LÍNGUAS LITÚRGICAS. — I. Línguas litúrgicas em geral. II. Atitude da Igreja a esse respeito. — I. Línguas litúrgicas em geral. Designamos assim as diversas línguas empregadas oficialmente na liturgia católica, aquelas em que estão escritos os livros litúrgicos, breviários, sacramentários ou rituais, missais ou pontificais, aquelas em que são celebrados os ofícios litúrgicos. Não falaremos, portanto, das orações privadas nem dos cantos não litúrgicos; não nos ocuparemos das liturgias não católicas, nas quais, ao menos para a época moderna, a secessão de Roma se marcou quase sempre pelo emprego da língua vulgar.
1° Como se formaram? É certo que a liturgia da Igreja foi celebrada primeiramente na língua popular, em aramaico, em grego, em latim, segundo os países. Assim foi enquanto as fórmulas litúrgicas ficaram, em boa parte, entregues à improvisação do celebrante, ou à iniciativa de missionários organizadores de Igrejas novas. Mas, desde que essas fórmulas foram fixadas em textos de lei invariáveis, a disciplina se modificou naturalmente, sem que tenha sido necessária uma decisão da autoridade. Ao mesmo tempo, os missionários levavam consigo, juntamente com a fé católica, os livros litúrgicos a que estavam habituados; conformavam-se a esses livros para a celebração dos ofícios. Aconteceu assim, pela força das coisas, que se criava uma língua litúrgica distinta daquela que o povo falava. Pode-se constatar esse fato principalmente nas regiões evangelizadas por apóstolos enviados por Roma; mais do que os outros, eles estavam ligados a um centro de unidade e marcavam sua estreita união com a Igreja romana conservando a maneira romana de rezar.
Quando o monge Agostinho é enviado por São Gregório Magno para evangelizar a Inglaterra, leva consigo os livros litúrgicos que haviam de lhe servir. Sem dúvida o papa o autoriza em seguida a fazer ali todas as modificações que julgar úteis, segundo os usos de que foi testemunha ao atravessar a Gália; mas não se faz a menor alusão a uma possível mudança de língua. São Gregório, Epist., XI, ep. lxiv, P. L., t. lxxvii, col. 1186-1187. O mesmo se dá quando o monge Winfrid (Bonifácio) deixa a Irlanda para evangelizar a Alemanha. É unicamente o latim que ele emprega e faz empregar na liturgia; e sua correspondência fornece disso uma prova indubitável: um sacerdote, pouco familiarizado, entretanto, com o latim e obrigado a servir-se dele, batizava, in nomine patria, et filia, et spiritu sancta; o papa Zacarias declara que o batismo é válido e que São Bonifácio errara ao mandar reiterá-lo. Zacarias, Epist., vii, P. L., t. lxxxix, col. 929. Assim, o latim foi a língua litúrgica de todos os países evangelizados por missionários vindos de Roma.
2° Línguas litúrgicas diversas. Limitar-nos-emos a enumerar as principais, sem fazer a história detalhada de cada uma delas. — 1. O aramaico ou siro-caldaico. Foi a língua de Jesus e dos apóstolos; é, pois, nessa língua que foi celebrada a primeira Ceia e que se realizaram as primeiras assembleias de fiéis. Atualmente o siríaco é a língua litúrgica das duas Igrejas jacobita e nestoriana; permanece também a dos maronitas da Síria e dos caldeus unidos.
2. O grego. Estava em uso na maior parte dos países onde o Evangelho foi pregado primeiramente, especialmente naqueles que São Paulo percorreu. Na Síria, o grego era quase tão usado quanto o siríaco; na própria Roma e em várias regiões do Ocidente, concorria com êxito com o latim. Todos os livros do Novo Testamento estão escritos em grego; São Paulo, mesmo quando escreve aos romanos, o faz em grego, como São Clemente escrevendo de Roma. Por isso o grego foi certamente, nos começos, a principal das línguas litúrgicas. Atualmente a maioria das liturgias orientais, tanto católicas quanto ortodoxas, está em grego. Ver Goar, Euchologion sive rituale græcorum, Paris, 1647. Contudo, os «arabófonos» usam concorrentemente, na liturgia eucarística, o grego e o árabe, ficando esta última língua reservada às leituras tiradas da Sagrada Escritura.
3. O latim. Entretanto, era de esperar que o latim tomasse seu lugar na liturgia. Isso deve ter acontecido bastante tardiamente na própria Roma, tão em uso estava ali a língua grega: é ainda em grego que estão compostas as primeiras apologias destinadas aos imperadores e ao povo de Roma. Talvez tenha sido na África que o latim foi empregado primeiramente como língua litúrgica. À medida que destronou o grego no uso popular, o latim conquistou na Igreja de Roma o lugar preponderante, depois exclusivo; de Roma, estendeu-se a todos os povos bárbaros; atualmente é quase a única língua usada na liturgia das Igrejas de rito romano.
4. O copta. O cristianismo penetrou cedo no Egito e logo brilhou ali com vivo esplendor. Sabe-se mal que língua era empregada ali primeiramente na liturgia; o siríaco foi talvez, por algum tempo, a língua dominante. A liturgia grega, dita de São Marcos, não seria ali anterior ao século V, segundo Duchesne, Origines du culte chrétien, Paris, 1898, p. 75. Por ocasião do grande cisma que lançou no monofisismo a maior parte das cristandades do Egito, as Igrejas heréticas celebraram sua liturgia em copta, o que permite pensar que uma liturgia copta existia anteriormente nas regiões do Egito onde a língua grega era menos conhecida. Cf. Pargoire, art. Alexandrie, t. i, col. 793.
5. O etíope. As origens da Igreja da Etiópia ainda são mal conhecidas. Faz-se remontar ao século VI um antifonário escrito em língua gheêz, isto é, em etíope, coletânea de hinos e de textos tirados da Sagrada Escritura e adaptados às festas e aos períodos cultuais do ciclo eclesiástico. Coulbeaux, art. Ethiopie, t. v, col. 930. O uso litúrgico do etíope remontaria talvez à própria evangelização do país por São Frumêncio. Os poucos sacerdotes abissínios católicos que se encontram em Jerusalém utilizam ainda em seus ofícios a língua etíope.
6. O georgiano. Os primeiros missionários da Geórgia eram gregos e usavam a língua grega.
Foi somente no século VI, por ocasião de uma segunda evangelização do país, que a liturgia foi celebrada em georgiano. Janin, art. Géorgie, t. vi, col. 1251-1252. Encontrar-se-ão nesse artigo informações muito circunstanciadas sobre a história da Igreja da Geórgia, sobre as perseguições que ela teve de sofrer da parte dos tsares, sobre as consequências que disso resultaram para a língua georgiana, col. 1266-1269, sobre tentativas recentes de ressuscitar a liturgia nessa língua, col. 1286-1287.
7. O armênio. O cristianismo foi muito cedo levado à Armênia por missionários vindos da Síria, que provavelmente ali introduziram sua liturgia. É a São Gregório, o Iluminador, apóstolo da Armênia no século III, que se deve a introdução da língua armênia na liturgia. Cf. Petit, art. Arménie, t. i, col. 1893. O armênio continua sendo a língua litúrgica dos católicos desse rito.
8. O gótico. Foram prisioneiros cristãos os primeiros apóstolos dos godos. Leclercq, art. Goths, in Dictionnaire d'archéologie..., t. vi, col. 1431-1435. No século IV, missionários gregos traduziram para o gótico sua própria liturgia, para torná-la mais acessível. Depois das invasões, o povo godo fundiu-se com as populações dos países invadidos; perdeu sua nacionalidade e sua língua. O gótico não é, pois, mais uma língua litúrgica atual.
9. O eslavo. Os apóstolos dos eslavos, os santos Cirilo e Metódio, originários de Constantinopla, organizaram a liturgia em língua eslava com um objetivo de apostolado. Veremos que acolhida sua iniciativa recebeu em Roma. Hoje o cisma russo separou da Igreja romana a maior parte dos eslavos. Mas as diversas Igrejas uniatas das regiões eslavas empregam ainda a língua eslava, umas segundo o rito grego, outras segundo o rito latino. Certas concessões foram feitas em 1920 por Bento XV ao clero tcheco; o papa lhe permite o uso da língua paleoeslava na missa solene somente para algumas festas e em alguns santuários; diremos mais adiante algumas palavras sobre o movimento que provocou essas concessões.
10. O romeno é igualmente empregado como língua litúrgica tanto nas Igrejas ortodoxas da Romênia propriamente dita quanto nas Igrejas uniatas de rito romeno da Transilvânia.
3° Caráter geral das línguas litúrgicas. É costume bastante difundido, entre aqueles que acham mau que a Igreja celebre seus ofícios numa língua incompreendida pelo povo, opor a seu rigor atual a disciplina mais larga dos tempos antigos ou das Igrejas separadas. Que a liturgia tenha sido, no início, formulada em língua popular, ninguém o nega; e, por outro lado, todas as vezes que se julgou oportuno admitir uma nova língua litúrgica, foi evidentemente a língua usada no povo que se empregou. Mas, pela força das coisas, uma vez passado o período dos começos, a língua litúrgica tornava-se pouco a pouco ininteligível ao vulgo, e tal é, com efeito, o caráter geral das línguas litúrgicas.
Toda língua falada tem sua vida própria; evolui, transforma-se, enriquece-se de termos novos ou empobrece-se de palavras ou de torneios que envelhecem; passados alguns séculos, sobretudo antes da invenção da imprensa, que teve como resultado uma certa estabilização das línguas, ela se torna tão diferente de si mesma que só os eruditos podem compreender os documentos do passado: o francês da Chanson de Roland já não devia ser compreendido no século XVI. Ora, a língua litúrgica se acha imobilizada em fórmulas intangíveis. Enquanto a linguagem do povo se modifica, ela é imutável; e as diferenças, a princípio pouco sensíveis, acabam, acumulando-se, por torná-la incompreensível. O siríaco litúrgico, o grego litúrgico, o eslavo litúrgico estão quase tão pouco ao alcance do povo quanto entre nós o latim. Trata-se, aliás, de um fenômeno quase universal: os judeus celebram seu culto num hebraico que está muito distante do iídiche; e Quintiliano nos informa que os cantos dos sacerdotes sálios eram apenas compreendidos pelos próprios sacerdotes e que, no entanto, era proibido modificá-los: Carmina Saliorum vix sacerdotibus suis intellecta, sed quæ mutari vetat relligio. Inst. Orator., l. I, c. vi. Seria, pois, uma injustiça reservar à Igreja de Roma a censura de usar uma língua diferente da do povo; a mesma censura deveria ser dirigida a muitas outras religiões; veremos se é fundada.
II. Atitude e pensamento da Igreja romana. A Igreja teve várias vezes de tomar posição nessa questão diante de certas iniciativas ou de certos movimentos de revolta que queriam substituir a língua litúrgica, particularmente o latim, pela língua vulgar. Vendo como a Igreja acolheu essas tendências e que declarações elas provocaram, penetraremos seu pensamento e tentaremos em seguida uma justificação dele.
1° Os fatos. 1. São Metódio e a língua eslava. Os dois irmãos Cirilo (ou Constantino) e Metódio, gregos de origem, foram enviados de Constantinopla à Morávia, onde o rei solicitava missionários cristãos. Eles haviam tomado a iniciativa, para melhor assegurar o êxito de sua pregação, de celebrar em eslavo a missa e os outros ofícios. O rumor das conversões operadas por eles e do meio de que se haviam valido para facilitá-las chegou até Roma e, em 867, o papa Nicolau I deu-lhes a ordem de virem prestar-lhe contas de seus procedimentos e receber dele sua missão. Jaffé, Regesta, n. 2888. Os dois apóstolos só chegaram a Roma depois da morte do papa. Seu sucessor, Adriano II, ouviu-os, aprovou-os, conferiu o episcopado a Metódio e o enviou de volta, em 880 (Cirilo havia morrido em Roma), com uma carta elogiosa pela qual declarava autorizar a maneira de proceder introduzida pelos dois irmãos, e pedia apenas que, para se conformar ao uso geral, se lessem primeiro em latim a epístola e o evangelho antes de dizê-los em eslavo. Jaffé, n. 2924.
João VIII, que sucedeu em 872 a Adriano II, deixou-se a princípio envolver pelos inimigos da liturgia eslava. Ver João VIII, acima col. 611-612. O papa escreveu a Metódio para lhe proibir, já em 873, de celebrar a missa em eslavo. Jaffé, n. 2978.
Metódio, tendo obtido a aprovação de Adriano, não julgou sem dúvida dever modificar sua maneira de proceder, pois, em 879, o papa o citou a comparecer diante dele, incriminando-o de erros de doutrina ao mesmo tempo que lhe censurava continuar, apesar da ordem recebida, a celebrar a missa, não em latim ou em grego, sed barbara, id est Sclavina lingua. Escreveu também a Zwatopluk, rei da Morávia, para pô-lo a par da ordem dada a Metódio. Jaffé, n. 3267-3268; P. L., t. cxxvi, col. 849-850. Metódio teve, pois, de justificar-se uma segunda vez. O papa, depois de tê-lo ouvido, deu-lhe em 880 plena aprovação; não só não havia em sua fé nada de errôneo, como sua própria conduta não era repreensível. «Com razão, dizia ele, louvamos as letras eslavas, para que nessa língua ressoem os louvores de Deus; e queremos que nessa mesma língua se cantem os louvores e as obras de Nosso Senhor Jesus Cristo... Nada na fé ortodoxa ou na doutrina se opõe a que se sirva dessa língua, seja para cantar a missa, seja para ler o santo Evangelho ou as divinas lições do Antigo e do Novo Testamento, bem traduzidas ou interpretadas, seja para salmodiar todos os ofícios das Horas; pois aquele que fez as três línguas principais, o hebraico, o grego e o latim, criou também todas as outras línguas.» Pede apenas, como havia feito Adriano II, que se leiam primeiro em latim a epístola e o evangelho. Jaffé, n. 3319; P. L., t. cxxvi, col. 906.
Nova carta em 881 para tranquilizar Metódio contra os aborrecimentos que lhe suscitavam e para desmentir junto a Zwatopluk cartas de censura que se atribuíam ao papa. Jaffé, n. 3344; P. L., t. cxxvi, col. 928. Esses procedimentos de falsários empregados contra Metódio surtiram, infelizmente, efeito demais junto a Estêvão V, sucessor de João VIII. Ver Estêvão V, t. v, col. 978. Em 885, o papa censura Metódio por ter continuado a celebrar a liturgia em eslavo, apesar do juramento que prestara sobre o próprio corpo de São Pedro; pela autoridade de Deus e pela da Santa Sé, proíbe, sob pena de anátema, continuar essa prática; permite somente traduzir e explicar em eslavo a epístola e o evangelho para a edificação do povo ignorante, Jaffé, n. 3407. Essa carta, dirigida a Zwatopluk, arruinou na Morávia a autoridade de Metódio, que teve de levar para outra parte seu zelo apostólico. Os países eslavos, logo separados de Roma em grande parte, nem por isso deixaram de continuar a usar a liturgia que lhes era própria. Quando, no século XVI, Roma reconquistou ao cisma uma parte da Rutênia, esta conservou o uso da língua eslava. Bento XIV, pela constituição Ex pastorali munere, de 25 de agosto de 1754, aceitou-o definitivamente, protestando embora contra a introdução de algumas orações em língua eslava vulgar nos livros litúrgicos. Bento XIV, Bullarium, Veneza, 1778, t. iv, p. 96.
2. João de Montecorvino e a língua tártara. Raynaldi, Annales ecclesiastici, an. 1305, n. xix-xx, edit. de Lucca, 1749, t. iv, p. 401, cita uma longa carta do frade menor João de Montecorvino, apóstolo dos tártaros. Nessa carta, cujos pormenores são todos extremamente interessantes, o autor relata, entre outras coisas, que traduziu para o tártaro o Novo Testamento e o saltério; que prega nessa língua; que tinha a intenção de traduzir todo o ofício latino para que se pudesse cantá-lo em todo o reino. Em vida do rei Jorge, diz ele, celebrava a missa segundo o rito latino, mas in littera et lingua illa legens tam verba canonis quum præfationis. Não sabemos que resposta deu o papa Clemente V a essas notícias; mas pode-se presumir que não censurou o zeloso missionário, pois em 1307 o fez arcebispo Cambaliensis (de Pequim). Ibid., an. 1307, n. xxix-xxx, p. 433 sq.
3. Os humanistas. Uma das manifestações do movimento humanista na França foi o que os historiadores, por exemplo Imbart de la Tour, em suas Origines de la réforme en France, descrevem sob o nome de evangelismo. Traduziu-se por um cuidado de fazer penetrar mais o Evangelho no espírito do povo e dos letrados: textos mais corretamente editados, traduções mais difundidas, mais elegantes e sobretudo exemplares mais numerosos; tais eram os meios que forneciam aos evangélicos tanto seus estudos quanto a invenção da imprensa. Os promotores do movimento, particularmente Erasmo e Lefèvre d'Étaples, quereriam ter feito mais e posto ao alcance do povo, depois dos tesouros do Evangelho, os da liturgia. A consequência natural parecia ser que convinha traduzir os textos da missa e do ofício como se tinha traduzido o Evangelho. Tirou-se outra consequência.
Erasmo, em seu Praefatio in Matthaeum, criticou violentamente a prática de fazer os fiéis pronunciarem orações que não compreendem: indecorum et quod ridiculum potius videtur idiotis et mulierculae, psittaci exemplo, psalmos suas et precationem dominicam immurmurant, cum ipsae quod sonant non intelligant. Era, em termos mal velados, fazer o processo do emprego exclusivo do latim na liturgia. O concílio de Trento devia responder a esse ataque, ao mesmo tempo que aos ataques protestantes. Entrementes, já em 1520, um julgamento longa e fortemente motivado da Faculdade de Paris censurava a proposição de Erasmo, «que é de natureza a desviar inoportunamente os simples, os ignorantes e as mulheres da oração vocal prescrita pelos ritos e costumes da Igreja, como se essa oração fosse inútil para eles pelo fato de não a entenderem». Essa proposição era declarada «ímpia, errônea, abrindo caminho ao erro dos boêmios que quiseram celebrar o ofício eclesiástico em língua vulgar». Duplessis d'Argentré, Collectio judiciorum, t. ii, p. 61. De fato, algumas tentativas são timidamente feitas, na diocese de Meaux, por exemplo, para deslatinizar pouco a pouco a missa. Imbart de la Tour, Origines de la Réforme, Paris, 1914, t. iii, p. 164. O movimento atingiu talvez certa amplitude, se é verdade, como relata Sarpi, que o embaixador da França, Lansac, fez saber aos Padres do concílio, um dia de julho de 1562, que «a França desejava que a missa e o ofício divino se celebrassem em língua vulgar». Histoire du concile de Trente, trad. le Courayer, Amsterdam, 1751, t. ii, p. 378.
4. Os protestantes.
O concílio de Trento. Protestar contra o emprego de uma língua que já não é compreendida pelos fiéis e, sob pretexto de pôr as orações litúrgicas ao alcance dos ignorantes, celebrar a liturgia em língua popular, foi uma ideia que admitiram todas as heresias que, na Idade Média, precederam e prepararam o protestantismo. Assim fizeram os valdenses, segundo o testemunho do inquisidor Reinier: Item dicunt quod eumdem effectum habet Sacra Scriptura in vulgari quam in latino : unde etiam conficiunt in vulgari et dant sacramenta. Contra Waldenses, in Bibliotheca maxima Patrum, Lião, 1677, t. xxv, p. 265. Assim, mais tarde, João Hus e seus discípulos, os Irmãos Boêmios, sob pretexto de voltar à prática da Igreja primitiva. Ver Bohèmes (Frères), t. ii, col. 931.
Os protestantes seguiram esse exemplo. A Confissão de Augsburgo, Articuli in quibus recensentur abusus mutati, iii, de missa, anuncia que aos cantos latinos julgou-se dever misturar cantos alemães, que têm por finalidade ser um ensinamento popular. Pois, acrescenta, as cerimônias do culto não têm outro fim senão instruir os ignorantes. São Paulo ordena que se use na igreja uma língua compreendida pelo povo. Tittmann, Libri symbolici, Leipzig, 1827, p. 23. Melanchthon foi mais explícito em sua Apologia da Confissão de Augsburgo, de Missa: «Nossos adversários, diz ele, nos fazem uma longa declamação sobre o uso do latim na missa; mostram, com doce ineptidão, como o fato de ouvir a missa sem compreendê-la pode ser útil ao ouvinte pouco instruído na fé da Igreja; imaginam que esse fato só já é um culto e pode servir, mesmo sem a inteligência. Não queremos perder nosso tempo discutindo... Mas, como as cerimônias têm por fim ensinar aos homens a Escritura, inspirar-lhes a fé e o temor, levá-los à oração, conservamos o latim para aqueles que o compreendem; mas acrescentamos a ele cantos alemães, a fim de que o povo tenha com que se instruir e se excitar à fé e ao temor.» Tittmann, ibid., p. 191. De fato, em todos os países de língua alemã, a substituição do latim pela língua vulgar na missa, cujas cerimônias eram, aliás, conservadas, foi em geral o primeiro ato da Reforma.
Essas manifestações e essas críticas, somadas às dos humanistas, deram à Igreja a ocasião de formular seu pensamento. Os Padres do concílio de Trento o fizeram a propósito do santo sacrifício da missa, objeto da XXII sessão. A 19 de julho de 1562, propôs-se aos teólogos o exame de 13 artigos sobre a missa. O 9º estava assim formulado: An missa nonnisi in lingua quam omnes vulgari intelligant celebrari debeat ? Concilium Tridentinum, Friburgo, 1919, t. viii, p. 719. Entre as poucas observações que esse artigo suscitou, só duas merecem ser destacadas. O espanhol Francisco de Sanctis declarou que, a seu ver, só se deve dizer a missa em latim, grego ou hebraico, as três línguas do título da cruz; mas que em todo caso não convinha celebrá-la em língua vulgar: ne margaritœ dentur porcis, ne vulgo arcana Dei publicentur et ludibrio habeantur. Ibid., p. 743; Theiner, t. ii, p. 70. O conventual Marco Antônio de Lugo fez notar que, se Jesus Cristo só disse as palavras da consagração diante de seus apóstolos, foi para mostrar que não se devem proferi-las diante de todo o povo. Ibid., p. 745; Theiner, p. 71.
Foram então redigidos os projetos de capítulos e de cânones. O c. iv, De ritibus et caeremoniis, ibid., p. 753; Theiner, p. 75, enunciava as razões pelas quais o emprego do latim, geral na Igreja do Ocidente, devia ser conservado; primeiro, o simples fato de estar em uso em muitos países; depois, uma razão de respeito pelos santos mistérios e, por fim, o receio de que erros de tradução acarretassem erros de doutrina. O cânon 10 estava assim concebido: Si quis dixerit missam nonnisi in lingua vulgari celebrari debere, anathema sit. A discussão desse texto suscitou poucas observações interessantes. Vários Padres pediram que não se pronunciasse nenhuma condenação contra os que celebravam a missa em língua vulgar; um deles, o bispo de Veglia, invocou o exemplo da igreja do Santo Sepulcro, onde se celebra a missa qualibet lingua quae sub cœlo. Ibid., p. 766; Theiner, p. 82.
A redação definitiva levou em conta esses desejos e abrandou ainda mais os termos empregados no projeto. O cânon não foi modificado, mas apenas combinado com o precedente para formar definitivamente o cânon 9. Mas o capítulo, tornado c. viii, sofria uma profunda reformulação. Já não se tratava nele das razões de manter-se no latim, o que poderia ser uma censura para os que usavam outras línguas; afirmava-se, sem mais, a maneira de ver dos Padres do concílio: «Embora a missa contenha abundante instrução para o povo fiel, os Padres não julgaram conveniente permitir que ela seja celebrada em toda parte em língua vulgar; por isso, querendo que se guarde em toda parte o rito usado antigamente em cada Igreja, e aprovado pela santa Igreja romana, mãe e mestra de todas as Igrejas...;» a frase terminava com a exposição das medidas a tomar para que o povo compreendesse melhor as cerimônias e as orações da missa. Foi essa redação que foi solenemente proclamada na XXII sessão, a 17 de setembro de 1562. Concilium Tridentinum, loc. cit., p. 961; Denzinger-Bannwart, n. 946 e 956.
5. Os jansenistas. Não chegaram a combater o uso do latim; mas, como Erasmo, lamentavam os fiéis assim privados da consolação de unir sua voz e sua oração às da Igreja. Três das proposições de Quesnel, condenadas pela bula Unigenitus, de 8 de setembro de 1713, referem-se a essa ordem de preocupações. A prop. 84 tem piedade dos fiéis a quem se tira o Novo Testamento ou a quem não se dá o meio de compreendê-lo; é fechar «a boca de Cristo». A prop. 85 volta à mesma ideia; é interditar aos filhos da luz o uso da luz, e quase excomungá-los. A prop. 86 refere-se, sem o dizer, à questão do latim na liturgia: «Tirar ao simples povo essa consolação de unir sua voz à voz de toda a Igreja é um uso contrário à prática dos apóstolos e à intenção de Deus.» Denzinger-Bannwart, n. 1434-1436.
Essa fórmula se esclarece à luz da prática da Igreja jansenista de Utrecht, que jamais se serviu senão da língua vulgar para a administração dos sacramentos.
6. Os missionários e a língua chinesa. No século XVII, os jesuítas, missionários na China, deram-se conta das dificuldades que a língua latina, completamente estranha ao gênio da língua chinesa, parecia opor a seu apostolado. Tiveram o mesmo pensamento que seu predecessor, João de Montecorvino e, esperando que o uso do chinês na missa e nos ofícios públicos apressaria e consolidaria as conquistas do Evangelho, pensaram em obter de Roma a autorização necessária. Várias memórias foram dirigidas à Santa Sé; apresentou-se a Inocêncio XI um missal chinês; o sábio Papebrock interessou-se mesmo pelos esforços de seus confrades, e encontra-se em seu Propylée dos Acta sanctorum do mês de maio um resumo de uma dissertação em favor da tradução chinesa dos livros litúrgicos. Acta Sanctorum, edit. Palmé, 1868, t. xiii, Append., dissert, xlviii, p. 123 sq. Mas os diversos papas junto aos quais se fizeram instâncias recuaram diante da audácia da inovação. Paulo V concedeu, é verdade, a permissão pedida por um decreto de 25 de janeiro de 1615; mas o breve, segundo Bento XIV, De missae sacrificio, II, c. ii, n. 18, nunca foi enviado à China; a permissão não foi renovada por seus sucessores e, diante do prolongado silêncio da Santa Sé, os missionários tiveram de renunciar a toda esperança de êxito. Ver, para mais pormenores, dom Guéranger, Institutions liturgiques, Paris, 1883, t. iii, p. 126-139.
7. Concessões recentes aos tchecoslovacos. Havia já muito tempo, no decorrer do século XIX, em certos países de língua tcheca, usava-se amplamente a língua do povo nas cerimônias litúrgicas, tais como o batismo, a comunhão, a administração dos últimos sacramentos, os funerais, o casamento, as solenidades da Páscoa e do Corpus Christi, a bênção dos Ramos, o canto da Paixão, etc. Talvez se deva ver nesse uso uma influência remota da prática dos hussitas ou dos Irmãos boêmios. Em todo caso, as autoridades eclesiásticas, salvo, em certa medida, o cardeal Schœnborn, nunca lhe haviam feito oposição séria. Dr. Karl Hilgenreiner, Situation politique et religieuse de la République tchécoslovaque, na revista Das neue Reich de 29 de fevereiro de 1920, p. 336, citado pela Documentation catholique, 31 de julho de 1920, col. 93.
Quando a Boêmia, a Eslováquia e a Morávia foram reunidas pelo tratado de Versalhes na República tchecoslovaca, produziu-se no novo Estado todo um movimento de reforma, movimento em parte suspeito e que foi condenado, em parte também respeitoso da hierarquia e submetendo-se à decisão de Roma. Uma das tendências desse movimento ia no sentido de uma ampla admissão da língua tcheca na liturgia. Dom Kordac, arcebispo de Praga, numa carta pastoral de 5 de novembro de 1919, recordou primeiramente o cânon 819 do Código, que não permite inovar nada sem a autorização de Roma quanto à língua a empregar na celebração da missa. Em outra carta, de 22 de dezembro de 1919, o arcebispo, respondendo aos ataques da Jednota, anunciava ao mesmo tempo que havia solicitado à Santa Sé diversas medidas a respeito da língua litúrgica.
Bento XV fez, com efeito, concessões bastante amplas, que não foram promulgadas nos Acta apostolicae Sedis, mas que o Osservatore Romano de 13 de junho de 1920 resumia assim, segundo uma carta recebida de Praga: o uso da língua vulgar é autorizado: 1° na missa solene, em que a epístola e o evangelho poderão ser repetidos em tcheco; 2° no batismo e no casamento, para as perguntas e exortações dirigidas, quer aos padrinhos ou aos esposos, quer aos catecúmenos, e para as orações recitadas sobre eles; nos funerais, nas procissões de São Marcos, das Rogações e do Corpus Christi, a tradução das orações latinas será submetida ao controle imediato dos Ordinários, — sob reserva da aprovação da Santa Sé. Enfim... é permitido ao clero tcheco cantar a missa solene em paleoeslavo e servir-se de missais impressos em caracteres glagolíticos devidamente aprovados pela Santa Sé. Essa autorização, contudo, é limitada às festas dos santos Cirilo e Metódio, de São Venceslau, de Santa Ludmila, dos santos Procópio e João Nepomuceno e a oito santuários somente, dentre os mais célebres na história do povo tcheco. Os principais desses lugares históricos são: Velehrad (Morávia), Emaús, Sazava (Boêmia), a capela de São Venceslau e de Santa Ludmila em Praga.» Citado segundo a Documentation catholique, loc. cit., col. 93 e 94.
2° Pensamento da Igreja a respeito da língua litúrgica. Essa rápida enumeração das principais circunstâncias em que a autoridade eclesiástica teve de intervir mostra claramente qual é o pensamento da Igreja. Não se poderia certamente acusá-la de intransigência. Ela não foi intransigente no passado, pois, em vários casos, compreendeu que interesses gravíssimos de apostolado podiam legitimar uma exceção à regra geral, e autorizou, mais ou menos expressamente, mais ou menos amplamente, o emprego da língua vulgar na liturgia. Intransigente, não o é no presente, testemunha as concessões que acaba de fazer em favor da língua tcheca. E, como nenhum documento fecha a porta a outras autorizações, não se pode de antemão censurar-lhe a intolerância futura. Do ponto de vista doutrinal, a Igreja condenou como heréticos aqueles que pretendiam que a missa deve ser celebrada somente em língua vulgar. Conc. Trident., sess. xxii, can. 9; Denzinger-Bannwart, n. 956. É a única coisa definida. A Igreja não quer, pois, que a acusem de ter faltado a seu dever conservando sua língua litúrgica diferente da do povo, de ter assim indevidamente privado os fiéis de luz, de consolação ou de graças.
Mas ela não condenou — teria sido dar razão contra si mesma — desejos, pedidos, instâncias que se julgassem justificados por razões excepcionalmente graves e que se submetessem a seu julgamento; não pretende que não se possa encontrar esta ou aquela vantagem numa admissão mais larga da língua vulgar; afirma apenas que não erra em manter-se na regra que estabeleceu para si. Na prática, não quer que o capricho individual ou movimentos coletivos de reforma possam, contra ela, fazer violência à regra geral e permitir celebrar as funções litúrgicas numa língua distinta da oficialmente admitida. Exige que a consultem, que nada se faça sem sua autorização, e é ela evidentemente que será juíza da gravidade das razões invocadas, da oportunidade e da medida das concessões a fazer. Tal é o sentido do cânon 819, bastante elástico em seu enunciado para se prestar a todas as decisões que possam sobrevir, bastante imperativo para excluir toda iniciativa não aprovada: Missae sacrificium celebrandum est lingua ab Ecclesia liturgica sui cujusque ritus probati.
Supostos esses corretivos, é certo que a Igreja preza sua língua litúrgica, que foi sempre a contragosto e forçada pelas circunstâncias que concedeu exceções, seja aceitando novas línguas litúrgicas, seja permitindo a introdução da língua vulgar na liturgia; por outro lado, os fatos que expusemos provam que ela aceita mais dificilmente a língua vulgar na liturgia da missa do que em qualquer outra função. Esse pensamento, essa atitude se justificam?
3° Justificação do pensamento da Igreja. A censura feita à Igreja, o grande motivo apresentado por aqueles que desejariam uma reforma a respeito da língua litúrgica, é que o uso exclusivo dessa língua, do latim principalmente, não permite ao povo compreender as fórmulas que se lhe faz cantar, ou as orações às quais se lhe pede que se una. Seria, pois, privar os fiéis de luz, de consolação e de piedade, sendo a oração da Igreja a magnífica expressão de sua fé, de sua confiança e de seu amor. A Igreja parece de fato admitir que possa haver aí um inconveniente: a frase com que começa o c. viii da sessão XXII do concílio de Trento é disso o reconhecimento implícito: «Embora a missa encerre uma grande fonte de instrução para o povo fiel...» O concílio tomou, aliás, medidas para diminuir esse inconveniente; mas, para ter passado adiante, deve evidentemente ter julgado que esse dano às almas não era tal que pudesse contrabalançar as graves razões que lhe aconselhavam manter a língua litúrgica.
1. O inconveniente assinalado seria de grande importância se a liturgia fosse feita principalmente para ser compreendida pelo povo. Não é nada disso. Ela é a oração da Igreja, oração dita ou cantada oficialmente em nome de todos por ministros cuja função é essa. Não se deve, pois, julgá-la como as orações privadas que cada fiel diz e que deve compreender para exprimir a Deus seus pensamentos ou seus sentimentos. Pode-se dizer, até certo ponto, que a liturgia é menos assunto dos fiéis do que dos sacerdotes. Ela é «um conjunto de fórmulas destinadas a acompanhar a celebração do santo sacrifício e a administração dos sacramentos, todas coisas que fazem parte do ministério próprio e incomunicável dos sacerdotes». Guéranger, Institutions liturgiques, t. iii, p. 71. Mas os fiéis, acrescentaremos, têm todo o interesse em unir-se a ela. Ser-lhes-á certamente agradável e útil compreender. Mas podem compreender graças às traduções que acompanham o texto nos livros de seu uso. Podem-no, graças às explicações que os pastores devem dar-lhes.
Tal é, com efeito, a medida tomada pelo concílio para atenuar, tanto quanto possível, o inconveniente que apresenta para o povo o uso exclusivo de uma língua que ele não compreende: «A fim de que as ovelhas de Cristo não padeçam de fome e que os pequeninos não peçam pão sem que haja ninguém para partir-lho, o santo concílio ordena aos pastores e a todos os que têm cura de almas que expliquem com frequência, durante a celebração da missa, por si ou por outros, alguma coisa das fórmulas que se leem na missa; e, entre outras coisas, que exponham alguns pormenores sobre o mistério desse santíssimo sacrifício, principalmente aos domingos e festas.» Sess. xxii, c. viii, Denzinger-Bannwart, n. 946.
Se, enfim, há, não obstante, nas orações litúrgicas coisas que eles não compreendem, é um inconveniente que não se suprimiria nem mesmo com traduções, e ao qual Deus pode prover à sua maneira soberana, como faz notar dom Guéranger, op. cit., p. 77-78: «Esses simples nem sempre compreenderiam mesmo as fórmulas santas, ainda que fossem proferidas em língua vulgar a seus ouvidos. O homem absorvido nas necessidades da vida material não tem comumente as ideias à altura de uma linguagem sublime; basta a Deus que seu coração seja piedoso e que aspire a possuir pela virtude o bem que não compreende, mas cuja atração a graça divina lhe inspira. Para esses, a liturgia, em qualquer língua que se exprima, é sempre luminosa, e o Amém que lhes escapa do peito está sempre em pleno acordo com os votos que o sacerdote faz ouvir no altar. Os cruzados de Godofredo de Bulhão, os camponeses da Vendeia que se levantaram pela liberdade de sua fé... nunca ouviram celebrar o serviço divino em sua língua materna; seu amor pelos mistérios a que sacrificaram tudo o que tinham de mais caro no mundo foi por isso menos puro e menos ardente? Quer-se conhecer a fonte desse amor mais forte que a morte?... É que a virtude de Deus desce, pela virtude das palavras santas, aos corações que encontra abertos.» Esses toques divinos da graça, à parte a inteligência das palavras que humanamente seria necessária, são longamente expostos na censura pronunciada contra Erasmo pela Faculdade de Paris. Encontrar-se-á a tradução dela em dom Guéranger, p. 123 e 124.
2. Reduzida assim a objeção a suas verdadeiras proporções, é-nos lícito assinalar os motivos pelos quais a Igreja preza sua língua litúrgica.
A priori, podemos adivinhar que ela as considera gravíssimas, a julgar pela dificuldade com que concede derrogações à sua regra geral. E, contudo, nenhum documento oficial as indica. No concílio de Trento, afirma sua vontade, nada mais. Cumpre-nos, pois, tentar suprir seu silêncio.
Uma primeira razão se impõe ao espírito: é a fidelidade com que a Igreja guarda suas tradições. Não gosta das mudanças e só as aceita quando lhe são impostas pelas circunstâncias; no ponto especial que nos ocupa, acha que é belo e grande que rezemos como rezaram nossos pais, com as mesmas fórmulas, os mesmos ritos, a mesma língua. É o argumento que fazia valer no concílio de Trento, nas reuniões de teólogos que prepararam a XXII sessão, Francisco de Sanctis: havia mais de mil anos, dizia ele, desde a época em que o Evangelho penetrou na Gália e na Germânia, é o latim a língua litúrgica. Theiner, p. 70. E aqui não se trata de rotina, nem do simples amor das coisas antigas. É uma magnífica afirmação de que nossas crenças são as da antiguidade: rezamos, pois, como nossos pais rezaram; é que cremos como eles, já que, segundo a bela fórmula do papa São Celestino, legem credendi lex statuit supplicandi (Epist., xxi, 11, P. L., t. l, col. 535); administramos os sacramentos como se fez desde que a liturgia está fixada; é, pois, que estamos convencidos, como nossos antepassados, de sua eficácia; repetimos depois deles as veneráveis fórmulas do cânon; é, pois, que, como eles, cremos na presença real de Cristo, em sua imolação mística, no valor redentor de seu sangue derramado no santo sacrifício. Nada atesta mais nitidamente aos olhos do povo a fixidez da fé da Igreja do que essa imutabilidade das fórmulas e da língua litúrgica.
Sobre esse ponto, aliás, uma mudança de disciplina correria o risco de ter consequências de extrema complexidade. Os textos tradicionais não são somente muito veneráveis por sua antiguidade, são de uma incomparável plenitude de sentido para quem sabe compreendê-los e saboreá-los. Mas têm o grande defeito de não se dobrarem às exigências variáveis da piedade popular. No dia em que, sob pretexto de pô-los ao alcance do povo, fossem ditos em língua vulgar, apareceriam aos fiéis áridos, austeros, pouco em harmonia com a sentimentalidade que os impressiona, démodés, envelhecidos, inferiores a esta ou àquela oração privada: divina mysteria minori reverentia colerentur, dizia o projeto apresentado aos Padres do concílio. Theiner, p. 75. E, para se pôr ao alcance do povo, a Igreja, tendo modificado sua língua, deveria modificar seu texto, rompendo assim com sua tradição, começando uma série de variações que não mais se deteriam.
Com o cuidado da tradição, o cuidado da unidade parece uma das razões que impõem à Igreja a manutenção do latim. Pois é do latim sobretudo que se trata, estando as outras línguas litúrgicas limitadas a um número relativamente restrito de fiéis. Ora, é feito do mesmo modo, por todo o mundo, para a oração, as mesmas fórmulas para exprimi-la, sicut Ecclesia Dei toto orbe terrarum diffusa et in omnibus gentibus dilatata cantat, dizia já João VIII a São Metódio, Epist., ccxxxix, P. L., t. cxxvi, col. 850. Símbolo impressionante da unidade de fé que regula as inteligências; símbolo e de certa maneira sustento, pois a oração é, a seu modo, um ensinamento. Símbolo também da unidade social que faz da Igreja inteira um corpo único tendo sua cabeça em Roma; símbolo e talvez, de maneira misteriosa, sustento, se é verdade, como expõe longamente dom Guéranger, loc. cit., que o abandono da língua litúrgica resultou, por uma lei desconhecida, para a maior parte das Igrejas que haviam obtido a concessão dele, na separação mais completa de Roma, no cisma.
O douto autor, que se fez o apóstolo da liturgia romana em suas Institutions liturgiques, desenvolve longamente esses argumentos e vários outros de menor importância em favor da língua litúrgica, t. iii, p. 51 a 160. Os que assinalamos bastam para justificar a Igreja e para mostrar que ela não está prestes a deixar de lado sua língua tradicional: graves demais são os interesses nela envolvidos.
GODEFROY.
Autor original: L. Godefroy
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