MACEDÔNIO E OS MACEDONIANOS

MACEDÔNIO E OS MACEDONIANOS

MACEDÔNIO E OS MACEDONIANOS. — Fontes históricas. I. (col. 1468). II. A heresia macedoniana (col. 1472).

I. Fontes históricas. Macedônio, bispo de Constantinopla de 312 a 359, só interessa à história dos dogmas pela heresia à qual deu o seu nome. Coisa bastante curiosa, mas que não carece de outros exemplos, Macedônio não parece ter feito, em vida, figura de heresiarca. Só depois de sua morte é que se pensou em atribuir-lhe a paternidade de um erro novo. Devemos, antes de tudo, investigar em que momento Macedônio assumiu na história esse papel inesperado.

Os problemas relativos à divindade do Espírito Santo não haviam sido postos pelos primeiros arianos. Foi apenas por volta de 360 que a questão da verdadeira natureza do Espírito Santo começou a perturbar os espíritos. Enquanto os tropicistas negavam a sua divindade, santo Atanásio mostrava que a consubstancialidade do Espírito Santo e do Pai era tão indispensável à ortodoxia quanto a do Filho e do Pai. As cartas do bispo de Alexandria a Serapião formam assim o mais antigo tratado sobre o Espírito Santo. Em 362, o concílio de Alexandria declarou expressamente que só podiam ser recebidos na Igreja aqueles que aceitassem o concílio de Niceia e rejeitassem a tese da criação do Espírito Santo. Tom. ad Antioch., 3, P. G., t. xxvi, col. 800 A.

Uma vez suscitados, esses problemas não receberam logo a sua solução definitiva; ou antes, encontrou-se um certo número de hereges que rejeitavam a divindade do Espírito Santo ao mesmo tempo que admitiam a do Filho. Santo Epifânio conhece esses hereges sob o nome de pneumatômacos e lhes consagra, em 377, uma notícia especial em seu Panarion, Hæres., lxxiv. Os pneumatômacos encontram-se sobretudo na Ásia Menor. São Basílio e são Gregório de Nazianzo tiveram várias vezes ocasião de combatê-los: o primeiro evita habitualmente o que os pudesse chocar de frente, o segundo expõe com mais precisão ortodoxa a doutrina — questão de tática que o historiador pode estudar, mas cuja solução tem pouca importância para o teólogo. São também os pneumatômacos que refuta são Gregório de Nissa: o tratado conhecido sob o nome de Adversus macedonianos, P. G., t. xlv, col. 1301-1334, não contém, fora do seu título, a menção dos macedonianos. Do mesmo modo, Dídimo de Alexandria, em sua obra De Spiritu Sancto, não nomeia em parte alguma os macedonianos; aqueles que ele combate são hereges, De Spir. S., 7, P. G., t. xxxix, col. 1039 A, ou ainda adversários inominados, quidam, ibid., 13, col. 1045 A, etc. Os historiadores são igualmente reservados: o semiariano Sabino de Heracleia, que compôs uma συναγωγὴ τῶν συνοδικῶν até 378, não faz, se se deve crer em Sócrates, H. E., II, xv, 9, P. G., t. lxvii, col. 213 C, nenhuma menção do heresiarca.

Contudo, por volta de 380, Macedônio entra na história das heresias. São Jerônimo traduz então e completa até o seu tempo a Crônica de Eusébio. Menciona cuidadosamente as datas da entronização, an. Christi 342, edit. Helm, p. 235, e da deposição, an. Christi 350, p. 241, de Macedônio, e, quanto à primeira dessas datas, nota que Macedônio é tido como o epônimo de uma nova heresia : Macedonius, artis plumariæ, in locum Pauli ab arianis episcopus subrogatur, a quo nunc hæresis macedoniana. Ao mesmo tempo, em 380, segundo Mansi, no P. L., t. xiii, col. 107 e Jaffé, n. 235; em 381 segundo Damásio, ou em 382 segundo P. 133; segundo Valois, sobre Teodoreto, H. E., V, ix, o papa são Dâmaso redige um dos anatematismos que possuímos no P. L., t. xiii, col. 350; Mansi, Concil., t. iii, col. 181; e no texto original latino, e uma tradução grega, o quarto, ao mesmo tempo aos macedonianos, qui de Arii stirpe venientes non perfidiam mutavere, etc., grego em Teodoreto, H. E., V, xi, P. G., t. lxxxii, col. 1221. Dois ou três anos mais tarde, em 384, Teodósio assinala da mesma maneira os macedonianos ao lado dos arianos e entre os hereges contra os quais toma medidas severas. Cod. Theodos., XVI, 1, 12 e 13.

É, pois, por volta de 380 que os macedonianos entram na história; durante certo tempo, hesita-se em recebê-los. O concílio de Constantinopla condena, em seu cânon 1, os semiarianos ou pneumatômacos, Mansi, Concil., t. iii, col. 557, e não dá o nome próprio de macedonianos. O 7.º, que se refere à recepção dos macedonianos, Mansi, t. iii, col. 564, é cerca de 80 anos posterior ao concílio. O primeiro escritor oriental que cita de maneira corrente os macedonianos parece ter sido Dídimo no De Trinitate. Essa obra, posterior ao De Spiritu Sancto, data dos últimos anos do século IV; Dídimo toma aí os macedonianos a partes, como representando adversários temíveis contra os quais é necessário lutar com ardor. Diz que Macedônio, ordenado pelos arianos, foi o chefe da heresia, e depois dele Maratônio. De Trin., II, 14, P. G., t. xxxix, col. 633 A. E nos dois últimos livros, desenvolve o maior vigor em combater as doutrinas macedonianas.

O testemunho do De Trinitate é tanto mais importante quanto Dídimo cita repetidas vezes, e no próprio texto, uma obra macedoniana, composta em forma de diálogo. Cf. De Trin., II, 8, 1, col. 604 D. Esse diálogo, que ainda não era utilizado pelo De Spiritu Sancto, opõe um macedoniano e um ortodoxo: por ele conhecemos os argumentos empregados pelos hereges em favor de sua doutrina. Cf. F. Loofs, Zwei macedonianische Dialoge, em Sitzungsberichte der kgl. preuss. Akad. der Wissensch. zu Berlin, 1914, p. 526-551.

Uma outra obra, aproximadamente contemporânea, ao que parece, do De Trinitate, fornece também notáveis informações sobre a teologia macedoniana. Trata-se dos dois diálogos pseudo-atanasianos Adversus macedonianos, P. G., t. xxviii, col. 1201-1337. Esses diálogos foram editados pela primeira vez na edição de santo Atanásio preparada por Peter Pinckelmann, Heidelberg, 1601, segundo o Palatinus græcus 1, 2, segundo um Augustanus græcus de P. G., t. xxviii, col. 1285, n. 1, e col. 1173; encontra-se ainda o texto no Scorialensis X, II, 11; cf. O. Ficker, Eutherius von Tyana, p. 11 sq., e no Ottobonianus 407, século XV. O Ottobonianus contém apenas o 1.º diálogo. A origem desses diálogos é obscura.

A tradição manuscrita os faz obra de santo Atanásio ou de Máximo, o Confessor. Garnier, P. G., t. xxviii, col. 367, os atribui a Teodoreto, não sem apresentar argumentos especiosos. F. Stolz, Theolog. Quartalschr., 1905, t. lxxxvii, p. 395 seq., os reivindica para Dídimo, o Cego. F. Loofs, Zwei macedonianische Dialoge, p. 192 sq., propõe a data de 380-390 e crê que as semelhanças incontestáveis entre Dídimo e os Diálogos se explicam melhor na hipótese de que Dídimo tenha utilizado os Diálogos. Seja como for a respeito de sua origem precisa, esses Diálogos são dos mais interessantes, porque encerram o texto, talvez completo, de um diálogo macedoniano, que o autor transcreve a fim de dar ao destinatário desconhecido de seu livro uma ideia exata da doutrina e dos argumentos heréticos. No momento em que foram escritos esses Diálogos, os pneumatômacos já eram conhecidos sob o nome de macedonianos e Macedônio era considerado o fundador de sua seita.

Esses Diálogos pseudo-atanasianos De Sancta Trinitate, em P. G., t. xxviii, col. 1113-1286, encontram-se nos seguintes manuscritos: Parisinus græcus 1358, século XIV, Parisinus græcus 492, século XIII, Palatinus græcus 76, século XVI. Esses diálogos, e sobretudo o terceiro, entre um macedoniano e um ortodoxo, constituem ainda uma fonte importante de nosso conhecimento das doutrinas macedonianas. F. Loofs, Zwei macedonianische Dialoge, p. 545 sq., mostrou que, segundo todas as verossimilhanças, os Diálogos De Sancta Trinitate haviam utilizado largamente os Dialogues contra Macedonianos, e até o De Trinitate de Dídimo. Conclui daí que o autor dos Diálogos é mais recente que o dos Dialogues contra Macedonianos e mais recente ainda que Dídimo: escreve antes do início da controvérsia nestoriana, isto é, entre 385 e 430, mas não temos nenhum meio de conhecer o seu nome.

Os historiadores orientais, Filostórgio, Sócrates, Sozômeno e Teodoreto, só nos informam de maneira muito imperfeita sobre os começos e sobre a história exterior do macedonianismo. Teodoreto limita-se a indicar, sem fornecer outro pormenor, que Macedônio, logo após sua deposição, tornou-se ἰδίας αἱρέσεως προστάτης, H. E., III, vi, P. G., t. lxxxii, col. 1097 C, e a escrever, numa lista dos bispos de Constantinopla, o nome de Macedônio, αἱρεσιάρχης πνευματομάχος, H. E., V, XL, 8, col. 1280 A. Filostórgio é ainda menos preciso e menos exato. Conta, H. E., iv, 4, edit. Bidez, p. 62, que os partidários de Basílio de Ancira, que defendiam o consubstancial, conseguiram arrastar Macedônio para a sua opinião, e em outro lugar, H. E., II, xlv, p. 115, fornece uma lista dos defensores do consubstancial, na qual figuram Eustácio de Sebaste, Basílio de Ancira, Macedônio de Constantinopla, Eleusio de Cízico e dois presbíteros de Constantinopla, Maratônio e Máximo.

Sócrates e Sozômeno, que escrevem ambos em Constantinopla e são mais bem documentados sobre a história religiosa da capital, insistem longamente em Macedônio e fornecem numerosos pormenores sobre a sua carreira eclesiástica. Falam também dos macedonianos, que representam como formando um grupo particularmente importante no Helesponto. Sócrates, H. E., II, xvii, col. 160 B; cf. Sozômeno, H. E., IV, xxvii. Mas esses dois historiadores não estão isentos de confusões. Ambos relacionam as primeiras origens da heresia macedoniana com os acontecimentos que se seguiram ao concílio de Selêucia, Sócrates, H. E., II, xlv, P. G., t. lxvii, col. 357 B-360 B; Sozômeno, H. E., IV, xxvii, 1, P. G., t. lxvii, col. 1200; o que os leva a confundir mais ou menos os macedonianos com os homeusianos, como Merenda já havia observado; cf. P. L., t. xiii, col. 199. É verdade que o grupo homeusiano que se formara em torno de Basílio de Ancira não permaneceu homogêneo. Enquanto uma parte de seus aderentes se aproximava cada vez mais dos ortodoxos, outros, dos quais Eustácio de Sebaste parece ter sido o chefe, precisaram a sua posição num sentido heterodoxo e negaram francamente a divindade do Espírito Santo. Sócrates, H. E., II, xlv, P. G., t. lxvii, col. 360 A-B. Mas essa evolução nada tem a ver com Macedônio. Sócrates, aliás, julga dever acrescentar, id., ibid., que, segundo um rumor bastante corrente, Macedônio não teria sido o inventor da heresia que leva o seu nome, mas que se deveria atribuir esse achado a Maratônio, que fora bispo de Nicomédia, donde o título de maratonianos pelo qual também se designam os pneumatômacos. Se, por outro lado, como já se fez observar, o nome dos macedonianos não aparece em parte alguma antes de 380, percebe-se bem a desconfiança com que é preciso servir-se das informações fornecidas por Sócrates e Sozômeno.

As fontes ocidentais, a partir do começo do século V, são unânimes em fazer de Macedônio um heresiarca de primeira grandeza. Na História eclesiástica, Rufino conta que por volta de 361 os arianos se dividiram em três grupos, os eunomianos, os arianos e os macedonianos, que dicunt similem quidem Filium per omnia Patri, Sanctum vero Spiritum cum Patre et Filio nihil habere commune. H. E., I, xxv, P. L., t. xxi, col. 496 sq. Santo Agostinho, no De unitate Ecclesiae, P. L., t. xliii, col. 395, assinala esses três grupos de hereges como os heterodoxos do Oriente. Por volta de 415, são Jerônimo nomeia ainda em conjunto os mesmos grupos, Epist., cxxxiii, ad Ctesiph.., P. L., t. xxii, col. 1159, e por volta de 428 santo Agostinho, em seu catálogo de heresias, reserva um lugar aos macedoniani, quos et pneumatomachos græci dicunt. De hæres., 52, P. L., t. xlii, col. 39.

A tradição está formada por longo tempo. Doravante, quando se combatem os hereges opostos ao Espírito Santo, designam-nos por toda parte, no Oriente como no Ocidente, sob o nome de macedonianos. Teodoreto compõe em três livros uma obra hoje perdida, Πρὸς τοὺς τὰ Μακεδονίου νοσοῦντας, Epist., lxxxii, ou Κατὰ Μακεδονίου, Epist., cxv, ou Περὶ τοῦ ἁγίου πνεύματος, Hæretic. fab. conf., v, 3. Nestório, no Livro de Heráclides, i, 3, edit. Nau, p. 148, cita Macedônio, na sequência de Ário e de Eunômio, como um dos principais hereges condenados pelos Padres. Fausto de Riez, segundo o testemunho de Genádio, De vir. illust., 85, escreve adversum arianos et macedonianos parvum libellum, in quo coessentialem prædicat Trinitatem.

Os anatematismos solenes dos concílios posteriores colocam igualmente Macedônio em bom lugar entre os heresiarcas, tais como os cânones do concílio de Constantinopla em 553, Hahn, Bibliothek der Symbole, 3.ª edit., § 148, p. 170; a fórmula de união de Ciro de Alexandria em 633, Hahn, op. cit., § 232, p. 339, os anatematismos do concílio de Latrão sob Martinho I em 649, Hahn, § 181, p. 241, e ainda outros. Se se põem à parte os historiadores do século V, todos os testemunhos concordam em nos impedir de situar antes de 380 o aparecimento do nome de macedonianos; é somente a partir dessa data, em Constantinopla primeiro, depois no Egito, que esse nome serve para designar os hereges pneumatômacos. Os historiadores, principalmente Sócrates e Sozômeno, procuram explicar tal denominação e ligam ao bispo de Constantinopla, Macedônio, a organização de um partido que leva o seu nome. O testemunho deles é demasiado tardio, e sobretudo é oposto em demasiados pontos aos dados das fontes contemporâneas para merecer o nosso crédito. Trata-se, contudo, de explicar por que Macedônio pôde dar o seu nome a uma heresia que não fundou. Se, uns vinte anos depois de sua morte, e na própria Constantinopla, o bispo podia ser considerado o chefe do erro pneumatômaco, isso não devia ser sem alguma aparência de razão. Mesmo que Macedônio não tenha sido em vida chefe de grupo, deve ter exercido, no entanto, uma influência bastante grande e bastante funesta para que a sua lembrança se perpetuasse. Tentemos, portanto, lançar alguma luz sobre a história de Macedônio.

II. Macedônio. Isso mesmo não é fácil. Conhecemos hoje muito mal as vicissitudes da Igreja de Constantinopla no século IV. Sócrates e Sozômeno, mas sobretudo o primeiro desses dois historiadores, de quem o outro depende muitas vezes, tiveram à sua disposição fontes já turvas; não souberam submetê-las à crítica; e a narrativa que nos deram dos acontecimentos é terrivelmente embrulhada.

1.º Exame e crítica das informações fornecidas por Sócrates e Sozômeno. Começaremos, contudo, por recordar essa narrativa, assinalando-lhe as principais fases.

1. Por volta do mesmo tempo, escreve Sócrates, H. E., II, vi, P. G., t. lxvii, col. 192, isto é, na época da morte de Constantino II em 340, houve grandes perturbações em Constantinopla. Com a morte do bispo Alexandre, dois candidatos se encontraram frente a frente para sucedê-lo, Paulo e Macedônio, este último havia muito tempo diácono da Igreja e já avançado em idade. Paulo era o candidato dos ortodoxos, Macedônio o dos arianos. Paulo foi eleito, não sem tumulto aliás, e sagrado na igreja da Paz. Mas o imperador Constâncio chegou então a Constantinopla, fez cassar a eleição de Paulo por um sínodo de bispos arianizantes, e Eusébio de Nicomédia foi nomeado para ocupar a sede da cidade imperial, Sócrates, H. E., II, vii, col. 193 C.

2. Depois da morte de Eusébio, os ortodoxos reconduzem Paulo à igreja. Os arianos elegem Macedônio e o ordenam. Sócrates, H. E., II, xii, col. 208 A. Constâncio envia ao estratelata Hermógenes a ordem de ir a Constantinopla e depor Paulo. Este obedece; mas o caso termina mal para ele: sua casa é queimada pelo povo, e ele é morto. A data é dada por Sócrates: é o ano do 3.º consulado de Constâncio e 2.º de Constante, portanto 342. Constâncio, furioso, parte de novo para Constantinopla. Manda exilar Paulo e recusa-se a reconhecer Macedônio, que se comprometera nas perturbações. Sócrates, H. E., II, xiii, col. 208 C, 209 A.

3. Paulo, expulso de Constantinopla, refugia-se em Roma, onde se encontram, com Asclépas de Gaza, Marcelo de Ancira e Lúcio de Adrianópolis. Sócrates, H. E., II, xv, col. 212 B. Júlio de Roma devolve suas sedes a todos os exilados, enquanto os orientais, reunidos em Antioquia, protestam contra a intervenção do Ocidente nos assuntos orientais. Constâncio, ao saber da volta de Paulo, envia ao eparca Filipe a ordem de expulsar novamente Paulo da igreja e de reconhecer Macedônio. Filipe apodera-se por astúcia da pessoa de Paulo e o envia a Tessalônica, sua própria pátria, proibindo-lhe reaparecer no Oriente. Feito isso, Filipe ocupa-se de Macedônio: no momento em que vai introduzi-lo solenemente na igreja, uma sedição rebenta na multidão; o sangue corre e, segundo uma tradição que Sócrates refere, 3150 pessoas encontram a morte. Consegue-se, contudo, penetrar na igreja e entronizar Macedônio, apesar da irregularidade de que acaba de ser atingido e do crime em que participou. Sócrates, H. E., II, xvi, col. 213 C-217 B.

4. Pouco tempo depois, Paulo deixa Tessalônica, embarca para Corinto e vai à Itália, pede ao imperador Constante que escreva a seu irmão para lhe pedir o envio de três bispos que lhe prestarão contas dos negócios de Paulo e de Atanásio. Narciso de Nias, Teodoro de Heracleia, Maris de Calcedônia, Mari de Cesareia são enviados ao Ocidente e, de fato, portadores de uma fórmula de fé. Sócrates, H. E., II, xviii, col. 221. Três anos mais tarde, uma nova embaixada leva ao Ocidente a Ἔκθεσις μακρόστιχος. Permanecendo vãs todas essas diligências de Constâncio em favor de Paulo e de Atanásio, decide-se, em 347, a convocação de um concílio em Sárdica. Sócrates, H. E., II, xx, 1; Sozômeno, H. E., III, 7. Os orientais recusam-se a sentar-se com seus adversários. Paulo e Atanásio, e seus partidários, nem por isso deixam de ser restabelecidos pelos ocidentais. Sócrates, H. E., II, xx, col. 236, 237. Depois do concílio, Constante escreve a seu irmão, ameaçando-o com uma guerra se não restabelecer Paulo e Atanásio. Sócrates, H. E., II, xxii, col. 245-248. Constâncio cede; Paulo volta a Constantinopla, e Macedônio permanece confinado em sua própria igreja, onde continua a fazer as reuniões eclesiásticas. Sócrates, H. E., II, xxiii, col. 256, 257.

Três anos depois do concílio, em 350, Constante é morto. Constâncio pode então lançar fora o véu; manda exilar Paulo, que é estrangulado em Cucusa da Capadócia. Sócrates, H. E., II, xxvi, col. 268 B. Macedônio é então o único bispo, em posse incontestada de sua sede. Macedônio entrega-se a toda sorte de excessos. Persegue os nicenos e os novacianos; mas acaba por indispor-se com o imperador por ter feito transportar para outra igreja os restos de Constantino, o Grande. Sócrates, H. E., II, xxvi, col. 269 B; xxviii, col. 321-332.

Toma parte no concílio de Selêucia, em cuja primeira sessão havia, contudo, recusado assistir por causa de doença. Sócrates, H. E., II, xxxix, col. 384. No concílio de Constantinopla, em 360, é finalmente deposto pelos arianos, porque se tornara culpado de numerosos crimes e recebera em sua comunhão um diácono impudico. Ao mesmo tempo que ele são depostos Eleusio de Cízico, Basílio de Ancira, Dracôncio, Neonas de Selêucia, Sofrônio de Pompeiópolis, Elpídio de Satala, Cirilo de Jerusalém e outros. Sócrates, H. E., II, xlii, col. 348 D.

6. Macedônio, expulso de Constantinopla e incapaz de manter-se em repouso, separa-se dos arianos e funda um novo partido. Sócrates, H. E., II, xlv, col. 357-360. Desaparece então da história, enquanto seus partidários, designados por Sócrates com o nome de macedonianos, se espalham sobretudo no Helesponto.

Não é necessário um longo exame para descobrir a exatidão ou os erros que encerra a exposição de Sócrates e de Sozômeno. A cronologia que está no ponto de partida de sua narrativa é pouco verossímil. Os fatos agrupados sob os números 2 e 3 são supostos ter acontecido na época da morte de Constantino II, isto é, em 340, mas um certo intervalo deve necessariamente tê-los separado. As duas viagens de Paulo assinaladas nos números 3 e 5 reduzem-se sem dúvida a uma só. A correspondência entre o papa Júlio e os orientais, mencionada em 3, pertence à época dos acontecimentos de 3. O exílio de Paulo em Tessalônica, sua própria pátria, é dificilmente admissível. A data demasiado recente dada para o concílio de Sárdica pelos historiadores obriga-os a afrouxar a trama dos acontecimentos. É, pois, bastante difícil empregar as informações fornecidas por Sozômeno. A mais elementar prudência exige que se recorra, antes de tudo, às fontes contemporâneas e que só se completem os dados que elas trazem pelo testemunho de nossos historiadores na medida em que esse testemunho concorda com elas.

Exame das fontes contemporâneas. Os documentos do século IV que nos falam dos episcopados de Paulo e de Macedônio em Constantinopla são a Crônica de são Jerônimo, a História dos arianos aos monges e a Apologia por sua fuga de santo Atanásio, e a Carta dos orientais do concílio de Sárdica. Infelizmente, esses diversos documentos pedem grandes reservas. A Carta dos orientais de Sárdica é uma obra extremamente odienta e parcial. Preciosa para nos dar a conhecer o estado de espírito de seus redatores, carece da mais elementar imparcialidade. É contemporânea dos acontecimentos, o que é o seu grande mérito, mas deforma-os para as necessidades de uma causa. Não menos parcial, mas em sentido oposto, é santo Atanásio. A História dos arianos aos monges é uma obra popular, uma apologia de Constantino e do próprio Atanásio, uma crítica apaixonada de Constâncio e dos bispos de seu partido. A cronologia só é indicada nela de maneira larga, e é muitas vezes impossível pôr de volta em seu verdadeiro lugar os acontecimentos que são narrados. As mesmas observações podem ser feitas a respeito da Apologia sobre sua fuga, que é um escrito de polêmica. Quanto à Crônica de Jerônimo, oferece apenas um catálogo incompleto, muitas vezes guiado por um espírito de partido demasiado manifesto.

Tais como são, esses documentos nos permitem, contudo, reconstituir as grandes linhas da história de Macedônio. Esse personagem aparece pela primeira vez na história sob o episcopado de Paulo. É então presbítero; e acusa o seu bispo diante do imperador, em presença de Atanásio. Atanásio, Hist. arian., 7, P. G., t. XXV, col. 701 A. A data desse acontecimento é difícil de fixar. Atanásio veio à corte de Constantino uma primeira vez em 332, para responder às acusações dos melecianos; uma segunda vez, depois do julgamento do concílio de Tiro. Segundo E. Schwartz, Zur Geschichte des Athanasius, IX, em Nachrichten der kgl. Gesell. der Wissensch. zu Göttingen, 1911, p. 476, seria em 332 que se poderia situar essa primeira acusação de Macedônio. F. Loofs, art. Macédonius, na Protest. Realencyclop., 3e édit., t. XII, p. 44, prefere a data de 335, e não se poderia propriamente escolher entre essas duas datas. Seja como for, a acusação de Macedônio não deu em nada. Em 335, Paulo toma parte no concílio de Tiro e subscreve a deposição de Atanásio, Epist. orient., 13, dans Hilaire, Collect. antiar. (Fragm. hist.) A, IV, 1, edit. Feder, p. 57. O que não o impede de ser exilado no ano seguinte, 336, por ordem de Constantino, Atanásio, Histor. arian., 7, P. G., t. XXV, col. 701. O texto impresso traz aqui o nome de Constâncio, mas não há dúvida de que se deve ler o de Constantino.

Não temos de nos estender sobre esse exílio de Paulo. A sede de Constantinopla parece ter permanecido vacante durante a ausência do bispo, que se prolongou até a morte de Constantino. Nesse momento Paulo retoma posse de sua sede, e reencontramos Macedônio em sua comunhão, Atanásio, id., ibid., mas já em 338 o bispo é de novo acusado; Constâncio o exila pela segunda vez em Singara da Mesopotâmia, e seu lugar é tomado por Eusébio de Nicomédia. Atanásio, id., ibid. Com a morte de Eusébio, Macedônio é eleito em seu lugar pelos arianos, e especialmente por Teógnis de Niceia, Maris de Calcedônia, Ursácio e Valente. Jerônimo, Chronic, ad ann. Christi 342, edit. Helm, p. 235; Cf. E. Schwartz, op. cit., p. 511. A eleição de Macedônio dá lugar a perturbações sangrentas. Paulo, apoiado por Asclepas de Gaza, tenta voltar à sua cidade episcopal. Epist. orient., 20, dans Collect. antiar. A, IV, 1, edit. Feder, p. 61. Seu retorno provoca cenas de motim, em meio às quais o magister militiae Hermógenes encontra a morte. Jerônimo, Chronic, loc. cit. Todavia, não permanece muito tempo em sua cidade episcopal. O prefeito Filipe consegue apoderar-se de sua pessoa e enviá-lo de novo ao exílio. Em 343, os orientais de Sárdica o condenam ao mesmo tempo que Ósio, Protógenes, Atanásio, Marcelo, Asclepas e o papa Júlio, Epist. orient., 26, edit. cit., p. 63. Parece que sua vida se prolongou ainda por alguns anos, até o dia em que foi estrangulado. Atanásio, Hist. arian., 7, P. G., t. XXV, col. 701; De fuga, 3, col. 648.

3.º Reconstituição.

Seja como for quanto ao fim de Paulo, Macedônio aparece como único bispo em Constantinopla a partir de 342. Sobre o seu episcopado não temos outras informações além das que nos fornecem os historiadores do século V, e já vimos que essas informações estão longe de ser favoráveis. Macedônio é representado como um intrigante, mais ainda, como um zelador cuja autoridade só consegue manter-se por um perpétuo recurso à violência. F. Loofs, art. Macédonius, na Protest. Realencyclop., 3e édit., t. XII, p. 45, tentou fazer a crítica das narrativas de Sócrates e de Sozômeno. Tal crítica, com a repartição exata entre a história e a lenda, comporta evidentemente um elemento subjetivo que não deixa de ser perigoso. Mas, atendo-se às grandes linhas das narrativas, tem-se certamente o direito de considerar Macedônio como um desses bispos sem escrúpulo de que o Oriente, durante o século IV, apresenta tão grande número de exemplos.

Entre os acontecimentos mais bem atestados do episcopado de Macedônio situam-se as perseguições de que foram vítimas os novacianos, não somente em Constantinopla, mas na Paflagônia. Sócrates está particularmente bem informado sobre os destinos da Igreja novaciana. Aqui o seu testemunho tem por garante o presbítero novaciano Auxanon, muito velho no tempo do historiador, e que ele próprio tivera de sofrer as violências de Macedônio: o bispo o mandara pôr na prisão com um monge chamado Alexandre, que morrera em consequência dos maus-tratos. Sócrates, H. E., II, xxxviii, P. G., t. lxvii, col. 324. Os novacianos estavam de acordo com os ortodoxos em tudo o que diz respeito à doutrina trinitária: não é de espantar, por conseguinte, que não tenham sido objeto de um tratamento de favor. A fim de estender a sua influência, Macedônio fez elevar Eleusio à sede episcopal de Cízico e Maratônio à de Nicomédia. Sócrates, H. E., II, xxxviii, col. 324.

A narrativa de Sócrates, H. E., II, xxxviii, col. 329, cf. Sozômeno, H. E., IV, xxi, 3 sq., sobre a trasladação dos restos do imperador Constantino, que haviam sido depositados na basílica dos Apóstolos, Eusébio, De vita Constant., IV, 70, P. G., t. xx, col. 1225, e que foram levados para a igreja do mártir Acácio, está igualmente entre as que se devem admitir. É da mais alta verossimilhança que essa cerimônia, aprovada por uns, censurada por outros, tenha sido ocasião de um tumulto popular. Mas esse tumulto nada tem a ver com as questões teológicas; aparece antes como o levante espontâneo de uma multidão cuja piedade tradicional se contraria. E quando Sócrates faz remontar a tal ocasião o início da desavença entre Macedônio e o imperador Constâncio, dá a um incidente sem alcance um lugar que certamente não ocupou. A hostilidade de Constâncio contra o bispo de Constantinopla, manifestada em 360 pela deposição do bispo, deve ter razões mais elevadas de política eclesiástica.

Aqui se põe naturalmente o problema de saber quais eram as opiniões religiosas de Macedônio e a que partido se ligava. Essa questão é difícil de resolver. Paulo de Constantinopla, o predecessor de Macedônio, depois seu rival, pertence sem dúvida ao partido niceno: a carta dos orientais de Sárdica o menciona com Atanásio, Marcelo, Asclepas e os outros chefes desse partido. Macedônio, por oposição a ele, é eleito pelos arianos como Basílio em Ancira. Todavia, na data dessa eleição, os arianos, cuja posição doutrinal é então definida pelas fórmulas do concílio in encoeniis, depois pela Ecthese macróstica, afastaram de seus símbolos as expressões demasiado precisas e se contentam com afirmações vagas que os próprios nicenos podiam, a rigor, aceitar. É somente depois de 350, quando Constâncio se tornou único imperador, que a luta recomeça no terreno doutrinal. Ora, vemos Macedônio ao lado de Basílio de Ancira e dos outros chefes do partido homeusiano. Filostórgio, H. E., iv, 9, edit. Bidez, p. 62, conta que os partidários de Basílio de Ancira conseguiram arrastar consigo Macedônio de Constantinopla. Sabino de Heracleia, segundo Sócrates, H. E., IV, xxii, 8, P. G., t. lxvii, col. 509 A, conta igualmente Macedônio entre os adeptos do homeusianismo. Santo Epifânio assinala também Macedônio como um dos membros do partido de Basílio, Hæres., lxxiii, 23 e 27, P. G., t. xlii, col. 445 A, 456 B, e a carta dirigida em 358 por Jorge de Laodiceia a um certo número de bispos, entre os quais figura Macedônio, Sozômeno, H. E., IV, xiii, 2, mostra que o bispo de Constantinopla se alinhou ao lado de Basílio de Ancira desde a formação do partido homeusiano.

Permaneceu fiel a esse partido. Por ocasião da primeira sessão do concílio de Selêucia, Sócrates, H. E., II, xxxix, P. G., t. lxvii, col. 333 B, estava ausente sob pretexto de doença; mas assistiu à terceira sessão ao lado de Basílio de Ancira, xl, col. 336 D. E foi deposto em 360 pelos acacianos juntamente com Eleusio, Basílio e os principais membros do grupo homeusiano. Sócrates, H. E., II, xlii, P. G., t. lxvii, col. 349 D; Sozômeno, H. E., IV, xxiv, 3, t. lxvii, col. 1189 B; Filostórgio, H. E., v, 1, edit. Bidez, p. 66; Jerônimo, Chronic, ad an. Christi 359, edit. Helm, p. 214; Chronicon paschale, ad ann. 360, edit. Bidez, p. 224. Eudóxio de Antioquia o substituiu na sede de Constantinopla.

Depois de sua deposição, Macedônio desaparece da história. Sócrates, H. E., II, xlv, P. G., t. lxvii, col. 357-360, quer que ele ainda se tenha agitado durante algum tempo e tenha tentado, com Sofrônio e Eleusio, reconstituir um partido, o qual não teria sido, aliás, senão o partido homeusiano rejuvenescido e animado de um novo vigor. Sozômeno, H. E., IV, xxvi, 1, P. G., t. lxvii, col. 1197, refere apenas que Macedônio, uma vez expulso da capital, retirou-se para um lugar vizinho de Constantinopla e ali morreu. Essa morte deve ter ocorrido bastante pouco tempo depois de 360; em todo caso, Macedônio não aparece em parte alguma na história dos homeusianos a partir dessa data. Os historiadores do século V contentam-se em falar dos macedonianos; e já mostramos que essa expressão não era exata, pois Macedônio não desempenhara nenhum papel na formação do partido.

II. A heresia macedoniana. 1.º História.

Os historiadores do século V, e especialmente Sócrates e Sozômeno, fornecem numerosas informações sobre a história do partido homeusiano depois de 360. Essas informações são tanto mais importantes de recolher quanto são tomadas de Sabino, membro desse partido. Cf. F. Geppert, Die Quellen des Kirchenhistorikers Sokrates Scholastikus, Leipzig, 1898; P. Batiffol, Sozomène et Sabinos, na Byzantin. Zeitschr., 1898, t. vii, p. 265-284; G. Schoo, Die Quellen des Kirchenhistorikers Sozomenos, Berlin, 1911, p. 95 sq. Mas Sócrates e Sozômeno dão a esse partido o nome de macedonianos e começam a falar dos macedonianos desde que chegam à narrativa dos fatos de 360; é pouco verossímil que tenham encontrado esse nome na tradição. Sócrates, H. E., II, xlv, P. G., t. lxvii, col. 357. Não temos, pois, de seguir aqui em pormenor a história bastante complicada dos homeusianos.

Parece que, no início, o seu partido se ligou principalmente ao problema cristológico. A pessoa do Espírito Santo não interessa a Basílio de Ancira. A memória enviada por ele e por seus amigos em seguida ao concílio de Ancira (358) contenta-se com fórmulas sobre a natureza da terceira pessoa divina: πνεῦμα ἅγιον, ἐκ πατρὸς δι᾽ υἱοῦ πιστοῖς διδόμενον. E um pouco adiante: τὰ πρόσωπα ἐν ταῖς ἰδιότησιν τῶν ὑποστάσεων εὐσεβῶς γνωρίζονται, τὸν πατέρα ἐν τῇ πατρικῇ αὐθεντίᾳ ὑφεστῶτα νοοῦντες, καὶ τὸν υἱὸν οὐ μέρος ὄντα τοῦ πατρός, ἀλλὰ καθαρῶς, ἐκ πατρὸς τέλειον ἐκ τελείου γεγεννημένον καὶ ὑφεστῶτα ὁμολογοῦντες, καὶ τὸ πνεῦμα τὸ ἅγιον ὃ ἡ θεία γραφὴ παράκλητον ὀνομάζει ἐκ πατρὸς δι᾽ υἱοῦ ὑφεστῶτα γνωρίζοντες. — Epifânio, Hæres., lxxiii, 16, P. G., t. xlii, col. 133.

Sob o reinado de Juliano, segundo o testemunho de Sócrates, os partidários de Macedônio, de Eleusio, de Eustácio e de Sofrônio realizaram concílios em diversos lugares. Sofrônio de Pompeiópolis, interrogado sobre a doutrina do partido, respondeu, separando-se ao mesmo tempo dos arianos e dos nicenos, que, para seus amigos e para ele, o Filho era semelhante ao Pai, κατὰ τὴν ὑπόστασιν. Não se trata aqui do Espírito Santo. Sócrates, H. E., III, x, P. G., t. lxvii, col. 408-409. Em 366, o concílio de Lâmpsaco, uma das mais importantes reuniões do partido, tenta ainda renovar a fé de Antioquia, isto é, a segunda fórmula in encoeniis. Sócrates, H. E., IV, iv, P. G., t. lxvii, col. 468.

Nesse momento, porém, a questão do Espírito Santo está claramente posta. Desde 362, o concílio de Alexandria declarou que só podiam ser recebidos aqueles que rejeitassem a criação do Espírito Santo. Tom. ad Antioch., P. G., t. xxvi, col. 800 A. Essa tese, conforme às doutrinas defendidas por santo Atanásio nas cartas a Serapião, foi aceita por Melécio de Antioquia. Em todo o Oriente começa-se desde então a inquietar-se com o Espírito Santo. Mas prefere-se geralmente, fora de Alexandria, ater-se às expressões escriturísticas e não dar fórmulas demasiado precisas. Ainda em 371, são Basílio de Cesareia, numa pregação solene, não afirma claramente a divindade do Espírito Santo, o que lhe vale observações da parte de Gregório de Nazianzo. Epist., lviii, P. G., t. xxxvii, col. 114. A atitude de são Basílio explica-se em grande parte pelo desejo de não ferir convicções respeitáveis, de não escandalizar almas demasiado temerosas. Entre os cristãos da Capadócia que aceitam a fé de Niceia, há os que julgariam imprudente afirmar a divindade do Espírito Santo. A ruptura desses cristãos tímidos com a grande Igreja não está então consumada.

Segundo Loofs, art. cité, p. 17, a virada decisiva nesse assunto teria ocorrido por ocasião da desavença entre são Basílio e Eustácio de Sebaste em 373. Essa opinião tem, ao menos, fortíssimas verossimilhanças em seu favor. Durante os anos que se seguem a 373, vê-se, com efeito, Eustácio fazer figura de chefe de partido; e, por outro lado, Basílio não hesita em tratar o seu antigo amigo, tornado seu adversário encarniçado, de πρωτοστάτης τῆς τῶν πνευματομάχων αἱρέσεως. Epist., ccxliii, 3, P. G., t. xxxii, col. 977. Os Capadócios, sobretudo são Basílio e são Gregório de Nazianzo, falarão doravante do Espírito Santo com mais confiança. O De Spiritu Sancto de são Basílio ocupa a esse respeito um lugar importante na história da controvérsia. A caridade, porém, nunca perde os seus direitos. Por mais firme que seja pessoalmente na consubstancialidade do Espírito Santo, são Gregório de Nazianzo fala sem cólera daqueles que se recusam a admiti-la.

Em 381, num discurso pronunciado em Constantinopla, descreve assim as diversas opiniões entre as quais se dividem os cristãos: «Dos que são sábios entre nós, uns têm o Espírito Santo por uma força, ἐνέργεια, outros por uma criatura, outros por Deus, outros ainda recusam pronunciar-se por respeito, dizem eles, à Escritura, que não se exprime claramente a esse respeito; assim tomam uma posição obscura e, de fato, extremamente perigosa.» Entre os que o consideram Deus, uns conservam para si mesmos essa crença piedosa, outros têm a coragem de pregá-la. Outros, que querem ainda ser mais prudentes, medem de certo modo a divindade; aceitam como nós a Trindade, mas pretendem ao mesmo tempo que somente a primeira pessoa é infinita em substância e em energia, que a segunda é infinita em energia, mas não em substância, que a terceira não é infinita de nenhuma dessas maneiras. Orat. theol., v, 5, P. G., t. xxxvi, col. 137 C, D.

Enquanto os católicos põem assim em plena evidência a consubstancialidade do Espírito Santo, os pneumatômacos, ou ao menos um certo número deles, dão um passo atrás rumo ao arianismo. Em seguida à embaixada de Eustácio de Sebaste, de Silvano de Tarso e de Teófilo de Castabala ao papa Libério, Sócrates, H. E., IV, xii, P. G., t. lxvii, col. 481-486, a fórmula de Niceia fora aceita pelos homeusianos. Mas, quando Eustácio rompeu com são Basílio, rejeita o consubstancial niceno, para voltar ao ὅμοιος κατὰ πάντα; em 376 uma carta de Basílio acusa Eustácio de ter feito aceitar uma fórmula que não encerrava o ὁμοούσιος, Epist., CCXLIV, 9, P. G., t. xxxii, col. 924. Sozômeno, H. E., VII, vii, 3, P. G., lxvii, col. 1420 A, e com menos precisão Sócrates, H. E., V, iv, P. G., t. lxvii, col. 569, falam de um concílio realizado em Antioquia da Cária, em 378, e no qual o ὁμοιούσιος teria sido substituído ao ὁμοούσιος. É difícil que não haja algo de verdadeiro nessa narrativa. Chegamos assim aos arredores de 380, e nesse momento o partido pneumatômaco está constituído. Tem a sua ala direita, que pensa corretamente do Filho e que aceita o consubstancial niceno; cf. Gregório de Nazianzo, Orat. theolog., v, 21, P. G., t. xxxvi, col. 160 C; Orat., xli, 8, id., col. 440 B. Tem a sua ala esquerda, que faz seu o símbolo de Luciano, segundo a tradição dos primeiros homeusianos, e que não quer ouvir falar do consubstancial. O que reúne essas duas alas é a comum desconfiança a respeito da divindade do Espírito Santo.

Quando se reuniu o concílio de Constantinopla em 381, o imperador Teodósio e seus conselheiros eclesiásticos esperaram reconduzir os pneumatômacos. Trinta e seis deles, sob a direção de Eleusio de Cízico e de Marciano de Lâmpsaco, tomaram parte no concílio; Sócrates, H. E., V, viii, P. G., t. lxvii, col. 576; mas foi impossível convencê-los. Foi preciso condená-los como hereges; o cânon que os anatematiza dá-lhes o nome de semiarianos ou macedonianos. Can. 1, Mansi, Concil., t. iii, col. 557. Em junho de 382, uma nova tentativa de união ficou sem êxito, Sócrates, H. E., V, ix, P. G., t. lxvii, col. 588, e Teodósio ordenou perseguir os macedonianos com os outros hereges, numa série de leis destinadas a defender a ortodoxia. Sócrates, H. E., V, xx, P. G., t. lxvii, col. 620 B, assegura, no entanto, que somente os eunomianos foram impedidos de celebrar o serviço divino, e que as outras confissões cristãs puderam continuar sua existência mais ou menos abertamente.

Estamos mal informados sobre os acontecimentos posteriores da história do macedonianismo. Somente alguns incidentes nos são conhecidos, em particular uma controvérsia, realizada em Anazarbo por volta de 392, e que colocou frente a frente vários bispos macedonianos e Teodoro de Mopsuéstia. Baradbesabba narra assim essa controvérsia: «Os partidários de Macedônio se levantavam contra a noção do Espírito Santo, dizendo que não era eterno, nem da mesma natureza que o Pai e o Filho, mas que fora feito pelo Filho. Chegaram logo a querer convocar os ortodoxos a uma disputa, e lhes perguntavam: Mostrai-nos onde se diz que o Espírito Santo é eterno, ou da mesma essência, ou criador, ou Deus. Se podeis mostrar isso, vossa fé é verdadeira. Pensavam, os insensatos, que ninguém podia responder a isso. O concílio do Senhor da cidade de Anazarbo correu a esse segundo Moisés e a esse segundo Paulo [trata-se de Teodoro de Mopsuéstia] e assumiu a tarefa de salvar o povo do Senhor. Quando os macedonianos souberam que ele devia discutir com eles, essa reunião de renegados começou por gritar: Não permitimos que sacerdotes discutam com bispos. Assim, depois de longas solicitações, deram-lhe o grau e a honra do soberano pontificado, depois que ele o recusara muitas vezes. Mas então, durante a noite, recebeu-o como para a Igreja católica. Quando os mentirosos e os verídicos se prepararam e se reuniram na manhã do dia com o bem-aventurado intérprete como chefe das tropas do Senhor, todos os inimigos, curvando as cabeças até o chão, não puderam resistir às suas perguntas, mas tiveram de refugiar-se no silêncio». Baradbesabba, Histoire, xix, trad. Nau, Patr. Orient., t. ix, p. 506, 507. Cf. Chronique de Seert, liii, ibid., t. v, p. 282. M. Vosté, La chronologie de l’activité littéraire de Théodore de Mopsueste, na Revue biblique, 1925, p. 55.

Vários anos depois, Teodoro redigiu um resumo dessa importante controvérsia e o dedicou a um certo Patrófilo, aliás desconhecido. Possuímos ainda, numa tradução siríaca conservada por um ms. do British Museum, Or. 6714, f° 178-187, do século IX, a obra de Teodoro de Mopsuéstia, que foi editada e traduzida por F. Nau, na Patrologia orientalis, t. ix, 1913, p. 637-667. Teodoro é, aliás, muito sóbrio de informações históricas. Limita-se a dizer: «Por causa de sua ciência profana, por causa também de sua aplicação ao assunto do ensino da fé, e do grande estudo que haviam feito das Escrituras, tinham grande opinião de si mesmos. Como se julgavam os doutores de todo o universo, circulavam entre todos os que se comprazem em sua religião, e esforçavam-se, por sua vinda e por suas exortações, em fortalecer o seu ensino, a ponto de levarem também os outros a aproximar-se de sua seita». Teodoro, Controv., P. O., ix, p. 637. Vê-se ao menos por aí que a atividade dos macedonianos continuava considerável nos últimos anos do século IV. Os argumentos que apresentam no decurso da discussão são sensivelmente os mesmos que são apresentados pelos diálogos macedonianos que citam Dídimo e o pseudo-Atanásio. Tornaremos a encontrá-los ao estudar a doutrina macedoniana.

Depois de 392, perdemos de vista os hereges pneumatômacos. Segundo Sócrates, ainda os havia em Constantinopla; em 428 foi Nestório o primeiro que fez fechar as igrejas possuídas pelos macedonianos na capital e em Cízico, e que obrigou os hereges a voltar à fé ortodoxa. Sócrates, H. E., VII, xxxi, P. G., t. lxvii, col. 808.

2.º Doutrina. O ensino dos macedonianos refere-se sobretudo à pessoa do Espírito Santo. Muitos deles, dissemo-lo, pensavam corretamente sobre o Filho. No discurso pronunciado em Constantinopla para o Pentecostes de 381, são Gregório de Nazianzo fala dos pneumatômacos como de cristãos que falam bem do Filho, περὶ τὸν υἱὸν ὑγιαίνοντες, Orat., xli, 8, P. G., t. xxxvi, col. 440 B; e o ariano dos Sermones arianorum, fragm. 6, P. L., t. xiii, col. 614 A, declara igualmente, falando dos macedonianos e dos ortodoxos: De Patre et Filio conveniunt: eis et de Spiritu Sancto dissentiunt. Outros, porém, e talvez os mais numerosos, não aceitavam o ὁμοούσιος e atinham-se ao ὅμοιος κατὰ πάντα; um fragmento dos Sermones arianorum nos assegura que Macedoniani dicunt Filium similem per omnia et in omnibus Patri. Fragm. 6, P. L., xiii, col. 610 C. Do mesmo modo o macedoniano do Diálogo pseudo-atanasiano diz que οἱ πατέρες ἡμῶν τὸ ὅμοιον κατ' οὐσίαν εἶπον περὶ τοῦ υἱοῦ. Dialog. adv. maced., i, 15, P. G., t. xxviii, col. 1313 D. O texto traz aqui ὁμοούσιος κατ' οὐσίαν, mas a correção se impõe tanto mais quanto a objeção à qual o macedoniano responde está precisamente fundada no caráter não escriturístico da fórmula ὅμοιος κατ' οὐσίαν. Aprende-se, por outro lado, pelo III Diálogo De Sancta Trinitate, que os macedonianos pretendiam permanecer fiéis à fé do bem-aventurado Luciano: Ἡμεῖς οὕτως πιστεύομεν ὡς ὁ μακάριος Λουκιανός, proclama o interlocutor herético.

Dial., III, 1, P. G., t. xxviii, col. 1204 A. Todavia, parece bem que o símbolo de Luciano tenha sido interpolado pelos macedonianos, ao menos a se fiar nas acusações do ortodoxo. Cf. sobre este ponto G. Bardy, Le symbole de Lucien d'Antioche et les formules du synode in encœniis (341) dans Recherches de Science religieuse, 1912, t. iii, p. 139 sq. F. Loofs, Der Bekenntnis des Märtyrers Lucian, dans Sitzungsberichte der kgl. Akad. der Wissensch. zu Berlin, 1915, p. 576-603. As palavras que se censura os macedonianos de haverem introduzido na fórmula primitiva são precisamente as mais importantes, aquelas que afirmam do Filho que ele é οὐσίας τε καὶ βουλῆς καὶ δυνάμεως ἀπαράλλακτος εἰκών. Seja como for quanto à interpolação, os macedonianos se atêm a essa fórmula e recusam admitir uma só e mesma vontade, poder e glória para o Pai e para o Filho. Em vão o ortodoxo do Diálogo se esforça por mostrar a seu adversário que as expressões ortodoxas têm o mesmo sentido que a fórmula de Luciano; este se apega à letra do símbolo. É provável, aliás, que esse apego encubra uma divergência real nas crenças. Ao ὁμοούσιος de Niceia, o macedoniano opõe o ὅμοιος κατὰ πάντα, ou o ὁμοιούσιος, como a expressão da fé tradicional.

Sobre o Espírito Santo, a doutrina dos pneumatômacos nem sempre é fácil de apreender. Resume-se mais facilmente numa negação do que numa afirmação. Encontra-se ela bastante bem expressa na fórmula que o historiador Sócrates põe nos lábios de Eustácio de Sebaste: «Quanto a mim, não ousaria dar ao Espírito Santo nem o nome de Deus, nem o de criatura.» Sócrates, H. E., II, xlv, P. G., t. lxvii, col. 360 A B. Os macedonianos, ao menos aqueles que nos dão a conhecer as obras autênticas, o pequeno diálogo inserido no primeiro dos Diálogos Contra macedonianos, e o diálogo, sem dúvida mais importante, citado por Dídimo no De Trinitate, professam um apego cego à Escritura. Não querem admitir senão as fórmulas escriturísticas; e sob o pretexto de que em parte alguma se diz que o Espírito Santo é Deus, recusam-se a lhe dar esse título. Corrompem, contudo, a Escritura, segundo dizem seus adversários, ou ao menos servem-se de exemplares corrompidos; assim, na Epístola aos Filipenses, iii, 3, leem τῷ πνεύματι em lugar de θεοῦ; na Epístola aos Romanos, viii, 11, em lugar de διὰ τὸ ἐνοικοῦν αὐτοῦ πνεῦμα, leem διὰ τοῦ ἐνοικοῦντος αὐτοῦ πνεύματος ἐν ὑμῖν; em Amós, iv, 13, suprimem o pronome ἐγὼ diante das palavras κτίζων πνεῦμα. Dídimo, De Trin., ii, 11, P. G., t. xxxix, col. 664, 665; Pseudo-Atanásio, Dial. contra maced., iii, 20, P. G., t. xxviii, col. 1233 A, 26, col. 1244 B; Dídimo, De Spir. S., 14, P. G., t. xxxix, col. 1046 C.

E quanto ao resto, sua exegese é estreitamente literal. Se os ortodoxos lhes lembram que está escrito: Deus é Espírito, Joan., iv, 24; replicam que está escrito, com efeito, Deus é Espírito, mas não o Espírito é Deus: Tudo o que é Deus é Espírito; mas tudo o que é Espírito não é Deus. Cumpre confessar que nisso têm razão. Mas os ortodoxos insistem: Está escrito: O Senhor é o Espírito, II Cor., iii, 17. Ao que respondem os macedonianos que aqui se trata do Cristo e que não se deveria inverter a frase para nela ler: O Espírito é o Senhor. Pseudo-Atanásio, Dial. contra maced., i, P. G., t. xxviii, col. 1292, 1293; cf. Dídimo, De Trin., ii, 4, P. G., t. xxxix, col. 544 C. Do mesmo modo, rejeitam gracejos grosseiros como este: o Espírito Santo tem o mesmo poder que o Pai e deve ser glorificado com ele, pois está escrito: Se alguém não renasce da água e do Espírito. Dídimo, De Trin., ii, 13, P. G., t. xxxix, col. 544 D; ou ainda: Está escrito: «Louvai o Senhor, porque o salmo é bom: que a Deus seja concedido o louvor... É bom confessar o Senhor e louvar o teu nome, ó Altíssimo.» Mas não encontramos em parte alguma: «Louvai o Espírito Santo.» Dídimo, De Trin., ii, 6, 18, col. 545 B, C. Desde que está escrito: Tudo foi feito por ele, essa expressão também deve ser entendida em sua significação mais literal: na palavra tudo está compreendido o Espírito Santo. Dídimo, De Spir. S., 13, P. G., t. xxxix, col. 1048 B; De Trin., iii, 32, col. 957 B. Segue-se que o Espírito Santo é uma criatura; e o autor do Diálogo citado por Dídimo não teme aceitar essa conclusão: lembra que os atributos de Deus se exprimem por palavras que se aplicam também às criaturas: as palavras bom, por exemplo, ou santo, ou poder. Dídimo, De Trin., ii, 3, col. 472 A; que os anjos também são ditos santos e espíritos de Deus, id., ii, 1, col. 451 B; cf. De Spir. S., 7, col. 1041 B; que o termo eterno não é exclusivamente reservado a Deus. De Trin., ii, 6, 1, col. 516 C-D.

Todos esses argumentos não são novos. Já foram encontrados entre os arianos da primeira hora, e particularmente em Astério da Capadócia. Mas, enquanto Astério aplicava à pessoa do Filho seus raciocínios sofísticos, os macedonianos os aplicam ao Espírito Santo. Admitem, mais ou menos, a divindade do Filho; é ao Espírito que doravante atacam. Eis o mais sutil de seus argumentos: Se o Espírito Santo é Deus, ou é o Pai, ou é o Filho; não sendo nem um nem outro, não é mais Deus do que os outros Espíritos. Dídimo, De Trin., iii, 2, col. 492 C; Pseudo-Atanásio, Dial. adv. maced., i, P. G., xxviii, col. 1292; Teodoro de Mopsuéstia, Irénée, Contr. orient., t. iv, p. 656. Aliás, diz-se, o Espírito Santo vem do Pai como o Filho, há dois filhos na Trindade. Dial. contra maced., i, col. 1313 B. Ora, tal hipótese é inaceitável. Cf. Dídimo, De Spir. S., 62, P. G., t. xxxix, col. 1084 B, C. Segue-se daí que o Espírito Santo não deve ser adorado: a Escritura não fala em parte alguma de tal adoração. Dial. contra maced., i, col. 1293; que ele não é digno da mesma honra, ὁμότιμος, que o Pai e o Filho. Id., col. 1300 A. Contudo, se o Espírito Santo não é Deus, os macedonianos se recusam a ver nele uma criatura, ou ao menos uma criatura como as outras: οὐ κτίσμα τοῖς κτίσμασι συναριθμούμενον, μοναδικὸν ὂν τὸ ἅγιον πνεῦμα. Id., col. 1300 C; cf. col. 1313 C. Devem reconhecer que ele é contado com as duas outras pessoas da santa Trindade; e isso não deixa de embaraçá-los. Eis a resposta que dá a essa dificuldade o macedoniano do diálogo pseudo-atanasiano: ὀνόματι συναριθμεῖται τῷ τοῦ πνεύματος, οὐ τῷ τοῦ πατρὸς καὶ υἱοῦ, ὀνόματι, ὃν οὕτως καλεῖ, ὃ δὲ τῷ πλήθει καλεῖν οὐ θέλει. ἄρχεται γὰρ οἰκείῳ ὀνόματι. Seria, portanto, somente enquanto Espírito que a terceira pessoa seria contada com as duas outras, e não de outro modo. Dial. contra maced., i, col. 1297 C; e pode-se achar essa explicação, pelo menos, superficial. Cf. Teodoro de Mopsuéstia, Controv., 3 e 1, P. G., t. lxvi, p. 639-641.

Em suma, o Espírito Santo ocupa uma posição intermediária entre Deus e a criatura, sem que seja possível precisar de outro modo essa posição. Αὐτοὶ δὲ φασίν, οὔτε εἰς θεϊκὴν ἀξίαν ἀνάγουσι τὸ πνεῦμα, οὔτε εἰς τὴν τῶν λοιπῶν φύσιν καθέλκουσιν, τὴν γὰρ μέσην τάξιν ἐπέχει, μήτε θεὸς ὤν, μήτε ἕν τι τῶν ἄλλων λοιπῶν. Dídimo, De Trin., ii, 8, P. G., t. xxxix, col. 617 C; cf. id., ii, 7, 3, col. 576 B. Parece que tal seja a conclusão de tantos esforços dialéticos. Por se terem apegado à letra da Escritura, e por terem recusado compreender que a divindade do Espírito Santo era o complemento indispensável da divindade do Cristo, os macedonianos chegam a um impasse. Já não sabem onde colocar o Espírito Santo, e não nos admiramos de que os mais lógicos dentre eles tenham sido levados a negar até a consubstancialidade do Filho, admitida no começo por todo o partido. A fé no Espírito Santo e a fé no Filho não andam uma sem a outra.

G.-H. Goetze, Dissertatio historica de macedonianis, dans Vogt, Bibliotheca historiae haresiologicae, Hambourg, 1723, p. 165-199; Damasi papae opera edidit A.-M. Merenda, Rome, 1754 (réimprimé dans P. L., t. XIII, col. 109-442); F. Loofs, Eustathius von Sebaste, Halle, 1898; J. Gummerus, Die homöousianische Partei bis zum Tod des Konstantius, Leipzig, 1900; Th. Schiermann, Die Gottheit des hl. Geistes nach den griechischen Vätern des vierten Jahrhunderts, dans Strasburger theolog. Studien, t. iv, fasc. 4, 5, Fribourg-en-B., 1901; F. Loofs, art. Macedonius und die Macedonianer, na Protest. Realencycl., 3e édit., t. XII, Leipzig, 1903, p. 11-18; E. Schwartz, Zur Geschichte des Athanasius, ix, em Nachrichten der kgl. Gesellsch. der Wissensch. zu Göttingen, 1911; F. Loofs, Zwei macedonianische Dialoge, em Sitzungsberichte der kgl. preuss. Akad. der Wissensch., Berlin, 1914, p. 520-534; F. Loofs, Die Christologie der Macedonianer, dans Geschichtliche Studien zu A. Harnack zum 70. Geburtstage, 1916.

G. Bardy.

Autor original: G. Bardy

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