LOURENÇO JUSTINIANO (SÃO)

LOURENÇO JUSTINIANO (SÃO)

LOURENÇO JUSTINIANO (São), patriarca de Veneza, escritor ascético e místico (1381-1456). Nasceu em Veneza, da ilustre família dos Giustiniani, em 1º de julho de 1381. Educado muito piedosamente por sua mãe, que enviuvara cedo, decidiu-se, aos dezenove anos, a renunciar ao mundo e às honras que este lhe reservava, e entrou na congregação dos cônegos regulares de Santo Agostinho de São Jorge in Alga. Não tardou a fazer-se notar ali por suas elevadas virtudes; assim, já em 1413 o vemos eleito para o cargo de prior geral da congregação, dignidade que lhe foi renovada em 1421. Os esforços que empreendeu para assegurar a observância regular nessa família religiosa e para garantir-lhe a difusão valeram-lhe ser considerado o seu segundo fundador. O papa Eugênio IV, que conhecia o mérito de Lourenço (ele próprio fizera parte do convento de São Jorge), nomeou o santo religioso, em 12 de maio de 1433, bispo de Castello. Castello, uma pequena ilha bem próxima de Veneza, era então a residência episcopal e o título do bispado que viria a ser a sede patriarcal de Veneza. Em 8 de outubro de 1451, com efeito, o papa Nicolau V transferia para a cidade dos doges a sede de Castello, à qual concedia o título patriarcal retirado à sede de Grado, doravante suprimida. Ver as referências em C. Eubel, Hierarchia catholica medii aevi, t. II, p. 134, 177, 290. O novo bispo desenvolveu o maior zelo na administração de sua importante diocese e distinguiu-se também tanto por sua incrível liberalidade para com os desafortunados quanto pela prática de todas as virtudes.

Morreu em 8 de janeiro de 1456, e já em 1472 começava-se o seu processo de beatificação; diversas circunstâncias vieram infelizmente interrompê-lo, de modo que em 1524 Clemente VII, sem refazer o processo, cujas peças haviam desaparecido num incêndio, autorizou o culto de Lourenço em Veneza e em todo o território da Sereníssima República. A pedido desta, o processo foi retomado em 1613, sob Paulo V, mas arrastou-se por muito tempo; as obras do piedoso bispo foram aprovadas em 1647, e por fim a canonização solene foi pronunciada em 16 de outubro de 1690 por Alexandre VIII. Inocêncio XII fixou a festa em 5 de setembro. São Lourenço Justiniano deixou uma considerável obra de teologia ascética e mística (2 vol. in-fol. na edição de 1751), que o classifica entre os grandes escritores espirituais do fim da Idade Média, ao lado de Gerson e de Pedro d'Ailly. O abade Trithème já cita treze tratados, cuja enumeração fornece, e uns quarenta sermões. Conhecem-se ao menos dois desses tratados impressos antes de 1500: uma edição italiana da Dottrina della vita monastica, publicada em Veneza em 1494, Hain, Repertorium, n. 9477, Copinger, n. 3384, e uma edição latina do De contemptu mundi, Copinger, n. 3383, s. l., s. d. As obras completas foram reunidas muito mais tarde, edição de Basileia, 1560; Lyon, 1568; Veneza, 1606; Colônia, 1616; Lyon, 1628. A mais acessível é a de Veneza, 1751, devida aos cuidados do beneditino Nicolau Antônio Giustiniani. Nela foram agrupadas as seguintes obras:

1° Lignum vitae, série de considerações rápidas sobre as principais virtudes cristãs: temor de Deus, fé, continência, prudência, justiça, caridade, paciência, obediência, esperança, perseverança, pobreza, sobriedade, humildade, oração. 2° De disciplina et perfectione monasticae conversationis, cujo título indica suficientemente o objeto; viu-se acima que dela apareceu cedo uma tradução italiana. 3° De spirituali et casto connubio Verbi et animae, mais propriamente místico, e que celebra a união da alma com Deus na contemplação. 4° Fasciculus amoris, verdadeiro tratado do amor de Deus. 5° De triumphali Christi agone: as lutas que Cristo teve de sustentar são um encorajamento para a alma cristã nas dificuldades interiores e exteriores que ela encontra. 6° De interiori conflictu trata de um assunto sensivelmente análogo. 7° De compunctione et complanctu christianae perfectionis, curto opúsculo em que se define a compunção. 8° De vita solitaria, sobre as vantagens da solidão exterior e a necessidade da solidão interior. 9° De contemptu mundi. 10° De spirituali interitu animae: de todos os bens deste mundo, a alma é o único que conta; sua morte pelo pecado é o maior dos males. 11° De regimine praelatorum, obra antes pastoral que mística. 12° De obedientia. 13° De humilitate. 14° De perfectionis gradibus. 15° De incendio divini amoris. Entre os n. 7 e 8, o editor intercalou uns quarenta sermões sobre as principais festas do ano. No início do n. figuram também algumas cartas do santo.

A doutrina ascética e mística de Lourenço Justiniano não parece apresentar nada de particularmente saliente. Haveria contudo interesse em estudá-la, o que não pensamos que tenha sido feito, para ver a que corrente de pensamento ela pode filiar-se. A maneira do autor é abundante e florida, muito afastada do esquematismo escolástico que se encontra frequentemente nos autores da época; a língua não é sem graça, e o latim de Lourenço é, em geral, muito superior ao de seus contemporâneos.

Há uma vida quase contemporânea de Lourenço Justiniano, redigida por seu sobrinho Bernardo Justiniano (Giustiniani); ela é reproduzida nas diversas edições das obras acima mencionadas e nas Acta sanctorum, janeiro, t. I, p. 551 sq. Daniel Rosa reuniu também os diversos testemunhos sobre o santo: Summorum pontificum, illustrium virorum de B. Laurentii vita, sanctitate ac miraculis testimoniorum centuria, Veneza, 1614, e 1630; essas duas fontes foram utilizadas em várias vidas do santo aparecidas no século XVII sob os nomes de F. Malipiero, Veneza, 1638; S. Pietralata, Roma, 1647; Maffei, Pádua, 1691, reedição de Veneza, 1819 e de Loreto, 1858, etc. Notícias literárias em Trithème, De scriptoribus ecclesiasticis, n. 721; e em Fabricius, Bibliotheca latina mediae et infimae aetatis, edição de Hamburgo 1735, t. iv, p. 616-617, onde se encontrará também uma notícia sobre Bernardo Justiniano, sobrinho do patriarca, p. 614-615.

H. Amann.

Autor original: E. Amann

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