MAGNANIMIDADE. I. Noção e matéria. II. A virtude. III. Magnanimidade e humildade. IV. Retrato do magnânimo; seus defeitos aparentes. V. Condições da magnanimidade.
I. NOÇÃO E MATÉRIA. — A magnanimidade ou grandeza de alma é a virtude que leva o homem a empreender coisas grandes, difíceis, heroicas e que são dignas de grandes honras. Em todo gênero de virtude em que encontra ocasião de exercer-se, ela visa apenas ao grande: os grandes sentimentos, os grandes papéis, as grandes realizações são de seu domínio próprio. Sua máxima é a máxima formulada por Bossuet e que ele aplica ao grande Condé: «Nas grandes ações, unicamente: é preciso pensar em fazer bem e deixar vir a glória depois da virtude.» Ela se esforça, com efeito, por merecer a honra mais do que a procura; a honra é para ela menos um fim que um resultado, uma recompensa.
A matéria da magnanimidade, segundo São Tomás, são as honras, e as grandes honras. É que, entre os bens que estão ao uso do homem, isto é, as coisas exteriores, não há maior. A honra só é inferior à virtude, da qual está muito próxima, pois é o seu próprio testemunho; a honra pertence de direito aos maiores e sobretudo a Deus; a honra é cotada tão alto que, para obtê-la ou para evitar perdê-la, sacrifica-se todo o resto. A magnanimidade, portanto, não se embaraça com os pequenos papéis ou os papéis medianos, e a aplicação a empreendimentos medíocres, bem como a busca de honras mesquinhas, não receberam nome especial. S. Thomas, Sum. theol., IIa-IIae, q. cxxix, a. 1, ad 2um.
II. A VIRTUDE. A magnanimidade mantém no homem a busca do grande ao nível do razoável. E nessa necessidade de ordem consiste precisamente a virtude desse nome. Por exemplo, ela impede que o magnânimo presuma jamais de seus meios, ou aspire às honras por elas mesmas, ou ainda que, por desconfiança de suas forças, renuncie a seus empreendimentos. Se por vezes a magnanimidade despreza as honras, é no sentido de que não se permite nada de baixo para obtê-las, ou de que faz pouco caso delas. O desprezo das honras seria condenável se acusasse uma preguiça em merecê-las por alguma grande ação. Mas o magnânimo não incorre nessa censura; pois se aplica em tudo a fazer bem, a fazer grande sem exagerar, contudo, a importância da honra humana. Ibid., a. 3.
Poderia parecer que a magnanimidade não fosse senão um feixe de virtudes e não uma virtude especial. Não é assim. Cada virtude tem seu objeto e seu fim próprios; tem igualmente seu louvor particular. A magnanimidade propõe uma maneira de bem moral totalmente especial e, pela realização de grandes ações, eleva-se ao que há de maior em matéria de honra. Quando, pois, se aplica às outras virtudes, não é precisamente em sua forma específica e por causa de sua bondade particular, mas porque entrevê em cada uma delas uma excelência à parte, uma possibilidade de fazer grande. Na ocasião, será benfeitora, justa, veraz, paciente nas provações, não pelo motivo dessas virtudes particulares, mas por nobreza e grandeza de alma; pois ela estima que, se é belo dar, retribuir além do que se recebeu, é vergonhoso apegar-se aos bens exteriores ou temer o sofrimento e os aborrecimentos a ponto de querer, por causa deles, faltar à justiça, mentir ou queixar-se covardemente. Em suma, a magnanimidade não se confunde com as outras virtudes, mas nelas excele e as torna maiores. Ibid., a. 4, ad 2um.
A magnanimidade não está em lugar algum melhor preparada para o seu papel do que na ordem sobrenatural e cristã. A virtude natural ou pagã desse nome entrega-se a coisas que são grandes humanamente e que merecem honra diante dos homens. A que se inspira no Evangelho tem um horizonte largo como o Céu, uma elevação transcendente como o que ultrapassa a terra e seus objetivos, dispõe também de encorajamentos, de exemplos e de forças de alcance sobre-humano, conduz enfim a uma perfeição e a recompensas de ordem divina. Não é no terreno da magnanimidade cristã que se encontram esses verdadeiros grandes homens que são os santos? Não é aí igualmente que se exercita não só em grandes austeridades, nos grandes trabalhos do apostolado e da beneficência, na paciência em grandes sofrimentos, mas ainda em obras mais comuns, embora incontestavelmente grandes aos olhos de Deus, e que dão reputação diante dele? De maneira habitual, parece conveniente e digno para uma alma criada à imagem de Deus, munida dos grandes auxílios da graça, encorajada por grandes recompensas e solicitada por grandes exemplos, aplicar-se a ações elevadas e generosas e que merecem grande glória na companhia de Deus e dos anjos.
A virtude da magnanimidade é parte integrante da virtude da fortaleza. Ver Force, t. VI, col. 537, 538. Tem seus contrários, que são a pusilanimidade, por defeito, a presunção, a ambição e a vanglória, por excesso; ver nos artigos seguintes: Pusillanimité e Présomption, e nos artigos já publicados: Ambition e Gloire (Vaine), t. I, col. 940-941, t. VI, col. 1429-1431.
III. MAGNANIMIDADE E HUMILDADE. A magnanimidade, cujo próprio é levar para o alto, exaltar, seria contrária à humildade, que inclina a descer, a pôr embaixo? A oposição é apenas aparente, observa São Tomás, e os movimentos contrários de uma e de outra procedem simplesmente de uma diversidade de visão. Encontram-se no homem grandezas que lhe vêm de Deus, encontram-se, por outro lado, misérias que provêm da fraqueza de sua natureza. Alternadamente, pois, o magnânimo exalta em si os dons de Deus e se propõe fazer deles um nobre emprego, alternadamente se abaixa e confessa a si mesmo o seu fundo de miséria. Essas visões o inspiram e o dirigem em suas relações com o próximo. Sabe reconhecer e magnificar nos outros o que vem de Deus e, comparando-o com o que tem de si mesmo, não tem dificuldade em colocar-se e manter-se abaixo deles. É o próprio proceder da humildade. Nota, contudo, o que lhes falta e, sob esse ângulo de seus defeitos, faz pouco caso deles. Jamais, aliás, os leva tão alto em sua estima que por eles consinta em algo de incorreto ou indigno. Ibid., a. 3, ad 4um.
IV. RETRATO DO MAGNÂNIMO; SEUS DEFEITOS APARENTES.
Como os pensamentos e os sentimentos da alma determinam com bastante frequência as atitudes corporais, o magnânimo tem sua fisionomia exterior. Aristóteles lhe atribui andar lento, voz grave, fala pausada. As grandes coisas que são objeto da magnanimidade são em pequeno número, são de peso e exigem muita atenção, daí a postura do magnânimo, seu ar sossegado, seus gestos antes raros, todo um conjunto que revela uma alma serena, sem paixão nem febre. Por esses traços reconhece-se a magnanimidade em exercício, adivinha-se mesmo a disposição natural que a ela prepara. Ibid., a. 3, ad 3um.
Facilmente o vulgo censura ao magnânimo defeitos, mas antes aparentes, e que se prendem à sua própria elevação. Faz-lhe, por exemplo, a acusação de esquecer os benefícios de que foi objeto. Seria mais exato dizer que ele não gosta de receber de outrem, a menos que esteja em condições de retribuir além do que recebeu. Tende a exceler em matéria de gratidão como em todo o resto. Ouve-se dizer ainda que é ocioso e lento para a ação; não é que descuide de agir nas coisas que estão ao seu nível, mas é preciso pensar que não entra de bom grado nas vãs preocupações da multidão. Se fala, objeta-se sempre, parece que é com pouca simplicidade. Mas é somente em suas relações com aqueles que não ultrapassa demais que ele se comunica livremente; a multidão não pode descobrir sua grandeza; sua reserva com o homem mediano é antes prudência que falta de verdade ou de nobreza. Mostra-se pouco familiar, a não ser com seus amigos, é antes distante com todos os outros, alguns pretendem que não é sociável. A verdade é que sabe viver com todos, pequenos e grandes, na medida conveniente; se evita misturar-se indistintamente ao comum, é para não partilhar suas pequenezas de alma. Enfim, censuram-lhe negligenciar o que é útil ao maior número, não servir bastante o interesse de todos. É verdade que ao útil simplesmente dito ele prefere o bem sem mais ou o honesto. É ainda uma consequência de sua grandeza de alma. Ibid., a. 3, ad 1um.
V. CONDIÇÕES DA MAGNANIMIDADE. São Tomás observa, por fim, que a magnanimidade requer, para exercer-se, certas condições favoráveis, não necessariamente a mesma: a confiança, a segurança e os bens da fortuna. Em primeiro lugar, o magnânimo tem fé, a fim de contar com Deus, que é o inspirador e o promotor de suas grandes obras. Mas é preciso, além disso, que espere muito de si e dos outros. Espera, portanto, em si, porque se sabe à altura das grandes coisas que medita e empreende; espera também nos outros como em seus instrumentos, porque experimentou a amizade deles e os recursos que deles promete a si mesmo. Essa é a confiança de que precisa o magnânimo. Precisa ainda da segurança ou tranquilidade da alma quanto a todas as vãs preocupações que o medo provoca, que arruínam a esperança de sucesso e das quais poderia nascer o desânimo.
Os bens da fortuna, tais como a riqueza, o poder, as amizades etc., não são indispensáveis ao magnânimo; são, contudo, muito úteis. Pois a multidão estima e honra mais de bom grado aqueles que a fortuna favorece. Além disso, as coisas exteriores são, para a virtude da magnanimidade, poderosos meios de ação. Não que a grandeza de alma não possa encontrar-se privada desses diversos apoios, isolada e pobre. Mas essa não é a situação normal. Basta ao magnânimo que conserve, diante das vantagens exteriores, a sua independência; que as estime não de grande preço, mas simplesmente úteis. Se as possui, que seja sem se embriagar com elas; se as perde, que seja sem amarga tristeza. E, sobretudo, que nada faça para adquiri-las que seja indigno dele. Ibid., a. 6, a. 7, a. 8.
Acrescentemos, e isto à maneira de conclusão prática, que a magnanimidade não é a virtude do grande número, mas somente de alguns privilegiados. Contudo, como todas as virtudes são conexas, e não se pode ter uma sem estar em potência disposicional para as outras, importa manter em si a vontade geral do bem, que encerra a virtude da prudência, e o dom da graça. Ibid., a. 6, ad 2um, et Thomas, Summa Theologica, IIa IIae, q. 129, a. 1, ad 1um; q. 129, a. 4, ad 2um; t. III, 358-361; Bail, Théologie affective, Paris, 1674, t. II, p. 121; Mélanges de philosophie morale de saint Thomas d'Aquin, Paris, 1916, p. 420-427.
A. Thouvenin.
Autor original: A. Thouvenin
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