MANIQUEÍSMO

MANIQUEÍSMO

MANIQUEÍSMO. Seita religiosa fundada no século III por Manés ou Mani. — I. Fontes. II. Vida de Mani (col. 1858). III. Expansão do maniqueísmo (col. 1864). — IV. As doutrinas maniqueias (col. 1872). — V. Origens do maniqueísmo (col. 1888).

FONTES. — O maniqueísmo ainda é para o historiador uma espécie de enigma. Surgido bruscamente, por volta de meados do século III, na Babilônia, isto é, no país de intenso sincretismo religioso em que se encontravam e se misturavam as influências mais diversas, as do cristianismo, do judaísmo, do mitraísmo, das velhas religiões locais da Caldeia, espalhou-se com rapidez até a Espanha e a África do Norte, de um lado, e, de outro, até as extremidades da Mongólia e da China. Durante quase um milênio soube conservar sua vitalidade, exposto à hostilidade dos poderes estabelecidos tanto quanto à contradição dos sistemas que pretendia substituir. Os combates que foi obrigado a travar pareceram por vezes aumentar sua força. Mas, depois desse árduo esforço de conquistas e de lutas, o maniqueísmo desapareceu quase inteiramente. Os documentos da atividade literária de seus membros pereceram, vítimas do desgaste do tempo e sobretudo da hostilidade dos homens. É hoje difícil traçar um quadro exato do maniqueísmo, e muitos dos que o tentaram acabaram por fracassar em seus esforços.

Naturalmente, as fontes mais seguras para conhecer a doutrina e a história do maniqueísmo seriam os próprios escritos de Mani e de seus discípulos. Sabemos que as obras do mestre e as de seus principais discípulos formavam uma espécie de livro sagrado, de Bíblia, à qual se atribuía a mais alta autoridade. À parte fragmentos e análises, mais ou menos consideráveis, essas obras estão hoje perdidas. Nem por isso deixa de ser necessário citá-las em primeira linha, no início deste estudo, com a indicação dos autores que nos informam sobre elas. Em segundo lugar, teremos de mencionar certo número de escritos maniqueus, recentemente reencontrados na Ásia Central. Esses escritos são tanto mais preciosos quanto provêm de círculos que conservavam as tradições de Mani. Não bastam, contudo, para satisfazer todas as curiosidades: redigidos em línguas difíceis de compreender, compostos em datas mal conhecidas e talvez bastante recentes, conservados muitas vezes em estado de fragmentos, precisam ser completados e controlados pelos testemunhos das fontes indiretas.

Estas são elas mesmas de duas espécies: as fontes orientais e as fontes latinas e gregas. As fontes orientais mais importantes são de origem muçulmana. Aboul Faradj Mohammed ben Ishaq, mais conhecido pelo nome de An-Nadim, e Shahrastani (século XII) sobretudo tiveram ocasião de interessar-se pelo maniqueísmo, e ambos tiveram em mãos obras autênticas de Mani e de seus principais discípulos; os extratos e as análises que nos fornecem são de primeira importância. Entre os escritores cristãos de língua síria, santo Efrém no século IV e Teodoro Bar-Khôni no século VIII são especialmente bem informados, e seu testemunho deve ser tomado em séria consideração. Quanto às fontes latinas e gregas, basta por ora assinalar os Acta Archelai de Hegemônio, obra do século IV, que põe em cena o próprio Mani e um de seus principais discípulos, Turbo, e os tratados antimaniqueus de santo Agostinho; este, antes de sua conversão, passara vários anos na seita e tivera ocasião de ler numerosas obras maniqueias e de recolher certo número de tradições. Por ele estamos bem informados sobre o maniqueísmo da África latina do século IV.

I. AS FONTES MANIQUEIAS. — 1° Obras de Mani. O historiador árabe An-Nadim, falando da atividade literária de Mani, escreve: «Mani compôs sete livros, um em persa e seis em língua síria. Entre eles apresenta-se primeiro o livro dos Mistérios..., em segundo lugar... ; em terceiro lugar o livro dos Gigantes..., o livro dos Preceitos para os Ouvintes, com um apêndice dos Preceitos para os eleitos..., em quarto lugar o livro intitulado Shâpurakân..., em quinto lugar o livro da Vivificação..., em sexto lugar o livro intitulado: Farak-mutija... » G. Flügel, Mani, seine Lehre und seine Schriften..., Leipzig, 1862, p. 102, 103. O texto de An-Nadim, que tem aqui uma lacuna, não dá o título do sétimo livro anunciado. Biruni (por volta de 1000) dá uma lista que reproduz mais ou menos a de An-Nadim. Encontrou, diz ele, em Khawarizm um volume de livros maniqueus, que continha os seguintes escritos: a Farakmatija; o livro dos Gigantes; o Tesouro da vivificação; o Sol da certeza e do fundamento; o Evangelho; o Shâpurakân; uma quantidade de Epístolas de Mani; enfim o livro dos Mistérios. Biruni, Chronologie orientalischer Völker, édit. Sachau, Leipzig, 1898, p. xxxviii.

Essas listas são as mais completas e as mais verossímeis dos escritos autênticos de Mani. Os seis primeiros do catálogo de An-Nadim teriam sido redigidos em sírio, pelo qual se deve entender não o siríaco clássico, a língua falada em Edessa, mas o aramaico da Babilônia, e mais precisamente a língua do Sûristan, isto é, da região do Tigre e do baixo Eufrates. Segundo An-Nadim, Mani teria inventado, para transcrever suas obras, uma escrita especial, derivada do siríaco e do persa, e mais rica em caracteres que o árabe. G. Flügel, op. cit., p. 167, 168. Depois dele, os maniqueus teriam conservado esse sistema de escrita na cópia de seus livros santos.

Que sabemos de cada um dos livros de Mani? 1. O livro dos Mistérios. Essa obra é citada por Hegemônio, Acta Archel., 62, édit. Beeson, p. 91, por Tito de Bostra, Contra Man., I, 5, P. G., t. XVIII, col. 1076, e por santo Epifânio, Hæres., LXVI, 13, P. G., t. XLII, col. 48 C. A análise pretensamente fornecida por este último é tomada de Tito, que, na realidade, não parece ter conhecido a obra do heresiarca. Fócio, Contra Man., I, 12, P. G., t. CI, col. 36 A, e a segunda fórmula grega de abjuração, P. G., t. I, col. 1405, asseguram que no livro dos Mistérios os maniqueus se esforçam por destruir a Lei e os Profetas. A análise dada por An-Nadim, édit. Flügel, op. cit., p. 102, 103, confirma essa asserção.

Segundo An-Nadim, os Mistérios estavam divididos em 18 capítulos, dos quais o 17º tratava dos profetas, enquanto outros (1, 5, 10) eram consagrados a Jesus. Vários capítulos, 12 e 13, ocupavam-se dos Deisanitas, que se ligavam a Bardesanes. No conjunto, o livro dos Mistérios ocupava-se, portanto, das relações entre o judaísmo e o cristianismo; e interessava-se especialmente pelas relações entre a alma e o corpo. Esse livro está perdido. Perdido igualmente o resumo que dele redigira Biruni. Por este último autor, conhecemos, no entanto, alguns fragmentos que inseriu em sua India. Cf. P. Alfaric, Les écritures manichéennes, t. II, étude analytique, p. 17-21.

2. O livro dos Gigantes. Mencionado por An-Nadim e por Biruni, o livro dos Gigantes é igualmente assinalado por Timóteo de Constantinopla, De recept. haeretic., P. G., t. LXXXVI, col. 21 e por Fócio, Biblioth., cod. 85, P. G., t. CIII, col. 288. Pelo título, devia ocupar-se sobretudo da lenda dos Gigantes fundada nos relatos do Gênesis e já explorada nos meios gnósticos. Uma hipótese bastante verossímil de P. Alfaric, op. cit., p. 31, quer que esse livro seja a mesma obra que o Liber capitulorum (livro dos princípios) mencionado por Arquelau, Acta Hegem., 62, édit. Beeson, p. 91; e também que tenha sido citado por Alexandre de Licópolis, Tito de Bostra, santo Epifânio, Teodoreto de Ciro, Severo de Antioquia, como encerrando as doutrinas essenciais, os κεφάλαια, do maniqueísmo. De fato, Alexandre de Licópolis, ao terminar sua exposição dos κεφάλαια maniqueus, observa que os hereges invocavam a gigantomaquia dos antigos poetas para mostrar como estes haviam conhecido a luta travada pela matéria contra Deus.

Os κεφάλαια, tais como são conhecidos pelas análises de Alexandre de Licópolis, de Tito de Bostra, de Teodoreto e de Severo, continham uma exposição da cosmogonia maniqueia. Narravam a origem do mundo, o aparecimento do homem sobre a terra, e a luta encarniçada que se travam os dois princípios até o triunfo definitivo do Bem. O livro dos Princípios parece ter sido particularmente difundido na China: um fou-to-tan, isto é, um alto dignitário maniqueu vindo da Pérsia, levou-o em 694 ao império do Meio; tomou aí o nome de Livro dos dois Princípios, ou das duas Raízes. Os textos de Touen-houang fazem-lhe frequentes alusões. Cf. P. Alfaric, op. cit., p. 32-34.

3. O livro dos Preceitos para os ouvintes, com um capítulo adicional dos preceitos para os Eleitos: é assim que An-Nadim designa o terceiro dos escritos de Mani. Parece que não se trata aí de um título propriamente dito, mas antes de uma análise rápida de uma obra anepígrafa. Em seu lugar, Birûni menciona o Sol da certeza e do fundamento: talvez tenhamos nessa fórmula um tanto misteriosa o título original do livro dos Preceitos. Em todo caso, sabemos muito pouco dessa obra, cuja identificação deu lugar a muitas dificuldades. Segundo K. Kessler, art. Mani, Manichäer, na Protest. Realencycl., 3e édit., t. XII, p. 220, o livro dos Preceitos deveria ser identificado, por um lado, com os κεφάλαια de que falam os autores gregos, cf. supra, e, por outro, com a célebre Epístola do fundamento que conhecemos bem pela obra de santo Agostinho, Contra epistolam Manichæi quam vocant fundamenti liber unus.

P. Alfaric, que já identificou os κεφάλαια com o livro dos Gigantes, vê no livro dos Preceitos uma obra mencionada por santo Agostinho no De moribus manichæorum, 19 sq., P. L., t. XXXII, col. 1353 sq., e analisada em parte por ele nessa obra: é aí que são estudados os três selos da boca, da mão e do seio, impostos aos eleitos. Acrescenta que os textos da Ásia Central e especialmente o Khouastouanift fazem alusão à primeira parte do tratado de Mani quando falam dos «Três Momentos» que deve compreender o homem decidido a entrar em religião. P. Alfaric, op. cit., p. 54-58. Tudo isso é bastante incerto. Resta que o livro dos Preceitos era um tratado de moral, e que se dividia em duas partes: uma destinada a todos os fiéis maniqueus: os ouvintes; outra reservada aos eleitos, isto é, aos perfeitos.

4. O Shâpurakân. Segundo Birûni, Chronologie, trad. Sachau, p. 189, Mani teria composto essa obra, talvez a mais antiga de seus escritos, para o grande rei dos persas, Sapor I, filho de Adaschir, a fim de instruí-lo e ganhá-lo para suas doutrinas. O título de Shâpurakân, pertencente a Sapor, confirma esse relato. Verossimilmente, essa obra era redigida em persa, segundo as informações de An-Nadim, que conhece um livro de Mani escrito nessa língua. Era um escrito escatológico, do qual An-Nadim nos informa que se dividia em três partes: uma descrevia o fim dos ouvintes, outra o dos eleitos, a terceira o dos pecadores. Flügel, Mani, p. 103. Talvez se dê um resumo bastante longo dele numa passagem do mesmo autor intitulada Doutrinas dos maniqueus sobre a vida futura, onde aparecem sucessivamente as três classes de homens. Flügel, Mani, p. 100, 101.

O Shâpurakân foi conhecido no Oriente: duas folhas de um manuscrito de Tourfan trazem ainda o título da obra e dão fragmentos dela, infelizmente ilegíveis ou ininteligíveis. Em contrapartida, os ocidentais nunca conheceram esse escrito, e não o citam, ao menos sob seu título original. P. Alfaric, op. cit., p. 49, crê que talvez seja ele que a fórmula grega de abjuração tem em vista quando cita o livro dos Segredos. P. G., t. I, col. 1468.

5. O livro da vivificação, chamado o Tesouro da vivificação por Birûni, é intitulado mais simplesmente o Tesouro por Hegemônio, Acta Archel., 62, e por santo Epifânio, Hæres., lxvi, 13. Timóteo de Constantinopla, Pedro da Sicília, Fócio, as duas fórmulas gregas de abjuração, dão o título completo, θησαυρὸς ζωῆς. Esse título é tanto mais notável quanto se reencontra entre os mandeus, onde designa uma escritura muito importante. Santo Agostinho conheceu também o Tesouro: cita dele dois fragmentos, um proveniente do segundo livro, Contra Felic., ii, 5, P. L., t. XLII, col. 538, outro proveniente do sétimo livro, De natura boni, 44, ibid., col. 568. Os dois fragmentos são igualmente citados por Evódio, De fide cont. Man., 5 et 14-16, ibid., col. 1141, 1144. Com uma terceira passagem, assinalada por Birûni, India, trad. Sachau, t. i, p. 39, constituem tudo o que nos resta desse tratado, que devia ser muito importante, pois tinha pelo menos sete livros. Sabemos que nele se tratava da luta dos dois reinos das Trevas e da Luz, e do papel desempenhado pelo Terceiro mensageiro e pela Virgem de Luz na libertação dos elementos divinos mantidos em cativeiro pelos demônios aéreos. Santo Epifânio, depois de mencionar o Tesouro, acrescenta que Mani associou a esse livro o que se chama o Pequeno Tesouro, Hæres., lxvi, 13. Muitas vezes se julgou que se tratava aí de um simples resumo do Tesouro. É bem possível que se trate na realidade de dois escritos diferentes; e de fato são Cirilo de Jerusalém assinala os Tesouros no plural, entre as obras importantes de Mani. Catech., xi, 22, P. G., t. XXXIII, col. 577.

6. A Farakmatija de An-Nadim e de Birûni parece ter sido um tratado de moral. O próprio título deve ser lido πραγματεία, designando essa palavra precisamente um livro que tem uma parte prática, e sendo empregada por Fócio a propósito do livro dos Gigantes, que ele chama τῶν γιγάντων πραγματεία. Segundo Kessler, art. cit., p. 221, nada conhecemos dessa obra. P. Alfaric, op. cit., p. 58-68, pensa, ao contrário, que a πραγματεία não é outra senão a Epistola fundamenti, já lembrada há pouco. Essa carta, dirigida a certo Patikios — talvez o próprio pai de Mani —, é um resumo de toda a doutrina maniqueia; e é um dos escritos que melhor conhecemos, graças a santo Agostinho, que dela compôs uma refutação em regra, não sem transcrever passagens importantes. Encontra-se aí a descrição dos dois princípios eternos, a narração da luta original entre o bem e o mal, a história do homem, a redenção trazida por Cristo; em suma, uma exposição sistemática dos ensinamentos do Mestre.

Talvez a Epístola do Fundamento seja a mesma obra que as fontes orientais mencionam sob o nome de livro dos três momentos; a carta, com efeito, apresenta-se como encerrando initium, medium et finem, isto é, como dando a conhecer toda a história do mundo. Os três momentos, anterior, médio e posterior, são igualmente aqueles entre os quais se reparte toda a evolução das coisas. Como, contudo, o livro dos Três momentos já foi identificado por P. Alfaric com o livro dos Preceitos, é melhor não multiplicar as hipóteses, mais ou menos aventureiras, a respeito desses textos.

7. O Evangelho é assinalado pelos Acta Archelai de Hegemônio; e é uma das obras de Mani mais frequentemente citadas. Cirilo de Jerusalém, Catech., vi, 22, P. G., t. XXXIII, col. 576, Pedro da Sicília, Hist. Man., i, 11, t. CIV, col. 1267; Fócio, Cont. Man., i, 12, t. CII, col. 36, as duas fórmulas gregas de abjuração, todos o mencionam à frente da lista dos escritos maniqueus. Vários textos lhe dão o nome de Evangelho vivo, τὸ ζῶν εὐαγγέλιον. Flügel pensa que era redigido em persa; parece que, como os outros escritos de Mani, com exceção do Shâpurakân, foi composto em sírio. O que sabemos de mais preciso sobre o Evangelho de Mani é a notícia de Birûni: «Cada um dos adeptos de Marcião e de Bardesanes serve-se de um evangelho que contradiz em parte os Evangelhos verdadeiros. Mas os maniqueus possuem um que, do começo ao fim, encerra o contrário da crença dos cristãos. Professam-lhe a doutrina, apresentam-no como o único verdadeiro; dizem que nele é ensinada a verdadeira fé de Mani e que, fora dele, só se encontra vaidade e mentira.» Birûni, Chronologie, trad. Sachau, p. 23. Birûni acrescenta, ibid., p. 207, que Mani dividira seu Evangelho em 22 seções segundo as 22 letras do alfabeto, e essa informação é confirmada por um catálogo de escritos maniqueus encontrado em Tourfan. P. Alfaric, op. cit., p. 36, 37.

Sabemos pouco sobre o conteúdo do Evangelho de Mani. Os autores ocidentais evitam falar dele; e os maniqueus com quem discute santo Agostinho só se servem dos Evangelhos canônicos. Algumas frases desconexas e pouco inteligíveis, reencontradas nos manuscritos de Tourfan, algumas indicações fornecidas pelo historiador árabe Ibn-al-Mournada, não nos permitem fazer uma ideia precisa da obra, nem decidir com certeza se era um evangelho propriamente dito ou apenas um comentário dos relatos evangélicos. Talvez o Evangelho de Mani seja a mesma coisa que uma obra importante de que falam, com o maior elogio, vários autores persas da Idade Média, à qual dão o nome de Ertenk de Mani. A palavra persa ertenk, ou mais exatamente erzeng ou ert-scheng, significaria discurso notável, palavra santa, e é por conseguinte o sinônimo aproximado do termo evangelho. O Ertenk trazia ainda o nome de Destour Mani, o que quer dizer Lei ou cânon de Mani. É preciso confessar que tais títulos são bem vagos e quase não informam sobre o conteúdo de uma obra.

Os escritores que falam do Ertenk assinalam sobretudo as notáveis miniaturas com que o autor adornara sua obra, e que deviam servir para demonstrar sua missão profética. O relato mais completo é fornecido por Mirkhond. Conta-se, diz este último, que Mani, viajando pelas regiões do Oriente, chegou a uma montanha que continha uma gruta que possuía o agrado desejável, com seu ar refrescante e suas fontes de água. Essa gruta tinha apenas uma entrada. Sem que se percebesse, ele aí acumulou alimento para um ano. Depois disse a seus partidários: «Vou subir ao céu e aí prolongarei minha estada por um ano. Depois disso, voltarei à terra para trazer-vos uma mensagem de Deus.» Acrescentou: «No começo do segundo ano, encontrai-vos em tal e tal lugar, na vizinhança da gruta, e dai-me vossa atenção.» Após essa advertência, subtraiu-se aos olhares dos homens, entrou na gruta e aí se ocupou durante um ano de pinturas. Traçou maravilhosos desenhos sobre uma tábua que chamou o Ertenk Mani. Depois, ao cabo de um ano, mostrou-se a seus homens, na vizinhança da caverna, tendo na mão uma tábua coberta de pinturas maravilhosas e de desenhos variados. A essa vista, cada um dizia: «O mundo nos oferece milhares de desenhos, mas ainda não encontramos nenhuma pintura desse gênero.»

Como todos estavam petrificados de admiração, disse-lhes: «Trouxe do céu esta tábua para estabelecer meu caráter profético.» Hist. univ., Bombay, 1854, t. i, p. 223. Cf. P. Alfaric, op. cit., p. 41, 42. Os sete tratados de que acabamos de falar são as obras capitais de Mani.

À parte eles, conhecia-se ainda certo número de cartas de Mani, que parecem ter sido bastante difundidas e que se liam, no tempo de santo Agostinho, nas assembleias religiosas. Agostinho, Cont. epist. Man., 7; Cont. Faust., xiii, P. L., t. xlii, col. 177, 284. An-Nadim dá o catálogo dessas cartas, conta 76, entre as quais parece ter conhecido diretamente as 52 primeiras; das 24 outras não teria tido o texto nas mãos. Flügel, Mani, p. 103, 104. Entre essas cartas, umas eram dirigidas a um país ou a uma cidade, assim a 3ª à Índia, a 6ª a Kashkar, a 8ª à Armênia, a 10ª a Ctesifonte, a 23ª a Babel; outras tinham um destinatário individual: Fouttak, Amoulija (n. 7), o incrédulo (n. 9; ler aqui sem dúvida o nome romano Aemilius ou Aemilianus), Abrahija o incrédulo (n. 47 e 49), a persa Menoch (n. 60, 61, 63): esta última pode ser a virgem Menoch (que santo Agostinho conhece como destinatária de uma carta de Mani).

Conhecemos por An-Nadim o assunto de grande número dessas cartas: as matérias tratadas eram das mais variadas. Mani ocupava-se, por exemplo, do selo da boca (n. 13), do bom odor (n. 17), da propriedade (n. 26), do dízimo (n. 27, 52, 62), das relações sociais (n. 12), das doações religiosas (n. 40), da administração da esmola (n. 55), do amor (n. 32), da explicação dos sonhos (n. 59), do vestuário (n. 76). A carta 71 de Mani sobre a crucifixão podia referir-se à paixão de Cristo. Todas essas cartas estão perdidas, com exceção de alguns fragmentos insignificantes reencontrados nos manuscritos da Ásia central. P. Alfaric, op. cit., p. 72.

Algumas citações das cartas de Mani encontram-se nos autores cristãos. Hegemônio dá o texto de uma carta que Mani teria dirigido a Marcelo para convertê-lo à nova fé. Acta Archel., 5e édit. Beeson, p. 5-8. Essa carta, segundo Kessler, art. cit., p. 222 sq., seria, se não do próprio Mani, ao menos de um maniqueu influente; P. Alfaric, op. cit., p. 73 sq., vê nela, ao contrário, uma composição artificial de Hegemônio. Santo Agostinho reproduz, segundo Juliano de Eclano, que a trouxera para a controvérsia, uma carta de Manés à virgem Menoch, Contra Julian. op. imperf., iii, 106, 172, iv, 109, P. L., t. xlv, col. 1316, 1318, 1404. Embora o nome de Menoch apareça no catálogo de An-Nadim e o estilo dessa carta seja tecido de expressões maniqueias, devemos levar em conta a atitude reservada de santo Agostinho a seu respeito: a autenticidade é, portanto, duvidosa.

Cinco fragmentos de pretensas cartas de Mani dirigidas a Scythianus, a Addas ou Odda, a Koudaros o Sarraceno, a Zebenas, encontram-se nos tratados de Nicéforo de Constantinopla contra Eusébio, contra Epifânides e contra o grande concílio iconoclasta, em Fócio resumindo os discursos de Eulógio, e na Doctrina Patrum de incarnatione Dei Verbi. Esses cinco fragmentos não são autênticos: professam a doutrina monofisita em termos que Mani não podia empregar e não podem ser retidos. Encontrar-se-á uma coletânea dos fragmentos de Mani em grego em Fabricius-Harless, Bibliotheca græca, 2e édit., t. vii, p. 315 sq.

2° Escritos perdidos dos maniqueus. A atividade literária dos discípulos de Mani foi considerável. Durante os cerca de mil anos que durou a propaganda da seita, um número muito grande de obras, pertencentes aos gêneros mais diversos, deve ter sido publicado. Todos esses livros nos seriam preciosos para conhecer a história do maniqueísmo, e sobretudo para estudar os desenvolvimentos doutrinais que não puderam deixar de produzir-se nele. Da maior parte daqueles cujos autores e títulos conhecemos, nada conservamos, a não ser por vezes alguns fragmentos. Devemos ao menos lembrar alguns dos nomes mais importantes da literatura maniqueia.

1. A fórmula grega de abjuração, P. G., t. i, col. 1468, menciona um livro dos Memoráveis, βίβλος τῶν ἀπομνημονευμάτων, que devia narrar a vida de Mani; os pormenores que ela conhece dessa vida poderiam provir desse livro das Memórias. An-Nadim leu igualmente uma vida de Mani que é provavelmente a mesma que a da fórmula de abjuração. Flügel, Mani, p. 84, 85; P. Alfaric, op. cit., p. 80. Mas o historiador árabe sabe que existem tradições divergentes, e que se conta de diversas maneiras a biografia do Mestre.

2. An-Nadim parece ter conhecido uma história dos imãs da Babilônia, que narrava os feitos e gestos dos sucessores de Mani. Flügel, Mani, p. 97-99. Essa obra situava-se no ponto de vista histórico da ortodoxia maniqueia e mostrava a continuidade da tradição entre os imãs da Babilônia.

3. O mais antigo talvez, e em todo caso o mais importante dos escritores maniqueus é certo Addas, que os Acta Archelai, 13, p. 22, representam como o primeiro missionário de Mani. Esse Addas escrevera muito. Fócio, Biblioth., cod. 85, P. G., t. ciii, col. 288, relata que Heracliano de Calcedônia conheceu obras de Addas que expunham o maniqueísmo e que haviam sido refutadas por Tito de Bostra e por Diodoro de Tarso. Em particular, Diodoro respondera copiosamente a uma obra intitulada o Alqueire, que, talvez, estudava a vida de Cristo e seus ensinamentos. Sob o nome de Ato, que Chavannes e Pelliot identificaram com Addas, Journal asiat., 10e sér., t. xviii, p. 501, n. 2, reencontrou-se em Touen-houang um tratado maniqueu que está atualmente conservado no Museu de Pequim. Esse tratado se apresenta como uma coletânea de trechos escolhidos, extraídos verossimilmente de obras autênticas de Mani, e relativos a esta questão: a natureza primitiva do corpo carnal é simples ou dupla? Foi editado, traduzido e comentado pelos Srs. Chavannes e Pelliot no Journal asiatique, 10e sér., t. xviii, p. 499-618; cf. 11e sér., t. i, p. 99-104 e 378-383. P. Alfaric, op. cit., p. 99-103.

Segundo santo Agostinho, Addas era também conhecido pelo nome de Adimanto, a quem os maniqueus de seu tempo veneravam como o único a quem se devia aderir depois de Mani, e como o maior doutor da seita. Cont. advers. Leg. et proph., ii, 42; Cont. Faust., i, 2; Cont. Adim., xii, 2, P. L., t. xlii, col. 666, 207, 141. Adimanto era o autor de tratados que combatiam a lei e os profetas e que lhes opunham o Evangelho e o Apóstolo; Agostinho deu desses tratados uma vigorosa crítica em seu Contra Adimantum Manichaei discipulum, ibid., col. 129-172. As mesmas obras são assinaladas pela segunda fórmula grega de abjuração, P. G., t. i, col. 1468. Santo Agostinho conheceu também o início de uma obra de Adimanto, discípulo de Maniqueu; este escrito destinava-se a mostrar que a carne não foi feita por Deus. Cont. aduers. Leg. et proph., ii, 42, P. L., t. xlii, col. 666.

4. Fócio leu e deu a análise detalhada de duas obras de um certo Agápio, uma em 23 livros, outra em 102 capítulos, dedicadas a uma mulher de nome Urânia. Biblioth., cod. 179, P. G., t. ciii, col. 521. As doutrinas professadas por Agápio ligam-se às de Mani, mas são muito mais penetradas de helenismo do que os ensinamentos autênticos do Mestre. Agápio tomava muito emprestado das superstições dos gregos; Platão era o filósofo que ele preferia entre todos. Podem-se considerar suas obras como ensaios de sincretismo. Timóteo de Constantinopla, De recept. haeret., P. G., t. lxxxvi, col. 21, e as duas fórmulas gregas de abjuração assinalam um Heptalogus de Agápio, sobre o qual não se tem nenhuma informação.

5. Na sequência do Heptalogus de Agápio, a segunda fórmula grega de abjuração menciona « o livro de Aristócrito intitulado Teosofia ». P. G., t. i, col. 1468. Ela dá desse livro o seguinte resumo: « Nesse escrito, o autor esforça-se por mostrar que o judaísmo, o helenismo, o cristianismo e o maniqueísmo professam uma só e mesma doutrina. E, para ter ar de dizer a verdade, ataca o próprio Manés como a um homem perverso. »

6. Alfaric, op. cit., p. 108 sq., julgou poder identificar a obra de Aristócrito com a Teosofia em quatro livros, citada e analisada pelo opúsculo intitulado Oráculos dos deuses helênicos. Supõe que Aristócrito era um pseudônimo, assim como Agápio era o autor suposto do Heptalogus, e atribui as duas obras a um único escritor, desconhecido de resto, que vivia por volta do fim do século V. As hipóteses são plausíveis. Mas não trazem consigo um assentimento decisivo.

7. Entre os discípulos de Mani figuram, nas duas fórmulas gregas de abjuração, bem como em Fócio e Pedro da Sicília, Hierakas, Heráclides e Afthônio, « os comentadores e exegetas de seus escritos ». P. G., t. i, col. 1468. Hierakas nos é conhecido por santo Epifânio, que lhe consagra uma longa notícia, Haeres., lxvii, P. G., t. xlii, col. 172-184. Era um asceta egípcio ao qual o heresiólogo atribui várias obras escritas em grego e em copta, especialmente um Hexaméron, diversos comentários da Escritura e dos salmos. Entretanto, santo Epifânio não o inclui entre os maniqueus, embora algumas das ideias que lhe atribui possam ser aproximadas das de Mani. Um certo Heráclides é mencionado na História Lausíaca de Paládio, como o autor de uma coletânea de sentenças e de vidas dos Padres do deserto. P. G., t. lxxiv, col. 1315. Não se ousaria afirmar que fosse a mesma personagem que a visada pelos autores antimaniqueus. Afthônio vivia no Egito no século IV. Segundo Filostórgio, H. E., iii, 15, foi um dia a Antioquia para empenhar com Aécio uma conferência contraditória. Nada sabemos dos comentários que esses exegetas teriam composto sobre os escritos de Mani; e é lícito perguntar se verdadeiramente temos aqui a ver com maniqueus, ou se, antes, os autores gregos que os mencionam não se enganaram a seu respeito.

8. Outros discípulos de Mani, Sisínio, seu sucessor, Zarouas, Gabriabius, Hilário, Olímpio, Salmaius, Innaius, Paapis, Baraias, são igualmente mencionados na segunda fórmula grega de abjuração; não há por que insistir aqui nessas personagens que não são conhecidas de outro modo. Pode-se identificar Sisínio com Sis, que menciona An-Nadim. Flügel, Mani, p. 87; Zarouas com Zakouas, que assinala Epifânio; Salmaius com Salant, o destinatário da lxxixa carta de Mani. Flügel, Mani, p. 110, etc... Essas identificações não ultrapassam os limites da simples possibilidade. Cf. P. Alfaric, op. cit., p. 115-118.

9. Reencontramos uma testemunha mais sólida ao chegar a Fausto de Milevi. Este, originário de Milevi na Numídia, era um contemporâneo um pouco mais velho de santo Agostinho; e gozava, no fim do século IV, de uma sólida reputação entre os maniqueus da África. Havia escrito uma obra importante que santo Agostinho se julgou obrigado a refutar em detalhe logo que dela tomou conhecimento, o Contra Faustum manichaeum, P. L., t. xlii, col. 209-518, edit Zycha, no Corpus de Viena, t. xxv, 1891, compreende 33 livros, e reproduz a obra de Fausto quase inteira, à medida que avança em sua refutação. Cf. A. Bruckner, Faustus von Mileve. Ein Beitrag zur Geschichte des abendländischen Manichäismus, Basileia, 1901; P. Monceaux, Le manichéen Faustus de Milev : restitution de ses capitula, Paris, 1924. Cumpre também lembrar, a título de memória, Secundino, maniqueu de Roma, de quem conhecemos, pela resposta de santo Agostinho, Contra Secundinum manichaeum, P. L., t. xlii, col. 571-602, uma carta dirigida ao bispo de Hipona em 405.

Vê-se, pela lista precedente, quão mal informados estamos sobre a literatura maniqueia pelos autores ocidentais. Dessa abundante produção literária, mal alguns nomes sobreviveram ao esquecimento. As únicas obras autênticas que dela possuímos foram transmitidas nas refutações de santo Agostinho, a quem devemos a carta de Secundino, os opuscula de Fausto, as disputationes de Adimanto, para não falar mais da Epistola fundamenti do próprio Mani.

— 3° Os manuscritos descobertos na Mongólia. Mas já tivemos de assinalar certos fragmentos dessa literatura que nos foram devolvidos recentemente por achados feitos na Ásia central.

É preciso agora voltar a essas importantes descobertas. Cf. P. Pelliot, Les fouilles en Asie centrale, no Journal des Savants, 1910, p. 210-224, 291-304. No fim do século XIX, viajantes que passavam pela região de Turfan haviam ficado impressionados com a abundância de velhos papéis que ali saíam da terra. Sabia-se, por outro lado, que, ao norte de Turfan, existira outrora a cidade de Kao-Tschang, ou Kouchan, capital de um reino uigur. Decidiu-se empreender ali escavações. Os trabalhos foram conduzidos de 1893 a 1895 em nome da Sociedade de Geografia de São Petersburgo; foram continuados em 1898 pelos cuidados da Academia de Ciências de São Petersburgo, depois, a partir de 1902, por uma Associação internacional para a exploração histórica, arqueológica, linguística e etnográfica da Ásia central e do Extremo Oriente. Ao mesmo tempo, a Academia de Ciências de Munique (1902-1903), depois a de Berlim (1904-1905; 1905-1907) enviaram a Turfan missões dirigidas por Grünwedel e von Le Coq.

Por volta da mesma época, escavações consideráveis eram empreendidas em Tun-huang, no Turquestão chinês. A cerca de 20 quilômetros a sudeste dessa cidade encontram-se numerosíssimas grutas, chamadas em chinês as grutas dos mil Budas. Um monge taoísta descobriu, por acaso, em 1900, em uma dessas grutas, um esconderijo que continha um número considerável de manuscritos antigos. Um sábio inglês, o Sr. Aurel Stein, tendo sabido dessa descoberta, foi o primeiro a Tun-huang e ali comprou cerca de 5 000 manuscritos que mandou enviar a Londres. Em 1908, o Sr. P. Pelliot foi enviado por sua vez pelo governo francês à Ásia central; conseguiu que lhe cedessem grande número de manuscritos, que foram depositados na Biblioteca Nacional de Paris. Os manuscritos restantes foram enviados a Pequim. Cf. P. Pelliot, Une bibliothèque médiévale retrouvée au Kan-sou, no Bulletin de l'école française d'Extrême-Orient, t. viii, 1908, p. 501-529; Rapport de M. P. Pelliot sur sa mission au Turkestan chinois (1906-1909), em Comptes rendus de l'Académie des Inscriptions et Belles-Lettres, 1910, p. 308-325; P. Pelliot, Les grottes de Touen-houang, un atlas, Paris, 1914.

Todas essas escavações chegaram a importantes resultados. Bom número dos manuscritos reencontrados contém obras maniqueias. Entramos assim na posse de documentos preciosos para o conhecimento da história, da doutrina, da liturgia maniqueias. Todavia, não convém exagerar o valor dos documentos em questão. « A maioria, escreve P. Alfaric, é muito incompleta, e consiste em folhas esparsas, mais ou menos rasgadas e dificilmente legíveis. Encontram-se escritos em línguas pouco conhecidas que os filólogos mal conseguem decifrar, e são de compreensão tanto mais difícil quanto se apresentam como simples versões muito literais e pouco adaptadas ao espírito da língua, feitas aliás, em certos casos, a partir de outras versões igualmente defeituosas. Por isso seus recentes editores têm o cuidado de fazer notar que a tradução que deles dão é, em muitos pontos, hipotética e provisória. Aliás, os textos mais claros e mais bem conservados permanecem ainda sujeitos a caução. Sua origem é pouco conhecida, e pode-se perguntar com inquietação se todos são autênticos. » P. Alfaric, op. cit., t. I, p. 137. Em suma, esses documentos orientais confirmam e completam o que sabemos por outras vias do maniqueísmo, o que nos ensinam os outros testemunhos; não substituem esses testemunhos. Feitas essas ressalvas, os mais importantes dos textos orientais são os seguintes:

1. O Kouastouanift é um formulário de confissão maniqueia, redigido em turco antigo. Esta obra foi reencontrada quase completa num manuscrito de Tun-huang; fragmentos importantes, e em particular o início que falta no ms. de Tun-huang, foram ainda descobertos em Turfan. Cf. W. Radloff, Chuastuanit, Das Bussgebet der Manichäer, Saint-Pétersbourg, 1909; Nachträge zu Chuastuanit, em Comptes rendus de l'Académie des Sciences de Saint-Pétersbourg, 1911, p. 867-896; A. von Le Coq, Chuastuanift, eine Sünderbekenntnis der manichäischen Auditores, gefunden in Turfan, em Abhandlungen de l'Académie des Sciences de Berlin, 1910; Id., Dr. Stein's turkish Khuastuanift from Tun-huang, being a confession prayer of the manichaean Auditores, no Journal of the royal asiatic Society, 1911, p. 277-314. O documento divide-se em 15 seções numeradas, cada uma das quais concerne a um gênero especial de faltas. Os discípulos de Mani acusam-se dos pecados que cometeram:

1. renegando Zervan, o bem supremo, ou seu filho Khormutza, o adversário do demônio; 2. ofendendo o Deus do sol e da lua, cuja vigilância recolhe os bons elementos caídos em poder das potências más; 3. atacando esses restos da substância espiritual que animam as diversas partes do mundo material; 4. desconhecendo os Bourkhans ou enviados do céu e os Eleitos, encarregados de continuar aqui embaixo sua obra salutar; 5. torturando os cinco gêneros de seres vivos, homens, quadrúpedes, aves, peixes ou répteis, nos quais o Ser divino permanece aprisionado; 6. cometendo um dos dez gêneros de pecados aos quais se pode deixar arrastar por pensamentos, palavras ou ações; 7. adotando falsas crenças ou praticando ritos diabólicos; 8. negligenciando os dois princípios, os três momentos ou os quatro selos; 9. infringindo os dez mandamentos que regulam o uso da boca, do coração, da mão ou do conjunto dos órgãos; 10. não se desobrigando, como convém, do louvor que é devido a Zervan, aos deuses do sol e da lua, ao espírito poderoso e aos Bourkhans; 11. não distribuindo aos Eleitos as sete esmolas prescritas pela lei para a libertação dos elementos divinos; 12. não observando fielmente os cinquenta jejuns anuais; 13. não assistindo às orações da segunda-feira em que se faz a confissão dos pecados; 14. não santificando os meses da penitência com boas obras; 15. enfim, deixando-se levar a toda sorte de negligências cotidianas, nos pensamentos, nas palavras, ou nos atos. » P. Alfaric, op. cit., t. II, p. 134, 135.

2. Hinos.

Sabemos que os maniqueus possuíam coletâneas de hinos; santo Agostinho fala repetidas vezes de hinos, salmos e cânticos que conheceu do tempo em que ele próprio era maniqueu, e que cantava nas assembleias, De mor. man., 55; Enarr. in Psalm. 140, 12; Cont. Faust., XIII, 18; Conf., III, 14, P. L., t. XXXII, col. 1369; t. XXXVIII, col. 1823; t. XLII, col. 293; t. XXXII, col. 689. Duas folhas de uma coletânea uigur de hinos maniqueus foram reencontradas em Turfan. A primeira dessas folhas é uma espécie de prefácio, que conta como foi empreendida a coleção dos hinos, e como foi prosseguida após uma longa interrupção; a segunda, intitulada Início dos cantos, dá os títulos de cerca de 200 hinos litúrgicos repartidos em quatro séries: cantos de louvor, invocações pelos vivos, orações pelos mortos, salmos de penitência (?). Cf. F. W. K. Müller, Ein Doppelblatt aus einem manichäischen Hymnenbuch, (Mahrnamag), em Abhandlungen de l'Académie des Sciences de Berlin, 1913; P. Alfaric, op. cit., t. II, p. 126-132. Outros fragmentos de hinos, mais ou menos importantes, mas que parecem de origem bastante recente, foram ainda reencontrados em Turfan, e publicados sobretudo por F. W. K. Müller, Handschriften Reste in Estranghelo Schrift aus Turfan, Chinesisch-Turkistan, em Abhandlungen de l'Acad. des Sciences de Berlin, 1904.

3. O tratado de Tun-huang. Já se assinalou este tratado dogmático, reencontrado há pouco na gruta de Tun-huang e hoje conservado em Pequim. Cf. supra, col. 1850. Este tratado apresenta-se como obra comum de Ato, que provavelmente se deve identificar com Addas, e de Mani.

I. Fragmentos históricos. Um número certo dos trechos reencontrados na Ásia central deve provir de obras históricas. Dois fragmentos de Turfan, F. W. K. Müller, Handschriften Reste, p. 80 sq., narram episódios da vida de Mani. Sem dúvida era também à vida de Mani que era consagrado o Ardavijt, cujo título se reencontra num catálogo de escritos maniqueus provindo igualmente de Turfan. C. Saleman, Ein Bruchstück manichäischen Schrifttums im asiatischen Museum, em Comptes rendus de l'Académie des Sciences de Saint-Pétersbourg, 1904. Talvez alguns fragmentos publicados por F. W. K. Müller, op. cit., p. 86-92, provenham do Ardavijt. V. Alfaric, op. cit., t. II, p. 86, 87. Outros trechos narram o apostolado de um certo Mar-Amou nas regiões do Oxus; faziam parte de um livro histórico relativo a uma das principais seitas maniqueias. Esses trechos foram publicados por F. W. K. Müller, op. cit., p. 30, e por A. von Le Coq, Türkische Manichaica aus Chotscho, I, em Abhandlungen de l'Académie de Berlin, 1912; cf. P. Alfaric, op. cit., t. I, p. 33; t. II, p. 88, 89.

Concluímos assim a enumeração das fontes propriamente maniqueias. Escritos autênticos de Mani e obras dos fiéis maniqueus constituíram uma importante literatura que expunha as doutrinas da seita, dava a conhecer sua liturgia e narrava sua história. De toda essa produção, só possuímos hoje raros fragmentos. As medidas de perseguição de que os livros maniqueus foram vítimas desde cedo explicam só demasiadamente esse desaparecimento quase completo. Bastará aqui assinalar as principais dessas medidas. No Ocidente, desde 287, uma lei do imperador Diocleciano, promulgada a pedido do procônsul da África, Juliano, condenava ao fogo os organizadores e chefes do maniqueísmo, com suas abomináveis Escrituras. Cod. gregor., XIV, tit. IV. Durante todo o século IV, o maniqueísmo não cessou de ser perseguido pelos imperadores cristãos. No século V, o papa são Leão mandou queimar os manuscritos dos maniqueus, dos quais grandes massas haviam sido apreendidas. Prosper, Chronicon, P. L., t. LI, col. 600. Sob o papa Gelásio (492-496), queimaram-se de novo os manuscritos maniqueus diante das portas da basílica de Santa Maria. As mesmas execuções diante das portas da basílica constantiniana sob os papas Símaco e Hormisdas. Liber pontificalis, édit. Duchesne, t. I, p. 270 sq. O Decreto de Gelásio condena nominalmente a Epístola do Fundamento e o Tesouro, assim como os opúsculos de Fausto de Milevi. P. L., LIX, col. 162. A partir do século VI, já não se fala de escritos maniqueus nos países latinos.

No Oriente, a literatura da seita levou mais tempo a desaparecer. Justiniano teve de promulgar contra ela e contra seus detentores o seguinte decreto: « Decretamos que se alguém, tendo livros que professam o erro absolutamente ímpio dos maniqueus, não os mostrar para fazê-los queimar e desaparecer inteiramente, ou se alguém, sob qualquer pretexto que seja, for achado guardando em casa esse gênero de livros, sofrerá um semelhante castigo (isto é, a morte). » Cod. Justin. I, V, 16. Fora do império romano, as obras maniqueias foram perseguidas com ainda mais rigor. Os soberanos persas da dinastia dos Sassânidas fizeram guerra de morte a Mani e a seus discípulos, e suas perseguições atingiram os livros dos sectários. Os conquistadores árabes seguiram esse exemplo: o maniqueísmo não foi mais tolerado pelos príncipes abássidas do que pelos soberanos da Pérsia. Desde o século X, as Escrituras maniqueias haviam desaparecido da Ásia anterior. Na China, a perseguição começou mais tarde; mas não foi nem menos violenta, nem menos perseverante. Em 842, uma ordenança imperial encarregou os funcionários que isso concernia de recolher os livros e as imagens dos maniqueus e de queimá-los na praça pública. Em 1166, um certo Loa Yeou dirigiu ao imperador uma súplica que lhe pedia conceder um prazo de um mês aos detentores de livros e de imagens maniqueus; passado esse prazo, uma punição severa devia ser infligida aos refratários; e os diversos livros deviam ser lançados ao fogo. A partir do século XIII, já não se fala na China desses livros. Cf. Chavannes et Pelliot, Traité manichéen retrouvé en Chine, no Journal asiatique, 1913, mars-avril, 11e sér., t. I, p. 261-370.

II. — Fontes orientais.

— Tão incompletas, tão fragmentárias são as informações que nos fornecem sobre o maniqueísmo, sua história e sua doutrina, as fontes propriamente maniqueias, que somos obrigados a recorrer, para completar nossa documentação, às fontes indiretas, isto é, aos escritores que possuíam ainda em sua integridade os escritos autênticos de Mani e de seus discípulos, e que puderam dar-nos deles extratos ou análises.

1. Dos testemunhos orientais, os mais importantes são de origem muçulmana. a) O autor que é preciso citar em primeiro lugar, o mais rico em informações sobre Mani e sua doutrina, é Aboul-Faradj Mohammed ben Ishak an-Nadim, conhecido habitualmente pelo nome de An-Nadim, e apelidado o livreiro de Bagdá. Este redigiu em 988 seu Fihrist al-oloum, ou Catálogo das ciências, que é uma espécie de história da literatura, dando a vida dos principais autores e o resumo de suas obras. Na 1a seção do IX livro, imediatamente depois de ter falado dos sabeus, estuda as doutrinas dos maniqueus, começa por um resumo da vida de Mani. Expõe em seguida seus ensinamentos, e completa sua obra por uma rápida história do maniqueísmo até sua época. A obra de An-Nadim é tanto mais preciosa quanto na maioria das vezes cita ou resume os escritos dos maniqueus: infelizmente não indica referência exata, e limita-se a citar suas fontes sob a fórmula geral: Mani ensina, ou: Os maniqueus relatam. Apesar de tudo, An-Nadim continua sendo um dos mais preciosos informantes sobre o maniqueísmo. A parte do Fihrist que nos interessa foi comentada por Gustave Flügel, Mani, seine Lehre und seine Schriften, Ein Beitrag zur Geschichte des Manichäismus. Aus dem Fihrist. Texte, traduction et commentaire, Leipzig, 1862, in-8 de 440 p.

b) Depois do Fihrist, o mais notável dos textos árabes relativos ao maniqueísmo é a História das seitas religiosas e das doutrinas filosóficas, Kitab al milal wan-nihal do sábio historiador da filosofia, Aboul Fath Mouhammad Sharastani, que morreu em 1153. Sharastani estuda primeiro as religiões que têm uma Escritura revelada, a saber o islamismo, o judaísmo e o cristianismo; depois aquelas que têm uma aparência de Escrituras; e é entre estas que ele inclui o maniqueísmo ao lado do masdeísmo. Conhece os Gigantes e o Shapurakan de Mani, dos quais cita algumas frases interessantes. O Kitab al milal foi editado por W. Cureton, Londres, 1842, 2 vol. (ver sobretudo o t. I, p. 188-192) e traduzido para o alemão por Th. Haarbrücker, Sharastani's Religionsparteien und Philosophen. Halle, 1850, 2 vol. (ver t. I, p. 285-290).

c) Outro historiador, o persa Al-Biruni, de Khwarizm, em sua Cronologia dos povos orientais, escrita por volta do ano 1000, dá interessantes detalhes sobre a vida de Mani e cita diversos extratos do Evangelho e do Shapurakan. A Cronologia foi editada por E. Sachau, Leipzig, 1878; uma tradução inglesa, feita pelo mesmo autor, apareceu em Londres em 1879, no Oriental translation Fund. Um estudo detalhado desse texto de Biruni com importantes comentários foi dado por K. Kessler, Mani, t. I, 1889, p. 304-323. Al-Biruni fala ainda de Mani e de sua doutrina em outra obra escrita por volta de 1030, a História da Índia; cita aí passagens dos Mistérios e do Tesouro. Cf. Albiruni's India, edited in the arabic original by Dr Edward Sachau, Londres, 1887; uma tradução inglesa de E. Sachau apareceu em 1888 em Londres.

d) Na sequência desses três autores, os mais importantes, podem-se ainda citar: Al-Gahiz (m. 869), cujo Kitab al haiwan (Livro dos animais) dá algumas informações doutrinais e históricas sobre o maniqueísmo. Cf. K. Kessler, Mani, p. 365-370. Ibn-Wadih al-Yuqoubi (séc. IX), em sua História, edit. Houtsma, Leyde, 1883, conta a história de Mani e dá sobre suas obras indicações bastante precisas. Cf. K. Kessler, op. cit., p. 323-331. Tabari (m. 923) em sua Crônica relata diversos incidentes da vida de Mani e de seus principais discípulos; trad. Zotenberg, iv, 447-453. Masoudi (m. 956), no Livro do aviso e da revisão, assinala quatro obras de Mani; trad. Carra de Vaux, Paris, 1898, p. 187, 188. Nas Pradarias de ouro, faz alusão aos dogmas maniqueus; édit. et trad. E. Barbier de Meynard, Paris, 1863; t. I, p. 199, 288, 299; t. II, p. 167, 168, 195; t. III, p. 435; t. IV, p. 385; t. VII, p. 12-16; t. VIII, p. 293. Ibn al-Mourtada (século XIV) em sua grande obra histórico-filosófica intitulada O alto-mar, analisa em detalhe as doutrinas maniqueias. Cita mesmo, mas indiretamente, o Evangelho e o Shapurakan. Cf. K. Kessler, Mani, p. 343-355.

2. Entre as fontes persas, escritas em pehlvi, assinalemos apenas o Shikand goumanik vidshar (Explicação que dissipa a dúvida), obra do século IX. « A parte consagrada à crítica dos maniqueus abre-se por uma exposição bastante curta, mas muito densa, das doutrinas de Mani. Não menciona nenhum livro, mas deve visar a um, mais conhecido e mais importante que os outros, e parece fazer-lhe a análise. » P. Alfaric, op. cit., t. I, p. 122. Trad. inglesa por E.-W. West, dans The sacred books of the East, t. xxiv, Oxford, 1885, p. 243-251. Trad. alemã e comentário por C. Salemann, em Mémoires de l'Acad. des Sciences de Saint-Pétersbourg, 1904. b) Mais importante talvez seja o Dinkard, que pertence ao mesmo período, e onde são enumeradas as dez fórmulas do demônio Mani contra as advertências do piedoso Atarepat-i-Marespand. Trad. inglesa por Peshotun Dustoor Behramjee Sunjana, Bombay, 1874-1891; t. IV, p. 211, 212; t. V, p. 315-317. Na 2a metade do século XV, o persa Mirchond publicou O jardim da pureza, espécie de história universal, onde conta a história de Mani e em particular insiste sobre a origem do Evangelho. Não sai aliás do domínio da lenda. Cf. K. Kessler, Mani, p. 377-381.

3. Grande número de escritores cristãos, sobretudo de língua siríaca, tiveram de ocupar-se de Mani, para combatê-lo, e foram desse modo levados a expor suas doutrinas. a) O primeiro Padre que menciona Mani é Afraates, o Sábio persa; contenta-se aliás em nomeá-lo ao lado de Marcião e de Valentim, entre os adversários da unidade divina. Demonstr., II, 9, Patrol. syriaca, t. I, p. 115, 1855. b) Santo Efrém teve repetidas vezes ocasião de combater o maniqueísmo.

Os Sermones adversus hæreses, edição romana, t. v, col. 437-560, são dirigidos contra os partidários de Bardesano, de Marcião e de Mani. Aos maniqueus, Efrém censura sobretudo sua doutrina da impureza da matéria. Os Tractatus ad Hypatium adversus hæreses são dirigidos contra os mesmos adversários. Deve-se dizer o mesmo do discurso intitulado Ad Domnum. O I e fragmentos do II ad Hypatium são editados por J. J. Overbeck, S. Ephraemi Syri... opera selecta, Oxford, 1865, p. 21-73; os fragmentos conservados dos II-V e o livro ad Domnum por C.-W. Mitchell, S. Ephraim's prose refutations of Mani, Marcion and Bardaisan, t. I, The discourses addressed to Hypatius, Londres, 1912 (publicado por A. A. Bevan e F. C. Burkitt), t. II, The discourse called of Domnus and six other writings, Londres, 1921. Entre os Carmina Nisibena, os números 43-51 defendem a fé na ressurreição contra os ataques de Mani, Marcião e Bardesano; edit. G. Bickell, Leipzig, 1866. Todos esses escritos de santo Efrém são interessantes de consultar, porque o diácono de Edessa dá neles úteis informações sobre a literatura maniqueia.

c) Teodoro Bar-Khôni, no Livro das Escólias, escrito por volta de 791, consagra uma seção importante ao maniqueísmo. Inspira-se em santo Epifânio; mas possui um conhecimento pessoal dos escritos maniqueus, dos quais cita certo número de frases mais ou menos inteligíveis. Cf. H. Pognon, Inscriptions mandaites des coupes de Khouabir, Paris, 1899; F. Cumont, Recherches sur le manichéisme, fasc. 1, Bruxelles, 1908. d) Miguel o Sírio, em sua Crônica, edit. J.-B. Chabot, Paris, 1900, p. 198-201, mostra-se exatamente informado sobre o maniqueísmo. e) Deve-se dizer o mesmo de Bar-Hebreu que, em sua Crônica eclesiástica, edit. Abbeloos-Lamy, Louvain, 1892, t. i, p. 59-62, e em sua História abreviada das dinastias, edit. Pococke, Oxford, 1663, p. 82, 83, dá certos detalhes interessantes. O armênio Eznik de Kolb, na obra conhecida sob o nome de De sectis, e que aliás é antes um tratado De Deo, consagra uma passagem à doutrina das duas raízes, exposta pelos Zandiques, discípulos do heresiarca persa.

— 2° Fontes gregas e latinas. 1. O mais antigo autor grego que fala dos maniqueus parece bem ser, no início ou no fim do século III ao IV, Alexandre de Licópolis. Deve-se a Alexandre um tratado De placitis manichæorum, P. G., t. xviii, col. 409-448. O autor provavelmente não é cristão. Conhece bem o maniqueísmo e parece ter utilizado as obras autênticas de Mani, pelo menos os κεφάλαια.

2. Entre os cristãos é preciso dar o primeiro lugar, tanto por sua data quanto por sua importância, a Hegemônio, o autor, aliás desconhecido, dos Acta Archelai. Dessa obra, escrita no século IV, só possuímos, com exceção de alguns fragmentos gregos, uma tradução latina, que se deve ler na edição de Beeson do Corpus de Berlim, Leipzig, 1906. É um diálogo, ou antes uma série de diálogos, entre Arquelau, bispo de Kashkar, e Mani. Algumas personagens episódicas, Turbo, discípulo de Mani, Marcelo, cristão de Kashkar, atravessam a cena. O autor haurira suas informações em fontes muito boas. Sem dúvida, já se encontra nela certo número de elementos legendários; mas seu conhecimento dos escritos de Mani preservou-o de muitos erros, e permitiu-lhe traçar uma imagem exata da doutrina. Cf. K. Kessler, art. Mani, Manichæismus, na Protest. Realenc, t. xii, p. 196; P. Alfaric, op. cit., t. ii, p. 3-8.

3. Serapião de Thmuis († por volta de 358) escreveu contra os maniqueus um tratado importante, que foi reempregado por Tito de Bostra, alguns anos após a morte de seu autor. Cf. A. Brinkmann, Sérapion von Thmuis, em Sitzungsberichte de l'Académie de Berlin, 1894, p. 479-491. Para a obra de Tito, ver a edição de P. de Lagarde, Titi Bostreni quæ ex opere contra manichæos edito in codice Hamburgensi servata sunt græce, Leipzig, 1859. O escrito de Serapião figura em P. G., t. xl, col. 900-924.

4. Santo Epifânio consagrou a heresia lxvi a Mani e ao maniqueísmo. Utiliza sobretudo os Acta Archelai e a obra de Tito de Bostra. Sua erudição é aqui um pouco curta, e não se tem grande coisa importante a tirar dele. P. G., t. xlii, col. 29-172.

5. Outro tanto se deve dizer da obra de Dídimo de Alexandria, Adversus manichæos, P. G., t. xxxix, col. 1085-1109, que nada tem de particularmente notável.

6. Deve-se, ao contrário, dar um lugar à parte aos tratados antimaniqueus de santo Agostinho. Este tem um conhecimento direto do maniqueísmo, do qual fez profissão durante nove anos, entre seu 19o e seu 28o ano. Estudou as escrituras maniqueias; defendeu com ardor as doutrinas da seita, para a qual recrutou adeptos. Convertido ao catolicismo, continuou a interessar-se pelo maniqueísmo, a ler-lhe os livros, a estudar-lhe as doutrinas. É, portanto, uma testemunha de excepcional autoridade. As obras em que toma a partido seus antigos correligionários e que devem ser aqui assinaladas são as seguintes:

a) De moribus Ecclesiæ catholicæ et de moribus manichæorum libri duo, P. L., t. xxxii, col. 1309-1378, começado em Roma em 388 e concluído na África em 389. b) De libero arbitrio libri tres, P. L., t. xxxii, col. 1221-1310, começado em 388 e concluído somente em 395. Sobre a origem do mal que provém do livre arbítrio. c) De Genesi contra manichæos libri duo, P. L., t. xxxiv, col. 174-220; escrito em Tagaste em 389; justificação dos três primeiros capítulos do Gênesis contra as objeções maniqueias. d) De vera religione liber unus, P. L., t. xxxiv, col. 121-172, redigido em Tagaste em 390. A obra é consagrada a estabelecer a existência de um Deus único, contra o dualismo dos maniqueus. e) De utilitate credendi ad Honoratum, P. L., t. xlii, col. 65-92; edit Zycha, no Corpus de Viena, t. xxv a; escrito em Hipona em 391. f) De duabus animabus contra manichæos, P. L., t. xlii, col. 93-112; édit. Zycha, ibid.; composto em 391. Sobre o ensinamento maniqueu das duas almas. g) Acta seu disputatio contra Fortunatum manichæum, P. L., t. xlii, col. 111-130. Sobre a origem do mal; relato taquigrafado de uma discussão realizada nos dias 28 e 29 de agosto de 392. h) Contra Adimantum Manichæi discipulum, P. L., t. xlii, col. 129-172; édit. Zycha, no Corpus de Viena, t. xxv a; redigido em 394. Sobre as contradições entre o Antigo e o Novo Testamento. i) Contra epistolam Manichæi quam vocant fundamenti, P. L., t. xlii, col. 173-206; édit. Zycha, ibid.; de 397. Muito importante: cf. acima col. 1845. j) Contra Faustum manichæum libri triginta tres, P. L., t. xlii, col. 207-518; édit. Zycha, ibid. Refutação de uma obra de Fausto, bispo maniqueu de Milevi, redigida por volta de 400. k) De actis cum Felice manichæo libri duo, P. L., t. xlii, col. 519-552. Discussão taquigrafada, realizada em Hipona nos dias 7 e 12 de dezembro de 404. l) De natura boni contra manichæos, P. L., t. xlii, col. 551-572; édit. Zycha, no Corpus de Vienne, t. xxv a. Escrito pouco depois de 404. m) Contra Secundinum manichæum, P. L., t. xlii, col. 577-602; édit. Zycha, ibid. Resposta composta por volta de 405 a uma carta do maniqueu Secundino.

7. Aos escritos de santo Agostinho é preciso aproximar o livro de Evódio de Uzalis, De fide contra manichæos, P. L., t. xlii, col. 1139-1154; édit. Zycha, ibid., onde são citadas repetidas vezes as obras maniqueias.

8. Zacarias de Mitilene (bispo de Antioquia por volta de 539), consagra uma homilia a expor os princípios da fé maniqueia. O texto grego dessa homilia está perdido, mas dela temos ainda uma versão siríaca que foi publicada, traduzida e comentada por F. Cumont, Recherches sur le manichéisme, fasc. 2, Bruxelles, 1912.

9. São João Damasceno é o autor de um Diálogo contra os maniqueus, P. G., t. xciv, col. 1503-1584, e de uma Discussão de João o ortodoxo com um maniqueu, t. xcvi, col. 1319-1326. Por tardias que sejam essas obras, não deixam de conter algumas informações interessantes.

10. Fócio, o autor de uma História dos maniqueus, P. G., t. cii, col. 16-84, será o último escritor que assinalaremos. Tem em vista sobretudo a propaganda paulicianista; mas mostra-se bem informado sobre o maniqueísmo, e dá sobre Mani e sua doutrina informações que não figuram em outro lugar.

Por longa que seja, a lista que acabamos de dar está longe de ser completa. Quase todos os autores cristãos desde o fim do século III tiveram em certos momentos ocasião de ocupar-se do maniqueísmo; e poder-se-iam recolher em suas obras detalhes úteis para o conhecimento, se não da doutrina, ao menos da história exterior e da difusão do maniqueísmo. Os que mencionamos são, contudo, os mais úteis de consultar.

Restaria agora tratar a grande questão do emprego dessas fontes. À falta das obras autênticas de Mani ou de seus primeiros discípulos, somos obrigados a recorrer habitualmente a testemunhos de segunda mão. Entre os historiadores do maniqueísmo, uns dão preferência às fontes orientais, e mais precisamente aos historiadores muçulmanos: assim faz K. Kessler em sua grande obra sobre Mani e no artigo Mani da Protest. Realencyclopädie. Outros, ao contrário, apoiam-se mais voluntariamente nos documentos greco-romanos, isto é, também cristãos. É certo que os Padres, quando falam do maniqueísmo, consideram-no um erro e o representam por conseguinte com traços carregados de negro. Mas por vezes se exagerou seu partido tomado. Os heresiólogos estão longe de merecer o desprezo com que alguns críticos os cobriram. Dispõem muitas vezes de documentos preciosos, e não desfiguram as doutrinas que têm de combater. O testemunho de santo Agostinho em particular tem para nós uma autoridade toda especial, pois é o de um antigo maniqueu; e muitos detalhes que ele relata foram confirmados pelos documentos achados no Turquestão chinês. Não se deve esquecer tampouco que as fontes cristãs são mais antigas que os historiadores árabes. Estes conhecem, é verdade, os livros autênticos de Mani. Mas conhecem igualmente as transformações sofridas por sua doutrina no curso dos séculos; não fazem de ordinário a separação entre o original e o adventício. Um estudo de conjunto, como o que temos a fazer, não poderia entrar numa discussão de detalhe. Esforçar-nos-emos aqui por recolher os testemunhos mais sólidos. Mas é preciso confessar que certos pontos, ao menos da lenda de Mani e de seu ensinamento, permanecem envoltos em obscuridades impossíveis, no estado atual de nossos conhecimentos, de dissipar.

II. Vida de Mani. O fundador do maniqueísmo é conhecido pelo nome de Mani, em grego Μάνης ou por vezes Μανιχαῖος. Os autores gregos o chamam Mânes ou Manichéus, e esta última forma é a que emprega santo Agostinho. A significação etimológica desse nome é desconhecida, os antigos escritores gregos, sempre preocupados com a onomástica, explicam-no como o equivalente de μανῆναι ou de μανία. É verdade que parece que o nome de Manés se liga a uma raiz aramaico-babilônica e pode ser identificado ao de Mena, que, entre os mandeus, serve para designar um espírito do mundo luminoso. Poderia então ser que não tenha sido o nome primitivo de Mani, mas um título honorífico tomado pelo próprio fundador ou concedido a este por seus discípulos. Se se devesse crer nos Acta Archelai, 64, p. 92, Mani se teria chamado primeiro Corbicius.

É difícil, em meio às divergências de nossas fontes, formar uma ideia completa da vida de Mani. Somente as grandes linhas do relato podem pretender à exatidão. Segundo Birûni, que tomava emprestado este detalhe ao Shâpurakân, Mani nasceu no ano 527 da era dos astrônomos babilônios ou do cômputo de Alexandre, o 2o do reinado de Adharban, o que corresponde aos anos 215-216 da era cristã: Birûni, Chronologie, trad. Sachau, 121. No dizer do mesmo historiador, Mani acrescentava que viera ao mundo em Mardinu, na Babilônia, no distrito de Nahar-Koutha, ao sul de Ctesifonte. Muitas vezes se notou que a Babilônia era então a terra prometida do sincretismo religioso e constituía um terreno maravilhosamente preparado para a pregação do futuro reformador. Temos tanto menos que insistir nessa ideia quanto conhecemos bastante mal o estado religioso dessa região no século III. É contudo certo, e o constataremos sem dificuldade, que Mani deve a maior parte de suas teorias às religiões, ou mesmo às superstições em meio às quais cresceu, e que sua principal originalidade reside na sistematização que soube fornecer de tão grande número de elementos esparsos.

An-Nadim conta que o pai de Manés trazia o nome de Fouttak ben Ali Barzam e provinha da família dos Askânidas. Flügel, Mani, p. 84. A fórmula grega de abjuração transforma esse nome no de Pateikos; e pode-se aproximar essa forma grecizada de Patrício, nome do destinatário da Epístola do fundamento segundo santo Agostinho. A mãe de Mani, segundo a mesma fórmula grega, teria se chamado Karossa. Esse nome é certamente legendário. Não se poderia atribuir maior importância aos nomes de Meis, Outachim e Mar Mariam indicados por An-Nadim. Fouttak era originário de Hadaman, cidade persa, de onde se dirigira à Babilônia, para residir habitualmente em Al-Madain, na parte da cidade chamada Ctesifonte. Nesse lugar, prossegue An-Nadim, encontra-se o templo dos ídolos. Fouttak tinha o cuidado de ir lá, assim como os demais habitantes. Ora, um dia, no fundo do santuário, uma voz lhe disse: « Ó Fouttak, não comas carne, não bebas vinho, e mantém-te longe das mulheres. » Durante três dias a mesma voz se fez ouvir a ele em diversas ocasiões. Depois de refletir sobre isso, Fouttak juntou-se às gentes da região de Dastou Meisan, conhecidas pelo nome de Moughtasilas, aqueles que se purificam. » Flügel, Mani, p. 84.

Este último traço merece ser destacado. Os moughtasilas admitiam teorias dualistas: ao Deus Altíssimo, que domina todos os seres, estavam subordinados, segundo eles, dois personagens, o Cristo e o Diabo, igualmente saídos dele, e por ele postos à frente, um dos tempos futuros, o outro do século presente. Em toda a criação reencontrava-se a oposição do bem e do mal, do macho e da fêmea, da direita e da esquerda, da água e do fogo. A água era o meio da salvação, o fogo o da perdição. A água do batismo livrava do fogo do inferno. Os batizados deviam, aliás, levar uma vida santa, não tomar nenhum alimento animal, abster-se das mulheres. A verdade religiosa estava consignada na Lei e no Evangelho; mas o verdadeiro sentido dos Livros santos se perdera: somente os moughtasilas o haviam conservado, graças ao livro que Elchasai trouxera do céu sob a forma de um anjo.

Desde a infância, Mani foi agregado à seita dos moughtasilas. Seu pai levou-o consigo para criá-lo segundo suas próprias ideias. A lenda conta que, quando tinha a idade de doze anos, Mani recebeu sua primeira revelação: « Depois de completar seu décimo segundo ano, escreve An-Nadim, recebeu, segundo seu próprio testemunho, as revelações do rei do paraíso da luz, isto é, segundo suas expressões, do Deus Altíssimo. O anjo que lhas trouxe chamava-se Eltawan, o que quer dizer em nabateu, o companheiro. Esse anjo lhe disse: « Abandona essa comunidade. Não pertences a seus adeptos. Teu papel consiste em regular os costumes e refrear os prazeres. Mas por causa de tua juventude, o tempo ainda não chegou para ti de entrar em cena. » Flügel, loc. cit. Só doze anos mais tarde, quando Mani completou seu vigésimo quarto ano, é que entrou na vida pública: « O anjo Eltawan voltou a ele e lhe disse: « O tempo chegou agora para ti de aparecer em público e de proclamar tua própria doutrina. » As palavras que o anjo Eltawan lhe dirigiu são as seguintes: « Salve, Mani, da minha parte e da parte do Senhor que me enviou a ti, e que te escolheu para seu mensageiro. Ele te ordena que te entregues a teu ensinamento, e que anuncies a alegre promessa da verdade que vem dele, e que te entregues a isso com todo o zelo possível. » « Mani, contam seus discípulos, fez sua aparição pública no dia do advento e da coroação de Sapor, filho de Adraschir. Era um domingo, o primeiro dia de nisan, e o Sol estava no Carneiro. Tinha dois companheiros que andavam em seu séquito e se apegavam à sua doutrina. Um se chamava Schamoum e o outro Zachou. » Flügel, loc. cit.

Notaram-se as relações que unem a lenda de Mani à história de Bardesano; cf. P. Alfaric, op. cit., t. II, p. 80, n. 3, p. 81 n. 1 et 4; F. Nau, Une biographie inédite de Bardesane. Assinalaram-se igualmente certas semelhanças entre a infância de Mani e os relatos de são Lucas sobre a infância de Nosso Senhor. Essas aproximações mostram ao menos que a lenda de Mani foi em parte construída segundo relatos anteriores e que não se poderia tomar ao pé da letra as fórmulas de An-Nadim.

Os Acta Archelai contam de maneira toda diferente os começos de Mani. Segundo Hegemônio, seu autor, o chefe e inventor da seita maniqueia teria sido um certo Scythianus, contemporâneo dos apóstolos. Scythianus era da raça dos sarracenos; desposou uma cativa da Alta Tebaida que o decidiu a habitar no Egito; ali aprendeu a sabedoria dos egípcios e prendeu a si um discípulo de nome Terebinto, que, este, escreveu quatro livros: os Mistérios, os Princípios, o Evangelho e o Tesouro. Depois da morte de Scythianus, Terebinto começou a pregar sua doutrina na Babilônia, sob o nome de Buda. Mas o ensinamento do novo profeta suscitou numerosos contraditores, e Terebinto não pôde fazer outros discípulos senão uma velha viúva, em cuja casa se retirou. Um belo dia, Terebinto se matou, caindo do terraço em que subira para rezar. A mulher recolheu a sua herança, com os quatro livros de Scythianus. Ora, essa mulher veio a comprar como servidor um menino de sete anos, Calício. Foi esse Calício quem, cinco anos depois, herdou os livros de Scythianus, passou à Pérsia onde tomou o nome de Manés. Adquiriu grande sabedoria em sua nova pátria, e pôs-se a pregar a doutrina de Scythianus, não sem ter aumentado consideravelmente suas obras, que publicou sob seu próprio nome. Acta Archel., 62-65, p. 90-95.

Kessler, art. Mani, na Protest. Realencycl., t. XII, p. 20, tentou deslindar um fundo histórico no relato de Hegemônio. É empresa bastante vã. Os próprios nomes de Scythianus e de Terebinthus são imaginários, e a cronologia que faz remontar ao tempo dos apóstolos a primeira origem do maniqueísmo ultrapassa os limites da fantasia. Do relato dos Acta, só se reterão os títulos das grandes obras de Mani, e, além disso, esta ideia justa de que a doutrina maniqueia deve muitos elementos às sabedorias estrangeiras, em particular às teorias gnósticas e às tradições persas.

A esse respeito, o racionalismo de Hegemônio substitui vantajosamente as aparições do anjo Eltawan de que falava An-Nadim. Muitas influências humanas se exerceram sobre Mani, que foi durante toda a vida o leitor atento de toda sorte de obras, o hábil elaborador de uma multidão de ideias adquiridas do exterior. Desde muito cedo, os autores cristãos que o refutaram puseram em relevo a semelhança de suas teorias com as dos grandes gnósticos. São Efrém o aproxima de Marcião e de Bardesano. Outros, como Hegemônio, São Cirilo de Jerusalém e Serapião de Thmuis, o põem em paralelo com Basílides e Valentim. Há nisso uma parte de literatura; é um procedimento da polêmica contra as heresias estabelecer uma espécie de sucessão entre os doutores da mentira e atribuir à gnose a origem de todos os erros. Mas há também aí uma parte muito grande de realidade. A semelhança do dualismo de Mani com o dualismo de Marcião não é duvidosa; os historiadores árabes, que aqui não são testemunhas suspeitas, não hesitaram, contudo, em pronunciar os mesmos nomes que os heresiólogos cristãos. Segundo Sharastani, Mani depende de Bardesano em todos os pontos, exceto no que concerne ao mediador. Flügel, Mani, p. 165. Mâsoudi vê em Mani o discípulo de Cerdão, de quem os primeiros polemistas cristãos fazem frequentemente o mestre de Marcião. Sabemos, aliás, pelo próprio Mani, que ele conhecia os escritos gnósticos e se interessava por suas especulações. Três capítulos do livro dos Mistérios eram consagrados aos Deisanitas, que são discípulos de Bardesano (c. i, xii e xiii), e Birûni cita, de um desses capítulos, a seguinte passagem: «Os partidários de Bardesano pensam que a alma viva se eleva e se purifica na carcaça. Não sabem que esta última é a inimiga da alma, que a carcaça impede a alma de elevar-se, que é uma prisão e um duro castigo para a alma.» Birûni, India, trad. Sachau, 55. Do mesmo modo t. i, p. Mâsoudi nos informa que um capítulo do Tesouro era consagrado aos marcionitas. Le livre de l'avertissement et de la révision, trad. Carra de Vaux, p. 188. Em suma, Mani foi um grande leitor. E suas leituras incidiram desde cedo sobre os trabalhos recentes dos grandes representantes da gnose, dos quais todos falavam ao seu redor.

Ele encontrou aí uma doutrina mais vasta e mais compreensiva do que aquela que havia aprendido entre os moughtasilas. Foi assim que veio a deixar estes últimos para elaborar um sistema novo, que dava ao ensinamento deles uma forma mais ampla e mais sistemática. P. Alfaric, op. cit., t. i, p. Como dissemos, segundo o relato de An-Nadim, Mani devia ter vinte e quatro anos quando abandonou os moughtasilas e começou a pregar sua doutrina. A data lembrada pelo historiador árabe, o dia do advento da coroação de Sapor I, 20 de março de 242, pode ser tradicional e ter um fundamento histórico. Mas não se poderia ser muito afirmativo sobre esse ponto. A vida interior do profeta, durante suas pregações, nos é totalmente inacessível. An-Nadim limitou-se a dizer que, durante cerca de quarenta anos, Mani percorreu diversos países. Mas nada narra que se refira a essas missões; contentou-se em acrescentar, em outro lugar de seu relato, que o novo apóstolo levou sua fé à Índia, à China e ao Khorassan. Flügel, Mani, p. A única coisa que parece certa é que Mani não pôde permanecer na Pérsia e que foi obrigado a exilar-se, ou mais exatamente que foi exilado por Sapor. Yaqoubi e Mâsoudi contam que o grande rei teria primeiro aderido à doutrina maniqueísta, e até a teria professado durante dez anos; depois a teria abandonado para voltar à dos magos. Kessler, Mani, p. 210 e 378; Flügel, Mani, p. 145. Isso é pouco verossímil. Tanto quanto conhecemos Sapor, ele nos aparece como um restaurador das tradições nacionais, um defensor ferrenho da religião de Zoroastro, e custa-se um pouco a crer que tenha desertado dessa religião durante um certo número de anos. É, ao contrário, provável que tenha feito Mani partir desde o início de sua pregação. Em vão o profeta lhe dirigiu uma de suas obras, o Shâpurakân, escrita em persa e destinada a expor ao monarca os princípios da nova doutrina. Sapor não quis ouvir nada.

A atividade de Mani, durante esses anos fecundos e laboriosos de pregação, deve ter sido enorme. O profeta pregava. Escrevia, não somente grandes obras didáticas, mas cartas que o mantinham em contato com os discípulos que fizera no curso de suas viagens. Houve cartas à Índia, a Kashkar, cidade persa da região do baixo Tigre; a Ahvaz, província situada a leste do baixo Tigre, e na qual, segundo uma lenda relatada por Bar-Hebreu, Histor. dynast., edit. Pococke, p. 82, Mani havia primeiro vivido como sacerdote cristão; a Ctesifonte, a Edessa, a Babilônia. Em todos esses países, Mani havia recrutado prosélitos. Suas cartas se destinavam a firmar a fé desses neófitos e a resolver algumas das dificuldades que haviam encontrado na prática de sua religião.

Os escritos de Mani eram ornados de desenhos e miniaturas, segundo uma tradição cara aos gnósticos. Mani conhecia a existência de um diagrama de vida entre os ofitas, e os escritos gnósticos em língua copta estão eles mesmos repletos de figuras destinadas a representar as moradas dos éons e toda sorte de outros mistérios. São Efrém relata que Mani havia iluminado seus livros e neles havia figurado as virtudes luminosas e as potências das trevas sob os traços mais próprios a fazer amar umas e detestar as outras, a fim, explicava ele, de completar assim o ensinamento escrito para as pessoas instruídas e de supri-lo para as demais. S. Ephrem, Prose refutations of Mani, Marcion and Bardaisan, édit. C. W. Mitchell, Londres, 1912, p. cxi. Mirkhond conta igualmente que Mani era um pintor de tal talento que, com o dedo, podia descrever um círculo de cinco côvados de diâmetro, em cujo contorno, se o examinassem de perto, não se conseguia descobrir a menor falha. Kessler, Mani, p. 380.

Conhecemos o aspecto geral e o tom da pregação de Mani por alguns fragmentos diversos.

Eis, por exemplo, segundo Birûni, o início do Shâpurakân: «A Sabedoria e as boas obras foram trazidas, numa sequência perfeita e de uma época a outra, pelos profetas de Deus. Vieram, num tempo, por um profeta chamado Buda, na região da Índia; em outro, por Zoroastro, na terra da Pérsia; em outro, por Jesus, no Ocidente. Depois disso, chegou a presente revelação, e a presente profecia se realizou por mim, Mani, o mensageiro do verdadeiro Deus na Babilônia.» Chronologie, trad. Sachau, p. 206. A Epístola do Fundamento não começava de maneira menos solene e menos promissora: «Mani, apóstolo de Jesus Cristo, pela Providência de Deus Pai. Eis palavras salutares que escorrem da fonte eterna e viva. Quem quer que as escute e nelas creia primeiro, e depois guarde suas lições, jamais será sujeito à morte, mas gozará de uma vida eterna e gloriosa. Bem-aventurado deve ser considerado aquele que tiver sido instruído nesta ciência divina. Por ela será libertado e estabelecido na vida eterna.» In S. Agostinho, Contra Epist. fundamenti, 6, P. L., t. XLII, col. 176. Esses dois exemplos podem bastar para caracterizar a maneira do profeta. Certas fórmulas fazem pensar em São Paulo; mas a ênfase e a grandiloquência são totalmente significativas. Por outro lado, a teoria da revelação, da qual Mani é o último representante, dá a verdadeira explicação desse sincretismo, que toma emprestados elementos ao iranismo e mesmo, em medida bem menor, ao budismo, mas que nem por isso é menos uma religião cristã pelo lugar concedido a Jesus, ao seu ensinamento e aos seus Livros santos.

Os Atos de Arquelau contam que Mani enviou dois de seus discípulos para pregar sua doutrina, Tomé e Addas, ao Egito e à Cítia, mas que o terceiro, Hermas, preferiu ficar com ele. Na volta deles, continuam os Atos, os mensageiros contaram ao mestre o que lhes havia acontecido. Em todas as cidades por onde haviam passado, tinham-se visto execrados por todos, mas sobretudo pelos adoradores de Cristo. Manés lhes pediu que lhe procurassem os livros dos cristãos. Munidos de certa quantidade de ouro, dirigiram-se aos lugares onde se copiavam esses livros. Depois, apresentando-se como catecúmenos, pediram que se dignassem vendê-los. Então esse embusteiro estudou nossos livros para pô-los a serviço de seu erro. Criticou alguns detalhes, modificou outros e tomou deles apenas o nome de Cristo, ao qual fingiu apegar-se, a fim de fazer cessar o horror e a aversão que seus discípulos inspiravam por toda parte.» Acta Archel. 65, p. 94. Esse relato é sem dúvida legendário, como os que já encontramos nos Atos de Arquelau, e a missão dos discípulos de Mani parece decalcada sobre a dos apóstolos no Evangelho. Não é, contudo, impossível que Mani tenha enviado, em vida, pregadores encarregados de difundir seu ensinamento. O profeta se apresentava como o último dos reveladores; apresentava sua religião como a manifestação suprema de Deus. Fora enviado primeiro aos persas, mas estava destinado a pregar ou a fazer pregar entre todas as nações. O universalismo religioso era corrente no século III, e Mani aceitou sem dificuldade a ideia.

Se nos atemos aos números de An-Nadim, a pregação de Mani teria prosseguido durante uns quarenta anos. A morte de Sapor em 272 e a de seu filho Hormuz em 273, o advento de Bahram I, príncipe jovem e amigo dos prazeres, parecem ter sido os motivos determinantes de seu retorno à Pérsia. Sem dúvida, An-Nadim pretende que Mani voltou ao seu país em vida de Sapor, e conta longamente o relato de uma entrevista concedida pelo grande rei ao pregador. Sapor, explica o cronista, havia formado o projeto de prendê-lo e matá-lo. Mas, quando se viu diante dele, intimidou-se, cumprimentou-o e manifestou-lhe a intenção de converter-se. Mani limitou-se a pedir que, na Pérsia e nos outros países submetidos à autoridade de Sapor, seus discípulos tivessem plena liberdade; e o rei atendeu aos seus pedidos. Flügel, Mani, p. 85. Um fragmento de Turfan narra a mesma entrevista. F. W. K. Müller, Handschr., p. 80-82. Mas o relato dessa entrevista parece legendário. Vale mais dar crédito a Yaqoubi, que situa o retorno de Mani no reinado de Bahram. Kessler, Mani, p. 330, 331.

Contudo, Mani pôde logo perceber que se enganara ao esperar ficar tranquilo na Pérsia. Pois os magos continuavam a ser seus inimigos irreconciliáveis. Ao cabo de dois anos, Mani foi preso e acareado com eles. Convencido de heresia, foi condenado pelo rei Bahram à morte por esfolamento. Sua pele foi empalhada e exposta à porta da cidade real. A morte de Mani ocorreu talvez em março de 276: é o mês indicado por Santo Agostinho, que conta que os maniqueus celebram em março a morte de seu fundador, Contra Faust., XVIII, 5; o ano pode deduzir-se do dado segundo o qual Mani permaneceu dois anos antes de ser preso. Desde cedo, ao que parece, correram lendas sobre essa morte. No século IX, An-Nadim assinala os relatos divergentes que os maniqueus espalhavam. «Mani, diz ele, foi morto sob o governo de Bahram, filho de Sapor. Depois disso, seu corpo foi crucificado, cortado em dois e suspenso nas duas portas da cidade de Dschoundisabour. Outros contam que Sapor o pôs na prisão, mas que, à morte desse rei, Bahram o libertou; outros, ao contrário, que morreu na prisão. Em todo caso, não se pode duvidar de que tenha sido crucificado.» Flügel, Mani, p. 99.

É provável que, se ainda possuíssemos os antigos relatos biográficos escritos pelos maniqueus, não poderíamos tirar deles muito mais informações certas sobre a vida do fundador. Pois essa vida não tardara a ser desfigurada pela lenda. Birûni assinala a existência de duas representações opostas da história de Mani; e seu testemunho vale a pena ser citado: «Os discípulos de Mani, escreve ele, dividem-se em dois campos a respeito de sua pessoa. Um partido afirma que ele não dispunha do poder de fazer milagres, e conta que ensinou que o dom dos milagres se retirou deste mundo com Cristo e seus discípulos.

O outro sustenta que ele possuía esse dom dos sinais e prodígios, e que o rei Sapor começou a crer nele por ter sido elevado com ele às regiões superiores e ter-se mantido com ele nos ares, entre o céu e a terra, em outras palavras, por ter constatado um de seus milagres. O mesmo partido acrescenta que ele tinha o costume de escapar de seu séquito para subir ao céu, que ali permanecia alguns dias e que depois voltava para junto dos seus.» Birûni, Chronologie, trad. Sachau, p. 191. É inútil perguntar qual dessas duas representações era a primitiva; não saberíamos mais sobre a vida de Mani. De fato, essa vida pode resumir-se em poucas linhas: Mani deve ter nascido por volta de 215-216 em Mardin; foi educado na seita dos moughtasilas, que abandonou por volta dos 24 anos, em seguida a revelações. Começou então a pregar sua doutrina, teve de deixar a Pérsia e, durante mais de 40 anos, levou uma vida errante de missionário, escrevendo e pregando através das regiões mais diversas. De volta à Pérsia no reinado de Bahram I, uma conspiração dos magos o perdeu. Foi esfolado, decapitado e empalhado por volta de 276-277 em Dschoundisabour, a nova capital dos reis da Pérsia.

VIII. — Expansão do maniqueísmo. No Império romano.

A rápida difusão do maniqueísmo põe um problema que não podemos resolver inteiramente. Já vimos que, segundo o relato dos Acta Archelai, Mani, não contente de pregar ele mesmo sua doutrina, enviara alguns de seus discípulos ao Egito e à Síria. Não podemos controlar essa afirmação, que se insere num relato tecido de inverossimilhanças. O que é certo é que, uns doze anos depois da morte do fundador, o maniqueísmo já fizera progressos suficientes para inquietar o imperador Diocleciano e os altos funcionários do Império romano. Por volta do ano 290, o procônsul da África, Juliano, denunciava a nova seita a Diocleciano. Este, preocupado em manter a religião nacional contra a invasão dos cultos estrangeiros, respondeu com um rescrito severo, que é o primeiro documento oficial relativo ao maniqueísmo: «A respeito dos maniqueus, de quem Vossa Sagacidade falou à Nossa Serenidade, dizia o imperador, soubemos que a nação persa, nossa rival, os enviou ou fez brotar muito recentemente neste país, como monstros novos e inesperados, e que cometem entre nós numerosos malefícios. Perturbam as populações pacíficas. Causam grandes danos às cidades. E receia-se que, segundo seu costume, trabalhem daqui em diante, com seus costumes execráveis e as leis selvagens da Pérsia, para infectar de algum modo com seu veneno pernicioso o povo romano, modesto e tranquilo. Como estabeleceis todos os gêneros de maleficios flagrantes expostos por Vossa Prudência no relatório que nos apresentastes sobre sua religião, suas ficções laboriosas e vãs, impomos-lhes as penas e sanções que lhes são devidas. Ordenamos que seus organizadores e seus chefes sejam submetidos aos últimos rigores e condenados ao fogo com suas abomináveis Escrituras. Prescrevemos que seus adeptos obstinados até o fim sejam decapitados. E decretamos que os bens dessas pessoas sejam reivindicados pelo fisco. Se honoráveis e outros dignitários, mesmo mais elevados, passaram a essa seita, mandareis igualmente confiscar seu patrimônio pelo fisco, e os enviareis eles mesmos às minas.» Cod. Gregor., l. XIV, tit. iv, n. 4-7.

A severidade das medidas tomadas por Diocleciano deixa entrever que os maniqueus eram numerosos e influentes no império desde o fim do século III. É na mesma época que um filósofo neoplatônico, Alexandre de Licópolis, redige contra eles um opúsculo De placitis manichæorum, que tira toda a sua importância da difusão da seita no Egito. Não é possível lembrar aqui todos os detalhes da história do maniqueísmo, e devemos contentar-nos em marcar rapidamente seus traços essenciais. A seita começou naturalmente por difundir-se em seu país de origem, a Mesopotâmia. Os Atos de Arquelau, na primeira parte do século IV, representam Mani indo discutir com o bispo de Kashkar. Santo Afraates, o sábio persa, e Santo Efrém de Nísibis lutam ardentemente contra a propaganda maniqueísta; e percebe-se, por sua insistência, que a nova doutrina recrutava um número considerável de adeptos. Na primeira metade do século V, Rabbulas de Edessa prossegue a luta contra os maniqueus. Das regiões vizinhas do Eufrates, o maniqueísmo invade a Síria e a Palestina. Segundo Santo Epifânio, Hæres., LXVI, P. G., t. XLI, col. A doutrina de Mani teria sido levada à Palestina desde o quarto ano do reinado de Aureliano, em 274, por um certo Addas, vindo da Mesopotâmia a Eleuterópolis, onde seus adeptos permaneciam numerosos um século mais tarde, em vida do heresiólogo. As refutações de Cirilo de Jerusalém, de Eusébio de Emesa, de Tito de Bostra, do próprio Epifânio, mais tarde de Teodoreto e de Severo de Antioquia, mostram a persistência do perigo. Até o século VII, com as obras de João de Damasco e de Anastácio Sinaíta, pode-se seguir a história do maniqueísmo nessas regiões.

No Egito, onde a nova religião era refutada desde o fim do século III por Alexandre de Licópolis, o século IV parece ter sido um período de progressos consideráveis. As refutações de Serapião de Thmuis e de Dídimo de Alexandria não são os únicos testemunhos desses progressos. Conhecemos o comentador Aftônio, que se tornou bastante célebre em Alexandria para que Aécio de Antioquia viesse travar com ele uma controvérsia, Filostórgio, P. G., LXV, 465, edit. Bidez, 1647. Por volta da mesma época, Hieracas de Leontópolis fazia uma propaganda encarniçada e recrutava numerosos discípulos, Epifânio, Hærès., lxvii, P. G., col. 172, 173. Segundo Eutíquio, que sem dúvida deve conter muitas exagerações, quase todos os arcebispos e bispos do Egito com seus monges eram maniqueus sob o patriarca Timóteo de Alexandria; Timóteo teria mesmo precisado, um dia, ordenar a seus clérigos que comessem carne no domingo, para ver quem, entre eles, aderia à seita.

Eutíquio acrescenta que os maniqueus do Egito se dividiam então em duas observâncias: os Saddikini, que guardavam cuidadosamente os preceitos do Mestre, e os Sammakini, que se permitiam comer peixe.

No Ocidente, a África parece ter sido a terra de eleição do maniqueísmo. Antes do ano 300, os fiéis de Mani ali eram numerosos e influentes, visto que foi a pedido de um procônsul da África que se promulgou a lei de Diocleciano. Apesar das medidas de rigor tomadas contra os maniqueus por Constantino e seus sucessores, a seita se manteve na África, próspera e vigorosa. No tempo de Santo Agostinho, contava com numerosas comunidades, chefes instruídos e influentes, propagandistas zelosos. Conhecemos sobretudo, entre os personagens mais representativos dessa época, Fausto de Milevo, o presbítero Fortunato e Félix. Fausto era o grande homem, o eleito da igreja maniqueísta. Dotado de fisionomia agradável, de espírito sutil, de caráter afável, juntava a esses dons naturais uma cultura literária bastante boa... Sua eloquência calorosa e persuasiva insinuava-se sem esforço nas almas. Sustentava-a pelo prestígio de uma vida exemplar... Mas sua austeridade nada tinha de arrogante e agradava por sua simplicidade. P. Alfaric, L'évolution intellectuelle de S. Augustin, t. I, p. 83. Fortunato e Félix tinham menos envergadura; ambos eram, contudo, discípulos de Mani, convictos e ardentes, e sua pregação havia provocado numerosas conversões. Contra esses três homens, Agostinho teve ocasião de combater. Refutou pacientemente, numa longa obra, o livro em que Fausto expunha a doutrina maniqueísta; teve com Fortunato e Félix discussões públicas que redundaram na confusão de seus adversários. Apesar dos esforços de Agostinho, apesar das numerosas obras que redigiu contra o maniqueísmo, a seita lhe sobreviveu na África. Sob os reinados de Genserico e de seu filho Hunerico, os maniqueus ainda eram numerosos: as perseguições que sofreram então os enfraqueceram sem abatê-los. No fim do século VI, no tempo de São Gregório Magno, ainda estavam de pé. Sem dúvida, restava ainda um certo número deles durante os primeiros tempos da dominação árabe, pois sob o califado de Mansur (754-775), um imã da seita, Abu Hilal ad-Deihouri, vinha das regiões africanas.

Estamos muito menos bem informados sobre a propaganda maniqueísta na Espanha; os escritores cristãos do fim do século IV frequentemente puseram em relevo as semelhanças que o ensinamento de Prisciliano oferecia com o maniqueísmo. Há aí um procedimento de polêmica que não deve nos iludir. Não poderíamos afirmar que tenha havido relações entre as doutrinas e a propaganda de Prisciliano e as teorias propriamente maniqueístas. Algumas semelhanças de detalhe não podem fazer perder de vista as diferenças essenciais; tanto quanto nos é acessível a história do priscilianismo, ela permanece independente da do maniqueísmo. Ver o art. Prisciliano. É provável, contudo, que tenha havido maniqueus na Espanha; mas os testemunhos a esse respeito faltam quase completamente. Na Gália, por volta do fim do século IV, Santo Agostinho ouviu dizer que os gauleses praticavam ao pé da letra certas teorias de Mani expostas no livro do Tesouro. De nat. boni, 47, P. L., XLII, col. 570. No século V, São Vicente de Lérins, Genádio e Pomério de Arles ainda se preocupam com o maniqueísmo. Mas é difícil dizer se essas preocupações não são exclusivamente literárias e se visam maniqueus reais.

Na Itália, reencontramos, ao contrário, uma propaganda maniqueísta certa e organizada. Segundo o testemunho do Liber pontificalis, ed. Duchesne, t. I, p. 169, Roma já tinha maniqueus no tempo do papa Milcíades, isto é, no início do século IV. Em 372, ainda se encontravam bastante numerosos na capital para que Valentiniano dirigisse a seu respeito um importante edito ao prefeito da cidade. Cod. Theod., XVI, tit. v, 3. Em 382, Constâncio, um deles, reunia em sua casa os Eleitos da região, que havia decidido a observar em comum a regra de Mani, e lhes fazia ler uma epístola do Mestre, que devia servir de programa ao novo mosteiro. Quase logo depois, Agostinho, chegando a Roma, vivia ali em meio aos representantes da seita, e se hospedava na casa de um deles, com quem discutia frequentemente sobre a mitologia dos livros de Maniqueu. Em Milão, onde sua recomendação logo o fez nomear retor pelo prefeito Símaco, ainda os encontrava bastante numerosos para inquietar Ambrósio, que frequentemente os tomava para alvo... Por volta de 405, um ouvinte de Roma, chamado Secundino, escreve ao bispo de Hipona para tentar reconduzi-lo à ortodoxia dualista. P. Alfaric, Les écritures manichéennes, t. I, p. 63. Em 443, São Leão constata que ainda há numerosos maniqueus em Roma e ordena a busca de suas Escrituras. Mais tarde, os papas Gelásio, Símaco e Hormisdas mandam fazer buscas análogas. São Gregório Magno, enfim, reencontra maniqueus na Sicília e na Calábria; os hereges eram da África; e é verossímil que também da África tivessem chegado anteriormente todos os pregadores maniqueus à Itália.

Se agora voltamos ao Oriente, constatamos que o maniqueísmo se difunde mais e se mantém por mais tempo na Ásia Menor e em Constantinopla do que nos países do Ocidente. Na Ásia Menor, as refutações de São Basílio de Cesareia, de São Gregório de Nissa, de Diodoro de Tarso mostram o lugar que o maniqueísmo ocupava nas preocupações dos grandes doutores do fim do século IV. Mais de cem anos depois, a doutrina de Mani ainda recruta partidários nas altas classes da sociedade bizantina. Sucessivamente, Anastácio I e Justiniano I tomam medidas severas contra as Escrituras da seita e contra todos os que as possuem. Heraclianos de Calcedônia, Paulo, o Persa, e Zacarias, o Retor, discutem longamente as teorias maniqueístas. Até o fim do século IX, os escritos de Mani e os de seus discípulos permanecem bastante difundidos para que os teólogos vejam neles um perigo real para a ortodoxia: entre 867 e 871, um compilador anônimo faz uma coletânea das principais refutações do maniqueísmo e a dedica, em versos pomposos, ao imperador Basílio.

Por volta da mesma época, ao que parece, aparece a grande História dos maniqueus, da qual possuímos quatro edições ligeiramente diferentes, atribuídas a Fócio, a Pedro da Sicília, a Jorge, o Monge, e a Pedro, o higúmeno. Nesse momento, é verdade, atacam-se menos os maniqueus propriamente ditos do que os paulicianos, seus continuadores. A seita dos paulicianos nascera por volta do fim do século VII na Armênia; esse país conhecera desde cedo o maniqueísmo, e já no século V Eznik de Kolb atacava a doutrina das duas raízes exposta pelos Zandiques. Por volta de 590, missionários maniqueus haviam trabalhado com sucesso na pregação de suas doutrinas e haviam traduzido os livros da seita para a língua armênia. O paulicianismo, ramo destacado do tronco comum, difundiu-se no império bizantino. Os esforços reunidos dos teólogos e das autoridades civis tiveram muito trabalho para dar cabo da sutileza e das resistências dos hereges. Cf. Karapet Ter-Mekertschian, Die Paulicianer im byzantin. Kaiserreiche, Leipzig, 1893.

Concluímos assim a volta do antigo Império romano. O maniqueísmo, refutado pelos doutores cristãos, condenado pelo poder secular, soube resistir a todos os ataques. Sem dúvida, como seita organizada, desapareceu do Ocidente depois do século VI, e do Oriente depois do século VIII ou IX. Mas deixou traços profundos na história. Os cátaros do sul da França, nos séculos XI e XII, ligam-se de maneira muito estreita ao maniqueísmo, cujos dogmas fundamentais professam e cuja organização eclesiástica reproduzem, ao menos em parte. O mesmo se dá no Oriente, onde os bogomilos do século XI conservam as tradições maniqueístas. Não temos de ocupar-nos aqui nem dos cátaros nem dos bogomilos: cumpria ao menos assinalar as relações estreitas que os unem ao maniqueísmo primitivo.

2° No império persa.

A expansão do maniqueísmo não se limita à bacia do Mediterrâneo. Parece, ao contrário, que a religião de Mani encontrou na Ásia sua verdadeira terra de eleição: em todo caso, foi na Ásia que conheceu seus maiores triunfos. É natural que o maniqueísmo tenha feito uma longa e brilhante carreira na Babilônia, no próprio país onde nascera. An-Nadim conta que, quando Mani se elevou ao paraíso de Luz, deixou Sis depois de si na qualidade de imã. O discípulo guardou a religião de Deus em sua pureza até a morte. Depois, os outros imãs a transmitiram uns aos outros. Nenhuma diversidade de opiniões se manifestou entre eles até que apareceu uma seita cismática, conhecida pelo nome de Dènàvars, que se deu seu próprio imã e lhe votou obediência. Flügel, Mani, p. 97. Na verdade, o resumo de An-Nadim é otimista demais: os maniqueus da Pérsia não haviam esperado tanto tempo para dividir-se em seitas rivais. Segundo Teodoro Bar Khôni, no reinado de Firuz (458-484), um certo Battaï, educado no grupo gnóstico dos kantéens, passou aos discípulos de Manés, onde «recolheu e pôs em ordem alguns de seus discursos e algumas migalhas de seus mistérios mágicos». Depois, ensinou uma nova religião, feita de empréstimos ao maniqueísmo ortodoxo e ao gnosticismo que abandonara. Por volta da mesma época, um mendigo da Adiabene, chamado Ado, tendo-se estabelecido na Mesena, perto do rio Karun, pregou ali uma doutrina em que se misturavam elementos maniqueístas, kantéens e marcionitas. Cf. H. Pognon, Inscriptions mandaïtes des coupes de Khouabir, p. 221-227. Contudo, foi de fato, como relata An-Nadim, no século VIII que um Eleito, chamado Zadhommuz, fundou, em Madain, uma seita que se gloriava de restabelecer em toda a sua pureza as observâncias primitivas de Mani e que fez oficialmente cisma com a Igreja estabelecida. Depois de Zadhommuz, o grupo teve uma série de imãs, cuja sucessão é indicada por An-Nadim: Miklas, Buzurmihr, Iazdanbacht, Abu-Ali Nan ben Hommuz de Samarcanda, Abul-Said e Hasan de Damasco. Flügel, Mani, p. 97-99.

Apesar do cisma, o maniqueísmo ortodoxo não deixou de ser florescente. «Os imãs ortodoxos da Babilônia gozavam de tal autoridade que, entre 724 e 738, um deles, chamado Mihr, recebeu as mais lisonjeiras distinções do emir do Iraque, Khalid ben Abdallah al-Kasri... Os mihritas tiveram em seguida outros chefes eminentes, por exemplo, Abu-Hilal ad-Deihouri, que, sob o califado de Mansur (754-775), se aplicou a reparar o cisma de Miklas, e Abu-Said Raha, que combateu um pouco mais tarde o de Buzurmihr.» P. Alfaric, Les écritures manichéennes, t. I, p. 73, 74. Cf. An-Nadim, em Flügel, Mani, p. 98, 99. O reinado de Mehdi (775-785) foi marcado sobretudo pela tradução para o árabe das obras de Mani. O tradutor, Abdallah ibn al-Moqaffa, era um dos homens mais sábios de seu tempo e adquirira a reputação de escritor elegante. Outros autores, mais originais, expuseram na mesma época a fé maniqueísta. An-Nadim escreve a esse respeito: «Entre os chefes maniqueus, dedicados à escolástica, que se converteram exteriormente ao islã, mas aderiram interiormente à incredulidade, os principais são Ibn Talut, Abu Shakir, Ibn Achi Abi Shakir, Ibn al-Ada al-Harizi, Nu'man, Ibn Abi'l 'audja e Salih ben 'Abdal Qaddus. Todas essas pessoas escreveram livros para a defesa dos dois princípios.» Flügel, Mani, p. 107. A tradução árabe dos livros de Mani pôde contribuir para a expansão de sua doutrina no país dos dois rios.

Mas é além da Mesopotâmia que o maniqueísmo teve a mais brilhante fortuna. «Já à morte de Mani, muitos adeptos do inovador, perseguidos por Bahram, haviam-se refugiado na direção da fronteira oriental do reino persa. Estabeleceram-se em grande número nas regiões relativamente pacíficas do Khorassan e ali formaram um grupo muito ativo. Os emigrados, que tudo haviam deixado para conservar sua fé, queriam guardá-la em sua forma e vigor primeiros. Logo censuraram seus correligionários, que haviam permanecido sob a dominação hostil dos sassânidas e tinham precisado recorrer a certos compromissos, por não mais praticarem a verdadeira doutrina do mestre. Recusaram-se a reconhecer o imã da Babilônia e constituíram uma seita nova, a dos Dênàvars, que teve seu próprio chefe.

É de uma cidade do Khorassan, Nishabur, que veio Mazdak, cuja doutrina não era quase mais que uma interpretação particularmente estreita e rigorosa de algumas teorias esboçadas por Mani. É também dali que parece ter partido o movimento de renascimento dualista que se produziu no mundo islâmico, no tempo dos primeiros abássidas.» P. Alfaric, op. cit., p. 78, 79. É ainda para ali que vieram refugiar-se, no reinado de Moqtadir (908-932), os maniqueus do Iraque; instalaram-se particularmente em Samarcanda, onde o imã ortodoxo da Babilônia estabeleceu sua residência. Por volta do ano 1000, a massa da população dessa cidade aderia aos dogmas dualistas. E na segunda metade do século XII, um escritor da mesma região, Abu'l Fath Mohammed ach-Chahrastani, de Chahrastan, pequena cidade do Khorassan, sabia que os discípulos de Mani ou Mazdak residiam no país de Ahwaz, depois mais a leste nas regiões de Fars e de Shahrazur, e finalmente nos arredores de Samarcanda (Transoxiana).

Desde os tempos dos sassânidas, os turcos haviam-se instalado nas mesmas regiões. No fim do século VI, estabeleceram sua supremacia ao sul e a oeste do Oxus. Sem dúvida, grande número deles adotou o maniqueísmo. Em todo caso, no início do século VIII, seus chefes, o Zarolho, devia contribuir para difundir na China a religião de Mani. «Nesse momento, o maniqueísmo não era desconhecido no Celeste Império, se se pode dar crédito ao testemunho de um compilador chinês do século XIII, segundo o qual o primeiro livro de Mani foi introduzido na China em 694. Em 719, um maniqueu de destaque foi enviado ao soberano da China pelo chefe turco Tcho. "Esse homem é de uma sabedoria profunda, escrevia este último a respeito de seu embaixador. Não há questão a que ele não saiba responder. Espero humildemente que o imperador, em sua bondade, o faça chamar a sua presença e o interrogue pessoalmente sobre o estado das coisas de vosso súdito, bem como sobre nossas doutrinas religiosas. O imperador reconhecerá que esse homem tem verdadeiras capacidades. Desejo e peço que, por ordem do imperador, se provenha a seu sustento e ao mesmo tempo se estabeleça uma igreja para que ali ele cumpra o culto prescrito por sua religião." Chavannes e Pelliot, no Journal asiat., 1913, XIe sér., t. I, p. 152-153. Em 732, um edito imperial autorizava a prática do maniqueísmo, reprovando, porém, suas doutrinas.

Na Ásia central. — Da China, o maniqueísmo penetrou até os turcos setentrionais. Alguns destes, os uigures, acabavam de fundar na Mongólia um grande império que se estendia do Ili ao Rio Amarelo, e das margens do Orkhon às montanhas do Tibete. A 20 de novembro de 762, seu soberano ou qaghan, aproveitando as intrigas de palácio a que dera lugar o súbito desaparecimento do imperador Hiuan-tsong e de seu filho Sou-Tsong, atravessou o Hoang-ho, apoderou-se de Lo-Yang e ali se instalou durante vários meses. Ora, encontrou nessa cidade missionários maniqueus que o iniciaram em sua fé e lhe deram a conhecer seus livros santos.» P. Alfaric, op. cit., p. 81. Uma inscrição descoberta em Karabalgasun, na Mongólia, redigida em chinês, em turco e em sogdiano, nos informa quais foram os resultados da pregação maniqueísta no reino dos uigures. Um edito do soberano, conta essa inscrição, publicou a seguinte proclamação: «Esta religião é sutil e maravilhosa. É difícil recebê-la e observá-la. Duas vezes e três vezes, com sinceridade, eu a estudei. Outrora eu era ignorante e chamava de ayuddha os demônios: agora compreendi o verdadeiro e não quero mais servir os falsos deuses... que todas as imagens do demônio, esculpidas ou pintadas, sejam inteiramente destruídas pelo fogo... e que se receba a religião da luz.» Cf. E. Chavannes e P. Pelliot, no Journal asiat., loc. cit., p. 193; G. Schlegel, Die chinesische Inschrift auf dem uigurischen Denkmal in Kara Balgassun, nas Mémoires de la Société finno-ougrienne, Helsingfors, 1896; F. W. K. Müller, Ein iranisches Sprachdenkmal aus der nördlichen Mongolie, nos Sitzungsberichte de l'Académie des Sciences de Berlin, 1909, p. 726-730.

Em pouco tempo, todo o reino uigur se viu convertido à religião de Mani. Mas esse reino maniqueu teve duração efêmera. Em 840, os quirguizes destruíram sua capital e apoderaram-se de seu soberano; as tribos turcas que o constituíam dispersaram-se e retomaram sua existência independente. O maniqueísmo não desapareceu, contudo, da região. Entre os Estados que se constituíram sobre as ruínas do império uigur, certo número permaneceu fiel às doutrinas de Mani. Em 951, os de Kan-tchéou enviavam em embaixada ao governo chinês um grupo de eleitos encarregados de diversos presentes. Dez anos mais tarde, faziam chegar igualmente ao imperador toda uma remessa de objetos preciosos, vários dos quais haviam sido oferecidos por mestres maniqueus. Por volta da mesma época, os de Kao-Tchang, os Toquz-Oghuz ou Toghuz-Guz, que eram de todos os mais poderosos e os mais bem organizados, guardavam no conjunto a doutrina de Mani... Em 981 e 984, um enviado chinês, visitando seu reino, assinalava ali a presença de templos maniqueístas. Mais tarde ainda, um viajante árabe observava que os discípulos de Mani ali subsistiam sempre e que, na capital, formavam até mesmo a maioria. P. Alfaric, op. cit., p. 80. É precisamente na região habitada pelos turcos uigures, em Turfan, em Chotso (Khotscho), em Tun-huang, que foram reencontrados os textos maniqueístas de que já falamos, e que testemunham a influência exercida pela religião de Mani sobre os habitantes do país.

5º Regressão — e depois desaparecimento progressivo do maniqueísmo.

As conquistas do maniqueísmo na China e entre os uigures marcam o termo dessa prodigiosa expansão. A religião de Mani, depois de se difundir por toda a Ásia central, não devia manter-se ali. Desde cedo, foi perseguida pelas autoridades civis e contradita pelos teólogos ou filósofos; diante de ataques conduzidos com vigor e perseverança, mostrou-se impotente para resistir. Na Pérsia, primeiramente, os masdeístas jamais deixaram de perseguir com seu ódio um culto que já haviam condenado na pessoa de seu fundador.

No reinado de Cosroes I (531-570), 80 000 maniqueus, dizem, foram mortos: o rei restabeleceu em seus Estados o culto do fogo e proscreveu as discussões, as controvérsias e as querelas religiosas. Os muçulmanos não se mostraram mais favoráveis às teorias dualistas. A maior parte dos califas ordenou perseguições contra o maniqueísmo, ou ao menos não deixou a seus adeptos senão uma existência das mais precárias. Diante desses ataques, os maniqueus perderam muito depressa terreno. Por volta do fim do século X, An-Nadim escrevia: «Nos países do Islã, são pouco numerosos. Na cidade de Bagdá, sob o governo de Mu'izz ad-Dawla, conheci cerca de 300. Atualmente, mal se encontrariam mais de cinco no lugar. Esses maniqueus chamam-se Adschari. Vivem nos burgos de Samarcanda, de Sogd, e sobretudo em Nunkat.» Flügel, Mani, p. 106. Um pouco mais tarde, Birûni escrevia do mesmo modo a respeito dos maniqueus: «Restam apenas alguns pequenos destroços de seus partidários, que se reclamam dele. Estão dispersos em diversos lugares. Não se encontra um único lugar no país do Islã onde formem o conjunto da população, fora da comunidade de Samarcanda, onde são conhecidos como sabeus.» Biruni, Chronologie, trad. Sachau, p. 191.

Na China, a campanha antimaniqueísta começou mais tarde do que nos países submetidos ao Islã. Mas não foi menos violenta. O edito de 732, que autorizava a religião de Mani, declarava ao mesmo tempo que ela era singularmente perversa; tal reserva nada fazia prever de bom para o futuro. Quando desapareceu o império dos uigures, que era o mais poderoso sustentáculo do maniqueísmo, as autoridades chinesas assumiram uma atitude fundamentalmente hostil. «Os maniqueus foram logo alvo das piores vexações. Já em 812, seus templos do Yang-tseu foram fechados e seus religiosos reconduzidos ao Norte. No ano seguinte, um novo edito, aplicável a todo o império, proscreveu sua religião e ordenou o confisco de seus bens e o fechamento de todos os seus santuários. Segundo a ordenança imperial, cujo resumo nos dá um texto mais tardio, os funcionários a quem isso dizia respeito deviam recolher os livros e as imagens dos maniqueus e queimá-los na praça pública. Condenados pela lei, os discípulos de Mani não puderam mais subsistir senão dissimulando-se. Mas o próprio mistério de que se envolviam voltou-se contra eles. Censuraram-nos por se entregarem em segredo a toda sorte de maleficios e desordens. A propósito de uma revolta que se produziu em 920 no Ho-nan, e na qual foram implicados, um texto os acusa de se reunirem à noite para se entregar a devassidões obscenas. Outro os mostra, por volta de meados do século X, no Fu-Kien, devotando-se a práticas tenebrosas e indo de noite, com seus livros santos, exorcizar um possesso que morre no mesmo ano.» P. Alfaric, op. cit., I, p. 106. Cf. Chavannes e Pelliot, no Journal asiat., loc. cit., p. 289-325.

Os maniqueus não desapareceram imediatamente da China. No início do século XI, reencontraram mesmo um último brilho, e seus livros santos foram introduzidos num Cânon taoísta empreendido por ordem de Tchen-tsong. Mas esse cânon não encontrou nenhum favor. As perseguições retomaram seu curso. Em 1166, um letrado, Lu-Yeu, dirigiu uma súplica ao imperador para lhe pedir, entre outras coisas, que tomasse medidas severas contra os adeptos da religião da luz, pois era esse o nome pelo qual eram então conhecidos os maniqueus. Conhecemos mal o seguimento dado à súplica de Lu-Yeu. Ao menos na primeira parte do século XIII, sabemos que o maniqueísmo era proibido em todo o império chinês; o bonzo Tsong-Kien escreve, com efeito: «Segundo as leis da dinastia atual, os que enganam o povo pela transmissão e prática do livro santo das Duas Raízes e do texto de livros santos sem fundamento que os cânones não contêm serão condenados como autores de doutrinas heterodoxas.» No fim do século XIV, um artigo do código dos Ming condena uma última vez a religião do venerável da luz. Seu brilho estava então muito diminuído. Cf. E. Chavannes e P. Pelliot, no Journal asiat., loc. cit., p. 353-368.

Na Ásia central, o maniqueísmo não foi objeto das mesmas perseguições. Mas encontrou outros obstáculos. Um dos mais temíveis foi o budismo, cuja propaganda prosseguia sem cessar. Já os maniqueus só haviam podido instalar-se apresentando seu Mani como um novo Buda. Ao praticar tal sincretismo, corriam grande risco de perder sua originalidade e de ver sua doutrina dissolver-se nos ensinamentos budistas. Por outro lado, a fragilidade dos principados turcos e as perpétuas invasões que transformavam sem cessar o estado do país foram para o maniqueísmo uma causa de fraqueza. A queda do império uigur, cujos soberanos lhe eram inteiramente devotados, abalou-o profundamente. As invasões mongóis completaram sua ruína. Sem dúvida, a religião de Mani não desapareceu inteiramente dessas regiões onde havia sido, durante longo período, tão florescente. Conservou certo número de sectários fiéis. Ao menos seu papel histórico estava concluído a partir do século XI; nessa época, segundo uma tradição, foram escondidos na gruta dos mil Budas os manuscritos maniqueístas de Tun-huang. Estava reservado ao nosso século reencontrar esses manuscritos e devolver, pelo interesse momentâneo que lhes dedicam os sábios, uma vida ilusória e factícia às ideias cuja expressão eles encerram.

IV. As doutrinas maniqueístas.

Quais eram, pois, essas ideias, ensinadas primeiro por Mani e propagadas com o sucesso que dissemos, da Espanha até as extremidades da China? Parece bem que o próprio Mani, em suas obras e em suas cartas, tenha exposto um corpo completo de doutrina, e que os pregadores maniqueus se tenham esforçado por transmitir integralmente o ensinamento do mestre, sem nada mudar nele. De fato, um sistema tão complicado quanto o de Mani devia fatalmente receber, segundo os países e pelo desgaste do tempo, certas modificações: o maniqueísmo de que fala Santo Agostinho difere, por certo número de detalhes, do dos tratados descobertos no Turquestão chinês.

No conjunto, porém, estamos seguros de conhecer com bastante exatidão a doutrina de Mani, pois nossos documentos, tão variados por sua origem e por sua data, concordam quanto aos traços essenciais. Suas divergências referem-se apenas a pormenores, muitas vezes importantes, é verdade, mas que no fim das contas não passam de pormenores. É mesmo notável que a concordância dos textos seja levada tão longe quanto o é. Em muitos casos, certos documentos encontrados no Turquestão chinês vieram confirmar, da maneira mais inesperada, informações fornecidas por santo Agostinho e que se julgavam peculiares ao maniqueísmo ocidental. Sem dúvida, nem tudo está esclarecido na barafunda de textos obscuros que possuímos; e nosso espírito tem alguma dificuldade em acomodar-se às complicações e às aventuras que formam o centro da cosmologia maniqueia. Mas isso não tem nenhuma importância; não nos cabe apreciar; trata-se apenas de expor com tanta precisão quanto possível um sistema bastante embrulhado em si mesmo. Trataremos sucessivamente da dogmática, da moral, da escatologia e da eclesiologia maniqueias.

1° Dogmática maniqueia. A base do sistema maniqueu é o dualismo. Há desde toda a eternidade dois princípios opostos: o Bem e o Mal, a Luz e as Trevas. « Cada um deles, declara Mani, é incriado e sem começo, seja o Bem, que é a luz, seja o Mal, que é ao mesmo tempo as trevas e a matéria. E nada têm de comum um com o outro... A diferença que separa os dois princípios é tão grande quanto a que há entre um rei e um porco. Um está nos lugares que lhe são próprios, como num palácio real. O outro, à maneira de um porco, chafurda na lama, alimenta-se e se deleita na podridão, ou, como uma serpente, está encolhido em seu covil. » Severo de Antioquia, Hom., cxxiii, trad. de Cumont. Recherches sur le manichéisme, fasc. 2, p. 91, 92, 97.

Em sua essência, a Luz primitiva é a mesma coisa que Deus. A Epístola do fundamento dá dela a seguinte descrição: « Sobre o império da luz dominava Deus, perpetuamente vivo no Pai, em sua cepa santa, magnífico em seu poder, verdadeiro por sua própria essência, sempre bem-aventurado em sua própria eternidade. Continha em si a Sabedoria e os sentidos vitais. Por eles, compreendia também os doze membros de sua luz, que são as riquezas transbordantes de seu reino, e em cada um dos quais estão ocultos milhares de tesouros incalculáveis e imensos. O Pai, soberano em sua glória e incompreensível em sua grandeza, possuía ainda unidos a si os bem-aventurados e gloriosos éons, cujo número e extensão não se podem avaliar. O gerador santo e ilustre vivia, pois, com eles, sem que nenhum indigente ou nenhum enfermo se encontrasse em seu reino. Esse reino mesmo, infinitamente esplêndido, foi tão bem fundado sobre a terra lúcida e bem-aventurada que não pode ser abalado nem derrubado por ninguém. » S. Augustin, Contra epist. Man., P. L., t. XLII, col. 182, 16.

Eternos como o Pai da luz são o ar e a terra, aer ingenitus et terra ingenita, lucida, beata, illustris. S. Augustin, Acta cum Felice, i, 18, ibid., 532. Os membros do ar são em número de cinco: a doçura, o saber, a inteligência, a discrição, o sentimento. Os membros da terra são igualmente em número de cinco: a brisa leve, o vento, a luz, a água e o fogo. Os membros do ar e da terra do reino de luz formam juntos o esplendor. Mal é preciso acrescentar que esse reino da Luz é puramente espiritual. Não só Deus é um ser incorpóreo, mas o mesmo se dá com o ar e a terra incriados. Aliás, « o Bem-aventurado Pai identifica-se com as suas virtudes: emprega-as como armas apropriadas para cumprir a sua vontade. » S. Augustin, De nat. boni, 44, ibid., col. 568.

Em oposição à Luz encontram-se as Trevas primitivas. Estas tocam a luz e a limitam. Entre os dois mundos não há, pois, um abismo: um começa no ponto preciso onde termina o outro. Estão justapostos sem se confundir. A oposição de suas naturezas basta para separá-los. Eis como Mani se comprazia em descrever as trevas: « De um lado, num flanco dessa terra ilustre e santa, encontrava-se a terra das trevas, profunda e imensamente grande, que era habitada por corpos ígneos, raça pestífera. Ali havia trevas infinitas, emanadas do mesmo princípio e vis como ele, com os seus rebentos. Mais além vinham águas lodosas e turvas com seus habitantes. No interior sopravam ventos terríveis e violentos com seu príncipe e seus pais. Depois apresentava-se a região corruptora do fogo com seus chefes e suas nações. Enfim, no centro, estendia-se um país cheio de obscuridade e de fumaça, onde morava o soberano terrível de todo esse mundo, rodeado de um número incalculável de outros príncipes, dos quais era como a cabeça e o órgão único. Tais eram as cinco naturezas dessa terra pestífera. » S. Augustin, Contra ep. Man., 19, 31, col. 184, 194.

Este último chefe, o príncipe das bestas, é a antítese viva do Rei da Luz: nunca faz nada de bom, mas está dividido contra si mesmo, e cada uma de suas partes corrompe o que lhe está próximo. Severo, Hom., cxxiii, em F. Cumont, op. cit., p. 117, 118. O príncipe das trevas não é um segundo Deus, visto que é por essência o oposto de Deus. Seu nome próprio é a matéria, hyle; é também, segundo a linguagem da multidão, o diabo ou o demônio. Aos cinco membros da terra luminosa opõem-se os da terra tenebrosa: trevas, águas lodosas, vento de tempestade, fogo e fumaça. São essas as armas com que o demônio combaterá, chegado o momento, o príncipe da Luz.

Pois a paz que reinava entre os dois mundos era uma paz precária: provinha sobretudo da ignorância em que se achava o mundo tenebroso a respeito de seu vizinho. Cada um dos membros da « matéria, explica Severo de Antioquia citando sua fonte maniqueia, nada conhecia além de sua própria voz; e viam (somente) o que estava diante dos seus olhos. Quando alguém gritava, ouviam. Percebiam isso e lançavam-se impetuosamente rumo à voz; nada conheciam além disso. Foram assim excitados e intrigados uns pelos outros a ir até as fronteiras da terra gloriosa da Luz.

Quando viram o espetáculo (da Luz) admirável e esplêndido, que é bem superior ao seu, reuniram-se e conspiraram contra a Luz com o fim de nela se misturar. Não sabiam, por causa de sua loucura, que um Deus poderoso e forte ali habitava. Procuraram, pois, subir e elevar-se, porque nunca tinham notado quem era Deus. Mas lançaram um olhar insensato, por desejo do espetáculo desse mundo bendito, e pensaram que ele viria a ser seu. » Sévère, dans F. Cumont, op. cit., p. 122-125.

Tal foi a origem da luta entre os dois mundos. Satanás e os seus, chegados aos confins do reino da Luz, produziram ali um grande tumulto. Deus o sentiu e ficou assustado. Decidiu enviar imediatamente socorros aos que estavam em perigo. Evocou a Mãe de vida, e a Mãe de vida por sua vez evocou o Homem primitivo. Théodore Bar-Khoni, dans F. Cumont, Recherches, fasc. 1, p. 14. O Homem primitivo se encouraçou então com os cinco gêneros, que são os cinco deuses: o sopro leve, o vento, a luz, a água e o fogo. « O primeiro de que se revestiu foi o sopro, depois pôs a luz, depois a água, depois cobriu-se com o vento. Em seguida tomou o fogo como escudo e como lança, e desceu rapidamente até a fronteira, na vizinhança do campo de batalha. » An-Nadim, dans Flügel, Mani, p. 87.

Mas o Homem primitivo era incapaz de triunfar do demônio em luta aberta. Recorreu a uma astúcia para enfraquecer seu adversário. Entregou-se a seus inimigos como uma ovelha no meio de lobos: estes se precipitaram sobre ele e o devoraram. As porções da alma, subitamente mergulhadas na matéria, perderam, com a inteligência, a lembrança de sua condição primeira. Mas a sua decadência era apenas provisória. Devia servir para preparar o triunfo do Pai das Luzes. Este, com efeito, evocou uma segunda criação, o Amigo das Luzes. O Amigo das Luzes evocou o grande Ban; o grande Ban evocou o Espírito vivo. Théodore Bar-Khoni, loc. cit., p. 20.

O Espírito vivo estava destinado a libertar os elementos espirituais devorados pelos demônios. Um primeiro esforço permitiu-lhe libertar o Homem primitivo. Para acabar de desprender a luz que as trevas haviam engolido, o Espírito fez-se demiurgo: começou a organizar a matéria, de modo a separar os elementos luminosos de sua ganga obscura. A mistura de que dispunha compreendia os princípios dos quais haveria de sair o mundo. O sopro leve, unido ao vapor espesso, devia dar nosso ar; o fogo celeste, misturado à chama, nosso fogo; a luz, combinada com elementos obscuros, todos os objetos brilhantes e claros, o ouro, a prata; e o vento celeste, junto ao vento quente, nosso vento, e a água, harmonizada com as nuvens, nossa água. Se, no universo criado, tudo tem um duplo aspecto, bom e mau, obscuro e luminoso, é em lembrança de sua origem, e porque os elementos puros ainda não reencontraram seu verdadeiro lugar.

O Espírito criou, pois, dez céus e oito terras, aos quais atribuiu lugares mais ou menos elevados, segundo a quantidade de luz que possuíam. Com o fogo mais puro fez o sol; com a água mais límpida, a lua. Colocou o Homem primitivo na região dos dois grandes luminares: mas, quando este avistou os espíritos que ainda estavam retidos cativos pela matéria, velou o rosto de tristeza. O gesto renovado é ainda atualmente a causa dos eclipses. Dos melhores elementos que restavam depois da criação do sol e da lua, o Espírito poderoso formou os outros cinco planetas, encarregados de presidir aos dias e às semanas. As estrelas fixas, por outro lado, não são outra coisa que demônios acorrentados nos ares: passam, aos olhos dos maniqueus, por exercer uma influência funesta; e, enquanto o sol e a lua, e mesmo os cinco planetas, são objeto de culto, as estrelas excitam a desconfiança legítima dos sectários de Mani.

Certos arcontes tenebrosos haviam sido mortos pelo demiurgo. Sua pele, previamente dessecada e habilmente estendida pela Mãe de vida, deu origem ao firmamento; suas carnes constituíram a terra, e seus ossos as montanhas e as pedras. De sua cabeleira nasceram os legumes, e de seu fel se forma o vinho. Diversos colaboradores vieram completar a obra do Espírito poderoso. Este fez sair de sua inteligência o Ornamento de esplendor; de sua razão, o grande Rei de honra; de seu pensamento, Adamas Luz; de sua reflexão, o Rei de glória, e de sua vontade, o Portador. Théodore Bar-Khoni, loc. cit., p. 22.

« Os cinco auxiliares, assim criados, ajudam o Espírito a governar a terra... O primeiro, o Ornamento de esplendor, provido de seis rostos e cintilante de luz, estava estabelecido na região da estrela polar, no cume da máquina redonda, e a mantinha com mão vigorosa. O segundo, o grande Rei de honra, tronava no meio dos ares, perto dos dois luminares, velando por eles e dirigindo seus raios aqui embaixo, até nos mais vis esgotos, para iluminar as almas. Um terceiro, o luminoso Adamas, tendo na mão direita uma espada, na esquerda um escudo, lutava sobre o continente e através dos mares contra a sobrevivência dos demônios. Um quarto, o Rei de glória, instalado nas entranhas da terra, entre a parte alta e as regiões inferiores, punha em movimento as três rodas dos fogos, dos ventos e das águas. Enfim, o quinto, Atlas, ajoelhado para o Sul, na parte baixa dessa pesada massa, retinha-a com seus braços sobre seus robustos ombros. Por toda parte o mal se achava ordenado pelo bem. » P. Alfaric, op. cit., t. I, p. 38.

O sol e a lua desempenham um papel de primeira ordem na libertação das partículas luminosas ainda aprisionadas pelas trevas. As almas que têm a felicidade de escapar aos laços da matéria misturam-se ao ar puríssimo. Aí se purificam completamente. Depois sobem aos navios luminosos que foram preparados para embarcá-las e conduzi-las à pátria. S. Augustin, De nat. boni, 44, P. L., t. XLII, col. 368. Esses navios não são outros senão o sol e a lua. As almas passam primeiro pela barca lunar: esta se enche durante 14 dias, e aumenta de volume e de brilho. Depois, despeja sua carga no sol e volta pouco a pouco à sua forma primeira.

O próprio sol sai cada manhã pela janela triangular que lhe pertence; atravessa o oceano do céu e, à tarde, desaparece no ocidente. A sucessão das estações e dos anos explica-se, como a dos dias e das lunações, pelas exigências das viagens que devem realizar os grandes luminares em busca da substância divina. Ao primeiro Homem e ao Espírito poderoso juntam-se o terceiro Mensageiro e a Virgem de luz, que residem, um no sol e a outra na lua. Com eles estão virtudes andróginas, cujo papel próprio é excitar a concupiscência das potências adversas e desprender assim todos os elementos luminosos que ainda possam conservar. S. Augustin, De nat. boni, 44. O sol desprende assim a luz que estava misturada com os diabos ardentes, e a lua, a luz que estava misturada com os diabos frios. Flügel, Mani, p. 89. O mesmo mito explica o aparecimento dos diversos fenômenos cósmicos. Assim, os relâmpagos provêm da aparição súbita das virtudes andróginas. O trovão é o grito de raiva dos arcontes que não podem satisfazer sua paixão; o aguaceiro resulta de um relaxamento súbito sobrevindo em seus órgãos genitais.

Até agora, ainda não vimos aparecer sobre a terra os seres vivos; e sobretudo não fomos postos diante da humanidade. Chegamos a ela agora, após longa espera. Os vegetais aparecem os primeiros sobre a terra, que só os produz depois de ter sido fecundada pela semente impura dos demônios celestes. A vegetação é também obra do princípio mau; o que não impede que encerre, como todo o resto, certo número de partículas luminosas. Sob a ação vivificante do Espírito poderoso, a substância divina espalhada através do solo penetra nas raízes e no tronco; depois atinge os ramos e vai acumular-se nas flores e nos frutos, em quantidade tanto maior quanto mais bela é a cor dessas flores e mais saborosa a polpa desses frutos. P. Alfaric, L'évolution intellectuelle de saint Augustin, p. 113.

Os animais têm uma origem análoga à dos vegetais. Certo número deles, os menores e mais vis, como os piolhos, as pulgas e os percevejos, nascem espontaneamente da matéria. Os outros provêm das potências tenebrosas acorrentadas nos ares. « As filhas das trevas estavam grávidas anteriormente, de sua própria natureza. Por causa da beleza das formas do Mensageiro que tinham visto, abortaram. Seus fetos caíram sobre a terra e comeram os brotos das árvores. » Théodore Bar-Khôni, dans F. Cumont, op. cit., p. 40, 41. Os animais não são outra coisa que os descendentes desses abortos, os quais, uma vez chegados à terra, acasalaram-se e produziram por sua vez rebentos. Dividem-se em cinco categorias: bípedes, quadrúpedes, aves, peixes e répteis. Nascidos da concupiscência, os animais são ainda piores que os vegetais. Todavia, como fazem das plantas seu alimento ordinário, devem-lhes certo número de elementos luminosos que se trata de libertar. Essa libertação é tornada particularmente difícil porque as virtudes siderais continuam a velar sobre os descendentes de seus abortos e perseguem com ódio feroz todos os que tentam caçá-los. Cf. Augustin, De mor. manich., 60, P. L., t. XXXII, col. 1370.

A origem do homem é explicada de maneira bastante complexa. Prende-se a uma conjuração das potências más que reproduz, em certa medida, a primeira tentativa do reino tenebroso contra a Luz. Um dia, referia Mani, « o chefe da gente demoníaca, Saclas, reuniu os principais demônios e propôs-lhes formar um homem novo, que rivalizaria sobre a terra com o Homem primitivo e concentraria em sua pessoa todos os elementos luminosos restados neste mundo. » Com esse desígnio perverso, disse aos que o rodeavam: « Que pensais dessa grande luz que se levanta? Vede como abala o céu, como derruba a maior parte das potências. Nessas condições, é melhor que me deis a parte de luz que tendes em vosso poder. Com ela, produzirei uma imagem desse grande ser que nos apareceu cheio de glória. Assim a realeza nos pertencerá, e seremos enfim libertados da vida das trevas. » Depois de o ouvir e de se ter longamente concertada, toda a engenhosa raça achou muito justo aceder ao seu pedido. Como não tinham nenhuma esperança de guardar sempre a sua luz consigo, acharam preferível oferecê-la ao seu príncipe, com quem não desesperariam de reinar, graças a esse brilho. Como a multidão dos presentes era composta de machos e fêmeas, seu chefe os impeliu a acasalar-se. Nesse acasalamento, os machos comunicaram a sua semente, as fêmeas foram fecundadas por ela. Os produtos se mostraram em tudo semelhantes a seus autores; receberam, como primogênitos, a maior parte das forças de seus pais. O príncipe tomou-os, como um tributo real, com contentamento... Devorou-os e tirou muita força desse alimento... Depois disso, chamou a si a sua esposa, oriunda de sua raça. Uniu-se a ela por sua vez, semeou nela a abundância dos males que havia devorado, e acrescentou-lhe algo de seu pensamento e de sua força, para que seu próprio sentido desse forma e figura a todos os elementos que assim espalhava. » Epist. fundam., citée par Augustin, Contra Faust., ii, 1; S. Aug., P. L., t. xlii, col. 211.

Assim apareceu o primeiro homem, Adão, fruto da união de Saclas e de Nehroel ou Namrael, sua esposa. Nele achavam-se reunidos a maior parte dos elementos luminosos possuídos pelos abortos. Seu corpo era um microcosmo onde se encontravam « a roda das revoluções, as constelações, os três fossos e os recintos; os grandes mares e os rios, as duas terras, a do seco e a do úmido, as plantas e os animais, as montanhas e os cursos d'água, assim como os montes de terra e os outeiros, a primavera, o verão, o outono e o inverno, os anos, os meses, as horas e os dias, e mesmo o limitado e o ilimitado. » Traité manich., publié par E. Chavannes et P. Pelliot, no Journal asiatique, 1911, 9e sér., t. xviii, p. 338, 527.

Como o grande mundo, o homem reúne em si mesmo os dois princípios opostos, a luz e as trevas. Mais exatamente, possui duas almas, uma das quais é boa e a outra má. A primeira, que emana do Ser perfeito, não pode cometer nenhuma falta, não tem nenhuma capacidade para o mal. A segunda, ao contrário, feita de elementos tenebrosos, é levada ao mal de maneira quase invencível. Está sujeita a todos os impulsos da concupiscência e torna-se a ocasião do pecado. Em Adão, essa alma perversa e obscura tinha apenas um poder muito fraco. O primogênito do príncipe deste mundo havia recebido em si a porção mais pura da substância de seus pais, e estes mesmos haviam assimilado tudo o que de bom tinham as outras espécies vivas espalhadas sobre a terra. Era assim feito com a flor da primeira substância, e é isso que explica que se tenha mostrado melhor que todos os seus descendentes.

Infelizmente, Saclas e sua companheira não se contentaram em dar nascimento a Adão. Acasalaram-se uma segunda vez e produziram então um rebento tão mau quanto Adão podia ser bom. Eva, a primeira mulher, era como uma encarnação do mal. Cheia de potências más, era a antítese viva de Adão, sobre quem ia exercer a mais funesta influência. Feito de espírito e de matéria, participando ao mesmo tempo de Deus e do Diabo, Adão devia procurar desprender os elementos luminosos que possuía em si. O renascimento opera-se quando o espírito decaído reencontra a memória de seu primeiro estado e se dá conta de sua atual miséria. A salvação tem a ciência por condição essencial. Essa ciência, cabe a Jesus comunicá-la aos homens. Somente Jesus é o mestre e o salvador. Assim, pela primeira vez, aparece o cristianismo na dogmática maniqueia.

E é essencial notar que a pessoa de Jesus parece desempenhar um papel de primeiro plano na economia da salvação pregada por Mani. O profeta apresentava-se a si mesmo como o enviado de Jesus: Mani, apóstolo de Jesus, pela vontade de Deus Pai, escrevia ele no início da Epístola do Fundamento, cf. S. Augustin, Contra epist. Manich., 5, P. L., t. xlii, col. 176, e no Evangelho vivo: Eu, Mani, o enviado de Jesus, o amigo, no amor do Pai, do glorioso. F. W. K. Müller, Handschrift, Reste, p. 23. Por mais tardia que seja a menção do Salvador no sistema, ela não constitui de modo algum um elemento adventício. A redenção do homem, a de Adão, o primeiro, prossegue a obra empreendida pelo Pai das luzes quando procurara reparar a primeira falta das potências tenebrosas. Ele quer igualmente libertar o espírito encerrado em Adão e em sua companheira.

« Quando os cinco anjos, escreve An-Nadim, viram assim maculada a luz de Deus que a concupiscência havia secretamente arrebatado e aprisionado nessas duas criaturas (Adão e Eva), rogaram ao Mensageiro da salvação da vida, ao Homem primitivo e ao Espírito vivo que enviassem alguém a esse primeiro produto para libertá-lo e salvá-lo, revelar-lhe o conhecimento e a justiça e livrá-lo do diabo. Enviaram, pois, Isa. » Flügel, Mani, p. 91. Isa não é outro senão Jesus, o filho do Homem primitivo. S. Augustin, Contra Faust., ii, 1, t. xlii, col. 211. « Este, prossegue An-Nadim, veio, dirigiu-se a Adão e o esclareceu sobre os paraísos e os céus, o inferno e os diabos, a terra e o céu, o sol e a lua; mostrou-lhe o poder sedutor de Eva, preveniu-o contra ela e inspirou-lhe o temor de aproximar-se dela. » Flügel, Mani, p. 91. A Jesus se deve, desse modo, uma revelação primitiva; é possível que certos discípulos de Mani, se não o próprio Mani, tenham identificado Jesus com a serpente do Gênese: Théodore bar-Khôni diz, com efeito, que Jesus fez Adão ficar em pé e o fez provar da árvore da vida.

Em todo caso, Adão começou por mostrar-se fiel às ordens de Jesus e por guardar a continência. Mas Eva, conforme às tendências más de sua natureza, unia-se primeiro a seu próprio pai, depois a Caim, que tivera desse comércio incestuoso: logo fazia cair o próprio Adão. Este, contudo, só pecou por fraqueza e não tardou a converter-se a uma vida perfeita. Vários de seus descendentes imitaram seu exemplo. Segundo Sharastani, « a fé de Mani sobre as leis e os profetas era que Deus enviara com ciência e sabedoria em primeiro lugar Adão, o pai do gênero humano, depois Schit (Set), depois Nuh (Noé), depois Ibrahim (Abraão), depois Buda na Índia, e Zaradhust (Zoroastro) na Pérsia; e o Messias, o Verbo de Deus e seu Espírito, no país dos gregos e no Ocidente, bem como Paulo depois dele. » Trad. Haarbrücker, t. ii, p. 290.

Os homens perfeitos, porém, são apenas uma exceção. A maior parte dos homens seguiu o deplorável exemplo de Eva e de Caim, tendo transmitido a vida por meio da geração. Assim se perpetuou a mistura do bem e do mal; assim se viu retardada a libertação dos elementos luminosos e o retorno ao Pai das luzes, que é o fim último da criação. Todavia, depende de cada indivíduo realizar, no que lhe diz respeito, o plano providencial. Nascidos da carne, temos o poder e o dever de viver segundo o espírito, de praticar com todo o rigor os preceitos de moral que já haviam ensinado os grandes reformadores, Buda, Zoroastro, Jesus, e que Mani veio recordar à humanidade. Ao pensamento obscuro, ao sentimento obscuro, à reflexão obscura, ao intelecto obscuro, ao raciocínio obscuro, de onde nascem o ódio, a irritação, a luxúria, a cólera e a tolice, opõem-se em nós o pensamento luminoso, o sentimento luminoso, a reflexão luminosa, o intelecto luminoso, o raciocínio luminoso, que engendram a piedade, a boa-fé, o contentamento, a paciência e a sabedoria. E. Chavannes et P. Pelliot, no Journal asiat., 1913, 11e sér., t. i, p. 537, 538. Trata-se apenas de penetrar a verdadeira natureza desse dualismo e de viver segundo o espírito, mortificando as paixões e os desejos da carne. A dogmática maniqueia encontra assim na moral o seu desfecho normal.

2° Moral maniqueia. Os preceitos da moral maniqueia, segundo o testemunho de santo Agostinho, repartem-se todos em três grupos. São os três selos apostos sobre a mão, sobre a boca e sobre o seio.

« Quando falo da boca, explicava Mani, quero que se compreendam todos os sentimentos que estão na cabeça; quando falo das mãos, todas as ações; quando falo do seio, todas as paixões sexuais. » S. Augustin, De morib. man., 19.

1. O selo da boca. O primeiro dever de um fiel maniqueu é evitar tudo o que possa macular a sua boca; não se deve, pois, deixar nada de impuro entrar na boca ou sair dela. Em virtude dessa regra, fugir-se-á da mentira, da blasfêmia, da apostasia, do perjúrio, e mesmo do juramento, segundo a palavra do Evangelho que proíbe jurar. Ao selo da boca referem-se naturalmente os preceitos relativos à alimentação. Esses são muito severos. O maniqueu deve antes de tudo abster-se de carne, e mesmo, mais geralmente, de todo produto animal. É que os animais são criaturas dos demônios e são essencialmente maus. Sem dúvida, encerram alguns elementos luminosos, mas esses elementos são a todo instante expulsos: do animal vivo pela respiração, pela digestão, etc., de sorte que seu número e seu valor não cessam de decrescer. A morte faz desaparecer completamente do corpo o princípio divino que ele continha e o transforma numa massa imunda. Os próprios ovos perdem seus elementos vitais quando são quebrados; o leite, quando é ordenhado. Por isso tudo isso é rigorosamente proibido. Os ouvintes do Kouastouanift acusam-se assim: « Se, tomando corpos vivos como alimento e bebida com as dez pontas dos dedos de cabeça de serpente e os trinta e dois dentes,... fizemos mal e pena a Deus,... seja-nos remitido o nosso pecado. »

Só são autorizados os alimentos vegetais. É verdade que os vegetais também tiram sua origem do demônio; mas contêm em maior número os elementos luminosos. Ao comê-los, participa-se, pois, da luz. Certos vegetais são particularmente recomendados por causa de sua riqueza em princípios vitais; são os legumes fortes, como as cebolas, os alhos-porós, as trufas, os cogumelos; são também as frutas, sobretudo aquelas cuja cor quente e dourada manifesta o valor: o melão, por exemplo, encerra verdadeiros tesouros, aos quais deve sua bela cor e seu sabor agradável. Entre as bebidas, o vinho é estritamente proibido: sabe-se que é feito com o fel do príncipe das trevas, mas permitem-se mulsum, carœnum, passum et nonnullorum pomorum expressos succos... succum hordei. De morib. man., 29, 46, P. L., t. xxxii, col. 1357, 1365. O mulsum pode ser hidromel, o carœnum, um produto de uvas cozidas, o succus hordei, cerveja.

Mal é preciso acrescentar que os alimentos autorizados só devem ser tomados em quantidade razoável. Os verdadeiros fiéis, longe de encher glutonamente o ventre, devem saber abster-se de alimento. An-Nadim sabe que os discípulos de Mani jejuam no domingo e na segunda-feira, sendo este último jejum reservado aos Eleitos; fala também dos jejuns do mês, que duram sete dias, e dos do ano, que retornam em diversas épocas, um dos quais se prolonga por um mês. Flügel, Mani, p. 95 sq. K. Kessler, Mani, dans Realenc. f. prot. Theol., t. xii, p. 212, 213. Os jejuns do domingo e da segunda-feira destinam-se especialmente a honrar o sol e a lua, os dois grandes luminares.

2. O selo da mão. O selo da mão proíbe de maneira absoluta o homicídio e tudo o que se lhe assemelha: « Se nos comportamos mal contra os cinco gêneros de seres vivos, dizem os ouvintes no Khouastouanift, primeiramente contra os bípedes humanos, em segundo lugar contra os quadrúpedes vivos, em terceiro lugar contra as aves vivas, em quarto lugar contra os viventes aquáticos, em quinto lugar contra os viventes terrestres que rastejam sobre o ventre,... se alguma vez os assustamos ou amedrontamos, se alguma vez os ferimos ou espancamos, se alguma vez lhes causamos pena e mal, e se assim nos tornamos os carrascos desses seres que vivem e se movem, seja-nos remitido o nosso pecado. » Kouastouanift, v, 79-94.

As interdições decretadas em virtude do selo da mão estendem-se muito longe. Proíbe-se cometer homicídio, fazer guerra, portar armas; o homem, sendo a criatura mais rica em elementos luminosos, é também a mais sagrada. Proíbe-se matar os animais, por impuros que sejam: os animais possuem, no entanto, um princípio vital que é bom; e, aliás, ao atacá-los corre-se o risco de excitar a cólera dos arcontes maus, que velam sobre eles com zelo ciumento. Proíbe-se destruir os vegetais, visto que as plantas também têm uma alma divina; proíbe-se ceifar, cortar as árvores, colher os frutos. Aquele que ceifa passa, depois da morte, ao corpo de um ser desprovido de palavra, ao das plantas que ceifou. Acta Archel., 10, p. 15, 16. Proíbe-se até atentar contra as pedras ou a água, pois os minerais são animados. Se alguém anda sobre a terra, fere-a. Se levanta a mão, fere o ar; se se lava na água, fere sua alma... Aquele que tiver construído uma casa passará por todos os corpos. Acta Archel., 10, p. 16. Compreendem-se sem dificuldade todas as exigências de tal interdição. O verdadeiro maniqueu não devia nem lavrar, nem cortar pedras, nem lavar-se, nem mesmo andar, para evitar fazer mal à terra.

Em virtude da mesma lei, os discípulos de Mani abstêm-se de tomar o bem do próximo: a proibição do roubo é um dos dez preceitos do mestre. Flügel, Mani, p. 95. Não emprestam a juros. Mais ainda, segundo Birûni, Mani proibiu a seus discípulos possuir o que quer que fosse, à exceção do alimento para um dia e da roupa para um ano. Chronology, trad. Sachau, p. 190. É ainda para obedecer ao selo da mão que os maniqueus devem renunciar às honras e não se dedicar às funções públicas. Têm sempre presentes ao espírito os preceitos do Evangelho, sobretudo o Sermão da montanha, cujo ensinamento relativo à mansidão, à paciência, ao perdão das injúrias, ao desapego e ao desprezo das riquezas procuram praticar.

3. O selo do seio. Este é talvez mais importante que os outros dois; pois se trata de opor-se à propagação do mal. Para isso, o verdadeiro meio é evitar completamente todas as relações sexuais. A geração é má em si.

O casamento é proibido: como se ousaria correr o risco de encerrar um elemento luminoso num invólucro material procriando filhos? De uma regra tão absoluta, os maniqueus tiravam por vezes estranhas conclusões. Declaravam que se peca muito mais gravemente com uma esposa do que com uma concubina; que se incorrem em responsabilidades mais graves quando se quer ter filhos do que quando se busca somente o prazer; e, por conseguinte, que, se se faz questão de tomar uma mulher, deve-se ao menos evitar, tanto quanto possível, torná-la mãe. Mas eram apenas concessões à fraqueza humana. A prática da virgindade, não apenas aconselhada, mas ordenada a todos como um dever, era a regra da moral maniqueia. Somente os eleitos se mostram verdadeiros discípulos.

4. Distinção dos ouvintes. Uma moral evidentemente rigorosa ultrapassava o comum dos homens. Constituía um ideal que a massa não podia realizar. Se todos os adeptos da seita tivessem sido obrigados a conformar-se ao triplo selo, a difusão do maniqueísmo ter-se-ia achado gravemente comprometida. De fato, os maniqueus não ignoravam que a piedade e a boa-fé... são o caminho estreito por onde se caminha, mantendo-se de lado ao longo do grande mar dos tormentos nos três mundos, entre centenas de milhares de homens, e raramente se encontra um só que se meta nesse caminho. Traité manichéen, publié par E. Chavannes et P. Pelliot, no Journal asiatique, 1911, Xe sér., t. xviii, p. 564, 565.

Na prática, saía-se do apuro admitindo que os preceitos obrigavam de maneira rigorosa apenas os Eleitos, isto é, os verdadeiros fiéis, inteiramente consagrados à religião de Mani. Estes eram o pequeno número e viviam à maneira dos religiosos. Encontravam-se entre eles até mulheres e crianças: a maioria era de homens. Os eleitos maniqueus praticavam antes de tudo a continência: « Quanto às mulheres, escreve o maniqueu que citávamos há pouco, podem considerá-las como aparências vazias e enganosas; não são detidos nem embaraçados pelos encantos sensuais: tal a ave que, voando alto, não perece nas redes. » E. Chavannes et P. Pelliot, no Journal asiatique, loc. cit., p. 583. Observavam o selo da mão com tanta fidelidade que evitavam matar o que quer que fosse de vivo. Não tinham o direito de colher frutos em seu jardim, nem de cortar uma espiga em seu campo. Por isso teriam corrido o risco de morrer de fome se não fossem alimentados pelas esmolas dos outros homens. « Com perfeita dignidade esperam as esmolas, diz um fragmento maniqueu de Touen-houang; se ninguém lhes dá esmola, vão mendigar para prover às suas necessidades. » Journal asiatique, XIe sér., t. i, 1913, p. 111, 112.

Ainda assim, antes de tomar o alimento que lhes traziam, os eleitos deviam purificar-se pela oração. « Quando querem comer pão, começam por rezar e dizer a esse pão: não fui eu que te semeei, moí, amassei e pus no forno; foi outro que o fez e te trouxe a mim; como-te inocentemente. Tendo dito isso em si mesmo, cada um deles responde àquele que lhe trouxe o pão: Rezei por ti. E com isso este se retira. » Act. Archel., 10, p. 16, 17. Somente os alimentos vegetais eram aceitos por essa gente santa, que repelia com horror todo alimento animal. Os legumes e as frutas comunicavam-lhes uma parte mais abundante de vida divina, e aplicavam-se com cuidado a nada perder desses elementos preciosos.

Em grau inferior estavam os Ouvintes. Estes constituíam a massa, o povo, ou ainda os catecúmenos, pois parece bem que somente os eleitos tenham recebido o batismo s. Augustin, Contra litt. Petil., III, 20, P. L., t. xliii, col. 357. Ouviam a palavra de vida, mas não a punham em prática. Foi nas fileiras dos ouvintes que permaneceu santo Agostinho durante os anos de sua fé maniqueia. Os ouvintes tinham, no entanto, uma regra de vida bastante precisa. Antes de tudo, faziam profissão da verdadeira fé. Prestavam suas homenagens ao Pai da luz, ao Deus do sol e da lua e ao Deus poderoso. Tomavam parte nas assembleias litúrgicas e cantavam os hinos e cânticos em uso na seita. Depois guardavam certas observâncias: assim, se se casavam como os outros homens, contentavam-se com uma só mulher e evitavam, tanto quanto possível, ter filhos dela. Se aceitavam alimentar-se de carne e beber vinho, jejuavam fielmente todos os domingos em honra do Senhor. Se, enfim, violavam o selo da mão, ocupando-se de toda sorte de coisas proibidas aos eleitos, mesmo exercendo a profissão de açougueiro, suas faltas encontravam compensação nas esmolas que faziam aos eleitos.

A esmola ocupa, com efeito, um grande lugar na vida do ouvinte maniqueu. Várias das cartas de Mani versavam sobre o dízimo e as diferentes espécies de esmolas. O ouvinte do Kouastouanift, xi, 222, acusa-se de não ter dado exatamente as sete espécies de esmolas para a lei pura. São, como vimos, as esmolas dos ouvintes que sustentam os eleitos: estes, em troca, rezam por seus benfeitores, cujos pecados são assim remitidos. S. Augustin, De mor. manich., 60, 61, t. xxxii, col. 1370, 1371. Em contrapartida, essas esmolas devem ser reservadas exclusivamente aos eleitos: o ouvinte do Kouastouanift, xi, 231-213, acusa-se ainda de ter talvez dado a substância luminosa dos cinco bons elementos a homens de mau pensamento e de má vida, e de a ter assim dispersado e dissipado, e enviado a um mau lugar. E o tratado maniqueu, publicado por E. Chavannes e P. Pelliot, diz também, falando dos que chegaram ao termo de seu progresso espiritual: « Se veem que leigos que não são adeptos da religião sofrem algum dano ou experimentam desgostos, seu coração não se aflige com isso. » Journal asiat., 1911, X e sér., t. xviii, p. 583.

Eleitos e ouvintes são os discípulos de Mani. Fora deles, há os pecadores, de quem a moral maniqueia não tem de se ocupar, senão para esforçar-se por convertê-los dando-lhes a conhecer o caminho da Luz. Pois fora desse caminho não há salvação possível.

Somente serão salvos aqueles que tiverem crido na doutrina de Mani e tiverem praticado os seus mandamentos. Como se opera essa salvação? É o problema que resolve a escatologia maniqueia.

3° Escatologia maniqueia. As doutrinas de Mani sobre o fim último dos homens deviam estar expostas sobretudo no Shdpurakân, do qual An-N'adim parece dar um resumo sob este título: Doutrinas dos Maniqueus sobre a vida futura. É preciso citar esse resumo por inteiro. « Quando a morte, diz Mani, se aproxima de um verídico, isto é, de um eleito, o Homem primitivo envia um Deus luminoso sob a forma do sábio Condutor, escoltado por três outros deuses com o vaso de água, a veste, a faixa, a coroa, o nimbo, e acompanhado também pela Virgem, semelhante à alma desse justo. Ao mesmo tempo aparece o Demônio da cobiça e da concupiscência com outros demônios. Assim que o verídico os avista, chama em seu socorro os deuses que têm o aspecto do sábio Condutor e os três outros deuses. Estes se aproximam dele. Assim que os demônios o percebem, voltam-se para fugir. Eles tomam o verídico, revestem-no da coroa (da faixa?), do nimbo e da veste, põem em sua mão o vaso de água e sobem com ele pela coluna de louvor à esfera da lua, rumo ao Homem primitivo e rumo a Nahnaha, a mãe dos viventes, até o lugar onde ele se achava primeiro no Paraíso da luz. Durante esse tempo, seu corpo fica jazendo, para que o sol, a lua e os deuses luminosos lhe arranquem as forças, isto é, a água, o fogo e o vento leve, a fim de que assim se eleve até o sol e se torne um Deus. O resto de seu corpo, não sendo mais que trevas, é lançado no inferno.

Quando a morte se aproxima do homem militante, « bem disposto para a religião e a justiça, que protege uma e outra, assim como os justos, os deuses já mencionados lhe aparecem e também os demônios. Ele pede socorro e busca uma mediação propícia em recompensa das boas obras que realizou e da defesa que prestou à religião e aos verídicos. Também ele é libertado dos demônios. Mas permanece no mundo como um homem que vê em sonho espectros e que cai na imundície e na lama. Permanece nesse estado até que seu espírito seja libertado, até que chegue ao ponto de encontro dos verídicos e revista a veste deles, após uma longa série de extravios. Quando a morte aparece ao homem pecador, sobre quem a cobiça e a concupiscência puseram a mão, os demônios se aproximam dele, agarram-no, torturam-no e fazem-lhe ver os espectros. Os deuses também estão ali, bem como a veste mencionada. O homem pecador crê que vieram para salvá-lo. Mas estão ali apenas para cobri-lo de censuras, para lhe pôr de novo na memória suas ações e convencê-lo da falta que cometeu ao negligenciar amparar os verídicos. Então, erra sem cessar pelo mundo, aflito de tormentos, até o dia em que esse estado cessará e em que será lançado com este mundo no inferno. »

Tais são, diz Mani, os três caminhos conforme os quais as almas dos homens se repartem. Um deles conduz ao paraíso: é o caminho dos verídicos; outro vai ao mundo e seus terrores: é o caminho dos guardiões da religião, dos benfeitores dos verídicos; o terceiro leva ao inferno: é o caminho dos homens pecadores. » Flùgel, p. 100, 101.

Uma passagem da Epístola do fundamento, conservada por Pseudo-Agostinho, encerra alguns dados novos sobre a sorte das almas pecadoras: « Aquelas que, por amor do mundo, se deixaram afastar de sua primeira vida luminosa, que se tornaram inimigas da santa Luz, que se armaram abertamente para a ruína dos santos elementos, que se submeteram ao Espírito do Fogo, que além disso, por suas perseguições, afligiram a santa Igreja e seus Eleitos, observadores dos preceitos celestes, serão excluídas da bem-aventurança e da glória do santo Reino. Porque se deixaram dominar pelo mal, perseverarão nessa mesma raiz do mal: serão excluídas das regiões pacíficas e da terra imortal. Eis o que lhes sobrevirá por se terem apegado tão fortemente às obras más que se afastaram da vida e da liberdade da santa luz. Não poderão, pois, ser recebidas nesses reinos pacíficos, mas serão cravadas nesse globo horrível, ao qual é preciso dar uma guarda. Assim essas almas ficarão presas ao que tiverem amado. Permanecerão abandonadas nesse globo tenebroso. E terão atraído esse castigo por sua culpa, por terem negligenciado instruir-se sobre o destino que lhes estava reservado e desviá-lo quando a ocasião lhes era oferecida. » Ps.-Augustin, De fide contra manich., P. L., XLII, col. 1141.

Vê-se assim quão diferente será a sorte das almas, segundo a maneira como se tiverem conduzido neste mundo. Os eleitos entrarão imediatamente após a morte no Paraíso de Luz. Recolhidos ao sair deste mundo pelos anjos de luz, passam primeiro à barca lunar; depois são conduzidos no navio solar até as regiões habitadas pelo Pai; e é ali que permanecem por toda a eternidade. A sorte dos ouvintes é menos feliz: são condenados a permanecer neste mundo; e sem dúvida passam de um corpo a outro até que cheguem ao corpo de um eleito, o que é para eles a última etapa antes da salvação definitiva. Segundo Al-Biruni, o próprio Mani ensinou essa doutrina da metempsicose depois de a ter aprendido dos hindus; India, trad. Sachau, t. I, p. 54, 55. E de fato, ela se encontra exposta não somente nos Acta Archelai e nos textos cristãos que deles dependem, mas também no tratado chinês de Touen-houang, Journal asiat., Xe sér., t. XVIII, p. 532, 533.

Quanto aos pecadores, é o inferno que os espera, com seus sofrimentos eternos e sem esperança. Todavia, a separação definitiva dos bons e dos maus só se cumprirá depois de um tempo muito longo. São necessários períodos incomensuráveis para permitir que os elementos luminosos caídos neste mundo se desprendam da matéria e retornem à sua fonte primeira. Os próprios eleitos não podem impedir que certas partículas luminosas lhes escapem e retomem uma existência errante. Pouco a pouco, porém, cumpre-se a discriminação necessária.

As parcelas de luz sobem de volta ao seu princípio; e a matéria, cada vez mais abandonada a si mesma, permanece isolada. No último dia produz-se um imenso incêndio, que deve durar, segundo An-Nadim, em Flügel, Mani, p. 90, e o fragmento maniqueu de Turfan, em F. W. K. Müller, Handschrift. Reste, p. 19, 1468 anos. « O anjo encarregado de carregar a terra dirige-se para o alto, e o outro anjo cessa de puxar o céu atrás de si; então o que há de superior se mistura ao que há de inferior; um fogo irrompe e se espalha por essas matérias até que a luz que nelas está espalhada seja restituída à liberdade. » An-Nadim, em Flügel, Mani, p. 90. Tem-se então o fim. A separação opera-se para sempre entre os justos e os pecadores, e, mais exatamente, entre o mundo da luz e o mundo das trevas. Segundo An-Nadim: « O Homem primitivo vem então, diz Mani, do mundo da estrela polar; o Mensageiro da salvação, do Leste; o grande arquiteto, do Sul; o Espírito vivo, do Oeste. Eles observam o novo edifício, que é o novo Paraíso. Ao mesmo tempo, giram em torno desse inferno e olham em suas profundezas. Então os justos vêm do Paraíso para essa luz, a fim de se lançarem nela. Apressam-se ao encontro dos deuses e dispõem-se em torno desse inferno. Depois, lançam o olhar sobre os pecadores, que se voltam e se revoltam, errando aqui e ali e afundando-se sempre mais e mais nesse inferno incapaz de jamais prejudicar os verídicos. Quando os pecadores veem os verídicos, intercedem junto a eles e lançam-se humildemente a seus pés. Mas estes só lhes respondem em termos acusadores, que de nada lhes servem. Os pecadores só ganham com isso o aumento de seu pesar, de sua aflição e de seu abatimento. Tal será a sua sorte eterna. » Flügel, Mani, p. 101, 102. O reino de Deus se estende, brilhante como na origem, sem ter mais de temer qualquer invasão das coortes do Diabo. A ordem primeira é restabelecida inteiramente e para sempre.

A Igreja maniqueia. Segundo uma tradição que santo Agostinho conhece, e que outros autores relatam, por exemplo Agápio, Fócio, Pedro da Sicília, Mani teve doze apóstolos, como o Cristo. Esses escritores chegam a dar os nomes dos doze apóstolos de Mani: Sisínio e Tomé, Buda e Hermas, Adamas ou Adas e Adimanto, e Hiórax, Heraclides e Afônio, Agápio, Zarua e Sabriábio. Fócio, Contra man., I, 13. P. G., t. CII, col. 177; Pedro da Sicília, Hist. man., 16, P. G., t. CII, col. 1216. Esses nomes parecem muito pouco seguros; e sua enumeração, em três séries lunares seguidas de duas séries ternárias, é bastante suspeita. Como os Acta Archelai, 13, p. 22, mencionam apenas três discípulos de Mani, Adas, Tomé e Hermas, é verossímil que a lista primitiva compreendesse quatro séries de três nomes cada uma. Assim Mani reproduzia o exemplo do Pai da luz, rodeado desde a origem por doze éons repartidos em quatro tríades, e o do terceiro mensageiro, assistido também ele por suas doze virtudes. A exemplo de Mani, a religião maniqueia tinha à sua frente doze Mestres, submetidos eles próprios a um primeiro chefe.

Segundo An-Nadim, a religião santa compreende cinco graus: o dos Mestres, que são os filhos da doçura; o dos Iluminados, que são os filhos do sol e da ciência; o dos Sacerdotes, que são os filhos da inteligência; o dos Verídicos, do segredo; o dos Ouvintes, que são os filhos do exame. Flügel, Mani, p. 95. O chefe supremo do maniqueísmo é o imã, que, em princípio, reside em Babilônia. Vimos que, em certa data, o imã foi obrigado a transferir sua residência para Samarcanda. An-Nadim faz-nos conhecer os nomes de vários imãs, e na lista que dá das epístolas de Mani são inseridos os títulos de numerosas cartas de imãs. O tratado maniqueu de Tun-huang assinala da mesma maneira um chefe da religião. E. Chavannes e P. Pelliot, no Journal asiat., Xe sér., t. XVIII, p. 531, e n. 1; outro texto chinês mostra-nos o rei da religião cumprimentando os uigures. Ibid., XIe sér., p. 195. Sobre os doze mestres, que substituíam os doze apóstolos de Mani, S. Agostinho, De haeres., 46. P. L., t. XLII, col. 35, temos pouquíssimas informações; sabemos sobretudo que eram os chefes dos eleitos, em número de 72. Esse número mesmo lembra o dos discípulos do Cristo.

Os bispos maniqueus — Fausto de Milevo era um deles no fim do século IV — tinham o encargo de ordenar os sacerdotes e os diáconos. Os textos chineses fazem-nos conhecer altos dignitários da Igreja maniqueia, aos quais dão os nomes de mou-cho e de fou-to-tan. Poder-se-ia identificar os primeiros com os mestres e os segundos com os bispos. Abaixo dos bispos há sacerdotes e diáconos. Fortunato, o infeliz contraditor de Agostinho, era um sacerdote maniqueu estabelecido em Hipona. Em suma, essa hierarquia, na qual se reencontram as lembranças do Evangelho, é manifestamente calcada sobre a hierarquia católica. Constitui um dos pontos pelos quais os maniqueus mais se aproximavam do cristianismo.

Outro traço de semelhança encontra-se nos sacramentos maniqueus. Estes são em número de dois, o batismo e a eucaristia. O batismo é reservado aos eleitos. Os ouvintes são, portanto, na Igreja maniqueia, apenas como catecúmenos. Pelo batismo são remitidos os pecados e as grandes máculas. S. Agostinho, Contra Faust., VI, 8; Contra Petil., III, 16, P. L., t. XLII, col. 221, col. 248; tratado de Tun-huang, no Journal asiat., IXe sér., t. XVIII, p. 537. Turíbio de Astorga, P. L., t. LIV, col. 694, pretende que os maniqueus se serviam de óleo para administrar o batismo, e de fato sabemos que consideravam o óleo uma substância purificante, S. Agostinho, De mor. man., II, XV, P. L., t. XXXII, col. 1362; parece, contudo, provável que o batismo maniqueu fosse dado na água. A eucaristia, ela também, é reservada aos eleitos. S. Agostinho, Contra Fortunat., 3, t. XLII, col. 114. Temos pouquíssimas informações sobre os seus elementos e sobre a maneira como eram consagrados.

A fórmula grega de abjuração, que é um documento tardio, anatematiza as pessoas que rejeitam a conversão do precioso sangue e corpo do Cristo, ao mesmo tempo que fingem aceitá-la, e lhe substituem mentalmente os discursos doutrinais do Cristo, sobre cuja única comunicação ele teria dito, segundo elas, aos Apóstolos: « Tomai, comei e bebei. » P. G., t. I, col. 1469. Mas a censura aqui dirigida aos maniqueus, de entenderem a eucaristia num sentido puramente simbólico, é pouco verossímil. Supôs-se que, ao lado do pão, os maniqueus consagravam água, com a qual substituíam o vinho, considerado particularmente impuro. P. Alfaric, L'évolution intellectuelle de saint Augustin, p. 133, n. 2. Essa hipótese é ao menos provável, mas gostaríamos de vê-la confirmada por textos precisos.

Segundo o testemunho de Agostinho, à eucaristia maniqueia misturavam-se por vezes práticas ignóbeis, que o santo doutor reprovava: ele lembra os católicos a seus adversários, de comerem a título de eucaristia um pão imundo, uma massa de farinha aspergida com um líquido impuro. De haeres., 46, t. xlii, col. 36. Os maniqueus, é verdade, negavam os fatos alegados, e recentemente se tentou diminuir o valor dos testemunhos relatados por santo Agostinho; P. Alfaric, op. cit., p. 165, n. 1. Parece, contudo, difícil não levá-los em conta. Se só possuímos poucos pormenores sobre os sacramentos do maniqueísmo, conhecemos ao menos melhor suas orações e suas cerimônias.

Segundo An-Nadim, o próprio Mani inspirou a seus fiéis o mandamento das quatro ou sete orações; eis como, segundo o historiador árabe, devem cumprir-se essas orações: « O fiel mantém-se de pé; fricciona-se com água ou outra substância, e volta-se para a grande luz. Depois prostra-se e, feito isso, diz: « Bendito seja o nosso guia, o Paráclito, o enviado da Luz. Benditos sejam os seus anjos, os vigilantes; e louvados sejam os seus anos luminosos. » Em seguida levanta-se prontamente... Numa segunda prostração, diz: « Glorioso e luminoso Mani, tu és o nosso guia, a raiz da nossa iluminação, o ramo da honestidade, a grande árvore, tu és a nossa salvação. » Numa terceira prostração, diz: « Prostro-me e louvo, com um coração puro e uma língua sincera, o grande Deus, o Pai das luzes... » Numa quarta prostração, diz: « Louvo e invoco todos os deuses, todos os anjos luminosos, todas as luzes e todos os exércitos que estão diante do grande Deus. » Numa quinta prostração, diz: « Invoco e louvo os deuses e os exércitos luminosos, que, com a sua Sabedoria, se lançam sobre as trevas, as rechaçam e as domam. » Numa sexta prostração, diz: « Invoco e louvo o sublime Pai da grandeza, o brilhante que veio das duas ciências. » Continua assim até a décima segunda prostração. Depois de concluir as doze prostrações, passa a outra oração, na qual formula louvores que não pudemos reproduzir. A primeira oração tem lugar quando o sol ultrapassou o seu pleno meio-dia, a segunda entre esse momento e aquele em que ele se põe, a terceira à noite, depois do pôr do sol, a quarta no meio da noite, três horas depois do pôr do sol. Em cada uma, nas suas prostrações, o fiel comporta-se como na primeira, dita ao Mensageiro da Salvação. » Flügel, Mani, p. 96, 97.

« Já não possuímos esse livro das Orações, de que fala Timóteo de Constantinopla, De recept. haeret., P. G., t. lxxxvi, col. 21, e que devia conter as principais fórmulas da liturgia maniqueia; mas temos ainda, em manuscritos de Turfan, fragmentos e títulos de hinos do mais alto interesse. Sabíamos, havia muito tempo, e particularmente por santo Agostinho, que os maniqueus amavam muito a música, na qual viam como um eco vindo do céu. Os textos recentemente descobertos permitem-nos doravante fazer uma ideia mais exata desses hinos e desses cânticos. Uma longa tábua de matérias dá-nos as primeiras palavras de perto de duzentas dessas peças. Eis um fragmento dessa tábua: Lembra-te dos benfeitores... Quero louvar-te, Yazd Bag Mani... Quero louvar-te e invocar-te... Quero louvar-te, luz inviolada... Quero invocar-te, Deus, luz... Quero invocar-te, tu que me... Quero invocar-te, ó meu Deus, salva-me... Quero invocar-te, ó meu Deus, tu... Quero louvar-te, ó meu Deus... Glória a ti, ó meu Deus, por... Benfeitores, eleitos, queremos bendizer-te... » F. W. K. Müller, Ein Doppelblatt aus einem manichäischen Hymnenbuch (Mahrnamag), nos Abhandlungen da Academia de ciências de Berlim, 1913, p. 20. Cf. W. Bang, Manichäische Hymnen, no Museon, t. xxxviii, 1925, p. 1-55.

Outros manuscritos de Turfan completam essa tábua de matérias. « Contêm fragmentos numerosos e por vezes importantes de hinos maniqueus... Vários se referem aos últimos tempos, à partida, à separação do corpo e da alma. Outros formulam votos por grandes personagens. A maioria dirige louvores variados ao Pai da luz, às grandezas que rodeiam o seu trono, aos Espíritos que o assistem, aos dois luminares, aos anjos que recolhem as almas nas barcas celestes, e sobretudo ao sábio, ao brilhante, ao divino Mani. Enfim, algumas pedem perdão a Deus pelos pecados cometidos. « Certos desses textos litúrgicos trazem ainda a sua notação musical. Eram destinados a ser cantados. Sem dúvida o canto se fazia com acompanhamento. Segundo o historiador Ibn Shinah, Mani teria inventado o alaúde. » P. Alfaric, Les écritures manichéennes, t. ii, p. 133.

Às orações e aos hinos é preciso juntar certas práticas de confissão dos pecados, sobre as quais só temos informações incompletas. Uma carta de santo Agostinho mostra-nos os ouvintes ajoelhando-se diante dos eleitos, na atitude de oração, para receber a imposição das mãos, sinal sensível do perdão de suas faltas. Epist., ccxxxvi, 2, P. L., t. xxxiii, col. 1033; cf. Acta Archel., 10, p. 16, l. 15. Mas ignoramos qual era exatamente o valor dessa absolvição.

Um texto reencontrado em Turfan e em Tun-huang, o Kouastouanift, é uma espécie de penitencial; vê-se nele o ouvinte maniqueu passar em revista as suas faltas e, por fim, pedir perdão a Deus; já indicamos as quinze categorias entre as quais se repartem, de uma maneira aliás bastante arbitrária, as faltas cometidas e acusadas. Ver col. 1851. Os jejuns dos maniqueus são uma de suas práticas de penitência mais características. Não temos de voltar a eles, já tendo tido ocasião de mencioná-los. Col. 1880. Basta lembrar que o mais longo e o mais importante deles precedia a grande festa da seita, a do Bema. Essa festa era celebrada todos os anos na primavera, para comemorar o aniversário da morte de Mani. Caía, pois, mais ou menos na mesma época que a Páscoa, e o jejum que lhe servia de preparação podia ser mais ou menos confundido com a quaresma. Quando chegava o dia da solenidade, erguia-se em lugar de destaque um estrado fúnebre, munido de cinco degraus e ornado de linhos preciosos; era desse estrado, que lembrava a memória do Mestre, que se dirigiam as orações dos fiéis. S. Agostinho, Contra epist. Man., 9, t. xlii, col. 178.

Ao lado da festa do Bema, os maniqueus tiveram de adotar uma ou outra das solenidades cristãs. Assim, no tempo de são Leão Magno, os adeptos da seita celebravam em Roma o dia de Natal, mas o papa lhes censura honrarem muito mais o sol novus do que o próprio Nosso Senhor. Sermo xxii, 6, P. L., t. liv, col. 198. É evidente que tais festas não têm significação alguma para a inteligência do maniqueísmo. É possível que na origem os maniqueus não tivessem nem templos, nem imagens, nem altares; e Fausto de Milevo explicava, em sua obra, que o único templo de seus correligionários é a alma do justo, e seu único altar um espírito cultivado. S. Agostinho, Contra Faust., xx, 3, P. L., t. xlii, col. 370. Todavia, essa ausência de templos, de representações figuradas e de incenso litúrgico, de que se gloriava Fausto, deve prender-se simplesmente às condições muito duras impostas ao maniqueísmo africano pelas autoridades civis. Sabemos a importância que Mani dava ao desenho e à pintura, e que procurara, pela decoração de suas obras, atrair os olhos tanto quanto os espíritos. Os maniqueus do Oriente tinham, segundo An-Nadim, igrejas ornadas de afrescos, Flügel, Mani, p. 98; e faziam grande consumo de incenso. A ausência de altares pode, ao contrário, prender-se a causas mais gerais. Os discípulos de Mani tinham horror ao sangue derramado e à morte dos animais; não admitiam, aliás, que o Cristo tivesse realmente morrido e não concebiam um sacrifício incruento, como é o da missa. Não oferecendo sacrifícios, não tinham necessidade de altares em seus lugares de oração.

Mal é preciso acrescentar que as informações que acabam de ser dadas sobre a liturgia maniqueia estão longe de ser completas; as orações, os cantos, os ritos em uso na seita variaram segundo os lugares e segundo as épocas. Se se põe à parte o mandamento da oração, imposto por Mani, e a grande festa do Bema, que parece ter sido muito antiga e universalmente celebrada, não se tem o direito de generalizar este ou aquele dado particular, que só vale para a época e o tempo em que foi constatado.

V. Origens do maniqueísmo. Procuramos, nas páginas que precedem, descrever o maniqueísmo tal como podemos conhecê-lo pelos fragmentos de Mani ou pelas obras de seus discípulos, sem nos perguntarmos de onde vêm as doutrinas ensinadas por Mani, e que lugar se deve dar, na história das religiões, ao fundador da seita. É ao menos necessário colocar a questão e, sobretudo, assinalar, na medida do possível, as relações entre o maniqueísmo e o cristianismo.

É certo que Mani conhecia as Escrituras do Antigo Testamento; mas era para rejeitá-las como obra do diabo, Tito de Bostra, contra man., I, P. G., t. XVIII, col. 1221. Seu ensino é um protesto contra o judaísmo, religião essencialmente má e corruptora. Em nossos livros, diz An-Nadim, ele tratava irrespeitosamente todos os profetas; acusava-os de mentira e sustentava que os demônios se tinham apoderado deles e falavam por sua boca; em algumas passagens de seus escritos, qualificava-os até de demônios. Flügel, Mani, p. 100. Os Acta Archelai completam essas informações. « Eis o que ensina Manes a respeito dos profetas: Neles, Trevas, reside o espírito de impiedade e de iniquidade dos que se sublevaram no início. Por isso foram enganados e enganadores. O Arconte cegou-lhes o entendimento. Se alguém se liga às suas palavras, morrerá para sempre e será votado ao globo de fogo por não ter aprendido a gnose do Paráclito... Segundo ele, é o príncipe das Trevas que falou com os judeus e com os sacerdotes dessa gente: logo, o Deus destes é o mesmo que o dos cristãos e dos gentios; seduziu-os em sua concupiscência, porque não é o verdadeiro Deus. Quem quer que espere nessa divindade será como ela entregue às cadeias, por não ter posto a sua esperança no Deus verdadeiro. » Acta Archel., 11 e 12, p. 18, l. 13, p. 20, l. 13.

Mais adiante, a mesma obra põe na própria boca de Mani censuras mais precisas: É a Satanás, supõe-se que diga o reformador, que se devem atribuir os ensinamentos da Lei e dos profetas. Foi ele quem falou por intermédio destes últimos. Fez que atribuíssem a Deus toda sorte de ignorâncias, de tentações e de desejos maus; fez que o apresentassem como ávido de carne e de sangue, esforçando-se assim por fazer recair sobre o Pai do Cristo os caracteres de Satanás e de seus profetas... A lei encerra um ministério de morte organizado. Ela é o véu posto sobre o rosto de Moisés para fazer desaparecer o seu esplendor. Não se pode, sem perigo, juntar-lhe o Novo Testamento, como se este viesse do mesmo Mestre. Com efeito, ela está gasta, decrépita e próxima da morte, ao passo que o ensino do Salvador se renova de dia para dia. Quando uma árvore tem o tronco envelhecido e seus ramos já não dão fruto, corta-se. Quando os membros do corpo estão corrompidos, amputam-se.

Sem isso, o mal que causou a sua corrupção se espalharia por todo o organismo. Do mesmo modo, a manutenção da lei, nascida da ignorância, seria a perda da alma. A Lei e os profetas vão até João Batista. Depois dele vem a lei da verdade, a lei da promessa, a lei dos céus, a lei nova dada ao gênero humano. » Acta Archel., 16, p. 27.

Graças sobretudo aos escritos de santo Agostinho, e principalmente ao De Genesi contra manichaeos, ao Contra Adimantum e ao Contra Faustum, conhecemos bem o pormenor das objeções que Mani e seus discípulos faziam ao Antigo Testamento. Censuravam-lhe antes de tudo a barbárie e a crueldade, a imoralidade de certo número de seus relatos, a inverossimilhança deste ou daquele pormenor histórico, o caráter grosseiro de sua legislação. Comprazam-se também em opô-lo ao Novo Testamento e em mostrar as contradições existentes entre a doutrina de Moisés e dos profetas e os ensinamentos do Salvador. Essas objeções não eram novas, e Mani não precisara inventá-las. Muito naturalmente, aproximamos Mani de outros adversários bem conhecidos do Antigo Testamento, que rejeitavam a lei judaica por razões semelhantes às suas. Estes são os gnósticos, Basílides, Valentim, e particularmente Marcião. Numa obra a que dera o título significativo de Antíteses, Marcião empenhara-se em fazer ressaltar as oposições dos dois Testamentos, de maneira a provar que as duas coletâneas não podiam ser obra de um só e mesmo Deus. Ao Deus justo, ao Criador do céu e da terra, atribuía o Antigo Testamento; via, ao contrário, no Novo a obra acabada e definitivamente perfeita da bondade do outro.

Os nomes de Mani e de Marcião foram aproximados um do outro desde muito cedo. Santo Efrém, por exemplo, combateu juntos esses dois adversários, ao mesmo tempo que Bardesanes. Todavia, Mani era outra coisa que um discípulo de Marcião, e ia mais longe do que ele na negação; tomava-o pessoalmente a partido até num capítulo do Tesouro. Em vez de atribuir as Escrituras judaicas a um Deus inferior, Mani via nelas a obra do diabo. Dessa maneira, era impossível conservar fosse o que fosse do Antigo Testamento.

O Novo Testamento era mais bem tratado por Mani, embora também ele fosse submetido a uma crítica severa. É que os livros que o constituem nos instruem sobre o Cristo, e que este ocupa um lugar dos mais importantes no sistema maniqueu. Tão antigo quanto o mundo, engendrado pelo Homem primitivo com quem pode ser identificado, Jesus é o Filho de Deus e o Salvador. Apareceu primeiro a Adão, para instruí-lo de seus deveres e premuni-lo contra a sedução de Eva. Mostrou-lhe a sua própria pessoa exposta aos dentes da pantera e aos dentes do elefante, « devorada pelos vorazes, engolida pelos glutões, comida pelos cães. » Teodoro Bar-Khôni, em F. Cumont, Recherches sur le manichéisme, fasc. 1, p. 48. Desde então continua a viver no mundo, sempre preso à cruz de luz e sofrendo por sua união com a matéria; mas prosseguindo também a obra da salvação. Tais doutrinas, sem dúvida, não figuram nos livros autênticos do Novo Testamento. Mas os maniqueus, fiéis também aqui ao exemplo de Marcião, não hesitavam em fazer a crítica do Novo Testamento, guardando as partes que lhes agradavam e rejeitando impiedosamente todo o resto.

Em certos aspectos, a crítica de Mani era menos destruidora do que a de Marcião, pois este só conservava o Evangelho de são Lucas, ao passo que os maniqueus não hesitavam em servir-se dos quatro evangelhos. Mas não aceitavam o seu texto tradicional. Faziam nele cortes; suprimiam em particular todas as passagens nas quais Jesus apresentava a sua doutrina como o cumprimento da antiga aliança, aquelas que continham um elogio dos judeus. Rejeitavam ainda tudo o que dizia respeito à infância de Nosso Senhor. Os relatos relativos à concepção virginal desagradavam-lhes entre todos. « Guardar-me-ei bem, faz dizer a Mani o autor dos Acta Archelai, de admitir que Nosso Senhor tenha descido ao seio de uma mulher... Há uma quantidade de testemunhos que mostram que ele veio entre nós sem nascer como nós... O Filho de Deus desceu inteiramente formado e transformou-se completamente em homem. Como diz Paulo, foi achado exteriormente semelhante a um homem... Depois, quando quis, deu a essa humanidade a forma e o aspecto do sol. » Acta Archel., 59, p. 86 sq.

Os relatos relativos à paixão não eram menos violentamente atacados pelos maniqueus. Pois Mani não podia admitir que Jesus tivesse verdadeiramente morrido na cruz. Uma passagem da Epístola do fundamento, citada por Evódio, afirma que não foi o Filho de Deus, mas um suposto do diabo que foi crucificado. « O inimigo, escreve Mani, esperava bem ter na cruz o Salvador, Pai dos justos. Mas foi ele que se viu crucificado. Nessa circunstância, a realidade foi bem outra que a aparência. O príncipe das trevas viu-se, pois, preso à cruz; levou com seus companheiros a coroa de espinhos e foi revestido do manto de púrpura. Bebeu o fel e o vinagre que, segundo alguns, teriam dessedentado o Salvador. Todos os sofrimentos que este pareceu suportar foram reservados aos arcontes tenebrosos. Só eles foram atingidos pelos cravos e pela lança. » Evódio, De fide contra man., 28, P. L., t. XLII, col. 1147.

É fácil compreender os princípios segundo os quais eram assim dissecados os relatos do Novo Testamento. Como Mani estima que a matéria é essencialmente má, não pode admitir que o Salvador tenha tido um corpo verdadeiro. Da carne, Jesus tomou a aparência, foi achado em tudo semelhante a um homem; mas não teve a realidade desse corpo mortal e passível. Não teve de nascer nem de morrer. Essa doutrina não é particular do maniqueísmo. De novo, reencontramos aqui a lembrança dos gnósticos, que condenavam impiedosamente a carne como a fonte de todos os males; é seguindo o exemplo dos mestres gnósticos que Mani chegava ao docetismo. Com os evangelhos corrigidos e mutilados, Mani aceitava ainda as epístolas de são Paulo.

Marcião agira do mesmo modo; e o seu cânon do Novo Testamento só continha o Apóstolo ao lado do Evangelho de são Lucas. Naturalmente, o Apostolicum de Mani fora também ele objeto de uma correção severa, que tivera por resultado retirar dele todas as passagens favoráveis aos judeus. Mas como, afinal de contas, são Paulo continuava a ser aquele que melhor compreendera a oposição fundamental da carne e do espírito, da lei e da fé, do homem velho e do homem novo, suas cartas continuavam a ser o arsenal incomparável onde os maniqueus buscavam os argumentos que podiam fazer valer em suas discussões com os católicos. Os escritos de Adimanto, de Fausto, de Secundino, que conhecemos pelas refutações de santo Agostinho, estão cheios de textos tomados às epístolas de são Paulo.

Não se teria uma ideia completa da posição tomada por Mani e seus discípulos a respeito do cristianismo se não se lembrasse o papel desempenhado entre eles pelos livros apócrifos. Recentemente, o Sr. P. Alfaric tentou elaborar um inventário completo das Escrituras maniqueias: talvez esta ou aquela das obras que menciona não tivesse realmente direito de cidade na biblioteca religiosa dos maniqueus; seu inventário permite ao menos fazer uma ideia de algumas das fontes do pensamento maniqueu. Já sabemos que o próprio Mani compusera uma obra a que dera o nome de Evangelho vivo. Talvez esse livro não fosse outra coisa senão um comentário dos relatos evangélicos, bastante análogo aos vinte e quatro livros dos Comentários evangélicos redigidos por Basílides. É ao menos o que se seria tentado a concluir de um testemunho de Teodoro Abu-Qurra, segundo o qual os zandiques ou maniqueus falam assim às pessoas que querem converter: « Deves juntar-te aos cristãos e escutar as palavras de seu evangelho. E o verdadeiro é aquele que possuímos, aquele que escreveram os Doze apóstolos... E ninguém possui a sua explicação fora de Mani, nosso mestre. » Traktat über den Schöpfer und die wahre Religion, trad. G. Graf, Munster, 1913, p. 27. Nessas condições, Mani teria comentado o Evangelho dos Doze apóstolos; e é esse comentário que teria tomado o título de Evangelho vivo.

O Evangelho dos Doze, mencionado por Orígenes, Hom. 1 in Luc, P. G., t. xiii, col. 1803, nos é aliás mal conhecido. P. Alfaric, op. cit., t. ii, p. 173-175, identifica-o com o Evangelho ebionita que cita Epifânio, Hæres., xxx, 3, P. G., t. xli, col. 109. Duas citações, feitas por al-Biruni, poderiam provir do Evangelho dado aos Doze Apóstolos: a primeira é sem referência: « Os [Apóstolos] interrogaram Jesus sobre a vida da natureza inanimada; ao que ele lhes disse: « Se o que é inanimado é separado do elemento vivo que lhe está misturado e aparece sozinho consigo mesmo, é de novo inanimado e não é capaz de viver, ao passo que o elemento vivo que o abandonou, retendo inalterada a sua energia vital, nunca morre. » India, trad. Sachau, t. i, p. 48. A segunda é tomada ao livro dos Mistérios: « Como os Apóstolos sabiam que as almas são imortais e que, em suas migrações, revestem todas as aparências, tomam a forma de todos os animais e são moldadas no molde de todas as figuras, perguntaram ao Messias qual seria o fim dessas almas que não tivessem recebido a verdade ou aprendido a origem de sua existência. E ele lhes respondeu: Toda alma fraca que não recebeu tudo o que lhe pertence de verdade perece sem nenhum repouso ou felicidade. » India, t. i, p. 54, 55.

Em suma, estamos mal informados sobre o Evangelho dos Doze; não o estamos muito melhor sobre o dos Setenta, de que fala al-Biruni, e que ele apresenta como uma cópia do primeiro, feita por um certo Balamis. Chronology, trad. Sachau, p. 27; cf. P. Alfaric, op. cit., t. ii, p. 177-180. Timóteo de Constantinopla, De recept. haeret., P. G., t. lxxxvi, col. 21, assinala o Evangelho de Filipe e o Evangelho de Tomé na lista das Escrituras maniqueias. O segundo dessas obras é igualmente assinalado por são Cirilo de Jerusalém, que não quer recebê-lo; « pois, diz ele, não vem de um dos doze apóstolos, mas de um dos três maus discípulos de Mani. » Catech., vi, 31, P. G., t. xxxiii, col. 593. Esses dois livros não têm origem maniqueia, mas gnóstica. O Evangelho de Filipe é citado por santo Epifânio, Hæres., xxvi, 13, P. G., t. xli, col. 352, e sem dúvida também pela Pistis Sophia, 42-44, edit. Schmidt, p. 44, 45. O Evangelho de Tomé é assinalado por Orígenes e por santo Hipólito, Philos., v, 7, P. G., xvi, col. 3314, que faz dele um livro sagrado dos Naassenos.

Santo Agostinho ensina-nos, por outro lado, que os maniqueus consideram os Atos de Tomé como escrituras totalmente puras e verídicas. Contra Faust., xxii, 79; Contra Adim., xvii, 2, P. L., t. xlii, col. 452, 158. Cf. Bousset, Manichäische in den Thomasakten, na Zeitschrift für N. T. Wissensch., 1917, p. 1 sq. Diz igualmente que os maniqueus têm em alta estima os Atos de Pedro, Contra Adim., xvii, 5, t. xlii, col. 161. Evódio de Uzalis censura os maniqueus por admitirem a doutrina dos Atos de André, De fid. contra Man., 38, ibid., col. 1150, que Filástrio de Bréscia considera o primeiro dos apócrifos admitidos pela seita, Hæres., lxxxviii (60). Os Atos de João são ainda nomeados por Filástrio entre as escrituras maniqueias, loc. cit. Os Atos de Paulo, enfim, eram citados por Fausto de Milevo.

Todos esses livros nos são bem conhecidos, pois foram muitas vezes citados pela antiguidade cristã. Uns, sobretudo os Atos de João e os de Tomé, têm uma coloração gnóstica e docetista muito acentuada. Os outros são mais ortodoxos; ainda assim, deviam agradar aos maniqueus pelos discursos que encerram em favor da castidade, pelo desprezo que ostentam pela carne e pela matéria. Não é sem razão que os maniqueus, se não o próprio Mani, se inspiravam nas obras apócrifas mais de bom grado do que nos textos canônicos: encontravam nelas certas doutrinas suas. Essas doutrinas, aliás, não haviam sido ensinadas pela grande Igreja; eram as da Gnose, e já se as encontra entre os mestres gnósticos do século II, Basílides, Valentim e Marcião.

É o nome de Marcião que se impõe antes de todos os outros quando não nos contentamos mais em examinar os livros rejeitados ou aceitos pelo maniqueísmo e nos colocamos diante da doutrina de Mani. O fundo dessa doutrina é o antagonismo entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas. Marcião resolvera esse antagonismo admitindo a existência de um Deus bom ao lado de um Deus justo. Justiça e bondade eram, para ele, os dois atributos, digamos, se se quiser, as duas virtudes opostas. Mani é, em certo sentido, mais lógico do que Marcião, pois a justiça não é um mal, e não é contraditória com a bondade. É o mal que se opõe ao bem; a matéria que se opõe à carne, a obscuridade que se opõe à luz. Mani não hesita em fazer dessa oposição algo de eterno, de necessário, de imutável. A luz sempre existiu diante das trevas, e nada pode suprimir um desses dois princípios. A guerra que travam um contra o outro, que se prossegue desde a origem deste mundo até a consumação das coisas, não é senão um episódio. Antes dela, os dois reinos coexistiam um ao lado do outro. Depois dela, tornarão a misturar-se sem se conhecerem. O mesmo dualismo reencontra-se, mais ou menos acentuado, expresso de diversas maneiras em todas as seitas gnósticas. O maniqueísmo aparece, pois, como uma espécie de gnose, mais completa, mais lógica e até, no conjunto, mais simples do que a maior parte das que o precederam.

O próprio Mani é apóstolo de Jesus Cristo, Acta Archel., 5 e 15, p. 5 e 23; Agostinho, Contra epist. Man., 9; Contra Felic., i, 14, P. L., t. xlii, col. 178, 529. É também o Paráclito anunciado pelo Cristo, Acta Archel., 15, p. 24. l. 3; cf. An-Nadim, em Flügel, Mani, p. 85; Al-Biruni em Kessler, Mani, p. 318. Ensina o começo, o meio e o fim, mostra como o mundo se formou, por que os dias sucedem às noites, que fim perseguem o sol e a lua em suas longínquas carreiras. Agostinho, Contra Felic., i, 9, P. L., t. xlii, col. 525. É que ele é o último dos mensageiros divinos, e que nele se realizam todas as promessas feitas por Jesus a seus Apóstolos. Nesse sentido, o maniqueísmo depende do cristianismo. Não teria sido o que é, se Mani tivesse ensinado antes do Cristo, e se não tivesse conhecido as doutrinas cristãs.

Os textos orientais recentemente descobertos trouxeram aqui preciosas confirmações. Certas doutrinas que se conheciam sobretudo por santo Agostinho, e que tinham um tom particularmente cristão, a da Trindade, por exemplo, as que dizem respeito ao papel do Cristo na salvação, podiam parecer particulares dos maniqueus da África e ter sido influenciadas, em data recente, por um contato prolongado com o catolicismo. O fato de essas doutrinas figurarem igualmente nos textos de Tun-huang basta para provar o seu caráter autêntico e original. Mas o dualismo, enquanto sistema, nada tem de cristão. É antes no Oriente que se devem buscar as suas expressões mais completas.

« O maniqueísmo, escreve K. Kessler, é a gnose mais acabada, de uma parte, porque toma emprestada da fonte primitiva de todas as gnoses da Ásia anterior, da religião assírio-babilônica, a matéria mitológica mais rica, sem nenhum intermediário; de outra parte, porque o seu fundador Mani trabalhou e sistematizou essa matéria de maneira mais conseqüente do que todos os gnósticos, fazendo dela um corpo de doutrina. Félix diz, em Agostinho, Contra Felic., i, P. L., t. xlii, col. 536, da Epistola fundamenti, que nela Mani resumiu o começo, o meio e o fim. De fato, sobre todos os problemas que excitam o interesse religioso a respeito do passado, do presente e do futuro, sobre todos os problemas relativos à verdadeira natureza de Deus e do homem, e aos deveres do homem que daí decorrem em relação a Deus, Mani traz soluções não apenas pormenorizadas, mas ordenadas, nítidas e sistematizadas. Eis o que, até ele, faltara à gnose. O maniqueísmo devia assim, durante o primeiro milênio da era cristã, exercer uma profunda influência. Os antigos sistemas da gnose dualista, aqueles de que o próprio Mani fala com freqüência, os dos marcionitas, bardesanitas, basilidianos, chamavam de certo modo, por suas próprias inconseqüências, o nascimento de um sistema mais conseqüente, no qual viriam historicamente a acabar-se.

« Mani dá ao enigma mais perturbador para o pensamento, o das relações entre a necessidade no curso do universo e a livre vontade do homem, uma solução totalmente radical, inteiramente materialista, quando diz: « Há um bem primitivo e um mal primitivo, um e outro substanciais, e tudo se esclarece pela mistura de um e de outro. » Mani é assim um filósofo, mas reveste suas idéias de uma multidão de imagens mitológicas. Estas, ele as toma emprestadas, tal como os antigos gnósticos, não de sua fantasia pessoal, mas de um material preexistente, de uma tradição antiga. E esta é a religião assírio-babilônica. Tudo se explica pelas relações de Mani com Babilônia e a Babilônia, em sua vida como em seu ensino, assim como ele próprio, em suas expressões e suas disposições. É na Babilônia, na vizinhança de Kutha, que ele nasceu, é à Babilônia que, segundo suas próprias declarações, foi enviado como profeta; é na Babilônia que devia residir, depois de sua morte, o chefe da Igreja maniqueia. » K. Kessler, art. Mani, Manichäer, na Protest. Realencyclop., 3e édit., t. XII, p. 226.

Por conseguinte, segundo Kessler, todos os pormenores da mitologia maniqueia deveriam ser explicados por sobrevivências da antiga religião babilônica. Deve haver, nesse sistema absoluto, uma grande parte de exagero. É sem dúvida útil lembrar que o pai de Mani e o próprio Mani foram agregados à seita dos mughtasilas ou batistas, e que o profeta encontrou nessa seita alguns elementos de sua própria doutrina. Talvez nos limitemos a recuar o problema sem resolvê-lo. É preciso reconhecer que uma confissão de ignorância continua sem dúvida a ser a mais sábia das posições no estado atual de nossos conhecimentos. Podemos apreender sem muita dificuldade as relações do maniqueísmo com a gnose.

Mas o problema da gnose ainda não está resolvido, e é um daqueles que mais merecem reter a atenção dos pesquisadores. A Ásia oriental, nos séculos que precedem a era cristã e naqueles que a seguem imediatamente, é o cadinho onde se fundem, onde se misturam, onde se põem à prova toda sorte de sistemas e de teorias. O maniqueísmo, se é obra própria de um fundador conhecido, se traz as marcas da personalidade poderosa que o concebeu e organizou, resume também o trabalho obscuro de todo um mundo. É preciso crer apenas que esse sistema era poderoso, visto que, durante quase um milênio, permaneceu vivo e eficaz e conseguiu, apesar das perseguições de que foi objeto, espalhar-se do Extremo Ocidente até o Extremo Oriente.

Chr. Wolf, Manichaeismus ante Manichaeos, Hambourg, 1707; Is. de Beausobre, Histoire critique de Manichée et du manichéisme, 2 vol. in-4°, Amsterdam, 1734 et 1739; Mosheim, Commentar. de rebus christianis ante Constantinum Magnum, Helmstadt, 1753, p. 728 sq. Chr. Baur, Das manichäische Religionssystem, Tubingue, 1831; C. Trechsel, Ueber Kanon, Kritik und Exegese der Manichäer, Berne, 1832; G. Flügel, Mani, seine Lehre und seine Schriften, Leipzig, 1862; H. von Zittwitz, Acta disputationis Archelai et Manetis untersucht, na Zeitschrift für historische Theologie herausg. von Kahnis, 1873, p. 407-528; Oblazinski, Acta disputationis Archelai cum Manete, Dissert., Leipzig, 1874; A. Geyler, Das System des Manichaismus und sein Verhältnis zum Buddhismus, Iéna, 1875; K. Kessler, Untersuchungen zur Genesis des manichäischen Religionssystems, 1876; A. Newman, An introductory Essay on the manichaean heresy, 1887; K. Kessler, Mani, Forschungen über die manichäische Religion, t. I, Voruntersuchungen und Quellen, Berlin, 1889; ver as seguintes recensões dessa importante obra: Th. Nöldeke, na Zeitschrift der deutsch. morgenländ. Gesellschaft, t. XLIII, 1889, p. 535 sq.; A. Rahlfs nos Götting. gelehrte Anzeigen, 1889, n. 23; A. Müller, na Theologische Literaturzeitung, 1890, n. 4; E. Rochat, Essai sur Mani et sa doctrine, Genève, 1897; A. Dufourcq, De manichaeismo apud latinos, Paris, 1900; A. Brückner, Faustus von Mileve, Ein Beitrag zur Geschichte des abendländischen Manichaismus, Bâle, 1901; R. Kessler, art.

Mani, Manichäer, na Protest. Realencyclop., 3e édit., t. XII, 1903, p. 193-228; A. Dufourcq, Le néomanichéisme et la légende chrétienne. Études sur les Gesta martyrum romains, t. IV, Paris, 1910; W. Bousset, Hauptprobleme der Gnosis, Gœttingue, 1907; F. Cumont, Recherches sur le manichéisme, Bruxelles, 1908 et 1912, fascicules 1 et 2; A. E. de Stoop, Essai sur la diffusion du manichéisme dans l'empire romain, Gand, 1909; P. Alfaric, Les Écritures manichéennes, I. Vue générale; II. Étude analytique, 2 vol., Paris, 1918; do mesmo L'évolution intellectuelle de saint Augustin, Du manichéisme au néoplatonisme, t. I, Paris 1918, p. 65-225; P. Monceaux, Le manichéen Faustus de Milev, restitution de ses capitula, Paris, 1924; F. Burkitt, The religion of the Manichaeans, Donnellan lectures for 1925, Cambridge, 1925. Esta obra é muito importante. Seu interesse é mostrar que, desde a descoberta dos documentos de Turfan e de Tun-huang, já não se tem o direito de considerar os elementos cristãos do maniqueísmo como uma adição tardia à pura doutrina primitiva. O maniqueísmo é uma doutrina da qual o cristianismo forneceu algumas das soluções fundamentais; J. Scheftelowitz, Die Entstehung der manichäischen Religion und des Erlösungsmysteriums, 1922.

G. BARDY.

Autor original: G. Bardy

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