manuscrito é incompleto do começo, acidente tanto mais lamentável quanto o ms. de Iviron é, segundo toda a aparência, em grande parte autógrafo.

Tanto nos Capita quanto nos dois livros syllogistica contra Calecas, Marcos desenvolve, com grande reforço de silogismos e de textos patrísticos mais ou menos desviados de seu sentido, a estranha doutrina posta em circulação por Palamas sobre as operações da essência divina, sobre a luz divina e sobre os dons do Espírito Santo. Ao ouvi-lo, há uma distinção real entre a essência divina e seus atributos, entre a natureza de Deus e as operações pelas quais ele entra em relação com a criatura. Em Deus, a bondade, a santidade, a imutabilidade, todos os atributos que concebemos, constituem outras tantas propriedades realmente incriadas e infinitas como a própria essência, sem que essa multiplicação em realidades infinitas altere em nada a unidade nem a simplicidade do ser divino. Enquanto a essência permanece inacessível, as operações se abaixam até nós, ainda que sendo eternas e infinitas como Deus. Deus é bem o que é, mas tem suas operações, confessa Palamas, prova evidente de que estas se distinguem realmente daquela. Quanto mais as operações se multiplicam, mais a essência é perfeita, e se, nas operações inferiores, se acham como que fundidas na essência, essas mesmas operações, à medida que se sobe na escala, se desprendem cada vez mais da essência, e seu número se torna infinito; por isso é ele soberanamente perfeito. Vendo-se a maneira como Marcos se ataca a Deus, a respeito da expressão de ato puro aplicada a Deus, tem-se o direito de perguntar-se se ele rompe com o sentido filosófico dos termos de que se cerca com tanta complacência.

Aplicando suas concepções sobre as manifestações divinas às divindades, Marcos afirma, com Palamas e sua escola, que a luz do Tabor, sem ser a própria essência divina, era no entanto incriada como a divindade das três pessoas da Trindade, de que era a emanação, distinta de Deus sem lhe ser estranha, imaterial e todavia suscetível de ser contemplada por olhos de carne auxiliados pela graça. Há mais. Semelhante à do Tabor, a luz de que os santos resplandecerão no céu é algo de incriado. Marcos identifica em certo lugar essa luz com o próprio Espírito Santo. Levando seus princípios até as últimas consequências, distingue com razão o Espírito Santo de seus dons ou graças, mas, como palamita irredutível, tem esses dons por realidades incriadas. Se o Espírito Santo vem às almas, não vem a elas em pessoa, mas por suas operações ou energias, incriadas como ele. É ainda essa energia incriada que opera nos sacramentos, ou que nos torna participantes da natureza divina. Se o princípio divinizador que age em nós fosse algo de criado, seríamos, afirma Marcos, os adoradores da criatura. Ao ouvir afirmações semelhantes, custa menos compreender que os adversários de Marcos o tenham acusado de diteísmo e de tritéismo.

2. Contra os latinos, Marcos de Éfeso escreveu tratados numerosos, mas pouco variados, sobretudo por ocasião do concílio de Florença, onde desempenhou o papel nefasto que se conhece. Durante as laboriosas sessões realizadas em Ferrara, compôs, seja sozinho, seja em colaboração com Bessarion e os outros delegados gregos, as três memórias ou discursos sobre o Purgatório, que publicamos, acompanhados de uma tradução latina, em nossa obra Documents relatifs au concile de Florence. I. La question du purgatoire à Ferrare, na Patrologia orientalis de R. Graffin, t. xv, fasc. 1, Paris, 1920. O leitor encontrará nessa coletânea todas as informações bibliográficas necessárias. O primeiro desses discursos intitula-se Confutatio articulorum, quos Latini exhibuerant, circa purgatorium ignem, op. cit., p. 39-60. Depois de enunciar a doutrina dos gregos sobre a vida de além-túmulo, apoiando-a em diversas autoridades, Marcos retoma aí, um a um, os sete argumentos que os latinos haviam apresentado em favor de sua doutrina, e enuncia, por sua vez, onze capítulos de argumentos em apoio da tese grega.

Tendo esses argumentos sido longamente refutados por João de Torquemada, Marcos replicou com um segundo discurso intitulado Ἀπολογία πρὸς Λατίνους δευτέρα, ἐν ᾗ ἐκτίθησι καὶ τῆς τῶν Γραικῶν ἐκκλησίας τὴν ἀληθῆ δόξαν, op. cit., p. 108-151. Nessa memória muito extensa, Marcos ensina que os justos não entram imediatamente na posse da bem-aventurança; que os pecadores não são entregues, logo após a morte, ao suplício eterno, mas que uns e outros permanecem presentemente nos lugares especiais que lhes são atribuídos, à espera da ressurreição universal que lhes abrirá, seja o céu, seja o inferno, provisoriamente fechados aos primeiros como aos segundos. Numa última memória, op. cit., p. 152-168, Marcos, a pedido dos latinos, traz diversos esclarecimentos sobre quatorze pontos que havia tocado em seu segundo discurso sem se exprimir com toda a precisão desejável.

Sem voltar aqui à parte tomada por Marcos de Éfeso nas discussões gerais de Florença, devemos assinalar as cartas e os opúsculos que publicou contra o concílio. Reunimo-los muito recentemente na seguinte coletânea: Documents relatifs au concile de Florence. II. Œuvres anticonciliaires de Marc d'Éphèse, na Patrologia orientalis de R. Graffin, t. xvii, fasc. 2, Paris, 1923. Deixando de lado os detalhes bibliográficos, que se encontrarão em nossa obra, vamos dar a lista desses diversos opúsculos acompanhando-a de uma breve apreciação:

1. Oratio in Eugenium papam IV, op. cit., p. 336-341. Nesta breve peça, que data dos primeiros debates de Ferrara, em abril de 1438, Marcos, depois de felicitar o papa por seu concurso à obra do concílio, intima-o de repente, em linguagem altiva e descortês, a pôr fim ao cisma cedendo aos gregos tanto sobre a processão do Espírito Santo quanto sobre a questão dos ázimos.

2. Testimonia quibus probatur Spiritum Sanctum e solo Patre procedere, op. cit., p. 342-367. Simples repertório de 121 números de autoridades escriturísticas e patrísticas nas quais Marcos se funda para sustentar que o Espírito Santo procede do Pai, com exclusão do Filho.

3. Capita syllogistica adversus Latinos de Spiritus Sancti ex solo Patre processione, p. 368-415. Em cinquenta e seis argumentos, que comportam muitas repetições e sofismas, Marcos ataca a tese dos latinos, que ele frequentemente deforma por meio de uma série de deduções cem vezes repelidas por eles. A composição desta obra suscita dificuldades que seria interessante elucidar definitivamente. Como esses Capita foram refutados em parte por Jorge Scholarios, em parte por Bessarion, perguntou-se, na esteira de Hergenröther, se Marcos não teria dado duas edições sucessivas de seu opúsculo. Seja como for, o Marcianus 527, que em boa parte é um autógrafo de Bessarion, contém, f° 93-103, apenas os capita censurados por este último, n. 21-39 de nossa edição. Do mesmo modo, o Parisinus 1270, f° 159 v°-174, apresenta apenas os capita refutados por Scholarios. Sem multiplicar as hipóteses, poder-se-ia supor que os dois censores, Scholarios e Bessarion, só tinham copiado os argumentos que pretendiam examinar, e que essa cópia fragmentária teria sido em seguida incorporada a certos manuscritos.

4. Dialogus de additione ad symbolum a Latinis facta, p. 415-421. Marcos repisa aqui, sob a forma de diálogo entre um latino e um grego, o velho agravo: adição do Filioque ao símbolo de Niceia-Constantinopla, contra a proibição expressa decretada pelos antigos concílios de alterar esse símbolo, como se fosse alterar um símbolo acrescentar-lhe fórmulas suplementares para dirimir as controvérsias que se produzem, e como se, em matéria de lei positiva, as decisões de um concílio, ainda que ecumênico, pudessem acorrentar a liberdade dos concílios seguintes.

5. Libellus de consecratione eucharistica, p. 426-434.

Marcos sustenta aí, contra a crença latina, que a consagração do corpo de Cristo na eucaristia não está ligada às palavras litúrgicas da instituição que o sacerdote recita, mas à epiclese que vem em seguida.

6. Confessio fidei Florentiae scripta, sed post absolutam synodum in lucem edita, p. 435-442. Composto em Florença, em maio ou junho de 1439, e tornado público em data posterior, este documento é uma curiosa manifestação do evidente partido tomado com que Marcos tratava a questão da processão do Espírito Santo, rejeitando em bloco toda a tradição ocidental e retendo da tradição oriental apenas os textos favoráveis à sua tese, sendo os outros, a seus olhos, inexistentes. As peças seguintes, escritas no Oriente depois do retorno da Itália, não são mais que uma longa série de protestos contra o concílio e a prova dos esforços inauditos empregados por Marcos para anular o pacto de Florença.

7. Relatio de rebus a se in synodo Florentina gestis, p. 143-149. Nessa espécie de autoapologia, o autor conta como, só entre todos os seus compatriotas, soubera resistir até o fim aos ataques dos próprios latinos, ao cansaço geral, à fome e aos presentes, para manter intacta a doutrina de sua Igreja e a fé de seus Pais.

8. Epistola encyclica contra Græco-Latinos ac decretum synodi Florentinæ, p. 449-459. Nessa encíclica dirigida a todos os cristãos que permaneceram ortodoxos, Marcos ataca com virulência os partidários da união, aqueles que ele chama com desdém, porque, embora reconheçam o primado, aceitam os ritos definidos em Florença. Contra a união, não se contenta em sustentar a luta em obras tornadas públicas: Marcos a prosseguiu com não menos energia em cartas privadas, das quais várias chegaram até nós.

9. Epistola ad Georgium Scholarium : quod nulla cum Latinis concordiam fieri posse existimet. Esta carta bastante viva data do verão de Éfeso, aonde Marcos se havia dirigido depois de sua fuga clandestina da capital, em 15 de maio desse ano. Tinha por finalidade arrancar Jorge Scholarios às tergiversações que manifestara em Florença ao propor a seus compatriotas, mais por política que por convicção, uma união leal com os latinos. Marcos devia acabar triunfando sobre as hesitações desse personagem, um dos mais influentes da época. Depois de ter replicado com ironia altiva, Scholarios cedeu logo às instâncias de Marcos, que lhe sucedeu na luta contra Roma.

10. Epistola ad Georgium presbyterum Methonensem contra Ecclesiam romanam, p. 170-171. Nesta curta missiva dirigida a um sacerdote de Metone, que nada tem de comum, a despeito das afirmações de Scholarios, Marcos zomba com amarga ironia dos ritos da Igreja romana, do emprego dos ázimos, até da tonsura e do fato de raspar a barba.

11. Epistola ad patriarcham Constantinopolitanum, p. 175. O nome do patriarca não é indicado, mas tudo leva a crer que se trata de Metrófanes de Cízico, eleito em 4 de maio de 1440. Marcos o exorta em termos prementes a confessar a verdadeira fé e a não se deixar abater por nenhuma desgraça.

12. Epistola ad præpositam monasterii pedii in monte Atho, p. 177-179. Nesta carta escrita depois dos amargos dissabores experimentados por seu autor em Éfeso, Marcos exprime o propósito que formara de ir partilhar a vida dos monges de Vatopedi, no monte Atos; mas, detido no caminho pelos agentes imperiais, exorta os destinatários a resistir ao movimento unionista.

13. Epistola ad Theophanem sacerdotem in Eubœa insula, p. 480-482. Trata-se de novo nesta carta daquela viagem ao Atos, tão infelizmente interrompida pela reclusão do autor na ilha de Lemnos; mas, abordando bem depressa o assunto habitual de sua correspondência, Marcos investe em termos injuriosos contra o novo metropolita de Atenas, partidário dos latinos, e suplica a Teófanes, sacerdote da ilha da Eubeia, que não negligencie nada para desviar o clero de comungar com esse prelado mercenário. A carta é datada de 16 de junho, provavelmente de 1441 ou mesmo de 1442, mas seguramente não — como quiseram certos historiadores — de 1440.

14. Epistola ad Theophanem monachum in insula Imbros. Marcos responde a Teófanes de Imbros, que lhe enviara uma memória contra o ato de Florença rogando-lhe que a fizesse chegar ao imperador: Marcos responde que o momento está muito mal escolhido, recusando-se ele próprio a renegar a assinatura aposta em Florença, tendo morrido um patriarca favorável ao latinismo — evidentemente Gregório, o protossincelo — no começo da discórdia.

D'autres opuscules de Marc ; o título foi riscado de propósito, como ela é inteiramente da maneira das outras composições de nosso fogoso controversista, já não duvidamos de que seja dele, e lamentamos, depois de a ter afastado de nossa coletânea das obras anticonciliares de Marcos de Éfeso, onde deveria naturalmente ter lugar. O autor lembra aí primeiro como o latinismo é um sincretismo de todas as heresias surgidas no curso da história. Com efeito, os ázimos não renovam a heresia de Apolinário e de Ário, e a processão do Espírito Santo ex utroque a de Macedônio? Aqui, o autor reproduz textualmente uma longa passagem da profissão de fé que compusera em Florença, prova evidente de que a carta é realmente dele. Prosseguindo em sua grotesca enumeração, afirma que os latinos, por causa de sua doutrina sobre o purgatório, são origenistas, assim como são monofisitas e teopasquitas pelos ritos que tomaram de empréstimo aos armênios. Toda a carta é desse tom: Marcos deve tê-la escrito ao sair da tormenta, de uma dessas crises de epilepsia que o minaram durante toda a vida.

16. Marci Ephesii morientis oratio ad amicorum cœtum et nominatim ad Georgium Scholarium, op. p. 184-191. Esta peça, que um dos assistentes, Teodoro Agallianos, reproduziu de memória, faz-nos assistir aos últimos momentos do arcebispo de Éfeso. Numa primeira parte, Marcos declara, diante da morte, não querer a nenhum preço a comunhão do patriarca ou de seus partidários; depois, dirigindo-se pessoalmente a Scholarios, conjura-o a receber de suas mãos desfalecentes a bandeira da ortodoxia e a mantê-la bem alta, mesmo quando ele próprio houver deixado a arena. Triste vida, que assim se acaba numa palavra de ódio e num gesto de maldição!

L. Petit.

Autor original: L. Petit

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