MANNING Henrique-Eduardo, anglicano convertido, arcebispo de Westminster e cardeal (1808-1892). Biografia. — II. Manning e os problemas religiosos de seu tempo (col. ... — 1902). III. Suas obras (col. 1914).
I. Biografia. 1° Sua juventude (1808-1832). Henry-Edward Manning nasceu em Totteridge, a 15 de julho de 1808, de uma família muito honrada: seu pai William Manning era membro da Câmara dos Comuns e diretor do Banco da Inglaterra; sua mãe, Mary Hunter, era irmã do lorde-prefeito de Londres. Seus primeiros anos transcorreram num meio pertencente à High Church; os bispos de Londres e de Lincoln, amigos de seu pai, frequentavam de bom grado a casa de campo de Totteridge. Foram ideias diferentes que encontrou em Harrow School, onde estudou até a idade de dezoito anos; as tendências latitudinaristas dessa escola são bem conhecidas, cf. Patrick O'Byrne, Lives of the cardinals, Londres, 1879, p. 39; ali mostrou mais gosto pela leitura e pelos exercícios corporais do que pelo trabalho. Seu pouco sucesso nos estudos, e sobretudo as dificuldades financeiras de seu pai, decidiram este a retirá-lo de Harrow para lançá-lo nos negócios; foi salvo por seu cunhado, John Anderdon, que se ofereceu para pagar-lhe os estudos em Oxford, 1827.
No colégio de Balliol, começou ele a dar mostras da energia que devia manifestar mais tarde: aut Cæsar, aut nihil, tal foi a sua divisa, e procurou desde então tornar-se César. O sucesso correspondeu aos seus esforços. A parte preponderante que tomou nas discussões da Oxford Union abriu-lhe a perspectiva de uma carreira política; suas qualidades certamente lhe teriam granjeado na Câmara dos Comuns um lugar de primeira fila. A ruína de seu pai tirou-lhe toda esperança desse lado (1830-1831). Tinha então vinte e dois anos; para onde dirigir a sua vida? Sua família instava-o a entrar no estado eclesiástico; ele mesmo sentia uma vaga atração, mas permanecia irresoluto. Foi somente em 1832 que se decidiu. A influência de miss Bevan, pertencente ao evangelismo, não foi alheia à sua decisão; ele a chamará sua mãe espiritual. Tomada a sua resolução, entrou, como fellow, no colégio de Merton, em Oxford, e preparou-se para as ordens por um estudo mais sério da teologia. Seu objetivo, ao renunciar ao mundo, é « viver para Deus e para as almas ». « Eu só duvidava, diz ele, do chamado divino. Receava avançar sem vocação. Mas era bem e unicamente um chamado de Deus... Era um chamado ad veritatem et ad seipsum. Experimentei-o como tal e o segui. » Purcell, Life of card. Manning, t. i, p. 93.
2° O sacerdote anglicano (1832-1851). Ordenado a 23 de dezembro de 1832, Manning partiu a 3 de janeiro seguinte para Lavington, onde foi coadjutor do rev. John Sargent, fervoroso do evangelismo. Alguns meses depois, tornava-se, por morte do titular, pároco de Lavington (maio de 1833); a 7 de novembro de 1833, desposava a filha de seu predecessor, Caroline Sargent. Quando essa união foi desfeita pela morte (24 de julho de 1837), Manning encerrou-se numa dor muda e só buscou consolação em seu zelo pelo serviço de sua paróquia. No mesmo ano, foi nomeado decano rural e, quatro anos depois, o novo bispo de Chichester, Shuttleworth, nomeava-o para o arquidiaconato de Chichester. Conservou esse posto até a sua conversão (1841-1850). Desempenhou essas diversas funções com o maior zelo. Na oração fúnebre que pronunciou sobre o cardeal, o bispo Hedley caracteriza assim a sua atitude para com o anglicanismo: « Enquanto Manning acreditou reconhecer no anglicanismo uma parte da Igreja do Cristo, amou-o e venerou-o com um respeito todo filial, e serviu-o com sucesso e fidelidade. » Hemmer, Vie du cardinal Manning, p. 34, 35.
A atenção do arquidiácono voltou-se particularmente para as missões; ajudado por Gladstone, realizou, para a constituição de um fundo permanente, o desenvolvimento da hierarquia anglicana nas colônias, e obteve a criação de novos bispados; sobre as crianças, empreendeu uma campanha, que prosseguirá como católico, pela educação cristã da juventude (1849); sobre a situação da Igreja anglicana na Irlanda, para salvaguardar-lhe os interesses, apoia o projeto que concedia uma dotação à Igreja romana nesse país (1845). Sua influência era tal que o rev. F. Denison Maurice, liberal e racionalista, dizia dele em 1849: « Só há um homem... capaz, se quiser, de salvar a Igreja da confusão em que se debate. É Manning. » Purcell, op. cit., t. i, p. 431. Dizia-se que estava destinado ao episcopado.
3° Sua conversão (1851). A crise de consciência que conduziu Manning do anglicanismo ao catolicismo durou de 1845 a 1850. Até 1845, nada podia fazer supor, nem em sua vida exterior, nem nos pensamentos que lançava em seu diário íntimo, que um dia se voltaria para Roma. Por sua família e suas primeiras relações, pertencia à High Church; a frequentação de seu condiscípulo de Oxford, Robert Bevan, e da irmã deste, em Trent Park, durante as férias, sua colaboração com Sargent em Lavington, fizeram dele um fervoroso do evangelismo, cuja influência se esforçou, em 1835, contra o arcebispo de Cantuária, por manter na Sociedade para a propagação da instrução cristã. O evangelismo, recrutado na Igreja baixa, oriundo de certo entusiasmo religioso, sem nenhuma base doutrinal, afastava do catolicismo.
Já deixara Oxford quando Keble pronunciou seu sermão sobre a Apostasia nacional, que devia ter tão profundo retumbo e dar origem ao movimento de Oxford. Manning permaneceu à margem do movimento até 1835. Entra então em relação com Newman, lê os Tracts for the Times, interessa-se por eles, promete a sua colaboração. Sua atenção começa a ser atraída para certas ideias, que terão uma influência considerável sobre a sua conversão: a noção de autoridade e a necessidade da tradição. O resultado foi afastá-lo do evangelismo e aproximá-lo da High Church; em seu sermão de Chichester sobre a Regra da fé (junho de 1838), rejeita o livre exame, para opor-lhe a fé da Igreja primitiva e a tradição. Tem fé na Igreja anglicana; está persuadido da legitimidade de sua hierarquia; ela é para ele a verdadeira Igreja.
Ele lhe é muito apegado, embora ela não lhe pareça ser o que deveria ser; desejaria vê-la libertada do Estado, independente em sua hierarquia e em sua doutrina, governando-se a si mesma, regulando os assuntos eclesiásticos, sobretudo as questões doutrinais, em sínodos provinciais; desejaria vê-la mais zelosa, mais apegada aos dogmas cristãos. É esse estado de espírito que, em 1836, o leva a votar a condenação do racionalista Hampden, proposto para uma cátedra de teologia em Oxford, que, em 1838, o faz erguer-se contra as pretensões do Estado sobre os bens eclesiásticos, The principle of the ecclesiastical Commission examined in a letter to the bishop of Chichester, e que, em 1840, o faz defender a existência dos capítulos diocesanos ameaçados no Parlamento. Seu ministério ressente-se da mudança que se opera em suas ideias; toma emprestadas ao catolicismo certas práticas. Em 1838, dedica-se à direção espiritual das almas piedosas e, algum tempo depois, ouve confissões em Lavington, em Chichester, em Oxford. Ele mesmo se confessa, vendo na confissão o « verdadeiro preceito da penitência. Somente quando se fala de confissão frequente é que pode haver questão de simples conselho. » Carta a H. Wilberforce, em Purcell, op. cit., t. i, p. 496. Está, contudo, longe dos anglo-católicos, e é erradamente que o incluíram no partido de Oxford. De Pressensé, Rev. des Deux Mondes, 1º de maio de 1896, p. 26. Separa-se dos tractarianos por sua aversão a Roma e por seu apego à obra dos reformadores do século XVI: censura em Newman « certas expressões sobre a supremacia pontifícia de que os romanistas poderiam tirar proveito », Carta a Newman, 23 de outubro de 1839, em Purcell, op. cit., t. i, p. 231, 232; não quer conciliação com a Igreja católica, conciliação tentada no tract 90. Depois da demissão de Newman de seu curato de Santa Maria (1843), ataca, em um sermão de aparato na universidade de Oxford, a Igreja romana de modo tão violento que, no dia seguinte, Newman recusa recebê-lo. A conversão de Newman (outubro de 1845) encontrou-o ainda tão apegado ao anglicanismo quanto antes. Escrevia ele a H. Wilberforce, dois dias antes dessa conversão: « Nada pode abalar minha fé na presença de Cristo na Igreja anglicana e em seus sacramentos. Sinto-me incapaz de duvidar de coisa alguma. » Purcell, op. cit., t. i, p. 504, 505.
Entretanto, ia chegar para ele o começo das dores que havia anunciado a Gladstone, quando William Ward publicara seu Ideal de uma Igreja cristã, inconciliável com os trinta e nove artigos. Newman havia composto, no momento de sua abjuração, um Ensaio sobre o desenvolvimento da doutrina cristã. Essa publicação, as numerosas conversões que se seguiram à do antigo cura de Santa Maria, manifestaram o grave perigo que corria o anglicanismo. Pediram a Manning que refutasse a obra. Ele recusou; mas a leitura que dela fez obrigou-o a voltar sua atenção para dois pontos que já o haviam preocupado: a unidade e a infalibilidade da Igreja. Esses caracteres, a verdadeira Igreja devia possuí-los. Outros pensavam como ele: muitas almas inquietas, prontas a seguir os novos convertidos, dirigiam-se a ele. Viu-se obrigado a examinar mais a fundo essas graves questões. Já em 1846, encontram-se em seu diário íntimo as primeiras dúvidas. « A Igreja da Inglaterra sofre em sua constituição, separada da Igreja toto orbe diffusa e da cátedra de Pedro, sujeita ao poder civil; ...sofre em seu funcionamento, por falta de disciplina, de unidade, de vida sacerdotal entre os bispos. » Purcell, op. cit., t. i, p. 483. A doença, arrancando-o em 1847 de suas ocupações exteriores, deixou-lhe mais tempo para a reflexão; ele se examina, suas dúvidas se precisam: são exclusivamente de ordem intelectual, produzidas por duas questões: a unidade e a infalibilidade da Igreja. Julga-se no bom caminho. « Tudo me prende ao anglicanismo, renunciar a ele equivaleria a morrer. » A. Laprimaudaye, Purcell, op. cit., t. i, p. 172. Mas não pode viver com suas dúvidas: quer estudar de perto os usos católicos e vai passar a convalescença em Roma. Uma primeira viagem, em 1838, o deixara indiferente, se não hostil: desta vez, frequenta as igrejas, é recebido por duas vezes por Pio IX, visita Newman, que se preparava para as ordens. Mas volta a Lavington sem que a luz se tenha feito nele, junho de 1848.
Foi preciso que dois fatos viessem mostrar-lhe com clareza a incapacidade radical da Igreja anglicana de conservar em si a unidade e a pureza da doutrina. Lorde J. Russell havia nomeado para o bispado de Hereford Hampden, professor em Oxford. O eleito era racionalista. Apesar de vivos protestos, foi sagrado pelo arcebispo de Cantuária. Que se pudesse sagrar bispo um incrédulo foi, para o arquidiácono de Chichester, uma prova de que a Igreja anglicana não tinha a assistência do Espírito Santo. De onde virá a fé dos fiéis? Não mais da Igreja, mas do juízo privado. Para que os bispos deixem fazer, é que não há unidade doutrinal no anglicanismo, é que não há mais teologia anglicana. « Não posso dizer que rejeito a teologia anglicana; simplesmente já não a conheço, já não creio nela. » Purcell, op. cit., t. i, p. 464. O rebaixamento e a incapacidade da Igreja anglicana pareceram-lhe ainda mais sensíveis no caso Gorham. O bispo de Exeter havia recusado dar a instituição para um benefício a Gorham, que negava a regeneração espiritual no batismo e que, por esse fato, foi condenado como herético pelo tribunal eclesiástico de Cantuária. O Comitê judiciário do Conselho privado, tribunal laico, obrigou o bispo de Exeter a dar a instituição: nova prova da sujeição da Igreja anglicana ao poder civil, de seu caráter mais político que religioso. O arquidiácono de Chichester tentou protestar, cf. Appellate Jurisdiction of the Crown in matters spiritual. A letter to Ashurst Turner, bishop of Chichester, Londres 1850. Mas sua voz encontrou pouco eco. Manning já não tinha confiança no anglicanismo: até então, ainda pudera responder às perturbações e inquietações dos amigos que se confiavam a ele, e detê-los na ladeira que os arrastava ao catolicismo, dando-lhes motivos de ordem moral. Daí em diante, reconhece-se incapaz disso.
Está convencido de que a Igreja é infalível, pela assistência do Espírito Santo, e de que essa infalibilidade não se encontra no anglicanismo, que não dá nenhuma importância às questões doutrinais. Nessas condições, já não podia permanecer arquidiácono de Chichester. Tendo-lhe seu bispo, Gilbert, pedido que convocasse o clero, a 17 de novembro, para protestar contra o breve de 29 de setembro de 1850, pelo qual Pio IX restabelecia a hierarquia na Inglaterra, expôs-lhe seu estado de alma e ofereceu-lhe sua demissão. Por instâncias de seu bispo, presidiu ainda essa reunião de seu clero, ao qual declarou não poder, pela primeira vez em sua vida, achar-se em comunhão de ideias com ele. A 8 de dezembro, retirava-se de Lavington, « desolado por deixar os fiéis aos quais consagrara os dezoito anos de sua vida de homem ». Purcell, op. cit., t. i, p. 598. A 6 de abril, com seu amigo Hope e Scott, abjurou nas mãos do jesuíta Brownbill e, a 13, recebia a confirmação e a comunhão das mãos do cardeal Wiseman.
Atribuiu-se a conversão de Manning à ambição frustrada. « Uma mitra o teria salvo », teria dito o príncipe consorte Alberto. Historiadores retomaram a frase e a acusação; R. Buddensieg, Manning, em Realencyklopädie, 3ª ed., t. xii, p. 233. Ora, o futuro de Manning parecia estar realmente no anglicanismo. Suas qualidades, suas relações faziam dele um personagem em evidência, chamado às mais altas funções. Convertido, que seria dele? Poderia ao menos esperar tomar lugar na hierarquia católica? Seu diário íntimo nos faz compreender que coragem lhe foi necessária para romper com seu passado e comprometer seu futuro. Sua conversão não se deve a um cálculo de ambição, é realmente, como ele mesmo disse, « uma conclusão da razão... uma convicção íntima da alma. Uma concepção da verdade, baseada em uma certeza sobrenatural e verdadeiramente divina, havia de tal modo enchido meu coração e minha alma que nem sequer por um instante surgiu a sombra de uma dúvida em meu espírito e em minha consciência ». Hedley, Oração fúnebre, Tablet, 1892, p. 124, citado por Hemmer, t. i, op. cit., p. 78.
4° O sacerdote católico (1851-1865). A ambição de Manning era o bem das almas: quis trabalhar por ele no catolicismo, como havia feito no anglicanismo. Havia sido sacerdote anglicano, será sacerdote católico; já a 29 de abril recebia a tonsura e, a 15 de junho, era ordenado sacerdote. Vai em seguida completar seus estudos teológicos em Roma, onde é recebido doutor a 25 de janeiro de 1854. Pio IX quisera retê-lo em Roma. Mas o arcebispo de Westminster havia compreendido quão útil lhe seria o novo convertido; para devolver à Igreja sua influência na Inglaterra, era preciso dar mais energia à ação dos católicos, reduzir a distância que os separava dos membros da Igreja oficial, elevar seu nível intelectual. Mais que os católicos de nascimento, os novos convertidos pareciam capazes de secundá-lo na obra de soerguimento do clero católico. Manning voltou, portanto, a Londres, entregando-se à pregação, ouvindo confissões, ganhando novos convertidos, entre eles Robert Wilberforce, fundando com Laprimaudaye a missão de São Pedro e Santo Eduardo, inspecionando as escolas diocesanas.
Sua primeira obra importante foi a fundação da Congregação dos oblatos de São Carlos, sacerdotes e missionários diocesanos. Entre as congregações que Wiseman restabelecera em Londres, não se encontrou nenhuma que se encarregasse das missões populares e se fixasse nos bairros pobres da capital; suas regras a isso se opunham. Cf. Carta de Wiseman ao P. Faber, em W. Ward, The Life and the Times of card. Wiseman, t. ii, p. 115 sq. Por isso encorajou Manning em seu empreendimento de fundar uma sociedade de sacerdotes. Plenamente de acordo com seu arcebispo, Manning deu aos poucos eclesiásticos reunidos em torno dele uma constituição inspirada nas regras que São Carlos Borromeu escrevera para seus oblatos, e os instalou no bairro deserdado de Bayswater (1857). A obra foi fecunda: logo foram fundadas igrejas e escolas; o arcebispo teve à mão um grupo de sacerdotes zelosos, com os quais podia contar absolutamente para as obras mais ingratas do ministério pastoral.
A colaboração de Manning com Wiseman ia tornar-se mais estreita a partir de 1857, data em que Pio IX o nomeou prevoste do capítulo de Westminster. Manning chegava « envolvido na tríplice desconfiança que devia suscitar um convertido, um ultramontano e um homem novo. » E. Dimnet, La pensée catholique dans l'Angleterre contemporaine, p. 50. Não devia tardar a entrar em conflito com G. Errington, que Wiseman obtivera de Pio IX, em 1856, como coadjutor com direito de sucessão. O bispo de Plymouth havia posto como condição para sua vinda a Westminster que suas decisões nunca seriam reformadas pelo arcebispo. Duas personalidades tão fortes como Manning e Errington dificilmente podiam viver em paz junto ao fraco Wiseman. O conflito irrompeu a propósito do instituto dos oblatos, fundado por Manning e aprovado pelo cardeal e pela Propaganda, a 10 de fevereiro de 1857. Dois oblatos haviam sido colocados no seminário Santo Edmundo para ensinar teologia. O clero ficou descontente: temia que Manning e seus religiosos introduzissem em seu seminário « um espírito romano e práticas romanas, isto é, em seu pensamento, maneiras menos francas e hábitos de delação. » E. Dimnet, op. cit., p. 57. De acordo com o capítulo, Errington pediu a exclusão dos sacerdotes de São Carlos do seminário. Wiseman viu-se sozinho com Manning contra toda a sua administração. O arcebispo e seu prevoste partiram para Roma a fim de defender seus direitos, em 1860, enquanto, de seu lado, Errington enviava um relatório. Errington ganhou a causa quanto ao ponto de direito, mas foi liberado por Pio IX de sua coadjutoria e de todos os direitos sobre a diocese de Westminster, a 9 de junho de 1862. Por morte de Wiseman, a 15 de fevereiro de 1865, Manning não estava entre os três candidatos apresentados pelo capítulo; tampouco foi o candidato da Propaganda. Não obstante, a 30 de abril de 1865, Pio IX o nomeou arcebispo de Westminster. Foi sagrado a 8 de junho e recebeu, a 29 de setembro, o pálio das mãos de Pio IX.
5° O arcebispo de Westminster (1865-1892).
Na direção de sua diocese, Manning mostrou-se homem de governo. Muito ativo, dotado de uma vontade inabalável, de uma coragem incansável, ao mesmo tempo flexível e tenaz, será verdadeiramente um chefe, não aceitando junto de si senão instrumentos dóceis, tratando ele mesmo de todos os assuntos, assumindo todas as responsabilidades. Pode-se dar como programa de seu episcopado aquele que, em 1890, deseja ver aplicado por seu sucessor: educação e instrução das crianças, salvação do povo pelos sacramentos, formação e multiplicação de sacerdotes que se assemelhem ao divino Mestre. As necessidades religiosas do povo estavam longe de poder ser satisfeitas quando ele se tornou arcebispo. Mais de vinte mil católicos, disseminados nos bairros populares de Londres, não tinham junto de si nenhuma escola. Antes de 1865, pudera, com seus oblatos, fundar três missões novas; em 1890, depois de vinte e cinco anos de episcopado, havia criado trinta e três missões e dezessete estações anexas. Para alcançar esse resultado, precisou trabalhar ativamente no recrutamento do clero; no mesmo período, o número de eclesiásticos subira de duzentos a trezentos e cinquenta.
Mais ainda que ao número dos operários evangélicos, prezava a sua formação. Quer um clero instruído e formado sobrenaturalmente, realizando o ideal de santidade que desenvolve no Sacerdócio eterno, The Eternal Priesthood, Londres, 1883. Não tendo podido obter a criação de um seminário único para a Inglaterra, fundou em 1867 o seminário São Tomás, em Hammersmith. Os que mais necessitavam desses socorros religiosos eram os numerosos irlandeses imigrados em Londres. A solicitude do arcebispo estendeu-se particularmente a eles. Mais ainda, Manning interessou-se por sua situação na própria Irlanda; apoiou Gladstone para obter da Câmara dos Comuns a desoficialização da Igreja estabelecida na Irlanda. Mais tarde, tomará partido por um Home rule cercado de garantias.
Não tardou que se constatassem os felizes resultados da ação empreendida por Manning para o soerguimento do catolicismo na Inglaterra. Vários fatos mostram quanto ele soubera impor-se e que progressos haviam feito os católicos na opinião inglesa. Quando foi elevado ao cardinalato por Pio IX, a 15 de março de 1875, recebeu calorosas felicitações, não somente dos grupos católicos ingleses e irlandeses, mas dos próprios anglicanos. Vinte e cinco anos antes, a mesma dignidade conferida a Wiseman (30 de setembro de 1850) havia provocado em toda a Inglaterra um acesso furioso de antipapismo. Desta vez a Inglaterra sente-se honrada; o lorde-prefeito de Londres concede ao cardeal, em 1889, a precedência sobre o bispo anglicano e, em 1890, o governo lhe reconhece posição principesca, entre o príncipe de Gales e o marquês de Salisbury. A mesma simpatia lhe é manifestada, numerosas mensagens de dedicação e de reconhecimento lhe chegam de todas as partes por ocasião de seu jubileu episcopal, 12 de junho de 1890. Da legislação desaparecem as medidas de intolerância; a lei sobre os títulos eclesiásticos, votada para protestar contra o restabelecimento da hierarquia na Inglaterra por Pio IX, não é aplicada e desaparece. O juramento imposto pela lei de emancipação de 1829 é suprimido em 1867; no mesmo ano, é devolvido aos católicos o direito de acesso ao cargo de lorde-chanceler da Irlanda; faltou pouco para que, em 1891, o mesmo direito lhes fosse concedido para o cargo de lorde-chanceler da Inglaterra e de vice-rei da Irlanda.
Em Roma, Manning era muito ouvido. Sempre foi cordialmente recebido por Pio IX e por Leão XIII. Encontrava-se em Roma por ocasião da morte de Pio IX, 7 de fevereiro de 1878, e esteve de acordo com a maioria para eleger o cardeal Pecci. Cf. Notas autobiográficas, Purcell, op. cit., t. II, p. 550. Aproveitou essa estada para obter a regulamentação de certas questões que interessavam à Igreja da Inglaterra: restabelecimento da hierarquia na Escócia (bula Ex supremo apostolatus apice, março de 1878); remanejamento das circunscrições das dioceses inglesas, elevadas de doze a catorze. Em 1879, apoia o pedido dos católicos ingleses para a elevação de Newman ao cardinalato, injustamente deixado de lado sob Pio IX, expondo, em uma carta ao cardeal Nina, os títulos do oratoriano ao reconhecimento dos católicos ingleses e da Santa Sé, ao mesmo tempo que o feliz efeito que essa medida produziria. Em 1880, leva a bom termo as negociações há muito iniciadas para a regulamentação das divergências entre os dois cleros, secular e regular (constituição Romanos Pontifices, de 8 de maio de 1881).
Tudo, contudo, não era perfeito, e Manning era o primeiro a dar-se conta disso. Nas notas autobiográficas que escreveu em 1890, examina longamente os obstáculos que se opõem ao desenvolvimento da Igreja católica na Inglaterra. Purcell, op. cit., t. II, p. 771-786. Vêm sobretudo do clero, que não é suficientemente culto, que não concorre para a vida civil da nação, permanecendo confinado na sacristia como na França. Sua pregação carece de profundidade; apega-se às devoções secundárias, em vez de instruir os fiéis sobre as grandes verdades do Evangelho. Não tem vida espiritual suficiente, seu ideal sacerdotal não é suficientemente elevado; os sacerdotes são simples dizedores de missas, mass-priests, máquinas de sacramentos, sacrament-mongers. Têm demasiado a rigidez dos High-churchmen. A perseguição teve por consequência deixar os católicos de nascimento ignorantes do estado espiritual dos anglicanos e dar-lhes o espírito de controvérsia. A polêmica destrói, prepara o terreno, mas não edifica. Para construir, para dar uma ideia nítida da verdade, é preciso ter um ponto de contato com os ouvintes, conhecer o que eles creem. Por fim, Manning assinala um último obstáculo, os jesuítas. Essa parte da nota não é dada por Purcell. Deve ser publicada em uma nova vida de Manning, pelo P. Tait. Cf. Thureau-Dangin, La Renaissance catholique en Angleterre au XIXe siècle, t. III, 7ª ed., p. 10, n. 2. Os jesuítas, como os religiosos das antigas congregações, não gozavam de favor junto ao arcebispo de Westminster; essas ordens lhe pareciam antiquadas; eram necessárias ordens novas, mais apropriadas às circunstâncias atuais, cujas regras fossem mais bem adaptadas às necessidades modernas.
Sem dúvida guardara a lembrança da pouca presteza dos religiosos em secundar o cardeal Wiseman na evangelização dos bairros pobres de Londres. Ao mostrar os obstáculos ao desenvolvimento do catolicismo, Manning indica os meios de superá-los: « um amor sobre-humano, um zelo e um espírito fraterno, atraindo a vontade humana à presença divina... quem quer que represente a Igreja católica na Inglaterra está obrigado a visar ao ideal mais elevado em todas as coisas. » Essa passagem da autobiografia pode ser considerada o testamento espiritual do cardeal. Morreu a 14 de janeiro de 1892. « O que mais se notou em seus funerais não foi a afluência de dignitários eclesiásticos, de sumidades sociais, de personagens oficiais, representantes da rainha e do príncipe de Gales, membros do corpo diplomático; foi a multidão prodigiosa de homens do povo, trabalhadores ou mesmo miseráveis de todo tipo, que seguiu o cortejo da igreja ao cemitério ou fez alas ao longo das ruas, todos, católicos, protestantes, socialistas, inclinando-se ou mesmo ajoelhando-se à passagem do carro fúnebre, para testemunhar seu reconhecimento e seu respeito por aquele que os havia amado e servido. Jamais semelhante demonstração popular havia saudado, em terra inglesa, os despojos mortais de um príncipe da Igreja romana. » Thureau-Dangin, op. cit., t. III, p. 307.
II. Manning e OS PROBLEMAS RELIGIOSOS E SOCIAIS de seu tempo. 1° O poder temporal. 2° O concílio do Vaticano. 3° Ideias teológicas de Manning. 4° A união das Igrejas. 5° A questão escolar. 6° A questão social. 7° Conclusão.
1° O poder temporal. — A guerra empreendida em 1859 pelo Piemonte, auxiliado pela França, tivera por consequência a anexação de uma parte das províncias pontifícias aos Estados de Vítor Emanuel (decreto de 18 de março de 1860). Aos protestos que se ergueram de todas as partes contra essa espoliação, Manning juntou o seu, em várias conferências dadas em Londres em 1860-1861. Essas conferências foram reunidas em um volume, The temporal power of the Vicar of Jesus-Christ, Londres, 3ª ed., 1880, tradução francesa por Chambellan, Conférences prêchées à Londres sur le pouvoir temporel du Vicaire de Jésus-Christ, 1863. Manning considera o poder temporal como providencialmente estabelecido para salvaguardar a autoridade espiritual do chefe da Igreja, para facilitar sua missão civilizadora. Combate o argumento que se podia invocar em favor da unidade italiana, o princípio da distinção dos povos por nacionalidades. Em outras conferências, em 1866 e 1867, tratou da soberania temporal dos papas em suas consequências políticas, de Roma, da revolução. Sermons on ecclesiastical Subjects, t. III, p. 1-76. Está convencido de que o poder temporal é absolutamente indispensável ao exercício regular da autoridade espiritual. Depois da realização definitiva da unidade italiana, com Roma por capital, sente-se essa convicção enfraquecer e suas ideias sobre esse ponto se modificarem. Em The Fourfold Sovereignty of God, Londres, 1871, dando como fundamento à independência do Sumo Pontífice o fato de ele ser o representante de Cristo, rei por excelência, e de não poder assim estar submetido a nenhum príncipe, parece admitir que essa soberania e essa independência não estão necessariamente ligadas a um retalho de território, mas residem essencialmente na independência plena e inteira em relação a todo soberano secular. « Enquanto o mundo for cristão, o pastor supremo permanecerá o que é e não será submetido a nenhuma autoridade humana. É nisso que consiste o princípio essencial de seu poder temporal. » P. 169.
Contudo, em 1877, The Independence of the Holy See, considera ainda o poder temporal como um fato providencial, como sendo, se não absolutamente, ao menos relativamente necessário ao livre exercício da autoridade espiritual. Justifica Roma historicamente: ela pertence mais à catolicidade do que à Itália. Invoca o testemunho de estadistas ingleses na Câmara dos Lordes, o de lorde Ellenborough (12 de junho de 1849) e o de lorde Brougham (20 de julho de 1849). Alguns anos mais tarde, nas notas manuscritas publicadas por Purcell, t. II, p. 574-581, emite ideias muito diferentes sobre o poder temporal. Duvida que seja oportuno que a Santa Sé continue a reivindicar um poder que já não seria capaz de exercer e que voltaria contra ela a nação italiana. Uma intervenção estrangeira seria impossível, perigosa; uma restauração desse gênero só pode fazer-se mediante populi italici voluntate. Que solução se poderia encontrar que desse satisfação à Itália e à Igreja, que garantias oferecer à independência da Santa Sé? Manning absteve-se de dar essas precisões.
2° O concílio do Vaticano. Manning devia trazer à reivindicação das prerrogativas espirituais da Santa Sé tanto ardor quanto à defesa do poder temporal. Surpreende-nos, à primeira vista, ver esse inglês e anglicano convertido afastar-se tão radicalmente da atitude de seus compatriotas e de seus antigos correligionários, entre os quais a desconfiança para com o estrangeiro e a antipatia pela papado estavam tão fortemente arraigadas. Se Manning pôde passar pelo tipo do ultramontano na Inglaterra, deve-o em parte a seu temperamento autoritário. Homem de ação e de vontade forte, era naturalmente levado a querer à frente da Igreja uma autoridade poderosa e indiscutível. Não se deve esquecer sobretudo que a razão determinante de sua conversão foi a impotência da Igreja estabelecida para manter intactos os dogmas cristãos, por falta de autoridade. Encontrando essa autoridade na Igreja romana, aceita-a e a ela se submete, como sendo o único meio de salvaguardar a fé; reivindica-a em sua mais forte expressão, a infalibilidade pontifícia, « mais preocupado em estendê-la do que em fixar-lhe os limites ». Thureau-Dangin, op. cit., t. III, p. 118. Tudo o que pode firmar e aumentar o poder pontifício parece-lhe justo e dever impor-se. Desde o primeiro sínodo que reúne depois de sua nomeação para a sé de Westminster, publica sem nenhuma restrição o Syllabus e a encíclica Quanta cura, que haviam sido promulgados no ano anterior. Em uma conferência de 1868, The Syllabus, Sermons on ecclesiastical Subjects, t. III, p. 77-101, dá às condenações do Syllabus um valor nitidamente dogmático: em seu chefe, nos erros relativos à fé e aos costumes, a Igreja e seu chefe gozam do privilégio da infalibilidade. Em 1867, começa uma campanha muito ativa pela definição do dogma da infalibilidade pontifícia. Estando em Roma para as festas do décimo oitavo centenário do martírio dos santos Apóstolos Pedro e Paulo, faz voto, com o bispo de Ratisbona, de trabalhar para que esse dogma seja definido no próximo concílio. Tomava lugar no partido extremo, « que queria uma infalibilidade quase ilimitada, atribuindo-a às menores diretrizes do papa; recusava aos teólogos o direito de discutir e interpretar o sentido e o alcance de cada ato pontifício ». Thureau-Dangin, op. cit., t. III, p. 117.
Pôs-se imediatamente à obra. Em uma carta pastoral de 8 de setembro de 1867, The Centenary of St Peter, tradução francesa, Le centenaire de saint Pierre et le concile général, Lettre pastorale à son clergé, suivie de trois bulles de Sa Sainteté le pape Pie IX, relatives au concile, 1869, demonstra a infalibilidade pelas provas clássicas: plenitude do poder espiritual dado a São Pedro, independentemente dos demais apóstolos, com missão e graça para ensinar e explicar as verdades da fé; permanência desse poder em seus sucessores. Em uma segunda carta pastoral, The Œcumenical Council and the Infallibility of the Roman Pontiff, tradução francesa, Le concile œcuménique et l'infaillibilité du Pontife romain, Lettre pastorale, 1870, empenha-se sobretudo em mostrar a oportunidade de sua definição e em expor os fatos em que se apoia a crença da Igreja, escolhendo suas provas de preferência entre os escolásticos ingleses, como Thomas Bradwardine e Anselmo de Cantuária. No mesmo ano, pronuncia um sermão para refutar as objeções populares, Popular objections to the Vatican Council, Sermons on ecclesiastical Subjects, t. III, p. 101-127. Além das objeções populares, Manning trabalha para repelir os ataques dos teólogos em um apêndice à sua segunda carta pastoral: refuta a obra de Mons. Maret, Du concile général et de la paix religieuse, põe em pratos limpos uma má interpretação que Mons. Dupanloup, em suas Observations sur la controverse soulevée relativement à la définition de l'infaillibilité au prochain concile, fizera de sua carta pastoral; persegue energicamente o livro de Janus, Du pape et du concile. Seu ardor o impelia a aceitar uma discussão pública com um presbiteriano, John Cumming, que lho havia pedido. Roma se opôs, oferecendo, contudo, designar uma comissão de teólogos, que discutiriam com John Cumming e responderiam às objeções levantadas pelos protestantes contra a infalibilidade, Collectio Lacensis, t. VII, col. 1144-1146.
Os preliminares deixam supor a parte muito grande que Manning devia tomar no concílio. Fez parte de duas comissões: da comissão encarregada de examinar as propostas alheias à iniciativa do soberano pontífice (a infalibilidade fazia parte delas); e da deputação da fé; foi escolhido para essa comissão pelos bispos italianos; seus compatriotas lhe haviam preferido Grant, de Southwark. A influência do arcebispo de Westminster foi preponderante na decisão tomada pela comissão de postulação de rogar ao soberano pontífice que submetesse ao concílio a petição relativa à definição da infalibilidade; a assembleia recebeu o requerimento, assinado por quatrocentos bispos, a 20 de janeiro de 1870, Collectio Lacensis, t. VII, col. 924. As discussões, contudo, não estavam encerradas por essas manobras: a minoria se esforçava, por toda sorte de medidas dilatórias, em impedir a definição. A intervenção das potências era sobretudo de se temer. Para agir eficazmente junto ao governo inglês, Manning obteve ser dispensado do juramento de discrição. Pôde assim informar, por carta, Gladstone, agir sobre o agente diplomático inglês em Roma. Mantinha a par o ministério do Foreign Office, contrariar a influência nefasta de lorde Acton que, de Roma, enviava relatórios desfavoráveis. Conseguiu assim fazer que o gabinete inglês rejeitasse as propostas do príncipe de Hohenlohe, presidente do gabinete bávaro, que havia solicitado ao governo inglês tomar a iniciativa de uma intervenção das potências europeias, com o fim de defender os direitos dos Estados que tinham súditos católicos contra as invasões do concílio. As atas do concílio assinalam apenas uma intervenção de Manning, no curso da discussão, Collect. Lac., t. VII, col. 746; sua ação se exercia sobretudo sobre os membros da minoria. Deu seu placet ao voto solene, 18 de julho de 1870.
Terminado o concílio, explica e defende a definição. A 13 de outubro publica uma carta pastoral, The Vatican Council and its definitions, em que expõe o verdadeiro sentido da fórmula conciliar, lança censuras contra a atitude dos opositores ao concílio, guardando toda a sua severidade para os sacerdotes. Essa carta pastoral foi reunida às de 1868 e 1869 em um volume intitulado Petri Privilegium, Three pastoral letters to the Clergy of the diocese, 1871. Depois do concílio, a fidelidade dos súditos católicos ingleses fora posta em dúvida por Gladstone, que a julgava incompatível com as decisões tomadas no Vaticano. Intimava-os a justificar-se, The Vatican decrees in their bearing on civil allegiance, a political exposition, Londres, 1874. Esse ataque proporcionou a Manning a ocasião de esclarecer a nação inglesa. Em uma carta ao Times, a 7 de novembro de 1874, afirma que os decretos do Vaticano não mudaram um iota nas obrigações e nas condições da lealdade civil. Desenvolve essa ideia em The Vatican decrees in their bearing on civil allegiance, Londres, 1875. Não lhe foi difícil desafiar o antigo ministro a apoiar seus ataques em um único fato preciso, nem mostrar que os católicos, por sua fé, seriam os mais fiéis dos súditos. Gladstone acabou por compreender, pois em 1880 propôs tornar acessíveis aos católicos os postos de lorde-chanceler da Inglaterra e de vice-rei da Irlanda. Para completar sua obra, só restava a Manning escrever uma história do concílio do Vaticano.
Fê-lo por instâncias de seus amigos, desejosos de ver recolocados em sua verdadeira luz os fatos desnaturados pelos adversários, The true story of the Vatican Council, Londres, 1877; 2ª edição, 1878; tradução francesa, Nothomb, L'histoire vraie du Concile du Vatican, Paris, 1877, obra composta sobretudo com o auxílio de suas lembranças pessoais e da caderneta de notas de um « eminente e douto bispo do concílio ».
A atitude de Manning na questão romana e no concílio do Vaticano valeu-lhe ser considerado o tipo do ultramontanismo inglês. R. Buddensieg, em Protest. Realencyklopädie, 3ª ed., t. XII, p. 230 e 233. Isso é exato para os primeiros tempos de seu episcopado, e demos acima a explicação. Todavia, vê-se, a certa altura, Manning suportar dificilmente a intervenção de Roma nos assuntos da Irlanda e da Inglaterra. Parece muito que suas ideias sobre o exercício do poder pontifício tenham sofrido a mesma evolução para uma concepção mais moderada, como vimos ocorrer com a questão do poder temporal. De certas dificuldades pessoais com o Santo Ofício (caso de Mons. Capel), das diretrizes dadas por Leão XIII aos católicos irlandeses, condenando o fenianismo, ao passo que ele mesmo era partidário do Home rule e favorável ao « Plano de campanha » de Parnell, conclui que Roma nem sempre foi bem informada e esclarecida e faltou por vezes à prudência. Notas autobiográficas, em Purcell, op. cit., p. 625, 626. É por isso que vê com desconfiança a missão de Mons. Persico na Irlanda, a de Mons. Ruffo Scilla, enviado por Leão XIII, em 1887, para levar os cumprimentos do papa à rainha por ocasião de seu jubileu. Sobretudo, mostra-se contrário ao envio de um núncio à Inglaterra; a presença permanente de um representante da Santa Sé na Inglaterra seria inútil e nociva.
« Que bem poderia fazer um legado que um bispo não pudesse fazer infinitamente melhor, com mais eficácia e sem provocar suspeita e antagonismo popular? » Enviar um núncio à Inglaterra seria pôr fim à independência da Igreja em relação ao Estado, pôr a nomeação dos bispos na dependência do poder civil, arruinar a influência que a Igreja tem de sua liberdade. Roma, aliás, será mais bem informada pelos bispos ingleses do que por um representante oficial que não fará senão apresentar as visões do governo. « O povo inglês pode suportar um enviado especial durante um dia ou dois, mas a presença permanente de um legado seria a ruína de toda a minha obra na Inglaterra durante os últimos trinta anos. » Purcell, op. cit., II, p. 711. « Largaríamos a presa pela sombra, escreve numa nota de 10 de julho de 1887, se arriscássemos a liberdade fundada na igualdade perante a lei pela vantagem de algumas relações diplomáticas. » Ibid., p. 742, 743. Tudo isso não é falso. Mas não se pode ver, sob a expressão de ideias justas, um pouco do descontentamento do primaz da Inglaterra, do homem autoritário, que teme ver sua importância e sua autoridade diminuídas pela presença em Londres de um representante direto da Santa Sé? Essa mudança nas ideias do cardeal, embora não se manifestasse publicamente, desagradou à cúria. O próprio Manning conta que o diretor de uma publicação editada pelos jesuítas recebeu a ordem de não pronunciar com elogio o nome do cardeal Manning. Thureau-Dangin, op. cit., t. III, p. 258.
3° Ideias teológicas de Manning. Sua primeira obra é formada de quatro conferências pronunciadas, em 1856, na igreja catedral de São Jorge, em Southwark, diante de um auditório composto em grande parte de anglicanos, The grounds of Faith, tradução francesa, Les fondements de la foi, Tournai, 1859. Encontram-se aí, expostas com cuidado, as ideias que provocaram a conversão do autor. A verdade religiosa deve ser definida e certa. Nenhuma doutrina oferece esses caracteres, a não ser « a doutrina integral, gravada, não pela mão do homem, mas pelo Espírito de Deus, na razão iluminada da Igreja, e chegada até nós, perfeita e inteira ». Fondements de la foi, p. 29. Há apenas uma testemunha autorizada da Tradição, que é a Igreja; a Escritura, interpretada pelo fiel, é insuficiente! só tem valor exposta pela Igreja, pela Igreja universal, encarnada na Igreja de Roma. A Igreja é uma testemunha divina e infalível; e é porque houve na Igreja anglicana teólogos que se apoiaram « na regra de Vicente de Lérins, isto é, no que foi crido em todo tempo, em todo lugar, por todos os homens, ...que puderam entreter a ilusão de que essa Igreja ainda fazia realmente parte do grande império católico, repousando sobre a unidade e a infalibilidade da Igreja de Deus... ilusão que teve um efeito providencial... pôr obstáculo à licença protestante, reconduzir os homens à autoridade e pôr-lhes nas mãos um meio de prova. » Fond. de la foi, p. 65-67. A Igreja universal tem sozinha autoridade para decidir o verdadeiro sentido da verdade revelada, para pôr termo às controvérsias doutrinais. A ausência dessa autoridade, o livre exame, têm por consequências inevitáveis obscurecer a revelação, dissolver a unidade da Igreja, tirar da Escritura seu caráter sobrenatural.
Dos Fondements de la foi, deve-se aproximar um opúsculo publicado no fim de sua vida, Religio viatoris, Londres 1888, pequena apologia popular, em que expõe os quatro motivos da fé: a existência de Deus, provada pela razão; uma revelação reclamada pelo senso moral e pela consciência; a presença dessa revelação no cristianismo; o verdadeiro cristianismo, demonstrado pela razão e pela história no catolicismo. A melhor prova do catolicismo é a própria Igreja, ela dá testemunho de si mesma. « Tirai do mundo católico a Igreja romana, e far-se-á um vazio que não se poderá mais preencher. » Relig. viat., p. 76. Essa última ideia é desenvolvida em outro estudo apologético do mesmo ano, The Church, its own witness, em Miscel., t. III, p. 431 sq. A autoridade da Igreja, suas prerrogativas, sua ação sobrenatural explicam-se pela presença nela do Espírito Santo, The temporal mission of Holy Ghost, Londres, 1865, tradução francesa por J. Gondon, La mission temporelle du Saint-Esprit, ou Raison et Révélation, Paris, 1867.
O Espírito Santo exerce na Igreja a missão que recebeu do Pai e do Filho, completa a revelação, é a verdadeira causa da unidade da Igreja. Manning examina, sob seus diferentes aspectos, a missão do Espírito Santo: sua ação na Igreja, as relações da razão e da revelação, a Escritura, cuja inerrância é garantida pelo Espírito Santo e que é interpretada infalivelmente pela Igreja docente, a transmissão pela Igreja da doutrina revelada, doutrina sempre viva. Fixa e permanente em todos os dogmas fundamentais, que exprimem a ordem eterna e imutável das verdades divinas e dos fatos divinos, a teologia dogmática é progressiva em todas as suas operações secundárias de definições e de deduções. » Mission of H. G., p. 299. O Espírito Santo age muito particularmente no chefe da Igreja. Cristo « enriquece o pontífice de graças extraordinárias e lhe proporciona a assistência do Espírito Santo, de que ele é o órgão na Igreja e no mundo. Todas as provas divinas e humanas, todas as luzes naturais e sobrenaturais que ilustram e esclarecem a revelação divina, que lhe defendem e conservam a fé e o espírito, encontram-se, por um dom especial, reunidas no chefe visível da Igreja. » Miscell., t. II, p. 191.
4° A união das Igrejas. As ideias de Manning sobre a reunião do anglicanismo ao catolicismo estão expostas em England and Christendom, Londres, 1867. Essa obra contém, depois de uma introdução em que expõe os princípios que o guiam nessa questão, duas cartas a um anglicano sobre a atitude da coroa para com os autores de Essays and Reviews e para com a Assembleia do clero e da província, The Crown in Council on the Essays and Reviews, The Convocation and the Crown in Council, p. 1-81; uma carta de 1861 a Pusey, sobre a ação do Espírito Santo na Igreja da Inglaterra, The Workings of the Holy Spirit in the Church of England, p. 81-137; e uma carta pastoral (1866) sobre a reunião das Igrejas da cristandade, The reunion of Christendom, p. 137-227. O princípio a que Manning será sempre fiel é que não pode haver questão de negociações que acarretem concessões, transações doutrinais da parte da Igreja romana: a Igreja católica, infalível, não poderia abandonar nenhuma parcela da verdade revelada: é somente pela aceitação integral da doutrina romana que a união pode realizar-se. Por isso não tem nenhuma confiança nas tentativas feitas pelos anglicanos na Association pour procurer la réunion des diverses parties de la chrétienté, fundada em 1864 e condenada, aliás, por Roma, nem na diligência feita, depois dessa condenação, por 198 clergymen junto ao cardeal Patrizi. A Igreja anglicana, que tanto variou desde o século XVI, que admite as opiniões mais extremas, não pode pretender ser um ramo legítimo da verdadeira Igreja; a reunião em corpo é uma quimera. Não se deve esquecer que « a Igreja da Inglaterra representa apenas uma metade do povo inglês, que a escola anglicana representa apenas uma porção da Igreja da Inglaterra; que o movimento anglo-católico representa apenas uma seção da escola anglicana, e que o movimento unionista representa apenas uma fração dessa seção... » The reunion of Christendom, p. 18 sq.
As tentativas feitas para pôr os « trinta e nove artigos » de acordo com o concílio de Trento fracassaram; o ritualismo põe o livre exame sob a proteção das cerimônias religiosas. « Não posso compreender a atitude passiva desses homens que são indiferentes à negação de artigos de fé como a graça do batismo, mas que ostentam, em compensação, um zelo exagerado pela ornamentação exterior do culto e pelas vestes eclesiásticas. » Lilly, Characteristics of Manning's writings, p. 241. O zelo dos católicos deve, pois, voltar-se para os indivíduos, de modo a atingir todos os dissidentes e a salvaguardar a integridade da doutrina católica. « Só podemos oferecer a unidade na única condição sob a qual somos seus possuidores: a condição de uma submissão absoluta, incondicional, à voz viva e perpétua da Igreja de Deus. Se essa condição é rejeitada, não somos nós que pomos obstáculo à unidade, pois não fomos nós que impusemos essa condição: quem a impõe é o Espírito de verdade, que reside na Igreja para sempre. » Lettre pastorale sur la réunion des diverses parties de la chrétienté, trad. Falcimagne, p. 23. Para obter essas conversões de anglicanos à verdadeira fé, Manning preconiza a exposição da verdade; rejeita as discussões, como sendo mais aptas a destruir que a edificar; em matéria de controvérsias, só admite as necessárias para defender a doutrina atacada ou desfigurada, frequentemente de boa-fé, pelos dissidentes. Essa tática teve êxito com Manning.
5° A questão escolar, as escolas elementares. A questão se colocou a partir de 1870. Até então, as escolas eram facultativas e confessionais; a lei escolar de 1870 estabelece a escola obrigatória e laica. O Estado funda escolas oficiais laicas onde não se dá nenhuma noção de religião positiva; uma leitura da Bíblia é autorizada. O novo estado de coisas estabelecia uma desigualdade chocante entre as escolas oficiais e as escolas livres; estas, regiamente remuneradas, eram facilmente aceitas pelos dissidentes, unitarianos, presbiterianos, luteranos, não conformistas, que formavam a minoria da nação e pertenciam à classe rica; ao passo que os anglicanos, os metodistas e os católicos, maioria da nação e, em geral, de situação mais modesta, não podiam, por razões de princípio imperiosas, aceitar essa neutralidade escolar, perigosa para a fé: as escolas livres viam-se na impossibilidade de lutar em igualdade de armas com as escolas oficiais. Cf. Catholics and Board Schools, em Dublin Review, IIIª sér., t. I, p. 1 sq. Essa situação não podia deixar Manning indiferente. « Uma criança cristã tem direito a uma educação cristã, uma criança católica tem uma educação católica. » Lemire, Manning et son action sociale, p. 139. Esse princípio, defendê-lo-á em vários artigos, em janeiro de 1883, em The Month: The Future of the primary School (Miscell., t. III, p. 91-97), em abril de 1883, no Nineteenth Century: Is the Christianity of England worth preserving? (Miscell., t. III, 105-121); em outros ainda, reunidos em volume, sob o título National Education, Londres, 1889. Ao direito reconhecido do Estado, em matéria de ensino, opõe o direito superior da família de fazer dar à criança a educação que lhe convém e a formação religiosa, direito que implica a livre escolha do mestre, tornada impossível pela escola oficial; mostra os perigos da escola neutra, que reconduzirá a Inglaterra às lutas religiosas do século XVII. Esses protestos foram ouvidos. O governo chamou Manning a fazer parte de uma comissão real de educação. Os esforços que fez para obter algumas modificações na lei de 1870 não tiveram êxito. The Education Commission and the School Rate, National Education, t. VII, p. 1-17. Somente mais tarde é que a situação haveria de ser melhorada. Ele preparou assim o caminho para o regime atual, sob o qual cada escola, a qualquer confissão que pertença, recebe do Estado um subsídio proporcional ao número de seus alunos. » Cf. L'action sociale du cardinal Manning, em Catholiques de Lille, 1925, p. 211.
3° O ensino superior. A falta de influência, que entravava a ação dos católicos ingleses, devia-se, em boa parte, ao ostracismo que os atingia, em matéria de ensino superior, até 1850: o acesso às universidades de Oxford e de Cambridge lhes havia sido interditado. A frequência dos católicos ingleses a esses lugares de alta cultura intelectual iria elevar a sua influência no mundo do pensamento? Poder-se-ia esperá-lo; Newman era favorável à frequência das universidades inglesas pelos estudantes católicos. Manning, ao contrário, mostrou-se contrário a ela. Sua influência levou Wiseman a fazer interditar pelos bispos da província, em 1864, a assistência aos cursos dessas universidades, nas quais via um perigo de perversão para a fé. Fará renovar a proibição pelos sínodos realizados em Westminster em 1865 e 1867, e obterá de Roma a confirmação dessa interdição. Manning viu-se assim, sobre esse assunto, como sobre o do poder temporal e o da oportunidade da definição da infalibilidade pontifícia, em oposição a Newman. Este compreendia todo o bem que resultaria para os católicos de sua presença nas grandes universidades, de um contato mais íntimo com a elite da nação. O perigo de perversão, resultante de uma atmosfera protestante, poderia ser evitado pela criação de um colégio afiliado à universidade e reservado aos católicos, por uma casa de estudos cuja direção seria confiada a sacerdotes instruídos, capazes de manter intacta a fé dos estudantes. O bispo de Birmingham, Ullathorne, aderia a essas vistas.
Newman resolveu fundar uma casa do Oratório em Oxford, onde residiria em 1864. Manning não queria de modo algum a presença, na cidade universitária, de Newman, cuja fama atrairia em multidão os jovens católicos. A Propaganda ordenou aos bispos que se reunissem para estudar e resolver a questão. No inquérito que mandou fazer junto aos antigos estudantes de Oxford convertidos, Manning absteve-se de consultar Newman, o mais bem colocado para dar seu parecer no assunto. A decisão do sínodo foi contrária à ereção de um colégio. Contudo, a Propaganda permitiu, em 1866, graças à intervenção de Ullathorne, o restabelecimento de um Oratório, mas proibindo Newman de residir nele. Essa proibição não foi comunicada a Newman: o bispo de Birmingham tinha esperado poder fazê-la levantar. A Propaganda interveio de novo, em fevereiro de 1867, e deteve o empreendimento. Era preciso, no entanto, dar satisfação às necessidades intelectuais dos católicos. Manning tinha sonhado fundar em Roma uma escola de altos estudos; tal projeto só podia encontrar oposição; é na Inglaterra que deve formar-se a elite, capaz de exercer uma ação profunda sobre o povo inglês: o objetivo das universidades inglesas era, aliás, formar antes de tudo homens de ação. Era preciso, portanto, fundar uma universidade católica diante das universidades existentes.
Durante muito tempo os bispos ingleses rejeitaram, como irrealizável, esse projeto, que foi finalmente adotado no IV concílio de Westminster, agosto de 1873, decidindo a criação da universidade de Kensington; Cf. Catholic higher Studies in England, em Dublin Review, nova sér., t. xxii, p. 187-189; The new Scheme of catholic higher Education, ibid., t. xxiii, 441-474. Os recursos não faltaram, no início. Manning soube recrutar um corpo docente à altura de sua tarefa, obteve a aprovação de Roma, que renovou, a esse propósito, a proibição feita aos católicos de frequentar as antigas universidades. Cf. Work and Wants of the Church in England, Miscell., t. iii, p. 346. Apesar desse conjunto de circunstâncias favoráveis, o fracasso foi lamentável: em cinco anos, noventa e sete estudantes frequentaram Kensington, Miscell., t. ii, p. 319. A vontade de Manning de manter a universidade sob sua dependência imediata era contrária aos hábitos ingleses de self-government, desagradou aos leigos e foi causa, em parte, do insucesso. Mas, além disso, sempre em consequência das mesmas prevenções, Manning havia-se privado do concurso e da influência dos jesuítas e tinha afastado Newman.
O fundador da Universidade de Dublin teria, sem dúvida alguma, graças à experiência adquirida, à sua forte personalidade, às suas raras qualidades intelectuais, assegurado o êxito da nova universidade; todo o mundo o designava; preferiu-se-lhe Mons. Capel, que foi incapaz de levar a bom termo a obra empreendida. O insucesso não levou Manning a uma melhor compreensão da situação. As proibições decretadas haviam sido ineficazes: os católicos continuavam a ir a Oxford ou a Cambridge. Em 1888, numa carta pastoral, The Office of the Church in higher catholic Education, publica uma nova interdição, obtida, a seu pedido, da Propaganda, em 10 de janeiro de 1889. Esforça-se por justificar sua conduta, mostrando a inutilidade dos estudos em Oxford e em Cambridge, a possibilidade de obter os graus na Universidade de Londres, sem seguir os cursos oficiais, o bom nível dos colégios católicos, que podem rivalizar com os outros... Essas razões não foram suficientes para convencer os católicos ingleses.
Depois da morte de Manning, a questão do ensino superior foi resolvida segundo as ideias de Newman; desde 1896, os católicos ingleses frequentam as universidades oficiais. Mas fundaram-se, ao lado delas, colégios especiais, dirigidos seja por sacerdotes seculares, seja pelos jesuítas, dominicanos e beneditinos. A juventude universitária fica assim preservada do perigo de perversão que Manning temia.
6° A questão social. A atividade exercida por Manning para restaurar a vida religiosa nos bairros pobres de Londres o havia posto em presença de uma situação material e moral deplorável. Tinha a convicção de que a Igreja só pode « difundir-se na Inglaterra se manifestar largas simpatias populares, que a identifiquem, não com os que governam, mas com os governados. » Thureau-Dangin, La renaissance, t. iii, p. 262. Era preciso, portanto, que o clero católico se tornasse o guia e o protetor dos pobres. Ele mesmo dará o exemplo, e se fará o porta-bandeira do catolicismo social. A atenção havia sido atraída, em 1883, por uma série de escritos sobre a espantosa miséria das moradias em certos bairros de Londres. A exiguidade e a insalubridade das casas operárias, onde « por vezes várias famílias pululam no mesmo cômodo, cada uma em seu canto, faltando espaço, faltando água », expunham os habitantes a toda sorte de afecções crônicas, às doenças agudas mais graves; obrigavam-nos a viver numa promiscuidade deplorável ou em contato com um mundo duvidoso. Rights of Labour, em Lemire, op. cit., p. 135-137.
Desertando esse meio infecto, o operário refugiava-se nos bares e entregava-se ao alcoolismo, flagelo gravíssimo e muito difundido, cujas consequências desastrosas Manning mostra no indivíduo, na família e na sociedade. « A embriaguez, que vai se desenvolvendo a cada ano, é o nosso pecado nacional, a nossa vergonha nacional, e será, se não a detivermos, a nossa ruína nacional. » Miscell., t. iii, p. 398. Já, sendo arquidiácono de Chichester, Manning se interessara pelas classes pobres, escrevendo a Gladstone, fazendo propor a James Graham diferentes emendas, relativas aos filhos naturais e à responsabilidade efetiva do pai, assinalando a Lewis, presidente do Board of Trade, a imoralidade dos centros operários, ao mesmo tempo que as medidas a tomar. Arcebispo de Westminster, empreende ativamente a luta contra o alcoolismo. Desde 1865, ingressando na Associação católica de temperança, dá um novo impulso à obra dos PP. Mathew e Lockhart, os iniciadores das sociedades de temperança; em 1866, forma um comitê encarregado de constituir uma sociedade com regras muito simples; no ano seguinte, funda para os irlandeses, muito atingidos pelo flagelo, a St Patrick's Association; em 1871, numa reunião no Exeter Hall, apoia o projeto de bill de sir W. Lawson, que propõe o fechamento dos bares em certos dias e em certas horas determinadas.
Juntando o exemplo à palavra, faz o pledge e torna-se, a partir de 1872, um teetotaler incorrigível, adquirindo assim maior autoridade para recomendar a adesão à Roman catholic total abstinence League, que reunirá em Londres até vinte e oito mil ligueiros, para convencer o povo, em discursos ao ar livre, pronunciados no Exeter Hall, em Clerkenwell Green, em Tower Hill, em Hyde Park, nos jardins do Palácio de Cristal. Cf. Tablet, 1881, t. ii, 390. Para auxiliar seus esforços pessoais, chama a atenção e procura o apoio do legislador, por um artigo publicado em 1878, na revista de Dublin, Our national Vice, Miscell., t. iii, p. 227-241, no qual ataca os responsáveis: o Parlamento, que poupa eleitores, os enormes capitalistas, que tiram dali recursos, o governo, que recolhe impostos consideráveis; no qual propõe remédios: o fechamento intermitente dos estabelecimentos (bill Lawson), o consentimento dos pais de família antes de abrir um bar numa localidade (Permissive Bill).
O alcoolismo talvez não fosse senão a consequência da deplorável situação material dos operários ingleses; pelo menos essa miséria contribuía para ele. Era preciso, portanto, tornar a vida melhor e mais fácil para essa parte da população. Para lutar eficazmente contra o pauperismo e as habitações insalubres, aceita fazer parte, em 1884, de uma comissão de inquérito, presidida pelo príncipe de Gales; encoraja a emigração e desejaria que o governo lhe desse uma forte organização, Why are our people unwilling to emigrate? Miscell., t. iii, p. 207-227. Não hesita, apesar das críticas, em encorajar a campanha empreendida pela Pall Mall Gazette contra o tráfico de brancas, em encorajar a National Society for the prevention of Cruelty of children, fundada pelo presidente Benjamin Waugh, em dar suas simpatias ao general Booth, por ocasião de seu livro, In darkest London, e ao Exército da Salvação, levando em conta a nobreza do fim perseguido, e fazendo as reservas necessárias no terreno da evangelização social: todas as religiões podem e devem caminhar de acordo. « Num deserto, onde falta o pastor, toda voz que dispensa uma parcela da verdade prepara a chegada Daquele que é a própria verdade. » Citado por Thureau-Dangin, op. cit., t. iii, p. 266; cf. The Salvation Army, Miscell., t. iii, p. 189-207; Room for General Booth, em Merry England, julho de 1891, fevereiro de 1892.
Ao mesmo tempo, lançando seus olhares para além da Inglaterra, encoraja a sociedade antiescravagista, Hutton, Cardinal Manning, p. 200, dá seu apoio à obra do cardeal Lavigerie, Hutton, p. 247. Toma o partido de Gibbons em favor dos « Cavaleiros do Trabalho » que os bispos do Canadá haviam condenado. Hutton, op. cit., p. 203. O mais belo êxito da ação social de Manning foi sua intervenção na greve dos estivadores, em 1889. Essa greve havia acarretado o desemprego de duzentos mil trabalhadores, e fazia pesar sobre Londres uma ameaça de guerra civil. Todas as negociações haviam fracassado. O bispo anglicano de Londres, que tentara intervir, recuou diante das dificuldades. Apesar de seus oitenta e dois anos, o cardeal iniciou negociações com os patrões e os operários, arrancando dos primeiros concessões, aconselhando moderação aos outros, chegando finalmente, depois de uma última e longa entrevista, a um compromisso que pôs fim ao conflito.
Lemire, op. cit., p. 113; Purcell, op. cit., t. II, p. 665, 666. Essas múltiplas intervenções de Manning em favor do mundo operário explicam-se por seus princípios sobre a questão social. Ele os expôs num discurso pronunciado em Leeds, em 1874, sobre a dignidade e os direitos do trabalho, The dignity and rights of the Labour. Miscell., II, p. 65-101. Duas causas contribuíram para o desenvolvimento industrial do século XIX: o dinheiro e o trabalho. Manning define o trabalho: « o honesto e completo emprego de nossas energias corporais e intelectuais em vista de nosso bem-estar e do de nosso próximo. » Miscell., t. II, p. 71. A inteligência do operário secundou o impulso industrial: sem o trabalho, o capital está morto, sem o trabalho vivo, o dinheiro é capital estéril. O operário, por sua força e sua destreza, é também um fator primeiro da riqueza pública. Seu trabalho é um capital, é sua propriedade. O trabalho tem assim os mesmos direitos que o capital, direitos inalienáveis e sagrados. O operário deve, portanto, ter a liberdade de dispor dele a seu gosto e de protegê-lo... pode fixar-lhe o valor, e debater com o patrão as condições de seu emprego, unir-se com seus companheiros, fundar associações para a defesa de seus direitos.
Em caso de conflito, o operário está numa situação inferior à do patrão: Manning faz então apelo ao Estado, reconhece-lhe o direito de intervir para proibir o sweating system, que impõe dezesseis a dezoito horas de trabalho, com um salário de fome, para fazer respeitar o repouso dominical, para interditar, em certas circunstâncias e em certas indústrias, o trabalho das mulheres e das crianças, para fixar em doze anos a idade de admissão na fábrica. Seria preciso que o salário do operário fosse suficiente para fazer viver os seus, sem que a mãe de família fosse obrigada a ir à oficina. Volta a essa questão do trabalho numa carta ao bispo de Liège, por ocasião do congresso de 1890, Merry England, julho de 1891, na qual pede que se reconheça, fixe e estabeleça publicamente uma medida justa e conveniente, regulando os lucros e os salários, medida segundo a qual seriam regulados todos os contratos livres entre o capital e o trabalho. Lemire, op. cit., p. 411.
Manning parecia fazer assim uma parte excessiva ao Estado: foi acusado de socialismo. « Não sei, respondeu, se para vós isso é socialismo; mas para mim é puro cristianismo. » Lemire, op. cit., p. 114. Explica-se, fazendo notar que « exclui a legislação do Estado, salvo nos casos em que a iniciativa privada faz falta, e que repele principalmente a sua intervenção quando se trata de um contrato livre, que se baseia na relação existente entre o salário e o lucro. » Merry England, julho de 1891, p. 19. De fato, Manning manteve-se sempre afastado do socialismo, conservando intacto o direito de propriedade, defendendo a liberdade individual, só admitindo a intervenção do Estado em circunstâncias excepcionais. Ocupa o meio-termo entre o liberalismo econômico, que situa a solução da questão social no livre jogo da lei da oferta e da procura e da concorrência, e o socialismo, que reconduz tudo ao Estado, tanto na ordem econômica como na ordem política. Uma das últimas alegrias do cardeal foi encontrar na encíclica Rerum Novarum de 15 de maio de 1891 várias das ideias sociais pelas quais havia combatido, e uma aprovação implícita de sua doutrina pelo chefe da Igreja. Cf. Leo XIII on the Condition of labour, em Dublin Review, IIIe série, t. XXVI, p. 153-170.
Conclusão. A influência de Manning na Inglaterra do século XIX foi considerável e, em suma, feliz. Ele devolveu ao catolicismo, « nesse terreno da ação, o prestígio que Newman lhe havia assegurado no domínio da especulação. » Looten, op. cit., p. 209. Não tinha as qualidades intelectuais de Newman; como escritor, como pensador, está muito atrás dele. Foi sobretudo homem de autoridade e de governo. Isso explica toda a sua obra, todas as suas intervenções: sua campanha em favor do comentário sobre o Syllabus, sua defesa do poder temporal e da infalibilidade pontifícia, como também sua atitude lamentável para com Newman, em quem via, o que era falso, o chefe, o inspirador dos católicos liberais do Rambler, cf. H. Bremond, Manning et Newman, em Études, 15 de outubro de 1896, t. LXIX, p. 263, a quem o amigo de Manning, Mons. Talbot, representava como the most dangerous man in England. Purcell, op. cit., t. II, p. 618. Zeloso de sua autoridade, parecia não poder suportar ao seu lado alguém que lhe fosse superior, ou que emitisse ideias diferentes das suas, mesmo em pontos de livre controvérsia. Foi um grave defeito. Se, em vez de deixar Newman na sombra, lhe tivesse dado uma posição em relação com suas maravilhosas qualidades intelectuais, colocando-o à frente de sua universidade católica, ou deixando-o instalar-se em Oxford, teria prestado um imenso serviço à Igreja; a estada em Oxford de Newman católico teria talvez aumentado consideravelmente o número das conversões nesse meio onde, anglicano, havia outrora exercido tão feliz influência.
IV. A maior parte das obras de Manning católico foi indicada no curso do artigo. As de Manning anglicano são quase impossíveis de encontrar: quatro volumes de Sermons, Londres, 1850; Sermons preached before the University of Oxford, Oxford, 1845; Thoughts for those that mourn, Londres, 1843; Confidence in God, Londres, 1844; The unity of the Church, 2e édit., Londres, 1845. Teve contudo a intenção de imitar Newman e de reeditar essas obras, com notas explicativas. Mas um teólogo a quem se abriu sobre isso julgou que « os livros de religião, escritos por um herege, para a propagação da heresia, caíam sob o golpe de condenações eclesiásticas e não deviam ser reimpressos. » Lemire, op. cit., p. 412.
Entre as obras escritas depois de sua conversão, não indicadas acima, é preciso assinalar: The Office of the Holy Ghost under the Gospel, Londres, 1857; The love of Jesus to penitents, 9e édit., Londres, 1885, conferências proferidas em Roma, em 1862, sobre o sacramento da penitência, tradução francesa por Pallard, La confession, ou l'amour de Jésus pour les pénitents, 1864; The Blessed Sacrament the centre of immutable Truth, Londres, 1871; Devotional readings, 1868; The four great Evils of the Day, Londres, 1871; The fourfold sovereignty of God, Londres, 1875; The internal mission of the Holy Ghost, 5e édit., Londres, 1875, tradução francesa por Mac-Carthy, La mission de l'Esprit-Saint dans les âmes, Paris, 1887; Dominus illuminatio mea. A sermon preached at Oxford, 23 nov. 1875; The glories of the Sacred Heart, Londres, 1876, tradução francesa por Maillet, Les gloires du Sacré-Cœur, Tours, 1888; Sin and its consequences, 5e édit., Londres, 1885, tradução francesa por Maillet, Le péché et ses conséquences, Avignon; Towards Evening, Londres, 1887; Essays on Religion and Literature by various writers, 3 vol., Londres, 1865-1874; Sermons on ecclesiastical subjects, with an Introduction on the relations of England to Christianity, 3 vol., Dublin, 1863-1873; Miscellanies, 3 vol., Londres, 1877-1888, contendo seus mais importantes artigos de revistas; Pastime papers, composições literárias, publicadas após sua morte, Londres, 1893.
W. Ward, W. G. Ward and the Oxford movement, Londres, 1889; R. W. Church, The Oxford movement, Twelve years (1833-1845), Londres, 1899; Amherst, History of catholic Emancipation and the progress of the catholic Church in the British Isles, 2 vol., Londres, 1886; W. Ward, W. G. Ward and the catholic revival, nova edit., Londres, 1912; Histoire de la renaissance du catholicisme en Angleterre au XIXe siècle, Paris, 1896; K. Lurimont, La pensée catholique dans l'Angleterre contemporaine, Paris, 1906; Thureau-Dangin, La renaissance catholique en Angleterre, 3 vol., 7e édit., Paris, 1923; O'Byrne, Lives of the cardinals, Londres, 1879; A. de Waal, Geschichte des Card. Manning, Roma, 1888; White, Cardinal Manning, Londres, 1882; A. W. Hutton, Cardinal Manning, Londres, 1882; Bellesheim, H. E. Manning, Cardinal Erzbischof von Westminster, Mayence, 1892; J. R. Gasquet, Cardinal Manning, Londres, 1896; E. S. Purcell, Life of Cardinal Manning, 2 vol., Londres, 1896; Fr. de Pressensé, Le cardinal Manning, Paris, 1896; H. Hemmer, Vie du cardinal Manning, Paris, 1898; H. Buddensieg, art. Manning, em Protestantische Realen-cyklopädie, 3e édit., t. XII, p. 230-236; Bellesheim, art. Manning, em Kirchenlexikon, 2e édit., t. VIII, col. 619-626; J.-E.-C. Bodley, Cardinal Manning and other Essays, Londres, 1912; Lilly, Characteristics political, philosophical and religious from the writings of H.-E. Manning, Londres, 1885; J. Lemire, Manning et son action sociale, Paris, 1893; H. Bremond, Manning et Newman, nas Études, t. LXIX, p. 250-269; Looten, L'action sociale du cardinal Manning nas faculdades católicas de Lille, 1925, p. 209-216; 233-240; numerosos artigos publicados em 1892 nos jornais e nas revistas da Inglaterra: The Times, Nineteenth Century, Catholic Directory, Dublin Review, Quarterly Review, Contemporary Review, Review of Reviews.
Marchal.
Autor original: L. MARCHAL
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