LYCHET Francisco, frade menor da Observância (†1520), é comumente chamado de Brescia, embora Calvi afirme que nasceu em Lovere, no Bergamasco. Qual era exatamente o seu nome? A forma vulgar mais antiga que encontramos é Lechetto, que ele próprio latiniza em Lechetus quando publica o primeiro volume de seus comentários. É verdade que ali também é chamado, mas por outros, Leuchetus, Mariano, e Lichetus. Ide Florence, em 1523, escreve Lechetus. Fumagalli o chama Lechi e, em um número, faz dele da família que deu seu nome à ilha de Lechi, no lago de Garda. Ainda jovem, entrou entre os menores observantes da província de Brescia. Começou, pensamos nós, por ensinar no « gymnasium » de sua província religiosa, estabelecido no convento de Santa Maria de Jesus, nessa ilha de Lechi. Uns trinta discípulos, que todos se tornaram sábios leitores ou eloqüentes pregadores (Gonzaga), seguiam ali as suas lições.
Em 1512, Lychet concluía em Nápoles um triênio de leitura ordinária sobre os livros das Sentenças de Scot. Fora enviado para lá a pedido da infanta de Aragão, Joana (a Louca), rainha da Sicília, mãe de Carlos V. No mês de junho desse ano, substituía, como vigário da província de Cândia, o religioso designado que se recusava. Dois anos depois, no capítulo da Observância reunido em Assis, era eleito definidor geral, função que então terminava com a assembléia, e voltava à sua província de Brescia, da qual foi nomeado vigário. Era o título dos superiores maiores da Observância, para significar a dependência deles, mais teórica que real, em relação aos conventuais. Como tal, tomava parte no célebre capítulo geral de 1517, que, por vontade de Leão X, devia inverter os papéis e dar a supremacia aos observantes sobre os religiosos não reformados. Lychet, que obtivera nove votos para a dignidade de ministro geral, voltava à sua província com o título de ministro; mas era por pouco tempo, pois o capítulo geral de Lyon, em 1518, o colocava à frente da ordem.
A suas funções Leão X acrescentava logo as de comissário apostólico para a coleta das esmolas destinadas à construção da basílica de São Pedro. Arrancado a seus trabalhos, Lychet consagrou-se com o mesmo zelo aos que lhe impunha o seu cargo. Depois de visitar as províncias da Itália, passava à França, onde realizava a congregação intermediária em Bordéus, em Pentecostes de 1520. Dali foi a Paris, onde estabeleceu regulamentos para os estudos no grande convento, recomendando especialmente o ensino segundo o Doutor sutil. Vê-se depois na Alemanha, na Boêmia e na Hungria; estava em Budapeste quando a morte veio detê-lo, no mês de setembro de 1520. Ao dar à Observância a supremacia na ordem dos menores, o objetivo de Leão X era chegar a uma reforma total. Era nisso que trabalhava o geral em suas visitas; na Alemanha ainda, procurou os meios de combater o protestantismo nascente, ordenando queimar os escritos de Lutero e formar bons pregadores.
Se o curto governo de Lychet foi diversamente apreciado, sua competência teológica escapou às críticas. Fiel discípulo de Scot, comentara os seus Livros das Sentenças com tal brilho que o vigário geral da Observância lhe ordenou pôr por escrito as suas lições, antes do fim de seu curso em Nápoles. A rainha Joana quis encarregar-se das despesas da impressão e assim, no mês de maio de 1512, o alemão Sigismundo Mayr terminava de imprimir o primeiro volume, hoje muito raro e que permaneceu desconhecido dos bibliógrafos. Tem por título: Perutilissimi et celeberrimi viri F. Francisci Lecheti de Brixia, or. mi. observan. in Jo. Duns Scotum: super primo Sentent. clarissima commentaria: Ingeniosarum difficultatum perpulcræ dilucidationes: apparentium prælibati Scoti contradictionum solutiones, demum opinionum multarum scolico dogmati obstantium destructiones, in-fol., sumptibus s. Joannæ infantis Aragonum et Siciliæ reginæ. No fim do volume, o autor desculpava-se por não ter podido editar os seus comentários sobre os outros livros das Sentenças e sobre os Quodlibeta, ob temporum angustias et calamitatum instantium bellorum pernitiem, mas prometia fazê-lo quando a obediência lhe desse vagar para isso.
Devolvido à sua província, foi encarregado de governá-la; foi, pois, sob a vigilância de vários de seus discípulos que apareceram os Commentaria super secundo Sententiarum et super questionibus Quolibetalibus, 2 vol. in-fol., 182 e 114 f° a 2 col., Salo, 1517. No ano seguinte apareciam os Commentaria super primo et tertio sententiarum... cum expositione litteræ omissæ super primo: Neapolim impresso: et quamplurimis difficultatibus de novo additis, sem lugar preciso, « in provincia Brixiae », 1518, in-fol., 238-85 f° a 2 col. Para reconhecer a munificência da rainha, Lychet lhe havia dedicado o primeiro volume. Joana censurou-o por isso e aconselhou-o a oferecer os outros ao imperador; levam, pois, uma dedicatória Maximiliano imperatori. Desde o ano seguinte, o P. Baptista de Castilliono, milanês, seu antigo aluno, que ele havia enviado a Paris para ali ensinar Scot, reeditava os Commentaria approbata per famatissimam Parisien. Universitat., 2 in-fol., Paris, 1519-1520. Indica-se uma edição de Veneza, 1520, sobre a qual nada podemos dizer. Em 1589, o cardeal Sarnano, autor, mas sobretudo reeditor de obras de seus antigos confrades, fazia reaparecer em Veneza, em 3 in-fol., os Commentarii, multis annis a franciscana familia desiderati.
Sabe-se por sua ordenação para os estudos, dada em Paris em 1520, que Lychet nada publicara fora dessas obras, e ainda os Comentários In III não estavam acabados, como ele adverte no fim: Ultimas distinctiones, gravi ægritudine necnon aliquibus negotiis impeditus modo aliter non expono. Sed eas sufficienter expositas ponam in fine IV sententiarum, et sic terminatur totum. Propunha-se, com efeito, publicar a continuação desse trabalho, bem como outros comentários Super novem libros metaphysicorum, e já o impressor de Salo se munira de um breve pontifício, que lhe garantia a propriedade por dez anos, mas eles nunca vieram à luz, e quando Wadding preparava a sua magistral edição das obras do Doutor sutil, mandou procurar inutilmente os manuscritos.
Ele teria desejado dar-lhes lugar nessa coleção, da qual os Commentaria in I, II e III formam os volumes v, vi e vii; os Quodlibeta são o xii e último, Lyon, 1639. Atribuem-se ainda a Lychet uns Theoremata disputata contra Augustinum Suessanum, que permaneceram desconhecidos.
Gonzaga, De origine seraphicæ religionis, Rome, 1587, p. 496; Calvi, Scena letteraria de gli scrittori Bergamaschi, Bergame, 1664; Wadding, Annales ordinis minorum, t. xv et xvi; Wadding-Sbaraglia, Scriptores ordinis minorum, Rome, 1906; Hurter, Nomenclator, 3e édit., t. ii, col. 1105; Fumagalli, Lexicon typographicum Italiæ, Florence 1905, p. 365; Holzapfel, Manuale historiæ ord. fr. min., Fribourg, 1909; Mariano de Florence, Compend. chronicarum fr. min., Quaracchi, 1911.
P. Édouard d'Alençon.
Autor original: P. Edouard d'Alençon
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